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Noretta Annita Rosina Vezza

Sempre trabalhou com teatro como hobby. Participou do Panelinha, Teco.

Secretária executiva das empresas Brastemp, Phillips, IMacedo.

Imagem do Depoente
Nome:Noretta Annita Rosina Vezza
Nascimento:12/10/1927
Gênero:Feminino
Profissão:atriz - secretária executiva
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Santo André - SP

Transcrição do Depoimento de Noretta Annita Rosina Vezza em 10/07/2003
Depoimento de NORETTA VEZZÁ, 75 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 10 de julho de 2003.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Daniela Macedo da Silva.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta:

Queria que a senhora começasse contando a sua data de nascimento, onde a senhora nasceu e um pouco da sua família e de como foi sua infância.

 

Resposta:

Eu nasci no dia 12 de outubro de 1927, em Santo André, de uma família de imigrantes italianos. A infância não foi lá essas coisas, como nós temos hoje. A vida era bastante difícil, nós tínhamos que estudar, naturalmente, e eu, como mais velha de seis filhos, tinha que tomar conta dos mais novos. Acontece que estudei na escola Coração de Jesus e justamente lá, em uma das festas, fizemos uma peça sacra, e essa peça sacra precisava de um demônio. Como eu era magrinha, feia e bastante agitada, resolveram me mandar fazer o papel desse diabinho. Daí eu comecei a gostar de teatro e com isso eu trabalhei bastante com a turma do Panelinha, com a turma do Teco e posso falar alguma coisa mais de teatro do que praticamente da infância, porque a infância de qualquer jeito a gente vive, não é mesmo? Um pouco de um lado, um pouco do outro, fazendo algumas malcriações como toda criança faz e quando é livre, como nós éramos naquela ocasião, muitas vezes quando eu morava na Primeiro de Maio, que nós tínhamos a facilidade dos Fláquer terem todas aquelas pequenas chácaras que eram casas bem abastadas com bastante quintal, com fruta, com bastante coisas lá, a minha vida era bem agitada porque eu era meio moleque. Eu ia roubar fruta dos Fláquer. Mesmo porque eles deixavam as coisas apodrecerem. Então eu ficava com raiva. Tem tanta coisa e deixar apodrecer no chão?! Então a gente sempre dava um jeito de surrupiar alguma coisa, ou uma lima, ou um abacate, um caqui, qualquer coisa assim que desse uma satisfação geral, porque era toda a molecada que se juntava e depois dividiam o produto do roubo. Isso foi até mais ou menos 1950, quando eu comecei a trabalhar, e anos depois minha irmã Ivone começou a namorar o Roberto Caielli, que é meu cunhado atualmente, e que gostava bastante de teatro, inclusive ele fazia teatro amador no Pinheiros e depois, no clube Pinheiros, foi fazer teatro profissional. Ele namorava a minha irmã e naquela época, naquele tempo, nós tínhamos o costume de almoçar todos os filhos aos domingos, a célebre macarronada da mama, e depois  do almoço sentávamos em uma mesa grande que nós tínhamos, porque a família era grande e, a essa altura, já tínhamos umas dez, doze pessoas e conversávamos sobre teatro. Nessa conversa de teatro, nós fomos criando uma espécie de entrosamento entre os textos, a literatura, a conversa, a opinião, saber ou não saber das peças e nisso nós resolvemos apresentar uma peça. Chamou-se Amor Entre Sinônimos. Muito bem. Esse Amor Entre Sinônimos era especialmente feito pela família. Nós tínhamos seis, cinco que trabalharam em teatro, menos um que nunca quis subir ao palco. Interessante é que ele não subiu ao palco, mas ficava no púlpito da igreja que no final das contas é também uma espécie de ator. E lá estavam meus irmãos, Lúcia, Ivone, Íria e Luís Antônio. Mais tarde vieram as sobrinhas Mônica e Márcia. Mais tarde ainda vieram os sobrinhos-netos Flávia, André e meu outro sobrinho Mário Augusto.

 

Pergunta:

Todos de teatro?

 

Resposta:

Sim, todos fazendo peças de teatro, não na mesma peça, mas sim em peças variadas, onde tinham personagens que mais se adaptassem àquelas pessoas, e com isso nós fizemos bastantes peças. Amor Entre Sinônimos inclusive foi estreado no antigo bar dos Balderis. Hoje é um bingo que está em frente do Carlos Gomes, botaram um tablado ali e a gente em cima do tablado apresentou pela primeira vez a peça. A turma gostou, inclusive os associados do clube começaram a chegar perto da gente e com isso nós angariamos bastante amizade e muitos dos amigos da gente. Depois, acontece que nós fomos no Panelinha, no próprio clube, onde esse meu irmão que não gostava de subir ao tablado, ele mesmo construiu o teatro, ele construiu o teatro, o que para nós foi ótimo porque tinha um camarim para homens e camarim para mulheres, então tinha que se vestir, se arrumar e não tinha problema. Depois vou te dizer uma outra história que nós tivemos, como eu diria, tivemos, não saber ir num teatro e não achar nada para se vestir, nada, era o teatro só e o palco nada mais. Então nós tivemos dificuldade, mas lá no Panelinha nós apresentamos entre outras, a Ditadora, é um texto nacional, Weekend é um texto americano, Fora da barra também, Ponto de partida foi uma coletiva dos meninos que se juntaram e fizeram uma espécie de jogral muito bonito, nós também fizemos Romanoff e Julieta e Falávamos de rosa. Conversando, discutindo com isso, a gente foi entrando e subindo no palco e fazendo as coisas que eram precisas, inclusive batendo martelo, pintando as peças que precisavam, arrumando os panos que precisavam colocar, costurando a roupa, o traje que era adequado para aquela peça, mesa, cadeira era tudo por nossa conta então. Me lembro de uma ocasião em Falávamos de Rosas, precisava de uma poltrona, não existia poltrona nem no teatro e nem nós tínhamos. Então o que foi feito? De duas poltronas que nós tínhamos, cortaram ao meio as duas e juntaram, ficou a poltrona que precisava, são percalços que a gente precisa aprender a fazer. Não tinha ajuda de ninguém, éramos nós que tínhamos de fazer. Mas, com isso, nós fomos para festivais e fizemos bastante coisa em festivais. E, em princípio, eu devo falar o seguinte: uma ocasião nós recebemos da Federação de Teatro Amador do Estado de São Paulo, apoio para fazer um festival em Santo André. Muito bem. Acontece que nós não conseguimos ajuda de Santo André, tivemos que partir, falando com a Federação, a Federação falou com a Cacilda Becker e com isso estavam inaugurando o teatro em São Bernardo, acabamos fazendo o festival lá. O festival lá foi muito bom, cheio de muitas peças, muita gente, muito concorrido, pessoas querendo apresentar coisas. Francamente, os festivais de Santo André, São Caetano e São Bernardo foram um chamativo para muita gente chegar a se juntar nesses festivais de teatro amador. Muito bem, mas acontece que teve quiprocó por causa das verbas que foram entregues para nós, nós tivemos alguns probleminhas, porque nós tínhamos professores contratados para fazer aqui, e nós tínhamos que prestar contas do que foi feito. Nós tínhamos bons professores, Silney como diretor, Ivonete como professora de expressão vocal, tínhamos bastante gente nessa época. Depois foi para São Caetano, em Santo André também nós tivemos vários festivais, aí a FIANTA começou a arrefecer um pouco e acabou se desligando até do teatro e o teatro acabou por algum tempo, faltando teatro amador em Santo André. Mas depois, com a ajuda do Wilson, que trabalhava na Prefeitura e gostava muito, eles fundaram a Mandri, que também fez bastante coisa. Fizemos, mas acabou que atualmente não se fala em teatro amador em Santo André, muito pouca gente faz teatro. Fazemos nós do Teco, mais o Teco; eu por exemplo, faz três anos que não estou fazendo mais nada. Encontrei com o Maciel faz tempo e falei: Olha, eu  quero fazer alguma coisa, porque eu estou parada há três anos, eu preciso me mexer, não gosto de ficar assim, parada. Mas, eles sempre tiveram muito cuidado, porque a minha cirurgia não foi coisa fácil, mas mesmo assim, eles estão apresentando ainda uma peça muito bonita em Santo André, é a Pop, a garota legal, que é uma peça infantil muito gostosa, se vocês tiverem a oportunidade de fazer propaganda, podem fazer, porque é uma peça muito bonitinha.

 

Pergunta:

Dona Noretta, tinha nome o grupo de vocês?

 

Resposta:

Tem. Clube Panelinha. É clube Panelinha mesmo. Tem o nome, agora o Teco tem, Teco - Teatro e Comunicação, que é um grupo a que eu pertenço na segunda etapa, porque, quando a FIANTA praticamente desapareceu, eu estive relativamente um tempo parada, sem fazer nada, e o Maciel me convidou para fazer uma apresentação da primeira vez que fizemos Vereda da Salvação. Acontece que eu tinha programado uma viagem para a Europa e ia ficar quarenta, quarenta e cinco dias. Pelo amor de Deus! Ia ficar tanto tempo, eu não podia fazer, segurar eles por quarenta e cinco dias sem ensaiar, então eu desisti. Foram e fizeram A Vereda e foi muito bem, muito boa. Eu fui convidada pelo Teco novamente para fazer Eles Não Usam Black-Tie, eu fiz o papel da Romana; depois eu fiz Gimba, depois nós fizemos a Jorginho Machão, A Bruxaria, é uma peça infantil, a Bruxaria Quase Chegou Ao Fim, depois fizemos A Vereda pela segunda vez. Na segunda vez, nós ganhamos o Festival de Santo André e fomos apresentar em Marília e ganhamos o Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo. Seria feito em Minas Gerais o Festival de Teatro Amador Brasileiro, mas infelizmente, por razões políticas ou coisa que o valha, acabamos não fazendo mais. Mesmo assim ganhamos dois festivais, muito bons, e em Eles Não Usam Black-Tie, fazendo Romana, eu ganhei como primeira atriz o festival de Diadema e com a Falávamos de Rosas, nessas duas peças eu fiz o papel de duas grandes estrelas atrizes nacionais, a Tônia Carreiro, que fez Falávamos De Rosas e a Fernanda Montenegro fez a Romana em Eles Não Usam Black-Tie. Vou falar sobre incidentes de teatro. Esses incidentes de teatro são coisas assim que acontecem nas peças, que a gente até acha graça e fica na memória. Para mim foram algumas coisas que ficaram na memória, por exemplo, o rapaz que tinha que fazer o papel de um grego, de uma tragédia grega, entrou em cena com o maior patacão, um relógio. Na platéia, advinha os comentários, as risadinhas que apareciam. Esse foi um, outra foi nessa peça Romanoff e Julieta que nós fizemos no Festival do Pinheiros, foi onde não tinha nada, só o palco nós éramos seis mulheres para se vestir. O que fazer se não tínhamos nada, nem lugar onde pudesse se trocar? O que minha mãe fez? Ela pegou um pano que estava lá, abriu as mãos e segurou o pano até que a última tivesse se vestido, se trocado. Esse também foi um dos incidentes interessantes. Agora eu vou falar de um dos meus célebres, que de vez em quando acontece. Em Falávamos de Rosas eu era uma dona de casa que estava tentando amenizar a briga entre pai e filho e para socorrer isso eu tinha feito uns biscoitos, só que esqueci das luvas para tirar a tal da assadeira do forno e tive que pegar a assadeira queimando. Quando eu percebi, eu  fiz assim com que quem diz: Me queimei!, mas foi uma falha. E todo mundo falou: Como você pode pegar uma assadeira saída do forno desse jeito?. Essa foi uma. A outra, na Gimba, um dos atores que interpretavam o personagem, por desistência de um, ele entrou dois dias antes de a peça ser estreada, e o rapaz, coitado, lógico, não sabia todas as falas, então eu fui encarregada de, atrás do barraco, tentar falar o texto para ele. Só que teve uma hora que pediram para eu não falar mais nada, porque só estavam ouvindo a mim e não ao rapaz. Essa é uma das minhas gafes, acontece, acontece mesmo. Outro acontecimento foi em Itaquera. Nós íamos em Itaquera, onde tinha os Salesianos e eles estavam começando a organizar, então eles tinham crianças às quais eles davam de comer e levavam para a escola, e nos convidaram para fazermos uma apresentação. Nós fomos apresentar uma peça e quando chegamos lá, só tinha a igreja. Fazer a peça dentro da igreja? Naquele tempo nós pensamos: É meio fora. Então vamos fazer no quintal! Eles tinham quintal demais, e tinham duas árvores... O que fizemos? Pegamos e colocamos o pano na frente e na frente do pano, em terra batida, apresentamos a peça, só que no meio da peça caiu um temporal daqueles, que foi uma barbaridade. O que aconteceu? Tivemos que sair correndo, a criançada também correu, e nós corremos para uma Kombi que tinha ali perto e esperamos amainar. Amainou e nós voltamos, a criançada toda batendo palma e pedindo para a gente continuar porque eles queriam ver o fim. Isso nos alegrou tanto, que, nos anos seguintes, nós íamos fazer uma apresentação para eles. Só que agora eles mudaram um pouquinho, eles estão mais dedicados, agora tem uma construção enorme, salas de aula, salas para fazerem sorvete, para fazerem coisas que eles dão para as crianças venderem e o que eles arrecadam eles mandam para as mães. É o dinheiro que os meninos ganham, eles mandam para as mães, é muito bom, mas faz alguns anos que nós não vamos mais lá. Como em tudo nessa vida, pouco a pouco, as coisas vão indo, desaparecendo. Esses foram os incidentes.

 

Pergunta:

Dona Noretta, vocês faziam tudo?

 

Resposta:

Tudo.

 

Pergunta:

E vocês não conseguiam patrocínio? Vocês bancavam tudo?

 

Resposta:

Claro, claro, o dinheiro era nosso.

 

Pergunta:

Nenhum caso teve patrocínio?

 

Resposta:

Não, não, nós tínhamos o programa que era feito com o auxílio das casas de Santo André, as casas mais novas, maiores grandes, elas patrocinavam, mas sempre patrocinavam alguma coisa, patrocinavam os convites, patrocinavam se a gente precisava, por exemplo, de uma fazenda para uma cortina, podia contar, ia na Seda Nossa ou ia em outra qualquer. Sempre ajudavam, isso sim. Mas depois tínhamos que fazer a cortina, porque a cortina não era apenas o pano, não ia apenas o pano lá. Todas essas coisas que nós fazíamos e o dinheiro era nosso. O Panelinha sempre patrocinou tudo que a gente precisava, mas acontece que, tinha coisas que não dava, tínhamos que fazer nós mesmos. E mesmo no Teco é a mesma coisa. No Teco, nós chegamos a vender assim espetáculos para poder arrecadar e comprar material, comprar coisas que a gente precisaria em uma outra peça. Esse era o único jeito que nós tínhamos para poder sobreviver praticamente.

 

Pergunta:

A senhora, com as suas irmãs e com as sobrinhas, não trabalhavam em outros lugares ou trabalhavam?

 

Resposta:

Trabalhava. Aí é que está o problema, porque todos nós trabalhávamos, inclusive nós tínhamos no grupo um médico, meu irmão era administrador de empresas, minha irmã advogada, uma era secretária executiva, a outra também e eu também. Então, quando  em Falávamos De Rosas, tinha a Hete Fraiser, que fazia parte dos jurados, em um comentário que ela fez, ela falou para mim que eu deveria procurar me profissionalizar. Mas naquela época eu tinha irmãos que ainda estavam vivendo comigo, minha mãe que precisava também, e eu tinha um bom emprego, eu era secretária executiva em uma firma, primeiro na Brasmotor, depois na J. Macedo, então eu não podia ficar três meses, seis meses, um ano sem receber. Onde eu ia achar dinheiro para sustentar essas pessoas? Então, com isso nem pensar, nem pensar, mas nós trabalhávamos, todos nós trabalhávamos, e só à noite, na hora de descansar, nós íamos carregar pedra. Primeiro ia ensaiar, primeiro leitura, palpite, dizer o que achava, o que não achava, depois de várias leituras, quando a gente já estava mais tarimbado, ia para o palco e aí o palco servia de mais objetividade, porque no palco você vê o que pode fazer. Na mesa lendo ou conversando não te dá nada, ao passo que no palco você sente se você pode pegar alguma coisa, se você pode sentar, se você pode falar com alguém ou mexer alguma coisa. Todas essas coisas te dão possibilidade dentro do teatro e isso é mais demorado, é um trabalho mais demorado.

 

Pergunta:

As condições que vocês tinham, os recursos e as condições financeiras, eram suficientes para vocês executarem  o que vocês achavam que deviam fazer?

 

Resposta:

Sempre achávamos alguma coisa que desse certo.

 

Pergunta:

Não ficava devendo nada?

 

Resposta:

Não ficava devendo nada, a gente fazia sempre alguma coisa que desse certo, até pedir coisas emprestadas de amigos, de pessoas que a gente sabia que podia encontrar, coisas antigas, em uma peça antiga, a gente procurava, ia pedir. Eu ainda não falei dos professores. Nós tivemos professores, diretores, muito bons aqui. Um deles, o Jonas Block, que veio aqui para dar um curso para nós, ele deu o curso e depois sugeriu que a gente fizesse uma peça, e nessa peça nós fizemos os Pequenos Burgueses. A Hete Fraiser fez o papel que eu também fiz, mas nós tínhamos uma gama de pessoas completamente diferentes umas das outras, vinham do Parque das Nações, de Utinga, daqui do centro, então era uma confusão, quer dizer, boa, no bom sentido, mas nós tivemos duas pessoas que mais se destacaram pela objetividade delas, um era o Antônio de Oliveira que só falava que ia trabalhar na Globo, só pensava em termos de Globo e foi trabalhar na Globo, só que eu o vejo muito pouco, e o outro foi o Jair Assunção. Mas o Jair Assunção foi para o Macunaíma e fez grandes peças lá, muito boas, inclusive assisti a várias, muito boas mesmo. E nos Pequenos Burgueses, a mãe, a Colina, tinha que oferecer chá, e eles lá só tomam aquele chá e tinha que ter uma peça grande que usam os russos para fazer o chá e distribuir o chá para todos. Eu tive que procurar por telefone, para saber quem tinha esse aparelho, e paguei oito mil cruzeiros, oito mil reais, não, não, nem cruzeiros acho que era. Era um depósito porque eu tinha que devolver aquela peça de qualquer jeito, tinha que devolver, e completa, inteira. E já viram vocês, tivemos que pegar o dinheiro e levar para a mulher, a mulher nos emprestou e ficamos com ela um mês, que foi o quanto nós tivemos tempo e depois devolvemos para ela, porque não era uma coisa que ia ficar para nós. Mas, mesmo assim, teve que dar oito mil cruzeiros, acho que era, naquele tempo devia ser cruzeiros. Muito bem. Agora se vocês querem que eu fale um pouquinho de censura seria bom. Eu vou dizer que nós nunca tivemos problemas com censura, aqui em Santo André nunca teve, não teve mesmo, porque nós estudávamos as peças, fazíamos o melhor que podíamos, dentro das condições. Quando estávamos no palco próximos da estréia, nós telefonávamos para a censura, e eles mandavam um censor para verificar se nós estávamos com o texto correto, se não tinha gestos obscenos ou coisa que o valha, às vezes trocando uma palavra por outra, dando um sentido mais suave do que os outros. Mas nós nunca tivemos. Até pelo contrário, tivemos até grandes pessoas que nos ajudavam dando palpite, dando indicação, falando alguma coisa que para nós foi melhor. Nós não podemos falar nada, quem pode falar é a Regina Paches, que já estava com duas peças quase prontas e tiveram que parar. Uma foi Quatro no Quarto e a outra foi Liberdade, Liberdade. Infelizmente eles não permitiram, mas, que eu saiba, foi só isso daqui do teatro amador.

 

Pergunta:

E dentro do teatro amador...

 

Resposta:

Não! A censura, a própria censura.

 

Pergunta:

Qual instituição?

 

Resposta:

A censura estadual, a censura às vezes federal quando era um assunto mais... Eu acho que era a censura.

 

Pergunta:

Vocês tinham que pedir uma autorização para encenar?

 

Resposta:

Tínhamos. Inclusive uma das peças que nós pedimos autorização, em princípio eles disseram que quem tinha os direitos da peça era Ferreira Goulart, morando no Rio de Janeiro. Eu mesma precisei procurar o telefone dele, telefonar para ele, me entender com ele e ele achou interessante o grupo fazer essa peça dele e autorizou. Ele mesmo mandou a autorização para a censura. Então não tivemos praticamente problema, um ou outro, mas assim muito pouco. Notória é a história do rapaz do Teatro de Alumínio que teve, que descobriu que era tuberculoso. Então, o que ele fez? Ele disse: Puxa vida! Meio esquisito. Porque um pê-quê-pê cabia muito bem ali. Mas ele foi obrigado a dizer outra coisa. Eu acho que esse pê-quê-pê feriu os ouvidos, os puros ouvidos de não sei quem, mas ele foi obrigado a falar puxa vida. Eu acho que quando alguém descobre que está tuberculoso não vai falar puxa vida. Eu acho que não. Se já foi, quanto à censura é só isso que eu posso dizer, não tem mais, assim de lembrança, não lembro mesmo. Essa do pê-quê-pê eu estava lá e inclusive eu mesma fiz essa ressalva, mas eles queriam assim, e depois eram tempos em que não se podia abusar, tinha que ser mais ou menos maleável. De censura mesmo... Eu acho que nós tivemos em Santo André o teatro, o grupo Teatro da Cidade, eles fizeram várias peças, inclusive de autores nacionais e um desses autores, duas pessoas, uma era Heleny Guariba, dizem que alguém a acompanhou até o trem, porque ela morava em São Paulo e do trem ela desapareceu, ninguém mais soube dela; e um outro rapaz de uma família muito tradicional de Santo André, os Back, um dos filhos também teve problemas. Eu não sei se ele fugiu, o que ele fez, eu sei que teve problemas, inclusive, porque a censura não permitiu que eles fizessem a tal de A Heróica Pancada, que era uma peça fazendo críticas, então essa peça, acho que desestimulou o grupo e o grupo também desapareceu.

 

Pergunta:

Então essas autorizações vocês pediam antes de começar a ensaiar?

 

Resposta:

Antes de começar a peça, porque senão, como é que nós íamos fazer? Se nós ensaiássemos a peça, o texto, o palco etc. e tal, providenciássemos tudo ao mesmo tempo, cenário e as coisas que precisaríamos e de repente eles chegassem lá e dissessem: Não dá, não pode ser?! Então, primeiro era a autorização da censura.

 

Pergunta:

Dona Noretta, mesmo com as autorizações e tudo, vocês tinham idéia se normalmente tinha algum investigador na platéia assistindo às peças?

 

Resposta:

Nunca, nunca percebemos isso, nunca deu para perceber isso. Eu acredito que se tivesse, estaria muito bem camuflado, porque eles nunca se fizeram presentes para nós. Mas naquela época tínhamos Antônio Chiarelli, Analy, o irmão dela, Petrin, tinha muita gente boa que trabalhava, inclusive um cunhado meu, Onofre Bonfim Braga, também era do Teatro de Alumínio, mas eu, só peças mesmo; no contexto deles, da relação, das peças, das coisas só como assistente. Não, não tive oportunidade.

 

Pergunta:

A senhora, a sua família só assistiu?

 

Resposta:

Ah! Sim. Só, só mesmo como assistência de familiar.

 

Pergunta:

Vamos voltar um pouquinho para as questões da cidade, dona Noretta. A senhora viveu a década de 30. A senhora poderia descrever o centro de Santo André, quais as características da época?

 

Resposta:

Em 1930, eu devia ter três anos, não lembro muito, mas ao longo disso aqui posso me lembrar, por exemplo, da igreja da catedral de Santo André, Catedral do Carmo. Era barro puro, não tinha as belezas que nós temos agora na igreja. E nós morávamos na Campos Sales, praticamente quase de frente para a igreja, eu me lembro bem do meu tempo, que eu como mais velha tinha que ensinar minha irmã mais nova a andar. Eu dava voltas na igreja para ensinar a menina a andar. Acontece que tinha dois padres sozinhos na casa paroquial e tinha louça para lavar, então o padre Fiorente pegava minha irmã pelas mãos e andava com ela, enquanto eu lavava a louça para eles. A igreja era o centro. Nós tínhamos coro e cantávamos nas missas, nos programas da igreja, era muito gostoso. Não tinha nada de prédios, eram então só casas, cheias de frutas, cheias de jardim, essas coisas, mas para o lado do Parque das Nações, tinha poucas casas, a gente até dizia: Olha, eu vou passar, eu vou passar pelas porteiras. Quer dizer, passava a porteira do trem de ferro e ia para o lado de lá, então era uma aventura a gente ir para o lado de lá, porque só tinha o centro mesmo. Tinha casas boas. Eu lembro de uma ocasião, não, não foi bem ocasião, foi o primeiro televisor que apareceu em Santo André, foi meu pai que comprou. Ele achou que devia comprar para a família. Muito bem, aos domingos, nos jogos de futebol, não se podia entrar na minha sala de tanta gente, tanto garoto, tudo do Panelinha, que entrava lá dentro de casa. Um dia o Palmeiras fez um gol, um dos meu primos se levantou para vibrar e acabou quebrando o lustre da sala, mas se juntava todo mundo lá, foi aí que os outros começaram, até, inclusive, a achar que era gostoso falar de teatro, de comentar e foram se juntando a nós.  Profissional, era profissional lá onde hoje é a Casa da Palavra. Não, não é a Casa da Palavra, a Casa da Palavra era outra, é aqui na Campo Sales mesmo, era do lado da igreja, eu não lembro mais, não sei o que eles fazem. Muito boa também a escola profissional. Nós não tínhamos ginásio, nós chegávamos a ter somente a escola profissional, e tínhamos a dona Adalgisa, no curso São José, em que a gente fazia uma espécie de segundo ciclo, uma preparação mais profissional, vamos dizer, para universidade. E uma ocasião nós tivemos, o Paulo Cina começou a abrir o ginásio. Inclusive eu prestei exames porque eles iam dar para as pessoas um curso grátis. Aproveitei que estava lá e fui me candidatar, não fui aprovada, penso eu, não por causa de não saber, mas sim porque eu era vizinha. Era atrás da minha casa, meu pai e meu tio tinham um barracão e faziam caixinhas, caixinhas para uva, para figo e distribuíam; as serras trabalhavam e eles achavam que aquilo incomodava. Eu acredito que incomodava mesmo, mas afinal de contas eu não fui agraciada. Não tem importância, procurei outra coisa, passei para outro programa, fui ser secretária, fui estudar secretaria, e acabei indo para a secretaria, onde trabalhei na Brastemp, trabalhei na Philips e trabalhei na J. Macedo que é um grupo do Nordeste, um grupo de Fortaleza. Em parte fui bem, porque afinal de contas eu tinha que fazer alguma coisa, não dava para meu pai sustentar dois em faculdade, meu irmão e minha irmã para estudar tiveram que ir para São Paulo, meu irmão mais velho se formou em engenharia civil e construção no Mackenzie e minha irmã foi estudar advocacia em São José do Campos. Mais uma não dava, então alguém tinha que ajudar, fui eu, aconteceu comigo. Não estou arrependida, fui muito bem, aproveitei bastante a vida e quando estava com quase sessenta e oito anos de idade, ganhei um filho. Minha irmã faleceu e designaram-me como tutora, aí a vida modificou, porque vivi praticamente em função desse meu sobrinho, que eu considero quase que como um filho, mas ele hoje está formado veterinário e está se lançando para a vida. Espero que ele consiga ser feliz e ficar contente como eu fiquei até agora.

 

Pergunta:

Dona Noretta, esse tempo em que a senhora trabalhou nessas firmas, a senhora lembra que tenha havido movimentação de greves?

 

Resposta:

Tinha, sim. A Brastemp teve problemas, a J. Macedo não e a Philips também não, mas a Brastemp, é o grupo Brasmotor, Brastemp, Brascar. Eu comecei lá quando nós estávamos fazendo a montagem dos carros americanos e ao mesmo tempo os carros da Volkswagen, foram os primeiros, acho que foram dois anos mais ou menos até eles inaugurarem a linha de montagem deles, e nós fazíamos a montagem e eles nos pagavam pela montagem determinada importância. Eu, como caixa naquela ocasião, me lembro que o diretor todo mês vinha pagar o cheque da montagem que nós fazíamos. Teve sim, eu me lembro muito bem, que em uma ocasião que tinha um jogo de futebol do Brasil, uma das copas muito grandes, o Etchenic não quis dar folga para os funcionários. Tudo bem, nós ficamos lá trabalhando. O que aconteceu? Uma das prensas, tremendas, que vieram dos Estados Unidos, acabou no primeiro soco, arrebentou. Ele jurou que nunca mais em jogo do Brasil deixaria os funcionários trabalhando, ele dispensava logo, e foi assim mesmo, porque todas as vezes que tinha qualquer coisa com o Brasil, qualquer coisa, ao meio-dia dispensava todo mundo. Geralmente o jogo era à tarde e dispensava todo mundo. Teve greves, teve sim, mas não como as greves da Volks que eram solenes, que eram greves de tirar o chapéu, eles paravam mesmo, e paravam a fábrica toda, mas no nosso tempo ainda não era isso. Depois nós começamos a fazer mais aparelhos domésticos, mais geladeiras, fogões, essas coisas, então já não teve mais essa problemática. A única assim era o salário, mas o salário da Brasmotor não era tão defasado, um ou outro se insurgia, mas era muito relativo.

 

Pergunta:

Dona Noretta, a senhora viveu o período da Segunda Guerra Mundial e era menina. A senhora tem alguma lembrança daqui de Santo André nesse período?

 

Resposta:

Tenho. Para se comprar pão, que o pão não era pão de trigo, era pão com farinha de milho, com as coisas que eles ajeitavam para fazer o pão, a gente tinha que levantar às quatro horas da manhã para enfrentar fila, porque acabava e não adiantava. Eu me lembro, tinha um açougue no Largo da Estátua, era o único que recebia carne, também às quatro horas da manhã, porque ele abria às sete horas. Carne congelada e às nove horas mais ou menos, já não se encontrava mais. Inclusive, nós italianos, fomos proibidos de falar a língua italiana, tinha que falar brasileiro. Como minha mãe trabalhou na Kowarick e meu pai trabalhava na Rhodia de pedreiro, eles se viraram, mas minha avó nunca conseguiu falar brasileiro, foi a única da família. Os outros se viraram, tinham que se virar, mas minha avó não deu jeito, ela não conseguia. Então, escondíamos ela para ninguém saber que ela estava falando italiano, ninguém falava, eles falavam o dialeto vêneto, então não prejudicava ninguém, mas não foi fácil. Achar calçados era muito difícil, caríssimos, a comida, verdura, nós tínhamos uma feira apenas, era na frente do atual Tangará, era lá que a gente ia comprar algumas batatinhas, algum tomate, alguma laranja, alguma coisa, muito pouca, vamos dizer, muito pobre. Mas quem queria comer alguma batata tinha que se virar. Tinha venda que segurava as compras fiado, era tudo no dinheiro, e dinheiro era bem difícil de encontrar, de conseguir, não foi fácil, não foi fácil, mais passamos.

 

Pergunta:

Essa questão de falar a língua italiana, como descendentes de italianos, vocês recebiam outras hostilidades, como as famílias de alemães?

 

Resposta:

Na verdade, eu acho que os alemães sofreram o mesmo problema que nós, porque eles também não podiam falar, eu inclusive tinha amizade com uma família alemã, que para ela falar comigo, que eu às vezes a ajudava em alguma limpeza, alguma coisa que ela me pedia, eu achava um pouco de dificuldade, porque ela não conseguia falar, mas eles também foram obrigados a não falar, nem os japoneses; os japoneses então sofreram muito mais, porque os alemães e os italianos, quer queira quer não, eram europeus, agora os japoneses eram orientais, então era tudo segregado. Eles tiveram problemas, eu não sei especificamente que problemas eles tiveram, eu sei que eles passaram bem apertado também.

 

Pergunta:

Tinham famílias japonesas conhecidas aqui?

 

Resposta:

Naquele tempo, naquela ocasião, não. Eles viviam mais no interior, era mais para Bastos, mais para cidades do interior onde eles trabalhavam na lavoura. Hoje você tropeça com japonês, inclusive eu tenho um sobrinho, Akira, japonês, com dois japonezinhos, a menina tem uns olhos puxados que é uma beleza.

 

Pergunta:

Vocês viam essas notícias no jornal?

 

Resposta:

Vou te contar um segredo: meu pai tinha um rádio que pegava estrangeiro, então o que acontecia? Quando se falava de alguma coisa, os amigos do meu pai, que eram mais entrosados com isso, vinham lá em casa ouvir aquele rádio. Eu me lembro, era uma capelinha marrom e eles vinham lá. Numa ocasião, eu e meu irmão brigamos por causa do programa, eu queria um programa e ele queria outro, eu fui mexer no dial e meu irmão me puxou, a hora que ele me puxou, eu puxei o rádio também. O que eu ia fazer? Caiu no chão, se espatifou, era baquelite, se espatifou. No dia seguinte nós encontramos uma válvula dentro do tambor de carvão, era uma lata de carvão que tinha lá. Naquele tempo nós cozinhávamos. Era gasogênio, e nem todos tinham dinheiro, então a gente fazia, pegava fogo e a gente ia cozinhando ou então pegava bola de serragem, a gente amassava bem a bola de serragem e cozinhava com a serragem. Não foi fácil. No fim das contas, colocamos a tal da válvula no rádio e ele continuou falando. Eu me lembro dele, tanto que, até depois da televisão, eu falava para o meu pai: Vai, manda isso embora, chega de ver isso por aqui. Não sei nem que fim ele deu, mais foi bastante interessante. Ah! Outra coisa também, a primeira lambreta, é uma lambreta, uma bicicleta, bicicleta Husqvarna, acho que o nome dela é assim, sueca, a primeira foi minha também, e outra, a lambreta que veio da Itália, também a primeira, meu pai comprou para mim no Vacari.

 

Pergunta:

Como era a repercussão de uma moça andando de lambreta naquele época?

 

Resposta:

É interessante, mas eu sempre tive boas acolhidas. Eu me lembro que um dia eu me aventurei a ir para o lado de lá da Vila Guiomar, tinha uma descida e choveu, aí era barro puro, não sei o que me deu, de querer descer aquilo lá, e a lambreta..., já viu, eu fui para o chão e a lambreta ficou. Dois senhores que passavam por ali me ajudaram a levar a lambreta até onde não tinha barro. Eu acho que eu não tive problemas com isso, foi interessante. Foi bastante interessante, a minha vida não foi das piores, foi até engraçada. Agora que estou lembrando dessas coisas, que eu já nem lembrava mais.

 

Pergunta:

Dona Noretta, a senhora podia fazer um fechamento do seu depoimento, falando alguma coisa do que a senhora quer deixar registrado?

 

Resposta:

O que eu quero deixar registrado são meus agradecimentos ao pai maravilhoso, à mãe carinhosa que eu sempre tive, eu acho que o meu depoimento hoje... Hoje minha mãe estaria fazendo 101 anos, uma pena porque com a saúde que ela tinha, ela podia ter vivido muito mais. E meu pai infelizmente sofreu um acidente e faleceu em frente da antiga Firestone, morreu novo, também podia, estava cheio de vida. Agradeço os irmãos que eu tenho, os amigos maravilhosos, tenho poucos, mas são ótimos, são muito bons amigos. Agradecer a Deus que me deu essa família e ao meu filho também que agora me trouxe bastante alegria, porque eu já estava sozinha, meus irmãos todos casaram e eu estava sozinha com uma enorme casa sem saber o que fazer e ele apareceu, parece que foi mandado. Eu agradeço a vocês que me deram a oportunidade de lembrar de tantas coisas que aconteceram. Obrigada.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul