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João Christoph José Becker

Brasileiro filho de imigrantes alemães, João passou sua infância em meio à Segunda Guerra Mundial na Alemanha, de 1938 a 1948. De volta ao Brasil, seus pais abrem um bar e restaurante para recomeçar a vida. João formou-se em medicina em 1967. Casou-se com Berenice com quem tem três filhos: João, Karem e Luís.  Imagem do Depoente
Nome:João Christoph José Becker
Nascimento:16/09/1934
Gênero:Masculino
Profissão:Médico Anestesista
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Paulo

Transcrição do depoimento de João Christoph José Becker em 16/07/2014

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório de Hipermídias

Depoimento de João Christoph José Becker, 80 anos

São Caetano do Sul, 16 de julho de 2014

Pesquisadora: Mariana Lins Prado e Priscila Perazzo

Equipe técnica: Felipe Misquini e Maria Eugênia Demarchi

Transcritora: Marialda de Jesus Almeida

 

Pergunta: Qual é a data do aniversário do senhor?


Resposta: Eu nasci em 16 de setembro de 1934, quer dizer, vou fazer 80 (anos) agora, no hospital Santa Catarina, aqui em São Paulo. Meus pais moravam em São Bernardo, que na época era Santo André ainda, vocês devem saber que na época, vocês que são do ABC, então, meu pai era proprietário de um frigorífico que estava indo bem, mas quando ele teve câncer no rim, operou bem e tirou todo rim, teve sorte, não apareceu em outro lugar, mas ele ficou muito preocupado, emagreceu também, e queria morrer, porque o câncer é, como se diz, era uma condenação de morte, na época, e, ele foi, eu não estou olhando, tenho que olhar para lá, né, tudo bem, pelo menos é isso que eles me transmitiram. Chegou lá na Alemanha, aqui operou no hospital Beneficência Portuguesa, que já existia, e ele foi lá para ver os parentes ele tinha lá heranças para receber, né, quando ele foi, meu pai tinha chegado aqui no Brasil em 1925, ele ficou todo esse tempo aqui e, ele, com a guerra e tudo que ele passou lá, ele sarou do câncer, acho que ele ficou preocupado com outras coisas, é, foi um milagre, inclusive, quando ele voltou para cá, nós voltamos em 1948, fomos repatriados pelo governo brasileiro, através da missão militar brasileira que conduzia essas coisas e em navio brasileiro. Chegamos aqui e meu pai começou tudo de novo. Não no frigorífico, quem ficou com o frigorífico do meu pai foi o cunhado dele, meu tio, irmão da minha mãe, então ele, fez, quer dizer, esse frigorífico ficou sempre na mão dele, ele trabalhou, tudo, mas meu pai não queria saber, ele conhecia, ele tinha a freguesia, toda, ele ficou dez anos fora, praticamente, então, era os mesmos, então São Caetano, São Bernardo, Santos, compraram do meu tio, que estava quase falindo, não tinha mais com quem vender, porque quem vendia era o meu pai, que era o responsável, ele tomou toda freguesia outra vez, em bares, restaurantes, aumentou, até, bastante. Depois ele montou um restaurante, né, aqui na Avenida Pedro Américo, é uma que vai lá para Mauá, né, e acontece que lá foi desapropriado, e ele perdeu muito dinheiro com isso, perdeu praticamente tudo, e, na época, [5’] não se pagavam muito bem os que estavam desapropriados, e meu pai já estava muito velhinho e ele teve que morar de favor com um primo meu que morava em frente a uma casa dele e depois ele faleceu com 75 anos, mas ele já estava bastante assim, não era mais aquele indivíduo que tinha sido, né, assim de capacidade criativa, meu pai tinha muita capacidade criativa, bom, isso aí.


Pergunta: Será que a gente podia voltar um pouquinho na história dele? Antes de vir para o Brasil em que região da Alemanha ele morava, sua mãe também?


Resposta: Bom, para início de conversa, meu pai era católico ferrenho e minha mãe era protestante ferrenha. Meu pai era, vamos dizer, fiel ao imperador, nas ideologias dele, porque o imperador ainda existia naquela época, depois da primeira Guerra Mundial, né, e ele falava sempre do imperador, das coisas, que a parte que ele nasceu pertencia à Prússia, apesar de ser a Alemanha Central ele pertencia à Prússia. E minha mãe é Anglo-Saxônia, nascida em Dresden, e ela era comunista, meu pai era a favor do imperador (risos) e ela comunista. Bom, como eles casaram eu não sei, eu só sei que um ficou, sempre ficaram, viveram a vida inteira juntos, sem se separar nenhum instante.


Pergunta: Mas eles se casaram aqui no Brasil?


Resposta: Aqui no Brasil, em 1933 que eles se casaram, um ano antes de eu nascer.


Pergunta: A família da sua mãe é que, vieram por causa do comunismo? Por isso que eles vieram?


Resposta: Ficou aqui, os irmãos tiveram que fugir, eles vieram fugidos para cá, ah, era tudo xxxxxxxx (risos), era tudo da família da minha mãe...


Pergunta: De cabelo pintado...


Resposta: É, mas eles também tinham aprontado, não pensa que eles eram boa gente (risos)


Dona Berenice: Meu cunhado, xxxxxxxxx, e ele era comunista. (O ÁUDIO DESSA PESSOA ESTÁ PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL SE OUVIR, MUITO BAIXO)


Resposta: Ele morreu na prisão, devido aos maus tratos dos nazistas, então ele não quis entregar, a Marta, ela, o pai dela, teve, se sacrificou porque um dos importantes, eu não vou citar nomes, se vocês me permitem, era muito procurado e meu tio, pai da Marta, ele não, apesar de tudo, ele não citou onde ele estava ou quem era etc., inclusive, esse senhor, que era o líder da facção comunista, ele saiu da Alemanha quando os nazistas tomaram conta e fugiu, depois, para Suécia, eu não sei, ele está até na enciclopédia, foi um indivíduo importante, e depois da guerra assumiu um cargo, mas ele voltou de lá, União Soviética, ele esteve lá, depois da guerra ele voltou, mas ele morreu em 1935.


Pergunta: Assassinado?


Resposta: Não, morreu na prisão. Xxxxxxx não queria confessar, pelo menos as notícias foram essas.


Pergunta: E isso faz com que a mãe da Marta e ela venham para o Brasil?


Resposta: Não, não, a mãe, meu pai estava bem de dinheiro e falou “vem para cá”, pagou passagem, tudo, claro, da cunhada e trouxe minha irmã, em 1930.


Pergunta: E como é essa história seu João, que a Marta se torna sua irmã? Porque ela é sua prima, na verdade.


Resposta: Porque a gente ficou a vida inteira junto. Ela foi criada por minha mãe e meu pai.


Dona Berenice: E a mãe dela morreu depois de um ano xxxxxxxxxx. Ela teve febre xxxxxxx, tratada como apendicite...


Resposta: Não, mas isso era comum aqui no Brasil, a ignorância médica era bastante difundida (risos). [10’]


Dona Berenice: Ela tinha dois tios e a minha sogra e xxxxxx ficaria com a minha irmã, por isso que a minha sogra a criou.


Resposta: Então nós tínhamos de tudo: comunista e tinha do outro lado também, e todo mundo vivia, quer dizer, podia ter as diferenças políticas, mas éticas jamais.


Pergunta: E a parte do seu pai por que imigrou para cá?


Resposta: Meu pai, ele, quando morreu a mãe dele em 1925, houve muita ganância em torno, eram quatro irmãos, e que brigaram pela herança, meu pai não aguentou isso aí, ele era o menor, e tinha, inclusive, uma irmã dele que também não quis saber de toda essa coisa e quem mais brigou ficou, embora meu pai, pelo direito, meu pai era agrônomo, já na época, e ele não, como se diz, ele trabalhava bem, estava bem situado, administrava na maior fazenda lá da região toda e, mas ele, não sei, ele nunca me falou direito, eu só sei que ele me falou uma vez “filho, eu beijei todas lá da aldeia” (risos), meu pai ele era muito, muito humorista.


Dona Berenice: Xxxxxxxxx em São Francisco de Sul xxxxxxxxxxxxx.


Pergunta: E São Francisco do Sul é Santa Catarina.


Resposta: É foi para lá, foi para Curitiba, aí ficou noivo de uma moça, descendente de alemão e deu um problema, não sei o que, por causa de dinheiro... Olha, alemão não é bonzinho, viu, porque por dinheiro eles brigam como no futebol, a mesma coisa (risos).


Dona Berenice: Aí ele voltou para a Alemanha e ele viu que não se ajeitava mais e voltou.


Pergunta: A segunda chance...


Resposta: Aí voltou para cá, desceu em Santos armado, trouxe as armas dele que ele não tinha deixado, era uma xxxxxxx não sei o que, porque em 1930, quando ele voltou...


Dona Berenice: E outra coisa que você não falou, xxxxxxx xxxxxxxx ele tinha aquelas medalhas de condecoração xxxxxxxx.


Pergunta: Ele lutou na primeira guerra?


Resposta: Tinha... tinha... foi muito condecorado, meu pai.


Pergunta: Foi soldado ou foi xxxxxxxxxx?


Resposta: Foi soldado, comum, acontece que ele teve oportunidade, então, era uma guerra de tricheiras etc., e o meu pai aprontava, ele era o seguinte, isso ele me contou, que os ingleses atacaram, e não deu para segurar e eles tiveram que fugir e as metralhadoras ficaram para trás, eles tomaram, e eles ficaram, e a munição, lá para trás, estava na mão dos alemães, e as metralhadoras ficaram lá com os ingleses, então eles falaram assim “quem que vai lá pegar as metralhadoras no meio dos ingleses?”, meu pai disse “eu, eu!” (risos) e os outros lá pegaram, quando os ingleses atacaram no outro dia, no amanhecer, as metralhadoras, dessa vez os alemães responderam os ingleses, e coitados dos ingleses, né, quer dizer, era um de assim e o outro de assim, isso era meu pai, ao contrário de um tio meu que disse, sempre lutou, xxxxxxxxx, não seu se você já ouviu falar, uma grande batalha, também contra os ingleses, e ele nunca deu um tiro, e, sabe o que ele fazia? Era um cara extremamente corajoso, ele via os caras lá chorando no meio do coisa, então ele ia lá no meio de trás e trazia os caras para lá, salvando as pessoas, nas costas, tudo, às vezes ele não aguentava, era um enfermeiro nato, né.


Pergunta: Como chamava essa batalha?


Resposta: XXX XXX. Exatamente. [15’] Então essas coisas, esse tio era mais velho que meu pai, era outro irmão, veio a família inteira, toda a família da minha mãe veio para cá.


Pergunta: A sua mãe veio antes, veio antes não, veio separado.


Resposta: Veio separada, veio com minha avó, que estava viva ainda.


Pergunta: E como foi a história dela? Ela também xxxxxxxx.


Resposta: Ela estudou, quer dizer, na época, eram pobres, quer dizer, a avó ainda tinha uns traços de nobre, mas minha mãe já nasceu pobre, e teve que trabalhar duro para ganhar a vida, minha avó também, e os quatro estudaram, menos, mas a minha mãe era a mais estudada.


Pergunta: Eram quatro filhos?


Resposta: Quatro filhos.


Dona Berenice: Essa, a minha sogra...


Pergunta: Como ela chamava?


Dona Berenice: Xxxxxxx. A mãe dela trabalhava com chapéu, luvas, essas coisas de moda, o outro era, esse que é o herói aí xxxxxxxx.


Resposta: Esse xxxxxx, tinha a criação de cavalo...


Dona Berenice: O outro, é o que veio fugido, era o dono do frigorífico, ele era açougueiro, ele fazia frios, mas tinha curso direitinho, sabia fazer presunto, mortadela, xxxxx xxxxxx


Resposta: Era mestre, tinha o mestrado, porque lá, na Alemanha, tinha essas castas que o sujeito para ser mestre ele pode fazer o que quiser, abrir, porque ele é mestre, ninguém fiscaliza aquilo que ele está fazendo.


Dona Berenice: Ele trabalhava muito bem, teve até um frigorífico em Santo André chamado Frigorífico Xxxxxxxx, na avenida Xxxxxxxxx.


Resposta: Quando meu pai foi embora...


Pergunta: Como escreve o nome da família?


Dona Berenice: Klemm. É o frigorífico que hoje é um mercado na Avenida Higienópolis, enorme, era dele.


Resposta: Tinham dois terrenos enormes. Mas ele fez dinheiro, em consequência, quando meu pai foi embora, as máquinas e tudo ficaram para ele, meu pai não cobrou nada, ele entregou o frigorífico dele, né, só que era em um outro lugar, ele fez neste lugar onde está.


Dona Berenice: Os descendentes do xxxxx estão xxxxx, a gente tem contato, mas tem, tem duas primas, né, uma tem a idade dele, a outra tem a idade da Marta, a Xxxxx e a Xxxxx, e elas têm filhos, são viúvas,


Pergunta: E ainda moram lá no ABC?


Dona Berenice: Moram, eu tenho o telefone, tenho o endereço, tenho tudo.


Pergunta: Porque a gente faz esse processo pelas redes de relacionamento mesmo, xxxxxx outro para a gente ir entrevistando as pessoas.


Dona Berenice: Eu acredito que a Helga responde...


Resposta: Principalmente a Xxxxxx, mais inteligente (risos).


Dona Berenice: Ela mora, quando passa a via Anchieta, quilometro 27, chama avenida Martin Francisco, é uma rua, um retão, avenida Anchieta e vira, agora a Relva...


Pergunta: São Bernardo já?


Dona Berenice: É... eu tenho direitinho o caminho dela porque a gente foi lá...


Resposta: Da represa lá, antes da represa tem uma rua que...


Dona Berenice: Agora a outra prima mudou, então eu não sei o caminho, mas tenho telefone, tenho o endereço. São filhas do que fez o frigorífico.


Pergunta: Sim, mas tem toda esse história de vida da região, xxxxxxx.


Dona Berenice: Tem, mas só que elas nunca moraram na Alemanha.


Pergunta: Elas nasceram no Brasil?


Dona Berenice: Foram a passeio. A Xxxxxx é uma semana mais velha que a Marta, e a outra, a Helga, fez aniversário agora, um pouquinho mais velha que ele. Foram casadas com alemães, falam todo mundo alemão, os filhos, todo mundo.


Resposta: Quando eu cheguei aqui ela sempre queria mandar em mim.


Pergunta: Quem, as primas? Uma delas?


Resposta: As primas não, a mais velha era um pouquinho mais... (risos)


Pergunta: O senhor era o único menino no meio das mulheres todas (risos).


Dona Berenice: E ele é filho único, né.


Resposta: Então, a Marta veio comigo, claro, ela foi e voltou, né, na verdade é minha prima, todos são primos, né, e nós...


Pergunta: A Marta é prima-irmã.


Resposta: E essas famílias, quer dizer, [20’] apesar das diferenças, mas a gente, quando estava tudo bem a gente brigava, agora quando está ruim o pessoal se une (risos), é mais ou menos assim.


Dona Berenice: Quanto à cidade de origem, o pai dele é da Prússia...


Resposta: Então ele, realmente, fez muitas coisas, ficou prisioneiro dos ingleses durante bastante tempo...


Pergunta: Na época da Primeira Guerra?


Resposta: É, após a guerra, é, mas eu não vou fazer política e nem falar coisas aqui, é o que o meu pai falava, mas eu não vou fazer detalhes da Segunda Guerra Mundial.


Pergunta: Tem que ver as histórias das pessoas, né.


Resposta: Exatamente.


Pergunta: Xxxxxxx mas para saber onde as pessoas viveram...


Dona Berenice: Xxxxx de Dresden, morou, nasceu próximo, né.


Pergunta: Dresden no início do século XX, no final do XIX, era uma região, também era Prússia, não?


Resposta: Não. Saxônia.


Dona Berenice: Ele achou xxxx 1902 e xxxxxx 1899.


Pergunta: E como eles se conheceram? Aí um veio para o Sul... A família da sua mãe migrou direto para a região do ABC, não?


Resposta: Eu acho que foi. Minha mãe chegou de lá cheia de coisa, né, como eram as moças lá, Brasil, meu pai também pagou a passagem para as duas virem, aí, elas quando chegaram...


Dona Berenice: Não, seu pai pagou a passagem da Marta...


Resposta: Ah, da Marta, ainda não...


Pergunta: Da Marta, e como chama a mãe da Marta?


Dona Berenice: Marta também.


Resposta: Marta Érica.


Dona Berenice: Marta Érica era a Marta, a mãe era Marta.


Pergunta: O senhor não chegou a conhecer a tia? Ela morreu antes?


Resposta: Aqui, a minha tia?


Pergunta: A tia, mãe da Marta.


Dona Berenice: Ele era pequenininho.


Resposta: Não, eu era pequeno, eu a chamava de mama e a minha mãe era muti (risos).


Dona Berenice: Foi assim, quando os meus sogros faleceram, o meu sogro trabalhava com frios, essas coisas. A gente foi em uma padaria, né, não, é, foi através assim xxxxxx que eu conheci, xxxxx xxxxxx, como é que é, a sua mãe estava em um restaurante, seu pai estava em uma padaria, e a minha sogra chegou, porque eles trabalhavam no ramo só que não se conheciam. E se conheceram, porque aí nessas alturas tinha o confeiteiro dessa padaria xxxxx...


Pergunta: Aí já estavam ali em São Bernardo?


Dona Berenice: E começaram a se conhecer, a flertar, aquela coisa...


Resposta: E dentro de um ano eles casaram.


Dona Berenice: Aí foi aquela coisa “onde você mora?”, aí eles se interessaram pelo outro.


Pergunta: E vocês sabem por que eles vieram lá para o ABC para morar? Era mais fácil, conhecia alguém...


Resposta: Por causa desse que era padeiro lá, acho que foi através dele ele conheceu o meu tio, né, os tios, né, e minha mãe, praticamente, porque os meus tios, dois, veja bem, os dois fugiram, isso foi em mil novecentos... não sei, eu não tinha nascido...


Dona Berenice: A Helga é de 1934 e a...


Resposta: Mas é antes já, então os dois homens dos Klemm, eles, o Walter e o Xxxxx, os dois, eles vieram...


Dona Berenice: Eles vieram mais ou menos em 1925...


Resposta: Bom, não era, ainda não tinha nazista, tinha nazismo, mas não tinha o poder, assim, não chegava. Então eles foram, inclusive meu tio, veio meio assim, né, ele era fugitivo, procurado pela polícia (risos), eles se viraram no mercado negro, essas coisas, essas são escolas, eles não são diferentes do brasileiro.


Pergunta: É que essas questões são da época, porque também é uma época muito diferente, como sobreviver...


Resposta: Muito diferente! O que minha mãe falava, o que ela passou? O que era fome? Os anos... Eu posso falar uma coisa só? É que está muito difundido na Alemanha. Os anos gloriosos da Alemanha, os xxxxxxx, muita fome dos pobres, então, quer dizer, quem estava bem era uma classe média, né, para cima, como sempre, né, então, quer dizer, o pessoal se virava para comer, meu pai, meu tio, ele fazia as linguiças, as coisas lá, vendia por baixo também para ele, as coisas que meu tio fez (risos), e deu problema, claro, por isso ele teve que fugir, ele teria ficado na cadeia durante muito tempo


Dona Berenice: Veio ele, a namorada, né, xxxxxxx xxxxxxx....


Resposta: Mas eu estou falando só o que era mais leve, né, os comunistas aprontaram muito mais (risos) e os nazistas pior ainda. Então, uma coisa chama a outra, isso aí eu quero dizer que é uma opinião minha, isso aí muita gente pode discordar, no fim, quem sofre são os pobres.


Dona Berenice: Os Becker nunca vieram para o Brasil, só veio o meu sogro... O resto ficou lá e a gente visita, tem um xxxxxx ainda pequeno, mas tem.


Resposta: É... isso não quer dizer que os ricos também não sofreram, sofreram também, mas não tanto, o que eu acho é o seguinte: depois, quando ele chegou lá, meu pai, na Alemanha, voltando aquele pedaço que a gente falou sobre isso, em 1938 ele foi lá e minha tia tinha tomado, junto com o marido, tinha tomado conta de tudo, de todas as propriedades, a xxxxxxx, né, e, mas ela achou que, se vai me tirar tudo, tirar daqui, e tinha três filhos, meu pai (risos) falou: “fica com tudo, eu tenho dinheiro”, ele tinha dinheiro, tinha vendido grande parte do frigorífico aqui, a parte que lhe pertencia, meu tio já tinha voltado a trabalhar com ele, porque meu tio tinham se separado e depois juntaram, e levou esse dinheiro só que chegou lá os nazistas falaram “olha, aqui você não pode ter moeda estrangeira, era um pouco antes da guerra, né, nós vamos te pagar no valor do câmbio”, e ele ficou com todo esse dinheiro, bastante dinheiro, e meu pai comprou as propriedades lá, monte de coisa xxxxxxxxx...


Pergunta: Lá na Alemanha ou aqui no Brasil?


Resposta:, Lá na Alemanha... ele não precisava xxxxx com peixe, xxxxxx alimentação, meu pai era muito criativo, ele conseguiu tornar alimento aquilo que era jogado fora, por exemplo, a parte do, você pega o ovário dos peixes, é... caviar, e a parte masculina era desprezada, meu pai achou um meio, “o que eu faço com aquilo?”, ele tinha comprado um monte de barris, ia nos portos, e eles mandaram em caminhões, em vagões, frigorífico, tudo e, não tinha geladeira, tinha uns... como é que chama... câmeras frigoríficos e ele pegou lá, e lá onde a gente morava tinha um cara que fazia defumação, era muito grande também, uma chaminé enorme, e meu pai, eu falei, nós vamos defumar, nós vamos fazer uma peneira fina e vamos defumar isso aí em cima da peneira, porque aquilo subia, se você deixava, né [30’], e aquilo ficou dourado e até hoje, na Alemanha, já é uma delícia...


Pergunta: Como chama isso?


Resposta: Não sei como chama isso, mas meu pai que começou isso, aí começaram a se interessar os, ele chamou a atenção, ele teve processos, porque a fila já estava quase dobrando o quarteirão (risos), que tudo os caras falando, aquilo não tinha, como chama, não precisava de cartas de racionamento, ele vendia tudo livre, né, e o povo vinha e tinha grandes concorrentes, ele ficava louco da vida, porque, e... North Xxxxxx, na Alemanha, eles fizeram processo e até hoje, meu pai, quando chegou o prefeito da cidade, ele falou “escuta, o que está acontecendo?”, a, está acontecendo isso, isso, isso, ele falou “vou perder essa porcaria de processo, aí eu vou ter que fechar, aí o prefeito disse “não tem nada, tem um único jeito”, e meu pai era mais brasileiro do que alemão, então ele falou, eu vou contar uma coisa que hoje não ter importância nenhuma, eu vou falar um pouquinho de como meu pai se comportou porque eu tenho os documentos aqui, ele falou “só que tem uma coisa, você tem que entrar no partido nazista, como xxxxxxxxxx, senão você vai perder”, então meu pai falou para o prefeito, o prefeito que é um cara que queria os caras que tinham intenções boas, né, no sentido de ver os valores na sociedade, ele catava essa turma para isso, então meu pai falou, só que ele presenciou a parte que o juiz estava sentado, o promotor falando e meu pai estava lá, aí o prefeito chegou, o juíz estava, você vê, bem brasileiro, aí chamou o juiz, é... o juiz falou “xxxxx não sei o que”, aí o cara foi lá “olha, avisa o juiz que o seu Becker entrou no partido nazista”, o cara falou “acabou o processo”, isso na Alemanha existia do mesmo jeito, então, meu pai nunca foi, ele sempre, para entrar no partido nazista você tinha que ter um ou dois anos de experiência, dentro do nazismo, então, meu pai nunca entrou no partido nazista de verdadeiro, ele era, como é que se diz, aspirante ao partido nazista...


Pergunta: Xxxxxxx os escalões do partido...


Resposta: Então, esses caras nem contava, né, porque ele não tinha função nenhuma, ele tinha que fazer...


Pergunta: Que cidade, aliás, vocês moravam?


Dona Berenice: Dresden.


Pergunta: Quando voltaram em 1938...


Pergunta: E sua sogra?


Dona Berenice: É, ela nasceu nos arredores de Dresden...


Resposta: Que depois virou...


Pergunta: Mas aí quando voltaram em 1938 ficaram em Dresden.


Resposta: Acontece que meu pai, havia um monte de judeu que meu pai era amigo dos caras, então eles iam buscar alimentação, porque eles eram tratados como se fossem indivíduos, assim, eles tinham aquela estrela, isso eu lembro ainda, vagamente, (risos) eu vou contar uma coisa interessante, essa aí, um monte, meu médico era judeu, e meu pai não ia no alemão, ia lá no judeu, então meu levava lá, o cara era um cobrão, um pneumologista famoso, [35’] eu era sempre magrinho, tudo, não era assim muito sadio, forte, como outros, né, e o sujeito sempre tratou de mim, só que ele, eu lembro que ainda ele falou na minha presença para o meu pai: “cadê o estetoscópio?”, ele falou “não tenho”, ele pegava o ouvido e encostava, eu lembro que ele passava um pano aqui, um lenço, e me escutava assim, dá para escutar porque eu sei, dá na mesma, não precisa do estetoscópio. (risos) E o cara não tinha tanta freguesia, só que meu pai pagava em peixe, ele sempre levava peixe para o cara, e havia o seguinte: os nazistas uma vez disseram “vai devagar, porque já estão chamando aqui na central de judeu”, o negócio do meu pai. E o pessoal vinha, só que do ataque de Dresden, da destruição de Dresden, chegou uma família, um casal de, que era muito tempo isso já, no começo de, no fim de 1944, começo de 1945, eu sei que era no fim, eu acredito que tenha sido nessa época, e que não dá para falar assim, citar os judeus, eles, o casal chegou “olha, seu Becker, nós vamos trazer para o senhor”, meu pai acabou com isso viu, ele, assim, moralmente, o cara chegou “olha, nós queremos deixar todos os valores com o senhor que nós temos”, “mas como valores? o que vocês estão querendo?”, “é, nós vamos ter que sair daqui...”, “como?”, ele também, meu pai estava meio por fora, o povo alemão não aceitava um negócio desse, não era assim, eu sei que os judeus tinham aquela estrela enorme, eu vou contar outra viu, então a mulher falou “olha, seu Becker, onde nós vamos, nós não vamos voltar, e meu pai falou “como?”, voltar pô, aqueles negócios assim: “eu não aceito nada”, ele falou, meu pai, “nada, nenhum tostão de vocês, vocês vão precisar mais do que eu”, eu sei que meu pai não aceitou nada, porque, ele, meu pai, jamais, ele falhou nas suas condutas, né, a gente era católico, e muitos padres não tinham essa conduta principalmente na.... como chamava quando queimavam as bruxas? Inquisição. Isso é mal do xxxxxxx, mas meu pai ficou firme. E os judeus sobreviventes, minha mãe encontrou com uma depois da guerra, e as duas choravam, “a senhora está viva!”, não sei o que.


Pergunta: E a outra que o senhor ia contar?


Resposta: A outra é o seguinte: eu tinha entrado com nove anos no ginásio, porque eu era já mais adiantado, na Alemanha era difícil entrar no ginásio antes do tempo, né, e mediante a um exame lá, que eu tive que fazer (matemática, tal), e com nove anos também entrei na, não era Juventude Hitlerista, era uma pré que a gente usava uma farda e a gente marchava lá é, quando era, só que eu pisava no calcanhar do cara que estava na frente (risos), era para cantar e eu cantava no ouvido do cara que estava do meu lado (risos) então, eu tinha essas coisas, né. E, uma vez lá onde eu estava, né, tinha um cara que eu não tinha visto, assim, direito, um rapaz de uns 17, 18 anos, estava escrito aquele negócio de judeu, aqui, xxxxx, né, estava com meu xxxxxxx, “pô, mas esse cara é importante”, eu cheguei lá e li lá para o cara, quando eu olhei na cara dele, ele estava xxxxx da vida (risos), [40’] eu ia apanhar do cara (risos), os caras juntos dando risada, isto é uma passagem que eu tive, o que você acha quando você tem nove anos, né, então o mundo é outro, né, então...


Pergunta: E como era a escola?


Resposta: A escola era uma escola bastante puxada, só existia duas na Alemanha, e preparava, era para o preparo de futuros diplomatas.


Pergunta: Então o senhor foi preparado para ser um diplomata. (risos)


Resposta: Não. (risos). Eu nem consegui terminar o primeiro ano, foi logo depois destruída.


Pergunta: Então o senhor na Alemanha em 1938 e o senhor tinha quatro anos. Em 1939 iniciou a guerra, o senhor continuou na escola ou não dava para ir?


Resposta: Não... depois da guerra, depois do, terminou a guerra e eu fui outra vez visitar um ginásio, mas eu ficava 15 dias, depois fiquei uns seis meses, quer dizer, eu não completava nada, porque nós morávamos em lugares diferentes, a gente pulava de lugar, e no fim nós fomos pela missão militar brasileira para um campo, campo não, em casas, não, não, eram prédios, uma sede que tinha assim de um hospital, e nós fomos internados lá praticamente para esperar, nós ficamos dois anos esperando para conseguir sair, porque era muito rigor essa parte, e uma, pior do que aqui, ninguém se interessava a apressar esse negócio de ir embora da Alemanha, ninguém podia sair, isso só em 1948, em 1948 conseguiu. E, cada momento da vida dos indivíduos que vinham para cá foi examinado pelos americanos, ingleses etc., que tinha gente para isso, e, demorou, poderia ter feito em dez minutos, né, mas não ia esperar, tivemos que ir lá, eu sei que ainda que tinha um coronel brasileiro que brigou pela gente, mas ele brigou feio, para soltar a gente, pelo amor de Deus, o que é isso, sacanagem...


Pergunta: E a cidade de Dresden, depois da guerra, ela fica ao lado da União Soviética, né?


Resposta: Isso.


Pergunta: E vocês conviveram um tempo com os russos por ali?


Resposta: É, isso é outro espaço.


Dona Berenice: É, porque eles não voltaram mais.


Resposta: É... minha mãe voltou, minha irmã também, a Marta voltou.


Pergunta: Xxxxx e seu pai ficaram na região e as duas mulheres xxxxxxx....


Resposta: Eu já estava mais velho, estava mais safado, como a gente falava, né, eu, eles fecharam, não era ainda aquela, como é que chama, cortina de ferro, mas já tinha arame farpado, essas coisas, e tinha sentinelas ao longo, tal, mas eram russos, e o russo não queria nem saber, os ruins vieram depois que era a polícia alemã, né, que matava, mas os russos também, se pegava gente,


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul