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Milton Andrade

Não tem ficha de contato. Imagem do Depoente
Nome:Milton Andrade
Nascimento:29/01/1937
Óbito:01/12/2009
Gênero:Masculino
Profissão:Ator
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Itapira (SP)

Transcrição do depoimento de Milton Andrade em 07/07/2005
 

Depoimento de MILTON ANDRADE, 68 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 07 de julho de 2005.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Priscila F. Perazzo, Danielle Barbosa, Herom Vargas e Eduardo Chaves.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta: Por favor, comece falando a data e o local de seu nascimento.

 

Resposta:

Nasci em Itapira, que é uma pequena cidade no limite de São Paulo com Minas, ainda São Paulo. Quando venta muito, a gente passa para o outro Estado. Nasci no dia 29 de janeiro de 1937.

 

Pergunta: Fale um pouco sobre a sua família, pai, mãe, irmãos.

 

Resposta:

Eu me chamo Milton Andrade, pelo lado do meu pai, possivelmente a origem é portuguesa, mas eu não consegui ir além dos meus bisavôs. Sei que eles são de Caldas, Minas Gerais, mas não consegui ir além disso. A família da mãe do meu pai era Pereira Avelar, que chegando em Itapira se transformou em Pereira da Silva, fazendeiros tradicionais. Do lado da minha mãe houve uma mistura das famílias Capeline, família da minha bisavó, que cheguei a conhecer e me criou até 11 anos de idade. Ela faleceu com 96 anos, mas que curiosamente a gente conhece muito pouco a respeito. A gente não sabe nem de onde eles vieram. Nós conhecemos uma história, que possivelmente é romana, uma família de classe média e de repente ela teve um caso amoroso com um carabinieri, soldado, que a família não admitia. Eles continuaram se encontrando, ela engravidou, teve uma filha e mais tarde teve um outro garoto. Quando esse garoto tinha três meses de vida eles vieram para o Brasil, a família Capeline. Ela era Prime, casou-se com o soldado, seis anos mais novo que ela, e se casaram no navio, segundo consta. E a família Mazzope, que era a família do meu avô. Essa família também era imigrante da Itália. Nós conseguimos, na pesquisa que fizemos, chegar até 1720. Eles são de Corelli Anterminelli, que é um lugarejo entre Lucca e Carrara, na Toscana. Eles eram figureiros, faziam pequenas imagens para decoração de casas, já que lá tem muito mármore. Vieram para cá, e tanto a família da minha bisavó como a do meu bisavô, foram trabalhar na Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Eu me lembro ainda quando criança de ter viajado com a minha nona. A nona era conhecida porque ela teve uma multidão de filhos e os filhos geraram outras multidões de filhos e netos e todos trabalhavam na Companhia Paulista. A minha bisavó, eu era o companheiro de viagem dela, entrava simplesmente no trem e viajava. Ela não pegava nem passagem e nem o passe a que ela tinha direito. Ela simplesmente embarcava porque ela conhecia todo mundo na Companhia Paulista. Até que um dia a gente estava chegando em Campinas e o guarda-trem, que vinha picotando a passagem, pediu o passe e ela falou que não tinha. Chegamos em Campinas e ele desceu com ela e fomos até a chefia da estação. Quando o chefe a viu, falou: Oh! Nona, como vai dona Carmela? O que aconteceu? Ela está viajando sem passagem e sem passe. Mas ela pode, falou o chefe. Eu me senti muito feliz.

 

Pergunta: Seu pai também trabalhava lá?

 

Resposta:

Meu pai, descendente de fazendeiros ilustres, quando ele conheceu a minha mãe, eles se conheceram na estação da estrada de ferro, meu segundo avô, porque meu avô verdadeiro morreu quando minha mãe tinha 4 anos. Ele era casado com a minha avó e uma filha mais velha dele contraiu tifo, morreu, aí ele também pegou tifo e morreu. A minha avó, com três filhas, não sabia o que fazer. Como ele era funcionário da Companhia Paulista, eles arrumaram um emprego para ela na Companhia Paulista. Ela veio, nas estações maiores tinha um lugar para guardar malas, bagagens, e ela foi tomar conta do bagageiro da estação de Campinas. Lá ela conheceu um soldado. Parece que os soldados estão na preferência das mulheres, das minhas antepassadas. Eles se conheceram, ele era viúvo, tinha uma filha, ela também era viúva, tinha três filhas, e eles acabaram se casando e foi esse avô que conheci, José Nunes do Nascimento, de origem portuguesa. Ele era Ilhéu, da Ilha da Madeira, e foi o avô que eu conheci.

 

Pergunta: E seu pai?

 

Resposta:

Meu pai conheceu minha mãe no momento em que o Nunes desembarcou em Itapira, no trem da Companhia Mogiana, com mulher e três filhas, já que a filha legítima dele foi criada pelas irmãs. A estação, naquele tempo, era um ponto social. O pessoal ia à estação para saber quem veio, quem não veio, quem veio, veio de onde, o que fez, o que faria. Meu pai conheceu minha mãe no momento em que ela desembarcou. Logo começaram a namorar e a família dele não admitia que eles se casassem. Ela era uma italianinha operária. Ela trabalhou numa fábrica de chapéus, famosa naquele tempo, Sardis, um chapéu para quem tem cabeça, era o slogan deles. A família nunca aceitou bem esse casamento. Mas acabaram se casando em 1936 e em 1937 eu nasci, mais de 9 meses depois. Oito anos depois, eles tiveram meu único irmão, Vanderlei Nunes, o nome em homenagem ao meu avô postiço.

 

Pergunta: Seu pai trabalhava na fazenda?

 

Resposta:

Não. Engraçado, meu avô, o pai dele, foi desde sapateiro remendão até bispo. Foi tudo que você pode imaginar. Foi jornalista do Jornal de Itapira, foi sorveteiro, foi fiscal da Prefeitura. Esse também eu não conheci. Ele faleceu quando meu pai ainda era jovem e a gente não conheceu. Ele participou inclusive daquele episódio da criação da Igreja Católica Apostólica Brasileira em Itapira. Ele tinha um jornal, que passou a ser o órgão divulgador da Igreja, ele foi sagrado bispo e morreu como bispo. Por isso o apelido dele na cidade era Ebino Bispo. Ele se chamava Ludovino Andrade. Meu pai, parece que herdou essa não especialização do meu avô. Quando ele se casou com minha mãe ele era tipógrafo. Ele tinha uma pequena tipografia, com aquelas máquinas movidas a pedal. Minha mãe passou a ajudá-lo, depois na frente da tipografia ele abriu uma papelaria, até que a tinta começou a criar problemas de saúde. Ele tinha um contato muito direto, naquele tempo em que se compunha letrinha por letrinha, tipo por tipo, o contato era muito direto e passou a fazer mal a ele. Ele vendeu, veio para São Paulo para ser guarda civil, uma atitude descabida, acabou voltando para Itapira e montando uma sorveteria, onde ele ficou durante um bom tempo. A sorveteria ficava ao lado do tabelião da cidade e meu pai passou a fazer trabalhos de oficial de justiça. Naquele tempo não era o que é hoje o oficial de justiça, que naquele tempo era uma espécie de testemunha pública. Todos os atos ele ficava como testemunha. Quando foi criado o cargo de oficial de justiça, ele assumiu o cargo e foi até se aposentar, mas sempre foi um factógamo (factótum) da cidade. Assim como meu avô, meu pai sempre fez uma porção de coisas. Se você olhar o meu currículo, você vai ver que herdei um pouco dessa inquietude.

 

Pergunta: O senhor era muito menino, mas o senhor tem alguma lembrança da Segunda Guerra?

 

Resposta:

Tenho. Nos tempos da Segunda Guerra Mundial meu pai tinha a papelaria e a tipografia, separadas por uma prateleira muito grande, e todas as noites um grupo de pessoas, amigas do meu pai, se reunia na papelaria, para ouvir as notícias, através da BBC de Londres, que transmitia em português um boletim sobre a guerra. Eles tinham nas costas da prateleira um mapa da Europa Central, e com alfinetes eles iam marcando os avanços dos aliados, etc. Eu ficava por ali, ouvindo aquele papo, e deitava embaixo da máquina de cortar papel, em cima dos retalhos de papel, e não ouvia mais nada. Meu pai me pegava no colo e me levava para casa. Foi assim que acompanhei a Segunda Guerra Mundial. Eu me lembro perfeitamente o dia em que acabou a guerra. Estava no grupo escolar, que era o ensino básico, o primeiro grau de hoje, a professora chegou na classe e disse que a gente estava dispensado, mas que era para ir direto para a casa porque era muito perigoso. A guerra acabou. A banda estava na rua, subindo para a praça e soltaram muitos rojões. Só que os rojões daquele tempo tinham uma vareta. O rojão explodia lá em cima e a vareta caía e era perigoso, porque era uma vareta e um tubo em brasa, que causava incêndios, quebrava a cabeça das pessoas. Mas nós, ao invés de voltarmos para casa, fomos para a praça, onde a população toda se reuniu e comemorou.

 

Pergunta: Foi a derrota dos alemães?

 

Resposta:

O Japão foi o último que caiu. Caiu meio na marra, graças a dois bombardeios, duas bombas atômicas, em Hiroshima e Nagazaki. Depois eu me lembro também da chegada dos pracinhas. A Prefeitura mandou caminhões de flores para enfeitar a chegada deles, da estrada de ferro até a praça principal, por onde seis pracinhas de Itapira desfilaram.

 

Pergunta: Você contou sobre o seu pai. E sua mãe, que lembranças você tem dela?

 

Resposta:

A minha mãe foi uma lutadora muito grande.

 

Pergunta: Era dona de casa?

 

Resposta:

Dona de casa e principal auxiliar de meu pai também. Ela aprendeu a trabalhar na Máquina Minerva, então meu pai compunha e descompunha os blocos de tipos e quem imprimia, na verdade, era ela. Era um serviço bastante pesado. Quando meu pai comprou a sorveteria, ela também que fazia o xarope para a confecção dos sorvetes. Naquele tempo não tinha nada de aglutinado. Hoje em dia faz tudo na base de maizena. Naquele tempo era tudo cozido, passado pelo fogo, aqueles caldeirões enormes de sorvete líquido e depois passava para o congelador. Ela que fazia isso. Eu me lembro que numa ocasião, a máquina de sorvete tinha um eixo que girava na salmoura, para que a água não congelasse, porque ela ficava em temperatura abaixo de zero e o sorvete de palito, não sei se vocês têm essa curiosidade, de saber em que momento se coloca o palito no sorvete, colocava o líquido dentro da forma, com as caixinhas que correspondem ao sorvete e o congelamento se dá de fora para dentro. Chega um momento em que dentro da forma fica um buraquinho, que ainda não congelou. Esse é o momento de se colocar o palito. Ela estava colocando o palito e o cabelo dela enroscou naquele ferro e arrancou toda a cabeleira dela. Sorte que minha avó estava próxima e pulou na chave e desligou a máquina. Minha mãe ficou com esse lado do rosto preto durante muito tempo. Foi um dos motivos por que se vendeu a sorveteria. E enquanto meu pai não se colocava, ele tinha vindo para ser guarda civil em São Paulo, em Campinas ela aprendeu a arte de cabeleireira e montou um instituto de beleza. A palavra é um pouco antiga.

 

Pergunta: E como foi a sua infância em Itapira? Você se recorda das brincadeiras?

 

Resposta:

Em Itapira, a única rua calçada, com paralelepípedos, vinha da estação até a praça principal e todas as travessas eram de terra e a gente brincava de tudo que você possa imaginar. Havia poucos automóveis e o lugar dos brinquedos era no meio da rua. Havia os grupos, as trincas. Os garotos se reuniam em agrupamentos. A cidade era nossa. Nadar pelado no Rio Grande, pescar. Andei descalço até quando era aluno do colegial. Andava descalço e não tinha problema nenhum, porque todo mundo era igual. Havia uma coisa engraçada em Itapira, que até faz parte de um estudo sociológico, é bem reflexo do que aconteceu com as nossas cidades do interior em geral. Naquele tempo 80% da população morava em sítios, colonos. Moravam na cidade os fazendeiros ricos, os comerciantes, etc. Aos sábados e domingos, sábado à tarde, era semana inglesa naquela época, sábado não tinha folga, de início no sábado se trabalhava o dia inteiro e depois fazia a semana inglesa que era até meio-dia. Domingo era folga. Vinha o pessoal todo da roça fazer compras na cidade, passear, muitos casamentos, aqueles no meio da rua, o pessoal todo andando atrás dos noivos, paravam na sorveteria para tomar um sorvete e pronto, estavam casados. Hoje em dia houve uma inversão. A industrialização da lavoura e também as leis trabalhistas acabaram expulsando o trabalhador do campo. Então, hoje 80% da população moram na cidade e 20% moram no campo, utilizando um tipo de mão-de-obra muito injustiçada, que é o bóia-fria. Itapira, ainda hoje, tem muito bóia-fria. A população da cidade, pobre, que monta no caminhão, de madrugada, e vai trabalhar na roça, ganhando diária.

 

Pergunta: E a escola? Como o senhor foi para a escola, que lembranças o senhor tem dos professores, dos colegas?

 

Resposta:

No primeiro tempo eu fui para uma escola particular, da dona Clarice. E era curioso, porque como minha mãe e meu pai trabalhavam, eu ficava com minha bisavó, minha nona, e eu não falava português, eu falava italiano com ela. Então, entrar na escola foi um sacrifício medonho. Eu era bom em matemática, bom em outras coisas, mas o português era uma língua estranha para mim. Os meus boletins acusam isso. No primeiro e segundo ano de grupo, as minhas piores notas de aproveitamento eram exatamente em português. Depois de ter feito esse preparatório com a dona Clarice, eu entrei no Grupo Escolar Dr. Júlio de Mesquita, inaugurado em 1938, pelo próprio Júlio de Mesquita, que foi lá inaugurar, num prédio muito bonito, que o Estado conserva ainda, porque o projeto é de Divo Grave. Nesse grupo estudou também o Beline, que foi jogador de futebol. Disse que ele veio, depois de famoso, em Itapira, e foi visitar o grupo escolar e fez questão de conhecer a classe em que ele tinha estudado. O diretor o recebeu com toda a pompa, afinal de contas era um grande liderado nacional e o levou até a classe. A professora o reconheceu e a professora disse: Está aqui uma pessoa que a gente tem falado muito. Vocês sabem quem é? Um menininho lá no fundo falou: Eu sei, é Tiradentes. Comigo não aconteceu isso, quando fui lá visitar. O grupo está do mesmo jeito, porque foi preservado por ser um prédio de valor cultural.

 

Pergunta: E você ficou no grupo escolar até quando?

 

Resposta:

Até o terceiro ano. No quarto ano havia um problema. Havia um gargalo, que não sei até onde era bom e até onde era ruim, que se chamava exame de admissão. Para você fazer o segundo grau, que equivale ao ginásio, você tinha de fazer um vestibular. Tinha duas professoras na cidade que prepararam os alunos para esse vestibular, a dona Viva Raimundo Pereira e a dona Odete. As duas disputavam entre si, claro, quem é que conseguia maior aprovação. Eu fui estudar com dona Viva. Foi um ano muito curioso na minha vida, porque fui acometido de uma espécie de reumatismo, que me deixou paralisado quase um ano, sem poder andar. As pernas doíam terrivelmente. Isso levou um ano. Eu era aluno, tinha uma colega minha, vizinha, que assistia às aulas, trazia os cadernos, meu pai me ajudava a copiar os cadernos e eu estudava. Quando comuniquei à dona Viva que eu tinha me inscrito no exame de admissão, ela falou que não podia, que eu não estava preparado, quase não assisti aula naquele ano. Ela foi até em casa reclamar com meus pais, que eu estava sendo imprudente. Na primeira época, tinha dois exames, primeira época e segunda época. Na primeira época passavam cinco alunos e eu fui um deles. Aí a dona Viva foi até a minha casa me cumprimentar, pedir desculpas por ter menosprezado o meu esforço. Eu entrei no ginásio.

 

Pergunta: E a adolescência também foi nessa cidade?

 

Resposta:

Também foi na cidade, até terminar o colégio. Eu não sabia bem o que eu queria. Eu acho que a gente exige, ainda hoje, dos alunos, uma decisão que talvez seja a mais importante da vida deles, muito cedo, muito precoce. Talvez os meninos e as meninas de hoje sejam um pouco mais informadas do que no meu tempo. A gente era criança, miolo mole. Eu não sabia o que eu queria. Nosso paraninfo do colegial foi o professor de química. Nossa classe tinha 13 alunos e passaram 10, só para dar uma idéia de como o ensino era puxado. Praticamente todos os meus colegas entraram na faculdade direto, vencendo os vestibulares, é claro. O professor de química, nós o escolhemos como paraninfo e ele muito cuidadosamente, nos últimos dias de aula, foi perguntando para um e para outro o que pretendia ser, o que queria da vida. Eu não sabia bem o que pretendia da vida, mas falei que ia ser arquiteto. A arquitetura me parecia uma coisa interessante. E o discurso de paraninfo dele, já que só tinha 10 afilhados, foi dirigido a cada um, fulano, você que quer ser médico, falava um pouco sobre a carreira, as dificuldades, aconselhava. De repente chega no Milton. Milton, você que quer ser arquiteto, e foi falando. A minha família toda falou: Mas ele quer ser arquiteto? Ele nunca falou nada! Quando chegou em casa, a família toda reunida, porque terminar um colegial naquela época era uma coisa, lembro que minha avó trouxe de Campinas um bolo enorme que ninguém comeu, porque foi feito com tanta antecedência que o bolo azedou. Era uma cesta de flores, um bolo trabalhado. E a família começou a discutir como eu iria fazer arquitetura. Naquele tempo não existia curso de arquitetura, existia engenharia civil que eu só poderia fazer na Politécnica, na USP ou no Mackenzie. Mas eu nunca tinha vindo para São Paulo e como minha família, de classe média baixa, podia me manter em São Paulo? Não tinha condições. Aí disse o meu avô, que era soldado, sargento: Ele podia fazer a Escola de Oficiais da PM. Naquele tempo era Força Pública. Era uma saída porque a Força Pública naquela época patrocinava aos seus comandados fazer curso superior. Interessava a ela uma melhor qualificação do corpo militar. Se eu fizesse um ano como oficial da Força Pública, ela me pagaria uma escola, ou no Mackenzie ou na USP. Era uma saída. E eu, por correspondência, pedi informações, aqui no Barro Branco, na Escola de Oficiais da PM e eles me mandaram o que seria exigido no vestibular e eu logo depois vim para São Paulo, pela primeira vez na minha vida. Eu já tinha 17 anos. Sempre levei vantagem porque nasci em janeiro e por ter ganhado um ano, porque fiz o preparatório para o ginásio e o quarto ano de grupo no mesmo ano, então ganhei dois anos na minha vida, de tal forma que acabei me formando quando era menor ainda.

 

Pergunta: Você veio em 1954?

 

Resposta:

Foi em 1953 que já comecei a tomar minhas providências. E nós viemos para São Paulo e eu tive uma desilusão muito grande, porque naquele ano...

 

Pergunta: Veio sozinho?

 

Resposta:

Não. Vim com meu pai e meu avô. Meu avô veio pela seguinte razão. Ele havia sido companheiro, colega, de um ex-comandante da PM, Comandante Máximo Calvari e um ex-comandante recomendando era uma coisa boa. Passamos antes na casa desse comandante e senti que estava com as costas quentes. Depois nós fomos ao quartel para saber as condições. Eu soube que naquele ano eles não abriam vagas para o curso de oficial, só para um curso preparatório, que equivale ao colegial, o que significaria que eu perderia três anos. Então vi que não era por ali. Voltando para Itapira, paramos em Campinas, onde meu avô morava, e meu pai, que era oficial de justiça, lendo o jornal da cidade, viu que estavam encerrando as matrículas para o curso de direito, para o vestibular e perguntou por que eu não fazia direito, afinal de contas ele era oficial de justiça e ter um filho advogado ou quem sabe juiz, desembargador, fascinou um pouco a cabeça do meu pai.

 

Pergunta: O que era comum nessa época?

 

Resposta:

Era comum. Os pais dirigiam mais os filhos.

 

Pergunta: Era medicina, engenharia ou direito.

 

Resposta:
Principalmente direito. A vida acadêmica no Brasil, a vida universitária no Brasil, começou  com duas faculdades de direito, uma no Recife e a outra do Largo São Francisco, criadas no mesmo dia. Eu também era miolo mole.

 

Pergunta: Foi fazer direito onde?

 

Resposta:

Em Campinas. Veja, nessa época eu já trabalhava, era locutor de rádio lá em Itapira, a princípio no serviço de alto-falantes da praça e logo depois da Rádio Clube.

 

Pergunta: Como era essa rádio? Dá para descrever?

 

Resposta:

O estúdio era um pequeno palco. A rádio tinha um auditório, porque naquele tempo tinha muito programa de auditório. Num dos cantos, numa das extremidades do salão, tinha um pequeno palco, ao lado a cabine do locutor  e lá do outro lado do palco ficava a cabine do técnico de som. E funcionava assim. Nós éramos separados por dois vidros e tudo bem, como sinal, as coisas funcionavam. Tocava uma campainha quando a gente ficava batendo papo, para avisar que o disco estava acabando, aqueles discos de 78 rotações, que tinham duração de dois a três minutos, no máximo.

 

Pergunta: E tinha música ao vivo também?

 

Resposta:

Também música ao vivo. Eu me lembro que eu também fazia a narração de um programa chamado Hora da Saudade. Tinha um conjunto musical da cidade, com música, naquela época, música antiga. Eu tive contato com um tipo de música bem interessante.

 

Pergunta: O senhor se lembra de algum gênero?

 

Resposta:

Muita modinha, valsa, chorinho, coisas muito interessantes. Aliás, esse grupo era liderado por um senhor, que era alfaiate e também sorveteiro, era concorrente do meu pai. No tempo de frio ele trabalhava como alfaiate e no tempo de calor ele vendia sorvete. Ele era a única pessoa na cidade que gostava de música erudita, principalmente ópera. Ele tinha uma bela coleção de discos, 78 rotações, 12 polegadas, e aos poucos o João Torres Silas, que era flautista, foi me dando informações sobre música e acabei me apaixonando.

 

Pergunta: O senhor estudou música?

 

Resposta:

Não estudei. Tentei estudar, mas isso é outra história que conto mais tarde.

 

Pergunta: O senhor tem lembranças, em Itapira ou fora de lá, dos cinemas?

 

Resposta:

Itapira chegou a ter dois cinemas, o maior na praça, que se chamava Cine Para Todos, um cinema grande, com aquela tela quadrada, cinema em preto e branco. Quando vieram os primeiros filmes coloridos foi um sucesso medonho e o cinema era um cine-teatro. Tinha um palco, onde tinha um pequeno grupo de atores da cidade que fazia, muito de vez em quando, alguma coisa, ou então acolhia shows, espetáculos que vinham de outras cidades. Como a tela naquele tempo ainda era plana, ela simplesmente subia e o palco ficava livre. Com o advento do Cinemascope, acabaram com os cineteatros do interior. Porque a tela Cinemascope era curva e não dava para subir e ela era fixada no chão. Esse simples fato acabou muito com as companhias intinerantes de shows, de espetáculos teatrais mesmo. Eu ainda estava fazendo a faculdade de direito. Eu me inscrevi para a faculdade de direito, que exigia no começo uma prova de português, a prova de latim e uma outra língua: inglês ou francês. Eu optei pelo inglês, mas na hora de fazer o exame resolvi entrar na classe de francês, porque a escolha era optativa. E entrei na faculdade de direito. O campineiro tem um defeito, entre tantas qualidades, ele é muito voltado para si próprio. A sociedade de Campinas, ainda hoje, é muito fechada. Então, eu não conseguia fazer em Campinas as amizades. Eu morava com meu avô e minha avó, dois velhinhos, então não tinha muito assunto para conversar. Claro que me dava bem com eles. Morava na Vila Industrial, um lugar um pouco distante da própria faculdade, que ficava na Marechal Deodoro, na PUC. Na faculdade eu me sentia isolado, não tinha amigos, companheiros. Foi quando apareceu na classe uma colega nossa, japonesinha, nissei, chamada Kimio, soube esses dias que ela já faleceu, dizendo que o padre Rudolf Frits Lasser, professor de filosofia da faculdade, estava querendo criar um grupo de teatro e que as pessoas interessadas deveriam comparecer na sala tal. Eu vi que seria uma oportunidade de eu fazer amigos.

 

Pergunta: Conhecia alguma coisa de teatro?

 

Resposta:

Nada. Eu fui fazer. E foi uma experiência muito interessante. Nós vamos encerrar Itapira, porque já estou em Campinas. Primeiro nós fizemos uma burrada histórica. O padre havia traduzido do grego, ele era uma pessoa muito culta, mas que não conhecia teatro. Isso foi falta. Ele resolveu traduzir do grego Édipo Rei e Sófocles e resolveu montar. A peça era inédita no Brasil, pela primeira vez se montou Édipo Rei e Sófocles. Isso em 1956, 57. O pessoal era absolutamente inexperiente em teatro e o padre inexperiente em direção. Nós montamos a peça. O curioso era que os homens, já nessa época, começavam a se afastar do teatro. Houve uma época em que as mulheres não faziam teatro. Ou os pais não permitiam, ou elas próprias se sentiam feridas no seu pudor, e elas não entravam em cena. Os grupos amadores de todos os lugares tinham isso. Quem está fazendo trabalho sobre o teatro e as mulheres no teatro, vai perceber que no começo não tinha atrizes, só homens. Então, havia algumas mulheres semiprofissionais que vinham para ganhar um cachê. Só elas ganhavam e os homens não. Mas as coisas foram se invertendo. Nessa época a faculdade tinha mais alunas do que alunos. Então, alguns papéis foram sendo substituídos. O Arauto, que é um papel importantíssimo, o que vem e desvenda a trama toda, era Maralva. O Coro de Anciãos era com mulheres. Foram compostas músicas. A faculdade da PUC tinha uma faculdade de canto orfeônico, naquele tempo, e o diretor da faculdade compôs músicas e tinha um grupo de mulheres que cantavam, sob a regência do Corifeu, que era uma Coriféia, se é esse o feminino de corifeu. A coisa foi horrorosa.

 

Pergunta: Qual foi a intenção desse padre?

 

Resposta:

Ele não conseguiu, esse clima todo da tragédia, ele não conseguiu. O pessoal todo vestido de roupa de cetim. Não tinha nada certo, absolutamente nada certo.

 

Pergunta: Essa foi sua primeira experiência?

 

Resposta:

Foi a minha primeira experiência, fazendo o Quirésias. Em Campinas existia um grande fotógrafo da época chamado Vítor Figuer. Ele tinha tido estúdio na Champs-Elysées, em Paris e no fim acabou vindo para Campinas. E o Vítor se aproximou do grupo e tirou fotografias maravilhosas. Quando o grupo estreou em Campinas, alguns jornais fizeram críticas pesadas ao espetáculo, aí os acadêmicos todos tomaram as dores do teatro universitário de Campinas, responderam, e aí nós fomos para Campo Grande, Mato Grosso, porque o presidente do centro acadêmico era de lá, um camarada muito rico, e disse que a gente ia para a cidade dele mostrar o espetáculo. Nós reprisamos o espetáculo no Cine Santa Helena, um cinema, e que tinha o piso muito inclinado, reminiscência do teatro do renascimento, que para fazer uma coisa parecida com a realidade tentavam criar uma perspectiva no palco e essa inclinação era importante para esse efeito. Só que nós não tivemos o cuidado de calcar o cenário, de corrigir. Durante a manhã toda nós montamos o cenário, que era muito bom, do Tolentino, que tinha feito as esculturas. O fato é que nós fomos almoçar, para fazer o ensaio geral, e quando a gente voltou, nós estávamos entrando na platéia, ouvimos um estalo muito grande dos arames e vimos o templo inteiro cair para frente. Amarramos aquilo do jeito que podíamos e fizemos o espetáculo e abandonamos lá o cenário. Nesse meio tempo o presidente do grupo, que se chamava Marcelo Alencar, sabendo que havia o primeiro festival amador do Brasil, no Rio de Janeiro, organizado pelo Ministro Pascoal Carlos Magno e pela Dulcina de Morais, foi para o Rio de Janeiro e levou as fotos. As fotos eram fantásticas e são até hoje. Ele procurou o Carlos Magno, mas ele falou que já tinham encerrado as inscrições. Ele perguntou o que a gente tinha montado. Ele falou que era Édipo Rei. Nunca ninguém tinha feito tragédia grega no Brasil. Era alguma coisa assim proibida e intocável.

 

Pergunta: Essa peça foi montada pelo TBC, em São Paulo.

 

Resposta:

O TBC só veio montar A Antígole muito depois.

 

Pergunta: Vocês foram para o Rio de Janeiro?

 

Resposta:

Aí ele viu as fotografias. O Marcelo sacou as fotografias, colocou em cima da mesa, o Pascoal viu e ficou louco. Vocês precisam vir para cá. Nós não temos nenhum teatro universitário para levar Édipo Rei. Ele falou que a gente ia encerrar o festival. E o festival todo foi criado em cima do teatro grego. Toda a parte teórica, as palestras todas que foram dadas, foram sobre teatro grego. Nesse ano estreou O Auto da Compadecida, nesse festival.

 

Pergunta: Do Ariano Suassuna?

 

Resposta:

Eu o conheci, batemos papo. A montagem foi feita pelo grande Vanderlei e que depois ficou meu amigo, hoje já falecido, um grande animador do teatro do Recife.

 

Pergunta: Esse era o grupo da PUC?

 

Resposta:

Teatro Universitário de Campinas. Campinas tinha tido antes um grupo que era o TEC, Teatro de Estudantes de Campinas. Por conseqüência de uma viagem do Pascoal Carlos Magno para lá, levando o teatro universitário do Rio de Janeiro, com o Sérgio Cardoso fazendo Hamlet. Era uma espécie de peregrinação, que deixou muitos teatros de estudantes, pelo Brasil afora. O Sérgio ia, o Pascoal ia, e faziam aquela coisa, um espetáculo que ficou célebre.

 

Pergunta: E você acabou a faculdade em Campinas?

 

Resposta:

Tem mais coisa. Vamos apressar. Então nós acabamos indo para o Rio de Janeiro. Enquanto todo mundo estudava teatro grego, nós fomos passear. Nós não tínhamos a mínima idéia do que era teatro. Nós fomos visitar Paquetá, Copacabana. Uma das meninas do coro era minha namorada, a gente aproveitou e namorou muito, fomos passear, conhecer o Rio de Janeiro. E no dia do espetáculo nós fizemos, lembro que estava me preparando para pregar a minha barba, quando alguém disse: Esquecemos das guirlandas. A Jocasta trazia umas guirlandas de flores, em homenagem a um deus. O teatro ainda existe, é o Teatro Rival, ali na Cinelândia. Nós não tínhamos levado cenário. O Pascoal disse que nós conseguiríamos na Casa Teatral do Rio de Janeiro. A gente alugou umas coisas lá. Eu tirei a barba e fui até a Cinelândia, trepei nas árvores e comecei a quebrar o galho literalmente. Quebramos umas árvores. E a polícia foi lá e me prendeu. De lá permitiram que eu ligasse para o teatro, eu liguei e o Pascoal mandou me buscar. O Pascoal era Ministro da República, e ainda deu uma enxovalhada no delegado. Aí me mandaram de volta. Quando estava chegando no teatro, tinha uma multidão, corpo de bombeiros, e tal. Acontece que já tinham colocado um prato de louça dentro da pira, as brasas, onde a Jocasta queimaria o incenso, trazendo as guirlandas e o prato rachou, pegou fogo e pegou fogo no palco do teatro. Dizem que ainda lá no palco tem uma roda preta de queimado. Chamaram o corpo de bombeiros e tinha uma multidão querendo ver o espetáculo que nunca tinha sido montado no Brasil. A Rádio Roquete Pinto transmitiu o espetáculo, duas vezes, porque o Édipo não sabia o papel de cor e o padre ditava, dava ponto para ele e ele repetia. E os microfones da rádio pegavam. Ouvia-se o ponto e depois se ouvia o Édipo. Era uma coisa horrorosa. No dia seguinte a manchete era: Édipo Rei, apesar de bem caracterizado, não foi além de sofrida. E o padre foi despedido pelo telefone da universidade. O padre foi embora, mas o pessoal gostou da história e desejou continuar. Aí nós tínhamos um outro professor, George Rebert, que era professor de francês, que tinha traduzido Mollier e nós montamos. Ele tinha traduzido, tinha o guarda-roupa e a gente montou uma peça. Apareceu em Campinas um teatro chamado Novos Comediantes, para fazer alguns espetáculos. Novos Comediantes era uma companhia cuja sede ficava na Rua Jaceguai, onde hoje é o Teatro Oficina. E eles convidaram a gente para vir para São Paulo.

 

Pergunta: Esse nome tem a ver com Os Comediantes?

 

Resposta:

Sim, porque o teatro brasileiro teve início, essa renovação do teatro brasileiro teve início no Rio de Janeiro com um grupo chamado Os Comediantes, e se tentou fazer aqui em São Paulo uma nova revolução, que não aconteceu com aquele grupo, chamado Os Novos Comediantes. Nós viemos para cá, só que os Novos Comediantes já tinha acabado faz tempo, o palco estava sendo usado como centro espírita, não tenho nada contra, mas há muito tempo o público não estava acostumado a entrar lá. A gente conseguiu alojamento no DEF, na Germaine Bouchart, na Água Branca, e ficamos hospedados lá e fizemos.

 

Pergunta: O DEF é da Prefeitura?

 

Resposta:

É de educação física, é do Estado. Como era um órgão do Estado, foi fácil. Naquela época as coisas eram mais fáceis. Ficamos hospedados lá. Minha mãe veio junto porque ela era cabeleireira e tinha feito as perucas dos homens e penteava as mulheres. E como meu pai também era eletricista, como falei ele fazia um pouco de tudo, estava um pouco folgado, ele veio para cuidar da parte técnica do espetáculo.

 

Pergunta: Pai e mãe vieram apoiar o espetáculo?

 

Resposta:

Apoiaram o grupo todo. Só o público não aparecia. Nós não tínhamos nível, não tínhamos nome, nada, e o teatro, há muito tempo estava desativado e não havia razão para o grupo viver. Eu entrava pela platéia, era o Escapino, eu me aprontava antes que os outros, e ficava sentadinho atrás de uns painéis esperando a hora de começar o espetáculo, e a minha deixa, porque eu entrava pela platéia. Um dia chega uma pessoa e diz: Nós fizemos uma votação. Tem três pessoas. Vamos fazer o espetáculo ou não vamos? Se o pessoal está pronto, nós vamos, eu falei. No mínimo nós ensaiamos. Então você desempatou. Entre essas três pessoas, dois deles eram espectadores e um deles era um homem de teatro, da censura, chamado João Coelho Neto, um grande animador de teatro em São Paulo. Quando terminou o espetáculo, ele procurou a gente e disse que era da censura: Como vocês não pediram a censura, eu vim assistir ao espetáculo de vocês e censurar e bater um papo com vocês. Eu adoro Mollier, ele disse. O que se fizer de Mollier no Brasil eu vou ver, porque me interessa. Ele queria conversar com a gente para a gente pegar as nossas coisas e ir embora. Não é nada disso que vocês estão fazendo. O espetáculo tem qualidade, mas não tem estilo. Cada autor tem a sua maneira de ser e essa maneira precisa ser recriada e vocês não estão fazendo Mollier. Nós ficamos muito chateados e resolvemos ir embora. Só que nesse momento nós não tínhamos mais dinheiro nem para pagar o DEF, porque eles cobravam uma pequena taxa. Teve um colega que disse que ia procurar um deputado, mas vou omitir o nome desse deputado, e ele ia dar um jeito. Ele falou para a gente sair de madrugada que depois ele dava um jeito. Nós não somos criminosos, somos da PUC de Campinas. Vamos explicar a situação. O reitor era um senhor, Sabim, e eu, por força de tanto pedir coisas a ale, tinha uma certa intimidade com ele. Eu falei que tivemos problemas, que o censor apareceu, o espetáculo rendeu pouco, as despesas foram muitas. Vocês só me dão problema, ele disse. Fiquem aí que vou mandar resolver. Veio um funcionário da PUC e pagou o que a gente devia e nós voltamos com o rabo entre as pernas. Em Campinas o espetáculo fez sucesso e foi o suficiente para manter aceso. A partir daí nós resolvemos tomar juízo, montar coisas que estivessem ao nosso alcance. Fizemos um festival interno, um concurso interno de dramaturgia. Quem ganhou foi Ganimedes de Oliveira, que foi conhecido como escritor de livros infantis, que morreu há pouco tempo, de Casa Branca, com uma peça chamada Joana Maria dos Presentes, que eu li, aliás ele era meu colega de classe, mas era uma peça muito chupada da Rosa Tatuada, de Terence Willians. Nessa época eu já tinha lido muito teatro. Eu fiquei impressionado, vi o filme. Mas tem uma qualidade. O primeiro ato é uma peça completa. Vamos encenar só o primeiro ato. E encenamos só o primeiro ato da Joana Maria dos Presentes. Só que era uma peça curta, um ato só, mas nós pegamos um ato do Joaquim Manoel de Macedo, um romântico brasileiro e que era uma brincadeira que ele tinha escrito com o João Caetano, o grande trágico brasileiro. O João Caetano tinha montado Otelo, numa versão do Dulci, uma versão francesa; Macedo resolveu fazer uma brincadeira com o nosso grande ator, e fez um novo Otelo, uma história de um ator de teatro, que montando Otelo resolveu mostrar para a namorada dele como ele era bacana no teatro, um canastrão. Era uma brincadeira. Essas duas peças passaram a fazer parte de um espetáculo, agora já com consciência, com o pé no chão, e a gente fez em Campinas, ganhamos vários prêmios num festival local, depois participamos de um festival estadual, ganhamos vários prêmios, eu ganhei como melhor ator. Naquele ano ganhei o Prêmio Governador do Estado, como ator. Aí montamos uma peça de minha autoria, um poema dramático, chamado Réquiem Para um Louco, que era a história de um neurótico de guerra. Mas foi muito interessante porque reforçava na cidade de Campinas a presença do Gerald Yurgssen, que foi um artista plástico participante do Grupo Vanguarda, de Campinas, um grupo concretista muito interessante, que está sendo pesquisado pelo José Armando Pereira da Silva. E aí eu terminei a minha faculdade. Meu pai começou a me atrair para Itapira, para que eu me preparasse para o exame para a promotoria pública. O promotor público de Itapira, José Carlos de Camargo Ferraz faleceu no ano passado, e foi até agora a maior média alcançada no concurso para a promotoria. Ele se prontificou a me preparar e meu pai ficou fascinado com essa idéia de ter um filho promotor público. Mas eu já estava um pouco mais amadurecido e eu confesso que não estava nem um pouco interessado em ser promotor público. Coloquei toda a minha roupa numa mala, que não era tanta roupa assim, e combinei com alguns jovens de Itapira que moravam numa república em São Paulo, na Rua Tamandaré e vim embora para São Paulo, com a desculpa de visitar a Bienal de São Paulo. Vim para cá e comecei a procurar um emprego.

 

Pergunta: Em que ano era?

 

Resposta:

Agora você me pegou. Foi em 1959 que eu me formei, então foi entre 1959 e 1960. Fiquei procurando emprego desesperadamente. A única que encontrei foi vender enciclopédia de porta em porta. Eu não conhecia São Paulo, porque a única vez que vim a São Paulo foi para fazer a matrícula, que acabou gorando. Eu fui vender livros. Vendíamos as obras completas de Freud, de Stephen Zweig, uma coleção de dicionários e uma série de outras obras. Estava para ser lançada a Delta Larrousse. Eu partia, todo dia de manhã a editora reunia seus vendedores e entregava a eles algumas fichas de possíveis clientes. Acabei desconfiando e realmente era mentira. Os endereços eram todos nos mais variados lugares, mas a pessoa nunca tinha demonstrado algum interesse anterior em uma enciclopédia ou numa coleção de dicionários. Se bem que como era final de ano, próximo às festas de natal, consegui vender bastante. Cheguei a ser primeiro lugar em vendas, o que a mim mesmo me surpreendeu. Mas logo depois, passado o natal, ninguém vende mais nada. Isso é até hoje, até o carnaval o Brasil fica parado. E era o que acontecia e eu não conseguia vender mais nada. Até que um dia, ali no Paraíso, numa tarde chuvosa, eu já tinha trabalhado o dia inteiro sem conseguir nada, dias e dias inteiros, vi uma placa: Leciona-se piano. Pensei: Aqui deve ter alguém que lê. Bati na porta e apareceu uma velhinha muito simpática e pediu para eu entrar. Eu entrei e soltei todas aquelas coisas decoradas, que era do Ministério da Educação, que estava fazendo a apresentação de uma obra, e disse: queremos a sua opinião. Essa era a chave de puxar o interesse do possível comprador. Ela me deixou falar e quando terminei e não tinha mais assunto, ela falou: Meu filho, com a minha idade, eu moro sozinha, para que eu haveria de comprar um dicionário? Ela saiu e voltou rapidamente com uma fatia de bolo. Eu comi o bolo e ela me deu uma nota de dinheiro. Era como se fossem 5 reais. Eu saí de lá tão aliviado. E naquele segmento de rua que vem do Paraíso até a Avenida Paulista, onde tem uma ilha com árvores, eu me encostei a uma daquelas árvores e fui jogando tudo que tinha da editora embora. Joguei o mostruário todo e desisti desse emprego. Dias depois, casualmente, encontrei com José Libânio de Freitas, que tinha sido meu colega na Rádio Brasil de Campinas, porque para fazer a faculdade eu também trabalhei na rádio em Campinas, como locutor. Ele estava trabalhando na Rádio Eldorado. Eu falei que estava catando lata. Ele falou que tinha saído um locutor da Rádio Eldorado e naquele dia ele ia gravar os testes das pessoas. O Sérgio Viotti havia deixado a Rádio Eldorado. Só que a Rádio Eldorado daquele tempo tinha um padrão de voz, cujo modelo era Maurício Barroso, participante do Grupo de Jograis, ator do TBC, e todo mundo tinha de falar como o Maurício. E ele me preveniu disso. Eu fui lá fazer o teste. Voltei para casa e enquanto fazia a barba, me preparava para o teste, fiquei ouvindo a Rádio Eldorado, fui lá, gravei e fui aprovado, porque passei a imitar Maurício Barroso que dizia mais ou menos assim: Com notícias fornecidas pelo Jornal O Estado de São Paulo, a Vimave S.A. informa... Era mais ou menos assim o padrão da Eldorado. E passei a trabalhar na Eldorado. Era um ambiente maravilhoso.

 

Pergunta: Vamos dar uma acelerada. São Caetano como entra?

 

Resposta:

Já, já. Estava eu na Eldorado quando lá de Campinas telefonaram dizendo que em Brasília ia ter outro festival do Pascoal e a gente gostaria de ir e eles achavam que dava para ir com O Novo Otelo. Perguntaram se eu dava uma reensaiada. Nesse tempo já conhecia o João Coelho Neto e ele se propôs, ele como crítico de teatro, a dar uma melhorada na peça. A peça estava ótima, mas a gente estava com uns movimentos desnecessários. O pessoal vinha para cá para dar uma repassada. O pessoal veio e ficou novamente no DEF e ele ensaiou a gente. Eu não sabia como ia sair da Eldorado. O diretor da Eldorado era o Carlos Vergueiro, marido da Zilá Vergueiro, ambos atores do TBC e pensei que ele fosse entender. Não era possível ele não me dar uma licença. Só que eu ficava constrangido de falar com ele e o tempo foi passando e passando, até que às vésperas da viagem fui falar com ele e disse: Carlos, tem a possibilidade de o meu grupo ir para Brasília e gostaria de ir; você me daria licença? Licença nós não damos. E agora, eu já estava comprometido. Se eu pedir demissão você me libera do aviso prévio? Isso eu posso fazer. Então eu vou embora. Eu me demiti da Eldorado e fui para Brasília pensando o seguinte: Ninguém queria ir para Brasília no início, o funcionalismo público. Tanto que se inventou na época, para o funcionalismo público, um sobre-salário para quem topasse ir trabalhar em Brasília. Era a maneira de atrair os funcionários públicos para Brasília, porque era no fim do mundo. Brasília tinha sido inaugurada naquele ano, em 1960. Eu pensei: Eu vou lá e converso com o Pascoal, ele é meu amigo e ministro do Juscelino. Impossível que ele não me arrume um emprego de faxineiro, alguma coisa. O Menotti Del Picchia era meu conterrâneo e Deputado Federal. Eu vou arrumar emprego lá. E fui embora com o grupo. Só que passou um mês inteiro e não tive coragem de pedir ao Pascoal, com quem eu conversava todos os dias. Menotti me convidou duas vezes para almoçar, eu fui, mas não tive coragem de falar. Eu acabei voltando para Campinas, derrotado e muito desanimado. Só que enquanto eu estava na Eldorado, morava aqui em São Caetano do Sul um rapaz chamado João Valdevino Fernandes, que era meu conterrâneo de Itapira. E o João é uma pessoa muito curiosa, mais que curiosa, não chega a ser xereta, mas quase. O João ouvia a minha voz na Rádio Eldorado e dizia para a mulher dele: É o Milton que está falando. A Rádio Eldorado não dava o nome dos locutores. E ela falava: O Milton está em Itapira, estudando para ser promotor. Ele tinha certeza que era eu. Ele anota os horários em que eu trabalhava e vai até a Major Perdinho, 27, 7º andar, onde depois foi o Diário Popular e hoje é um hotel, no centro de São Paulo. Ele foi lá. Sabia que era você. E me convidou para comer uma feijoada aqui em São Caetano do Sul, onde ele morava. Ele morava na Rua José do Patrocínio, 35. Eu vim e nessa tarde, nessa noite, estava acontecendo em São Caetano do Sul um movimento estudantil muito interessante. Os Vereadores da Câmara de São Caetano do Sul haviam aumentado os seus próprios subsídios e os estudantes de São Caetano do Sul haviam se reunido, em torno de um centro acadêmico que existia aqui, e haviam feito um movimento muito grande contra os Vereadores. Haviam feito um enterro dos Vereadores e naquela noite apedrejavam a Câmara Municipal que funcionava no Edifício Vitória, onde era o Cine Vitória. Foi aqui em São Caetano do Sul que a Polícia Militar estreou os Brucutus que eles tinham. Eu estava presente.

 

 

Pergunta: O que eram os Brucutus?

 

Resposta:

Era uma espécie de carro blindado, que jogava um jato forte de água, para amainar os movimentos. Pensei: Um lugar que tem estudantes com esse brio, com essa coragem, com esse descortino político, é um lugar onde gostaria de morar. E falei para o João que estava desempregado. Ele falou que estava se instalando no município uma indústria, onde ele estava trabalhando, e estavam recrutando gente. Eu vim, dias depois, para fazer uma entrevista, na ZF do Brasil, onde entrei, uma fábrica de engrenagens, onde entrei como auxiliar de departamento pessoal. Até esqueci que eu era advogado, mandei tudo às favas e fui aprender um ofício que não conhecia. A ZF era uma empresa muito interessante. Em primeiro lugar toda a chefia era alemã. Quem não era alemão era o chefe de pessoal, que era nissei, mas falava, os nisseis são muito discretos, mas falava alemão, e o chefe da contabilidade, que era brasileiro, mas não tinha vontade, aspiração nenhuma em mexer na ZF. A ZF era alemã. Eu comecei a trabalhar lá.

 

Pergunta: Onde era a ZF?

 

Resposta:

Na Rua Senador Vergueiro, 428, onde hoje é o Extra, lá embaixo, menorzinho, porque aí tem um caso que narrarei, de posse de terras em São Caetano do Sul. A ZF era ótima, só que o restaurante era horroroso. Era administrado por um espanhol, que talvez não tivesse formação específica para a coisa, talvez fosse apenas um cozinheiro adaptado às funções. Naquele tempo se improvisava muito dentro das empresas, porque a necessidade de funcionários era muito grande. A indústria automobilística estava se instalando no Brasil. Um dia esse espanhol teve a péssima idéia de colocar uma caixa de sugestões pendurada no restaurante. Eu disse aos meus amigos que ia tirar um sarro do espanhol. Eu redigi um tratado a respeito do restaurante industrial, como devia ser e como era um restaurante industrial e coloquei na caixa. Era um volume. A intenção era brincar com ele. Alguns dias depois meu chefe me chama e diz: O diretor-geral da ZF quer falar com você. Mas o que ele queria? Eu subi até a diretoria e estava lá, em cima da mesa, o meu tratado a respeito de restaurante industrial. Ele me mandou sentar e disse: O senhor fez algum curso de hotelaria? Não. Mas o senhor não escreveu isso? Escrevi. Pois é, concordo com tudo que o senhor está dizendo. Se eu lhe entregasse a responsabilidade de reformar completamente, atualizar o nosso refeitório, o senhor aceitaria? Eu percebi naquela hora que era pegar ou largar. Mas eu não entendia nada de restaurante. O único restaurante que conhecia era o do Estadão, que era freqüentado pelo pessoal da Rádio Eldorado, porque era a mesma empresa. E funcionava bem e era um primor. Eu decidi fazer. Minha primeira atitude foi telefonar para o responsável pelo restaurante do Estadão e conversei com ele e ele disse que estava pensando em sair de lá. Ele era um iugoslavo, falava alemão, e topou vir para cá, porque o salário interessava. Ele veio e ele era muito competente e em uma semana ele transformou completamente o restaurante da ZF. É claro que eu recebi os méritos por isso. Ele fazia até comidinha especial, comida alemã, para os alemães. Foi uma maravilha.

 

Pergunta: Nessa época você já estava morando em São Caetano?

 

Resposta:

Morava na casa do João. Ele tinha uma filha só, recém-casado, a casa dele tinha um quarto sobrando e eu morava lá.

 

Pergunta: E teatro, nesse tempo o senhor não fez?

 

Resposta:

A gente tinha algum trabalho de teatro dentro da própria ZF. A gente criou um grupo de teatro, que depois virou A Turma, mas eu chego lá. O fato é que eu era a única pessoa capaz de escrever e falar bem português. Não que isso seja verdade, mas porque eles só falavam alemão e o pouco que eu sabia era significativo para eles. Descobriram que eu era advogado e acabei assumindo toda a parte social da ZF, o que me possibilitou desenvolver dentro da ZF um trabalho interessante, com um coral, uma orquestra. Atrapalhava um pouco porque tinha muitos evangélicos e eles consagravam os seus instrumentos à igreja e não podiam tocar com aqueles instrumentos. Precisava arrumar outros instrumentos. Tinha um coral dirigido pelo Roberto Manzo. O fato é que a ZF tinha uma parte cultural bastante desenvolvida e a Prefeitura não tinha. Um dia o Prefeito de São Caetano, Hermógenes Walter Braido, através do chefe de gabinete, telefonou falando que o Prefeito tinha pedido para visitar a ZF. A gente tinha muito cuidado na parte política. Se fosse véspera de eleição, a gente não concordaria. Era eu que decidia isso. Mas como era comum, tudo bem, era a principal autoridade. E o Braido foi para lá, acompanhado do deputado Oswaldo Samuel Massei, que depois viria a ser Prefeito de São Caetano, e mais o Dr. Oscar Garbelotto, que era diretor do Detec, Departamento de Educação e Cultura. Nós visitamos toda a fábrica, a diretoria almoçou com eles e no final do almoço ele disse: O que a gente está querendo aqui é esse moço emprestado. Esse moço era eu. E o Braido demonstrou interesse em desenvolver em São Caetano atividades. Vocês têm aqui coisas que nós queríamos desenvolver na cidade. E a ZF me emprestou por algum tempo à Prefeitura. Durante a manhã, eu ia à Prefeitura e à tarde desenvolvia as minhas atividades junto à ZF. Eu queria contar, talvez fosse muito interessante, um fato acontecido na Administração anterior, de Anacleto Campanela. O INPS, naquele tempo IAPI, havia recebido de herança da família Penteado uma área enorme que ia desde o Rio dos Meninos até o Sacomã, onde agora é a Avenida Reais Patriotas. Compreendia toda aquela área onde hoje tem aquele trabalho de recuperação de águas de esgotos e mais aquele hospital do INSS, o hospital de Heliópolis e a favela de Heliópolis inteira.

 

Pergunta: Aquela parte da Petrobrás?

 

Resposta:

Tudo ali. Era uma área muito grande. Tempos depois as Prefeituras de São Paulo e São Caetano fizeram um acordo de retificação do Rio dos Meninos. O rio era sinuoso, então causava enchentes, era um rio lerdo e se desejava acelerar as águas do rio, porque já havia enchentes. As duas Prefeituras se entenderam e o rio foi endireitado, de tal forma que São Caetano do Sul, que é pequena, ganhou um certo território, a partir da indústria Braido, até a ZF, aqui embaixo. Só que o INSS não tomou conhecimento. O que fizeram os industriais? Estou falando de industriais porque só tinha indústrias ali, vizinhas ao rio. São Caetano ia até o rio. Eles se apossaram das terras até o rio, simplesmente levaram as suas cercas até o rio. Quando falei para os gerentes da ZF que eles podiam isso, eles ficaram admirados. Mas como vamos tomar terra de alguém? Eu consultei o INSS e eles informaram que não possuíam outra propriedade em São Caetano, senão aquela da Rua Niterói, esquina com Rio Grande do Sul, onde eles tinham a sede antigamente. Hoje a sede é na Goiás, lá embaixo. Aquele pedaço da Goiás não existia. Depois que abriram. Ali era a Rua Margarida Pires. E a ZF relutava em ir até lá. Até a Indústria Saad, aquela siderúrgica, já tinha chegado até lá, já tinha aterrado. Até que um dia, pela manhã, eu chego na ZF e estão estaqueando lá para assentar. Eu perguntei aos empregados sobre o que estava acontecendo. A Siderúrgica São Francisco comprou essa área e nós vamos cercar. Vocês estão enganados, essa área é da ZF. Fui lá dentro, peguei a empilhadeira, pedi informações para o encarregado de como dirigia a empilhadeira e fui lá e derrubei toda a cerca que estava sendo feita; o gerente da São Francisco veio e falei: Se a propriedade for sua, você vá a polícia falando que invadi a sua propriedade. Ele não foi porque não era dele e ele sabia que não era dele. Isso obrigou a ZF a tomar uma providência. Nós falamos com o Prefeito Campanela e ele disse: Inclusive eu posso lançar impostos atrasados para vocês, o que vai facilitar o processo de usucapião. Aí a ZF cercou, mas nunca edificou lá dentro. Ela passou a jogar sucata e transformou aquilo num campo de futebol para os seus funcionários. Mais tarde a ZF saiu de lá, vendeu aquele terreno para o Extra, e, sabedores disso, fizeram da área ocupada um estacionamento. Fica mais fácil se houver algum problema posterior. Mas não haverá porque a escritura que o INSS tem hoje não é de tantos metros, mas que vai até o Rio dos Meninos. Então, continua ainda até o Rio dos Meninos, mas é um terreno muito valioso. Isso é interessante para a história de São Caetano. Todas as indústrias da região ocuparam, grilaram as terras do INSS. Mediante convite do Braido, eu acabei trabalhando na Prefeitura. Eu imaginei centralizar toda a cultura de São Caetano do Sul numa instituição.

 

Pergunta: Qual era o interesse do Prefeito? Era cultural?

 

Resposta:

Era cultural, mas ele próprio não sabia bem. O Braido é uma pessoa rude, um grande empreendedor, um homem de coragem, naquela época, porque hoje já está com seus 80 anos. E o Braido tinha uma bandeira, que era a educação em São Caetano. São Caetano tinha poucas escolas e ele se aproveitou disso e fez a primeira administração dele em cima do lema "São Caetano do Sul, onde escola não é problema". Naquele tempo era Governador do Estado o Sr. Abreu Sodré e ele conseguiu se aproximar do Sodré e se transformar em amigo e ele edificava, construía escolas e o Sodré colocava uma escola estadual. Foi dessa forma que se construiu dezenas de escolas de primeiro e segundo grau, que se instituiu o IMES, que se instituiu a Fundação das Artes, que veio para cá Jorge Street, foi tudo nessa época, e a própria Mauá, que eu ajudei a vir para cá.

 

Pergunta: Estamos na ditadura militar. Havia algum trabalho de artes em nível federal?


Resposta:

Federal não, tanto que até hoje em dia, hoje é 7 de julho, ontem o Senado teria aprovado a Universidade Federal do ABC que não sei se sobra alguma coisa para São Caetano. Mas ontem, até então, o Governo Federal nunca teve preocupações com a educação. Não só com a educação, mas com nenhum campo do ABC.

 

Pergunta: Os projetos eram ações estaduais e municipais?

 

Resposta:

Sim. Só que eu não sei, o tempo dá condições de você analisar hoje com mais distância, com mais precisão, os governos passados. Acho que faltava ao Braido um planejamento. Ao invés de partir de um projeto, de um estudo que levasse a um projeto e esse projeto levasse a uma política educacional, não, foi ao sabor das oportunidades. Naquele tempo as periferias de São Paulo, de Santo André, dos municípios limítrofes, preferiam, é claro, era mais perto, atravessar a divisa e vir estudar em São Caetano. Então, houve uma super valorização. Algumas escolas foram construídas sem que houvesse uma real necessidade dessas escolas. Na hora em que o Governo estabeleceu a necessidade de que os alunos pertencessem à área das suas escolas, as escolas passaram a sobrar. Sobraram alguns prédios em São Caetano. Alguns são muito conhecidos. A Prefeitura de São Caetano construiu um prédio enorme, de acordo com as normas, que eram completamente diferentes de um colégio comum, para o Colégio Vocacional. Deixe-me fazer um parêntese. Naquele tempo existia em São Caetano do Sul uma entidade cultural chamada ACASCS, Associação Cultural e Artística de São Caetano do Sul, formada por quatro ou cinco pessoas interessadas em cultura e em arte em São Caetano e que fizeram coisas muito interessantes. Era uma contribuição da sociedade para com a cultura num tempo em que a Prefeitura não tinha nada de cultura para oferecer à sociedade. Era o fluxo ao contrário. E essa ACASCS era administrada, o presidente era da família Dalmas, Mário Dalmas, que politicamente era ligado ao Campanela. E nós estamos num momento em que o Braido começa a fazer campanha em São Caetano para chegar ao poder. No final do seu Governo o Campanela doou para a ACASCS, deu em comodato por 99 anos, uma chácara que pertencia ao Dr. Souza Dotto, um médico radicado em São Caetano do Sul e que hoje constitui o Bosque do Povo. Como os Dalmas eram campanelistas, foi uma espécie de retribuição política dada pelo Campanela para a ACASCS. Mas quem venceu a eleição não foram os campanelistas, mas o Braido. Um dos primeiros atos do Braido foi anular esse comodato e, de certa forma, minar o trabalho da ACASCS. Ele contratou a mesma professora de dança, que dava aula na ACASCS para fazer uma escola de dança para a Prefeitura, escola de balé da Prefeitura, que existe até hoje. Contratou quem dava aula de artes plásticas na ACASCS para dar aula pela Prefeitura e a ACASCS acabou perdendo o apoio oficial e acabou se transformando, ela existe até hoje, mas é um clube de carteado, onde o pessoal vai jogar baralho, com raras ou nenhuma atividade cultural. Meu trabalho lá era estabelecer um planejamento cultural para o Município. Esse planejamento foi feito e a cozinha desse projeto era um centro de formação de profissionais no campo da cultura, da arte, que era a Fundação das Artes. Imaginei a Fundação para que ele pudesse ficar isenta, longe de correntes políticas, de grandes modificações bruscas da política, que sempre foram no Brasil algo destrutivo, responsável pela descontinuidade de muitos projetos interessantes. Como o Braido era fissurado em escola, quando você falava em escola para ele, estava aprovado, ele perguntou o que era isso no projeto. Falei que era um centro de formação de músicos, de atores, de artistas plásticos e bailarinos. Então nós vamos começar por aqui. Lembro que falei para ele que essa era a parte mais cara e a que levava mais tempo para ficar pronta, porque você não forma um artista de uma hora para outra, profissional nenhum. Ele disse que ia fazer junto com o Estado. Ele se comunicou na mesma hora com Abreu Sodré e ele nomeou uma comissão para cuidar do assunto, formada pelos Srs. João Carlos Martins, pianista, pelo maestro Diogo Pacheco e pelo Sr. Ciro Brizola. Aqui em São Caetano éramos eu e Oscar Garbelotto que representávamos a Prefeitura. E começamos a trabalhar nesse sentido. Estabelecemos uma política pedagógica para a Fundação das Artes. O restante desse planejamento eu não sei onde foi parar, cultural, nunca mais ouvi dizer, não foi desenvolvido, o Braido saiu e a política mudou, aquele problema da descontinuidade. Mas como a Fundação das Artes estava sendo criada, foi criada e permanece até hoje. O pessoal de São Paulo estava apenas muito interessado no que eles iam fazer e ganhar, e a gente percebeu que não dava para trabalhar junto. Eles atrapalhavam. Aí comunicamos isso ao Braido e o Braido, muito lealmente, telefonou para São Paulo e disse na minha frente: Sodré, você me mandou para cá algumas pessoas que não estão interessadas em trabalhar. Se você quiser fazer junto comigo, manda gente disposta a trabalhar, porque com esses três não dá. Ele disse que ia fazer sozinho. E, sozinhos, nós passamos a desenvolver a Fundação das Artes. Nessa época a gente organizou em São Caetano uma série de atividades culturais, entre as quais uma em 1967, que foi um festival de música de coral, apresentado dentro da Matriz da Sagrada Família. Eu não sei se devia dizer para vocês o que existia culturalmente em São Caetano antes da Fundação das Artes. Esse festival foi muito interessante porque trouxe para cá os 16 maiores corais do Estado, regidos por gente muito importante, e que galvanizou a população. Talvez pelo fato de ser dentro da igreja, o padre era entusiasmado pelo projeto, durante os atos religiosos ele convidava os fiéis para que viessem assistir. O fato é que nós tivemos uma repercussão muito importante e que terminou com os 16 corais juntos cantando Aleluia, ao som dos sinos da Matriz, que foi entusiasmante. O Braido levantou e disse que a escola de música estava pronta e quem ia dirigir? Não sei. Nós tínhamos muita simpatia pelo maestro Walter Lourenção, que era um dos regentes que tinham vindo para cá. Ele veio dirigindo o coral o Instituto Ítalo-Brasileiro, que na verdade é um organismo cultural do Governo Italiano em São Paulo. Nós nos entusiasmamos. O Braido, sempre impulsivo, foi no microfone e anunciou que estava criando a Fundação das Artes e convidou publicamente o maestro Lourenção, que quase morreu do coração, porque não imaginava isso, para ser o primeiro diretor. Vou fazer uma causa pequena, para voltar no tempo e falar do que existia de cultural em São Caetano do Sul. Além da Fundação das Artes, além da ACASCS, que já falei, existia um pequeno movimento teatral dentro da Paróquia da Sagrada Família, alimentada pelo entusiasmo do padre Ézio, que fazia um teatro bem paroquial. A intenção era outra, reunir os Marianos, as Filhas de Maria, mas parece que chegou alguma coisa interessante. Quando cheguei em São Caetano esse movimento já estava definhando, já estava acabando.

 

Pergunta: E tinha cinema também?

 

Resposta:

Tinha um cinema na paróquia e no palco do cinema, o padre Ézio me levou inclusive, muito entusiasmado, para conhecer o palco. Eles tinham recursos interessantes. São Caetano não conhecia refletores no teatro, então tinha a ribalta, que já não se usava há muito tempo e as gambiarras. Mas eles já tinham um sistema de resistência, com canos, manilhas. Ele enchia de água com sal e descia um êmbolo de metal, que à medida que interrompia uma das fases, de tal maneira que à medida que ele chega ao fundo, a luz ia aumentando. Água com sal são condutores de eletricidade. E tinha uma bateria. Achei muito engenhoso. Ele era muito entusiasmado pelas coisas. Eu ainda soube que a última montagem deles foi A Dama da Madrugada, do Cazzona, um escritor argentino, mas não cheguei a ver. Aproveitei alguns atores dele, porque o teatro do padre estava morrendo, acabando. Eu era, nessa época, o representante da ZF junto ao Centro das Indústrias e me encontrava sempre, às segundas-feiras, com um velhinho chamado Mateus Constantino. Foi uma pena que eu não tivesse gravado depoimentos com Mateus Constantino, porque ele era muito antigo, um velhinho mesmo, e ele me contava quando fazia teatro junto, São Caetano do Sul tinha uma Sociedade Príncipe Di Nápoli, que era uma espécie de sociedade de socorros múltiplos dos italianos, e eles faziam teatro em italiano. Então, promoviam festas, faziam primeiro um teatro e depois afastavam as cadeiras e faziam bailes, festas em italiano. Depois o teatro passou a ser feito pelo Clube Comercial, que também definhou. Existe um teatro em São Caetano ainda, mas era um cine-teatro, na Rua Perrella.

 

Pergunta: O Cine Central?

 

Resposta:

O Cine Central em que chegamos a ensaiar inclusive. Nós ensaiamos uma peça lá quando a ACASCS acabou. Com a ascensão do Braido, o Mário Dalmas saiu para não prejudicar a ACASCS, porque a ACASCS podia ser alvo de vendetas políticas. Em São Caetano essas coisas são muito sérias. Espero que um dia acabe, mas ainda são muito sérias. Ele saiu e ocupou o lugar dele o vice-presidente, o Dr. Paes, que era um dentista de São Caetano, um uruguaio que residia em São Caetano e tinha uma filha concertista de piano, Maria Francisca Paes.

 

Pergunta: Você falou que conheceu o Cine Central?

 

Resposta:

Quando era ainda um salão de baile.

 

Pergunta: Você tem como descrever como era o Cine Central? Esse foi o primeiro cinema da cidade?

 

Resposta:

Foi, mas a arquitetura dele parece que se conserva a mesma.

 

Pergunta: A fachada apenas.

 

Resposta:

Você entrava na fachada, tinha uma pequena saleta, tinha três degraus que davam acesso ao salão de baile. Você subindo alguns degraus, uma altura de um metro, você entrava num salão de baile. Ele não tinha inclinação para cinema e depois tinha um palco bastante alto, onde estava um piano abandonado. Nesse tempo a ge


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul