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Antonio Laefort Filho

Seus pais vieram da Romênia na década de 1920 por conta da primeira Guerra Mundial. Imagem do Depoente
Nome:Antonio Laefort Filho
Nascimento:21/05/1928
Óbito:19/04/2013
Gênero:Masculino
Profissão:Empresário
Nacionalidade:Brasil

Arquivos de Imagem

AntonioLaefort_I001

Reunião de sócios do Clube União Cultural São Caetano(teuto) e ex-alunos da escola alemã 'Johannes Keller'.
AntonioLaefort_I002

Os antigos presidentes do Clube União Cultural de São Caetano, João Kaiser e Marcelino Fernandes Torralva, posam juntos.


Transcrição do depoimento de Antonio Laefort Filho em 11/12/2008

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias

Depoimento de Antonio Laefort Filho, 81 anos

São Caetano do Sul, 11 de dezembro de 2008

Pesquisadoras: Mariana Lins Prado e Priscila Perazzo

Equipe técnica: Ricardo Gonçalves de Melo Souza

Transcritores: Paulo Nunes e Izomar Lemos

Revisão: Mariana Lins Prado

 

Resposta: Você quer que eu comece a falar desde que meu pai veio ao Brasil, assim?

 

Pergunta: Isso.


Pergunta: Não nem precisa. Vamos bater um papo para eu ouvir se o som está legal...


Resposta: Ah sim...


Pergunta: Quantos anos o senhor tem?


Resposta: Eu tenho oitenta e um anos. Eu ia falar dezoito, mas você não ia acreditar... Oitenta e um foi feito, foi feito de hoje a uma semana atrás, dia 21 de maio de 1928. Nascimento. E eu fui à escola alemã em 1936, trinta e seis... Trinta e sete, trinta e oito e, em trinta e nove, [a escola] fechou.


Pergunta: E o senhor foi com sete anos para a escola, a primeira escolaridade...


Resposta: Não, porque eu fui com trinta [1930].... em 1936 porque naquela época tinha muitos alunos que iam a escola. Então, como eu era de maio, precisei esperar o ano seguinte em vez de [entrar em] trinta e cinco. Foi em 1936, eu já tinha quase sete anos. Então eu comecei nessa idade. E, com esses três anos que eu estudei lá, depois eu fui dois anos no segundo grupo escolar lá na rua monte Alegre... [pausa longa]


Pergunta: (incompreensível)

Resposta: Os meus pais vieram em 1922 para o Brasil. O meu pai! Mas ele veio solteiro, porque ele nasceu em 1907 e vieram em 1922 para o Brasil... E eles eram não para vir ao Brasil, eles eram para ir para a Argentina. Mas na hora que eles vieram com o navio, pegaram um pessoal que depois veio como imigrante e, como imigrante, eles desceram aqui em Santos e então foram no Brás na imigração... da imigra...


Pergunta (para a equipe técnica): Você vai fazer daqui, a gente já começa com essa conversa mesmo e já vai gravando.


Pergunta: O senhor está preparado está se sentindo bem? Tá tranquilo?


Resposta: Tá tudo bem!


Pergunta: Só um pouquinho quente?


Pergunta: Entrevista gravada com o senhor Antonio Laefort...


Resposta: Laefort Filho.


Pergunta: Laefort Filho, no dia 28 de maio de 2009 no Núcleo de Pesquisa Memórias do ABC, laboratório de Produções Midiáticas com operador de câmeras Ricardo Gonçalves de Melo Souza, entrevista com Mariana Lins e Priscila Perazzo.


Pergunta: Então, Seu Antonio, agora está gravando vamos começar. A gente pede para o senhor contar as suas origens. O senhor pode contar a sua descendência e como seus pais chegaram aqui?


Resposta: Bom a minha descendência é que seria dos meus pais... O meu avô era francês. Meu nome é francês, quando eu fui passear na França, em Paris, eu encontrei na lista telefônica muita gente com o nome Lefort. Meu nome quando foi feito o registro, como meu pai foi fazer o registro e não entendia muito a língua brasileira, eles não olharam logo lá isto aqui, então com puseram um “l” daqueles, letra gótica, então eles acharam que era um “a” e puseram um “a” então ficou Laefort meu nome. O dos meus irmãos é Lefort, eu sozinho que fiquei Laefort, então quando isso aconteceu eu só fui perceber na época que eu fui fazer a linha de tiro pra tirar a carteira de reservista também na época. Então é que percebemos que o nome estava errado, mas ficou errado toda a vida agora vai continuar assim... E meus pais vieram para o Brasil em 1922, e eles foram trabalhar na fazenda de café em Ribeirão Preto.


Pergunta: E eles vieram como e por quê?


Resposta: Como?


Pergunta: E eles vieram como?


Resposta: Eles vieram da Romanía [Romênia]. O meu pai. Minha mãe não! Minha mãe, eles também vieram da Romanía, eles nasceram na Romania, mas, na época, o meu pai veio pela imigração que era para ir na Argentina e depois eles lá no navio se conversaram e vieram para o Brasil. Que outros parentes deles vieram para o Brasil, aí vieram para o Brasil para trabalhar na plantação de café. Ficaram lá uns seis sete meses, como antigamente a vida deles também era difícil, [5’] e eles trouxeram muitas roupas pesadas, pensando que no Brasil também fazia frio como fazia na Europa, eles falaram que não, eles precisavam comprar outras roupas, eles não podiam nem trabalhar com essas roupas, roupas pesadas, calçados pesados, né? Então quando trabalhavam uns cinco seis meses lá, como ele tinha outros irmãos que já tinha logo abaixo dele, né? Tinha, né? Então veio para São Paulo, na Vila Pompeia, lá na Lapa, que tinha conhecidos por carta, se conheceram e vieram. Ai veio um, depois na semana seguinte vinha outro, vinha outro. E vieram trabalhar, uns vieram trabalhar lá no Matarazzo, na Água Branca, e quando meu pai veio e meu avô também - o pai do meu pai, meu avô Nicolau Lefort, né? - ele veio e eles arrumaram na Companhia Progresso Nacional, que era de bebidas. Fazia cerveja, guaraná... Isso, soda, né? Era na Rua dos Italianos, lá no Bom Retiro. E ele trabalhou lá até que Companhia Antártica comprou a Companhia Progresso, aí ele veio trabalhar na Antártica na Mooca, mas é... E ele, para conhecer a minha mãe... Que minha mãe veio em 1924, e minha mãe não veio como imigrante, a minha mãe, eles vieram da Romanía [Romênia] e foram para a Itália. Eles vieram de Gênova, então eles acharam que minha mãe e minha vó eram italianos, porque veio da Itália, Gênova, né? Então eles vieram pra cá e, como naquele tempo eles vieram aqui pra São Paulo e meu pai morava lá na Lapa, né? Eles iam dançar de sábado e de domingo, de tarde, na Mooca, na Vila Klein chamava. Lá que se reuniam esse pessoal estrangeiro e tinha baile lá. E lá que meu pai ficou conhecendo minha mãe, que eles lá na Europa não se conheciam, por que um era de um lugar e um era do outro da Romanía, estados diferentes, aliás, municípios diferentes...


Pergunta: Seu Antonio, só tirar umas dúvidas com o senhor. Seus pais, tanto em vinte e dois [1922] quanto em vinte e quatro [1924], os navios chegaram a Santos?


Resposta: Em Santos.


Pergunta: E vieram e subiram de trem, e vieram para a Hospedaria dos Imigrantes?


Resposta: Subiram de trem. Antigamente não tinha estrada assim, né? Então subiram com trem. O meu pai que veio na [Hosperadaria dos] Imigrantes, minha mãe não. Minha mãe já tinha parentes aqui na... Na Lapa também, né? Na Vila Hamburguesa, na Vila Hamburguesa, que minha... E quando eles iam dançar lá se conheceram, conversaram, se conheceram e, em 1926, não! Em 1927 eles casaram, no dia de Natal, houve casamento.


Pergunta: A família da sua mãe veio só família (?)


Resposta: Veio... a minha...


Pergunta: (?) Comprou passagem...


Resposta: O pai da minha mãe tinha o negócio de... de... como se fala? Moinho de trigo lá, e não sei como é que foi. Aí um dia os amigos se encontraram e beberam demais, a minha mãe achou - minha vó também achou - que eles puseram na bebida alguma coisa e depois de quatro ou cinco horas meu avô faleceu, que naquele tempo não era meu avô. Faleceu. Então como aquilo era tudo primitivo, que nem médico não tinha lá na cidade deles, que o médico vinha uma vez por semana lá, que era uma casa que era tipo de centro de saúde. Então, eles acharam que alguém pôs alguma coisa dentro lá porque, como se diz, inveja sempre existe e ele não estava doente nada. Se sentiu mal e faleceu. Então minha mãe, minha vó pegou e vendeu as coisas lá, né? E tinha a irmã, a outra irmã, filha dela - que é dona Catarina - que já estava casada lá. Com meu tio Paulo Heinz, Paulo Heinz ele chamava, né? Então eles falaram “vão pro Brasil, que é novo tudo, nós vamos fazer alguma coisa lá”. Então quando eles vieram cá, eles vieram na Vila Hamburguesa, ficaram e aí a minha vó e meu tio, eles pegaram e tinham um outro parente que morava lá pra cima de Presidente Prudente, você conhece? Caiuá? Fica quase na divisa de São Paulo com Mato Grosso. É pela Sorocabana {Estrada de Ferro}, que ia naquele trem... Então eles foram lá e compraram umas terras lá pra fazer que nem os outros faziam, plantar algodão, milho e essas coisas todas, cereais. E eles ficaram lá muitos anos, aí vieram outra vez pra cá... [10’] Acharam que a vida estava muito difícil e muito calor lá também, né? Eles não estavam acostumados com isso, eles vieram outra vez de volta e aí minha mãe se empregou de empregada [doméstica] aqui no lugar deles na Lapa. E de domingo eles saíam e iam dançar lá na Vila Klein. E acontece que encontrou meu pai... Dançavam, conversaram e tal. E aí houve o casamento, e de lá nasceu o Antonio.


Pergunta: Vamos começar agora com o seu nascimento. O senhor fala o dia do seu nascimento... Só tenho uma dúvida... (?)


Resposta: Eu nasci no dia 21 de maio de 1928, vinte e um de maio. Então, a minha mãe naquele tempo já estava comprando em São Caetano, na Rua Senador Vergueiro, estava comprando um terreno. Comprou um terreno, compraram um terreno de 10 metros, a metade a irmã dela e metade ela. E ela se empregou pra trabalhar na Indústria Aliberti, que era na Rua Senador Vergueiro, pertinho de onde eles moravam...


Pergunta: [Indústria] de botões?


Resposta: De botões, trabalhava lá. E então quando esse tempo foi passando, o meu pai estava trabalhando na Companhia Progresso Nacional lá, em coiso, aí com o tempo... Tinha minha vó - Dona Ana era minha vó - e ela que cuidava de mim quando era pequeno e tudo. E aí quando eu tinha a idade de ir para escola, eles me matricularam. Meu pai ia com o trem para São Paulo lá na estação da Luz, que era do Bom Retiro a fábrica, então tinha muita gente lá que já estava começando com a escola alemã. Já tinha começado em 1929 a escola alemã, né? Então eles falaram “é que meu filho agora precisa ir na escola”, e ele falou “é? então leva lá pra matricular lá na escola brasileira”, mas tinha hora de alemão também, então minha mãe faltou um dia do serviço e levou eu lá e matriculou. E aí eu comecei em 1936 ir na escola alemã.


Pergunta: Seu Antonio que língua os seus pais falavam nessa época?


Resposta: O meu pai falava... Falava praticamente três línguas, porque antes da guerra [Primeira Guerra Mundial] aquilo lá era da Hungria, depois passou pra Romanía [Romênia]. Primeiro eles falavam hungarês, que era Áustria-Hungaria [Império Austro-Húngaro] aquele pedaço tudo lá. Falavam hungarês, depois eles começaram a falar o idioma deles, que era do país lá que era da Romanía, romeno. Bom, e aí como eles passaram, o meu avô passou um tempo, uns três, quatro anos quando saiu da França, passou na Alemanha, eles aprenderam o alemão. Então, eles falavam o alemão. Então muitas vezes eles falavam hungarês, e muitas vezes falavam em alemão, e o romeno ficava de lado, porque em casa que eles falavam essa língua, mas quando ia fazer algum negócio, que eles eram plantadores de melancia e essas coisas tudo que plantavam lá na época, e o meu avô tinha dois carroção lá que levavam as melancias e as coisas que plantavam, levavam pra feira... É... Chamava a cidade que eles iam lá era Timișoara, eles falavam em hungarês, Timișoara, mas era Temeschwar que chamava [na pronúncia alemã]. Eu fui depois ver onde que meus pais nasceram. Em 1986 eu e minha patroa fomos pra lá pra ver, para conhecer, e aquela época era o negócio do comunismo do [Nicolae] Ceauşescuera [chefe de Estado entre 1967 e 1989], era difícil pra entrar, era revistado, tinha um quartinho pra entrar e tinha até que tirar a roupa e tirar tudo das malas pra ver se eles encontravam dinheiro, naquele tempo era marco que eles tinham... A gente estava hospedado na Alemanha, e da Alemanha que nos fomos para lá. Então eles faziam a revista e era tudo uma dureza. Então nós ficamos lá uns cinco dias pra conhecer a região toda. Fomos no cemitério para ver os antepassados que nós conhecíamos pelos nomes que minha mãe contava, então a gente queria conhecer essas coisas...


Pergunta: Mas voltando um pouquinho na sua infância, seus pais vieram morar em São Caetano. Compraram um terreno aqui por quê?


Resposta: Meu pai, quando eles vieram pra São Caetano, o meu avô, que é o pai do meu pai, ele veio. Eles compraram um terreno na Avenida Goiás, pertinho da Rua General Osório. Avenida Goiás, perto da Rua General Osório. Compraram terreno e eles vinham da Lapa para construir, fizeram poço primeiro, fizeram banheiro e depois para construir a casa [15’], eles vinham de sábado e domingo trabalhar e mais alguns conhecidos, que vinham ajudar...


Pergunta: Por que eles escolheram São Caetano?


Resposta: Como?


Pergunta: Por que eles escolheram São Caetano?


Resposta: Porque houve a propaganda que São Caetano ainda era um município novo e os terrenos eram baratos. Bem mais em conta do que lá na Lapa e outros lugares, né? Então eles compraram, sempre é na avenida, e minha mãe comprou. Era solteira ainda a minha mãe, comprou junto com a irmã dela, que era casada, comprou na [rua] Senador Vergueiro que, de São Paulo, do Ipiranga para cá é a primeira rua, Senador Vergueiro. Compraram lá esse terreno e depois minha mãe começou construir... E aí, quando houve o casamento tudo já...


Pergunta: E aí em qual dos dois terrenos eles moraram?


Resposta: Foram morar lá na...


Pergunta: Na Senador Vergueiro ou na Goiás?


Resposta: Na Senador Vergueiro, eu nasci lá, na Senador Vergueiro, número du... Era antigamente era número 37, depois que eles começaram a fazer por metragem ficou número 279. Mudou o número.


Pergunta: E o fato de passar a linha do trem ali perto era um dos motivos?


Resposta: A estação de São Caetano ficava mais ou menos a uns 600 metros longe da Senador Vergueiro. Até a estação que meu pai pegava todo dia, pegava, levantava às cinco horas pra pegar o trem às seis, pra entrar às sete horas em serviço. Antigamente era aquele trem Maria-Fumaça, mas tinha horário também, né? Então eles tinham que fazer isso aqui e meu pai, ele... Eu vou contar um pouco da parte do meu pai.

Meu pai trabalhou, na época, quarenta e dois anos na Companhia Progresso, e quem trabalhava quando eles fizeram o pessoal lá eram os mais idosos. O meu pai era um dos mais idosos e meu avô também trabalhava lá. Só que meu avô faleceu em 1942. Ele ia pro serviço e deu infarte {infarto} do coração, faleceu. Então meu pai até ganhou um relógio de ouro quando eles fizeram a festa do pessoal de 40 anos, mais de 40 anos tinha só seis pessoas que já trabalharam, os outros eram tudo com menos tempo de serviço. Então quando eles... Isso aqui. Vou voltar agora na parte minha, que foi na escola em 1936 até 1939... Em 1939 é que começou a guerra que a Alemanha, a Polônia e os outros países começaram a guerra, né? Então o pessoal lá começou a fechar as escolas, não só a escola que era a Johannes Keller Schule, como outras escolas também que era em São Paulo. Tinha a escola na Vila Prudente, a escola alemã, também tinha escola em Santana... Então eles vinham fechando essas escolas, que eles falavam que era o “pessoal do Eixo”, que Eixo era o pessoal da Alemanha, da Itália, e japonês. Que era os três que estavam juntos pra guerrear, né? Então eles [governo brasileiro] estavam em cima do pessoal. Então veio o pessoal lá, quando foi dia sete de setembro, que nós estávamos cantando os hinos, quando cantamos o hino nacional da Alemanha, eles mandaram descer a bandeira [da Alemanha] e amedrontou o pessoal lá. Então nós, alunos, em casa contamos pros pais o que tinha acontecido, que veio lá o pessoal de polícia.


Pergunta: Seu Antonio, volta nessa história, conta com mais detalhe como o senhor contou lá fora, que era os três hinos, e aí como chegou? Se era policial, se era fardado...


Resposta: Era que veio o pessoal que era antigamente... Era polícia que vinha de Santo André, não tinha em São Caetano... Tinha uma delegacia muito assim na Rua Heloisa Pamplona, era uma casa que era uma delegacia, né? Não sei como é que veio lá, porque ou mandaram, veio essa polícia. Alguém que dedou que estavam cantando em alemão isso aí. Então deu uma parada nisso aqui e o diretor lá falou pra nós irmos pra casa e ele mais tarde ia com conversar com os pais, pra ver se ia ter continuidade ou se ficava parado. Mas eles optaram por ficar parado porque eles, o pessoal, os estrangeiros tinham medo. Porque ele chegou lá e você sabe que até pra ir viajar de trem ou ir pra um lugar precisava fazer salvo-conduto. Meu pai precisava fazer salvo... Ia na delegacia fazer o salvo-conduto porque no trem passava um policial pra ver, e quem não tinha, precisava depois na próxima estação descer e providenciar o salvo-conduto. Eles queriam ver se era terrorista, [20’] essas coisas aí. E...


Pergunta: O senhor pode falar o nome completo do seu pai?


Resposta: O meu pai chamava Antonio Lefort. Antonio Lefort. O meu é Laefort porque fizeram um “a” antes do “e”.


Pergunta: O “t” é mudo?


Resposta: É mudo. “T” mudo. É Lefort mudo. Não é Leforte, é Lefort. Então nessa época então a minha mãe me pegou e eles fizeram reuniões lá. E no mês de dezembro, mês de outubro, fizeram reunião. Fizeram vinte dias, marca reunião e tinha um pessoal que era a favor para continuar a escola, e tinha gente que era contra. Porque eles tinham medo, receio, porque eles escutaram as coisas que é... vai ser difícil continuar a escola. Então optaram para parar essa escola. No ano seguinte que minha mãe me matriculou no segundo grupo escolar, lá em São Caetano, na Rua Monte Alegre.


Pergunta: Mas vamos voltar aí na Johannes Keller Schule.


Resposta: É...


Pergunta: O senhor lembra do diretor? Linhart?


Resposta: Do Linhart? Lembro que ele era um diretor severo pra chuchu.


Pergunta: O que o senhor lembra dele?


Resposta: Bom, eu nunca fui chamado assim na diretoria, é... Mas tinha gente que não sabia. Brincava na aula tudo então, o professor ou a professora... A professora de português era a dona Lídia, pra português. E alemão era a Frau Anne, ela dava aula de canto e tinha um violino. Ela tocava, cantava, e nós tínhamos que cantar junto. Tinha que ver os versos que ela queria que cantava e cantava. Desde o segundo ano, terceiro ano. E o pessoal ia cantando até o oitavo ano... Mas como eu só fui nesses dois, três, dois anos e meio pra três anos, né?


Pergunta: Que canções, que músicas vocês tinham que cantar, que hinos que vocês aprendiam?


Resposta: Não, era outras músicas que cantava assim. E quando nós tínhamos recreio, assim, a gente cantava antes do recreio. Quando chegava no recreio, nós, com as meninas, cantávamos outra vez a música do recreio.

 

Pergunta: Era tipo canções de criança?


Resposta: De criança.


Pergunta: Hinos?


Resposta: É, não, não. Era de criança, músicas de criança que nós cantávamos em alemão. Então ela pegava, e até gostava que nós... Ela vinha pra classe, outra classe, a gente que tinha hora do lanche de manhã, né? A gente entrava às oito horas, tinha o lanche, era três horas e meia a aula... Então a gente saía e, como estava cantando lá [na aula], saía cantando novamente lá no recreio.


Pergunta: Vocês ficavam na escola só de manhã ou o dia todo?


Resposta: Só de manhã. E de tarde a gente ia na escola - isso não no primeiro ano, no segundo ano em diante - nós íamos lá pra fazer [educação] física à tarde, fazer física. E fazia nossa ginástica e tudo. Depois tinha uma hora lá que tinha um negócio pra jogar uma bola lá que tinha que nem serragem dentro, é para jogar, quem pegava na bola caía fora, batia a bola na pessoa, caía fora. Tinha uma turma de nove de um lado e nove do outro. Que é um negócio de brincadeira que eles inventaram.


Pergunta: O senhor lembra o nome desse jogo?


Resposta: Num me lembro.


Pergunta: Queimada, não é?


Resposta: Num me lembro mais como é que era o jogo. Mas isso que a gente jogava lá e também jogava futebol depois, quando estava no terceiro ano. Não sei se vocês lembram onde é o restaurante do Franz, agora? Lá era um campinho, e lá cima que a gente fazia essa ginástica. Lá nós jogávamos essa bola que estava com a serragem e depois, também, jogava futebol lá.


Pergunta: E essa parte do campinho da ginástica era do clube ou da escola?


Resposta: Não, não. Era... Nossos pais que foram lá e cortaram o mato, fizeram isso aqui pra a gente fazer essa ginástica, né?

 

Pergunta: O senhor pode repetir de novo essa parte aí? Deu uma falha no microfone, que seus pais que fizeram o campinho...


Resposta: Os pais dos alunos, não todos, alguns iam lá, então levava enxada, as coisas pra cortar o mato, e limparam tudo aquilo lá e tal. Então ali que a gente fazia a nossa ginástica, porque antigamente tinha só tinha três classes lá. Aí eles construíram mais duas classes de aula com o tempo, né? Com ajuda dos pais construíram, então tinha cinco classes de aula. [25’] Que lá era até o oitavo ano, e esse que pessoal que o oitavo ano... Do sexto, sétimo e oitavo anos iam à tarde, pra ocupar a mesma classe que era dos outros.


Pergunta: Essa escola era paga?


Resposta: A escola era paga.


Pergunta: E era...?


Resposta: Não, não...


Pergunta: E era cara?


Resposta: Não, acho que não. Não me lembro quanto, mas não era muito, não. É que minha mãe e meu pai trabalhavam, minha mãe também trabalhava, então pra fazer uniforme, essas coisas, dava sempre um jeito, porque as mães de quase todos os alunos também trabalhavam.


Pergunta: O senhor lembra como era o uniforme?


Resposta: Uniforme? Era uma calça azul e uma camisa branca.


Pergunta: E era calça comprida ou era shorts que os meninos...?


Resposta: Não, tudo calça curta, nós éramos tudo garotos. Só depois ia de calça comprida, quando os rapazes já tinham... Já iam pra sexta, sétima, oitava série, então já ia de calça comprida.


Pergunta: E as meninas?


Resposta: As meninas era tudo de saia. E pra fazer ginástica tinha aquele calção com elástico, que as meninas também faziam ginástica. Nós tínhamos duas vezes por semana, nós, e as meninas duas vezes por semana também, só que em outros dias.

 

Pergunta: A classe era mista? Meninas e meninos?


Resposta: Era mista. Como tinha quatro carreiras, era quase sempre duas carreiras de meninos e duas carreiras de meninas. Eu me lembro ainda que eu encontrei duas senhoras, que agora já são bisavós, que iam na minha classe também. Uma chamava Maria (?) e a outra chamava Paula (?), morava na rua General Osório. E tem outra, que estava mais adiantada assim, que é a Marta Wachtler, também ela ia na escola alemã.


Pergunta: Essas senhoras, essas duas senhoras, a Dona Marta veio aqui, Dona Marta já veio fazer entrevista aqui.


Resposta: Já veio aqui?

Pergunta: Já. Mas essas duas outras senhoras, elas são vivas? O senhor encontrou recentemente?


Resposta: Uma era Maria (?) e a outra chamava Paula... O nome não ocorre agora, tô meio confuso porque, sabe? Bom! Põe que ela chamava Paula, depois eu lembro talvez o sobrenome dela.


Pergunta: E nas matérias assim o que vocês estudavam? Material didático como que era? Chegava livro? Livro era em alemão? Como que era?


Resposta: Não, nós tínhamos livros em português, que era História do Brasil, ainda tenho os livros até hoje, tenho esses livros da História do Brasil. E tenho livros em alemão também.


Pergunta: O senhor tem ainda?


Resposta: Tenho, eu preciso procurar em casa, que deve ter. Eu tenho porque a gente andou guardando coisas assim da escola porque muitas vezes, com o tempo a gente precisava dar uma recordada nisso. Porque sempre o pessoal dizia, quando eu tirei o diploma, é do grupo escolar, o professor falou “não ponha o livro na gaveta, olhe o que vocês vão precisar no futuro, que vocês estão aprendendo agora, os verbos, essas coisas todas, vocês mais tarde vão precisar”. Então a gente pegou e guardou esses livros. Não todos. Até cadernos eu tinha guardado. Mas, é como diz... Da escola alemã. Então nós, quando já tinha mais idade, eles começaram o clube que era do Teuto Brasileiro. Eles começaram e nós íamos no clube para jogar futebol e também fazer umas aulas de ginástica, e jogava ping-pong lá no clube. A escola era na rua Wenceslau Brás e a outra era na Afonso [Pena], duas esquinas pra baixo, na esquina [da rua] Floriano Peixoto com a rua Afonso Pena. Então a gente ia lá, de noite, e começamos a aprender a dançar. Tinha uns professor lá que ensinava a dançar. Eu já era garotão, e [lá] tocava as música alemãs também. Era valsa, marcha, polca, essas coisas que eles dançavam. Então a gente aprendia a dançar, e aí que comecei... A minha esposa também foi na escola alemã, mas na época a gente nem tinha sentido, porque o meu cunhado, que era irmão dela, ia na minha classe, o Pedro. Ia na minha classe lá, mas, é... A gente nem tinha intenção de namoro, tudo. [30’] Isso tudo veio depois com o baile, a gente ficou com vinte anos, vinte e um nós é que começamos a namorar. E....


Pergunta: Qual que era o sobrenome do seu cunhado?


Resposta: Como?


Pergunta: O sobrenome do seu cunhado?


Resposta: Pedro Zetto. Pedro Zetto. E a minha mãe chamava Maria Zetto. Depois do casamento ela optou pelo sobrenome meu.


Pergunta: Sua mulher?


Resposta: Minha esposa. Ela faz agora dois anos que faleceu. Ela faleceu no dia 26 de maio de mil novecentos e..., justamente cinco dias depois do meu aniversário, quando eu fiz 79 anos. Ela... ainda foi tudo bem, deu um aneurisma cerebral e faleceu, de uma hora pra outra, assim. Prazo de três, quatro horas, já embarcou.


Pergunta: Qual era o nome dela?


Resposta: Maria Laefort.


Pergunta: Mas de solteiro era Zetto?


Resposta: Zetto.


Pergunta: “Ze”, “E”, “Te”, “Te”, “O”?


Resposta: Zetto, dois “tês”. Zetto!


Pergunta: Ela também era de origem romena?


Resposta: Romeno. É... Que a gente, quando ela também foi na escola alemã, só que ela foi dois anos só. Ela começou em 1937. Ela começou em 37, foi 37, 38 e 39 acabou [a escola] também. E ela também foi estudar na escola de madres, em São Caetano, lá na... No centro de São Caetano. Na Rua Conde Francisco Matarazzo, que é o... A escola de Santo Antônio, que era das madres, ela foi estudar lá e eu, na época, fui estudar no grupo escolar também. E, depois do grupo escolar, eu fui pro Dom Bosco, em São Paulo. E, depois do Dom Bosco, eu ainda estava ainda no quarto ano, em 1945, estava indo pro quarto ano no Dom Bosco e já fui fazer um curso no Senai, lá no Brás, na [rua] Monsenhor Andrade. E lá que fui me aperfeiçoando também. E depois eu fui trabalhar em São Caetano, na Usina São Rafael.


Pergunta: Seu Antonio... Tinha... A gente estudou algumas coisas que tinha várias festas da escola e, às vezes, festas que vocês iam até na escola alemã de São Paulo.


Resposta: É. Sim, nós íamos na Olinda Schule, Olinda Schule, que era lá no Brás. Chamava depois Mooca-Brás. Ficava entre a Mooca e o Brás. Quando tinha festas, a gente ia lá. Era uns domingos que tinha, então...


Pergunta: Olinda Schule não era aquela da Praça Roosevelt?


Resposta: É. Mas agora acho que acabou também já. Mudaram de nome tudo. Depois começou, com o tempo, a mudar os nomes. Agora tem bastante escolas outra vez, que abriram e falam a língua alemã. O pessoal brasileiro vai aprender alemão pra ir trabalhar pra Alemanha.


Pergunta: Essa escola da Mooca-Brás, o senhor ia também?


Resposta: Não.


Pergunta: Era uma escola diferente? (?)


Resposta: É, eu só ia quando tinha umas festas, umas coisas que eram convidados os ex-alunos da Johannes Keller Schule. Que alguém conhecido nosso ia, então eles falavam “ah, vamos junto com nós, vamos lá e tal”, e a gente ia na festa. Era a cada três, quatro meses que tinha uma festa de domingo assim.


Pergunta: Normalmente era uma festa alemã, com características alemãs da festa?


Resposta: Era.


Pergunta: O que vocês faziam na festa?


Resposta: Não, na festa tinha é, é... Negócio que nem de bingo, tinha brincadeira que eles penduravam bexiga, e você era que nem cabra-cega, que você tinha com um pedação de pau, você tinha que acertar e lá dentro tinha água e umas balas. Então quando se acertava aquilo lá, e tinha que nem um prego, que nem dois pregos na ponta para furar aquilo lá, né? E a cabra-cega o pessoal gritava “Não, mais pra cá! Mais pra lá!” E uma hora tchum! Você se molhava todo! Mas era brincadeira que eles... Depois se tirava aquilo e a gente catava os chocolates e as balas lá. Mas é tudo assim


Pergunta: O senhor...


Resposta: Era brincadeiras de criança... Tinha também isso, às vezes eles pegavam uma bacia com água e punham, é..., uma farinha, e punham dentro lá tipo de um, de uma maçã pequena que você tinha [que pegar], amarrava as mãos e você tinha que pegar, que pega lá. Tudo com brincadeira era. Às vezes a gente pegava mas, quando saía, saía com o rosto branco. [risos]


Pergunta: Eram festas dessas realizadas na Johannes Keller que vinham os estudantes das escolas de São Paulo. Das escolas alemãs de São Paulo? [35’]


Resposta: Vinham, mas enquanto a escola existia lá. Aí vinha. E também veio um pessoal, marinheiros, também vieram uma vez lá, em 1938. Antes da guerra vieram uns marinheiros lá, acho que uns 20 marinheiros que vieram de Santos de trem e depois subiram e passaram lá um dia com nós também...


Pergunta: O senhor sabe nome do navio que eles pertenciam?

Resposta: Ah! Não me lembro. Num lembro isso aqui, porque é... A gente, naquela época, isso foi em 1938, daí para o mês de março, por aí que eles vieram, e eles cantaram em alemão, e a gente, o que sabia, acompanhava também. E naquele dia que eles vieram foi um domingo. Então todos os pais, que é..., gostavam disso aqui, então vinham todos os pais, as mães estavam lá num domingo. Eles vieram num domingo de tarde.


Pergunta: Nós encontramos também, seu Antonio, vários panfletos, impressos fazendo convite pra essas festas, e elas, como o senhor diz, a cada dois meses, uma festa de, sei lá, festa da Primavera, festa de Natal, o senhor lembra de receber esses panfletos?


Resposta: Não, eu ia muito quando era festa de Natal. Fui em três. E aí acabou também, né? Na festa de Natal eles faziam Papai Noel, isso aqui, tal. Naquele tempo começou a Chocolate Pan em São Caetano, então o Seu Osvaldo Falchero, ele doava uns saquinhos de chocolate, com Papai Noel pequeno. Quando era tempo da Páscoa, ele doava uns saquinhos de ovinhos de Páscoa de chocolate lá pra a escola, que o pessoal pedia. Muita gente das mães e dos pais trabalhavam depois na Chocolate Pan. A Chocolate Pan começou pequena na Rua Tapuais, que agora chama Nossa Senhora de Fátima, então foi isso que havia. (?) Eu era garoto a gente ia mais assim, para ganhar as coisas, porque às vezes a gente não ganhava. Sabe que, antigamente, quando tinha festa, só tinha pra tomar soda ou guaraná, quando tinha festa. Não era dia de semana que se tinha isso aí. E o pai da gente, também, só tinha cerveja quando tinha festas que vinha o tio da gente, assim, que era o convidado, então tinha alguma cerveja também. Meu pai bebia cerveja na fábrica, ele trabalhava na Progresso, bebiam lá. Agora tinha quando vinha as visitas né?


Pergunta: Quais eram as comidas nessas festas?


Resposta: Como?


Pergunta: As comidas, e bebidas, as cervejas?


Resposta: Não, a maioria eles fazia tipo de sopa, canja de galinha, essas coisas aí que eles faziam.

Pergunta: Não eram coisas típicas de alemães?


Resposta: Não, porque optavam mais por essas coisas que eram mais fáceis depois pra cada um, porque eles faziam num caldeirão grande, né? É... Era mais fácil para o pessoal depois pegar cada um com seu prato, talheres, pegar. Porque se faz muita coisa, então tinha quatro, cinco coisas de sortimento, de comida. Então eles optavam por isso aí, fazia galinha, o pessoal antigamente tudo tinha horta, então cada um trazia uma galinha lá, na sexta feira [risos] já traziam pra sábado matar e fazer esse negócio né? Era tudo quase doado isso aqui, porque a escola não tinha posse pra comprar. Então era feito assim. E, às vezes de domingo, às vezes os pais se reuniam lá e iam jogar baralho. Tinha um barracão velho lá, o pessoal ia e fazia três, quatro mesas pra jogar baralho.


Pergunta: Faziam na escola ou no clube?


Resposta: Na escola, no fundo, lá na escola, onde que era o terreno, tinha isso aí e eles iam jogar baralho lá. No clube era dia de semana que eles iam, porque o pessoal, naquela época, trabalhava até muito tarde, num, num tinha esse negócio de hora extra, como tem hoje, então meu pai trabalha dez, todo dia dez horas, entrava de manhã e saía às seis horas. Pra ganhar o dinheirinho pra construir a casa, né? E não ganhava feriado, isso aqui, nada, então tinha que trabalhar pra o que trabalhava. Então tinha que trabalhar e não tinha muito tempo pra fazer festa, essas coisas. Uma vez ou outra a gente pedia pros pais também. E como era muita gente conhecida lá, a gente ia. Como minha vó morava perto da escola, então a gente ia de manhã cedo, mais cedo, primeiro ia na casa de minha vó e, quando era hora de almoço, ia almoçar lá. [40’] E de tarde os pais pegavam, jogavam a parada até umas quatro, cinco horas, aí a gente ia tudo a pé, subia a pé, cinco quilômetros descia outra vez.


Pergunta: Nessa época o senhor ainda morava lá, na Senador Vergueiro?


Resposta: Na Senador... Então era garoto. Na [rua] Senador Vergueiro morei até, até casar. Depois fizemos uma casa lá na Rua Maranhão e aí, quando casamos, fomos morar na rua Maranhão, que no fundo da casa tinha dois lotes de terreno. E, depois de casado, nós estávamos casados há seis, sete meses, e esse senhor que tinha o terreno, ele trabalhava na Estrada de Ferro São Paulo Railway com meu sogro, ele falou “Fala pro seu genro se ele não que comprar meu terreno, que eu vou vender”. Eu falei “pô, estamos há seis meses casados e tal”. A minha patroa falou “não! Vamos comprar sim!”. Porque ela também trabalhava, era cortadeira de costureira, então ela trabalhava. Falou “não, vou continuar a trabalhar”. Ela foi trabalhar lá também, e se pagava acho que duzentos reais por mês. Com o que eu ganhava e ela pagava ficou fácil aí. Quando ela estava grávida da Norma, aí, é a menina. Então ela foi trabalhar e, quando faltou umas poucas semanas para a Norma nascer, ai que ela parou de trabalhar. Porque nós tínhamos essa divida de pagar o terreno. E eu, depois trabalhando, aumentamos os serviços, as horas de trabalho que eu trabalhava - já naquela época no Lauro Garcia, que era Indústria Reunidas São Caetano, Indústria de Botões Reunida São Caetano, que é na Rua Perrela -, então e a gente trabalhava fazer que o Lauro com aqueles, as conchas que tinha é, a gente moía aquilo lá, fazia tudo granito e, em granulado assim, e vendia aquilo pra eles fazerem o revestimento de prédios com isso aí. As escadarias antigamente eram feitas com isso, eles misturavam aquilo lá.


Pergunta: A sobra da concha que não ia pro botão.


Resposta: E o pó, fazia mistura de ração pra galinha. Para pato, para galinha, que é pra eles terem aquele cálcio, para endurecimento da casca do ovo, então tinha além do botão, também ele construiu um galpão do lado e fazia aquilo lá. E ele me deu, ele disse “olha, Antonio, você pode vir de noite. Primeiro você vinha aqui trabalhar de noite, se você pode vir outra vez, no mínimo uns dois anos, aí, pra ensinar outro rapaz pra fazer essa mistura tudo das coisas”. Porque tem um tipo de um ciclone que precisava jogar tudo o material dentro e aquilo se misturava, aí precisava ensacar, tinha a balança que pra pesar ela era tudo manual antigamente assim, não era coisa automática como tem hoje. Tinha essas correntes, quando encheu o saco deu cinquenta quilos, pára e vai embora. Era tudo manual que tinha, tinha quatro pessoas trabalhavam e eu, que tinha que pegar e falar “pesa tantos quilos disso, quilos de alfafa, tantos quilos do pó de concha e tantos quilos de quirela de milho, tudo”. Então a gente fazia e jogava dentro do misturador. Então é, deu pra pagar o terreno. Depois tinha um outro senhor, que se chamava Manuel Cristo, você vê? [risos] Ele também tinha o terreno do lado e ele trabalhava também na estrada de ferro, só que ele trabalhava no alto da serra, na São Paulo Railway, no alto da serra e com o conhecimento desse outro Seu Manuel Muniz, que era português, também, ele falou: “Ah, eu vendi lá pro genro do seu Pedro o terreno”. Aí ele falou com meu sogro e acabamos comprando aquele terreno também. Aí que nós começamos a construir a fábrica, em 1956. Começamos a construir um pavilhão lá, que a minha patroa, a Maria, ela era costureira e era cortadeira de maiô, de vestidos, isso tudo que ela queria, então, fazer um negócio de costura. Mas aí nos viramos pra fazer fábrica de botão. Aí eu falei “Maria, é melhor nós fazermos a fábrica de botão, porque vejo que tem muita saída e tudo, né?” Aí ela falou. E ela trabalhava, ela tomava conta da seção da madrepérola, pra escolher os botões, pegamos gente, né? E aí veio gente trabalhar com nós, que já tinha prática lá do Lauro Garcia. Porque o Lauro Garcia se meteu em política e começou perder muito dinheiro, e aí não tinha dinheiro pra comprar do Belém do Pará as conchas. Não sei, eu estou saindo do negócio da escola...


Pergunta: Não tem problema daqui a pouco a gente volta...


Resposta: E, mas quando... [risos] [45’]


Pergunta: [... a história]


Resposta: Então você vê, nós começamos com negócio de fábrica. Eu conhecia o, a, pessoa que comprava as conchas pro Lauro Garcia, Raimundo Avelino dos Reis que chamava, e eu peguei telefonei pra ele que estou fazendo uma fábrica de botões e precisava comprar conchas, se ele podia comprar pra mim. Então eu peguei e, e me entendi com ele, mandamo {mandamos} um dinheiro pra ele e ele pagou, mandou uns cem sacos de conchas, pra cortar botão e tudo isso aí. E eu acabei comprando da Indústria Aliberti, uns material {materiais} que ele {eles} não usavam e eu comprava aquilo lá, cortava uns botão mais Pi..., menores né?, tamanho, esse aqui chama tamanho 18 que é de camisa, e esse que põe no colarinho é tamanho 16, então eu cortava aquele botão menor, daquelas outras conchas menores e assim nóis {nós} ia. Ai depois tinha um senhor que chamava, nóis {nós} já tinha oito máquinas de cortar os discos e seis máquinas pra tornear o botão. Máquinas manual {manuais} para tornear o botão, né? Então o senhor Rafael Russo que morava em frente, ele e a dona Amélia, eles não tinham filhos e aí eu falei pra ele que agora eu precisava comprar conchas e tá faltando a grana e que eu ia no banco emprestar esse dinheiro pra ver se podia, mas aí precisava fazer uma hipoteca da casa que o banco não dá dinheiro se não tem garantia. Aí ele falou “de quanto se (você) precisa?” Eu falei queria comprar uns quinhentos sacos de conchas, ai ele falou “e quanto vai custar isso?”. Eu falei “uns setenta, oitenta mil”. Ele falou “eu te empresto o dinheiro”. Aí, quando nóis {nós}, aí eu telefonei pro Seu Raimundo, pra ir arrumando isso aí, eu não sabia nem negociar isso aqui com banco, essas coisas. Então eu fui no Banco do Brasil e ele falou “olha, pra você fazer isso aqui, não é pegar, deposita em nome dele o dinheiro, porque ele pega do dinheiro e não manda nada”. Eu falei “mas será?”, aí o gerente falou “não, vou te ensinar como vai fazer”.

O gerente do Banco do Brasil, era muito amigo da gente, nóis {nós} abrimo {abrimos} conta lá, tudo, então o Banco do Brasil não era na praça, era na rua..., onde que era a Prefeitura, quando começou a Prefeitura, que era na rua Baraldi, então ele falou “você faz o depósito aqui, mão não em nome dele. Nós mandamos em seu nome lá, e ele vai apresentar as notas, ensacados tudo, a hora que ele vai despachar, por navio, ele vem buscar o dinheiro aí. Ele vai mostrar o conhecimento que ele despachou tudo, que ele não vai tirar dinheiro antes de não mandar mercadoria”. E... Então eu agradeci esse gerente sempre, por te {ter} ele me ensinado, porque ele falou “você vai mandar um dinheiro pra lá, cinquenta, sessenta mil, ele vai te mandar vinte mil de conchas e o resto do dinheiro vai desaparecer, toma cuidado! Que hoje em dia se pode confiar, mas sempre desconfiando”. É, então foi assim que a gente aprendeu. Eu quando iniciei a fábrica de botão, eu nem sabia tirar nota fiscal. Então tinha um senhor, Oscar, que trabalhava na Chocolate Pan, e era quase vizinho nosso, a gente era muito amigo assim, e ele trabalhava no escritório e falou “não, de noite aqui, eu tiro as nota {notas} pra você”. Então mandamo {mandamos} na tipografia faze {fazer} as notas tudo, começou a fábrica de botão, começou com o “Indústria de Botões Laefort”, que é meu nome. Aí, quando precisamos pegar mais dinheiro, o meu pai falou “bom, se você pegar os teus dois irmão (irmãos), eu assino a hipoteca da casa”. Que tinha mais uma casa lá na, em São Caetano, na Rua Rafael Correa Sampaio, e nós fizemos a hipoteca pra esse Rafael Russo. Então ele emprestou mais dinheiro, ficou o total de cento e vinte mil reais. Não sei se era reais ou mil réis, acho que era aquele tempo, mil réis deve ser. Então meu pai fez hipoteca pra ele. Meu pai falou “olha, se vocês, se num {não} i {ir} pra frente e perder, a casa do futuro será de vocês, vocês vão perder ela”. Mas eu falei “eu vou trabalha {trabalhar} e vou consegui {conseguir} e nóis {nós} vamo {vamos} pagar isso aí”. Não demorou seis anos, nóis {nós} pagava {pagávamos} tudo num, era tabela price, ele fez 1%. Então era cento e vinte mil. Então quando eu dava aquele dinheiro pra ele, ele falava “muito obrigado. Se quiser cê fica com o dinheiro, vai cumulando (acumulando) juro, e compra material, compra motores”, ele falava. “Põe essa fábrica pra frente!”. E ele sempre vinha lá pra vê {ver}, Seu Rafael. <


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul