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Antonio Foloni Natal

Antonio Foloni Natal atuou nos grupos de teatro na região do ABC. Imagem do Depoente
Nome:Antonio Foloni Natal
Nascimento:25/12/1942
Gênero:Masculino
Profissão:Ator / Dentista
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Bariri (SP)

TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE ANTONIO FOLONI NATAL EM 08/07/2005

Depoimento de ANTONIO FOLONI NATAL, 62 anos.

IMES – Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 08 de Julho de 2005.

Entrevistadores: Herom Vargas e Tiago Magnani.

 

 

Pergunta: 

Vamos começar pela data e local de seu nascimento.

 

Resposta: 

Nasci dia 25 de dezembro de 1942, em Bariri, uma cidade perto de Jaú, no interior de São Paulo.

 

Pergunta:

Fale um pouco sobre a sua família, seus pais, irmãos.

 

Resposta: 

Meus pais eram filhos de imigrantes italianos. Eu acho que meus avós vieram para cá no fim do Século XIX. Meus pais nasceram aqui, mas não sei se meus pais se conheceram antes de viajar para cá. Meu pai nasceu em 1909 e minha mãe também. Meu pai morava na cidade e minha mãe, parece que eles ganharam terra, o Governo dava terra para imigrantes, não sei. A mãe e pai da minha mãe moravam numa fazenda perto da cidade. Aí eles se conheceram, meu pai e minha mãe, se casaram e foram morar numa fazenda bem longe da cidade, uns 12 km. Foi na época da depressão, aquela coisa da moratória, que houve queima do café. Eu acho que foi em 1929. Aí os negócios estavam desandando e meu pai estudava, estava fazendo farmácia em Araraquara. Meu avô chamou, eles se casaram e foram tomar conta da fazenda. Ficaram lá, tiveram todos os filhos na fazenda. Nós éramos 9 irmãos. Todos viveram, mas minha irmã morreu com 56 anos e meu irmão morreu com 60 anos, os dois mais velhos. Os outros sete irmãos são vivos.

 

Pergunta: 

Vocês moravam na fazenda?

 

Resposta: 

Sim. Acho que com uns 10 anos nós fomos, a gente não tinha como mandar, porque era mais difícil na época, não tinha com mandar os filhos para a escola na cidade, nós fomos alfabetizados em escolas de sítios, de fazenda. Não sei se vocês sabem, mas só tinha um professor para todas as classes, primeiro, segundo e terceiro anos todos juntos. Então, a minha alfabetização foi muito ruim. Para mim foi muito penoso estudar, muito difícil. Eu tinha muita dificuldade. Aí nós fomos para São Carlos porque um primo nosso, que era padre, foi na fazenda e disse que podia levar alguns de nós para ser padre. A minha mãe pegou os três filhos mais novos, porque ela queria que a gente estudasse de qualquer maneira, e mandou a gente para o seminário. No seminário eu tinha muita dificuldade e meu irmão mais velho também tinha muita dificuldade. Só que de repente eu comecei a descobrir como estudar, como raciocinar, uma coisa que acho que Deus falou que eu ia estudar. Meu irmão não conseguiu. Não sei se foi um insight.  Eu tinha dificuldade, me lembro até hoje, tinha uns livretinhos para a gente estudar geografia. A professora fazia perguntas e falava para olhar no mapa. Eu pegava e olhava o mapa, mas não entendia nada. E todo o texto que ela queria estava escrito, mas eu não sabia. Eu ia para o mapa e não ia para o texto. Não tinha essa agilidade que qualquer criança de 11 anos tem. Só que de repente eu descobri isso, que o texto, eu tinha de ler o texto, mas meu irmão não descobriu. Aí os padres mandaram meu irmão embora do seminário porque ele não conseguia estudar, e eu consegui.

 

Pergunta: 

Você estudou lá até?

 

Resposta: 

Fiz até o quarto ano primário e aí eu poderia ter passado para a primeira série ginasial, mas os padres acharam que eu ia ter muita dificuldade. Eu achava que não, que já sabia, que ia estudar feito um louco e ia conseguir. Mas eles não deixaram. Eu não reivindicava. Criança não reivindica e eu não reivindiquei. Então, eu fiz o quinto ano do primário e entrei e fiz até a segunda série ginasial. Nessa altura meus pais já estavam morando em Bariri. Eu saí do seminário e entrei no ginásio de Bariri, terminei o ginásio e vim embora para São Paulo, para fazer o que eu queria.

 

Pergunta: 

Só você?

 

Resposta: 

Só eu. Eu vim já com tudo arrumadinho. Eu tinha tio aqui que me arrumou colégio, arrumou onde eu ficar, porque era pensão. Naquela época não se sonhava em alugar apartamento, nem existia. Meu tio morava numa pensão também, e ele era rico. Eu fui.

 

Pergunta: 

Você veio para estudar?

 

Resposta: 

Sim. É uma coisa muito engraçada isso. Desde criança eu queria estudar. Não tinha o menor estímulo de olhar uma pessoa e pensar o que ia ser quando crescesse, se fosse um médico, um engenheiro.

 

Pergunta:

Você tem lembranças da sua professora na época de infância?

 

Resposta:

Tinha uma professora chamara Leonora, que ainda deve ser viva, lá em Bariri. Tenho uma lembrança. Ela morava em casa inclusive, porque não dava para ela ir para Bariri todo dia. Meu pai tinha um caminhão, mas carro não. Em 1950 nem tinha indústria automobilística ainda. Ela morava lá. A lembrança que tenho dela é vaga, mas não é uma coisa ruim. Não tinha medo da professora.

 

Pergunta: 

Aí você veio para São Paulo com 17, 18 anos?

 

Resposta: 

Eu fiz, em Lins, um ano de científico. Aí vim para São Paulo. Eu queria muito vir para São Paulo.

 

Pergunta: 

Em 1960, mais ou menos?

 

Resposta: 

Foi em 1960.

 

Pergunta: 

Você foi morar onde?

 

Resposta: 

No centro. Todo mundo morava no centro. Morava na Rua Major Sertório, perto do Mackenzie. Eu estudava lá.

 

Pergunta: 

Fez faculdade?

 

Resposta: 

Não. Fiz o científico. Aí eu fiz um ano de cursinho e entrei na faculdade de odontologia em São Paulo mesmo. Eu queria fazer medicina, mas jamais eu conseguiria, vejo hoje, que jamais conseguiria pelo meu despreparo. Não adiantava. Os professores me ensinavam as coisas e eu não aprendia. Era uma dificuldade. Claro que devo ter limitação minha mesmo, não tenho um QI alto, mas foi esse despreparo. Por isso acho que as pessoas têm de se preparar na base, no primário. É assim que estuda, fazer com que as crianças sejam estimuladas. Eu não tinha o menor estímulo.

 

Pergunta: 

Que lembranças você tem do centro de São Paulo nessa época que você morou lá?

 

Resposta: 

Era o centro, as pessoas iam para o centro. Quando cheguei eu fiquei deslumbrado. Eu ia da pensão até o Mackenzie, que dava quatro quadras, e para mim era a coisa mais deslumbrante do mundo, sair na Major Sertório e chegar ao Mackenzie. A gente andava, de dia, eu não andava de jeans porque só tinha calça Lee na época, que era importada. Eu morria de vontade de ter uma calça Lee, mas não tinha, porque não tinha dinheiro. Eu tinha aquelas calças que eu trouxe do interior, e terno, porque a gente usava o terno. Eu vim com quatro ternos. Hoje ninguém tem quatro ternos. Quando tem, tem um. Você saía à noite, eu só saía aos sábados para ir ao cinema com meu primo. Nós nos vestíamos de terno e íamos para o cinema. E eram aqueles cinemas deslumbrantes. São Paulo era uma coisa deslumbrante. Vocês não chegaram a conhecer o Cine Marrocos. Era uma coisa, um pé-direito de três andares, o saguão de entrada, aquelas telas imensas, com platéias imensas e sempre lotado. Tinha Marrocos, Olido, Marabá, Metro, Paissandu e outro que não lembro o nome, me parece que era Vila Rica. Era maravilhoso. Você entrava e parecia que você entrava numa vila e lá no fundo era o cinema.

 

Pergunta: 

O Comodoro já tinha?

 

Resposta: 

Era cinemascope, porque era diferente. Acho que Lawrence da Arábia eu vi no Comodoro, não lembro.

 

Pergunta: 

O passeio de final de semana era cinema?

 

Resposta: 

Com meu primo era cinema.

 

Pergunta: 

Existia televisão?

 

Resposta: 

Não assistia. Eu acho que a televisão ainda estava começando. Na pensão não tinha televisão. Tinha televisão sim porque os alunos falavam de vez em quando. Eu ficava curioso para ver televisão, mas no interior não tinha. Acho que no interior a televisão chegou em 1970 e pouco. Não tinha.

 

Pergunta: 

E o rádio?

 

Resposta: 

Eu não ouvia rádio. A gente ouvia rádio lá na fazenda. Meu pai tinha um rádio de pilha. Eram pilhas enormes para colocar no rádio. E pegava e a gente ouvia aquelas novelas. O dia inteiro minha mãe ouvia novelas e à noite a gente ouvia Lampião, o Rei do Cangaço. 

 

Pergunta:

Era uma novela também?

 

Resposta: 

Sim e eu morria de medo. Ele já tinha morrido naquela época, mas eu morria de medo daquele homem chegar na fazenda do meu pai e levar, matar todo mundo.

 

Pergunta: 

Era criança.

 

Resposta: 

Era. A gente ouvia que ele chegava nas fazendas e matava todo mundo. Se esse homem aparecer aqui estamos rodados.

 

Pergunta: 

E quando você morava no centro, fez cursinho e entrou na faculdade.

 

Pergunta: 

Entrei na faculdade e entrei na EAD também.

 

Pergunta: 

Como uma pessoa que ia ser padre teve vontade de estudar artes?

 

Resposta: 

Na verdade eu não queria ser padre. Eu queria estudar.

 

Pergunta: 

Já conhecia teatros?

 

Resposta: 

Via cinema. Eu achava cinema uma coisa mais maravilhosa do mundo. Eu achava que no Brasil eu jamais ia poder fazer porque aqui era muito ruim. Na minha infância eu achava que ser ator no Brasil era sinônimo de mediocridade. Como uma criança pode ter uma visão assim?

 

Resposta: 

Na sua cidade também pensavam assim?

 

Resposta: 

Não sei, porque não trocava idéias com ninguém. Era da minha cabeça, porque eu achava Hollywood, imaginem, eles sempre metralharam a gente com propagandas, com os filmes, com tudo. Você via aquela gente maravilhosa de carro. Você acha que eu vou ser ator neste país? Mas eu queria ser artista. Vi uma vez um circo teatro. Primeiro eu ia ao cinema e não entendia nada. Eu olhava aquilo e ficava deslumbrado, mas não entendia a história, não conseguia acompanhar. Era aquela história que falei que tinha muita dificuldade. Fui ao circo ver O Céu Unindo os Corações, que é famoso. Eu fiquei babando. Gente!, olhe que coisa mais linda do mundo. Era aquela coisa de circo mesmo, bem cafona. No fim os dois ficavam lá no fundo, não sei se eles morriam, mas fechava um coração. O céu uniu dois corações. Eu fiquei deslumbrado. Essas coisas me causavam uma emoção e pensava em um dia fazer a mesma coisa.

 

Pergunta:

Você entrou na faculdade quando?

 

Resposta:

Em 1965.

 

Pergunta:

Em odontologia?

 

Resposta:

Nas duas. Entrei no mesmo ano nas duas. Fiz vestibular para odontologia e fiz vestibular para a Escola de Arte Dramática também.

 

Pergunta:

Dava tempo de trabalhar?

 

Resposta:

Não dava. Teve uma época que eu fui, depois que eu terminei a EAD, eu comecei a fazer pesquisa de mercado. Aquelas coisas que você não tem vínculo empregatício, você pode fazer na hora que quiser. Eu fazia um pouco, mas vivia do meu gado. Meu pai me dava dinheiro.

 

Pergunta:

E como foi o curso na EAD, os professores, colegas, o curso?

 

Resposta:

Preciso falar que eu odiava odontologia porque me apaixonei pela EAD. Aquele prédio da Pinacoteca era só nosso, porque aquilo estava abandonado. Então, parecia que você estava num castelo. Você entrava naquele lugar e você estava em outro mundo. Aquela coisa era deslumbrante, tinha cheiro de teatro, aquele cheiro de velho. Teatro tem cheiro, porque acho que não ventila. Era deslumbrante. A entrada era pela Avenida Tiradentes. Tinha uma escadinha de madeira e era lá em cima que a gente tinha aulas teóricas, no primeiro andar. E ao lado dessa escada tinha outra entradinha, meio improvisada, porque não se acabou o prédio. Você entrava e não tinha trinco. Você atravessava o teatro e tinha outra porta que dava num pátio interno, que não tinha teto e nem nada e de vez em quando a gente fazia peças lá. Nós tínhamos uma rouparia com todas as roupas das peças que tinham feito até então, tinha a sala de esgrima. E fora do prédio construíram um galpão onde nós tínhamos o nosso refeitório. O Dr. Alfredo Mesquita dava uma sopa para os atores antes das aulas. E tinha uma parede que eles pintaram de branco e iam escrevendo todas as peças que eles iam fazendo. Será que essa parece existe ainda? Já devem ter derrubado, mas eu achava aquela parede fantástica.

 

Pergunta:

Você foi à Pinacoteca nesses últimos tempos?

 

Resposta:

Fui.

 

Pergunta:

O que você achou?

 

Resposta:

Achei uma tristeza porque não encontrava mais as coisas porque acho que eles colocaram porta aqui, parede ali e nada mais existia.

 

Pergunta:

Por que a entrada era pela Tiradentes e hoje não é mais?

 

Resposta: 

A entrada principal mudou. Acho que aquele lustre, não sei se você já viu, aquele lustre maravilhoso, ainda estava lá. A gente não entendia por que abandonaram aquele prédio.

 

Pergunta: 

E os professores da EAD?

 

Resposta: 

História de Teatro era matéria eliminatória. Se você não passasse no primeiro exame, você era eliminado. Era história do teatro, teatro grego que era em latim, com o Paulo Mendonça. O Paulo Mendonça era sobrinho do Dr. Alfredo, que era o diretor. O Paulo era jornalista, crítico de teatro e não sei o que ele faz agora. Tinha o Sábato Magaldi, que era crítico e dava aula de história do teatro brasileiro. Milene Pacheco era professora de dicção. Acho que ela se aposentou. Tinha a Amanda Cândido e o Dr. Alfredo que davam aulas de interpretação. Tinha o professor de esgrima cujo nome não me lembro e tínhamos aula de expressão corporal com Doroty Lerner. Eles convidavam diretores para fazer montagens como Antunes Filho, Altemar Guerra, Silney Siqueira, Rui Nogueira. Rui Nogueira, vocês não conhecem, ele era ator e depois se formou na EAD e trabalhou como ator um tempo e depois ele fez alguma coisa de direção e hoje não faz mais nada de teatro. Renata Palotino era professora, o Décio de Almeida Prado era professor também.

 

Pergunta: 

E foi nesse período que você se relacionava com o pessoal de Santo André?

 

Resposta: 

Com o Petrim, e o Guedes. A gente era da mesma classe, mesma turma. Tinha a Analy Alvarez, o Alexandre Dresley e a Sônia Guedes estavam um ano na frente.

 

Pergunta: 

Mas nesse período que você teve contato com eles, você chegou a vir para a região?

 

Resposta: 

Parece que a gente veio ver um espetáculo, Toda Donzela Tem Um Pai Que é Uma Fera. Acho que foi na época que a gente estava na EAD. Eu vim assistir no Teatro de Alumínio. Eu acho também que nós fizemos um recital de poesia no Ocara quando a gente estava na EAD. Tinha a Analy, eu, o Cleyton, que trabalhou no SBT e agora está aposentado. Nós fizemos um recital de poesia no Ocara.

 

Pergunta: 

Como era a sua vinda para a região do ABC?

 

Resposta: 

Eu sempre vinha de trem. Eu gostava de Santo André, mas não tinha uma visão crítica de Santo André. Sei que era uma região operária, muito mais operária, mas não percebia isso. Eu vinha para cá para ir à casa da mãe da Analy. Às vezes a gente vinha para almoçar. Eu acho que eu era bem alienado.

 

Pergunta: 

Vinha sempre de trem?

 

Resposta: 

Sempre de trem. Nunca vinha de carro.

 

Pergunta: 

Descia na estação do centro de Santo André?

 

Resposta: 

Descia lá. Era diferente também. Não tinha o Paço Municipal.

 

Pergunta: 

Você estudou na EAD. Nos anos 60 já havia experimentação do teatro de arena. O teatro de arena propunha um teatro bem diferente do que era ensinado na Escola de Arte Dramática. Como você via essas diferenças, como você encarava essa postura teatral?

 

Resposta: 

Eu sempre achei, com toda a minha inocência, que a EAD era bem conservadora. Não permitia certos textos. Tudo que a gente fazia tinha de passar pelo crivo deles. Não dava liberdade para a gente montar o que quiséssemos, experimentarmos o que quiséssemos. A gente não podia. Aí você vai ao teatro de arena e um personagem era feito por quinze atores. Tudo isso era deslumbrante, era fascinante. Cada um faz um pouco, cada um faz uma faceta do personagem. Mas a gente só achava interessante esse esquema curinga.

 

Pergunta: 

E esse pessoal de Santo André, Petrim, Sônia Guedes, eles gostavam dessa experiência do teatro de arena?

 

Resposta: 

Acredito que sim, porque a gente ia e gostava de assistir. Eu vi O Zumbi antes da EAD, eu acho, porque me lembro que fiquei deslumbrado. Eu ainda não estava na EAD. Depois já era coisa de cartucho, não tinha sistema de curinga. Eu acho que eles faziam o sistema curinga nos textos que eles escreviam, o Guarnieri geralmente escrevia. Não sei se o Boal escrevia. Acho que devia ser os dois que escreviam. Sei que o Boal dirigia. Toda experimentação, às vezes ficávamos chocados também. Uma época teve Navalha na Carne.

 

Pergunta: 

Plínio Marcos?

 

Resposta: 

Exatamente. Era um choque para nós, acostumados com o teatro conservador. Depois a gente ia quebrando as regras. Essa coisa de quebrar regras é não ficar na mesmice, experimentar. Acho que tem de experimentar.

 

Pergunta: 

E como você veio participar do GTC?

 

Resposta: 

Eu acho que vim a contragosto do pessoal. Eu era bonito na época e a Heleni achava que o galã tinha de ser eu. Nas reuniões o Petrim, o Guedes e a Sônia pegaram a Heleni, que estava vindo da França, com toda essa idéia de operários, de teatro para operários e pegaram a Heleni e fizeram um grupo no ABC. Pelo que eu sou, eles não me queriam. Até falei para o Tiago, porque meu talento vai de A a B, não sou talentoso. Acho que sou mais operário. Quando pego alguma coisa para fazer eu suo até conseguir fazer. Eles não queriam, mas a Heleni bateu o pé e eu entrei. Foi a minha entrada no teatro.

 

Pergunta: 

Vocês não tinham uma amizade na EAD?

 

Resposta: 

A gente tinha uma amizade na EAD, mas isso não significa que você seja respeitado como artista.

 

Pergunta: 

Eles queriam mais pessoas que já moravam na região?

 

Resposta: 

Não obrigatoriamente. Acho que eles queriam gente melhor mesmo.

 

Pergunta: 

Como foi esse contato com a Heleni Guariba? Você se lembra dela?

 

Resposta: 

A Heleni era uma pessoa encantadora, de um magnetismo. Ela era elétrica, era moderna, inteligente e brilhante. E isso deixava a gente deslumbrado. Eu, por exemplo, sempre fui muito tímido e talvez isso também tivesse feito com que as pessoas não me quisessem muito. Então eu não via muito a Heleni. Eu admirava demais, gostava dela. Era uma baixinha bonitinha, toda faceira e atrevida. Ela seduzia as pessoas sem vulgaridade. Ela era sedutora.

 

Pergunta: 

E o trabalho dela, como foi o processo de montagem do grupo?

 

Resposta: 

Ela era talentosa, inteligente e culta e se cercou de pessoas inteligentes. Quem ela chamou para fazer cenografia e as roupas? Flávio Império, que era o máximo na época. Eu quero um cenário deslumbrante, roupas deslumbrantes e eram. As roupas eram deslumbrantes, o cenário era deslumbrante. Não sei se já contaram como foi o cenário. O Teatro de Alumínio ia ser demolido depois da nossa peça, porque eles iam passar a Perimetral lá. Já que vão derrubar tudo isso, eu vou fazer o que quiser nesse palco. E ele não teve dúvida. Rachou o palco ao meio. Já contaram isso? Ele pegou o palco e cortou até o fundo, abaixou e deixou um degrau. As pessoas, para irem daqui para lá tinham de subir uma escada. Aqui em cima tinha a casa do burguês e embaixo vinham os criados. Os criados não podiam vir para cá. Já era uma coisa da encenação. Os criados não iam onde estava a aristocracia cultural. Isso, só essa chamada, esse convite que a Heleni fez para o Flávio já era maravilhoso. Ela estava chamando uma pessoa maravilhosa para entrar. Ela chamou um conjunto chamado Música Antiga, de música de câmara e chamou o Dráuzio Veloso para fazer a música. Ele fez uma música lindíssima para a peça. O elenco era bom, os atores eram bons. Veio a Sônia Braga, porque a gente não tinha a heroína. Chamaram duas Sônias para fazer o teste, uma loira e uma morena. A loira era de Santo André e essa morena era uma Sônia de São Paulo, que ninguém conhecia. A gente ficou deslumbrado com a Sônia Braga. Ela não era uma grande atriz, mas uma diva, uma estrela, desde pequena. A gente queria a morena e ficou a Sônia Braga.

 

Pergunta: 

Ela não era do ABC também?

 

Resposta: 

Parece que era, mas na época ela não morava no ABC. Ela tinha uns 17 anos.

 

Pergunta: 

Como acharam a Sônia Braga?

 

Resposta: 

Acho que a Heleni descobriu em algum canto.

 

Pergunta: 

Como eram os ensaios, como vocês trabalhavam e ensaiavam na época?

 

Resposta: 

Acho que o Petrim, quando ele começou o teatro profissional, parou de trabalhar. Eu ainda fazia faculdade. Nós ensaiávamos à noite e nos fins de semana à tarde.

 

Pergunta: 

E o financiamento?

 

Resposta: 

Era da Prefeitura. O Secretário de Cultura era amigo da Heleni. Ele acompanhava o trabalho, se empenhou. E tinha o Fioravante, em São Paulo, que era uma pessoa brilhante. Para a montagem, nesse aspecto, foi fácil. Nós não tínhamos salário, acho que não ganhamos nenhum tostão. Nós fizemos um mês de casa lotada. As peças só ficavam um mês em cartaz.

 

Pergunta: 

Quantas pessoas cabiam no teatro?

 

Resposta: 

Acho que umas trezentas, mas era bem baratinho o ingresso.

 

Pergunta: 

E a divulgação?

 

Resposta: 

A divulgação era feita por um pessoal que era conhecido do Muller, o Zé Armando, que também era muito ligado. Acho que ele se ligou. Tinha a Inajar, a Célia. Eles iam de escola em escola falando do espetáculo e vendendo o espetáculo.

 

Pergunta: 

Tinha cartaz?

 

Resposta: 

Não sei se tinha. Não me lembro.

 

Pergunta: 

Você se lembra das críticas feitas à peça? Teve carreira a peça? Vocês viajaram com ela?

 

Resposta: 

Nós fomos para São Paulo e ficamos uma semana no Teatro Anchieta, que tinha acabado de ser inaugurado. E me parece que a Fernanda Montenegro tinha inaugurado e o segundo grupo foi o nosso.

 

Pergunta: 

E as críticas?

 

Resposta: 

Falavam muito bem do espetáculo. Citavam nomes dos atores, da Sílvia, de todo mundo. Eu não era citado, mas estava bem.

 

Pergunta: 

Qual era o personagem?

 

Resposta: 

Se chamava Clipandro, que era o galã que fica paquerando a mocinha, que era a Sônia Braga.

 

Pergunta: 

E quando acabou o espetáculo, o que vocês fizeram?

 

Resposta: 

O Teatro Municipal ia ser inaugurado, então a Heleni pensou em montar um grande espetáculo. Ela pensou em montar a Ópera dos Três Milhões. Começamos a ensaiar, ela convidou o Peréio para fazer o Marc Navalha e a Sônia Guedes, que é cantora lírica, ia fazer a mãe, porque tinha duas mocinhas, que uma seria a Silvia e a Sônia Braga. Depois começou aquela coisa de a Heleni não querer acabar, a se enrolar nas guerrilhas urbanas.

 

Pergunta: 

Como era a ditadura militar?

 

Resposta: 

Essas coisas eram bem indistintas. A gente sabia muito pouco. A Heleni usava a minha casa, eu morava no centro e era casado com a Sílvia, e ela usava a nossa casa para guardar coisas dela. A gente ficava sabendo de coisas através disso. A Heleni deixava o material e sumia. Ela se envolveu com revolucionários, mas a gente não sabia de muita coisa. Depois ela foi presa.

 

Pergunta: 

Vocês chegaram a procurar notícias dela?

 

Resposta: 

Não. Ela saiu e pensamos que ela fosse sossegar. Ela não sossegou.

 

Pergunta: 

Fale por que você saiu do grupo.

 

Resposta: 

Eu não tinha mais interesse no grupo porque o Petrim começou a dirigir e eu não acreditava muito no Petrim, embora depois eu vi que o Petrim, como diretor, é bom. Mas eu não queria estar sob a batuta dele nesse espetáculo O Noviço. Eu não me lembro se ele me convidou ou não. Parece-me que sim, mas eu não queria e depois ele nunca mais me convidou.

 

Pergunta:

Perdeu contato?

 

Resposta:

Eu vinha sempre. Como eu estava casado com a Sílvia, eu vinha sempre porque a Sílvia continuou. Eu vi tudo que eles fizeram, só não fiz mais nada.

 

Pergunta: 

Você ficou um pouco de lado? (Inaudível)

 

Resposta: 

Sim. Eu acho que o GTC só passou a existir mesmo porque eles eram muito sérios, eles cuidavam da produção. A inauguração do Teatro Municipal foi um espetáculo. Um cenário deslumbrante e afinadíssima direção.

 

Pergunta: 

Por que você acha que acabou o GTC?

 

Resposta: 

Será que faltou liderança? O espetáculo ficava em cartaz um mês. Eu acho que começou a faltar dinheiro de patrocínio e a coisa começou a ficar difícil de segurar. Todo mundo cansado, sem dinheiro. Foi isso.

 

Pergunta: 

Você acha que o GTC tinha uma formação mais engajadora, não tivesse apenas alguns elementos, mas se o grupo tivesse trabalhado num sistema colaborativo, daria certo?

 

Resposta: 

O Petrim era um líder. O grupo se manteve por causa do Petrim. Ele é operário também, que quis segurar o grupo, mas ele não era ditador. Ele chamava as pessoas, as pessoas discutiam e nada era imposto. Vinha um diretor e o diretor fazia o seu espetáculo.

 

Pergunta: 

A Prefeitura não se metia no trabalho?

 

Resposta: 

Eu acho que eles não se metiam com a censura porque já tinha a censura na época.

 

Pergunta: 

E na sua passagem pela Fundação das Artes de São Caetano, o que você fez?

 

Resposta: 

Acho que foi em 1981. Eu vim parar aqui de repente. Eu nunca fiquei parado. Eu podia não estar em cena, mas fazia aula de dança, sempre me mexendo. Eu fui fazer aula de dança na época em que o TBC foi reestruturado pelo Abujanra, em 1980. Ele fez um teatro de arena para colocar para funcionar aquele prédio. E tinha aula de dança e fui lá ter aula de dança. Quem dava aula de dança? A Rosa, que era professora de dança na Fundação. E a Haydée também estava nessa aula. Ela perguntou se eu não queria ir para São Caetano porque eles estavam montando uma peça. Eu falei que queria e foi por aí. Fiquei conhecendo o professor Ulisses Cruz e aí teve todo o processo de criação.

 

Pergunta: 

Teve mudanças na Fundação das Artes dessa época para cá?

 

Resposta: 

Acho que ela continua igual. Ela tem aulas de canto. Uma menina que fazia aula de canto também entrou na peça. Era a Fortuna, de uma família israelita. Tinha aulas da dança, de canto, de teatro.

 

Pergunta: 

Era uma escola conceituada?

 

Resposta: 

Sempre foi conceituada. As pessoas sempre falavam bem da Fundação. Eu vinha muito para a Fundação para assistir a espetáculos. Via coisas boas da Fundação. Não me lembro do nome de nada, mas gostava da Fundação.

 

Pergunta: 

E os espetáculos do Ulisses Cruz, como eram?

 

Resposta: 

O Ulisses era uma pessoa muito preocupada com ele. O Ulisses era o diretor. Ele não tinha muito respeito pelo trabalho do ator. Queria que trabalhasse, que fizesse. Mas se ele quisesse cortar, ele não falava com ninguém. Você perguntou como era o ambiente no GTC, e aqui era meio ditatorial. Ele fazia o que ele queria mesmo. Sei que ele pegou um texto do Haroldo Moreira, do Bráulio Pedroso, do Nieschelin, o maestro, e do Geraldo Carneiro. O Ulisses achava que não estava legal e queria reescrever. Era um tal de reescrever e nós passamos um ano reescrevendo o texto. Tinha coisas boas escritas que não foram aproveitadas. De repente ele pegou o mesmo texto e foi cortando. Você ensaiava e no dia seguinte ele cortava porque não interessava e começava a inventar coisas. Ele queria fazer um espetáculo. O texto não estava interessando, mas ele queria fazer e acontecer. E aí não acontece. Se você não tem respeito com o autor, com os atores, não dá certo. E não deu certo. Nós fizemos o espetáculo um mês aqui, fomos para São Paulo. Em São Paulo foi uma tristeza, porque ele largou o espetáculo. Nós fomos ensaiar no Auditório Guiomar Novaes, que era um palquinho desse tamanho. A gente estava acostumado com um palco maior, então tinha de reensaiar alguma coisa. O Ulisses largou e falou: Vocês se virem. Foi um desgaste, mas mesmo assim eu durei, porque aí pus toda a minha paixão. Eu não consigo fazer teatro sem paixão.

 

Pergunta: 

Para finalizar, a gente pede para o entrevistado deixar uma mensagem para alguém que vá assistir sua fala, sua experiência de vida. Você poderia deixar uma mensagem?

 

Resposta: 

Não tenho muita sugestão. Para nós que fazemos teatro, as pessoas são tão apaixonadas e acho que as pessoas têm de fazer o que elas fazem com paixão. Se você quiser fazer as coisas com paixão, você vai ser feliz, com certeza. Dedique-se aos seus sonhos. Persiga os seus sonhos. Eu parei, mas eu quero fazer mais e agora estou me preparando para voltar. Eu vou voltar e tenho certeza que vou fazer, porque está no meu espírito achar que os sonhos têm de ser perseguidos.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul