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Sérgio Luiz Rossetti

Sérgio Rossetti veio para o projeto teatro  de Santo André, o GTC. Imagem do Depoente
Nome:Sérgio Luiz Rossetti
Nascimento:09/02/1932
Gênero:Masculino
Profissão:ator / dentista
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Ribeirão Preto (SP)

TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE SÉRGIO LUIZ ROSSETTI EM 06/07/2005

Depoimento de SÉRGIO ROSSETTI, 73 anos.

IMES – Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 06 de julho de 2005.

Entrevistadores: Vilma Lemos, Elias Estevão Goulart e Tiago Magnani.

 

 

Pergunta: 

Por favor, comece falando a data e o local de seu nascimento e um pouco sobre a sua infância.

 

Resposta:

Nasci em Ribeirão Preto, estado de São Paulo, em 9 de fevereiro de 1932. Antes de falar da minha infância, outro dia eu li uma frase em um jornal que achei muito interessante. Diz que quanto mais passa o tempo, mais distante vai ficando a verdade. Num certo sentido é real isso, porque você começa a misturar a lembrança verdadeira com a lembrança psicológica, emocional. A minha infância fora legal, eu acho, dentro das possibilidades daquela época. Cinco meses depois de eu ter nascido estourou a Revolução de 1932. Meu pai, naquela altura não tinha serviço, ele era sapateiro, e como não tinha serviço em Ribeirão Preto, ele foi trabalhar em Uberaba, justo no lado de Minas. Minha mãe ficou sozinha comigo e com mais duas irmãs pequenas minhas. Quando as tropas inimigas, ou brigadistas, não sei como se chamava, invadiram São Paulo, eles vinham de Uberaba e atravessavam Ribeirão. Então, minha família foi levada por uma outra família para uma outra casa, para a minha mãe não ficar sozinha. De início a minha infância já começou meio atribulada, mas nunca tive problemas. Embora fosse de uma família pobre, nunca tive problemas de relacionamento com eles. Eles eram italianos, sabiam ler e não sabiam escrever, mal assinavam o nome, mas acho que existia uma coisa que me parece que hoje nos pais está faltando em alto estilo, que é a sabedoria de vida. Eles tinham uma sabedoria muito grande. Estava dizendo para o Tiago que eles gostavam muito de arte. Naquela época, lá o que existia de arte, o que aparecia por lá era o circo-teatro, esse tipo de coisa, e alguns concertos, e eles não perdiam um e me carregavam junto. De repente eu já fui meio influenciado por eles nessa base. Independente disso, o rádio... Quando eu nasci o rádio estava há 10 anos no Brasil, porque o rádio começou em 1922 e estava em expansão a Rádio Nacional e Mayrink, do Rio de Janeiro, porque em São Paulo eu não sei por que a gente não pegava as rádios de São Paulo. E a minha mãe gostava das novelas e a gente ouvia muito novela. Acho que isso me ajudou no uso da imaginação, porque você ouvia e era obrigado a imaginar o que você estava ouvindo, e me introduziu também em um outro mundo, que é a música clássica, porque eles usavam muito a música clássica como fundo musical das novelas, ao contrário de hoje nas telenovelas, que eles não usam. Foram as orquestras que as emissoras tinham. Não eram apenas programas populares, com Emilinha Borba e Marlene, que foi um pouco mais tarde, mas eles tinham orquestras sinfônicas que eram contratadas. Havia determinados programas com seleção de músicas. Acho que tudo isso foi me levando para um determinado nível. A minha mãe, principalmente, forçava muito a gente a ler. E a escola naquela época era diferente. No grupo escolar, como eram chamados os quatro primeiros anos, você acabava lendo José de Alencar e uma série de outros autores que hoje a turma vai ler sei lá eu em que época. Eu tive uma infância muito legal e que me serviu como uma boa base.

 

Pergunta: 

Os seus pais eram imigrantes italianos de que região?

 

Resposta: 

Vêneto.

 

Pergunta: 

Vieram por quê?

 

Resposta: 

Fugindo da seca, da pobreza, como hoje os nordestinos fogem do Nordeste.

 

Pergunta: 

E vieram para onde? De Santos foram direto para Ribeirão Preto?

 

Resposta: 

Olha, isso eu não sei exatamente, mas me parece que sim. Pelo menos eles ficaram naquela região. Meu pai ficou mais em Ribeirão Preto, porque os meus avós ficaram em Tambaú, tanto que tenho vários parentes enterrados lá, e alguns vivos também. Meu pai foi para Ribeirão Preto, não me pergunte por que pois eu não sei.

 

Pergunta: 

Vocês falavam italiano em casa?

 

Resposta: 

Não. Eles vieram para cá muito pequenos e meu pai entendia um pouco, minha mãe também. Como eles eram muito pobres, entendia daquela época que eles não falavam muito do passado. O que me lembro daquela época seria uma coisa mais ou menos assim, a minha mãe começou a trabalhar logo cedo como empregada, babá, etc., logo cedo, mas cedo mesmo, com 8 ou 9 anos. Meu pai também foi assim. Não sei se ele trabalhou em fazendas de café, mas também não sei por que ele foi ser sapateiro. Ele ficou trabalhando em fábricas. Lá eles eram obrigados a falar português. Mamãe ficou trabalhando durante muitos anos, mais de 10 anos, na casa de uma senhora de Ribeirão Preto, que era a modista da cidade e ela aprendeu a costurar com essa senhora. A grande sociedade de Ribeirão Preto fazia os vestidos com essa senhora, dona Catarina Zeri, também descendente de italianos. Aconteceu uma coisa engraçada, porque mamãe, apesar de não saber escrever, conversava muito bem e normalmente as pessoas achavam que ela era descendente de portugueses e não de italianos. Eu consigo ler italiano, mas não consigo falar.

 

Pergunta: 

O resultado dessa mistura, a comida, havia alguma coisa especial? E a polenta, você pode contar como era?

 

Resposta: 

Era cortada com fio. Naquela época também, a guerra começa em 1939 e eu estava com 7 anos de idade, a Segunda Guerra Mundial. E o Brasil, embora pouca gente fale isso, não sei por que, a gente sofreu muita influência da falta de comida. Você tinha falta de farinha de trigo, de açúcar, de óleo, de pão, obviamente. E eles faziam uma série de misturas no pão, com farinha de mandioca, com fubá, e eram muito ruins os pães. A comida era muito difícil. Eles distribuíam senhas, eu até ia buscar na Prefeitura, não me lembro se de mês em mês, de acordo com o número de pessoas na casa. De acordo com aqueles talões que você retirava a quantidade de açúcar, de farinha, de óleo. Para a gente era muito mais fácil, como eles eram italianos e já sabiam, era fazer polenta, porque pelo menos o fubá existia. Eles faziam a polenta e a gente comia no café da manhã, na janta, no almoço, praticamente substituindo o pão que, como disse, era muito ruim. E uma coisa engraçada que percebi uns 10 anos atrás, sem saber eu fui criado com caldo de mocotó. Você dá risada, mas é verdade. Papai ia comprar carne, não era só ele, mas todo mundo que ia comprar carne e o açougueiro, para se livrar do osso que era cortado, eles davam para os fregueses, e a mamãe fazia sopa desse osso. Obviamente com mocotó. Tenho umas ligações meio estranhas de culinária. Embora eu tenha bastante diferença, mas no fundo acabava sendo mais ou menos assim.

 

Pergunta: 

O seu pai foi para Uberaba e a sua mãe ficou?

 

Resposta: 

Sim.

 

Pergunta: 

Quanto tempo eles ficaram distantes?

 

Resposta: 

Não sei exatamente, mas deve ter sido uns 8 a 10 meses.

 

Pergunta: 

Ele retorna a Ribeirão Preto?

 

Resposta: 

Sim, e depois não sai mais.

 

Pergunta: 

Ficou como sapateiro?

 

Resposta: 

Sim.

 

Pergunta: 

Fale um pouco sobre a sua escolarização, como foi aprender a ler, os professores, a escola, como era?

 

Resposta: 

Eu tive uma fase na minha vida em que era meio quietão. Não parece mas é verdade, ninguém acredita. Eu era quieto, meio tímido, não falava quase. Não sei em que época foi, mas foi mais ou menos na adolescência. Mas de pequeno eu era da pá virada, e mamãe não me agüentava. Existia um detalhe. Tinha uma diferença de idade entre mim e a minha irmã mais nova, e que é mais velha que eu, de 14 anos, e depois eu tive mais uma irmã de 19. Meu contato com elas foi pequeno, porque como elas estudavam, essa minha irmã mais velha, em 1931 se formou como professora, mas naquela época era diferente o tipo de estudo, era o ginásio de cinco anos, depois fazia um exame e ficava como professora. E logo em seguida ela já foi trabalhar fora. O meu contato com ela era praticamente nas férias, com essa irmã mais velha. Com a outra não foi tanto, mas lá pelas tantas, ela também se forma e também sai de casa, porque naquela época os professores tinham uma série de escalas que tinham de fazer, substituir não sei quantos anos, depois iam ser professoras efetivas, mas como as escolas eram poucas, então em Ribeirão Preto não tinha muitas escolas, ou escolas suficientes para todo mundo. Elas eram obrigadas a sair. Essa minha irmã mais velha foi para Mirassol, não sei em que ano, mas acho que foi em 1940, 1942, e ela foi trabalhar numa escola em uma fazenda de uma antiga família da região, que até depois um deles foi deputado, que é a família Zancaner, que existe até hoje naquela região. E ela contava que ainda tinha mata na fazenda e tinha onça e foi mais ou menos uma época em que para aquela região tinham ido os imigrantes japoneses. Ela contava do choque cultural entre os imigrantes japoneses e a população de Mirassol, de São José do Rio Preto, que naquela época deveria ser igual em todos os lugares, que acusavam eles de tomar banhos todos juntos, todos pelados. Hoje a gente sabe que não é bem assim, mas naquela época eles falavam isso. Era um escândalo. Imagina, em 1939, 1940, sessenta anos atrás, era um terror.

 

Pergunta: 

Fale o nome dos seus pais e das suas irmãs.

 

Resposta: 

Meu pai se chamava Emílio Rossetti e minha mãe Maria Trinca. Naquela época, quando eles se casaram, não era obrigatório levar o nome do marido, então ela nunca levou. A minha irmã mais velha se chamava Laura Maria Rossetti, porque já é falecida, e a outra mais nova, que é meu broto, com 87 anos de idade, que mora em Batatais, se chama Ana Rosa Rossetti Pupi.

 

Pergunta: 

Como era sua escola?

 

Resposta: 

Eu era muito bonzinho, como te disse, minha mãe era costureira e trabalhava em casa. Um detalhe: papai era sapateiro, mas não em fábrica, ele trabalhava em casa também. Ele ia pegar o serviço na fábrica e levava para casa e trabalhava num barracão no fundo de casa onde ele trabalhava.

 

Pergunta: 

Ele fazia para a fábrica?

 

Resposta: 

Sim. Ele era especialista em sapatos finos daquela época. Então ele ganhava mais do que a média, mas tinha menos serviço. No fundo dava na mesma em termos de ordenado. E era pouco naquela época. A minha mãe era costureira e trabalhava em casa também. Então, eu sempre tive meus pais junto o tempo inteiro, 24 horas por dia praticamente. Eu ia para a escola e, como era muito bonzinho, eles acabaram arrumando o jardim da infância, porque aos 5 anos de idade eu já devia ser um demoninho dentro de casa. Não me lembro, mas devia ser. Eles me puseram para sossegar um pouco, para eles terem um tempo de tranqüilidade dentro de casa. Mas naquela época você não aprendia, você não era alfabetizado no pré-primário. Você ia lá para dormir, brincar. Se você aprendesse alguma coisa, tudo bem, mas você não era forçado a nada. Depois vim fazer o grupo escolar no 5º Grupo Escolar de Ribeirão Preto, deve ter algum nome hoje, que não sei qual é, mas naquela época era numerado, que não era muito perto de casa. Terminado o primário eu prestei a admissão, porque era obrigado para você entrar no ginásio do Estado, porque só tinha um ginásio do Estado.

 

Pergunta: 

Como era o nome? Era Antoniel Mota?

 

Resposta: 

Naquela época era Ginásio do Estado, porque era o único que tinha na cidade. Acho que era Prudente de Morais, Campos Sales, alguma coisa assim. Acho que o prédio deve existir até hoje. O Antoniel Mota era mais em cima, na Nove de Julho. Você conhece Ribeirão? Eu fiz sete anos de ginásio do estado, os quatro anos do ginásio e três do colégio. Até estava contando uma coisa que acho interessante, quando falam da diferença de escolaridade, de ensino daquela época para hoje, eu nunca me esqueci da análise, onde você tem de descobrir o sujeito, o predicado, o verbo, etc., oração principal, segunda oração. Eu nunca me esqueci do que caiu para eu fazer a análise, que era assim: Quem vende cabritos e cabras não tem, de algum lugar vêm. Agora você imagina você fazer uma análise disso com 11 anos de idade. E era uma coisa engraçada, porque da mesma forma que hoje se fala que na USP só entra filhinho de papai, naquela época se dizia a mesma coisa do Ginásio do Estado de Ribeirão. Só filhinho de papai que entrava. Na minha classe, que era interessante porque era classe feminina e classe masculina, e inclusive divididas ao meio. Existia um muro para no recreio os meninos ficarem de um lado e as meninas de outro. E da mesma forma dentro do colégio uma ala era masculina e outra ala era feminina. No colegial já juntava mais porque eram muito poucas mulheres, então não dava tanto. Daqueles 40 alunos da minha classe, mais da metade era de gente rica, realmente.

 

Pergunta: 

O senhor sofreu a ação da palmatória?

 

Resposta: 

De jeito maneira. Só ouvi falar disso depois e não vi na escola.

 

Pergunta: 

E leituras da escola?

 

Resposta: 

De qual delas?

 

Pergunta: 

Desse período de formação, no ginásio e colégio.

 

Resposta: 

Eu tinha uma professora de português, dona Luci Ruza, que era uma mulher muito inteligente e muito firme. Então, o que a gente estudava, não estava escrito no gibi. Não era como hoje, que você tem de apresentar um resuminho de livro. Você tinha de estudar mesmo, porque era baseado em Machado de Assis. Depois ia a literatura inglesa. Eu tenho fascínio até hoje pelas irmãs Brontë, Charlotte e Emilly, por causa do professor, “O Morro dos Ventos Uivantes”. Não sei se são tão bons os livros assim, mas sei lá, aquele ambiente em que elas viviam, a história que elas contavam, da Inglaterra, o irmão jovem que elas tinham, que era viciado em drogas já naquela época, e elas morrem muito jovens de tuberculose, o pai que era pastor evangélico. Tudo isso mexeu muito com a minha imaginação, esse tipo de relacionamento.

 

Pergunta: 

Estudava-se inglês no ginásio e no colégio e literatura inglesa?

 

Resposta: 

Sim, francês e espanhol também. Eu tinha  filosofia no colégio também.

 

Pergunta: 

Antes de entrar na sua formação da faculdade, gostaria de saber se na profissão do seu pai, que era na própria casa, você tem lembranças com relação à profissão dele?

 

Resposta: 

À cola? Era uma coisa engraçada. Era um cheiro de cola, mas não essa cola que a molecada cheira hoje. É que ele fazia a cola em casa, feita com água, vinagre e vidro. Sei que ele fazia essa cola em casa, misturava tudo, parecia um mingau. Então, aquele cheiro do vinagre ficava muito forte na cola. Ele colava a sola, porque não tinha borracha na época. Uma coisa que me lembro da profissão dele, ele tinha um tipo de uma fôrma de ferro que parecia um tripé, e cada um deles tinha um tamanho diferenciado, onde ele encaixava a ponta do sapato. Existia, não lembro bem a mecânica, ele passava a cola na parte de baixo e vinha com outra sola por cima. Ele tinha uma correia que dava exatamente entre o pé, era fechada, e o sapato. Ele forçava aquela correia em cima do sapato e aquilo ficava preso no joelho dele através da correia. Essa correia servia, de vez em quando, para me dar uma correiadas naquele lugar macio, quando ele perdia a paciência comigo. Minha mãe nunca me bateu, mas meu pai, de vez em quando sim.

 

Pergunta: 

Como foi fazer faculdade? Porque não era usual. E que faculdade você fez?

 

Resposta: 

Aconteceu um negócio engraçado. Às vezes eu falo mais da minha mãe do que de meu pai, mas realmente, se fosse pelo meu pai, acho que nós teríamos sido sapateiros, e costureiras as minhas irmãs. A minha mãe que sempre brigou mais para os filhos estudarem. Eu tenho impressão que foi mais pela formação dela, aquilo que eu falei, que ela trabalhava na casa da madame costureira e por influência das outras pessoas. Sei que ela que brigava, porque papai achava que era besteira. Mas todos nós estudamos em colégios do Estado, porque não tinha como. A minha irmã fez o exame de suficiência e foi o último ano que teve os cinco anos de ginásio e depois fazer esse exame. Eu nem tinha nascido nessa época, em 1931. Quando minha segunda irmã foi se formar professora, a grande profissão do momento, não tinha escola normal no ginásio do Estado ainda. Acho que nem colegial tinha. Ela foi obrigada a estudar num colégio particular, o Colégio Santa Úrsula, que nem existe mais em Ribeirão Preto, que era grande concorrente das Irmãs Auxiliadoras. Era ensino particular. Meus pais tiveram de se virar para pagar e havia toda parafernália de uniforme, chapéu, saia pregueada, um monte de coisas, fora coisas que tinha de dar durante os três anos. Sei que sozinhos eles agüentaram o tranco. Quando eu fui, terminei o colegial, eu não sei por que escolhi odontologia na faculdade. Tenho impressão que era porque não tinha muita opção. A única faculdade lá era farmácia e odontologia.

 

Pergunta: 

Da USP?

 

Resposta: 

Não, era particular. Era ao lado da igreja, da catedral. Era particular e tinha de pagar. Eu não poderia vir para São Paulo porque eles não teriam como me agüentar aqui em São Paulo, para procurar outra faculdade. As minhas irmãs, a minha segunda irmã já era casada e a mais velha era solteira, então elas que financiaram meu estudo, porque nessa altura meus pais, quando eu nasci minha mãe tinha 39 anos, já não era uma criancinha, e meu pai tinha 48 anos. Quer dizer, com 18 anos, quando entrei na faculdade, que naquela época eram três anos só, entrei com 18 e minha mãe já estava com 57 e meu pai com 66 anos, então minhas irmãs, principalmente a Laura, que financiou os meus estudos na faculdade de odontologia. Eu não tinha grandes amores, mas tudo bem, mas depois me encheu a paciência. Eu montei consultório, tive consultório 15 anos, mas chegou um ponto em que, ou eu parava de trabalhar como dentista ou ia ser internado num hospício.

 

Pergunta: 

Lá em Ribeirão Preto?

 

Resposta: 

Não. Eu acabei de me formar e vim para São Paulo.

 

Pergunta: 

Conte um pouco sobre a vinda para São Paulo.

 

Resposta: 

A gente achou que em Ribeirão Preto não teria muita chance de progredir, porque Ribeirão Preto depois da queda do café, lá sempre foi uma cidade cafeeira, com muitos fazendeiros, e era uma cidade de estudantes e praticamente não tinha indústria e comércio. Com a queda do café, a cidade, se não andou para trás, pelo menos parou. Ela não progrediu. E isso durou muitos e muitos anos. Muito mais tarde que ela voltou a ter um progresso maior, mas nisso eu já tinha saído de lá. Eu me formei em 1952 na faculdade, 50 e poucos anos. Eu me formei muito ainda criança, com 21 anos. Eu costumo dizer que era um idiota, um bobo. Naquela época com 21 anos a gente se achava muito sabidos, mas a gente era um bando de débeis mentais. Hoje, quando volto à lembrança e vejo, meu Deus, como a gente era ingênuo. Eu vim para São Paulo.

 

Pergunta: 

Com a família?

 

Resposta:
Não. Vim sozinho, com a cara e a coragem, com pouco dinheiro, arrumei uma pensão e fui caçar emprego.

 

Pergunta: 

Onde era a pensão?

 

Resposta: 

Na Liberdade, na Rua Dr. Fagundes. Engraçado que nessa pensão que eu morei, uma ou duas casas para cima, quem morava lá eram os pais daquele governador, o Lucas Nogueira Garcez. Um irmão dele ainda morava lá junto com os pais e ele sempre estava lá. Era bem protegida aquela pensão, principalmente quando ele ia, que ia com a escolta toda. Tanto que eu fiquei conhecendo o governador. Por intermédio de um deputado que fiquei conhecendo pelo irmão do Garcez, quando a Helen Keller veio ao Brasil e teve uma recepção, a esposa do Garcez deu uma recepção no Palácio dos Campos Elíseos. Eu fui acompanhando a filha desse deputado, então conheci Helen Keller pessoalmente. Ela já tinha bastante idade naquela época, ela era cega, surda e muda, mas ela fez um trabalho muito grande. Eu fiquei um tempo em São Paulo e depois um dentista me perguntou se não queria trabalhar em São Bernardo. Como eu estava ganhando pouco, porque trabalhava pouco também, eu aceitei e vim para São Bernardo no fim de 1953, mas não mudei para São Bernardo. Eu mudei para São Bernardo no final de 1954.

 

Pergunta: 

Você ia e vinha? Como?

 

Resposta: 

No ônibus. Era meio sacolejante, porque a Via Anchieta fazia pouco tempo que tinha sido inaugurada e nem toda ela estava pronta. A cidade era tudo de paralelepípedo.

 

Pergunta: 

Quanto tempo levava esse trajeto?

 

Resposta: 

Eu não me lembro, mas devia ser mais de uma hora, porque ia parando. Existiam duas companhias de ônibus urbanos na cidade, o Amarelinho, porque era pintado de amarelo, e outro, do Romano. Uma hora era um, outra hora era outro. Quando o Romano ia para São Paulo, o Amarelinho estava voltando. Uma companhia só não ficava com a linha. Então você sabia que o Amarelinho atrasava mais que o do Romano, então você procurava dar um jeito de o horário bater. Em 1954, eu me mudei para São Bernardo.

 

Pergunta: 

Em que lugar?

 

Resposta: 

No fim da Marechal Deodoro, a rua principal. Por incrível que pareça, praticamente no ponto final e garagem do Romano e do Amarelinho. De um lado ficava o Amarelinho e em frente ficava o ônibus do Romano, onde hoje é em frente aquela escola Cacique Tibiriçá. Mas lá ficou diferente e não existe mais isso. Em 1955 minha família mudou-se para cá.

 

Pergunta: 

Descreva como era a cidade nesse período em que você chegou e como era o movimento artístico, o que se tinha de arte aqui.

 

Resposta: 

De Santo André não posso falar nada porque você nem sabia que existia Santo André, você nem vinha para cá. Tudo que você tinha de fazer, você tinha de fazer em São Paulo, inclusive compra de material odontológico, tudo em São Paulo.

 

Pergunta: 

E São Bernardo?

 

Resposta: 

São Bernardo era um ovinho.

 

Pergunta: 

E como era a rua em que você morou, a Marechal?

 

Resposta: 

A Marechal tinha duas mãos, praticamente a única rua. A Jurubatuba não existia. A João Pessoa tinha só um pedaço, a Faria Lima nem pensar, era um córrego, tinha o campo de futebol no centro. Era muito engraçado, porque a gente tinha dois cinemas, o Cine São Bernardo e o Cine Anchieta. O Cine Anchieta era muito grande. Era tão grande que geralmente os comícios políticos mais elegantes eram feitos lá. O Jânio Quadros fez comício lá, o Lauro Gomes.

 

Pergunta: 

Quantas pessoas cabiam?

 

Resposta: 

Devia ser mais de mil. Se vocês quiserem ter uma idéia, que duvido muito que consigam ter, porque hoje ele foi reformado, o Anchieta é onde hoje é a Loja Riachuelo e o São Bernardo é onde hoje tem um bingo. Era uma coisa interessante porque a Igreja Matriz ficava no meio e se você ficar de costas para a Matriz à direita ficava o Cine Anchieta e à esquerda o Cine São Bernardo. Mais para frente existia a pracinha, que depois virou Praça Lauro Gomes, etc. Mas o que acontecia? Entre uma sessão e outra, porque aos domingos existiam duas sessões no Cine Anchieta, às sete e às nove, os garotões e as garotonas passeavam, faziam o footing entre o Cine Anchieta e o Cine São Bernardo. Os rapazes ficavam todos encostados na parede, com o pezão na parede, e as meninas passavam. Até tinha umas piadas, que não dá para contar, da Rosa, que era uma famosa italiana que ia passear na cidade, mas é com palavrão. Era assim. As namoradas até determinado ponto iam, mas dali para frente não iam porque não tinha iluminação. E imagina se a família descobrisse, seria um escândalo. Outra coisa interessante que existia, aquela turma que morava no Batistini, São Bernardo era chamada de A Vila, e tinha os lugares onde as pessoas moravam, os italianos, etc., e eles vinham de carroça e geralmente de tamanco. O sapato era levado numa bolsa. Quando eles chegavam na vila, as meninas colocavam o sapato. Quando terminava, elas tiravam o sapato e colocavam o tamanco, porque era tudo sem calçamento e tinha de andar toda a vida. Era outra vida. Às vezes eu começo a contar umas coisas daquela época, de 1950, 1954, de Ribeirão Preto e daqui, principalmente os jovens me olham como seu eu fosse um ET. São coisas que eles não conseguem entender. Não que sejam burros, não é isso, mas a realidade deles é tão diferente, porque houve uma modificação social tão grande nesses 50 anos, de 1953 até agora, que foi um negócio muito violento. 

 

Pergunta: 

Que filmes vocês viam? Eram lotadas as sessões, as pessoas tinham uma roupa especial?

 

Resposta: 

Sim. Falando de São Bernardo ou de São Paulo? Em São Bernardo tinha, mas não era um rigor tão grande como em São Paulo, que eu me lembro, que você não entrava nos cinemas de São Paulo, os homens, se não estivessem de terno e gravata. Era muito engraçado, porque as mulheres, além de tudo, iam de luva, sapato de salto alto, chapéu. Era como se fossem a um casamento, hoje. Só não era vestido longo. Em São Bernardo era mais ou menos a mesma coisa, só que não era tão rigoroso assim. Naquela época devia ser impensável você entrar de bermuda. Nem existia, ninguém nem usava.

 

Pergunta: 

O ingresso era acessível?

 

Resposta: 

Era sim. Lotava. A semana inteira tinha sessão. No sábado não sei se tinha duas, não me lembro, mas no domingo é certeza que tinha duas. E tinha a matinê, que era um outro filme, outro seriado.

 

Pergunta: 

Seriado de quê?

 

Resposta: 

Flash Gordon. Era muito divertido. É ótimo você ver aqueles seriados daquela época porque hoje é muito bonito por causa da tecnologia, mas se você pensar como deveriam ser feitos aqueles filmes, devia ser uma loucura. E mesmo se você procurar, não precisa chegar naquela época, mas estava vendo no Canal 21 Jornada nas Estrelas, você nota direitinho pedras de papelão. Era a forma como eles faziam. Hoje é tudo no computador.

 

Pergunta: 

Que filmes fizeram sucesso, quais artistas?

 

Resposta: 

O Rock Hudson era o grande galã daquela época. Isso não era nem em 1950. Aquelas comédias do Rock Hudson; fez filmes românticos com a Doris Day. Era mais por aí, filmes românticos ou as grandes produções, “O Manto Sagrado”, etc. Aí teve de ter uma adaptação de tela, o Cinemascope.

 

Pergunta: 

O que era o Cinemascope?

 

Resposta: 

Antigamente a tela, não sei que tamanho seria. Esse fundão vamos dizer que era a tela do cinema, retona, não muito maior do que isso. Alguns cinemas eram um pouco maiores, mas não era muita diferença. Com o Cinemascope, foi uma invenção que não sei como funcionava tecnicamente, mas me parece que eles usavam mais uma câmera, tipo uma na esquerda e outra na direita, eu acho que é isso, mas só que a tela tinha de ser em curva e ela era muito mais comprida do que alta, dentro dessa curva que existia. O som também foi modificado, era o começo do Hi-Fi, e tinha efeitos. Um efeito que vi no Cine República, esse “O Manto Sagrado”, que foi o primeiro filme feito em Cinemascope, que tinha uma grande cena, que ficava todo mundo esperando, que é quando o mocinho encontra com um cara depois da crucificação de Cristo, encontra um camarada e ele fala alguma coisa naquelas ruelas de Jerusalém e ele vai e pergunta para o cara: Quem é você? Judas. Há um ruído de trovão, como se o mundo despencasse, e eles aproveitavam todos os alto-falantes que eram esparramados, porque na realidade antes os alto-falantes eram na tela só. Aí já não, era no cinema inteiro. Quando deu esse Judas, era de estremecer. Foi essa a primeira coisa, depois eles fizeram um monte de coisa, Vista Vision, que era uma sofisticação, com tela panorâmica.

 

Pergunta: 

Fale um pouco dos programas de rádio da região.

 

Resposta: 

Com toda sinceridade, eu nunca ouvi rádio do ABC. Praticamente existia uma rádio, mas você não conseguia pegar. E a programação, você nem tomava conhecimento que existia rádio no ABC. Talvez as pessoas muito interessadas saibam, mas eu nunca me interessei.

 

Pergunta: 

E a TV?

 

Resposta: 

Ainda estava no preto e branco. A TV veio em 1952, eu acho. Eu assistia muito TV de vanguarda, que adorava, já naquela época. Foi quando vi na televisão o Lima Duarte, a Laura Cardoso, que eram os grandes nomes, Lídia Aguiar. Era muito legal. Eles passavam aos domingos. Eles revezavam, um domingo era TV de Vanguarda, no outro era TV de Comédia, onde eram levadas peças de teatro. Era tudo em preto e branco e ao vivo. Se errasse, estavam perdidos. Eles tinham de tratar de consertar. Não existia videoteipe. Se você ouvir depoimentos da turma dessa época, eles contam histórias muito engraçadas, de improvisação.

 

Pergunta: 

Como um dentista foi entrar no teatro, trabalhar no teatro?

 

Resposta: 

Olha, nem eu sei. De repente despenquei. Acho que foi o teatro que entrou na minha vida do que eu no teatro. Eu comecei com teatro amador, com o Regina Paces, entrei meio sem querer e fiquei por lá e sem querer também, uns quatro anos depois, acabei pisando no palco, porque durante esses quatro anos eu varria o chão, abria cortina, fechava cortina, mexia com luz, pintava. Lá em São Bernardo, o único local que você tinha para apresentar era no Colégio São José e era um salão muito precário. Não tinha muro, o palco era pequeno, e você tinha de fazer uma série de adaptações. A primeira pessoa que me deu um pouco de noção de iluminação, por incrível que pareça, foi o Antonio Abujamra. Um dia encontrei com ele em São Bernardo e estava contando isso para ele e ele disse: Mas eu era mestre de iluminação também. É que ele veio dar aula de teatro aqui na  Faculdade de Direito de São Bernardo. Ele deu aula de teatro por muito tempo aqui. Ele montou, não lembro se uma ou duas peças, e quando ele foi apresentar no Colégio São José, ele viu a precariedade da coisa e conseguiu, não sei como, através do Antonino Assumpção, refletores, e montou lá. Só que ele precisava de gente para ajudar, porque ele era sozinho. Lá fui eu e o Assumpção. Aí que comecei a me interessar por iluminação, por causa dele. Ele lembrava de ter dado aula na faculdade, mas não lembrava desse detalhe da aula de iluminação.

 

Pergunta: 

E como foi a experiência de pisar num palco, como ator?

 

Resposta: 

A primeira vez eu quase morri. Eu entrei meio de bobeira, porque o rapaz que ia fazer aquele papel, mais ou menos vinte dias antes, desistiu. A gente ia participar de um festival de teatro e alguém ia ter de fazer e lá fui eu jogado para dentro da fogueira.

 

Pergunta: 

Qual era o grupo de teatro?

 

Resposta: 

O Regina Paces, da Hilda Breda, Ana Maria Medici, que vocês já conhecem. Aí eu fui, mas eu tremia. Eu fiquei louco para não esquecer a fala. Mas acho que acabei fazendo a coisa relativamente bem, porque no final do festival eu acabei ganhando o prêmio de melhor ator coadjuvante, o Prêmio Governador do Estado, o qual recebi das mãos... Como chamava o Governador daquela época? No palácio Campos Elíseos. E aquilo dava direito a você de não pagar a Escola de Arte Dramática, a EAD, que naquela época era na Tiradentes. Eu aproveitei para estudar. Aproveitei a chance, fechei o consultório, mas continuei trabalhando como dentista ainda porque eu já tinha entrado para o Estado e trabalhava em escola.

 

Pergunta: 

Como dentista?

 

Resposta: 

Sim. Eu trabalhei muito com crianças. Eu me dava melhor, por incrível que pareça. Eu tenho a impressão, quando eu faço uma análise de por que não gostei da odontologia, eu acho que a parte comercial da odontologia foi o que meu deu uma ojeriza muito grande foi. Eu não estava preparado para aquilo, não sabia mexer com aquilo, odiava e morria de vergonha de cobrar. O cara não me pagava e eu não sabia como cobrar. Eu tinha de dar um orçamento e não sabia como fazer. Era um negócio terrível.

 

Pergunta: 

E a EAD?

 

Resposta: 

Entrei em 1968 e terminei em 1970.

 

Pergunta: 

Mas continuou a trabalhar com teatro amador?

 

Resposta: 

Sim. Depois eu fiz com o Celso Nunes, no Estúdio São Pedro, “O Interrogatório”, de Peter Weiss, depois fizemos “O Cândido”, do Voltaire, depois entrei, ainda em São Paulo, o SESC tentou fazer um teatro popular que era levado em praça pública, entrei nisso, que era o Sofredini que dirigia, com a Noemi Gerbelli, a Rosi Campos começou nesse grupo, que era um espetáculo do Antonio José, “O Judeu”, sobre a história de Dom Quixote e seu criado Sancho Pança. Depois de “O Cândido”, vim fazer o GTC, e fiz “Aleijadinho Aqui e Agora”, “O Evangelho Segundo Zebedeu”, depois fui para o SESC, depois fiquei um tempo sem fazer nada, depois dei aula na Fundação das Artes de São Caetano, não gostei e pedi dispensa e caí fora.

 

Pergunta: 

Fale sobre essa experiência do GTC, a platéia, o público, as dificuldades.

 

Resposta: 

Eu sempre fui muito desligado dessa parte administrativa. Eu nunca me meti e nunca gostei, nunca fez muito o meu gênero. Mas eu sei que a gente tinha as platéias sempre lotadas. Eles levavam colegiais durante a semana. A gente fazia de quarta-feira para frente os espetáculos. Não me recordo se a gente fazia dois espetáculos aos sábados e domingos.

 

Pergunta: 

Para jovens estudantes da região?

 

Resposta: 

Sim, e estava sempre cheio. Mas tinha a parte também que não era, que era do público em geral.

 

Pergunta: 

Os estudantes iam ao teatro ou vocês iam?

 

Resposta: 

Eles iam ao teatro, no Teatro Municipal de Santo André.

 

Pergunta: 

Antes de entrar no GTC, você se lembra da inauguração do Teatro Municipal? Como foi?

 

Resposta: 

Eu era meio desligado deles. Eu conhecia o Petrin, a Sônia, mas eu não fazia parte do grupo. Eu fui lá como espectador. Era um espetáculo belíssimo, com uma grande cenografia. Vocês devem saber que lá são três palcos, dificilmente os dois palcos laterais são abertos, mas para a inauguração, obviamente, estavam abertos, para todo mundo apreciar. “A Guerra do Caça Cavalos” se passa numa fazenda, ou qualquer coisa parecida a um casarão; e esse casarão existia no palco principal, depois tinha todo o resto dos lados. Era um cenário monstruoso, mas eu não me lembro do espetáculo. Eu me lembro que gostei, mas se você me perguntar detalhes, realmente não lembro. O que me gravou mais foi “Jorge Dam Dam”, lá no Teatro de Alumínio, que era um teatro bem ruinzinho, que a Heleni Guariba, que desapareceu na época da repressão, tinha dirigido com o GTC, que deve ter sido o primeiro espetáculo deles, em que a Sônia Braga trabalhava. Foi uma coisa interessante, porque ela estudou com o Blanchot, na França, então ela tinha sempre esse lado social. Quando ela monta essa peça, ela extrapola da história e coloca na parte de baixo do palco, porque era um palco alto, junto com a platéia, os camponeses trabalhando. Você tinha a visão do Jorge e de como era a vida dos outros. Isso me marcou, porque achei muito bonito, porque praticamente eram dois palcos, em cima fazendo uma coisa e embaixo fazendo outra coisa. Uma coisa que acontecia, a cada vez que a gente ia ao Teatro de Alumínio, a gente rezava para não chover, porque o teto era de alumínio. Se chovesse você não ouvia absolutamente nada.

 

Pergunta: 

Como você definiria o GTC em relação à distribuição de função? Era um grupo muito centralizador? Algumas pessoas opinavam ou todos opinavam?

 

Resposta: 

Não sei. Eu fui convidado. Quando fui fazer “O Aleijadinho”, o GTC já tinha várias montagens, não era a primeira. Fui convidado também para fazer “O Evangelho”, que era a segunda. Foi uma coisa que alguém resolveu, ou alguns resolveram, não sei como foi feita a escolha das peças, que era o Petrin, a Sônia, o Zé Armando, o Muller, porque a Prefeitura de Santo André financiava grande parte das montagens. Depois disso o grupo entrou num processo meio estranho, não coisa de identidade, mas procurava-se o que montar. Isso já em 1973, quando a repressão estava no auge, quando se optou por fazer sobre a revolução constitucionalista de 1932. E como se faz, não existe um texto sobre isso. Então vamos ter de montar um texto. Sobre a revolução de 1932 eu não me lembro se fui chamado a opinar, mas fui convidado para participar. Não me lembro se eles resolveram que seria sobre a revolução. Depois, na confecção do texto, na formação do texto, sim, a gente deu bastantes palpites. Era o Carlos Queirós Teles que ia fazer a redação final, o Silney Siqueira ia dirigir, o Murilo Alvarenga ia fazer as músicas e o Naum Alves de Souza ia fazer os bonecos, etc., por causa da idéia geral do espetáculo. Aí o Carlos Queirós Teles que vinha de família tradicional de São Paulo, tinha muita literatura sobre isso, passava para a gente os livros e a gente também procurava alguma coisa, ou de memória também. A gente se reunia, eram distribuídos os livros e a gente ia ler aqueles livros e separar os causos que a gente achasse interessante dentro daquele livro, da história maior da revolução. Voltávamos 15 dias depois e apresentávamos. Isso é bom, isso não é, tudo com a supervisão do Teles, mas de modo geral a turma toda palpitava sobre o que deveria ser feito ou não. No final o Carlos ia, escrevia aquilo, mas tudo baseado em histórias reais e também publicadas. Praticamente o Carlos, se ele entrasse com a imaginação, era só em termos de dar uma ligação entre as coisas. Mas procurava ser o mais realista possível. Quando texto ficou pronto, a gente imaginava que seria uma coisa muito maravilhosa, não sei por que se chamou “A Heróica Pancada”, que é daquela famosa modinha da Faculdade de Direito, “no peito heróica pancada”..., que é da Revolução de 1932. E começava com um discurso de Getúlio Vargas, publicado em livro também. Só que você tinha de mandar o texto para a censura. Não, e ponto final, acabou a brincadeira. E a peça nunca foi montada. Depois eles resolveram fazer infantil, que foi “Tudo Azul no País Azul”, que o Naum fez os bonecos, mas eu não trabalhei.

 

Pergunta: 

A gente está encerrando a entrevista e a gente pede para o entrevistado deixar uma mensagem sobre a sua experiência de vida, o que você quiser deixar registrado.

 

Resposta: 

Eu acho que falei demais, até algo que não devia, não sei se tudo interessava, mas desculpe. Sou meio prolixo. Meio é bondade da minha parte, mas sou muito prolixo. Acho que o ABC, num certo sentido, teve um movimento muito grande de teatro, principalmente teatro. Sei que muita gente saiu daqui e foi para a televisão, cinema, igual Petrin, Sônia Guedes, a Cássia Kiss, de São Caetano. Acho que pela potência que é a região, uma potência econômica e de quantidade de pessoas que existe, acho o movimento artístico aqui muito fraco. Eu acho sinceramente, embora existam boas, como a Escola Livre de Teatro de Santo André. Você pode até discordar politicamente da direção que eles dão, mas eles estão sempre trabalhando, fazendo e procurando inovar. Tem a Fundação das Artes, aqui em São Caetano. Tirando isso você tem o quê? Você ouve brigas homéricas no terreno da música, com as orquestras sinfônicas de Santo André, de São Bernardo, é uma briga para conseguir ter. Uma memória que eles poderiam ter, que é de bandas, banda mesmo, nem se fala. E, no entanto, naquela época e desde muito tempo, a banda sempre foi um foco muito importante. Até seria legal se vocês conseguissem fazer um levantamento disso. Eu estive em São João Del Rei e achei um negócio muito maravilho como eles conseguem preservar, sei lá se com tanto rigor histórico, não conheço tanto assim, mas pelo menos eles seguem todo aquele ritual da Igreja Católica da época e eles têm várias orquestras e várias bandas com cento e tantos anos, etc. Aqui, de repente você não sabe nem se existiu, se deixou de existir. Você fala banda com a juventude e eles não sabem o que é. Vão achar que é banda de rock, que não tem nada a ver, é outra coisa. Eu acho que o movimento aqui, de uma certa maneira, pela potência que tem a região, eu o acho bastante fraco. Já foi melhor, embora meio restrito também.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul