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Gertrudes Dal Pos

Gertrudes Dal Pos é brasileira, nascida em São Paulo, capital. Filha de imigrantes austríacos, a mãe, Ana Hönnegger, era enfermeira e o pai, Arthur Hönnegger, era mecânico/engenheiro. Completou o 1º grau em um Grupo Escolar de São Caetano do Sul, cidade onde morou até se casar. Enquanto solteira trabalhou como aeromoça da Vasp. Casou-se com Geraldo Dal Pos, filho de imigrantes de alemães, residentes em Santo André. Seu sogro, Walter Dal Pos, foi um dos fundadores da Escola Alemã de Santo André. Gertrudes e Geraldo tiveram duas filhas e um casal de netos. Contou histórias da imigração de seus pais e de seus sogros, dos costumes da comunidade germânica na região, como escolaridade, culinária, entretenimento, festas, etc. Relata episódios de perseguição aos alemães no ABC na época da II Guerra. 

Imagem do Depoente
Nome:Gertrudes Dal Pos
Nascimento:14/12/1934
Gênero:Feminino
Profissão:Dona de casa
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Paulo

Arquivos de Imagem

Gertrudes Dal Pos_I001

Anna Hönnegger (mãe) e Gertrudes Dal Pos com 5 meses de idade. Registro feito na Rua Marechal Deodoro, em São Caetano do Sul-SP, em 1935.
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Anna Hönnegger (mãe) e Gertrudes Dal Pos com 5 meses de idade. Registro feito na Rua Marechal Deodoro, em São Caetano do Sul-SP, em 1935.
Gertrudes Dal Pos_I003

Frida Schmidt (tia) e Gertrudes Dal Pos pintando ovos cozidos de galinha, no jardim de casa durante a Páscoa. Registro feito na Rua Rio de Janeiro, em São Caetano do Sul-SP, em 1937.
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Arthur Hönnegger (pai), Frida Schmidt (tia) e Gertrudes Dal Pos. Viagem feita para Santos-SP, ainda pela antiga estrada de ferro. Registro feito na Praia Gonzaga, em 1940.
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Primeira comunhão de Gertrudes Dal Pos na Igreja Sagrada Família. Registro feito em São Caetano do Sul-SP, em 1946.
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Turma do segundo grupo escolar da Escola Industrial Júlio de Mesquita (primeiro prédio), localizado na Praça do Carmo. Registro feito em Santo André-SP, em 1948.
Gertrudes Dal Pos_I007

Preparação para o desfile em comemoração a Independência do Brasil, do segundo grupo escolar da Escola Industrial Júlio de Mesquita (primeiro prédio). O desfile era realizado na Rua Coronel Oliveira Lima.
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Alunas da Escola Industrial Júlio de Mesquita (primeiro prédio) e a professora de Educação Física, Ruth Lemos da Veiga. Registro feito na Praça do Carmo, em Santo André-SP, em 1949.
Gertrudes Dal Pos_I009

Gertrudes Dal Pos no jardim da Praça do Carmo. Registro feito em Santo André-SP, em 1949.
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Gertrudes Dal Pos e a professora de Educação Física, Ruth Lemos da Veiga. Registro feito na Praça do Carmo, em Santo André-SP, em 1949.
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Gertrudes Dal Pos utilizando o uniforme da Escola Industrial Júlio de Mesquita (segundo prédio), localizado na Rua Pref. Justino Paixão. Registro feito em Santo André-SP, em 1950.
Gertrudes Dal Pos_I012

Preparação para o desfile em comemoração a Independência do Brasil, turma da Escola Industrial Júlio de Mesquita (segundo prédio), localizado na Rua Pref. Justino Paixão.
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À esquerda, Gertrudes Dal Pos desfila em comemoração a Independência do Brasil. Turma da Escola Industrial Júlio de Mesquita (segundo prédio), localizado na Rua Pref. Justino Paixão.
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Formatura de Gertrudes Dal Pos na Escola Industrial Júlio de Mesquita. Registro feito em Santo André-SP, em dezembro 1950.
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Treinamento para aeromoça em um avião Scandia, da antiga VASP. Fotografia tirada para uma reportagem. Gertrudes trabalhou na empresa entre 1952 e 1956. Registro feito em São Paulo, em 1952.
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Treinamento para aeromoça em um avião Scandia, da antiga VASP. Fotografia tirada para uma reportagem. Gertrudes trabalhou na empresa entre 1952 e 1956. Registro feito em São Paulo, em 1952.
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Casamento de Gertrudes e Geraldo Dal Pos (marido), na Igreja Luterana de São Paulo, localizada na Av. Rio Branco. Registro feito em 1957.
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Casamento de Gertrudes e Geraldo Dal Pos (marido), na Igreja Luterana de São Paulo, localizada na Av. Rio Branco. Registro feito em 1957.
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Casamento de Gertrudes e Geraldo Dal Pos (marido), na Igreja Luterana de São Paulo, localizada na Av. Rio Branco. Com Anna Hönnegger (mãe) e Arthur Hönnegger (pai) na saída da igreja. Registro feito em 1957.
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Gertrudes Dal Pos e Irene Schmidt (prima) na festa de casamento, no Clube Harmonia (clube alemão) em Santo André-SP. Registro feito em 1957.
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Festa de casamento de Gertrudes e Geraldo Dal Pos, no Clube Harmonia (clube alemão) em Santo André-SP. Ao fundo está Hermann Clever (tio do marido). Registro feito em 1957.
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Salão de festas do Clube Harmonia (clube alemão) com os convidados, parentes e amigos. Registro feito em Santo André-SP, em 1957.
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Coral do Clube Harmonia (clube alemão) formado por membros da associação. Walter Dal Pos (sogro) é a 5º pessoa da direita para a esquerda. Registro feito em Santo André-SP, em 1957.
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Confirmação de Helga Clever (prima do marido) na Igreja Luterana de São Paulo. Parentes e amigos prestigiaram o momento. Registro feito em 1957.
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Gertrudes, Geraldo, e Rosemari Dal Pos com 4 meses de nascimento. Registro feito no bairro Osvaldo Cruz, em São Caetano do Sul-SP, em 1958.
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Gertrudes Dal Pos e Geraldo Dal Pos (marido) com as suas duas filhas, Elizabete Dal Pos (esquerda) e Rosemari Dal Pos (direita). Registro feito no bairro Osvaldo Cruz, em São Caetano do Sul-SP, em 1961.
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Comemoração pela entrega parcial da construção da Igreja Luterana do ABCD. A festividade contou com a vinda de autoridades, o Pastor Fischer e a comunidade luterana. Registro feito na Rua Almirante Tamandaré, em Santo André-SP, na década de 1960.
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Comemoração pela entrega parcial da construção da Igreja Luterana do ABCD. A festividade contou com a vinda de autoridades, o Pastor Fischer e a comunidade luterana. Registro feito na Rua Almirante Tamandaré, em Santo André-SP, na década de 1960.


Transcrição do depoimento de Gertrudes Dal Pos em 11/12/2008

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias

Depoimento de Gertrudes Dal Pos, 73 anos

São Caetano do Sul, 11 de dezembro de 2008

Pesquisadoras: Mariana Lins Prado e Priscila Perazzo

Equipe técnica: Felipe Dessico e Danilo Lechner

Transcritora: Mariana Lins Prado

Pergunta: Então a gente começa pedindo pra senhora falar a sua data de nascimento, o local onde a senhora nasceu e contar um pouco da sua infância.


Resposta: Nasci em São Paulo porque minha mãe foi pra lá. Porque eu sou, fui criada aqui. Aí não sei como é que vocês querem que...


Pergunta: Não “aqui”, quando a senhora que era Santo André, São Caetano na época, né? (?)


Resposta: É, cito São Paulo, então Santo André, São Caetano, São Caetano.


Pergunta: Mas a senhora nasceu em São Paulo?


Resposta: Nasci em São Paulo.


Pergunta: Mas a sua mãe, ela foi tipo, nasceu em hospital, parteira...?


Resposta: Não, minha mãe, ela foi enfermeira do Hospital Santa Catarina, então ela tinha todos os médicos conhecidos, então ela foi, na hora ela foi pra lá, eu nasci lá, mas...


Pergunta: A senhora foi registrada lá? (?)


Resposta: É, eu fui registrada lá.


Pergunta: Sua data de nascimento?


Resposta: 14 de dezembro de 1934.


Pergunta: (?) Conta um pouquinho assim da sua origem, dos seus pais.


Resposta: Meu pai veio pro Brasil, é austríaco, veio pro Brasil em 1921. A época que minha mãe também veio, no mesmo navio, navio Cuiabá. Em novembro.


Pergunta: Eles vieram juntos, casados? Não?


Resposta: Não, eles eram crianças.


Pergunta: Foi uma coincidência?


Resposta: Uma coincidência, porque eles moravam no mesmo local, na Áustria, na mesma cidade. Então veio um grupo nesse navio, vieram pra cá e depois cada um tomou um rumo diferente. E depois se reencontraram através da colônia. Se reencontraram e namoraram e casaram.


Pergunta: Seu pai (?)


Resposta: Não, é o meu avô. Ah, quer dizer, eu acho que meu pai, eu acho que sim. Eu acredito, sim, só que essa parte aí eu já num... Ela sabe mais porque ela é mais velha do que eu.


Pergunta: (?)


Resposta: Minha mãe, ela trabalhou... Ela trabalhou acho que em casas de famílias e depois trabalhou praticamente 10 anos no Hospital Santa Catarina.


Pergunta: Então sua mãe não chegou a ir a fazendas?


Resposta: Quer dizer, ela ficou um pouco, mas não ficou muito tempo, não.


Pergunta: E por que esses familiares, esse grupo saiu lá da Áustria pra cá nessa época?

Resposta: É, porque na época havia uma pessoa, não sei exatamente o nome, se era aliciador ou como é que chama, que reunia grupos de pessoas e para virem pra cá, porque era a terra prometida, o Brasil. Só que chegaram aqui, houve aquela decepção, sofrimento pra alguns e... até onde eu sei, porque aí no caso minha tia sabe mais do que eu.


Pergunta: Conta um pouco da sua infância pra nós, como foi? A senhora tem mais irmãos?


Resposta: Não, sou filha única.


Pergunta: Como que foi a infância? (?)


Resposta: Bom, foi de uma maneira, foi uma criança comum. Com brincadeiras, travessuras. Fui pra uma escola particular pra ser alfabetizada antes de entrar pro ensino básico.


Pergunta: A senhora lembra qual escola? Em São Caetano, né?


Resposta: Em São Caetano. Acho que era o 2º Grupo Escolar, a escola hoje que eu acho que não existe mais. Ou, se existe, ela deve estar na rua Maranhão, mas na época ela era na rua Monte Alegre, esquina com a [rua] Manoel Coelho. Hoje existe um prédio no local. Então era ali a escola.


Pergunta: A senhora entrou na escola com sete anos?


Resposta: Com sete anos.


Pergunta: Quando a senhora aprendeu a língua, era alemão que se falava?


Resposta: Quer dizer, austríaco e alemão tem pouca diferença. Então, só que à época da guerra, pouco se podia falar... E eu voltei a falar através do meu sogro, porque meu sogro, meu marido já tinha estudado, mas na Escola Alemã de Santo André, que meu sogro ajudou a fundar. E ele que fazia muita questão que se falasse o idioma alemão, porque ele era da opinião que do portão pra dentro, se falava a língua dos pais, pra que não se perdesse o vínculo, e do portão pra fora, se falava a língua do país. E ele honrava muito essa teoria dele, porque ele dizia que aqui ele tinha casado, trabalhado, casado e os filhos deles tinham nascido aqui. Então ele valorizava muito, porque diz que foi a acolhida que deram a ele. A ele e à esposa.


[pausa técnica]


Pergunta: Pronto. Nós estávamos conversando sobre... os seus sogros, sobre o falar da língua. A senhora repete sua data de nascimento, o ano é trinta...?


Resposta: [Trinta e] Quatro.


Pergunta: Então a senhora foi pra escola mais ou menos em 40, 41.


Resposta: É, porque em 42, acho, porque eu terminei em 46. É, 42. 1942, eu terminei em 46 e em 47 eu fui pra escola em Santo André. Em São Caetano não tinha ainda escola, é, ginásio, como hoje também não tem mais.


Pergunta: E nessa época que a senhora lembra que não podia falar alemão?


Resposta: Não, não, isso era antes.


Pergunta: Antes de 42?


Resposta: Não sei.


Pergunta: Na sua casa já era assim.


Resposta: É, na minha casa, por causa da profissão de enfermeira no Hospital Santa Catarina, ela já tinha que falar o português. E então eles estavam mais parolados (?) porque minha mãe tinha 12 anos quando veio pro Brasil, meu pai tinha 15... Então... Agora o meu sogro era diferente, meu sogro ele já veio com mais idade. Já era mocinho, acho que com 21 anos, 22, por ao. E minha sogra também, ela tinha 19 anos. Então, as idades, acho que eles são mais velhos que meus pais.


Pergunta: Eles se conheceram no navio?


Resposta: Quem?


Pergunta: Seus sogros.


Resposta: Meu sogro e minha sogra, eles se conheceram acho que... Dentro de um clube alemão que existia na época, em Santos, que chamava-se Berg, e hoje já não existe mais. E hoje parece que o exército está lá. É, parece que no Areia Branca, em São Vicente. Ali tinha uma, ali acho que eles devem ter se conhecido. Quer dizer, namoraram, casaram-se, casaram-se acho que no Consulado Alemão, que era bonito.


Pergunta: Em que religião eles se casaram, era diferente, ou era...?


Resposta: Bom, a história da religião, já existe um caso de religião na família que o sobrenome Dal Pos é de origem italiana, o avô do meu marido era italiano. Mas na juventude, ele atravessou a fronteira e casou-se com uma moça alemã.


Pergunta: Que era a Dona Ana?


Resposta: Não, a Dona Ana é minha sogra.


Pergunta: Ah, era sua sogra!


Resposta: A... A vó do meu marido chamava-se Lina. E aí vieram todos os filhos, só que ele tinha, ela, a vó do meu marido, então a mãe do Seu Valter, ele... Ele era luterano e a esposa era católica. E na época, o católico queria que fossem todos os domingos à Igreja, e o luterano não era tão, não precisava ser tão assíduo. E o padre fazia cobranças em público. E aí então resolveu, o avô do meu marido resolveu sair da igreja católica, aliás, a esposa dele saiu da católica e eles foram pra Igreja Luterana.


Pergunta: Dona Gertrudes, só um porquinho que eles vão trocar a bateria.


Resposta: E aí, inclusive na época, meu sogro não veio no batizado das minhas filhas.


Pergunta: Ah, é?


Resposta: É, porque eu casei na Luterana.


Pergunta: Ah, quando eles se mudaram...


Resposta: É, porque na época, 50 e poucos anos atrás, eles queriam que meu marido se batizasse na Igreja Católica, e meu marido não concordou, porque minha sogra também era católica, então ela disse que não, que ele já era batizado, que não queria ser batizado novamente, e a gente sabe, pela história, quem foi Martinho Lutero, que foi um padre católico, aquela história toda. Então eles não acharam certo. Então eu, como queria casar de branco, de noiva, então eu casei na Igreja Luterana. Mas nós tínhamos combinado que os filhos seriam educados na religião católica. E quando foi a época do batizado, meu sogro não veio.


Pergunta: Eles moravam onde?


Resposta: Eles moravam em Santo André, aqui. O batizado foi feito em São Caetano, mas ele não apareceu. As duas vezes ele deu uma desculpa. A primeira colou, mas a segunda não.


Pergunta: Os seus pais eram luteranos?


Resposta: Não, meus pais eram católicos. Mas essa história eu to contando a história deles, não a minha história. Eu só herdei uma parte, da religião, que meu marido não quis ser batizado novamente porque ele já era batizado. Foi quando eu casei na Igreja Luterana porque eu queria casar de branco. É o sonho de todo mundo.


Pergunta: E Dona Gertrudes, como foi assim a sua infância nos anos 30? Sua mãe fazia comidas típicas da Áustria, como era?


Resposta: Minha mãe, como trabalhava em hospital, não teve necessidade de fazer alimentos. Quem ensinou, cozinhou, foi meu pai. Meu pai que ensinou minha mãe a cozinhar, inclusive comidas típicas, que são os bolos, e as comidas.


Pergunta: Quais são essas comidas?


Resposta: Bom, eles tinham... Eles faziam muita coisa a base de farinha... Batata... Muita carne de porco.


Pergunta: E vocês tinham animais?


Resposta: Não, não... Não, minha mãe não...


Pergunta: E seu pai trabalhava onde?


Resposta: Na época, ele trabalhava no Cambuci, numa firma. Aí, ele ficou durante quase 10 anos na Antarctica. Depois ele saiu de lá e foi pra Orion e foi pra Metal Fritz e se aposentou.


Pergunta: Ele trabalhava com laminação, aço, essas coisas?


Resposta: Ele era mecânico, mas não era mecânico... Ele fazia peças finas. Quer dizer, não o bruto, ele fazia as montagens em peças. Quer dizer, reposição de peças, quando quebrava peças, ele fazia reposição de peças. Inclusive peças grandes ele moldava... Mas tudo isso, era tudo na prática. Comprava livros, estudava, tinha suas réguas, seus lápis, seus triângulos e... Tudo aquilo que faz parte de desenho, e depois ele fundia as peças. E... Seria um engenheiro hoje. Porque a formação que ele tinha na prática da época, hoje seria um engenheiro.


Pergunta: E essa formação ele teve aonde? Na Áustria ou no Brasil?


Resposta: No Brasil, sim, porque ele chegou aqui com 15 anos.


Pergunta: E ele estudou onde? (?)


Resposta: É tudo mais na prática, um sabe, vai transmitindo pro outro conhecimentos. Não havia escolas. Aquela época, só podia estudar quem... Pessoas de posses. Porque ninguém tinha dinheiro pra pagar faculdade. E nem existiam faculdades como existe hoje. Eram poucas. Então ele, por causa que já alfabetizado, ele já tinha feito o curso fundamental na Áustria, então chegando aqui, ele só teve necessidade de adaptar a língua austríaca com o português.


Pergunta: Vocês moravam perto dos seus avós? Quem cuidava da senhora quando seus pais iam trabalhar?


Resposta: Não, mas minha mãe, depois que casou, não. Foi antes do casamento.


Pergunta: A última coisa que ela fez no hospital foi seu parto.


Resposta: [risos] Exatamente! E ela, inclusive, a data dela de casamento foi muito marcada porque ela casou-se no dia da Revolução de 32.


Pergunta: 9 de julho?


Resposta: E os convidados foram à pé pra casa, que não tinha mais ônibus nem trem.


Pergunta: Aqui em São Caetano.


Resposta: É, aqui em São Caetano. Quer dizer, ela casou em São Paulo, na Igreja de São Bento, depois a festa foi aqui em São Caetano. Mas aí também já não sei mais, quem sabe mais seria a Frida, que esteve aqui hoje cedo, porque ela é 10 anos mais velha do que eu, ela conhece melhor essa parte da história.


Pergunta: E apesar da senhora ser bem pequenininha, a senhora tinha conhecimento da escola, da comunidade germânica?


Resposta: Aqui de São Caetano, pouco.


Pergunta: Seus pais não iam.


Resposta: Mão, meus pais não iam. E não foi à tarde, porque a minha mãe já tava em São Paulo. Ela tava no hospital e lá eles dormiam e tinha folga no domingo, eles ficavam direto.


Pergunta: Mas depois que a senhora nasceu...


Resposta: Não, depois que ela casou, acabou.


Pergunta: Então assim, não era comum frequentar algum tipo de festa, algum tipo de...?


Resposta: Não, não.


Pergunta: Divertimento, qual era?


Resposta: Como?


Pergunta: Divertimento. Era ir à igreja...?


Resposta: Não tinha, praticamente. Era aquela luta de se estabilizar, de progredir, de construir uma casa, comprar terreno. Então... Não havia mesmo. Reunião entre famílias também, visitar pessoas – que hoje não se faz. Naquela época, visitar as pessoas era um acontecimento. Se reunirem. Hoje quando se tem que falar é por telefone, ou então por internet.


Pergunta: E São Caetano, a senhora tem lembrança assim dos anos 40, como era a cidade?


Resposta: Eu... Eu me lembro da inauguração da Coop, o que existia onde hoje está a Beneficência Portuguesa, que era uma chácara e depois foi comprada, disso eu tenho lembrança. Quando começaram a construção, inclusive queriam comprar o terreno do meu pai, porque o terreno do meu pai dava pros fundos do que hoje é a Beneficência Portuguesa. Lembro da construção do prédio, disso eu lembro.


Pergunta: Vocês andavam muito de trem?


Resposta: De trem, quer dizer, as ruas começaram a ser pavimentadas, iluminação de ruas estava sendo instalada. Havia na residência, mas não havia luz na rua.


Pergunta: Na época da guerra, a senhora tinha uns 8, 10 anos...


Resposta: Menor. Ah, era por aí... Uns 8, 10 anos. Mais ou menos.


Pergunta: E a senhora tem lembrança dos blackouts.


Resposta: Ah, sim. Não se podia ouvir rádio. Rádios tinham que ser registrados.


Pergunta: Seu pai fez isso?


Resposta: Fez, porque tinha que ter autorização.


Pergunta: Onde?


Resposta: Acho que na Delegacia de Polícia. Num sei...


Pergunta: Aqui mesmo, ou lá em São Paulo?


Resposta: Não, aqui em São Caetano. Num determinado órgão se fazia... E se pagava também pra usar o rádio.


Pergunta: Seu pai gostava de ouvir rádio estrangeira, rádio alemã...?


Resposta: Meu pai muito pouco. Só mais o meu sogro. Meu sogro não, meu sogro... Meu sogro era mais patriota. Ele era mais... O meu pai já era mais... Já era mais pacífico.


Pergunta: O seu sogro era alemão, não austríaco.


Resposta: É, meu sogro era alemão. Ele era de perto de Dortmund.


Pergunta: E o que a senhora lembra do racionamento?


Resposta: Bom, havia na época da guerra, havia racionamento de alimentos, de açúcar, farinha e das carnes. Então tinha que se levar (?) pra fila do açougue. O SESI distribuía cartões que você tinha só meio quilo de açúcar, ou só meio quilo de farinha, Eu lembro que na época era distribuído através dum cartão. E inclusive aqui no Brasil teve mais racionamento do que lá.


Pergunta: E a senhora lembra se seu pai lia jornal estrangeiro ou lia jornal local?


Resposta: Era mais o jornal local. São Paulo. Local nem existia. Em São Caetano não existia jornal.


Pergunta: E era jornal impresso, comprava em banca, como que era?


Resposta: Ele comprava jornal em São Paulo. Em São Paulo é que tinha os jornais, mas aos finais de semana.


Pergunta: Seu pai lia jornais alemães? (?)


Resposta: Não, meu pai não. Meu sogro já era mais... Era mais... Queria saber notícias de lá, assinava jornais. Mas depois de terminada a guerra, aí ele assinava o jornal alemão, com notícias de lá. Porque hoje são só transcritas as notícias. O jornal alemão de hoje é transcrito do português para o alemão.


Pergunta: Naquela época não?


Resposta: Não, eram notícias de lá. Vinham com atraso, mas eram notícias de lá. Quer dizer, era impresso aqui, mas as notícias eram de lá.


Pergunta: E essa história, Dona Gertrudes, dos amigos dos seus sogros que na época da guerra moravam em Santos e precisaram vir pra cá?


Resposta: É, porque havia, houve a época da guerra em que todos os estrangeiros, principalmente os alemães, austríacos, acho que italiano, não sei, japoneses, não podiam permanecer no litoral. Então eles tinham que se esconder. E como meu sogro já morava em Santo André, eles vieram buscar abrigo na casa da minha sogra. Mas eles foram descobertos. Aí então eles precisaram procurar um novo refúgio. Aí eles foram onde hoje está o Horto Klinger, lá em Guapituba, antes de Ribeirão. Lá era uma casa que pertencia ao dono de uma fábrica de gelo (?) de Santos. E os donos então cederam o local para eles se abrigarem. E havia só uma estrada pequena, não existia como hoje. Havia um atalho onde meu marido, de bicicleta, fazia os contatos, dizendo que a família estava bem, dando notícias, né.


Pergunta: (?) Ele levava alimentos, essas coisas?


Resposta: Provavelmente alguma coisa, né? E tinha, devia haver caseiros lá também.


Pergunta: Guapituba é essa região de Ribeirão Pires?


Resposta: Exatamente, antes de chegar em Ribeirão. Eu, há uns dois anos atrás, eu fui conhecer. Então agora existem placas lá do dono – porque agora não é mais deles [família dona da fábrica de gelo], não sei se foi doado, vendido...


Pergunta: Mas assim, eles tiveram que sair de Santos e ficaram escondidos pra não serem presos?


Resposta: Pra não serem presos.


Pergunta: Eles eram considerados assim, inimigos?


Resposta: Não, não tinham nada demais. Eram pessoas que muitas vezes eram visadas.


Pergunta: Só por serem alemães?


Resposta: Só por serem alemães. Eram pessoas visadas. Então, como um era dono de uma fábrica de gelo e eles, essas pessoas, eram funcionários, era pai e filho que trabalhava lá, nessa fábrica, então acharam que tinha potencial de... lá qualquer coisa, eu não sei o que eles pensavam. Eu sei que eles precisaram sair de lá e se esconder aqui em Santo André.


Pergunta: Então como foi essa... Assim, a família do Seu Geraldo, do seu Valter Dal Pos, que vivenciou mais isso.


Resposta: Exato, é.


Pergunta: ... Questões relacionadas à perseguição que houve a alemães aqui na época da guerra. Conta aquelas histórias que a senhora contou pra gente ao telefone.


Resposta: Eu não sei, mas o que é que eu? Eu não entendo muito bem o que você me perguntou.


Pergunta: Essas histórias do seu Valter Dal Pos, que era seu sogro.


Resposta: Meu sogro.


Pergunta: E na época da guerra, que a senhora diz que ele vivenciou, a família do Seu Geraldo vivenciou mais a perseguição de falar a língua, de salvo-conduto.


Resposta: É, existia. Para sair de Santo André, um exemplo, para se locomover de uma cidade pra outra, precisava de um salvo-conduto. Porque senão, quando, se houvesse a fiscalização no trem e você não possuía, você ia presa. Então você precisava, tinha o que seria um passaporte. Hoje pra você entrar em um outro país você tem que ter o passaporte. E naquela época era o salvo-conduto que você tinha que usar pra se locomover de uma cidade pra outra.


Pergunta: Então, por exemplo, pra ir de Santo André, Santo André e São Caetano pra São Paulo, no trem do subúrbio, o estrangeiro precisava do salvo-conduto?


Resposta: Precisava. Se eles chegassem pra você e achassem que você era estrangeiro, você tinha que provar que você tinha passado e tinha um salvo-conduto pra poder viajar, se locomover de uma cidade pra outra.


Pergunta: E essas notícias de outras pessoas sendo presas, tinha essas notícias? A senhora sabia?


Resposta: É, eu tenho um fato que... Não sei exatamente. Eu sei que essas duas pessoas que eram pai e filho, que trabalhavam nessa fábrica. E eles estavam na delegacia e o meu marido, que o chamava de avô, por consideração, mas que não era avô. Ele diz assim “Olha, eu não posso pôr a mão no bolso, mas no meu bolso, atrás, eu tenho dinheiro”. E meu marido, uma criança de talvez, 17, 15 anos, não sei, então tirou o dinheiro pra poder levar pra família. Porque se a polícia tivesse pego, aquele dinheiro sumia.


Pergunta: Eles ficaram presos na delegacia em Santo André?


Resposta: Não sei onde se aconteceu, se em Santo André... Eu pressuponho, ou se em Ribeirão Pires.


Pergunta: Não, porque essa família que ficou escondida lá chegou a ser encontrada. Ela foi pega lá?


Resposta: Não, não. Ela só voltou.


Pergunta: Ela ficou lá até o final da guerra.


Resposta: É. Agora eu sei fatos também que, nessa época em que iam na casa das pessoas... A polícia ia na casa das pessoas pra ver se tinha rádio. Então se escondia rádio nos tetos das casas. O meu avô mesmo escondeu uma arma. Enterrou uma arma que ninguém ficou sabendo, só depois de vinte anos se descobriu onde estava. E tava aqui na [rua] Oswaldo Cruz. Mas ele não contou pra ninguém. E meu pai, depois de vinte anos descobriu a arma dentro de uma lata embrulhada, isso e aquilo. Então, em tudo que se referia à guerra, se você fosse flagrado, isso era motivo pra você ser preso.


Pergunta: E a história do Seu Valter na fundação da escola de Santo André?


Resposta: Olha, eu tenho um, inclusive eu comentei com você, existe um testemunho de uma pessoa que está viva hoje, e ela era, fazia recreação de crianças dentro de um navio. E esse navio afundou na costa o Estado de São Paulo. E eles - alguns – sobreviventes vieram até Santo André e se juntaram nunca casa, na [rua] Florianópolis, você tem registro, e ali já existiam anões.


Pergunta: Anões?!


Resposta: Anões. E eles já [estavam] ali num movimento junto – mas aí já havia terminado a guerra - eles se reuniram pra continuar o idioma alemão. Mentira, foi antes da guerra... Porque na guerra, a escola foi fechada, foi antes da guerra. Então eles fundaram e meu sogro ajudou na construção da escola. E meu marido mesmo estudou 1 ano nessa escola. E depois, com a guerra, ela foi doada a uma instituição chamada Martius Stiftung, e depois da guerra ela foi devolvida, mas aí como Clube Harmonia. Como um clube alemão, onde inclusive foi feita a festa do meu casamento. Mas aí já é uma coisa mais... Isso já foi em 57 [1957]. E depois disso ela foi fechada. Porque ah, já havia, já se dispersavam as pessoas, não eram mais assim unidas. Uns já iam pra ter a chácara, outro ia pra praia, então começou a... Aí depois já não sei o que aconteceu com o clube, porque tem a minha cunhada lá, mas já existem casas residenciais, alguém deve ter vendido aquilo. Mas já é uma época em que eu estava em São Caetano. Quer dizer que quando eu voltei pra cá, eu já não... Não sei exatamente que, como foi feito aquilo.


Pergunta: Depois da guerra a escola reabriu?


Resposta: A escola não.


Pergunta: Vira o clube.


Resposta: Aí vira o clube. Aí inclusive essa instituição, a Martius Stiftung, eles não queriam devolver. Mas aí havia papéis, tinha pessoas que tinham documentos assinados que aquilo apenas era... Pra que não se tomava.


Pergunta: Que o governo não tomava.


Resposta: Que o governo brasileiro. Como existe uma passagem com o meu sogro, que o meu sogro em 1952, ele tinha um terreno e ele quis o terreno. E se ele vendesse o terreno, ele tinha que pagar uma porcentagem pro governo. Então, o que ele fez? Ele emancipou o meu marido e deu uma procuração pra que ele pudesse vender o terreno, pra que não desse essa porcentagem pro governo brasileiro. Então havia certas manobras também já. E meu marido com 17 anos foi emancipado pra poder vender a terra pro pai.


Pergunta: E a família do seu marido já participava mais dessas festas?


Resposta: Ah, sim. Sempre existia o chucrute com as salsichas brancas, os defumados. Inclusive havia entre os homens um certo, uma combinação de que quando chegasse lá, eles jantavam, pra depois eles poderem beber.


Pergunta: Ah, fica à vontade, é pra esquecer mesmo. Depois, se a senhora quiser, quando a senhora vir, a gente corta.


Resposta: Então tinha isso, então eles chegavam lá e jantavam primeiro, as comidas estavam todas prontas. Ou então sopa de ervilha, também eles usavam muito. Quem não queria comer o chucrute com as carnes defumadas, então tinha sopa de ervilha.


Pergunta: E bebida, era mais vinho, chope?


Resposta: Ah, era chope, chope... E tinha que ser chope de colarinho, que eles eram exigentes! E eram uns barris grandes... Aquilo não podia faltar. Mas era por isso que as mulheres faziam questão que os homens, antes de começarem a beber, e aí já... Quem ficava na cozinha sempre eram as mulheres, então quando eles chegavam, já iam nas mesas perguntar “Que que você vai comer? Isso?” quer dizer, já influenciavam eles pra se alimentarem, porque aí, depois...


Pergunta: E a bebida, eles se serviam sozinhos?


Resposta: Não. Tinha as pessoas que, porque aí, também, você tinha que comprar. Você comprava, como hoje se faz em quermesses, quer dizer, os tiquezinhos [ticketzinhos] e...


Pergunta: Como foi que a senhora conheceu o Seu Geraldo?


Resposta: No Clube Harmonia, clube alemão. Porque havia uma festa e eu, quando eu trabalhava, eu trabalhei em aviação, eu tinha perdido o vôo.


Pergunta: A senhora tinha quantos anos?


Resposta: Uns 18, 19... E aí, meu pai, pra me consolar, me trouxe pro clube. E aí e conheci dois rapazes e um deles, dos rapazes, virou meu marido depois.


Pergunta: O namoro já saiu dessa festa?


Resposta: Não, não, não saiu assim, não. Não foi assim. Porque na época não tinha telefone, como de hoje. Eu não tinha telefone na minha casa. Eu só comecei a ter telefone quando veio a CTBC. E nem CTBC não era. Era... Companhia Telefônica da Borda do Campo... Porque antes era só a de São Paulo.


Pergunta: A senhora morava com seus pais em São Caetano?


Resposta: Exatamente.


Pergunta: Os Dal Pos eram da comunidade de Santo André.


Resposta: Daqui de Santo André.


Pergunta: E aí, como é que foi? Porque assim, hoje é pertinho, né? Agora naquele tempo não era tanto.


Resposta: Bom, eu primeiro consegui, eu estava na casa da madrinha da minha filha, que era colega minha de trabalho, e de lá eu telefonei pra firma do meu marido. Ele tinha uma firma já, uma loja, na época. E aí, por telefone, só que os meus contatos eram só quando eu estava no serviço, porque ele não conseguia falar comigo. E ele já tinha carro. Um Vanguart, na época. E aí a gente começou a sair. Ele, como saía de Santo André, tinha que passar por São Caetano pra ir pra São Paulo. Quer dizer, isso quando a gente saía juntos. Ele vinha me buscar em casa.


Pergunta: (?) Quando a senhora casou?


Resposta: Casei em 57 [1957].


Pergunta: Namorou muito tempo?


Resposta: Um ano e quatro meses. Não foi muito comprido. Foi em 55 [1955] que nos conhecemos, e em 57 [1957] nós casamos. Final de 55, começo de 57.


Pergunta: Nessa época dos anos 50 era a época dos bailes, né.


Resposta: Ah, sim. Só que eu nunca participei desses bailes. Quem tem essa história melhor é minha cunhada, porque minha cunhada... Como meu sogro sempre ajudou, tanto na fundação da escola alemã como depois no clube Harmonia, então ela freqüentou muito mais bailes, eu não freqüentava bailes.


Pergunta: E da única vez que a senhora foi [a senhora conheceu o seu marido].


Resposta: A única vez que eu fui...! [risos]


Pergunta: É o destino.


Resposta: É o destino. E ainda assim mesmo ainda demorou um pouquinho, viu. Não foi assim logo, não.


Pergunta: E quando o Seu Geraldo vinha de carro pra São Caetano vocês saíam pra passear ou não?


Resposta: A gente geralmente ia pra São Paulo, porque como ele tinha firma em São Paulo, ele dominava São Paulo. E São Caetano, Santo André não tinha quase nada.


Pergunta: Cinema aqui vocês não iam?


Resposta: Era tudo São Paulo. Já naquela época.


Pergunta: E o seu casamento, a senhora tava começando a contar da festa de casamento... Como foi?


Resposta: Bom, eu casei em São Paulo, na Igreja Luterana, na avenida Rio Branco, só que a festa foi em Santo André, no clube Harmonia.


Pergunta: Que tipo de festa?


Resposta: Bom, era almoço quente. Quer dizer, minha sogra, eles fizeram uma refeição quente. Depois havia um coral lá, porque existia um coral no clube Harmonia, que meu sogro fazia parte desse coral, então presentearam com músicas alemãs. E dança, o que tradicionalmente se faz hoje.


Pergunta: E as suas filhas, nasceram logo?


Resposta: A mais velha nasceu no mesmo ano. Eu tinha casado em janeiro, em fevereiro, dia dois de fevereiro. Ela, em novembro ela nasceu.


Pergunta: E a educação das suas filhas, a senhora acha que teve muita influência dos sogros, dos seus pais?


Resposta: Bom, a minha filha mais velha, até dois anos não falava português. Não sei se a Priscila, você conheceu a Rose?


Pergunta: Conheço.


Resposta: A Rose até dois anos só falava alemão.


Pergunta: A Rose que trabalhou como secretária bilíngüe? Ou foi a Bete?


Resposta: A Bete foi que fez a Ibero. A Ibero foi...


Pergunta: (?)


Resposta: Tô fazendo confusão. Porque parece que a Bete, deixa eu ver se... A Bete acho que saiu com um irmão seu que também faz farmácia. Não é isso?


Pergunta: Eu tenho um irmão que faz farmácia, mas acho... A Bete é bem mais velha.


Resposta: Você tem quantos irmãos?


Pergunta: Não é com a comadre, com a Thais, que eles saíam juntos?


Resposta: Sim, mas aí já é a época do 1º de Maio.


Pergunta: (?)


Resposta: Não sei. Tem umas histórias aí no meio do caminho, porque a sua mãe uma vez contou pra minha neta e eu não sei porque a Vanessa...


Pergunta: Ah, ela estuda na Fundação.


Resposta: Na Fundação. É. E a sua mãe uma vez fez um comentário com a Vanessa, e a Vanessa me contou. Então eu não sei bem, porque eu nunca fiquei sabendo dessa história, fiquei sabendo agora. [risos]


Resposta: Depois eu te conto.


Pergunta: E essa história da senhora ser aeromoça, hein? Nessa época, como é que é isso?


Resposta: Essa história, você quer saber?


Pergunta: É.


Resposta: Eu terminei o ginásio. Eu tinha que, queria fazer faculdade de educação física, mas não havia... Não dava pra fazer. Então tive que trabalhar. Fazer um curso de datilografia, mas não era aquilo, porque eu sentei na máquina e não era aquilo que eu queria, ficar fechada num quarto, eu não me sentia bem. Um dia meu pai me disse “Por que você não vai no, ver o salto de paraquedismo?” Só que esse salto de paraquedismo era no Campo de Marte, e eu fui no [aeroporto] de Congonhas. E chegando em Congonhas eu fiquei deslumbrada, porque antes disso eu já tinha viajado de avião, em 48 [1948], do Rio de Janeiro pra São Paulo, um Douglas. Então na época, eu já tinha andado de avião, não era pra mim nada [demais]... Aí eu vi aquele pessoal uniformizado, bonitinho, certinho, tudo, fiquei encantada. Aí passado um ou dois dias, eu lá até o hangar, fui lá me informar. Fiz um teste, fui aceita, só que eu não podia começar a trabalhar.


Pergunta: Não tinha idade.


Resposta: Não tinha nem dezessete anos, na época. Aí, quer dizer, eu trabalhei, mas no balcão. Porque aí o DAC, que é hoje a... Hoje tem outro nome. Eles não liberaram minha carteira de vôo. Precisei esperar. E aí mesmo meu pai precisou dar autorização porque eu tinha dito a eles que era só esporádico, né. Mentira.


Pergunta: Em que empresa aérea a senhora...?


Resposta: Na VASP, avião aérea.


Pergunta: Tinha muita gente com descendência alemã, austríaca, que trabalhava na VASP, num era?


Resposta: É, tinha mais uma que morava inclusive na [rua] Oswaldo Cruz, esquina com a [rua] Castro Alves. Ela chegou a trabalhar na VASP mas aí não sei pra onde que ela foi. Lembro dela, nome, tudo, também trabalhou na VASP, mas não sei. Porque acho que eu saí antes que ela.


Pergunta: O fato de a senhora saber outra língua facilitou?


Resposta: Ah, sim...


Pergunta: Mas fazia muito vôo internacional?


Resposta: Não. Porque a empresa não tinha e eu não me atrevesse a querer sair do país.


Pergunta: Mas isso já era no pós-guerra?


Resposta: Ah, sim, isso já era em 50 e... Em 51 [1951].O que eu to contando que eu não podia foi em 51. Porque em 52 eu já entrei pro vôo.


Pergunta: Aí já podia voar.


Resposta: Aí eu já podia voar, eu tinha autorização, eu tinha carteira...


Pergunta: E assim, nos tempos passados, a imagem da aeromoça era uma imagem muito bonita. Como que era ser aeromoça? Chamava a atenção, né?


Resposta: Ah, sim. Chamava a atenção, você era muito visada. Tinha seus quiprocós, porque quem trabalhava nesse serviço [ouvia coisas como:] “Ah, mas você vai trabalhar? Só você como mulher, isso, aquilo...”. Quer dizer, esse preconceito. Só que a gente vai indo. Tinha alguns que pulavam a cerca já naquela época, que já tinham seus... Mas tinha aquelas que eram assim certinhas. Então a gente tinha um lema muito, entre nós, um lema que a gente dizia: “Respeito é bom e eu gosto muito”. Então já punha no lugar certo quem se atrevesse a alguma coisa. E depois eles vão aprendendo, sabendo com quem eles vão... vão brincar, né? E nos hotéis geralmente os rapazes vão pra um lado e as moças pro outro. Mas quem não está dentro do ambiente não sabia de nada disso, porque acha que está dentro do avião...


Pergunta: E a senhora trabalhou como aeromoça por quanto tempo?


Resposta: Cinco anos.


Pergunta: Até casar. Aí... (?)


Resposta: Ah, na época não podia. Hoje pode. Mas na época não.


Pergunta: (?)


Resposta: É, quer dizer, na hora que eles sabiam que você [ia se casar], você automaticamente avisava que ia casar, e você pedia demissão...


Pergunta: Mas a família também, marido também, achavam bom que não trabalhasse?


Resposta: Não. Quer dizer, naquela época tinha que ser “Maria Amélia”, né? Não tinha... Outra perspectiva.


Pergunta: Tinha que ser dona-de-casa. Não fez faculdade?


Resposta: É. Poderia, uma época em que minhas filhas eram maiores, meu marido estava bem, não havia necessidade financeira de eu me pôr a campo. E aí, passou.


Pergunta: E a senhora foi para a Europa depois, visitar a família.


Resposta: Bom, isso eu fui. Eu fui duas vezes. Revi a irmã do meu pai na Áustria e fiquei na Alemanha para visitar a família do meu sogro, por parte do meu marido. Depois eu fui pra Áustria pra ver a... Só tinha uma irmã, porque as outras... Porque meu pai teve quatro irmãos, quer dizer, a minha avó teve quatro filhos. E dois faleceram, dois sobreviveram. Um foi meu pai, que veio com meu avô pro Brasil, e a outra tia ficou lá. E essa eu fui visitar. Isso em 82 [1982].


Pergunta: E tinha um negócio de cartas, vocês escreviam?


Resposta: É, eu não escrevia porque eu sou... Eu falo alemão como um músico que toca de ouvido. Eu leio, mas se é uma coisa mais elaborada, eu já... Coisa simples, tudo bem, porque eu não me aperfeiçoei. Nessa época, em 82, eu tive vontade de voltar pra uma escola, estudar. Mas eu cheguei aqui, eu fui encapsulada pelas coisas que estavam à minha volta e o sonho de aprender a escrever evaporou.


Pergunta: (?)


Resposta: Ah, hoje eu já não... Hoje eu troco as coisas, eu já to esquecendo. É, a Igreja Luterana de Santo André tem curso de alemão. A minha neta Vanessa faz, faz lá.


Pergunta: E quando a senhora veio pra Santo André, diz aqui que a senhora viu a construção da [avenida] Perimetral, do hospital Bartira. A região que o Seu Geraldo morava era essa região da Assunção?


Resposta: É, eu morava na Assunção.


Pergunta: Na Vila Assunção.


Resposta: É, eu não sei. Onde o meu marido morava é mais onde está hoje o hospital Mario Covas. Não sei aí como chama aquele bairro. Bairro Paraíso! Bairro Paraíso. É bairro Paraíso, porque eu lembro, onde hoje é o Parque Central, era uma plantação de eucaliptos. E havia um córrego que a gente tinha que atravessar porque era um vale, então aqui era alto, e aqui era alto. E aqui, era a Vila Assunção, onde minha sogra ia fazer compras. Era no tempo que eu namorava e então minha sogra disse: “Vamos, eu preciso comprar... Carne, alguma coisa.” Então nós descemos ali, e tinha um córrego e aqui a plantação de eucaliptos. Inclusive ela tinha uma cobrinha – eu nunca tinha visto uma cobra viva! – ela pegou logo a forquilha e psh-uish!


Pergunta: No meio do caminho...


Resposta: É, lá no meio do caminho, né. Então eu conheci o Parque Central quando era uma plantação de eucaliptos e era uma chácara também. E tinha gado. Gado leiteiro. E depois acho que foi desativando, foi fazendo, até que um dia construiu, não sei nem que prefeito foi que criou lá o Parque Central.


Pergunta: É recente.


Resposta: É, é coisa já mais... Não sei em que gestão foi criado.


Pergunta: E aí, quando a senhora casou que mudou ali perto? (?)


Resposta: Não, eu voltei pra casa dos meus pais, em São Caetano. Porque aí, quando eu casei, os meus pais saíram de casa. Porque meus pais tinham mais uma casa que era menos. E aquela onde eu estava na época era grande. Então meus pais preferiram voltar pra menor e acharam que, como eu ainda ia ter família, filhos, tudo mais, eu fiquei com a grande.


Pergunta: E o que os fez voltar pra Santo André?


Resposta: Aí foi, já foi em 70 [1970], minha mãe faleceu, meu pai faleceu em 72 [1972]. Então eu sempre falava que eu queria morar num apartamento, porque quando na minha infância, teve uma coisa eu não comentei: eu ia muito pro Rio de Janeiro já naquela época, porque eu tinha uma tia que morava no Rio. Então eu ia muito à praia, Corcovado, Pão de Açúcar, andar na mata do Corcovado. A gente, eu passeei muito por ali, Paquetá, aquelas, aqueles bairros antigos. Quer dizer, você me perguntou de São Caetano mas, é, essa parte foi mais no Rio de Janeiro. E São Caetano não tinha muita coisa. E, nós estávamos por ali... Eu perdi o fio.


Pergunta: (?)


Resposta: Ah, o dia que eu queria morar num apartamento. É aquela história: entre você pensar e fazer, existem diferenças. E um dia, num recorte de jornal, dizia assim: troca-se um apartamento por uma casa de menor valor. E eu recortei, Isso era um domingo, nós tínhamos voltado do Aramaçan, o jornal tava lá, era o News Era (?), na época. Recortei. Eu li o jornal na segunda-feira à noite. Na terça de manhã, eu pus no bolso do meu marido: “Que que cê ta me pondo aqui?” Ele olhou assim, e ele veio se conversar com o... Não sei se você conheceu o João Caravalentim (?). Ele chegou a ser prefeito interino de Santo André, porque ele era presidente da Câmara. Então, mas pouco tempo. Não me lembro bem, mas... Mas isso eu acho que isso foi em 62 [1962]. E o Geraldo, ele ia se encontrar com esse assessor. Ele era assessor do Lauro Natel (?).”Ah, você conhece, você conhece o Zé Careca, o Zé Careca” – era o Zambrana. E esse apartamento, e aí começou a incentivar o meu marido, a pôr fogo. “Vamos, vamos, vem pra Santo André” – porque ele já era de Santo André. E aí veio, e aí acabamos... E a pessoa que ia fazer o negócio, que tinha posto o anúncio no jornal foi ver minha casa em São Caetano, se interessou. Eu fazendo novena... Porque eu tinha prometido pro meu pai que eu nunca ia vender aquela casa. E quanto mais eu rezava, mais as coisas davam certo! [risos] Aí então eu comentei – eu sei que agora tá desligado, por isso que eu tô falando.


Pergunta: Não, tá ligado!


Resposta: Tá ligado?


Pergunta [para o técnico]: Não tá, Felipe?


Resposta: E aí, eu já dizia pra minha filha “É, nós não vamos contar pra ninguém”, E sabe o que era que nós fizemos? Nós assinamos o contrato no dia primeiro de abril.


Pergunta: Então era mentira! [risos]


Resposta: Aí a minha [filha], a Rose, a Rose que você conheceu, foi falar com a minha vó... Com a minha sogra: “Nós compramos um apartamento em Santo André!”, “O quê? Apartamento em Santo André?”, “Ué, sim, um apartamento!”. E meu sogro achava: “É primeiro de abril!”. E a Rose começou a chorar. Aí o Geraldo precisou pegar o telefone e falar com a mãe que era verdade. Porque senão, eles jamais iriam concordar que a gente fosse vender e... era “a gaiola de ouro”!


Pergunta: (?)


Resposta: Não, eles disseram que apartamento era uma gaiola de ouro. Porque eles nunca admitiram morar em apartamento. Sempre só em casa.


Pergunta: (?)


Resposta: Ah, só tinha aquele. Só tinha o Panorama e a... o Capitânia e o Panorama.


Pergunta: É esse que a senhora mora até hoje, ali na (?)


Resposta: É, já diz 35 anos ali.


Pergunta: E a sua janela (?)


Resposta: Puseram quatro clássicos ali. A “Morada dos Clássicos” ali. Acabou. Tomaram, são seis prédios agora. Porque na porta da minha casa, tão construindo um outro. Então, naquele terreno da Cognac (?), fizeram quatro, que são a “Morada dos Clássicos”. Agora, na esquina mesmo da [rua] Santo André com a [rua] Siqueira Campos, tão construindo um Spazio. Já ta em obras ali, tão fazendo fundamento. Na outra esquina, que é no meu quarteirão, mas na outra ponta, construíram também. Eu já não vejo mais o sol de manhã cedo, porque eu via o sol através da montanha, porque eu via a Petroquímica ali na montanha, ali, eu via o sol nascendo às seis horas da manhã. Agora... Agora já ta fechando.


Pergunta: (?)


Resposta: Ah, aquilo é uma... Não existe exatamente uma... É o kümmel. E esse tempero, ele se parece muito com uma alcarravia nossa ou então o polvilho. Parecido, mas o paladar, as sementes, na aparência se assemelha, mas não o paladar. E aqui ainda não que alguém, que houvesse uma plantação desse tempero.


Pergunta: (?)


Resposta: E eu, quando eu tenho, eu tenho porque vem de lá. Da última vez, me trouxeram um vidro desse tamanho.


Pergunta: A senhora gosta de cozinhar?


Resposta: E esse tempero, a gente põe no chucrute. E em tudo aquilo que é... Repolho e alimentos que produzem gases, porque ele elimina os gases. Até minha faxineira pegou m pouco, porque ela quer plantar. Mas aquilo não nasce, porque aquilo é ressecado, né? Precisaria pegar uns pacotinhos pequenininhos pra poder tentar... Pôr numa coisa. E o zimbro não sei se... Se tem plantação aqui.


Pergunta: Hoje a senhora cozinha?


Resposta: Cozinhava.


Pergunta: (?)


Resposta: Hoje eu tô pagando pra não cozinhar! [risos]


Pergunta: Não, eu digo assim... Depois da época, com as suas filhas maiores.


Resposta: Sim, aí eu fazia. Quer dizer que esporadicamente eu faço ainda alguma... mas só o chucrute, mesmo. Porque é o mais fácil, é o mais prático. Porque você já compra o chucrute. Antigamente você fazia em casa!


Pergunta: Qual é o processo de fazer? Aqui pelo menos, ninguém entende.


Resposta: O chucrute?


Pergunta: É, descreve a receita.


Resposta: Quer dizer, eu posso descrever, mas não as quantidades.


Pergunta: Não, não, é só pra cozinhar.


Resposta: O repolho é ralado, colocado numa bacia grande. Aí você põe o sal e depois mistura bem. Coloca dentro de um vidro. Põe, é, uma tampa de madeira, geralmente uma madeira, uma tampa de madeira, ou de pinho... Ou de algum, de algum alimento, mesmo. Hoje quase não existe mais, porque hoje a indústria... E em cima disso se colocava um peso, uma pedra. Então o sal, ele fermentava o repolho. E você tinha que por um canto escuro, debaixo da pia. E ele fermentava – inclusive espumava – espumava, transbordava e depois de sete dias, ele estava pronto pra ser consumido. Aí ele era lavado, aí ele era posto numa panela onde você acrescentava cebola, toucinhos defumados. Ah, o kümmel,


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul