Pesquisa


Projetos Mais Acessados

  1. Comunicação e cultura na Johannes Keller Schule em São Caetano do Sul
  2. A Segunda Guerra Mundial no ABC e a trajetória de seus combatentes
  3. Ativismo feminista e questão racial
  4. Culturas e linguagem: metáforas em identidades, ritos e cerimônias nas
  5. Associações alemãs em São Paulo
  6. Punks do ABC: bandas, gangues e idéias de um movimento cultural...1980
  7. Comunicação, Identidade e Memória na Comunidade Germânica no ABC
  8. Risos e lágrimas:o teatro amador em Santo André na década de 1960
  9. A alma feminina nos palcos do ABC: o papel das atrizes (1965 a 1985)
  10. O Grupo Teatro da Cidade: experiência profissional nos palcos do ABC..

Todos os Temas
Todos os Projetos

Lecarião Pereira de Melo

Lecarião Pereira de Melo foi combatente brasileiro na Segunda Guerra Mundial. Imagem do Depoente
Nome:Lecarião Pereira de Melo
Nascimento:21/01/1921
Gênero:Masculino
Profissão:não informada
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Parelhas (RN)

Transcrição do depoimento de Lecarião Pereira de Mello em 01 de julho de 2004
IMES - UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


PROJETO MEMÓRIAS DO ABC


Depoimento de LECARIÃO PEREIRA DE MELLO, 83 anos.
IMES - Universidade de São Caetano do Sul, 1º de julho de 2004.
Entrevistadores: Vilma Lemos e Amanda Martinez Nero.


Pergunta:
O senhor poderia começar dizendo sobre a sua idade, data de nascimento, local de nascimento, um pouco da sua infância?

Resposta:
Nasci em 21 de janeiro de 1921. Sempre fui criado em fazenda. Minha vida foi em cima de cavalo, essas coisas assim. Depois fui para o exército.

Pergunta:
O senhor nasceu onde?

Resposta:
Em Parelhas, no Rio Grande do Norte, a 220 km de Natal.

Pergunta:
E como foi essa vida sobre o cavalo, a sua infância?

Resposta:
Era só lutar, andar, correr atrás de gado. Era lidar com animal, com gado, cavalo, com essas coisas, até quando chegou a ponto de ir para o exército. Eu fazia isso, mas nunca gostei de fazer. A minha vontade era sair. Quando fui sorteado para ir para o exército, para mim foi a maior felicidade, porque eu gostei de ir.

Pergunta:
Pelo jeito o senhor não teve brincadeiras na infância?

Resposta:
Quase nada. A gente fazia as nossas farras, mais de jovem. Mas outras brincadeiras não. Eu vim saber, conhecer mais a vida fora do mundo dos meus pais quando fui para o exército. Para mim, o exército foi uma escola, porque com os meus pais a gente tinha aquele respeito e no exército a gente tem de aprender o que é bom, o que a gente trazia de casa, da família e o que é ruim, porque se for no exército e você fizer só o que é bom, não basta. Você tem de aprender a ser ruim também.

Pergunta:
Quantos irmãos o senhor tinha?

Resposta:
Dois irmãos, já falecidos.

Pergunta:
E como era o relacionamento com a família, com os pais?

Resposta:
Tudo bem. Eram aqueles velhos fazendeiros que se ele olhavam para a gente, na mesa, no almoço, a gente já sabia o que ele queria. E não adiantava cair fora porque apanhava mesmo. Puxão de orelha então, levei tantos que tinha hora que saía correndo e parecia que tinha arrancado a orelha. O velho era desses que quando ele olhava, a gente já sabia o que ele queria.

Pergunta:
Não tinha conversa?

Resposta:
Era respeito. Ele batia mesmo.

Pergunta:
O senhor não freqüentou a escola?

Resposta:
Freqüentei. Eu não freqüentei mais porque nunca tive vontade, para falar a verdade. Eu nunca me formei em alguma coisa porque nunca tive vontade de estudar. Eu trabalhava o dia todo. Às vezes tinha duas ou três horas para ir até a escola e andava 12 quilômetros, ou a cavalo ou de bicicleta, porque ficava longe. Quando eu ia, não tinha mais vontade de estudar. Quantas vezes eu tive escola perto à noite, uns 3 quilômetros, eu ia a pé, eu ficava escondido atrás da cerca, até a hora de voltar, porque quando a gente voltava meu pai estava esperando para ver se a gente tinha ido para a escola.

Pergunta:
A professora era brava? Você apanhava?

Resposta:
Era brava. Nós somos três irmãos e meu irmão mais velho estudou o quanto ele pôde. Até agora, é Procurador do Estado.

Pergunta:
Mas o senhor, faltando a tantas aulas, como aprendeu a ler?

Resposta:
Eu sei, fiz até o terceiro ano. Eu não estudei muito porque não tinha vontade. No exército mesmo, lutaram para eu ir para a escola. O tenente queria que eu fizesse o curso, mas nunca tive vontade. Eu falei: Se o senhor quiser que eu tenha um futuro lá fora, eu quero, mas para mim, quando eu sair eu não quero mais saber da farda. O que a gente fez, a atuação militar, não serve aqui para fora. Eu não tinha mais vontade de ser militar. Depois me arrependi.

Pergunta:
O senhor saiu da casa dos seus pais para servir o exército?

Resposta:
Na época da guerra, quando o Brasil declarou guerra.

Pergunta:
Conta essa história.

Resposta:
Eu fui sorteado para Natal e fiquei uns 2 meses e fui transferido para João Pessoa, na Paraíba. Em Natal era o 16º RI e na Paraíba era o 15º. Lá era regimento escola. Quer dizer que o sujeito tinha instrução, foi logo que o Brasil declarou guerra, era instrução. Quando aprendia tudo, você era transferido para outro regimento. Como militar eu sofri também, porque naquele tempo o exército era uma escravidão à vista de hoje, tanto em comida, a gente não tinha nada suficiente. Depois de João Pessoa, quase um ano e tanto, fui transferido para Recife, em Pernambuco e fiquei 5 meses dentro da mata, debaixo de barraca. À noite, em volta do acampamento, tinha de fazer aquelas estradas grandes e a gente ficava de cócoras para ver as cobras na mata. Ficamos 5 meses em instrução, só se preparando para ir para a Itália. Depois vim para Recife e de lá vim de navio para o Rio e do Rio foi que embarquei.

Pergunta:
Como foi esse embarque?

Resposta:
Foi melhor o embarque do Rio para a Itália do que de Recife para o Rio, porque aquele navio pequeno, a gente vinha naquele navio igual é nessas penitenciárias, tudo um em cima do outro, em dois ou três dias de viagem, porque o navio era muito vagabundo. E para a Itália nós pegamos um belo navio. Era mais perigoso, mas o navio era uma maravilha. A gente tinha uns 4 ou 5 mil soldados viajando do Rio para a Itália. Era um navio de guerra, General Mayson, um navio americano.

Pergunta:
Mas como ficava na sua cabeça? O senhor pegou um belo navio, mas ia para a guerra?

Resposta:
A gente, quando vê que está lá, nem liga para essas coisas. Eu fui voluntário. Quando eu saí de Recife, porque de Recife nós voltamos para João Pessoa, que era onde estava o regimento e voltamos para Recife para embarcar para o Rio de Janeiro. Eu não estava nem aí, porque a gente já estava em instrução e a gente queria aventura.

Pergunta:
Mas não tinha nem idéia de como seria a guerra?

Resposta:
A gente sabia mais ou menos, porque a gente já escutava no rádio e sabia como era. Nós tivemos muitos colegas que desertaram, mas a gente não estava nem aí.

Pergunta:
O senhor desembarcou onde na Europa?

Resposta:
Na Itália, em Nápoles. De Nápoles nós pegamos outro navio. Ficamos 5 dias em Nápoles e pegamos outro navio e desembarcamos em Livorno, que foram mais três dias de viagem. Desembarcamos em Livorno e depois não lembro mais da cidade depois de Livorno.

Pergunta:
Como foi desembarcar na Itália? O senhor tem lembranças desse desembarque?

Resposta:
Não lembro muito não. De Livorno já fomos para os acampamentos, viajamos bastantes horas, quase um dia e fomos para o acampamento, que ficava em Estápoles, perto de Ducas.

Pergunta:
E já tinha muita destruição no caminho?

Resposta:
Tudo destruído. Nós chegamos no acampamento à noite, que ficava a uns 30 km do front da guerra. De dia era um silêncio, mas de noite parecia um temporal, com relâmpagos. Eram os canhões e a gente escutava tudo, os tiros.

Pergunta:
E o senhor se juntou a quem no acampamento? Aos americanos?

Resposta:
Não. Lá já tinha alguns brasileiros, aqueles que foram no primeiro escalão, que já estavam esperando. Mas a gente não ficava muito tempo nos acampamentos. Conforme ia recebendo instrução, a gente sabia que quando tinham baixas na frente, mortos ou feridos, a gente já sabia, porque a gente ficava perto do depósito, que era onde ficava tudo. Quando chegava ordem para os homens embarcar para o front, a gente já sabia que tinham morrido. Mas o americano dava tanto comprimido para a gente, dizendo que era para evitar doenças, as pré-trincheiras, que os pés das pessoas ficavam todos dormentes e aquilo não tinha cura, e eles davam dizendo que era açúcar. A gente ia perdendo o medo. Às vezes falavam que fulano tinha morrido, a gente falava: Já morreu tarde. Na hora do aperto a gente só pensava em se defender e atirar. Outra coisa, lá a instrução não era com festim como era aqui, era com bala real. A gente ficava, a metralhadora estava a uma altura do chão e você tinha de ir rastejando uns 100 metros e não levantava nem o pé. A gente sentia a bala quase queimando nas costas da gente. Isso em instrução, que aliás era pior do que quem estava no front.

Pergunta:
Alguém chegou a se ferir na instrução?

Resposta:
Tive um colega que se feriu, porque ele levantou o pé. O pé tinha de ficar deitado e ele levantou o pé e a bala ficou no calcanhar. Era assim. O pior da coisa, para quem esteve lá, era o frio, porque caía neve. E do jeito que a gente ia rastejando, a gente tinha de passar naqueles córregos e tinha hora que passava e a gente nem afundava. Tinha de passar por cima, porque tinha gelo. Lá na frente era o americano que atirava contra nós, na instrução.

Pergunta:
No treinamento? Era o americano que dava o treinamento?

Resposta:
Era treinamento. Tudo lá, o brasileiro só recebia ordens. Era tudo ordem de americanos.

Pergunta:
E quem era o comandante dessas tropas?

Resposta:
Era o General Mark Clark. Era um americano. E para nós era o General Zenóbio da Costa, que era da artilharia. O outro general, que era da infantaria, não lembro o nome dele. Teve um tempo que parece que o Dutra esteve lá também. O Zenóbio da Costa, a gente o chamava de Cabo Zenóbio, porque ele era um mal comandante.

Pergunta:
Por quê?

Resposta:
Quando a gente estava na batalha, a gente recebia ordem de 100 pilotos de artilharia, porque a artilharia ia atacando e a infantaria ia por baixo e ele, com dó de gastar munição, diminuía a quantidade da artilharia e enquanto ele diminuía, o alemão do outro lado avançava. E isso que matou muitos brasileiros, porque ele queria fazer economia. Não sei se era isso, porque para o americano não tinha problema. Eles podiam gastar à vontade. Mas morreu muita gente por causa disso. Ele queria segurar munição e não atirava suficiente para a infantaria avançar, porque a infantaria só avançava se a artilharia estava atirando na frente.

Pergunta:
E quem deu essa informação para o senhor?

Resposta:
A gente ficava sabendo pela própria turma que já estava lá e explicava para a gente. Ele era conhecido como Cabo Zenóbio. Ele nem terminou, porque ele sumiu.

Pergunta:
O senhor chegou a entrar em confronto?

Resposta:
Fiquei encostado, na retaguarda. Mas em confronto não cheguei a entrar. Ficava 25 km, 30 km de distância.

Pergunta:
E tinha médico?

Resposta:
Tinha tudo, porque a gente ia e atrás ficava o hospital da Cruz Vermelha. Chegava à hora, eles tinham um controle, até mesmo o americano e os alemães, de tantas horas de fogo. Terminadas as horas de fogo, ficavam parados os brasileiros, o americano ia ver os feridos e já traziam, e os alemães faziam a mesma coisa. Era uma guerra controlada, porque senão ia ficar uma bagunça. Eles recolhiam os feridos e mortos.

Pergunta:
O que faziam com os mortos?

Resposta:
Eram enterrados. Lá havia os campos e depois foram trazidos para um cemitério em Pistóia. De lá, quando terminou a guerra, nós fomos passear lá para ver como tinha ficado, a gente viu as chapinhas, até hoje tem aquela chapinha que pendura no pescoço, com o nome, o número e a unidade, porque quando morria, uma daquelas chapinhas era recolhida para ser colocada na cruz e a outra era mandada para a família. Eu tenho as duas chapinhas lá em casa.

Pergunta:
E como era a comunicação com o Brasil, com a família? Vocês podiam escrever cartas?

Resposta:
Podia escrever, mas todas as cartas eram censuradas. A gente tinha de entregar aos oficiais, as cartas eram abertas.

Pergunta:
Tinha algum formulário?

Resposta:
A gente tinha de levar papel daqui, porque depois foi que apareceu papel para escrever as cartas.

Pergunta:
O senhor ficou sabendo se seus parentes recebiam as cartas?

Resposta:
Recebiam, porque eles mandaram daqui para lá. Tanto iam como vinham, mas todas eram censuradas. Agora, eu tinha um amigo, antes de viajar e ele não viajou e antes de eu viajar eu falava que ia escrever assim: quando eu falasse que estava tudo bem e na última letra ou no A, no meio daquela letra tiver um ponto era que a situação não estava boa. Ele já ficava sabendo. Era um código que tinha entre mim e ele. A gente não podia falar que a situação não estava boa. Você tinha de dizer que estava tudo bem. Podia estar morrendo, mas estava tudo bem. Com esse colega eu tinha esse código com ele. Podia ser qualquer coisa, onde tivesse um A e um pontinho, era porque a situação não estava boa.

Pergunta:
O senhor era de uma região muito quente do Brasil e quando chegou lá, como ficou?

Resposta:
Isso foi que fez nós nordestinos sofrer mais.

Pergunta:
Não deram roupas?

Resposta:
Os americanos deram roupas, porque as nossas roupas que levamos daqui, a gente quase morreu de frio. Mas lá nós recebemos, os americanos deram tudo.

Pergunta:
E a comida?

Resposta:
Não era ruim, mas era insossa. A comida do americano era sem sal de tudo. Tinha frango, carne de cavalo, quase tudo em conserva.

Pergunta:
Eram quantas refeições por dia?

Resposta:
Tinha o café da manhã, tinha o almoço e tinha a janta, quando dava, porque quando o negócio apertava não tinha. Tanto que o americano dava o que chamavam de ração fria, que era comida em conserva, com uma latinha de café frio. Mas aquilo era para quando a gente ia para a linha de frente, ou para fazer instrução, e não podia sair da trincheira, ou não podia levar comida, então tinha aquilo. Mas dava para comer bem.

Pergunta:
O senhor chegou a ficar doente?

Resposta:
Não. A única coisa que tive foi um tiro de granada que me estourou o ouvido. Mas foi em instrução. Eu fiquei por uns dois anos ruim e até hoje eu sinto. Esfria o tempo, me inflama o ouvido. Trataram lá, mas não teve jeito. Eu fui ficar bom quando cheguei aqui.

Pergunta:
Quanto tempo o senhor ficou na Itália?

Resposta:
Oito meses.

Pergunta:
Além disso, o que mais o senhor fez?

Resposta:
Depois que terminou a guerra eu fiquei ainda uns 5 meses na Itália, como tropa de ocupação. Depois me transferiram para o pelotão de polícia da PE, do exército. Foi outro abacaxi que peguei.

Pergunta:
O que o senhor fazia?

Resposta:
Toda noite o italiano..., porque com os alemães a gente não tinha convivência, porque era em outra parte, mas toda noite nós tínhamos, o soldado tinha direito de sair para as cidades de perto e 10 horas tinha de voltar. Mas a gente não voltava e alguns faziam bagunça, quebravam bares e nós como da polícia, já saía o pelotão da polícia para dar uma ajuda, eram oito soldados, o sargento e o tenente, a gente saía para ir ao socorro daquilo. Mas eles percebiam que estavam fazendo bagunça e quando eles escutavam o barulho, eles se escondiam. Então, uma parte saía e outra parte ia para outra cidade. Quando você saía, eles começavam a fazer bagunça de novo. Eu apanhei muito de brasileiros lá, do pelotão de polícia, porque às vezes a gente ia se envolvendo na briga, e uns andavam com cacetetes, outros andavam com uma pistola 45 ou uma carabina pequena. Uma vez a gente estava em dois soldados numa quermesse em Quecheque e os italianos falaram que os soldados estavam brigando. Eles estavam bêbados e brigando. A gente ia com jeito, mas não teve nem conversa. Na hora que fui conversar com ele, o cara me meteu a mão, sem eu esperar, e meu capacete caiu. Na hora que fui pegar o cacetete, ele me lascou, me bateu e vieram uns 6 em cima. Nesse tempo um italiano comunicou para o comandante que estava fazendo a ronda e eles vieram e bateram no outro. Eu já estava com raiva, mas nós batemos naquele homem que pensei que ele tinha morrido. Trouxeram-no para o hospital e depois de 10 dias eu o encontrei. Apanhei dos próprios soldados brasileiros. O soldado americano era diferente do soldado brasileiro, porque na hora da folga do americano, eles juntavam sargento, soldado, oficial, tudo junto, para beber e fazer bagunça, mas entre eles. Muitas vezes os soldados traziam os americanos bêbados, mas na hora do serviço não tinha problema. Na hora do serviço o americano era enérgico. Nós brasileiros não nos misturávamos com oficiais e nem com sargento. A classe que bebia junto era dos soldados e cabos e com o americano preto. O preto era uma maravilha, mas o branco não. Eles falavam italiano e falavam que admiravam o brasileiro, que gostavam de ficar nas farras com os brasileiros porque eram todos amigos, brancos e pretos e todos riam. Se eles chegassem num bar e tivesse americano branco, eles não entravam. Se o preto não quisesse, o branco também não entrava. Eles tinham até um comando diferente. O comando era todo americano, mas o preto, a linha de frente era deles e o branco ia depois. Eles eram separados. E eles gostavam dos brasileiros porque era tudo misturado, faziam bagunça todos juntos.

Pergunta:
Como era o divertimento com as mulheres? No front tinha mulheres?

Resposta:
Vamos supor, se a bala estava cortando 20 km, aqui atrás a turma estava dançando, não queriam nem saber. Se eles estavam de folga, não queriam nem saber. Às vezes os estilhaços das granadas até iam pertinho, mas ninguém estava nem aí. O negócio era ter comida e cigarro. Quem não tinha cigarro, não era nada. A gente sempre dava um jeitinho, roubava do outro, para levar comida e cigarro. O que tinha muito lá era cigarro americano, porque o nosso cigarro brasileiro que foi daqui era o pior que tinha. Os bons, os oficiais ficavam com tudo. A gente chamava o cigarro brasileiro de bobicape que é uma peça que liga na mina, que é comprida. Nem o italiano gostava de cigarro brasileiro, porque o cigarro era ruim. Ficava não sei quantos dias no navio viajando e quando chegava lá já estava mofado. Uma vez um americano tirou não sei quantas carteiras de cigarro e levaram para distribuir, para entregar para o comandante deles e viram que estava tudo mofado. No meio do caminho ele jogou gasolina e tacou fogo. O americano todo dia nos dava uma carteira de cigarros e fósforos. No fim de semana ele tinha direito de comprar um pacote. Então, quem não fumava, vendia ou trocava e o italiano era louco por aquilo. Eles preferiam cigarro a dinheiro.

Pergunta:
Essa quantia era no acampamento?

Resposta:
Sim. Mas era assim, o americano sempre..., se não fossem os americanos, não sei como a gente tinha ficado lá. Primeiro que eram nordestinos e a roupa era completamente diferente. Para dormir, o americano dava um saco de dormir com zíper. Tinha um quente por dentro e um por fora, impermeável, porque se chovesse não molhava, porque às vezes a gente dormia ao relento. Você entrava no saco e fechava o zíper. Tinha hora que tocava o alarme para o black-out e a gente não conseguia sair do saco. Então a turma tirava a gente do saco. Até esse saco, quando vim da Itália, eu trouxe.

Pergunta:
O senhor tem?

Resposta:
Não. Eu tenho bala, uma capa que um americano me deu e muitas vezes eles não queriam de volta. Tenho uma capa de cinqüenta e tantos anos.

Pergunta:
Quando o senhor estava na Itália, em alguma batalha que vocês ganhavam dos alemães, vocês pegavam prisioneiros?

Resposta:
Teve um regimento completo que se rendeu. Não lembro mais. Tenho até a fotografia desse regimento. Quando vim da guerra eu trouxe muitas fotografias. Trouxe um livro que tinha uma lira comum, uma lira que era usada na guerra, marco alemão e dólar. Eu tinha tudo guardado, mas eu, quando cheguei na minha terra, me pediram o livro emprestado para ler as histórias. Eu emprestei e deixei aquele dinheiro todo dentro. Depois que vim para São Paulo, depois de um ano que pedi para a minha família procurar aquele livro. Veio-me o livro, mas veio sem nem um tostão. Veio faltando até algumas páginas. Depois emprestei para um amigo meu, que trabalhava no correio e ele sumiu com o livro. Mas tenho balas de lá, da artilharia antiaérea.

Pergunta:
O senhor se lembra o que vocês fizeram com esses alemães quando vocês os prenderam?

Resposta:
O alemão era preso, depois o americano tomava conta de tudo. Agora, tinha uma coisa. O próprio americano, na hora que eles faziam os prisioneiros, eles tinham o campo de concentração lá, mas eles pegavam...

Pergunta:
E aqui no Brasil, o senhor foi para a guerra em 1944?

Resposta:
Em 1945.

Pergunta:
E quando o senhor estava na Paraíba ou em Pernambuco, o senhor se lembra de alemães, italianos ou japoneses presos?

Resposta:
Não. Eu conheci na Paraíba uma fábrica de tecidos em uma cidade chamada Rio Tinto e depois que começou a guerra, tinha uma guarnição do exército que ficava naquela fábrica. Os alemães entravam na fábrica com raiva, porque era tudo fornecido para o exército brasileiro.

Pergunta:
O senhor já ouviu falar de Chão de Estêvão, na região de Paulista, perto do Recife?

Resposta:
Eu fiquei acampado lá perto. Ficava perto de Aldeia, onde tinha o comando geral da Sétima Região Militar. Ali que fizemos toda a instrução, até de avião, a gente dentro das trincheiras e os aviões cortando por cima de nós. Alguns lembram demais de lá.

Pergunta:
O senhor chegou a ver os alemães morando lá?

Resposta:
Não. Os alemães que a gente sabia que tinha em Recife era em Rio Tinto, mas a gente não via nada. Ali era bom porque tinha muitos engenhos. Quando a gente estava de folga, a gente sumia lá para tomar cachaça.

Pergunta:
O senhor ouviu falar que os alemães faziam espionagem no Brasil, essas coisas?

Resposta:
Falavam muito.

Pergunta:
O que eles faziam?

Resposta:
Eu não sei, mas falavam muito. Não sei o que eles faziam, mas dizem que tinha espionagem. Eu tinha um primo que não foi para a Itália, ficou em Fernando de Noronha e diz que chegava a ver navios alemães camuflados. Eles estavam em cima do morro e tinham de telefonar para o comando para tomar providências. Mas ficava por isso mesmo e ninguém tomou providências.

Pergunta:
E dos americanos, sabiam se tinha alguém do FBI, da CIA?

Resposta:
Acho que nem existia ainda, porque ninguém ouvia falar disso.

Pergunta:
Como foi, terminada a guerra, sua volta?

Resposta:
Terminou a guerra e eu ainda fiquei 5 meses. Fui transferido de um campo para outro, fui para perto de Nápoles. Depois que terminou a guerra, que viemos para essa cidade que ficava perto de um monte, Santa Maria do Monte, foi a única vez que nós dormimos em camas, camas de campanha. Até o americano. Era só no chão ou então a gente fazia, dentro da barraca, quatro estacas e colocava madeira e capim por cima para dormir. Depois que terminou a guerra, que fomos transferidos, que os americanos largaram aqueles alojamentos, que era tudo de barracas, nós fomos ocupar o lugar deles, porque eles foram para outro canto ou vieram embora. Eu saí no último escalão para vir embora. Quando eu saí de lá só ficou a guarnição do cemitério de Pistóia. Uma parte do nosso regimento veio para Portugal e nós ficamos lá. A guerra terminou no dia 8 de maio e eu saí de lá em novembro.

Pergunta:
E conseguia dormir? Como ficou o emocional, a cabeça?

Resposta:
Até hoje eu sinto. Depois que eu cheguei, fiquei muito tempo tomando comprimidos de calmantes. Depois que vim para São Paulo tomei muitos calmantes, até que o médico proibiu, pois me atacou úlcera.

Pergunta:
Quando o senhor veio para o Brasil, para onde o senhor veio?

Resposta:
Para o Rio de Janeiro. Desembarquei no Rio de Janeiro, fui licenciado lá e de lá nós pegamos um navio, não fiquei em Natal, mas já peguei uma condução direto para minha cidade, no Rio Grande do Norte.

Pergunta:
Mas ficou ainda a serviço do exército?

Resposta:
Não. Estava fardado, mas já licenciado. No Rio de Janeiro a gente só fazia bagunça, mas tudo debaixo do comando. A gente podia sair, ficar bebendo até a hora que quisesse, mas sem fazer bagunça. E a patrulha ficava olhando.

Pergunta:
E os soldados que voltaram tiveram alguma recepção?

Resposta:
Quando nós descemos do navio,faziam uma fila para receber um sanduíche e uma garrafa de Coca-Cola e parabéns. Nós subimos nos caminhões,fomos para a vila militar. Não teve comemoração nenhuma. Quem tinha madrinha de guerra, ainda foi visitar.

Pergunta:
O que é madrinha de guerra?

Resposta:
Quando a gente estava embarcando, aquelas moças do quartel falavam que queriam ser nossas madrinhas, para ficar mandando cartas. E muitos que vinham, eu nem procurei, a gente se comunicava com essas pessoas. Mandavam cartas e tudo.

Pergunta:
E depois casava quando voltavam?

Resposta:
Às vezes. Muitos voltaram de lá casados. Muitos casaram lá, mas não puderam trazer. Depois que o navio foi buscar as esposas italianas lá. Casaram com italianas, mas não puderam viajar logo. Depois que um navio foi buscar. Aí foi outra bagunça.

Pergunta:
Que suporte o governo brasileiro deu, em termos de dinheiro, quando os soldados voltaram? O senhor teve alguma ajuda?
PAREI AQUI
Resposta:
Quando nós chegamos, o soldo que a gente recebia, lá nós recebíamos o mínimo, não sei se 200 liras. O resto ficou tudo aqui. E aqui nós fizemos... Antes de sair do Rio de Janeiro, foi feito um atestado que se a gente morresse, a família ficaria. Quando nós chegamos, nós recebemos todo o salário a que nós tínhamos direito. Só aquela parte que nós recebemos lá que era descontado. Naquele tempo foi bom, porque eu recebi 8 ou 10 mil cruzeiros.

Pergunta:
Dava para fazer o quê? Comprar uma casa?

Resposta:
Mais ou menos. Dava para fazer muita coisa. Depende da casa, dava para comprar. Com esse dinheiro eu cheguei na minha terra, fiquei 2 anos lá e depois eu juntei esse dinheiro, meu pai colocou na poupança e quando vim para São Paulo ele me deu aquela quantidade. Eu falei para deixar o dinheiro lá, porque se eu precisasse voltar eu não queria pedir dinheiro para ele. Eu tive sorte, porque meu pai comprou para mim um título de capitalização. Meu pai ficou pagando 10 cruzeiros por mês e com 6 meses eu fui sorteado. Eram 10 contos. Com aquele dinheiro eu comprei um terreno e construí uma casa, quase toda com o dinheiro que peguei. Eu lá gastava um pouco, mas quando vim para cá tomei juízo e depois eu fiz meu pé de meia.

Pergunta:
O senhor veio morar em São Caetano? Casado ou solteiro?

Resposta:
Solteiro. Cheguei aqui em 1948, para trabalhar. Cheguei aqui e com 8 dias entrei na General e saí para aposentar. Entrei em 1948 e saí em 78. Saí aposentado e ainda fiz acordo, porque meu chefe não queria que eu saísse. Ele falou para eu trabalhar mais dois anos porque eu ia receber um relógio de ouro. Até hoje eles dão ainda, mas eu não agüentava mais, porque tinha úlcera. O sistema nervoso não agüentava. Eu trabalhava demais. Já tinha direito, fui ao INSS, que foi quando o governo liberou para os ex-combatentes se aposentarem com 25 anos de serviço, com salário integral, contando com o tempo de exército. Eu estava com 2 anos e 8 meses de exército, mas o INSS não aceitou. Quando não aceitou, foram aceitos apenas os 25 anos e completei 23 anos na GM e 2 anos de exército, completei os 25 anos e fui lá ao INSS. Um senhor muito bom me orientou, falou que eu tinha o direito, mas que não era para pedir agora. Fui pedir para ser mandado embora, mas o advogado não aceitou. Se eu fosse um mau elemento, ele mandava, mas como era bom, ele não mandou, porque a diretoria ia querer saber por que tinha me mandado embora, com direito a pegar a indenização. Eles iam querer saber. Eu fiz acordo, dei entrada na aposentadoria e depois peguei a pensão do exército. Até hoje eu recebo a pensão do exército e a aposentadoria.

Pergunta:
O senhor já sabia que tinha oferta de trabalho na GM lá no Rio Grande do Norte?

Resposta:
Eu tinha um primo, naquele tempo era fácil, que já tinha vindo aqui e tinha trabalhado, ele era ex-combatente, já tinha trabalhado por dois meses. Mas quando o irmão dele faleceu, ele foi embora. Quando eu vim de lá já trouxe uma carta de apresentação de um grande aqui da General, que era americano e muito amigo de um primo meu. Esse americano na época da guerra trabalhava com um negócio de mineração lá no meu Estado. O americano procurava aquilo para as bombas e ele que tomava conta daquela região. Esse meu primo tinha muita amizade com ele e ele veio embora e voltou para a GM. Meu primo falou que tinha um amigo na GM, que era grande, e me deu uma carta de apresentação. Se ele estiver lá e se você passar no exame, você está empregado. Eu não queria procurar essa pessoa e fiquei uns 8 dias na fila para ver se conseguia. Quando vi que não conseguia, estava conversando com um guarda na General, ele falou que aquele senhor trabalhava lá e que era chefão, chefe do negócio de manutenção. Falei que tinha uma carta, entrei e me apresentei, falei quem tinha me mandado, ele me recebeu muito bem, até se levantou da cadeira. Eu expliquei o que era e ele mandou esperar. Eu fui para a portaria e esse americano mandou procurar o Sr. Santos e que ele estava avisado. Ele falou que se eu passasse no exame de saúde eu já estaria empregado. Falei com o Sr. Santos e no outro dia fiz os exames em Santo André e dentro de quatro dias estava trabalhando.

Pergunta:
O que o senhor fazia?

Resposta:
Tapeçaria e parte elétrica, vidros, estofamento. Chegou uma época difícil e meu chefe falou que ia mandar muita gente embora. Ele perguntou se eu queria trabalhar 7 horas por dia, até de sábado, ou se eu queria ser mandado embora. Falei que precisava do emprego, porque estava casado. Agüentei a bucha todinha, trabalhei até de servente de pedreiro na GM, mas saí de lá aposentado, porque pedi para sair, para pegar a pensão do exército.

Pergunta:
E quando foi essa época ruim da GM?

Resposta:
Foi em cinqüenta e pouco, na primeira vez que a GM teve greve.

Pergunta:
E como foi essa greve?

Resposta:
A turma estava querendo aumento e a companhia não queria dar. Quando a diretoria era americana, era boa. Depois passaram a misturar brasileiros e americanos, então ficou mais difícil o negócio de aumento. Entraram em greve, não sei quantos dias, mas era greve mesmo. A gente ia até a portaria e não deixavam entrar, porque tinha os piquetes. Eu entrei na firma no escuro, de madrugada. Fiquei escondido lá dentro. Para sair à tarde, o caminhão foi pegar geladeira e tinha o Miguel Rei, entrei lá e saí dentro da cabine do caminhão, deitado nos pés do motorista, porque se a turma me pegasse, eu apanhava.

Pergunta:
Eles estavam todos concentrados na portaria?

Resposta:
Sim.

Pergunta:
Quem era o líder?

Resposta:
Não lembro. Cada seção tinha a turma que era do sindicato. Tudo era o sindicato.

Pergunta:
E conseguiram alguma vantagem?

Resposta:
Que nada. No fim a companhia deu o que quis, do jeito que quis.

Pergunta:
E como era a GM nessa época? Era grande?

Resposta:
Quando cheguei na GM não tinha aquela fábrica grande lá embaixo. Estava em construção ainda. Era pequeno.

Pergunta:
Em que lugar de São Caetano?

Resposta:
Aqui mesmo onde é hoje. Tem uma parte que ainda é a fábrica velha. O terreno é a mesma coisa.

Pergunta:
E como era a cidade de São Caetano nessa época?

Resposta:
Era uma cidade tão tranqüila. Não era a metade do que é hoje. Não conheci um prédio daquele tempo. Não tinha, não. Era tudo casa.

Pergunta:
Em que lugar o senhor foi morar?

Resposta:
Aqui no Barcelona.

Pergunta:
Era asfaltado?

Resposta:
Nada. Tudo era barro puro. A Avenida Goiás, naquele tempo era rua, mas não me lembro do nome, não tinha nem pedra. Foi a primeira rua que puseram paralelepípedo.

Pergunta:
O senhor viu construir o IMES?

Resposta:
Isso aqui tudo era mato. A Rua Alegre tinha poucas casas. Onde eu morei, aqui no Barcelona, onde tem aquele mercado, naquele tempo não tinha nada. Dava para contar quantas casas tinha. Tinha dois ônibus que um ia e outro voltava. A gente entrava no ônibus com cuidado para o pé não afundar no assoalho.

Pergunta:
E a linha do trem?

Resposta:
Tinha. Mas aqueles trens bem limpinhos, de madeira.

Pergunta:
E vocês iam para Santo André, São Bernardo?

Resposta:
Sim. A gente pegava o trem, ou ia a pé.

Pergunta:
Ia fazer o quê? O que tinha para ver?

Resposta:
Era quase nada. Era só mato.

Pergunta:
A sua esposa é do ABC?

Resposta:
Não. É de lá da minha terra. Meu cunhado, que faleceu, tinha vindo antes, foi lá, casou e veio embora. Eu casei com a minha prima. Depois ela veio morar com a irmã e eu já estava aqui de vez. Deixei uma namorada de 8 anos de namoro.

Pergunta:
A sua esposa trabalhava?

Resposta:
Ela trabalhou um ano e pouco numa fábrica de papel, de saco de papel. Foi o tempo que casei. Quando casei já tinha a minha casinha para morar.

Pergunta:
Quantos filhos o senhor teve?

Resposta:
Só uma filha, que faleceu há 5 anos. Ela ia fazer 45 anos.

Pergunta:
A vida do senhor foi muito movimentada.

Resposta:
Só eu sei o que passei. Tive momentos bons, mas quando lembro dos momentos ruins, sofro. Eu tento tanta saudade dos tempos quando era livre.

Pergunta:
Depois que o senhor se aposentou, a úlcera melhorou?

Resposta:
Operei da apendicite, das amígdalas, da próstata. Agora que ando meio baqueado, mas é porque estou velho. A única coisa que estava alta era o colesterol, mas agora melhorei um pouco. Perguntei para o médico se já podia tomar a minha cerveja, meu aperitivo, mas ainda não.

Pergunta:
O senhor é um exemplo de vida para os nossos jovens. Gostaria que o senhor deixasse alguma mensagem para as pessoas, alguma coisa boa. O que o senhor falaria para eles?

Resposta:
O negócio é ter esperança, força e coragem e colaborar com o Brasil, porque se for contar com esse povo da política, não tenho muita esperança. Vocês que são jovens que têm de ver isso. Naquela minha época você escolhia o emprego e hoje em dia você tem faculdade e não tem emprego. A minha neta tem faculdade, é assistente social, queria fazer veterinária, mas foi no tempo que a minha filha faleceu e ela não conseguiu. Ela faleceu de câncer e não deu para a filha se formar.

Pergunta:
O senhor sabe alguma música italiana para cantar?

Resposta:
Tinha até a letra de uma, mas não lembro. De muita coisa eu não gosto de lembrar. Eu gostaria de voltar na Itália para ver como está tudo, para ver se ainda conheço aqueles campos onde eu fiquei acampado, onde fiquei dentro de trincheiras. Pode até não ter mais, mas muita coisa eu não esqueço.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul