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Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)

Adldemir Leonardo Teixeira atende pelo codinome de MIro. Foi guitarrista da banda Libertação Radical de 1984 a 1992. Integrou a banda Passeatas de 1979 a 1983, estando sob a liderança de Pádua, conhecido entre os membros do grupo como "Gancho". Para Miro o movimento punk iniciou-se em São Caetano do Sul no Bar Sberoc. Considera-se punk desde o início do movimento na região do ABC. Imagem do Depoente
Nome:Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)
Nascimento:06/11/1963
Gênero:Masculino
Profissão:Sociólogo
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Diadema (SP)

Arquivos de Imagem

Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I001

Panfleto de divulgação do show '20 anos do movimento punk'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I002

Panfleto de divulgação do show '20 anos do movimento punk'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I003

Panfleto de divulgação do show '20 anos do movimento punk'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I004

Apresentação da banda 'Libertação Radical' em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I005

Banda 'Libertação Radical' no Teatro Cacilda Becker em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I006

Integrantes da gangue 'Anjos' de SBC, passeando na Baixada Santista
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I008

Uma das formações da banda 'Disritmia'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I012

Apresentação da banda 'Libertação Radical' em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I013

Apresentação da banda 'Libertação Radical' em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I014

Apresentação da banda 'Libertação Radical' em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I015

Da esq. para a dir. Laércio Garutti, José Fernando Rebello, Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I016

Da esq. para a dir. José Fernando Rebello,Laércio Garutti e Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I017

Apresentação da banda 'Libertação Radical' no Teatro Cacilda Becker em SBC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I018

Show da banda 'Passeatas' num festival na PUC/Paranaguá-SP
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I021

Laércio Garutti
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I023

Banda 'Passeatas' no palco do SESC Pompéia em São Paulo
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I024

Panfleto de divulgação do show 'Rock pela Billings'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I025

Panfleto de divulgação do show 'Rock pela Billings'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I026

Panfleto de divulgação do show 'Rock pela Billings'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I027

Foto de parte da gangue 'Anjos de SBC' no festival 'O começo do fim do mundo' no SESC Pompéia
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I028

Colagens apresentam ações policiais contra punks e atividade cultural realizada em Sto. André
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I029

Recorte extraído do jornal Diário do Grande ABC
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I030

Tablóide chamado Rocker jornal de 1987, n°19(edição)
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I031

Tablóide chamado Rocker jornal de 1987, n°19(edição)
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I032

Tablóide chamado Rocker jornal de 1987, n°19(edição)
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I033

Revista 'ALIÁS', de Sto. André
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I034

Filipeta de divulgação de show no teatro Cacilda Becker em SBC.
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I035

Divulgação do show da banda 'Libertação Radical'
Aldemir Leonardo Teixeira (Miro)_I036

Cartaz desenhado pelo cartunista Márcio Baraldi
Alexandre Pereira_I021

Fanzine de distribuição restrito pág. 08


TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE ALDEMIR LEONARDO TEIXEIRA EM 26/08/2014

Depoimento de ALDEMIR LEONARDO TEIXEIRA (MIRO), 40 anos.

IMES – Universidade de São Caetano do Sul, 11 de agosto de 2004.

Entrevistadores: Carla Danielle Porrino, Herom Vargas e Vanessa Guimarães de Macedo.

 

 

Pergunta: 

Queria que você dissesse um pouco onde você nasceu, a sua data de nascimento e um pouco da sua infância.

 

Resposta:

Nasci em Diadema, em 06/11/1963. A minha infância foi normal, como qualquer outra criança. Tinham os espaços na época, a gente brincava demais até o período da adolescência, que acho que é o mais interessante naquilo que vocês estão registrando. A partir dos 12 anos comecei a ter envolvimento com o rock and roll e conheci algumas coisas que passavam até na televisão, num seriado chamado “Os Monkees” e o “Banana Split”. Aí que comecei a gostar, porque na época, no final de 60 e começo de 70, o que se tinha de base, o que mais se ouvia era isso, era rock and roll. E aí que comecei a ter esse conhecimento e a me identificar com a música. Eu não conhecia Beatles, muito pouco e gostava dos Monkees, que depois de muito tempo fui saber que era uma versão americana dos Beatles, para lançar no mercado. Nesse período era somente isso. Até pintar um desenho, como toda criança gosta de desenho, a minha televisão tinha o seriado “Sabrina”, que também tinha muito rock and roll.

 

Pergunta: 

Você tem irmãos mais velhos?

 

Resposta: 

Somos sete irmãos e eu sou o segundo.

 

Pergunta: 

Seu pai fazia o quê?

 

Resposta: 

Meu pai é eletricista de manutenção. Ele ralou muito na vida, desde pequeno trabalhou. Meu avô tinha olaria e ele trabalhou com olaria depois e conseguiu fazer um curso pelo Instituto Universal Brasileiro. Na época as coisas eram muito difíceis e com pouco estudo ele conseguiu se formar como eletricista. Uma coisa interessante é que meu pai, junto com meu avô, tinham umas tradições. Parece que é uma coisa de família ter músicos na família. Meu avô fazia Folia de Reis. Ele foi um dos pioneiros no ABC.

 

Pergunta: 

Ele é vivo?

 

Resposta: 

Ele já morreu. Meu pai ainda é vivo. Meu pai foi folião, era bastião, palhaço. Na época meu pai era muito ligado à música sertaneja, tinha um grupo, que até está nesse programa de memórias, está num livro, acho que do Ademir Médici, que até tem umas fotografias com o meu pai, um registro, que era Estrela e Brilhante, uma dupla sertaneja que na época tocava muito na Rádio ABC.

 

Pergunta: 

Você lembra de ter ouvido isso no rádio?

 

Resposta: 

Não, porque nesse período meu pai não era casado ainda com a minha mãe. Foi na época de solteiro mesmo e depois, com o tempo eu via ele tocando, mas ele já não tocava mais na rádio. Iam os grupos, até o João Mineiro e Marciano já foram na minha casa, ele tinha uma ligação com esse pessoal, Campeiro e Camperinho, sempre esses nomes. Mas o que não tem muito a ver comigo. Ele tem mais essa parte regional, sertaneja, e o meu pedaço é mais urbano, mais pesado.

 

Pergunta: 

Sua família é musical?

 

Resposta: 

Meu irmão até toca legal, mas ele toca em igreja. É uma mescla em casa, muito diversificado.

 

Pergunta: 

E quando criança, as brincadeiras, lá em Diadema, como eram?

 

Resposta: 

Eu vivi, nasci em Diadema. Na época era bola, como toda criança adora futebol. Existiam muitos terrenos abandonados, baldios. A cidade estava crescendo e você tinha esses espaços. A gente brincava de escoteiros, tinha até um manual de escoteiro mirim. Até aprendi muitas coisas que utilizo até hoje, por incrível que pareça. Você tinha terrenos onde você podia jogar bola, brincadeiras diversas que até sumiram, mãe da mula, depois ficou mãe da rua, pique, umas coisas interessantes, polícia e ladrão, umas coisas estranhas. Na parte da escola você já tinha as coisas mais esportivas, mais ligadas ao esporte, como futebol, handebol.

 

Pergunta: 

Você estudou onde?

 

Resposta: 

Estudei em Diadema, depois em Mogi das Cruzes. A gente vivia um período muito difícil naquela época. Era a ditadura militar, apesar de eu ter nascido um ano antes. Praticamente a minha adolescência e infância foi toda nesse período e a gente não entendia muito bem aquelas coisas que aconteciam. Só sabia que era uma coisa rígida, coisa bem autoritária, porque você chegava na sala de aula e praticamente todo dia você tinha de jurar à bandeira. Todo mundo no pátio, fazer fila, mão no coração, posição de sentido, a bandeira hasteada e você cantando o hino. Isso era uma coisa que não me satisfazia, não gostava disso. Não só eu, como vários outros alunos e pessoas. A visão do professor era de autoritário. Você chegava na sala de aula, eu sentava primeiro, e quando a professora entrava todo mundo tinha de levantar, ficar de pé, como uma reverência, porque era falta de respeito. Na verdade era um autoritarismo muito rígido. Hoje em dia não, alguns alunos até fumam maconha dentro da sala de aula, dão porrada em olho de professor. Nessa parte foi interessante porque nós começamos a ter conhecimento com outras coisas que eu gostava, principalmente do gênero musical, que era o rock and roll. Eram primos, amigos, porque na escola você sempre faz aqueles grupos e vai formando a turminha. Era tudo cabeludão, na época estava com 13 ou 14 anos, e se ouvia muito rock and roll, Led Zeppellin, Black Sabbath. As coisas estavam no início. E tinha também aquela galerinha que já gostava de discoteque, que a gente odiava. A gente chamava de burguesinhos e cocotinhas ou os travoltinhas. Era um pessoal que tinha o poder aquisitivo maior e gostava de zombar das outras pessoas, não vou dizer que eram ralé, tinham a cabeça muito melhor que eles, mas não tinham uma condição financeira legal. E durante esse período foram se formando grupos. Eu mesmo tinha, com meu primo e mais quatro amigos, que iam com um visual diferente para a escola. E nessa época você ter cabelo grande, uma roupa diferente, que te diferenciava das outras pessoas, ligada ao rock and roll, você era taxado de maconheiro, de vagabundo, sempre as partes ruins. Era uma coisa pejorativa, porque as pessoas nem conheciam muito bem. As coisas estavam ainda vinculadas ao movimento hippie. Eles tinham uma visão daquilo, mas era uma coisa diferente. Daí me formei, fui um aluno regular.

 

Pergunta: 

Você ia a cinemas?

 

Resposta: 

Era moda ir ao cinema e gostava muito. Ia em São Bernardo, Santo André, muito.

 

Pergunta: 

Qual cinema?

 

Resposta: 

Tinha o Tangará em Santo André e São Bernardo tinha um cinema que ficava no Conjunto Anchieta, perto do Paço, e tinha o Cine São Bernardo que ficava na Marechal.

 

Pergunta: 

Você se lembra dos tipos de filmes?

 

Resposta: 

Lembro. Tinha muito dos Trapalhões, quando moleque e do Bud Spencer e Terence Hill, que tinha o “Triniti”. Rolavam muitos filmes assim, “Bang-bang à Italiana”. Depois que veio “Tubarão”, mas muito depois.

 

Pergunta: 

E shows?

 

Resposta: 

Como garoto não freqüentava muito, mas existiam naquela época os bailinhos, que hoje você não vê mais. Tinha o aniversário de alguém, então vou dar uma festa na minha casa, os chamados bailinhos em que se dançava agarradinho. Naquela época tinha soul music, rock and roll, as baladas do Peter Framptom, Jacksons 5, algumas coisas interessantes, que não eram muito a minha praia. E esses bailinhos eram feitos freqüentemente nos bairros, sempre de final de semana. Não existia essa coisa de shows. Eram os salões, os espaços onde tinha forró, tinha salão de rock and roll, tinha salão de discoteca. Acontecia em associações de bairros. Não tinha essas casas noturnas como existe hoje. Se tinha, eram muito poucas. Existiam a Pink em São Bernardo, a Fender em São Caetano, Lord em São Caetano, especializada em rock and roll. A Pink começou a tocar discoteca e num dia começou a tocar rock and roll, já na época do punk-rock. Os punks quebraram tudo e fecharam. Com os punks não tinha salão que ficava aberto. Com isso fui crescendo, dentro desse panorama todo e tendo conhecimento de outras bandas. A gente curtia U.F.O., MC5, Stooges, tudo com aquela conotação junto ao rock and roll e era uma coisa de rebeldia, mas não tão rebelde quanto o punk-rock, que surgiu uns anos depois, no final de década de 70, em meados, 75, 76, em Nova Iorque, depois em Londres, e em 77 já existia no Brasil.

 

Pergunta: 

Quando você teve contato com o rock e depois com o punk?

 

Resposta: 

Foi na década de 70, na escola mesmo, com as pessoas que curtiam na SBEROC, Sociedade Beneficente, Educativa e Recreativa Osvaldo Cruz, que fica em São Caetano. Na SBEROC na época rolava muito rock and roll. Eram pessoas da minha idade, ou com 44, quase 50. Quem curtia o SBEROC diz que foi o melhor salão que existiu na história do rock brasileiro. E lá foi uma coisa muito louca porque ali iam pessoas de todas as localidades do ABC, de São Paulo, de outros bairros.

 

Pergunta: 

Não existe mais?

 

Resposta: 

Existe o SBEROC mas não como salão. Fiz um levantamento e lá parece que virou um clube de esportes, como era antes, mas tinha um espaço para shows.

 

Pergunta: 

Onde era?

 

Resposta: 

Não lembro o endereço, mas era perto do bairro Osvaldo Cruz, perto da Cerâmica, porque faz um tempo que não venho para São Caetano. Fiquei um bom tempo sem vir. E naquela época eu e um grupo de pessoas, que eram vizinhos do meu primo, eles ouviam muito e na época eu conhecia os Monkees, naquele período de quinta série, e ouvia Monkees, alguma coisa de Beatles, Rollings Stones, Nazareth. Na época estava no auge a “Love Hurts”, coisa que tocava em bailinho. Peter Framptom também. Eu ouvia e achava legal, mas eram cabeludos ainda. E já estava tendo a sonoridade punk, era uma coisa que o pessoal já ouvia em 75, 76, mas não tinha o conhecimento. Até então que a Rede Globo, você vê a Rede Globo que tanto os punks têm bronca, eu também tenho, mas a Rede Globo foi uma pioneira no sentido de lançar, tinha o chamado “Rock in Concert” e “Rock Espetacular”, que mudou. O apresentador, antes era o Fábio Júnior e depois o Nelson Mota, que é jornalista. Eles divulgavam esses programas e depois parou o Mota e depois de um tempo foi o Big Boy, um baixinho gordinho, já falecido, e passavam shows. Hoje seria videoclipe, mas na época não poderia ser, porque não tinha. Passavam shows do Deep Purple, Led Zeppellin e foi a primeira vez que tive a chance de ver o Ramones. Foi pela televisão. Me identifiquei muito com aquela banda, apesar de não ser a banda que fez o meu ego na época. Eu comecei a conhecer esses caras e esse programa de televisão, a gente muito interessado e com esse negócio de Folia de Reis na minha casa, deixavam os instrumentos lá e a gente desafinava os violões, quebrava corda tentando pegar alguns acordes e aprender a tocar rock and roll. Com uns 14, 15 anos, esses programas acabaram e logo em seguida veio o “Som Pop”, na Cultura, que também passava várias coisas de bandas. A gente gostava de Queen, mas tinha uma banda interessante, que era o Kiss. Só que o pessoal achava, o pessoal que curtia o punk na época, desde o início, achava que o Kiss era punk. Mas o Kiss era glitter. O que é o glitter? Aquele pessoal meio andrógino, com visual de monstro, cara maquiada. Tudo era legal para a gente, porque era uma novidade. Você conseguir ver Kiss em 74, 75, hoje eu detesto, mas tudo bem, naquele época era uma novidade. Só que depois a gente começou a ir para salão. Existia um salão na Vila Mazzei, o Lord em São Caetano e o Fender em São Bernardo, onde hoje é a delegacia de Rudge Ramos e o SBEROC, que era o salão que todo mundo ia. Existia também a Fofinho, que tem uns 32 anos de existência. Nesse período começamos a sair, apesar daquela pressão dos pais, porque a gente vivia no regime militar. Você andar cabeludo, num visual daquele, você já tomava porrada. Imagina quando você virou punk, porque a maioria dos punks da época, quem virou punk já curtia pauleira, o chamado rock pauleira na época e o pessoal que curtia a parte mais pesada, MC5, Stooges, começou a curtir essas bandas, quando veio o punk para o Brasil, começou a se identificar mais com o punk. Até no SBEROC que começou a ter indícios do nascimento do movimento punk. Muita gente fala que foi em Brasília, que é uma mentira muito grande, porque esse pessoal nem existia. No SBEROC, como vinham todas as tendências, as novidades, começou a aparecer os primeiros grupos de punks. O pessoal que usava visual esdrúxulo, correntes, mas era cabeludo ainda, calça rasgada. Era um grupo chamado Rebeldes.

 

Pergunta: 

Seria o primeiro grupo?

 

Resposta: 

Eram definidos como punks, mas eles curtiam pauleira, mas o visual era punk. Desse grupo começou a vir outros e o pessoal que ia para salão começou a se identificar. E tinha o Kid Vinil, o nome dele é Antonio Carlos Genofantes. E o Kid Vinil começou a trabalhar na Chantecler e tinha um programa na rádio AM, porque tinha uma rádio FM que era a Excelsior FM. Não tinha nada no dial do rádio. Depois que veio a Pool e outras rádios. E essa rádio era especializada em tocar rock também. Mas o Kid Vinil foi o grande divulgador. O movimento punk deve muito ao Kid Vinil. O pessoal do ABC pode até falar que estou falando besteira, mas não pelo cara, pelas idéias, mas por ele ter divulgado, porque graças ao Kid Vinil o punk chegou onde chegou, não a parte politizada, mas a parte de conhecimento musical e tudo mais, o Kid Vinil foi o grande mentor. Não puxando o saco, nem nada, mas a verdade tem de ser colocada.

 

Pergunta: 

Você conheceu o Antonio Fláquer?

 

Resposta: 

Conheci na ópera punk. Na época ele tinha escrito livro sobre o movimento punk. Era uma visão dele. Aí o Kid Vinil tinha esse programa na rádio AM, chamado “Rock Sanduíche” e depois teve outro nome, quando foi para a Excelsior FM, ele e o Leopoldo Rei. O Leopoldo Rei pegava mais a parte de heavy metal e ele mais a parte de punk-rock. E assim que foi divulgando. Quando o Kid Vinil estava sozinho na rádio era muito interessante o programa dele. A gente tinha correspondência com os grupos que estavam surgindo, as gangues, porque o punk no Brasil se reverteu em gangues, diferente de outros países. Apesar que tinha gangues em outros países, mas o Brasil foi onde teve mais evidência isso. E existiam os Rebeldes, mas não tinha o programa na rádio ainda e depois teve o Punk Destroy, que era a turma do Nenê, que no futuro teve uma história trágica. E desse pessoal que ia, o pessoal do ABC, mas vinha pessoal do bairro do Limão, da Zona Leste, pessoal de Pirituba. E nesse período o pessoal de Pirituba vindo para cá, começou também a aderir à novidade, ao movimento punk. Só que era muito esporádico, não reportava quase nada a respeito, o que você tinha era muito restrito. O que nós sabíamos na época era que era um movimento de rebeldia de jovens e você via as pessoas de cabelo curto, de visual totalmente diferente do que você usava. E daí que a gente começou a cair para essa nova tendência, a optar por essa nova tendência. Aí que foi interessante, que começaram a surgir esses grupos que se identificavam com o punk, começaram a usar um visual, mas ainda eram cabeludos. Ficava um negócio meio louco, porque muita gente que não sabe, o pessoal que curte rock hoje em dia, os que curtem e vivem dentro desse mundo do rock, não sabem que o movimento punk começou com o pessoal que era roqueiro pauleira, que rompeu com aquilo, foi uma ruptura, e passou a ser punks. A partir de hoje é isso que nós teremos e isso ficou para trás e a criticar tudo aquilo. E naquela época, como você vivia no regime militar, as coisas acontecendo nos porões, as pessoas sendo mortas, assassinadas por opressores, a gente vivendo sob censura ainda, o punk foi uma coisa muito interessante por causa disso. Ele rompeu com isso também, ele não quis nem saber. Nós somos uma juventude contestatória e vamos contestar independente do que seja. Apesar que o regime estava passando por um processo, por uma abertura democrática.

 

Pergunta: 

O início da abertura?

 

Resposta: 

Sim, mas para mim se tornou uma ditadura civil de lá para cá.

 

Pergunta: 

Para falar um pouco das rádios, você chegou a conhecer a 97?

 

Resposta: 

Conheci. A 97 vem bem depois, lá pelos anos 80 e eu estou ainda nos anos 70. O movimento punk no Brasil começou entre 78 e 79 a surgir e estou falando como as gangues se formaram. Aí Os Terrores começaram a aparecer, de Pirituba. Até tinha uma amizade com os caras, até sair uma treta, uma briga enorme, aí começou a ter rachas. O pessoal de Pirituba vinha para o SBEROC, quebrava o pau com o pessoal de São Bernardo, do ABC, entrava sem pagar. Tinha toda uma polêmica em cima disso. Aí os punks, para se unirem contra isso, se uniram e do Destroy formaram Os Anjos, uma quantidade de grupos começou a virar um grupo maior, até virar uma gangue e existiam Os Terrores de Pirituba e Os Anjos de São Bernardo. Era Anjos e Abutres, que era o pessoal de Mauá. Foram as primeiras. Depois que apareceram Os Carniças, em Santo André, outros grupos, Os Metralhas, o pessoal da Vila Carolina. Mas em princípio foi isso, freqüentando o SBEROC, era inevitável o confronto. Vinha o pessoal de Pirituba e de São Bernardo e as tretas aconteciam. Não que impedia de algumas terem ainda uma amizade com o pessoal de lá, tanto que a Rosemary, irmã do Nenê, que faleceu, namorava o Juvenal, que era um dos líderes dos Terrores. E desse período, depois que ela largou do cara começou a andar mais com o pessoal do ABC mesmo, nós começamos a intensificar as brigas. As brigas começaram a ficar mais sérias. E tudo naquele panorama de contestação, sob o regime militar, sob uma sociedade hipócrita, sob a burguesia, que a gente detestava. Naquela época a burguesia era aquele pessoal que curtia discoteque, que gostava de tirar da sua cara. Aí era inevitável. Os inimigos número 1 da gente eram os boys, os travoltinhas. Em 79 tinha o filme do John Travolta, “Os Embalos de Sábado à Noite” e depois foi o “Greese”. E quando você trombava esse pessoal de discoteque os caras corriam. Eles tinham medo porque a gente andava em muita gente. Você andava em turmas de 70, 80 pessoas, no mínimo. Os Anjos contavam com cerca de 200 adeptos, amigos, que eram punks e romperam com o rock and roll. E o Kid Vinil, na rádio, divulgava isso. Divulgava o som, o pessoal escrevia cartas com papel higiênico. Os caras tinham a moral de escrever em papel higiênico e mandar para ele. Era uma coisa de escracho, de deboche. O punk surgiu para ser isso. O punk era isso desde o início. Com todo esse andamento, as gangues já estavam formalizando e aí começaram a pintar inúmeras. Veio o pessoal dos Punkids, Máfia, que fazia em Diadema, Ramonas, tinha a Bolota, que não lembro o nome da turma que ela andava, várias, Metralhas, Ratos de Esgoto. Começaram a pintar com esses nomes e o pessoal ia se identificando com esse tipo de coisa.

 

Pergunta: 

Eles viravam grupos ou só gangues? Tinha grupos musicais?

 

Resposta: 

Aí que tem a questão. O rock mal tocado, porque a maioria dos punks surgiram contra o quê? Contra esse negócio do rock clássico que tinha e tentando resgatar a rebeldia dos anos 50, que foi esquecida. Porque o rock ficou, um período legal do rock and roll foi nos anos 70. No período hippie, 68, 69, ele teve um apogeu lega, porque tinha as músicas contestatórias da época. A partir desse período, quando o movimento hippie deu uma enfraquecida, e isso não foi proposital, foi até um lance do governo americano estar reagindo contra esses grupos pacifistas, tinha a questão da guerra do Vietnã, tudo isso, de dar um fim naquilo, então a mídia, como tinha muita gente interessada no meio de saber as novas tendências da época, começaram a pegar e a produzir algumas pessoas. Foi chamada a “Era do Eu”. Então, Bob Dylan, muita gente que tinha um respeito na época, começou a vender para grandes gravadoras, a fazer shows em arenas, em estádios fechados, começaram a pintar outros grupos, que é a parte do rock progressivo, como Pink Floyd, Genesis, até o Kiss.

 

Pergunta: 

O punk reage a isso?

 

Resposta: 

O punk é contra isso, porque o punk, isso não tinha nada a ver com a realidade dos jovens da época. A postura do ídolo era muito diferente. Eles começaram a ganhar condecorações, os Beatles ganharam condecorações da Rainha Elisabeth. Uma coisa legal dos Beatles de se observar foi o lance do John Lennon ter entregado a condecoração, ter devolvido, em protesto à guerra do Vietnã. Paul MacCartney já não, ficou guardada. Foi o cara que foi o grande mentor especulativo dos Beatles, como Mick Jagger foi dos Stones. Esses caras já estavam ficando velhos para o rock and roll. As pessoas já não estavam colocando crédito neles. O rock estava ficando uma coisa muito chata, com muita coisa de conservadora musical. Os caras eram músicos profissionais, que gastavam dinheiro em horas de estúdio porque tinham grana para comprar equipamento. E isso não tinha nada a ver com a realidade, nem do pessoal dos Estados Unidos, nem dos ingleses e muito menos no Brasil. E isso distanciava muito o público do ídolo.

 

Pergunta: 

A proposta do punk era qual?

 

Resposta: 

A proposta punk vem com isso. Foi um chute no saco dos anos 70, contra tudo isso, contra esse marasmo. Veio aquele lance de você ser pobre, de você estar numa contestação de um mundo de desemprego, de violência, mundo de drogas e um mundo sem perspectiva de vida. Aí surgiu com a Blank Generation, em Nova Iorque, num clube chamado CGGB... Era difícil um pessoal contar todo aquele negócio que estava acontecendo, que começou a montar as suas próprias bandas. Os caras tocavam poucos acordes, mas o negócio era pregar o existencialismo. Não digo pregar, mas estar colocando aquele sentimento, o existencialismo, o sentimentalismo do dia-a-dia, a dura vida de Nova Iorque. A primeira vertente punk começa ali praticamente, com Ramones, Blondie, Television, Richard Hell Vaidoids, foram os precursores, que são Stooges e MC5, que já faziam um som mais diferenciado para a época deles, fora as loucuras que os caras curtiam.

 

Pergunta: 

E aqui no Brasil, os marcos?

 

Resposta: 

Os marcos brasileiros, nos anos 70 a gente tinha Rita Lee e Os Mutantes, que era uma base do rock and roll brasileiro, porque o que a gente tinha era a Jovem Guarda, que já virou um saco, porque desde criança você ouvia aquilo. Aí Os Mutantes acabaram e surgiu o Tutti-Frutti, que não sei se foi uma dissidência deles, tinha Arco de Veludo, Joelho de Porco, que é um precursor do punk brasileiro, Patrulha do Espaço, Made in Brazil, O Terço, em bandas conhecidas como rock and roll nos anos 70. No final dos anos 70 que começaram a pintar as primeiras bandas punks no Brasil, que é o AI-5, Condutores de Cadáveres, Restos de Nada, Lei e a primeira, se não foi a primeira banda, mas chamava Bando do Lixo. O pessoal, nos shows, jogava lixo nos caras mesmo.

 

Pergunta: 

Em São Paulo?

 

Resposta: 

Essa banda era de Minas e tocou muito em São Paulo. E tinha o Carisma, do Indião, que nunca mais ouvi. Esses caras tinham uma ligação com o punk, mas era aquele pessoal ainda cabeludo, que uns continuaram curtindo rock and roll, mas os outros já começaram a cortar o cabelo e a andar com um visual diferenciado.

 

Pergunta: 

E aqui no ABC?

 

Resposta: 

No ABC tinha A Lei, umas bandas de São Paulo, Restos de Nada, Condutores de Cadáveres, e dessas bandas, quando terminaram, surgiram outras e na verdade AI-5 existiam duas. O Kid Vinil fez parte do AI-5, se não me engano e depois formou o Verminoses e depois virou Magazine, quando a banda inglesa acabou e ele pegou o nome. Ele mesmo assume que pegou o nome. Com as dissidências dessas bandas foram formadas o Inocentes, uma das primeiras bandas, e outras. Aqui no ABC, Auster, Passeatas, que era da Lei e Hino Mortal. Depois tinha Guerrilha Suburbana, a banda que o Mau tocava antes, que não lembro, que também vieram depois.

 

Pergunta: 

E Garotos Podres?

 

Resposta: 

Vem bem depois, nos anos 80.

 

Pergunta: 

Como você conheceu esse pessoal?

 

Resposta: 

Eu conheci esse pessoal punk porque andava com Os Anjos com a intenção de formar uma banda, mas nunca conseguia. Para você ver como é a orientação das coisas. O punk já tinha essa ligação com o negócio de você ser proletário, estar contestando contra umas coisas que existiam na época. A primeira banda que tinha formado, com o Jaburu, que tocou no Círculo Vicioso, chamava Proletários e essa banda não durou. Nessa mesma época existia e esqueci de falar do DZK, que é a banda do Macarrão e que está na ativa até hoje. O Hino Mortal voltou também agora e o Auster, só que com poucos membros, porque alguns já morreram. O punk foi uma história meio trágica no ABC, como no Brasil inteiro. Se perderam muitos amigos, uns com envolvimento com drogas, com bandidagem. Se transformou numa coisa que era para isso, pela negatividade do punk, que para muitos acabou sendo isso mesmo. E nesse período conheci o pessoal dos Anjos. Nesse período não gostava dos Anjos, porque onde eles iam, eles quebravam tudo. Eles fechavam salões, iam para um templo no Pari, quebravam tudo, jogavam geladeira lá de cima. Saíam as tretas com o pessoal de São Paulo, que depois dos Terrores começaram as tretas ABC e São Paulo. Era como gato e cachorro. O pessoal de São Paulo acusava a gente que a gente era troglodita, que era antiguinho, podrinho. Tinha esses apelidos todos e a gente, com toda razão, reclamava que eles estavam burguesando o movimento, que eles estavam no centro de São Paulo, que tinham toda a mídia a favor e eles aparecem em final de novela, em ponta de novela, “Um Sonho a Mais”, de 1984. Apareceu toda a galera de São Paulo, em frente às câmeras, com toda a oportunidade que eles tinham para falar do movimento e eles sempre deturpavam, faziam caretas e poucas pessoas de São Paulo posso considerar que tinham alguma coisa a ver. E nós estávamos nas greves, a maioria era metalúrgico e trabalhávamos em fábricas, que era uma realidade do ABC na época.

 

Pergunta: 

Muitos punks eram operários mesmo?

 

Resposta: 

Operários, metalúrgicos. Naquela época as indústrias eram fartas no ABC e hoje não é mais nem conhecido como pólo industrial.

 

Pergunta: 

E vocês acompanhavam as manifestações?

 

Resposta: 

Sim e uma coisa que marcou bastante e deixou a gente intrigado foi ter sido usado como bode expiatório o movimento punk, pelo PT principalmente. Fomos usados como massa de manobra no início e como linha de frente deles nas greves, porque os punks iam para a porrada mesmo. Naquela época não baixava a cabeça. Se tivesse de cair na mão da polícia a gente ia cair, com boy, com outros punks, com skin, com quem fosse. E naquela época o pessoal falava para deixar a gente na frente porque sabiam que a gente ia para a porrada mesmo. E era uma coisa que era inevitável na época. Vinha a tropa de choque e você tinha de se defender. Jogava pedra, pedaço de pau. Você tinha de se defender. Mas sempre os caras ficavam meio recuados e colocavam você como linha de frente. O punk apoiou muito o PT como organização no final dos anos 70 porque os caras eram metalúrgicos e estavam participando daquele processo todo, tanto que o punk e o PT vêm num processo paralelo. Foram crescendo juntos. E naquele período a repressão ainda era muito forte. Teve eleição direta, veio o pessoal que hoje é a Força Sindical, aquele pessoal do Joaquinzão, intervir no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e a gente vivia ainda naquela época do obscurantismo e a gente querendo saber o outro lado. A gente sempre contestava tentando abrir a cabeça das pessoas para o que estava acontecendo. Só que hoje é uma coisa engraçada. Você tem todo o processo, tem internet, câmeras digitais, vários recursos que não existiam na época. Não existia nem videocassete, não existia internet nem nada disso. E era à base de jornais, algumas coisas eram censuradas, proibidas. Mesmo no final dos anos 70 ainda existia censura. Mas a gente procurava no outro lado. A rapaziada de hoje, é engraçado, tem tudo nas mãos. Tem internet, informações e fica uma banalização total. A gente vive num mundo fútil. Até os punks de hoje, a molecada nova, não são todos, mas várias bandas que surgiram pegando carona no punk, que tem vindo desde a época dos anos 80, a new wave nacional.

 

Pergunta: 

Vocês faziam fanzines?

 

Resposta: 

Fazíamos. A proposta nossa era assim, de através da música e de zines estar divulgando o movimento, que era de contestação. Aí que começaram a entrar os princípios anarquistas na história. Então, a divulgação do anarquismo em cima de fanzines e de música. Aí começaram a formação das bandas. Quando a Passeatas acabou em 1983, o Pádua e o Binho, vocalista e baixista, me procuraram e a idéia foi formar o Ação Direta. A gente pregava o terrorismo mesmo, mas o terrorismo cultural. O nome Ação Direta era um nome muito adequado e muito forte para a época. E numa mesma época, o grupo Ação Direta sacudia a Europa com atentados terroristas, contra o projeto Guerra nas Estrelas, que era um projeto do Bush pai e do Reagan, de colocar no espaço alguns receptores de mísseis soviéticos, por causa da chamada Guerra Fria, e acontecia o perigo de uma terceira guerra mundial. Esse era o texto, o propósito principal das bandas, de estar contestando isso. Existia um perigo iminente de ter uma guerra mundial, com uma política louca do Reagan e do presidente da União Soviética. A guerra persistiu até depois da Perestróica, da queda do muro e tudo mais. E nesse período a contestação era em cima de guerras nucleares, desse perigo, do desemprego, da miséria, porque os punks, hoje, são os rappers na periferia, no subúrbio. Naquela época você não tinha os rappers e eram os punks que viviam na periferia, no subúrbio. Quem era desclassificado e abandonado pelo sistema eram os punks. E aí que vem toda a revolta, de viver em bairros operários e dali toda essa cultura de envolvimento com a política que surgiu, e acompanhando esse processo. Conheci o pessoal dos Anjos e comecei a andar com eles, mesmo não gostando, mas depois conheci o pessoal e comecei a ter outra idéia. Os primeiros que conheci foram o Binho e o Pádua, conversei com eles, tinha o pessoal que a gente se reunia na quadra do Lavínia, em São Bernardo, no Bairro Assunção. E quando vi, na primeira vez, o visual dos caras, pensei: Eu sou boy perto dos caras. Tanto que o filme “Mad Max II” foi baseado nos punks londrinos. E quando vi aquele visual Mad Max, de onde surgiu esse pessoal? Jaquetas rebitadas, moicano mesmo. Naquela época chocava demais e o pessoal tinha medo de chegar próximo. Hoje é uma modinha. Hoje mesmo não ando mais com o visual. Faço parte do movimento punk ainda, meio que indiretamente, porque gosto e acho que foi a última revolução de jovens mesmo, de pensamento. Parou no punk e depois só tem cópia. Os jovens estão banais, infelizmente. Eles deveriam buscar uma identidade deles, criar uma coisa nova, o que estou vendo que não está acontecendo. Algumas coisas que surgem são bandas que chuparam dos anos 80, 70 e tudo mais. Aí os caras me chamaram para formar o Ação Direta, que não durou um ensaio. Aí o Panda estava aprendendo bateria e estava com uma banda com o Gepeto, com o Pancho, que é o Ação Direta de hoje, e perguntou se podia pegar o nome. Pode pegar, mas não vai dar certo. Vi que o Passeatas tinha terminado, os caras não estavam com um relacionamento, que foi o que marcou o movimento punk no ABC foi o fim das bandas e a morte do Nenê, porque as pessoas tinham muito respeito por ele. Aí me chamaram, não deu certo, e o Panda foi e o Ação Direta vai fazer a quarta turnê na Europa. Aí os dois outros componentes me chamaram para formar outra banda, que deu certo, que se chamou Libertação Radical, que durou de 84 até 92. O Libertação Radical ficou lendária no ABC porque todas as outras bandas gravaram, nós não gravamos nada e em todas as manifestações políticas da época, no Paço Municipal, a gente era chamado para tocar e foi uma das bandas mais politizadas na região. E até hoje o Libertação Radical tem um respeito na conotação das suas letras, da sua música, porque estava 10 anos à frente das bandas. Não menosprezando as outras bandas, mas a proposta da gente era uma coisa muito mais além.

 

Pergunta: 

Vocês participaram da campanha pelas Diretas, em 1984?

 

Resposta: 

Naquela época a gente participava de manifestações, das Diretas, apesar que a gente não acreditava muito. A gente achava que era uma mentira, porque a burguesia estava por trás daquilo. Logo depois as Diretas foram por água abaixo e logo depois teve o primeiro presidente eleito, o Tancredo, que era um cara que foi braço direito do Getúlio Vargas, que para nós era visto com maus olhos.

 

Pergunta: 

Vocês tinham consciência disso?

 

Resposta: 

Uma boa parcela tinha, mas não digo todos. Naquela época a política, a gente tentava organizar, mas tinha um pessoal que ainda era preso ao início do movimento, que aquilo era negócio mais de curtição, de sair chutando saco de lixo, dar porrada em boy e nesse período de 81 em diante a gente já estava mais com uma consciência política, participando, tinha um alicerce.

 

Pergunta: 

Qual o grau de consciência política das pessoas que participavam do movimento punk? Não digo você, mas o que você acha?

 

Resposta: 

Algumas pessoas tinham um grau bem elevado. Eu era meio devagar com esse negócio de política, não tinha muita noção, mas aprendi muito com o grupo, principalmente o pessoal do Passeatas, que tinha contestação nas letras, com o pessoal do Auster, que era muito interessante, o Indião tinha uma cabeça muito boa, o Nenê, que era uma liderança natural do pessoal. Ele tinha esse negócio de líder e todo mundo tinha um respeito por ele e ele tinha respeito por todo mundo. Tinha um pessoal legal, que não vou dizer que era minoria, porque tinha aquele pessoal xucrão, mas tinha um pessoal legal e o pessoal, querendo ou não, acabava participando. Só que tinha muita gente que chegava, a gente fazia um trabalho legal e os caras jogavam por água abaixo, vinham passando idéias. Isso existia em todos os movimentos. Até o próprio punk foi meio deturpado. O rap e todos os movimentos que entram no Brasil o sistema absorve e depois deturpa, para vender. Faz uma coisa para vender para as massas e aí fica uma coisa meio de modismo. E é legal que o punk, depois de 25 anos de movimento, as pessoas ainda estão querendo saber sobre o movimento punk. Existe um pessoal remanescente, que está na luta, que acredita numa postura ainda, que acredita naquilo e não se vende. Só que tem muitas bandas que pegaram carona no punk, que foi a new wave nacional. Isso que era a nossa crítica. Até na época teve Paralamas, Titãs. Essas bandas nunca ninguém ouviu falar delas e a partir do momento em que o punk foi para a televisão, em 82 no SESC Pompéia, que para muita gente aquilo foi o fim do punk.

 

Pergunta: 

Vocês participaram?

 

Resposta: 

Participamos. O Passeatas tocou no SESC, o Libertação não existia ainda, porque foi em 1982. Antes, porém, teve um som na PUC.

 

Pergunta: 

Chamava Grito Suburbano o festival?

 

Resposta: 

Chamava Começo do Fim do Mundo. Grito Suburbano foi a primeira coletânea punk, que teve Cólera, Inocentes e outras. Na época tocaram 22 bandas. Antes, até o Clemente teve participação, o Antonio Bivar, o pessoal da PUC, mas antes desse show teve o show da união. Era tentar unir os punks do ABC com os punks de São Paulo, para dar uma trégua dessa treta toda, porque o negócio era feio. Não podia se ver que era facada, porrada, tiro. Perdemos amigos com isso, eles devem ter perdido gente deles também. Hoje já não existe isso. Existe uma ligação com os punks, de tentar levar o movimento para a frente. E naquela época tentaram unir no show da PUC, que se chamou “Show da União”. Aconteceu um anterior, que até o Ira! abriu para o Passeatas, o Nasi e o Scandurra. Tocaram Inocentes, Passeatas, Sistema e o Ira!, que abriu. Na época o Ira! só tirava covers bandas punks, não era o Ira! de hoje. Em 1982, antes do SESC, teve esse show, mas não durou muito tempo essa união. Se trombaram e saía porrada no banheiro, quebrando tudo e uns oportunistas da PUC aproveitaram a ocasião e incendiaram um arquivo da faculdade. A polícia técnica e a polícia de repressão chegaram, não sei se era o Erasmo Dias que comandava tudo, e desceram porrada em todo mundo. Sai todo mundo. Não tinha argumento para a polícia. Era porrada mesmo, te xingavam, como você anda desse jeito. Mas desse show que se teve a possibilidade de se fazer o show do SESC Pompéia. Aí muitos punks falaram que era o fim, vai aparecer, vai para o Fantástico e coisa assim. O Fantástico já tinha apresentado, uns meses antes, um documentário sobre o punk, escrachando o punk, e as pessoas que falavam a respeito do real do movimento eles não passaram. Eles querem colocar o que convém a eles. Se você está falando alguma coisa sobre o movimento que tem a ver, eles não querem. Eles querem ver aquele cara moicano, todo estrunxado, agitando, dando porrada nos outros, cuspindo no chão, aquelas coisas que ficaram como uma negatividade do punk. E mostravam isso e as pessoas não entendiam nada. Eu lembro que eu era metalúrgico e tinha o cabelo amarelo. Para você andar de cabelo amarelo e brinco naquela época, no mínimo era taxado de viado, e até você explicar para as pessoas o que era aquilo, era complicado. Sei que depois dessa reportagem, estava indo para a firma e sabia que o pessoal ia me encher o saco: Você viu aquela reportagem? Se eu fosse o governo mandava matar todos aqueles caras. Esses que eram os argumentos que se ouvia e foi uma coisa que queimou muito a imagem do punk. O punk do ABC não gostava de dar entrevista e o pessoal de São Paulo adorava. Adorava aparecer, mas nunca falava o real e parece que compactuava com essas coisas. Não digo de todos, porque tinha o Ariel, a Tina, que era um pessoal que está até hoje e são gente fina. E o punk do ABC ficou restrito a isso, às manifestações do ABC, aos zines que a gente fazia, para divulgar e contatos, tentando arrumar shows, porque os shows eram esporádicos e os lugares para você tocar eram muito difíceis.

 

Pergunta: 

Onde vocês tocavam aqui no ABC?

 

Resposta: 

Shows era em salão. De repente ia ter algum show, como no Saladino, Clara Nunes, Cacilda Becker, os teatros que tinham por aí, mas que eram difíceis de descolar.

 

Pergunta: 

Só com as prefeituras?

 

Resposta: 

E de repente tinha algum salão que o pessoal aparecia e as bandas tocavam, como em praça pública. Às vezes a gente pegava, vamos dar um show na praça hoje? Subia no poste de luz, ligava os fios, ligava a aparelhagem e era assim, era alternativo o negócio, você não tinha muita coisa, porque ninguém queria, ninguém queria saber de punk na vida. Aí que vêm os punks de boutique, que é outra história.

 

Pergunta: 

E gravações no ABC? Tinha algum estúdio?

 

Resposta: 

Tinha o Camerati.

 

Pergunta: 

Vocês chegaram a gravar?

 

Resposta: 

Nós não, mas o DZK, o Subviventes.

 

Pergunta: 

Além do Camerati, existia mais algum?

 

Resposta: 

Só se for caseiro. Você tinha de ir para São Paulo. As gravações eram muito precárias, os instrumentos eram precários, você não tinha grana para comprar e era muito caro. Você comprava material de quinta mão, não era nem de segunda mão. Quem tinha uma guitarra Giannine, não vendendo o peixe dos caras, era como se fosse uma Fender. Não tinha condições. A única guitarra boa que você tinha nacional. Bateria era Gope. Era muito precária. Tinha banda que começava a ensaiar com latas. Isso não é novidade, esse projeto de instrumentos de lata. O pessoal fazia bateria de lata para poder tocar. E os pedais era caseiros, que você pegava alguma revista de eletrônica e montava os pedais. Até as bandas punks adoravam as bandas brasileiras, as de fora, pela forma como os caras conseguem tirar um barulho desses. E de lá foram surgindo, porque no ABC tiveram várias outras bandas. Hoje já aparecem mais, mas naquela época não apareciam. O Círculo Vicioso, Guerrilha Suburbana, Ação Direta, nós do Libertação Radical, Subviventes. Teve várias bandas do ABC, e até hoje tem FDS e outros grupos que fazem turnê na Argentina, na Europa. Eu tenho contato com os punks de lá.

 

Pergunta: 

Você fez faculdade?

 

Resposta: 

Fiz. Me formei em Ciências Sociais e estou tentando mestrado na PUC. Inclusive estou falando a respeito do movimento no ABC, porque a maioria das pessoas que escreveram era de fora do movimento e é diferente a visão. E o ABC nunca foi muito mencionado, só algumas passagens, mas o movimento em si não. É legal para poder esclarecer como era o movimento em São Paulo. São 20 anos para serem pesquisados.

 

Pergunta: 

Você gostaria de deixar um recado, uma mensagem?

 

Resposta: 

Estou com 40 anos e já me dediquei muito ao rock and roll, ao punk principalmente, e gostaria que a juventude em geral criasse uma identidade, não só punk, porque o que acontece muito hoje, eu vejo bandas que pegam muito do punk, como Charlie Brown Jr., outras bandas que os punks detestam e pegam do punk e levam a uma coisa comercial. O punk não é isso. Punk é um som de protesto, uma música de protesto, uma contestação. Os rappers estão dominando hoje, tudo bem, mas os punks já fizeram isso muito tempo atrás. Isso que os rappers fazem não é novidade para a gente, só que os rappers se limitam muito em guetos e os punks não se limitam. O punk é uma coisa muito ampla, é mundial. Teve punk na Sibéria, punk esquimó, que já conversei com a Carla a respeito disso. E gostaria que essa juventude de hoje procurasse alguma forma de se expressar, como nós tentamos. A gente faz o nosso trabalho hoje, mas a gente tem 40 anos, o que já pesa, é uma boa estrada. A gente não vai desistir, mas gostaria que essa juventude em geral, com seus movimentos paralelos ao punk, independente de ser punk ou não, que formasse opiniões, que criasse uma identidade de contestação para poder modificar esse país. A gente está precisando disso.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul