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Luiz Parreiras

Luiz Parreiras atua em teatro no ABC. Imagem do Depoente
Nome:Luiz Parreiras
Nascimento:11/07/1941
Gênero:Masculino
Profissão:representante comercial / ator / produtor teatral
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Niterói (RJ)

TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE LUIZ PARREIRAS EM 06/07/2005

Depoimento de LUIZ PARREIRAS, 63 anos.

IMES – Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 06 de julho de 2005.

Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Tiago Magnani.

 

 

Pergunta: 

Por favor comece pela data e local de seu nascimento e um pouco sobre a sua infância.

 

Resposta:

Nasci no dia 11 de julho de 1941, em Niterói, Estado do Rio de Janeiro.

 

Pergunta: 

Como era sua família? O senhor passou sua infância em Niterói?

 

Resposta: 

Passei. Era uma infância comum, numa cidade de litoral, cidade de praia, então tinha futebol na praia, havia esportes no colégio. Não tinha nada de especial.

 

Pergunta: 

Era especial porque era no Rio de Janeiro?

 

Resposta: 

Era legal. Meus pais tinham vindo de Minas Gerais. Minha mãe tinha nascido na colônia austríaca e meu pai é de Belo Horizonte. Eles tinham um temor de água, de praia, e obrigavam os filhos a fazer natação e a gente virou para o esporte, o que é bom, porque além do esporte que a gente foi fazer a sério, nadando, competindo no campeonato carioca, também ficava muito seguro na praia, também fazia travessia, ia pescar em penhascos. 

 

Pergunta: 

Qual a ocupação dos seus pais?

 

Resposta: 

Meu pai era advogado, funcionário IAPC, depois INPS. Nessa época ele foi presidente da agência de unificação da Previdência Social, como se fosse o Ministro da Previdência hoje. A família era bem estruturada. Minha mãe sempre foi secretária dele e depois acabou, como ela também evoluiu muito dentro do instituto, foi chefe disso e daquilo, não sei os nomes dos departamentos. Éramos cinco irmãos, com intervalo de dois anos certinho de um para o outro, menos o último, que nasceu um pouco depois, e todos tinham a vida um pouco parecida.

 

Pergunta: 

Dos cinco, qual o seu número?

 

Resposta: 

Sou o primeiro.

 

Pergunta: 

Fale um pouco do seu relacionamento com seus pais. Como era?

 

Resposta: 

Era tranqüilo.

 

Pergunta: 

Era rígido na formação?

 

Resposta: 

Era, mas meu pai era meu companheiro. Ele ia comigo à praia, a gente viajava muito. No domingo, naquela época não havia ainda a ponte Rio-Niterói, a gente fazia passeios para o outro lado da Baía de Guanabara. Eu me lembro que tinha um programa que a gente fazia quase todo domingo que era atravessar o carro pela balsa, ir para o Rio de Janeiro e pegar a estrada Rio-Petrópolis até uma cidade que não me lembro o nome, para comer um frango assado na beira da estrada e depois passeava pelos locais e voltava no fim da tarde. Meu pai levava a gente ao futebol, essas coisas todas, minha mãe acompanhava. Não tinha nada por iniciativa dela. Ela era mais recatada, filha de austríacos. Praticamente uma austríaca, porque nasceu lá e veio muito nova para cá. Ela tinha uma educação muito católica e quase erudita. Ela tinha um conjunto de música clássica com as irmãs dela, e tocava piano, uma irmã tocava violino e outra irmã tocava harpa. 

 

Pergunta: 

Qual a ascendência do seu pai?

 

Resposta: 

Meu pai é brasileiro de muitas gerações.

 

Pergunta: 

Sempre do Rio de Janeiro, a família dele?

 

Resposta: 

Não. Eles eram de Minas, mas eles casaram em Niterói.

 

Pergunta: 

O senhor morou no Rio de Janeiro até quando?

 

Resposta: 

Até os 22 anos. Nessa época comecei a fazer teatro e a gente viajava muito. Teve uma ocasião, com uma produção itinerante, nós fomos fazer um espetáculo no Rio Grande do Sul, era para fazer uma semana e acabamos fazendo um mês em Porto Alegre e na volta eu acabei em São Paulo. Aí teve uma crise no elenco e fui convidado para fazer uma novela na TV Tupi, no tempo em que a televisão ainda era movida à lenha, não tinha videotape, e a campanha da peça estava para acabar e fizeram um contato com a TV Tupi para deixar uma parte do elenco na novela. Acabou a peça, quem não estava na novela foi embora e quem ficava na Tupi ia à gravação, que era duas vezes por semana, segunda e terça e depois, quando acabou a novela, eu já estava fazendo teatro em São Paulo. Fui fazer uma peça, substituindo os atores e só fui embora depois.

 

Pergunta: 

Vamos voltar ao Rio de Janeiro. Fale um pouco do seu contato com a escola.

 

Resposta: 

Eu fiz um primário bem legal, numa escola chamada Externato Aragão, de uma família francesa. A formação cultural do Rio de Janeiro era quase francesa e depois que foi mudando mais. Tinha muita gente trabalhando com educação, escolas regulares, escolas de música, escolas de arte e todos eles seguiam o modelo francês. E como foi muito bom, fui para a escola pública no ginásio, porque era ao contrário antigamente, a escola pública que era difícil de entrar, você tinha aquele exame de admissão, que era como um vestibular, para entrar na primeira série do ginásio, e lá em Niterói existia um colégio do Estado, administrado separado do Rio de Janeiro, que era a capital ainda, no Colégio Pedro II, que era equivalente em Niterói, embora um fosse federal e outro fosse estadual, era equivalente ao extremo. Era o mesmo corpo docente. Os mesmos professores que davam aula de manhã no Pedro II davam aula à tarde no Liceu. A travessia de balsa era vinte minutos, agora são cinco. O uniforme parecia uma farda do exército ou da polícia militar, bege, com os punhos azuis e botões dourados, camisa e gravata preta. Aí meu pai queria que eu fizesse uma coisa que ele não fez, que ele fez só o primeiro ano e depois desistiu, que era a escola de engenharia em Ouro Preto. Mas não queria fazer vestibular, porque estava no primeiro ano do científico. Ele disse que tinha uma outra escola em que eu poderia concluir o colégio, que era a Escola de Mineralogia. Meu pai morou em república em Ouro Preto, estudou lá, mas ele gostava de futebol e como lá tem muita ladeira, não dava para jogar futebol e ele resolveu vir para o Rio de Janeiro. Ele já tinha jogado futebol no América, um time de Belo Horizonte, foi procurar abrigo nos times do Rio, foi jogar futebol no Flamengo e foi estudar direito. E quando fui nessa Escola de Mineralogia, eu olhei o prospecto das matérias e vi que não queria. Eu topo ficar em Belo Horizonte, na casa dos meus avós, mas não nessa escola. E como eu vinha de um colégio estadual, muito rigoroso, desde o primeiro ano, ele conseguiu que eu entrasse no colégio estadual de Minas Gerais. Eu fui para esse colégio e depois eu voltei. Lá em Belo Horizonte continuei a fazer esportes, porque o colégio era no Bairro Santo Antônio, bem ao lado do Minas Tênis Clube, que é um clube poderoso no esporte e eu ia lá e quando vou à piscina vejo um treinador da equipe que tinha sido meu treinador quando eu tinha uns 8 anos de idade, quando disputava os campeonatos cariocas. Aí foi aquela festa. Eu não estava nadando mais, mas fiz aquelas besteiras de quem não se manca. Ele me apresentou um nadador dele e falou assim: Esse é fulano, o campeonato mineiro vem aí e esse é melhor nadador, que fazia um tempo muito bom. Eu caí na piscina e fiz um tempo melhor que o dele e fiquei no lugar dele. Como eu não nadava há muito tempo, eu não precisei fazer aquele ano de transição, para esperar a transferência. Como eu não tinha participado em nenhum campeonato no ano anterior, eu entrei diretamente e comecei a treinar. Naquele mesmo ano eu fui nadar todas as provas de nado livre, de 100, 200, 400 e 1500 e mais três revezamentos e ganhei todas. Depois eu fui para o campeonato mineiro e dessas provas que eram minha especialidade, ganhei três e tirei segundo em cinco e no ano seguinte ganhei todas no mineiro também. Depois eu desisti porque também estava fazendo teatro.

 

Pergunta: 

Mesmo com todo esse envolvimento com o esporte, o senhor foi para o teatro?

 

Resposta: 

O teatro foi por acaso, porque a minha vida numa cidade de praia era igual à de todo mundo, jogar futebol na areia, fazer seu esporte, namorar e essas coisas. Só que esse colégio, o Liceu de Montesseir, que era cópia do Pedro II, era muito rígido, onde o pessoal estudava mesmo, e a gente fazia grupos de estudo. Eu tinha um grupo de estudo de matemática, com cinco pessoas, e a gente se reunia na casa de um deles para fazer os estudos. A única diferença que eu tinha de comum da população brasileira jovem era que eu tinha um gosto, eu pintava muito cedo e me interessava por livros de arte e gostava de ópera, desde meus 9 anos e já ia, nas temporadas de ópera, ao teatro. Eu queria ser cantor de ópera e vivia no Teatro Municipal. Eu ia assistir aos ensaios das companhias líricas que iam fazer temporadas lá, depois quando fui para Belo Horizonte tinha a Sociedade Floral de Minas Gerais, onde acabei cantando no coral de lá, cantei em outro coral de lá, no Coral da Reitoria da UFMG, que depois virou um coral internacional. Mas lá era isso e a única diferença era o negócio da ópera e o grupo de estudos. Esse grupo de estudos, que por acaso a gente fazia na casa de um colega meu, era em frente a um negócio que se chamava Juventude Musical Brasileira, Seção de Niterói. Eles tinham outras áreas de arte e eles fizeram um grupo de teatro amador. Eu nunca tinha assistido a teatro na minha vida, só ópera, e cinema. Mas, por ser vizinho, era uma cidade muito pequena e todo mundo se conhecia, esse colega que era dono dessa casa onde a gente se reunia para fazer estudos de matemática, ele foi convidado para participar de uma peça e ele gostou. O nome dele era Mauro Fumaça, não sei por quê. Então, o Fumaça falou que era um negócio interessante. Um dia eu fui e eles estavam lendo uma peça, A Sapateira Prodigiosa, e me perguntaram se não queria ler um papel, porque estava faltando gente. Eu fui ler e falavam para eu fazer, que com a minha voz eu não precisava aprender nada. Eu fiquei ensaiando, mas deu um problema, porque o diretor entrou em depressão, ele tinha uns problemas dele na vida e ele se suicidou. Aí acabou a minha carreira de teatro em Niterói. Quando fui para Belo Horizonte, eu tinha um professor de geografia que era diretor de teatro também e era técnico de basquetebol. Quando cheguei lá, ele viu que eu gostava de esporte e me convidou para participar. Um dia ele está conversando com os alunos da minha classe sobre teatro, falando e falando de uma montagem, e era A Sapateira Prodigiosa, aquela peça. Eu cheguei perto para ouvir e nesse grupo tinha várias pessoas que saíram de lá e foram ser expoentes em várias outras artes. Um era Olívio Tavares de Araújo, um dos maiores críticos de artes plásticas do Brasil. Outro era Marco Antônio, que foi ser diretor de cinema e crítico de cinema do Estadão. Outro é Rodrigo Santiago, um grande ator de teatro de São Paulo, que faleceu há muitos anos. Todos na mesma turma de 22 alunos. Eles estavam conversando sobre essa peça e eu falei uma coisa, sem saber muito bem, como na época da natação, eu comecei a falar como se soubesse de tudo, como se fosse a maior autoridade. Todos pararam e ficaram olhando. Eu não sabia nada, mas como estava na cabeça, eu sabia, eu falei, mas não sabia o que estava falando. Ele me perguntou se gostava de teatro, aí eu já falei diferente, que gostava. Ele falou que estava montando uma peça e que tinha um papel. Eu fui fazer um teste e fui lá ler O Auto da Compadecida. E fui indo a Belo Horizonte, nadando e comecei a assistir teatro lá. Às vezes a gente treinava todos os dias da semana, menos de segunda-feira, e lá se fazia duas coisas, ou o pessoal saía do treino e ia para a pista dançante, onde tinha um baile no salão social do clube ou ia assistir teatro infantil, porque lá não tem praia. Eu comecei a ir aos grupos e comecei a conhecer a turma. Depois do treino eu ia para o teatro a pé, porque era perto. Lá, quase todos os colégios têm teatros. Depois eu saí de Belo Horizonte, fui para Niterói servir no exército e fiquei por lá. O curso do Colégio Estadual eu acabei não terminando, porque eu saí. Eu ia para o Colégio Mundial, mas eu tive uma implicância com uma professora de primeiro ano, na páscoa, no começo do ano letivo, porque eu desenhava, e uma comissão me pediu para fazer uns cartazes com uns santinhos. Eu fiz aqueles santinhos, reproduzidos em cartolina de um metro, um monte, mas rapidamente, em menos de uma semana e eles espalharam pelo colégio. Uma professora de matemática me disse: Que pena, achei que o senhor ia dar um bom aluno, mas é um artista. Comigo artista não tem vez. A matemática não combina com isso. E tinha um padre que me fez uma prova Eu Adoro o Rio de Janeiro. Era para falar onde o português estava errado ou certo nessa frase e falei que a frase estava errada. Eu já estava com dois professores contra. Eu já estava enturmado em Belo Horizonte, um atleta conhecido, toda hora dando entrevista para jornal, comecei a fazer um círculo de amizade enorme, e meu avô morava num bairro muito pobre, do outro lado da cidade e essas pessoas que eu conhecia eram no melhor bairro da cidade, no Bairro Santo Antônio. Quem freqüentava lá eram só sócios do Minas Tênis Clube, que se não é o melhor clube do Brasil, é um deles. Então, ia ao teatro, saía com a intelectualidade de Belo Horizonte à noite, ia a reuniões. Esse professor meu de geografia, que não deu certo a peça, era membro da Academia Mineira de Letras e tinha um grupo que se chamava Os Pequenos Jograis de Minas, que eram quatro caras, três da minha sala e um tinha saído, o Rodrigo Santiago, o Marco Antônio e um rapaz que não me lembro o nome e outro que saiu. Ele queria retomar o grupo e me convidou para participar. Em qualquer palestra que ele ia dar, na Academia ou em qualquer colégio, festival de Ouro Preto, a gente ia. A minha vida começou a ir para esse lado. Lá em Belo Horizonte acontece um negócio até hoje, que é uma tradição, chamado Festival da Medicina. A Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais faz um festival de 24 horas, com orquestra sinfônica própria de alunos, com peças de teatro, balé, um monte de coisas. Não sei como funciona o esquema literário, mas tem essas coisas também. Na parte de teatro ele foi convidado para dirigir um espetáculo com os alunos de lá, mas não alunos de teatro porque não tinha a escola de teatro, mas alunos das faculdades. Ele não tinha o elenco todo e eram duas peças, uma chamada Uma Partida de Buraco, duas pecinhas de uma hora, e na outra faltava gente, Viagem de Turismo Encantada, e ele precisava de um garoto. Eu não era garoto, já tinha uns 17 anos, mas o resto do elenco era bem mais pesado e dava para se trabalhar bem e fazer um negócio decente. Tinha o pessoal da Faculdade de Medicina e ele chamou duas pessoas de fora, um da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e eu do Colégio Estadual. Aí que vi o que era teatro. E naquela já tenho uma crítica decente, em 1959. E esse crítico que fez essa crítica foi quem fez a produção do Cazuza na Universidade Gama Filho, que foi a peça Casos de Cazuza, um jornalista chamado Ezequiel Neves, muito conhecido no meio do rock. Ele fez uma crítica que guardo até hoje. Eu voltei para Niterói para acabar o ginásio, fui fazer vestibular e continuei fazendo esportes. Quando o pessoal soube que eu estava lá, me chamaram para ir para o Botafogo e depois eu fui para a seleção brasileira de pólo aquático. Eu fui estudar direito, meu pai era presidente da junta da previdência social e naquele tempo não tinha concurso, era capital da república e quem era amigo de um era amigo de outro, eu fui nomeado fiscal do IAPC, fiz um curso lá dentro. Eu fazia a faculdade de direito em Niterói de manhã, ia para o INSS, trabalhava na rua, na fiscalização, e ia uma vez por semana para entregar o material que tinha feito, e ia treinar pólo aquático no Botafogo, de cinco e meia da tarde até nove da noite, depois pegava a barca. Numa dessas travessias encontrei dois rapazes que trabalhavam naquela primeira montagem do suicida, A Sapateira Prodigiosa. Perguntei o que eles estavam fazendo, falaram que estavam trabalhando juntos numa peça, que se tinham tornado profissionais do teatro, os discípulos do suicida. Naquele dia não tinha o INSS e estava indo só para o treino, no final da tarde e eles iam ensaiar e depois iam jantar e eu ia para o Botafogo treinar. Mas eu tinha uma namorada que morava na Urca. Eu falei que ia treinar, ia à namorada e depois ia encontrar com eles. Eu fui me encontrar com eles em Copacabana, num restaurante no Posto 5, não me lembro o nome, era um nome italiano e quando cheguei lá encontrei aquela gente toda que eu cansava de ver na televisão. Eu comecei a ver teatro na televisão. No palco, só vi em Belo Horizonte. A primeira peça que vi de teatro eu já era ator profissional de teatro. Eu fui ao restaurante e encontrei Sérgio Brito, Ítalo Rossi, Fernando Torres, marido da Fernanda Montenegro, um monte de gente. Quando eu cheguei, eles já estavam lá e meus amigos me levaram para conhecer o Roberto de Cleto, que dirigia teatro infantil na televisão, chamado Teatrinho Trol, com um monte de atores conhecidos. Eles me apresentaram todo mundo. Quando começou o papo da peça que eles estavam fazendo, igual aconteceu em Belo Horizonte, que era aquela peça que eu ia todo dia ver depois do treino, que era O Rapto das Cebolinhas, da Maria Clara Machado, aí já comecei a deitar regra em cima da peça dos caras. Eles estavam ensaiando e eu começava a dar soluções para a peça. Eu não sabia nada, nunca tinha pegado o livro, mas eu gostava daquilo. Era como se eu falasse: Eu gosto que seja assim. O trabalho era deles, mas eu dava opiniões. Aí o Carlos me perguntou se eu não queria ser assistente dele, porque só nesse primeiro dia você já mudou a peça. Ele me contratou como assistente, já ganhando dinheiro. Aí comecei a trabalhar. E fez um sucesso danado a peça. Eu comecei a andar com essa turma à noite e a faculdade começou a ficar difícil de manhã, porque não dava para pegar uma faculdade às sete horas até o meio-dia, trabalhar no INSS, treinar pólo aquático, depois ensaio de teatro e mais a social da noite. Não dava e a faculdade foi ficando. Um dia eu saio com essa turma e vou assistir à estréia de uma peça no Teatro da Aliança Francesa, com a Fernanda Montenegro. Aí sobe escadas, a multidão, e esse diretor da peça estava conversando com o Fernando Torres, que não conseguia resolver. Eu não sabia do que eles estavam conversando e ele me apresentou como assistente. Ele ficou olhando para mim e me perguntou o que eu fazia. Eu falei que estudava direito, fazia pólo aquático no Botafogo, trabalho. Ele me perguntou seu eu fazia teatro, porque seu eu tiver talento para botar o que eu sou no palco, porque o mais difícil é você ser no palco o que você é fora, ele tinha um trabalho para mim. Era uma peça americana que foi feita pela Jane Fonda. A peça tinha Adriano Reis, Sueli Franco e outras pessoas. Ele me falou para voltar no outro dia. Ele fez isso comigo por sete dias e no sétimo dia ele me contratou. E estava acontecendo um negócio que eu não sabia. Tinha outro ator fazendo a mesma coisa e ele ensaiava em outro horário. Ele fazia o ensaio duas vezes porque ele achava que o cara não rendia. Mas eu também não tinha experiência nenhuma e ele estava achando que eu não rendia também. Mas só que com sete dias eu fui saltando. Quando ele achou que eu estava melhor, ele me contratou.

 

Pergunta: 

Você está no Rio de Janeiro, trabalhando como ator profissional. Quando você chega a São Paulo?

 

Resposta: 

Eu ainda fiz muita coisa no Rio.

 

Pergunta: 

Como foi a transição de sair do Rio de Janeiro para São Paulo?

 

Resposta: 

Quando fiz essa primeira peça, eu me tornei ator profissional e larguei a faculdade e depois larguei o pólo aquático, porque o teatro era às nove horas, o treino acabava oito e meia e eu não conseguia olhar para linha por causa do cloro, porque pólo aquático não tem óculos de proteção. Você saía com a vista queimada da água e, quando batia o refletor, era insuportável. Eu saí dessa peça e nunca mais parei. Antes de acabar essa peça já estava ensaiando outra, que fez um sucesso enorme. No Rio de Janeiro eu só fazia essas comedinhas, Domingo em Nova Iorque, Descalço no Parque e coisa e tal. Aí me chamaram para fazer uma peça de Jorge Andrade, A Moratória. Eu me dei bem de vez e comecei a estudar. Não entrei em nenhuma escola regular, mas eu comecei a estudar, a fazer cursos de cenário, figurino, tudo e larguei tudo na vida e fiquei entrando no teatro às sete da manhã e saindo às quatro da manhã do dia seguinte. Fui entrando por acaso e larguei o resto. Em São Paulo era assim, peças faziam temporadas no Rio de Janeiro, acabava e fazíamos excursões para o Norte e Nordeste ou para o Sul, ou vínhamos direto para São Paulo, para fazer só em São Paulo. Eu vim várias vezes para o Sul, mas para o Nordeste nunca fui. E numa dessas, eu parei aqui e fui fazer a novela na Tupi, mas depois eu voltei para o Rio de Janeiro.

 

Pergunta: 

E como foi sair do teatro e ir trabalhar na televisão?

 

Resposta: 

Isso é conseqüência. Eu nem gostava, resistia muito, mas fui fazer, primeiro porque não conhecia; depois eu voltei para o Rio e eu precisava de dinheiro. Quando eu larguei tudo eu precisava ganhar dinheiro em algum lugar. Onde saía mais cachê era na televisão. E lá tinha, não era novela, mas tinha muito teleteatro na Tupi, tinha o Teatro do Sete, na TV Rio e mais um monte de programas. O primeiro papel que fiz na televisão não foi nessa novela da Tupi, mas fiz uma pontinha, em que entrava mudo e saía calado, mas dei um soco na barriga do Carlos Alberto, que morreu na hora na cena. O Carlos Alberto era casado com a Ioná Magalhães. Mas eu ficava indo e vindo e fazendo um pouquinho lá. Aí fui trabalhar no Teatro do Sete, na televisão e não no teatro, na Tupi de lá e fiz essa novela e voltei para lá e depois vim para fazer outra peça e depois, quando a minha peça já estava acabando, veio outra peça do Rio de Janeiro, do Teatro Opinião, a minha estava acabando, eu já sabia, já tinha visto a peça no Rio de Janeiro, já fui falar para o cara que queria fazer um papel do Hugo Carvana, que fazia sete papéis na peça. Eu sabia que ele não vinha e falei que queria fazer. Eu já estava em São Paulo, sempre morando na casa da minha tia. Aí fui conhecendo as pessoas e fui ficando. Fiz outras novelas na Tupi. Comecei a trabalhar muito com Geraldo Viana, fiz uma novela com ele e ele me chamou mais umas três vezes, tanto que a última, poucos anos atrás, foi antes de ele morrer. Nesse negócio de fazer uma peça atrás da outra, tinha de ir atrás, para sobreviver, porque não tinha mais emprego, não tinha mais nada, era só o teatro, depois eu comecei a trabalhar em comerciais também. Entrei nessa área e comecei a ficar bem. E entrava em tudo quanto era peça, fazia substituições sem problemas. Era só uma semana de espetáculo, mas estava fazendo. Aí entrei numa montagem do GTC, mas eu vinha e voltava.

 

Pergunta: 

Vinha e voltava, era Rio-São Paulo?

 

Resposta: 

Rio-São Paulo. Aí teve uma época em que eu fiquei sócio desse Teatro Jovem que estava te falando antes. Esse teatro faliu. Ele fez uma primeira montagem, A Moratória e outras, que foram bem, depois veio Álbum de Família, que foi mais ou menos bem, mas a gente foi montar uma peça do Plínio Marcos, bem na época da ditadura. A gente fazia às nove horas da manhã, três horas da tarde, duas da madrugada, mas um dia nós chegamos lá e tinha uma tropa de fuzileiros navais, que era o exército profissional da marinha, de artilharia mesmo. Eles nos cercaram com metralhadoras, aquelas com o cano furadinho, e o teatro teve de ficar fechado um tempão. A gente só estava envolvido com esse teatro e a gente ficou ruim. Como era uma peça de Plínio Marcos, ele foi lá para o Rio para salvar a gente, porque ele gostava da gente porque a gente já tinha feito coisas dele antes e ele tinha gostado. Acontece que num período grande ele começou a fazer sucesso e montavam muitas coisas dele lá, como Navalha na Carne, que foi o melhor trabalho da Tônia Carrero, onde ela foi muito consistente como atriz, que era uma peça do Fauzi Arap. E o Fauzi Arap e o Nelson Xavier fizeram Dois Perdidos Numa Noite Suja e todas foram sucessos. O Plínio foi salvar a gente porque ele e um amigo dele faziam as mesmas peças. Um dia ele me falou para ir para São Paulo para fazer televisão, que era amigo de todo mundo lá. Ele estava com um amigo dele, o Ademir, que era um galã de sucesso na Tupi, e nós viemos do Rio de Janeiro até São Paulo num fusquinha do Ademir. Saímos de lá à meia-noite e chegamos aqui de manhã. Ele me levou à Tupi, me apresentou à diretora de teledramaturgia e ela falou que já me conhecia, porque eu tinha feito uma novela um tempo atrás. No outro dia já estava trabalhando na Tupi. Eu fui fazer uma novela de um autor que era de Niterói, o Sílvio Ampaezzo, que era casado com uma jornalista. Eu pintava, fazia umas coisinhas e quando vim para o GTC comecei a pintar mais, pintar uns quadros sobre a estrada de ferro.

 

Pergunta: 

Como o senhor conheceu a Analy?

 

Resposta: 

Numa dessas peças que eu fazia, eu fui fazer uma substituição numa peça do Flávio Rangel e eles iam viajar e tinha um dos atores que não podia viajar. E a Analy fazia essa peça. Ela também tinha entrando no lugar de alguém de elenco e foi substituindo aos poucos para não desentrosar. Aí tinha outro ator para sair e o Flávio Rangel falou que era para passar para mim. Juntaram o papel com o que eu já estava fazendo e virou um papel só. Acabou a peça e foi cada um para um lado. Eu não sei o que eu estava fazendo, estava tentando outras coisas. Sei que nessa época o GTC estava montando uma peça para o aniversário de Santo André, que era Cidade Assassinada, que era sobre João Ramalho, para inaugurar o teatro de Santa Terezinha, o Teatro Conchita de Moraes, e a Analy estava no elenco e eles não sabiam quem ia fazer o papel do Padre Paiva, que era do Guedes, o marido da Sônia Guedes. A Analy falou que tinha conhecido um cara do Rio em outra peça e que eu era legal e falou para o Petrin me chamar. Eu fui lá e li para eles, eles acharam legal e comecei a ensaiar. Nessa eu entrei numa outra porque eles eram um grupo, onde todo mundo discutia as coisas, o negócio do cenário e já estavam desenhadas as roupas, já estava tudo indo bem e eu tenho uma mania, eu estou conversando e fazendo rabiscos e uma hora eu estou lá rabiscando e viram meus desenhos. Falaram que parecia o cenário da peça. Mas isso não dá para fazer porque eram três ambientes, tem umas coisas mecânicas. Falaram para fazer um desenho artístico sem pressa, porque esse negócio de mecânica era interessante. Eu fui para casa e no outro dia voltei com tudo desenhado, tudo colorido, com os três ambientes, a floresta, a casa de João Ramalho e o colégio dos jesuítas. Aí deu certo e fiquei como cenógrafo do GTC e ator do time, não era fundador e fiquei como fundador.

 

Pergunta: 

Qual era a primeira peça?

 

Resposta: 

Cidade Assassinada que é uma peça do Antonio Calado, sobre a fundação de Santo André.

 

Pergunta: 

E aí continuou?

 

Resposta: 

Eu continuei. O Petrin ia sair para fazer outra coisa, o grupo ia ficar parado, aí o teatro que nós tínhamos inaugurado já tinha uma programação da Prefeitura, e todo mundo falava que não tinha teatro, não tinha teatro, mas falaram que a gente podia fazer no SCASA, que ia ser demolindo. Mas não tinha peça. Nessa época eu já tinha, a minha biblioteca de teatro já era enorme, já tinha estudado tudo e não podia falar que não sabia. Ali eu já sabia. Eu fui procurar uma peça e achei O Barbeiro de Sevilha. Tinha exatamente as mesmas pessoas do GTC, menos o Petrin, que era o que inquiria. O Petrin e a Sônia Guedes iam fazer outra coisa separada. E não tinha a menina para fazer a Rosina. Mas eu não tinha sido diretor ainda, mas não tinha diretor, e ninguém que fazia curso na EAD queria ser diretor, somente ator, então lembramos de um menino que falava em direção, o Dionísio Lavage. Foram falar com ele enquanto eu ficava desenhando as roupas. Eu não conhecia ninguém que quisesse ser atriz. Já tinham passado pelo GTC a Sônia Braga e eu não lembrava da Sílvia Borges, porque eu vi o Jorge Dam Dam. Falavam que tinha uma menina que já tinha trabalhado com a gente num espetáculo do Abujamra, em São Paulo, no Teatro Santo Amaro. Chegamos lá e vimos uma menina fantástica, mas que era muito pequena para fazer par comigo, porque eu ia fazer o Conde. Apresentaram-me a ela, e nós ficamos muito amigos, nós apresentamos a peça no Teatro SCASA, que era um cinema onde eles derrubaram a parte de baixo e ainda tinha o balcão e a gente pegou para fazer um mês. Do balcão a gente continuou uma plataforma de madeira suspensa e lá a gente fez um palco e lá eu fiz um cenário que mexia tudo. O primeiro ato era numa rua, com uma serenata, apagava a luz e quando acendia tinha virado tudo e era o interior de uma casa. Os caras ficavam bestas. Só que o teatro ia ser derrubado e acabou. A partir dessa época o GTC passou, todo espetáculo que era feito aqui, a gente fazia uma semana em São Paulo. A gente foi fazer uma semana no Auditório Itália. O pessoal dizia que era a melhor coisa que tinha acontecido em São Paulo naquele ano. Depois a gente fez A Guerra do Caça Cavalo, que inaugurou o teatro, e não tinha teatro em São Paulo para caber aquele cenário que a gente fez lá. Nem no Teatro Municipal não tinha tamanho, porque a gente usou os três palcos. Era gigantesco, como uma coisa de Broadway e não dava para fazer. Aí o grupo ficou no Teatro Municipal de Santo André. A cada semestre montávamos um espetáculo, ficava lotado, e fazíamos teatro infantil.

 

Pergunta: 

Qual era o público do GTC?

 

Resposta: 

O público do GTC era operariado e estudantes. Tinha uma venda dirigida, com uma pessoa encarregada disso e estava sempre lotado, fora os espetáculos que a gente doava para alguns movimentos sociais. Naquela época tinha o Mobral e a gente sempre doava duas, quatro, seis sessões por espetáculo para o Mobral ou outra coisa. Daí para frente foi sempre assim. A peça cabia em São Paulo, fazíamos o primeiro semestre aqui e em junho ou julho fazíamos em São Paulo. Depois a programação foi aumentando e um cara falou que foram um acontecimento que salvou a temporada daquele ano em São Paulo as coisas que eram feitas em Santo André.

 

Pergunta: 

Qual era o apoio da Prefeitura?

 

Resposta: 

Era apoio financeiro. Verba para a produção.

 

Pergunta: 

Vocês ganhavam cachê?

 

Resposta: 

Não. A gente não ganhava nada de dinheiro da Prefeitura e a gente tinha de correr atrás. Tinha a venda dirigida, em que atores do espetáculo saíam para vender.

 

Pergunta: 

Era só a bilheteria? E dava?

 

Resposta: 

Só a bilheteria. Dava. O teatro infantil em que fiz por mais de um ano foi uma época em que eu mais ganhei dinheiro com o teatro. Teve dias em que a gente fazia cinco espetáculos em um dia, em duas cidades diferentes, São Bernardo e São Caetano. Uma vez nós fizemos três seguidas da mesma peça no teatro de São Bernardo, de tanta gente que tinha.

 

Pergunta: 

Como você pode definir, dos espetáculos dos quais você participou, a estética do GTC? Tinha diferença na proposta?

 

Resposta: 

Estava acontecendo um negócio que eu achava interessante. Eu não estava no Jorge Dam Dam, mas abriram, logo de cara, com Molière. Eu fui fazer um espetáculo para comemorar o aniversário de Santo André, mas, por acaso, era aniversário de Santo André, mas era um texto do Antônio Calado, a primeira linha das letras brasileiras. Logo depois, porque eu achei que devia fazer, fizemos Humor Marchier, outro clássico francês, seguindo O Barbeiro de Sevilha. Depois, para inaugurar o teatro, houve uma votação no grupo e se escolheu A Guerra do Caça Cavalo. A peça talvez fosse do suicida, mas o escritor não, um dos mais importantes do Brasil. Aí eu comecei a ver que a gente estava no caminho certo porque estava dando um panorama que tinha um teatro universal para esse povo do ABC ser formado. Estava sendo formada uma platéia de teatro numa região. Todo mundo pensava que quem ia ao teatro era gente de São Caetano, São Bernardo e Santo André. Ia chegar nesse ponto. Não era paulista. Paulista ia de vez em quando, antes de comer a pizza. Não que lá tenha um bom teatro, mas o povo de São Bernardo, São Caetano e Santo André era o povo que fazia teatro. E outra coisa. De a gente dar esse panorama, eu estava esperando que se fizesse um autor moderno americano, Terence Williams, ou Arthur Miller, ou O’Neil, ou uma tragédia grega, para ir fechando esse panorama, porque o resto viria naturalmente, porque o grupo, de tanto trabalhar junto, já tinha uma resposta muito rápida do elenco, já sentia uma coisa, porque foram vários diretores, com estilos diferentes, Celso Nunes, Emílio Di Biasi, um monte de gente, porque os diretores começaram a vir de fora, os grandes diretores de teatro, mas o grupo era sempre o mesmo. Então, quando a gente ia começar um trabalho, a resposta era sempre muito rápida e muito criativa, porque quando um dava uma coisa, o outro criava mais em cima daquilo e o outro voltava. Parecia uma luta. Um atacava, o outro defendia e atacava depois. Era um negócio bonito e fácil. Achei que o próximo passo, não que a gente ia dar esse passo sabendo, porque esse panorama de teatro ninguém estava sabendo, ninguém estava procurando essa interação, ter essa resposta tão rápido para saber que estava acontecendo isso. Eu pensei que a gente ia ter uma linguagem tão diferente, tão expressiva, como tiveram outros grupos de teatro no Brasil, que foi o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena e o Teatro Oficina. O caminho do GTC era esse. Mas depois eu tive de sair. Eu estava casado nessa época, minha mulher ficou grávida e eu fiquei apavorado. Eu não conhecia ninguém em São Paulo que fosse médico, não morava em Santo André, morava em São Paulo, então pensei em voltar a Niterói, porque lá eu era amigo do rei.

 

Pergunta: 

Aí você saiu do GTC?

 

Resposta: 

Fui embora do GTC em 1971, e fiquei em Niterói. Fui morar na casa do meu pai e como eu pintava muito, porque aqui na região comecei a pintar muito e vender muitos quadros também, quando o grupo ficava na estrada, eu desenhava muitas coisas, fazia anotações de sinaleiras, de dormentes de trilho, de rodas, estações e comecei a desenvolver esse negócio e viram, pintou um salão de arte contemporânea em São Caetano, aqui na Fundação das Artes e eu coloquei um quadro lá e o Zé Armando falou que todo mundo que foi premiado tinha três quadros e eu só tinha um. Aí virei um pintor profissional e quando minha filha foi nascer eu montei um atelier lá e vendia. Aí comecei a participar do Salão Nacional de Arte Moderna no Museu de Arte Moderna, Salão de Verão, Salão da Shell, e depois eu voltei para cá, mas não voltei para o GTC.

 

Resposta: 

Quando você voltou para cá?

 

Resposta: 

Não lembro o ano, mas quando eu fui para lá e fiquei acompanhando as coisas do GTC, já não gostei do que o GTC estava fazendo. Em vez de procurarem aquele caminho que, primeiro me pareceu que seria por acaso, mas que era legal, o do panorama, da linguagem do grupo que estava pintando, dessa agilidade que tinham e que ia levar por um caminho bem bom, da estabilidade própria, aquele negócio, como têm os teatros do mundo inteiro, o GTC começou a trazer pronto o espetáculo de São Paulo. O GTC era para fazer o espetáculo, montar o original e mostrar para os outros e não pegar um já mostrado e fazer. Esse caminho eu acho inverso demais. Teve uma peça que deu um resultado bom de crítica, mas eu não sei por que fizeram, era um autor que gostaria de fazer, alguém do grupo queria fazer Aleijadinho e pediram para um cara fazer uma peça. Aí trouxeram O Evangelho Segundo Zebedeu, com o mesmo diretor, o mesmo cenário, o mesmo figurino. Aí começou esse negócio e vi que não ia dar certo. O teatro se mantém pelo exercício ou pela linguagem. Não é só pelo cara que quer ganhar dinheiro, quer aparecer. Se ele faz um exercício com o seu grupo, o exercício daquele grupo, eles estão sempre fazendo exercícios porque estão ali dentro, ou se tem uma linguagem. É isso. Quando vem essas coisas sem muito motivo, ou estão fazendo alguma coisa por experiência, que não sei o tipo porque aí eu não estava mais presente, eu não acreditava nisso. Depois ele nunca mais foi o mesmo.

 

Pergunta: 

O GTC era um grupo de poucos atores, poucas pessoas da região?

 

Resposta: 

Não. O GTC tinha um grupo de fundadores, mas todo mundo dava opinião, tanto que eu fui dar a minha opinião e fui fazendo cenários, figurinos, escolhendo peças. Assim era todo mundo. Tinha gente que não dava opinião. Tanto que para inaugurar o teatro de Santo André, eu tinha uma opinião e o Zé Armando tinha outra e venceu a dele. Todo mundo participava.

 

Pergunta: 

Você acha que a dissolução do grupo se deva a quê?

 

Resposta: 

Esse negócio da linguagem, de perder o rumo. O grupo perdeu o rumo. E como o grupo tinha sido muito importante, todo mundo queria saber quem era essa gente que fazia esse teatro do GTC, as pessoas foram saindo. Sílvia Borges ficou muito famosa e foi fazer outras coisas, O Petrin foi fazer, a Sônia Guedes foi fazer. Eu não saí por causa disso, mas por um problema particular. Eu fui ter minha filha em Niterói. Depois, quando eu voltei, o GTC já não era mais o que era.

 

Pergunta: 

A gente está acabando. A gente pede para a pessoa deixar uma mensagem para as pessoas que vão ver esta fita sobre a sua vivência no teatro.

 

Resposta: 

Eu não sei dar mensagens. Eu acho que a minha vivência no teatro foi uma coisa mais espetacular que eu fiz, porque depois eu conheci outro grupo, tão bom quanto, mas esse era, não foi unido por essas coisas que eu falei, mas foi unido porque tinha o espaço físico, um teatro próprio e muito dinheiro. Mas não era dinheiro porque você ganhava dinheiro, mas porque você tinha as condições de fazer as produções como qualquer pessoa gostaria, qualquer diretor, qualquer artista que estava envolvido, o que sonhasse seria realizado, que foi o Teatro Popular do Sesi. Eu fiquei lá por 12 anos seguidos, sem férias, sem nada. Eu tive uma vida no teatro de muita sorte. Eu fiz teatro durante 40 anos, praticamente sem parar um dia, sem ficar desempregado um dia. Parava na véspera de Natal e voltava no dia 2 de janeiro, às  vezes no carnaval, ou fazia alguns espetáculos ao mesmo tempo, mas geralmente, quando estava acabando um já estava ensaiando outro. Eu acho que eu comecei por acaso, mas depois eu fui perseverante. Eu me enfiava em tudo, ia atrás de tudo. Eu fui procurar gente para me ensinar, para fazer cursos. Aí eu fiz curso de dança, curso de canto, curso de história da arte. Fui estudar com Eugênio Kusnet, com outras pessoas que ministravam cursos em teatros. Procurava tudo e não deixava barato. Parece que todo mundo começa a fazer teatro porque acha que é gostoso brincar de teatro. Não é. Eu acho que é uma das profissões mais extenuantes e a que você mais tem de se dedicar, porque você sofre fisicamente. É cansativo e você tem de segurar. Eu tive muita sorte. E quando você vai entrando, é uma pirâmide, vai começando a faltar espaço, porque tem uma coisa, os autores geralmente não têm idade. Os autores brilhantes são praticamente todos jovens e eles escrevem sobre o que eles já viveram. Eles não podem escrever sobre o que não viveram porque não são adivinhos. É o que está acontecendo na teledramaturgia brasileira, o nível vai sumindo. Eu percebi que a coisa ia acontecer para mim, ia chegar numa idade em que ia rarear papel e fui fazer outras coisas.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul