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Pedro Josefino Pilo

Pedro  Josefino Pilo é brasileiro, nascido em São Caetano do Sul, filho dos imigrantes austríacos Henrique Pilo e Maria Hess. Seus pais se separaram e Pedro foi criado pela mãe e avó. Estudou dos 6 aos 9 anos na Johannes Keller Schule, escola alemã situada em São Caetano do Sul, no Bairro Santa Paula. Trabalhou  principalmente com estruturas metálicas, nas funções de serralheiro e mecânico de manutenção em empresas como União dos Construtores e Pierre Sabi. É casado com Maria, também descendente germânica, com que tem dois filhos e duas netas. Conta histórias da infância como filho de pais separados, da influência da cultura alemã e do regime nazista durante sua vida escolar e da 2ª Guerra Mundial.

Imagem do Depoente
Nome:Pedro Josefino Pilo
Nascimento:25/12/1926
Gênero:Masculino
Profissão:serralheiro; mecânico de manutenção
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Caetano do Sul

Arquivos de Imagem

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Turma de estudantes da escola alemã Johannes Keller, em São Caetano do Sul. Registro feito na Vila Paula, atualmente Santa Paula, na década de 1930.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.
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Passaporte de Heinrich Pilo (pai de Pedro Pilo), imigrante da antiga Iugoslávia.


Transcrição do depoimento de Pedro Josefino Pilo em 11/12/2008

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias

Depoimento de Pedro Josefino Pilo, 81 anos

São Caetano do Sul, 11 de dezembro de 2008

Pesquisadoras: Mariana Lins Prado e Priscila Perazzo

Equipe técnica: Felipe Dessico

Transcritora: Mariana Lins Prado

 Pergunta: Seu Pedro, eu peço pro senhor começar falando a sua data de nascimento, onde o senhor nasceu e um pouco da sua família, dos seus pais e assim por diante.


Resposta: Onde eu nasci? Eu nasci em São Caetano do Sul, na rua Quintino Bocaiuva, em frente ao portão da General Motors. [risos]


Pergunta: Em que ano?


Resposta: 1926.


Pergunta: Nisso não tinha general Motors ainda. Ou já tinha?


Resposta: Hm. Tinha. 25 de dezembro de 1926.


Pergunta: O senhor nasceu no dia do Natal!


Resposta: [risos]


Pergunta: Está prestes a fazer aniversário.


Resposta: Já existia General Motors. Já existia General Motors.


Pergunta: Seu Pilo, fala um pouquinho dos seus pais, assim. Eles eram austríacos, eles foram imigrantes, como que foram geradas as suas origens?

Resposta: Não, meus pais era iugoslavos. Iugoslavos. Iugoslavos por quê? Porque a Iugoslávia tomou da Áustria. Na prática, na prática, eles são austríacos, na prática são austríacos, nascidos austríacos.


Pergunta: Que lugar? O senhor lembra?


Resposta: Não, não lembro. Só lembro que é na Áustria. E aquela parte da Áustria, antigamente, primeiro a... a... Ih, esqueci. A Hungria tomou. Primeiro foi a Hungria que pegou aquela parte. Depois com negócio da guerra e coisa, ali existia muita confusão, né? A Áustria, a Iugoslávia tomou conta. Tomou conta daquela parte. Mas era, é da Áustria. Mas a Iugoslávia tomou conta, então tinha, todo mundo tinha que ser iugoslavo. Mas meus pais nunca conseguiram falar iugoslavo.


Pergunta: Eles falavam que língua?


Resposta: O alemão. O alemão, não o alemão correto. É que nem aqui, o caipira. Eles não falam o português correto. Então eles também não falavam o alemã correto. Falavam o alemão, que o alemão da Áustria é diferente do alemão da Alemanha. É diferente. É alemão também. Mas é uma pronúncia diferente, né? Eles pronunciavam diferente. Que nem aqui. O... o baiano. Ele fala diferente do que nos aqui. Tem muita diferença, né. Então, ali é a mesma coisa, mas é tudo austríaco. Não tem nada que Iugoslávia.


Pergunta: Por que seus pais...?


Resposta: Tem o passaporte iugoslavo porque tava lá naquele trecho. Ali era todo mundo de lavoura. Era só lavoura. Trabalhava na roça.


Pergunta: Por que seus pais vieram pro Brasil?


Resposta: Porque lá não dava mais, né? Então vieram pro Brasil. Conseguiram sair de lá pro Brasil.


Pergunta: Vieram casados?


Resposta: Não.


Pergunta: Vieram na mesma leva?


Resposta: Meu pai, meu pai veio solteiro, minha mãe solteira também.


Pergunta: Se conheceram aqui.


Resposta: Se conheceram aqui em São Caetano mesmo.


Pergunta: Que época, mais ou menos, eles vieram?


Resposta: Vieram em... 1925.


Pergunta: Logo depois que eles se conheceram o senhor nasceu, então.


Resposta: É, um ano depois. Eles vieram em 25 [1925]. Ora, mas meu pai veio em 1924. Minha mãe veio em 1925.


Pergunta: Direto pra São Caetano, não passaram por nenhuma fazenda?


Resposta: Eles eram pra ir pra fazenda. Eles eram pra ir pra fazenda e acho que estavam no alojamento, que tinha ali o alojamento pra estrangeiro, né, é... Alguém pôs um papel numa pedra e jogou pelo, pelo muro, avisando a turma pra não ir pra fazenda, pra fazer força pra ficar aqui. Então, ficaram aqui e foram morar na Mooca.


Pergunta: Seu Pedro, eles chegaram em Santos ou no Rio de Janeiro, o senhor sabe?


Resposta: Como é?


Pergunta: No navio que eles chegaram, eles aportaram em Santos ou no Rio de Janeiro?

Resposta: Ahn... Em Santos.


Pergunta: E ficaram na Hospedaria dos Imigrantes aqui.


Resposta: É, eles desceram em Santos aqui, né. De Santos eles vieram com o trem pra cima, né?


Pergunta: Mas aquele pouso na Hospedaria dos Imigrantes, foi aí que eles receberam esse recado?


Resposta: Precisa falar direito, que meu ouvido tá meio...


Pergunta: Essa pedra que eles receberam avisando pra não ir pras fazenda, foi lá na Hospedaria dos Imigrantes?


Resposta: É, foi lá nos Imigrantes, foi lá. Alguém passou lá e jogou a pedra pra eles não irem pra fazenda. Que a fazenda era muito ruim. Tinha uma irmã da minha vó, a irmã da minha vó foi. Pra fazenda. Mas ficaram um bom tempo lá, em Bauru, perto. Ficaram muitos anos lá na fazenda lá.


Pergunta: E sofreram lá nessa fazenda?


Resposta: Ahn... Não... Num lembro mais muito bem, mas diz que não era bom. Não era muito bom. Então, quando conseguiram juntar dinheiro, vieram, vieram pra cá. Vieram pra casa da minha vó aqui em São Caetano.


Pergunta: Ah, São Caetano então porque já tinha alguns familiares. Por isso que eles vieram.


Resposta: Já tinha, já. Quando, na Mooca, tava na Mooca, depois quando meu pai casou, ahn, compraram no, aqui na, na, em São Caetano. Na rua Quintino Bocaiuva. Minha vó comprou uma casa na, comprou casa, fez a casa, meu pai comprou também o terreno e fez uma casa pra ele.

Pergunta: Qual a profissão deles lá? Lá na Áustria eles faziam o quê?


Resposta: Eram... Lavoura. Na lavoura.


Pergunta: E o, eram os pais do seu pai que já moravam aqui em São Caetano?


Resposta: Eles já tinham vindo, já tinham imigrado antes. Já tinham imigrado antes, em 1924, 25, por aí. Vieram pra cá. Em 1925 meu pai casou.


Pergunta: Como os dois se conheceram, os seus pais?


Resposta: Aí é que ta a história. Porque os alemão é assim: os pais arrumavam o casamento. Não é “vai namorar e coisa”, não. “Cê vai casar com o fulano” e ó, não tem jeito. Tem que casar. [risos] Foi assim, não tinha que namorar e ver quem gosta. Cê tem que casar e “cabou!” Era... era praxe deles, né. Num, num faziam namoro, não.


Pergunta: E eles ficaram casados quanto tempo, seus pais?


Resposta: Ficaram casados até que eu completei seis anos.


Pergunta: Eles se separaram?


Resposta: Separou, meu pai e minha mãe se separou.


Pergunta: Naquela época, então, em 1930 e poucos. Como foi isso, ser filho de pais separados naquela época, Seu Pilo?


Resposta: Separou mesmo.


Pergunta: Foi difícil pro senhor?


Resposta: Ah, pra mim não, porque eu era criança. Molequinho.


Pergunta: E as pessoas não falavam?


Resposta: Falavam, mas pra mim tanto fazia como fez, porque, né, eu ficava na casa da minha vó. Na casa da mãe da minha mãe.


Pergunta: E quem ajudou a criar o senhor foi a avó?


Resposta: A vó.


Pergunta: E o seu pai foi embora ou ficou aqui?


Resposta: Não, meu pai ficou na casa da mãe dele, do pai dele, da mãe.


Pergunta: E a sua mãe ficou na casa da mãe dela ou na Quintino Bocaiuva?


Resposta: É, ficou na casa da minha vó e trabalhava, né. Foi trabalhar de empregada. Trabalhava de empregada e ficou na casa da minha vó. E quando tinha folga vinha na casa da minha vó. Ficava aqui.


Pergunta: Então o senhor foi praticamente na sua primeira infância criado pela sua vó.


Resposta: Criado pela minha vó.


Pergunta: Era a sua vó austríaca que fazia as comidas da casa?


Resposta: Quê?


Pergunta: Era essa sua vó que cozinhava?


Resposta: Ela que cozinhava.


Pergunta: Que comidas o senhor comia?


Resposta: Ah, o que eles faziam, num lembro mais, né...


Pergunta: Mas eram comidas austríacas ou arroz e feijão?


Resposta: Não, comida estrangeira, né. Comida de lá. Maior parte é de lá. E principalmente à noite era sopa. À noite era mais, mais sopa. Que eles gostavam muito de sopa, né?


Pergunta: Vocês criavam animais no quintal?


Resposta: Criava. Tinha porco, galinha. Tinha horta no fundo do quintal. O terreno tinha 10 [metros] por 40 [metros] de fundo.


Pergunta: Pato, coelho, vocês comiam?


Resposta: Não, coelho não. Coelho não, mas pato, galinha, até tinha. Pato e galinha tinha bastante.


Pergunta: Não tem nenhum prato que o senhor sinta saudade hoje que a sua vó fazia?


Resposta: Não, assim. Tanto assim não. Tinha um até... o... até poucos dias atrás minha esposa fez. Um tal de schmora; Faz uma mistura de, de, com farinha. Torra a farinha com coisa, faz uma mistura, põe leite. Mistura com leite. Fica gostoso “pá danar”! [risos]


Pergunta: Que farinha é essa?


Resposta: É farinha comum.


Pergunta: Farinha de trigo?


Resposta: Farinha de trigo.


Pergunta: Torrada?


Resposta: Vai torrar, ói, eu num lembro bem como é que é. Mas eu sei que põe na panela com água, coisa, faz aquela massa, né? Faz que nem massa de pão mas deixa torrar.


Pergunta: Como chama essa receita?


Resposta: Schmora.


Pergunta: É salgada ou é doce?


Resposta: Doce. Mas é gostoso! [risos] E fazia macarrão, né. Tinha macarrão. Maior parte batata. Né. Que alemão gosta muito de batata, né? Maior parte batata. Fazia repolho, né. Repolho azedo, principalmente. Azedava muito, minha vó azedava muito repolho.


Pergunta: Como era azedado o repolho?


Resposta: Fácil. Corta ele bem fininho e põe num pote. Né. Aperta com a mão. Pá, com a mão. Só. Não põe água, num põe nada.


Pergunta: Num põe pimenta, coentro?


Resposta: Põe só pimenta-do-reino. Pimenta-do-reino em grão. Louro, folha de louro, e vai socando. Vai pondo lá dentro e vai socando. Depois deixa. Ele mesmo azeda.


Pergunta: Fecha e deixa.


Resposta: Não precisa nem tampa. Põe um pano por cima só e deixa.


Pergunta: Ô Seu Pedro! (?)


Resposta: Ah, fica 1 semana, 2 semanas... Aí já... É o repolho azedo.


Pergunta: Isso é o chucrute?


Resposta: É o chucrute. Esse é o chucrute. O pra aqui agora é o chucrute. É o repolho azedo. É fácil de fazer, muito fácil.


Pergunta: E o senhor como menino ficava ajudando na cozinha?


Resposta: Não.


Pergunta: Menino não entrava na cozinha?


Resposta: Não, não. Tocava de lá.


Pergunta: Nem os homens?


Resposta: Criança eles tocavam de lá.


Pergunta: Os homens nunca cozinhavam, Seu Pedro? Os homens da família não cozinhavam?


Resposta: Eu aprendi a cozinhar com a minha mãe, quando eu tava sozinho com a minha mãe.


Pergunta: Quantos anos já? O senhor tinha?


Resposta: Eu tava já com dez anos.


Pergunta: E o que que ela ensinou o senhor?


Resposta: Cozinhar arroz, que até minha neta gosta do arroz que eu faço.


Pergunta: Por que é papão? Como é esse arroz? É especial?


Resposta: É arroz... Bom, pergunta pra minha neta.


Pergunta: Que o senhor põe nesse arroz?


Resposta: Eu, eu...


Pergunta: Amor?


Resposta: Eu ponho cebola, alho, faço um refogado, né, e vai...


Pergunta: O que mais a sua mãe ensinou o senhor a cozinhar?


Resposta: Ah, praticamente só o arroz, né. E o resto, eu fazia. Às vezes eu fazia um pouco de café de manhã, às vezes eu fazia.


Pergunta: A sua mãe não fazia bolo, pão doce, rosca, assim...?


Resposta: Ah, fazia, mas eu num, nunca...


Pergunta: E no Natal, não fazia?


Resposta: Natal fazia.


Pergunta: Que que fazia no Natal?


Resposta: Ah, bolo. Fazia bolo.


Pergunta: Algum bolo especial ou bolo comum?


Resposta: Comum, coisa comum. Não tinha muito luxo.


Pergunta: E no Natal, cantava ou não cantava?


Resposta: Cantava.


Pergunta: E o que que cantava?


Resposta: Hinos de Natal.


Pergunta: O senhor lembra algum hino de Natal? Canta pra nós um pedacinho, não precisa ser inteiro.


Resposta: Começa assim. Cês, cês sabem o começo dela:

Stille Nacht, heilige Nacht (Noite tranqüila, santa noite
Alles schläft, einsam wacht todos dormem, sozinho vigia
nur das traute, hochheilige Paar sua família, sacrossanto par)


Resposta: É do pai do Jesus. Ha!


Pergunta: Lindo. E presente, tinha presente pra criança?


Resposta: Tinha, pra criança sempre tinha presente.


Pergunta: E o que que o senhor lembra de ter ganho no Natal?


Resposta: Ah, carrinho, tinha aí uns carrinho... Carrinho de madeira. Não tinha plástico que nem hoje, né. Hoje tem muito plástico. Era tudo carrinho de madeira. Fazia aquelas carroças com cavalinho... E o caminhão... de madeira. Tudo madeira.


Pergunta: E a vizinhança ali era bastante estrangeira, eles não achavam, não falavam, os brasileiros que viam tanto estrangeiro, não botava apelido, nome?


Resposta: Não.


Pergunta: Nunca chamaram o senhor de bicho d’água...


Resposta: Não, não.


Pergunta: Não.


Resposta: Não.


Pergunta: Não foram grosseiros? Mal educados com estrangeiros?


Resposta: Não, não. Eu tinha, na minha vó tinha um, uma família italiana, duas famílias italianas, que se davam muito bem.


Pergunta: Eram vizinhos. E amigos.


Resposta: Muito amigos.


Pergunta: Na necessidade também?


Resposta: Muito amigos mesmo. Se davam muito bem. Não tinha o quê. E pra baixo [da rua] tinha estrangeiro também. Pra cima tinha as duas famílias italianas, né. Mais pra cima tinha outra família alemã. E pra baixo tinha essa leiteria, tinha uma leiteria e tinha uns alemão também.


Pergunta: Essa leiteria é na [rua] Rio Grande do Sul? Essa leiteria?


Resposta: Não, não existe mais.


Pergunta: Mas era na Rio Grande do Sul?


Pergunta: Que rua ficava?


Resposta: Na [rua] General Osório.

Pergunta: A rua da leiteria. E ia buscar o leite lá


Resposta: Na frente da leiteria tinha o Zepelin.


Pergunta: Que era o Zepelin?


Resposta: Era uma pensão. Era um restaurante com pensão.


Pergunta: Quem eram os donos?


Resposta: Dava comida pra turma da General Motors também.


Pergunta: Quem eram os donos desse Zepelin? Desse restaurante?


Resposta: O dono era alemão. Esse era alemão mesmo!


Pergunta: Da Alemanha.


Resposta: Da Alemanha. Esse era alemão mesmo. Ele tinha a cachorra dele, que quando ele dizia, ele tratava “Neide! Fass auf!”, Fass auf sabe o que que chama? “Toma conta”. Do bar. Ele ia sair. Ameaçasse alguém de entrar lá! [risos] Não entrava, não. Tinha uma vez, tinha um alemão, é, um alemão, a gente trata alemão, mas era iugoslavo, austríaco, sei lá. Mas falava alemão. Ele falou “Vou fazer uma brincadeira”. A cachorra conhecia o cara. A cachorra conhecia ele, né. E o velho saiu. E tinha um barril de chops, né. Ele passou, passou a mãe no barril de chops, pôs nas costas e saiu. A cachorra viu. Mas como era conhecido, ela ficou... Ficou quieta, né. Quando ele chegou, quando ele voltou pro bar, ele perguntou “Neide, wo ist das Fass?” Fass é barril. Ela levantou e pss! Na esquina, na rua da... Como é que chama a rua? Num sei. Faz tanto tempo... A rua principal aqui de São Caetano.


Pergunta: Piauí?


Resposta: Não, aqui a...


Pergunta E Pergunta: Goiás?


Resposta: A rua Goiás! A rua Goiás não era dupla. Era uma vai e vem, né. Na esquina da rua Goiás a cachorra alcançou ele, pôs a pata no peito dele. O véio chegou lá, olhou “É, você pegou o barril?” Ele falou: “Eu quis experimentar a cachorra”. E olha, ele não levou o barril, não! Só quis experimentar, mas assim não levou, não. A cachorra era ensinada. Era muito ensinada.


Pergunta: Seu Pilo, e a escola? O senhor entrou na escola aos seis anos [de idade].


Resposta: Quase sete, né. Eu tinha quase sete anos. Que ali fizeram uma coisa que... Eu tava sozinho. Eu e uma tia minha que é mais nova do que eu um ano. Eu tenho uma tia mais nova do que eu um ano, né. Ficava pra lá e pra cá dentro de casa, já tinha a idade mais ou menos de começar a estudar. Conversaram com o diretor lá, o presidente, o Herr Linhart era o presidente. Conversaram com ele, tal e coisa. “Ah, traz ele aí”. E depois puseram lá com a Frau Hanna, né. Frau Hanna, que ensinava o primeiro ano.


Pergunta: Frau quer dizer senhora? Esse Frau é senhora?


Resposta: É senhora. Senhora Hanna.


Pergunta: Herr Linhart era diretor, presidente da escola?


Resposta: Era o presidente da escola.


Pergunta: E o Johannes Keller, que que ele era?


Resposta: Hm?


Pergunta: O Johannes Keller era o quê?


Resposta: Johannes Keller era o dono da escola.

Pergunta: Ele não trabalhava, ele só era proprietário?


Resposta: Não. Ele era proprietário só.


Pergunta: E ele tinha as relações com essas outras associações de escola alemã de São Paulo?


Resposta: É. Ele que...


Pergunta: Só era, esses dois professores, O Linhart e a...?


Resposta: Não. Tinha a Frau Hanna, tinha o Herr Sommer, ele que ensinou eu no segundo ano, Herr Sommer. E tinha o...


Pergunta: Arno Sommer. Esse Herr Sommer era o Arno Sommer?


Resposta: Arno Sommer. conhece o nome do Arno Sommer. Eu não lembro mais...


Pergunta: É que a gente já ouviu...


Resposta: E tinha um outro... Hm?


Pergunta: A gente já estudou um pouquinho dessa escola com os documentos.


Resposta: Ah! E tinha um outro que eu não lembro o nome, a turma dizia “Um é Sommer, o outro é Winter!” Um é verão, outro é inverno. É Winter. [risos] Então tratava ele como inverno, né. Não falava o nome dele certo, né. E tinha os outros professores que eu não lembro bem o nome deles...


Pergunta: São muitos?


Resposta: Do quarto e quinto ano. Não lembro o nome, né.


Pergunta: A escola era paga?


Resposta: Paga. Pagava, pagava pra sustentar a escola, né.


Pergunta: E era difícil pagar essa escola ou não?


Resposta: Não, não era muito difícil, não.


Pergunta: Seus pais, que se separaram, e quem dava dinheiro pra pagar a escola?


Resposta: Minha mãe.


Pergunta: Com o serviço dela.


Resposta: Com o serviço dela.


Pergunta: Seu pai não, não...


Resposta: Não.


Pergunta: E a Frau Hanna era brava?


Resposta: Não. Era boazinha. Muito boazinha. Ela gostava de mim quando era pra cantar. Pra cantar ela gostava de mim porque ela dizia “Sua voz é A!” A letra A, porque a letra A era a melhor letra, a melhor pontuação alemã.


Pergunta: E o que o senhor cantava pra Frau Hanna?


Resposta: Ah, o que ela pedia.


Pergunta: O senhor se lembra? Duma musiquinha dessa época?


Resposta: Não lembro mais, não.

Pergunta: E qual foi a professora que veio da Alemanha e foi embora?


Resposta: Não lembro o nome dela.


Pergunta: E por que que ela veio e foi embora?


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul