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Rosa Koshiba

Rosa veio para projeto teatro. Imagem do Depoente
Nome:Rosa Koshiba
Nascimento:22/05/1949
Gênero:Feminino
Profissão:professora
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Tupã (SP)

Transcrição do depoimento de Rosa Koshiba em 04/07/2005
Depoimento de ROSA KOSHIBA, 56 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 04 de julho de 2005.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Vilma Lemos e Eduardo Chaves.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta: Por favor, comece falando a data e o local de seu nascimento e conte um pouco sobre a sua infância e sobre seus pais.

 

Resposta:

Nasci em Tupã, interior de São Paulo, e depois fomos para Suzano, Mogi, onde fiquei a maior parte da minha infância. Eu sou a terceira filha, de quatro filhos que meus pais tiveram, e desde criança eu tive muito interesse pelo movimento, pela dança, e aos 5 anos eu comecei a dançar a dança clássica japonesa. Eu também gostava muito de correr, então eu participava de gincanas e corria o tempo inteiro. E desde pequena eu tenho muita facilidade com o movimento e a minha direção com relação à dança já estava lá.

 

Pergunta: Os seus familiares, seu pai e sua mãe, são brasileiros?

 

Resposta:

Não. Eles são japoneses, mas vieram bem pequenos, minha mãe com 5 anos e meu pai com 14 anos. Minha mãe é praticamente nissei. Eles vieram como imigrantes, trabalharam muito como agricultores.

 

Pergunta: Nessa região de Tupã?

 

Resposta:

Foi em Vera Cruz.

 

Pergunta: Eles não tinham uma formação artística?

 

Resposta:

Não.

 

Pergunta: A que você atribui essa sua sensibilidade para a dança, para as artes?

 

Resposta:

Eu acho que vem um pouco do meu pai, porque ele sempre cantava. Ele fazia músicas folclóricas japonesas e também as clássicas. E também eu tenho, nas minhas gerações, nos meus antepassados, houve uma dançarina japonesa.

 

Pergunta: Você a conheceu?

 

Resposta:

Não. Fiquei sabendo depois, pela minha mãe. Mas esse sangue artístico, alguma veia artística deve ter vindo de lá, porque ela era uma pessoa que dançava e tocava instrumentos japoneses. Parece que ela tinha dotes artísticos. Quem sabe veio de lá?!

 

Pergunta: Na sua infância, o que era lazer para você, as brincadeiras? Quando brincava com os irmãos, havia quantas pessoas?

 

Resposta:

Desde que me lembro, as coisas que mais me davam prazer eram relacionadas à dança. Acho que aos 7 ou 8 anos já existia uma artista japonesa que para mim era a síntese da artista, porque ela atuava, dançava e cantava. Para mim era a síntese da arte. Eu lembro que eu via ela cantar e eu decorava a canção inteirinha e ficava pela casa cantando.

 

Pergunta: Você fala japonês?

 

Resposta:

Falava, agora já não sei mais.

 

Pergunta: Qual era o nome dessa artista?

 

Resposta:

Missora Hibari. E também tem uma coisa interessante, que lá em Suzano, onde a gente morou um tempo, tinha aqueles festivais japoneses e um desses festivais teve uma apresentação de dança japonesa. E na dança, a pessoa dançava com uma haste de madeira com dois cestos. Eu fiquei encantada com aquilo. Minha mãe diz que eu fiquei umas duas semanas com um pedaço de madeira fazendo de conta que estava dançando.

 

Pergunta: Que idade você tinha?

 

Resposta:

Acho que tinha uns 3 anos, porque a partir daí, com a minha insistência, querendo dançar, foi que ela me colocou na dança japonesa, e foi assim que começou, lá em Suzano.

 

Pergunta: E a escolarização, como foi aprender as primeiras letras?

 

Resposta:

Foi meio traumático, porque eu sou muito tímida e na época minha mãe me levou à escola e eu saí de lá aos berros, chorando porque não queria entrar. A minha avó me levava e durante muito tempo ela tinha de ficar me esperando. Eu tinha de vê-la até entrar na sala, senão eu saía chorando. Isso foi meio traumático, mas parece que foi tranqüilo, porque não tive problema de alfabetização. A minha parte de estudos nunca foi tão difícil.

 

Pergunta: Você morou a maior parte do tempo onde?

 

Resposta:

Em Suzano. Em Tupã a gente ficou pouco tempo, depois fomos para Suzano e depois para Mogi das Cruzes.

 

Pergunta: Havia algum ritual dos seus ancestrais nessa sua parte da infância, de alimentação, de dança do chá?

 

Resposta:

Não, porque eles praticamente, meu pai tinha feito só o primário e terminou os estudos aqui. Eles não tinham uma cultura japonesa, porque essa cultura do chá vem do zen, então é alguma coisa mais refinada. O que havia em termos de rituais era o ritual budista, porque meus pais eram budistas, minha mãe ainda é. Então, a oração que é feita em voz alta, batendo umas clavas de madeira, isso ecoa na minha infância. Foi uma coisa muito marcante essa espiritualidade que eu senti na família, que me marcou muito, porque em Suzano eu era muito pequena e existia um templo, no alto do morro, que você tinha de caminhar um bom tempo para chegar até lá. Eu lembro de ser levada nas costas do meu pai. Eu lembro das árvores, do sol, daquele burburinho, daquelas pessoas conversando. E chegando lá eu lembro que eu era a única, porque não me lembro de ter companhia lá. Enquanto eles rezavam, eu ficava num parquinho me balançando. Enquanto eu ficava balançando eu ouvia aquele som do templo, aquelas clavas, dezenas de pessoas batendo e cantando os mantras e o tambor batendo. Era uma sensação, eu balançando na natureza, ouvindo aquele som. E como era ao ar livre, existia uma torneirinha, uma água toda pura, e umas canequinhas de metal que eles deixavam lá perto para as pessoas tomarem água. Eu saía correndo, ficava com sede, chegava lá e abria a torneira para tomar água, aquela sensação era uma experiência espiritual. Eu pegava a caneca e tomava aquela água maravilhosamente fresca e sentia a batida, a vibração dos tambores, das clavas e das vozes aqui, e isso é uma coisa que ficou. Por várias vezes aconteceu isso. Era uma experiência de movimento, de liberdade, de espiritualidade, de contato, comunhão com a natureza. Isso é marcante.

 

Pergunta: Vamos entrar na sua parte adolescente. Conte um pouco sobre o lazer, bailes, diversão, clubes, amigos, outros espaços, mudanças.

 

Resposta:

A adolescência. Eu acho que fui feliz na adolescência. Participei de muitos bailes. Minha mãe fazia roupas, ela costurava bem. Tinha o grupo de tradições japonesas.

 

Pergunta: Seus pais eram restritos à comunidade?

 

Resposta:

Não eram não, mas existiam várias atividades da colônia japonesa. Eu fiz teatro, cantei também em japonês, fui até para São Paulo, porque peguei o segundo lugar em Mogi. Estudei a língua japonesa até o sexto ano e falava muito bem japonês. Foi na adolescência que comecei no atletismo, comecei a me destacar na colônia. Uma das coisas marcantes nessa época foram as viagens que fiz representando a colônia japonesa à Argentina, ao Japão. Depois, pela universidade, quando fiz educação física na USP, eu representei a universidade também, no Brasil e no Uruguai.

 

Pergunta: Você se lembra dessa música que você cantou, pela qual você ganhou a segunda colocação?

 

Resposta:

Não.

 

Pergunta: Conte um pouco das suas experiências artísticas lá fora, no exterior.

 

Resposta:

Essas viagens foram pelo atletismo, quando eu corria os 200 metros, que era a minha especialidade, 100 metros e o salto em distância. Essa experiência artística eu tive depois. Eu vou dar um pulo.

 

Pergunta: Antes de a atleta se manifestar, conte um pouco como foi romper com a tradição oriental, de formação familiar, para o mundo artístico. Como uma mulher descendente de orientais não fez como eles já faziam?

 

Resposta:

Na realidade acho que não houve uma ruptura nesses termos. Meus pais sempre queriam, eles eram um pouco diferentes dos japoneses mais tradicionais, que se fecham. Eles diziam que a gente estava no Brasil e se a gente fosse fazer algo, ia precisar fazer para o Brasil. Isso foi maravilhoso. Eles se abriram tanto, que dos quatro filhos, três são casados com brasileiros. Os japoneses não, normalmente querem alguém da colônia. Essa parte artística, como eu dancei por muito tempo a dança japonesa, estava acostumada a fazer pequenas viagens, acho que não houve, não me lembro de ter sido frustrada ou de ser impedida de fazer alguma coisa nesse sentido. Foi uma coisa natural. Foi difícil quando eu fui para a comunidade, para a Bahia, onde eu tive de segurar e mostrar que eu tinha convicção, senão eu não iria.

 

Pergunta: Teve de mostrar para os pais?

 

Resposta:

Com certeza.

 

Pergunta: Como foi isso?

 

Resposta:

Eu estava fazendo o último ano da faculdade de educação física quando fui para a Bahia fazer um curso de dança. Depois disso eu fiquei tão impressionada com o professor que eu queria morar na comunidade que estava se formando lá. Meus pais ficaram muito preocupados porque eles sabiam que eram homens e mulheres nessa comunidade.

 

Pergunta: Que idade você tinha?

 

Resposta:

Tinha 19 para 20 anos. Era uma idade um pouco preocupante, e era na Bahia e a gente morava em Mogi, longe dos olhos dos meus pais. Então, eles queriam ter a certeza de que eu estaria com uma convicção tal que pudesse ficar lá sem voltar depois de uma semana e que eu tivesse uma conduta, como pessoa, como mulher, que eles pudessem confiar em mim. E foi difícil no sentido que também os meus irmãos ficaram questionando. Eu tive de bater muito o pé e mostrar que eu tinha convicção para isso. E eu consegui.

 

Pergunta: A sua formação acadêmica é em educação física?

 

Resposta:

É em educação física, letras e pedagogia.

 

Pergunta: Você fez letras também?

 

Resposta:

Sim.

 

Pergunta: Onde?

 

Resposta:

Educação física foi na USP; depois letras eu fiz na Faculdade de Filosofia em São Caetano, UniABC, e pedagogia fiz em São Bernardo.

 

Pergunta: O que te levou a esse lado de letras?

 

Resposta:

Eu sempre tive uma queda para o inglês, para as línguas em geral. Nas viagens, eu sou muito autodidata, eu falava espanhol nas viagens que fiz com o atletismo, então já havia exercitado, falava japonês e inglês, na Fundação das Artes, quando eu dava aula lá, eu comecei a querer fazer uma tradução sobre Rudolf Von Laban, que é um cientista do movimento. Eu comecei a fazer a tradução e de repente eu já estava falando. Então, eu pensei em fazer um curso decente para poder dar aulas. Foi quando fiz a Cultura Inglesa e comecei a entrar na língua inglesa.

 

Pergunta: Já que você falou da literatura, fale de autores que te influenciaram, autores com os quais você teve empatia, da literatura nacional ou internacional.

 

Resposta:

Um autor que gosto muito, pela força que ele tem, que ele fala da terra e é uma coisa vital: Shakespeare. Descobri os textos deles, que são uma maravilha, que me tocam demais. Tive uma emoção grande quando estive na Inglaterra, de poder ouvir um inglês declamando Shakespeare, "Romeu e Julieta". Estive também na casa de Shakespeare.

 

Pergunta: E dos brasileiros?

 

Resposta:

Não sei se me influenciou, mas gosto muito de Machado de Assis. Gosto de um autor que fala, que modifica as palavras. Esqueci o nome.

 

Pergunta: Guimarães Rosa?

 

Resposta:

Sim.

 

Pergunta: Fale um pouco de namoros, como era essa relação, como o jovem namorava?

 

Resposta:

Era muito diferente. Acho que eu era muito volúvel. O namoro era muito inocente. É claro que a gente não ficava dentro de casa de mãos dadas. Naquela época a gente ficava, acontecia. Não sei dizer como a gente namorava.

 

Pergunta: Você sendo do meio artístico e acabou direcionando sua vida para isso, sentiu algum preconceito em relação à sua atividade como artista na sociedade, por parte de outros segmentos, outras pessoas?

 

Resposta:

Não.

 

Pergunta: Em relação aos fatos históricos do nosso país, você vivenciou algum período mais intensamente, como a ditadura militar, a censura?

 

Resposta:

Não. Na época que eu fazia educação física havia muitos movimentos, em 1968, 1969, mas eu sempre estive à margem da política. Sempre fui muito ignorante. Eu procuro saber, mas não fui uma ativista, não participei. Participei de uma ou duas passeatas, mas não tenho muita coisa a dizer.

 

Pergunta: E o fato da história do homem, da humanidade, que tenha te impressionado nesses tempos? Você se lembra da chegada do homem à lua?

 

Resposta:

Sim. Era um movimento muito mágico e impressionante. A imagem está no nosso subconsciente, de aproximar os astros, o cosmos, de nós, de maneira física, não só espiritual. Acho que foi uma conquista espiritual ao mesmo tempo em que era uma conquista tecnológica. Acho que a partir daí vêm vindo conquistas e descobertas. Estamos chegando mais próximos, concretamente, de algo muito maior. Isso é marcante e acho que para mim é uma das coisas mais importantes, essa coisa da religião com a tecnologia, com a ciência.

 

Pergunta: A sua chegada ao ABC foi em que ano?

 

Resposta:

Foi em 1974.

 

Pergunta: Você veio direto para São Caetano?

 

Resposta:

Não. Fiquei em São Paulo na casa do meu irmão, mas foi durante uns três meses e depois viemos para cá.

 

Pergunta: Quando você veio para cá, já começou a trabalhar?

 

Resposta:

Então, uma das pessoas que fez o curso lá na Bahia, quando eu estava na comunidade, é a Maria do Carmo, e ela ser secretária da Fundação das Artes.

 

Pergunta: A Carminha?

 

Resposta:

Sim. Aí, sabendo que a gente estava por aqui, ela chamou, me convidou para vir conversar. Na época o Manuel Reis trabalhava com a parte gráfica e o Milton estava precisando alguém que fizesse aquela revista Artes, da Fundação das Artes, uma pessoa que concebesse, que desse forma a essa revista. Aí o Manuel foi escolhido, foi contratado, e depois de alguns meses eles falaram sobre uma professora de dança, e foi quando eu entrei na Fundação.

 

Pergunta: E as aulas na Fundação eram somente para o grupo de teatro?

 

Resposta:

Era dança moderna para crianças e adultos depois foram entrando.

 

Pergunta: Você se lembra como era a cidade nessa época, como era São Caetano?

 

Resposta:

Era bem mais tranqüila, não tinha movimento na cidade. Aqui não teve grandes mudanças, pelo menos segundo a minha memória, que não é muito boa.

 

Pergunta: Fale um pouco sobre essa sua experiência na Bahia.

 

Resposta:

Esses dois anos em que fiquei na Bahia eu acho que foram os anos mais importantes da minha vida, porque formaram o meu caráter e eu tive também uma formação profissional, porque o Presidente da Casa do Livro era o Wolf Guelerds, que era professor de dança na escola de dança da Universidade Federal da Bahia e era também chefe de integração artística. Nós tínhamos aula com ele, praticamente todo sábado e domingo, e a gente fazia técnicas de dança, fazíamos composições da dança, introdução de dança. E além disso a gente fazia muitas reflexões. Nos reuníamos todas as segundas-feiras, à noite, aberto ao público, onde ele lia os textos dos filósofos e nós ficávamos refletindo. E lá eu aprendi muito a refletir e isso foi muito importante para mim. E também nós fazíamos tradução de livros do inglês para o português, porque a gente estava editando a revista Alandra, que era uma revista mensal, com informes educacionais. Imagina você ficar 24 horas por dia pensando em filósofos, pensamentos muito edificantes e fazendo, com uma disciplina, todos os dias. A gente acordava às 5 horas da manhã para fazer um trabalho cultural, além de dar os cursos fora. Esse período é uma época de enfoque, de concentração, de objetivação, de ação. Eu tinha 20 anos e você imagina o que isso significa. Era uma adolescente procurando alguma coisa para focar a energia e você encontra 24 horas por dia trabalho, ação, trabalho em comunidade. Isso foi maravilhoso.

 

Pergunta: Como foi a entrada na sua vida da televisão e do rádio com tanto desenvolvimento espiritual? Como o rádio e a televisão bateram em sua vida?

 

Resposta:

Nem lembro. Nós não tínhamos televisão e rádio. Nós ficávamos completamente absorvidos no trabalho. E como o Wolf era professor de dança, ele publicou dois ou três livros sobre estrutura sonora, "Ver, Ouvir e Movimentar-se", um caderno sobre movimentos para a coluna. Tinha épocas que a gente quase não dormia, porque além das traduções dos livros, nós tínhamos esse material didático, e nós ficávamos às vezes sem dormir, direto.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Ele veio da Alemanha para cá, com uma linguagem muito mais rica.

 

Pergunta: Essa comunidade  ainda existe?

 

Resposta:

Existem vários núcleos. Ele viajava muito e foram se formando vários núcleos. Hoje a central está em Belo Horizonte. Tínhamos núcleos em Fortaleza, Feira de Santana, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Novo Hamburgo, enfim, pelo Brasil todo. Hoje estou um pouco distante do movimento, mas sei que existem agora encontros e no início do ano são os encontros da casa, que é um encontro nacional.

 

Pergunta: Depois da Bahia você veio para o ABC? Por qual motivo?

 

Resposta:

Eu deixei a Bahia porque senti que a minha experiência tinha se concluído lá e sentia a necessidade de algo mais, mas não sabia o que era. Esse trabalho de comunidade já me bastava e talvez eu precisasse fazer um contato com o mundo, fazer uma comunicação com o mundo por toda bagagem que eu tinha aprendido. Lá nós ficávamos à parte do mundo. Lá, quem tinha mais contato era o próprio Wolf, que dava aula na Universidade e uma amiga nossa, Bete, que era também professora. Eles tinham contato, mas nós não, o restante ficava totalmente recluso, trabalhando. Eu precisava de alguma experiência mais aberta, e a primeira idéia foi São Paulo, é claro. As portas se abriram com a Fundação das Artes e eu fui começar a experimentar a dança com crianças, adolescentes, fazendo coreografias.

 

Pergunta: Você acabou conhecendo antes de vir para São Paulo, a Fundação das Artes?

 

Resposta:

Uma das viagens que nós fizemos foi para São Paulo e vim como assistente, e fomos dar aulas na Fundação das Artes, para os professores. Isso foi lá por 1971. Eu conheci a Carminha.

 

Pergunta: Esse período na Fundação das Artes durou quanto tempo e vocês faziam aqui ou em São Paulo? (Inaudível)

 

Resposta:

Eu saí da casa do meu irmão e vim morar em São Caetano, porque meu companheiro começou a fazer trabalhos aqui. Então, a gente se estabeleceu aqui.

 

Pergunta: Em que lugar de São Caetano?

 

Resposta:

Na Vila Gerti.

 

Pergunta: Fale um pouco sobre o grupo TEAR.

 

Resposta:

É um grupo de teatro amador, que fazia ensaios na Fundação. Quem era o diretor era o Jonas Bloch e eu dava aula de expressão corporal. A Cássia Kiss era aluna, o Marcos Frota era aluno também de teatro, e foi a Cássia que teve a idéia, ela que veio falar comigo se eu queria fazer a coreografia da peça teatral "Aventuras de Lacraia". Eu não tenho muita informação desse grupo, da trajetória dele, porque eu só peguei nesse espaço de tempo. Foi por alguns meses o trabalho.

 

Pergunta: Na Fundação das Artes você trabalhou com muitos alunos?

 

Resposta:

Não. Acho que foram 8 ou 9 turmas.

 

Pergunta: Havia muitas mulheres na Fundação das Artes? Nos cursos de teatro, muitas mulheres cursavam?

 

Resposta:

No teatro não sei, só posso dizer sobre dança. Na dança praticamente eram mulheres. Lembro que trabalhava com um rapaz, que não lembro o nome dele, que fez uma coreografia que marcou, sobre as mulheres da Praça de Maio, e ele era o único rapaz. E ele foi muito porque ele dava o tom da dança, da coreografia. Lembro só dele. Mais tarde eu dei aulas fora da Fundação para rapazes, mas era muito difícil. Talvez agora tenha mudado essa mentalidade de que dança é mais para mulheres. Mas na época eram praticamente mulheres.

 

Pergunta: E fale sobre a sua experiência de trabalho fora da Fundação, em São Paulo, de concursos, festivais, alguma coisa que você tenha participado.

 

Resposta:

Eu sempre fui uma pessoa que evitava. Eu nunca fui de participar de concursos, de festivais. Nunca participei. O que eu fiz muito foi quando o Wolf faleceu, que eu fiquei encarregada de toda a expansão da Casa e eu rodei o Brasil inteiro, de norte a sul, dando cursos e dançando, mas sempre para platéias, uma coisa mais íntima, não para grandes públicos.

 

Pergunta: Essa platéia era mais seleta ou era para o povo, para a massa?

 

Resposta:

Era geralmente para pessoas que vão fazer o curso. Ou eu dava na abertura, uma dança de abertura de curso, ou para finalizar, ou às vezes convidada pelo próprio núcleo do local onde eu estivesse dando o curso, eles faziam a divulgação e eu ia. Era aberto, mas eram poucas pessoas. Só no Paulo Machado de Carvalho que teve uma platéia grande, nos dez anos de Fundação, na comemoração. Nos outros não, sempre foi pouco público.

 

Pergunta: Vocês tiveram, com o grupo, apoio, patrocínios, ou não, era o próprio grupo que se mantinha?

 

Resposta:

Era mais o grupo. Lá em Novo Hamburgo havia uma menina, Ariete, que é uma pessoa muito engajada, petista, e que atua muito, ela fazia as divulgações e às vezes conseguia algum apoio da Prefeitura de Novo Hamburgo. E algumas, aqui e ali, se conseguia.

 

Pergunta: A platéia desses espetáculos, portanto, era mais restrita?

 

Resposta:

Sim, também por causa da própria dança. A dança que eu faço necessita de uma intimidade com o público, porque não é uma dança de saltos, mas é o que vem de dentro. Eu exponho o meu interior e é uma coisa que necessita uma certa sintonia. Eu não faria isso em qualquer lugar. Como a própria dança exige de mim uma concentração muito grande, porque eu procuro expressar o que está ocorrendo dentro de mim, então o contato com o meu interior tem de ser muito forte para eu poder expressar alguma coisa. Então, naturalmente foi acontecendo isso, não que eu quisesse que tivesse de ser assim ou assim. Não, foi acontecendo naturalmente.

 

Pergunta: Vocês já pensavam em apresentar a dança num projeto diferenciado para escolas públicas?

 

Resposta:

Não. O próprio Wolf, se não tivesse falecido, talvez teria feito isso. Na época que ele dava aula de dança na Universidade de Salvador, ele chegou a fazer uma apresentação onde várias músicas foram dançadas, inclusive pelos alunos de dança da cidade, e foi uma coisa que deu um impacto muito grande. Mas o próprio ambiente, qual era o público, o público que estava fazendo o curso de estruturas sonoras, que era a disciplina do Wolf. Foi uma coisa muito interessante em termos de desenvolvimento da dança como instrumento de educação, mas ao mesmo tempo não foi para um grande público, mas para as pessoas que vieram fazer o curso.

 

Pergunta: Vamos falar da sua vida hoje. A que você tem se dedicado atualmente e quais seus projetos?

 

Resposta:

Na minha vida acontece tanta coisa. A minha trajetória foi com o Wolf, depois passei pela dança clássica, dança moderna, pela expressão corporal, depois eu fiz um certo parêntese para me dedicar mais às partes energética e terapêutica. Eu fiz cursos de osso rajinishi, que é da parte terapêutica, fiz curso de uma terapia à base temporal, e fui me inteirando de outras coisas que não fosse a dança, porque estava me interessando a parte energética. E o Tai Chi, hoje eu estudo Tai Chi e isso fala do lado energético. Eu pesquiso e procuro uma nova dança, que não sei que forma vai ter. Também estou pesquisando formas geométricas, a geometria sagrada, porque muitas figuras entraram na minha e pesquiso a energia. E o que eu faço agora? Eu não estou dançando, não estou dando aula de dança, mas não quer dizer que eu esteja parada. Eu estou buscando muito mais, me esforçando muito mais para descobrir algo que eu não sei exatamente o que é, mas vou chegar lá. Que tipo de dança é, eu não sei, mas sei que vai trabalhar com energia e se eu trabalho com energia eu trabalho com a vida, com educação, com psicologia, com terapia, com os números da matemática. Quem sabe um dia eu venha aqui falar como é essa dança.

 

Pergunta: Voltando ao teatro, você ouviu falar do GTC, do Teatro de Alumínio, de Santo André e do Grupo de Teatro Regina Paces, de São Bernardo? Você ouvia falar desses grupos na Fundação das Artes?

 

Resposta:

Não.

 

Pergunta: A sua participação foi só com o TEAR?

 

Resposta:

Sim, e com expressão corporal, que eu dava para alguns, alunos da Fundação das Artes mesmo e também participavam alguns atores.

 

Pergunta: Durou quanto tempo seu período na Fundação das Artes?

 

Resposta:

Não sei precisar exatamente. Acho que foram seis meses, não mais que isso.

 

Pergunta: Era seu primeiro trabalho com teatro?

 

Resposta:

Era. Eu fiquei meio perdida porque tive de fazer coreografia e os cursos de coreografia eram diferentes. Eu tive de me adaptar às músicas, ao próprio contexto do teatro. Mas foi muito legal. O Jonas me dava algumas ajudas. Graças a Deus foi legal e fui até premiada. Acho que não merecia, mas ganhei o prêmio de melhor coreografia.

 

Pergunta: A gente gostaria que você deixasse alguma mensagem, falasse mais alguma coisa, fechasse seu depoimento com alguma mensagem para as pessoas que depois vão assistir a esta fita, no futuro. Qual mensagem você gostaria de deixar?

 

Resposta:

A arte pode salvar o mundo. Eu acho que estamos tão atolados na matéria, em coisas que não nos dizem respeito, em coisas que não dizem respeito àquilo que o homem pode ser, o que o homem é. A arte, como resgate daquela fagulha que o homem tem, que é muito maior do que tudo que nós somos hoje em dia. Podemos ser muito mais. E a educação e a arte podem moldar o homem do futuro. A gente não sabe como utilizar isso, mas nós precisamos utilizar o poder da arte, porque a arte faz a ligação do visível com o invisível. Nada é tão completo quanto a arte. Você faz a ligação do cosmos com aquilo que existe, que é o ser humano, sua vida, sua busca. Viva a arte, e que possamos nos enobrecer cada vez mais com a arte, com a nossa força e com a nossa esperança, e com  a perseverança, porque sei que não é fácil para o artista, mas não tem jeito, vai ser a coisa do futuro. Tenho certeza absoluta.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul