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Lucia Vezzá

Lúcia Vezzá participou do grupo de teatro do clube Panelinha e foi presidente da Federação Andreense de Teatro Amador - Feanta. Imagem do Depoente
Nome:Lucia Vezzá
Nascimento:12/05/1933
Gênero:Feminino
Profissão:advogada
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Santo André (SP)

Transcrição do Depoimento de Lucia Vezza em 29/07/2003
Depoimento de LÚCIA VEZZÁ, 70 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 29 de julho de 2003.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Vilma Lemos e Daniela Macedo da Silva.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

 

Pergunta:

Dona Lúcia, onde a senhora nasceu?

 

Resposta:

Em Santo André.

 

Pergunta:

Conta um pouco da infância, como eram, naquela época, as brincadeiras?

 

Resposta:

Era uma cidade bem simples, uma cidade do interior. Embora a gente estivesse tão próximo a São Paulo, a gente tinha uma vida de interior, mas com a possibilidade de ter todos os benefícios que a capital oferecia, porque a gente tinha a facilidade do trem que ligava Santo André a São Paulo e era um meio de locomoção barato e acessível, tanto que fiz o ginásio em São Paulo, porque naquele tempo nós tínhamos um colégio que era pago e dado a minha família ser grande, não dava para pagar para todos, então eu fui para São Paulo, estudei em São Paulo, e o meu irmão no Mackenzie, que já era pago, era de um outro nível, mas a gente tinha todas as distrações, tudo o que uma capital tem para oferecer a gente podia usufruir e usufruía, porque eu ia de trem e voltava, não tinha problema. Como eu era de uma família de muitos homens, um pouco mais da minha idade, eu era protegida, porque eu tinha uns quatro, cinco primos, mais um irmão e só eu de mulher, naquela faixa. Então eu ia, acompanhava-os em tudo, em todos os bailinhos, tudo eu estava junto. Então foi uma infância feliz, sem preocupação nenhuma, embora as dificuldades existissem para quem deve prover a família. Perdi o pai muito cedo, mas a gente continuou do mesmo jeito. Cada um persistiu, tanto que todos, praticamente todos, aqueles que realmente queriam, estudaram, se formaram e era essa a vida simples e sem nenhum problema. A gente não tinha muito problema material, embora a gente soubesse de todas as dificuldades. Mas a gente não precisava participar, era outra coisa. Pai e mãe sempre defendiam de tudo. É isso.

 

Pergunta:

Vocês eram em quantos irmãos?

 

Resposta:

Nós éramos seis.

 

Pergunta:

Como era o relacionamento pai, mãe, trabalho do pai?

 

Resposta:

Meu pai era construtor. Ele que provia tudo para nós todos. Eu era a terceira. Noreta e Nelo eram acima e mais Ivone e Lóis, abaixo. Então dois para cima, três para baixo e eu no meio, praticamente no meio. Mas o relacionamento era muito bom, família de italiano, não sei se você sabe como é, todo mundo cantava, todo mundo falava junto e meu pai participava. Você imagina que meu pai improvisava uma espécie de um banjo, um violão pequeno e ele não tocava nada, mas ficava cantando com a gente. Nós cantávamos música brasileira e italiana e ele cantava músicas brasileiras. A música dele era O rancho fundo. Ele cantava todo dia O rancho fundo. Não sei se você conhece, e ele participava. Quando tinha carnaval, que a gente saía na rua, ele ia de moto na frente abrindo caminho para nós passarmos de caminhão. No carnaval, nós íamos aos bailes de Ribeirão Pires, nós íamos aos bailes do Rhodia, em grupo, e ele ia na frente, na defesa, e se alguém mexesse com a gente, ele brigava. Eu acho que era uma família feliz.

 

Pergunta:

Na adolescência, além do carnaval, como era o relacionamento dentro da família e as possibilidades de lazer, de diversão?

 

Resposta:

Lazer. Eu fui uma pessoa privilegiada, porque na minha casa foi criado um grupo, chamava-se Panelinha, existe ainda hoje, isso foi fruto da minha casa, os rapazes... Como eu disse, era uma turma de rapazes, e eles foram abrigados lá em casa e lá se reuniam. A primeira casa dentre o grupo que tinha uma televisão foi a minha, então eles iam assistir televisão, jogos, todos juntos e de lá, aquela amizade toda, eles formaram o clube Pan Wd, que existe até hoje. Eles eram, se eu não me engano, oito rapazes, de 15, 16, 17 anos, com interesses comuns, de faculdade, de terminar um colegial, essa coisa toda, e em todos os lugares que existiam festas, eles promoviam, foram se reunindo e em todos os lugares que houvesse festa, eles estavam presentes, levavam as namoradinhas e a gente tinha um convívio muito bom, porque eram famílias que se conheciam, os pais, os tios, os avós eram da família desses rapazes. E daí surgiu o Panelinha, que é esse clube, que até hoje existe. Eu continuo, já fui presidente, aliás a primeira mulher presidente do Panelinha, porque o Panelinha era um clube de homens apenas. Só eles é que tomavam conta. E lá continuo, sou tesoureira do clube, e a gente continua um pouco desativado, porque hoje o aspecto social é complicado, o clube fica muito caro para ser mantido, mas eles continuam se reunindo.

 

Pergunta:

A senhora mencionou a televisão. Essa família que tinha televisão em casa, tem algum episódio memorável da história, do homem, da humanidade, que tenha sido presenciado na televisão? Algo marcante? Como foi isso?

 

Resposta:

Eu não me lembro, mas a gente participou de tudo o que a televisão podia oferecer, inclusiva aquela historia do televizinho, porque ficava cheio de gente para assistir. Eu não me lembro de datas, eu sou péssima para datas, tanto que anotei para ter a lembrança exata do que eu queria, mas, nesse período da televisão, a televisão tem quantos anos agora? Uns sessenta, setenta anos? Não, não, eu era mocinha, acho uns que sessenta, cinqüenta e poucos. Então, nesse tempo todo tudo o que ocorreu a gente teve, se não imagens fortes como hoje a gente tem mil recursos, mas o máximo de imagens que a gente usufruiu.

 

Pergunta:

Nesse convívio com muitos jovens dentro da sua casa, como é essa coisa de casamento, namoro, paquera?

 

Resposta:

Eu casei muito nova. Eu casei com dezessete anos, e a gente continuou participando de todas as atividades do clube. O forte na minha vida sempre foi o Panelinha, ele está presente em tudo. Eu hoje tenho setenta anos e estou ainda envolvida com o Panelinha, para você imaginar o que era. Todas as atividades continuaram, só a partir do momento que eu comecei a ter filhos, quatro, um em seguida do outro, as coisas já me afastaram um pouco, mas tão logo eles puderam participar, eles entraram na participação, eu deixei de ser eu sozinha para ser o meu marido que era do clube também, não era fundador, mas era assíduo, participava de tudo, era associado e tinha atividades, porque cada um tinha uma atividade, e a partir daí passamos a ter umas atividades com as crianças lá dentro do clube. Paquera, eu acho que eu, eu me casei praticamente com o primeiro namorado, porque era só olhar. Eu só me lembro uma coisa importante, nessa história de namoro, porque a gente era bem presa, bem tolhida, e eu me lembro que uma vez nós estávamos em uma solenidade de aniversário da cidade e Octaviano Gaiarsa, meu tio por parte do meu marido, era o presidente dos festejos. Então nós fomos na véspera do festejo de Santo André colar bandeirinha, para enfeitar a cidade, bandeirinha igual a bandeirinha de São João, que hoje ainda existe, e isso era feito com os recursos que tinha. Bateu onze horas e a gente lá nas bandeirinhas. Meu pai chegou para me buscar, porque eu só tinha horário até dez horas e estava lá às onze horas e do centro da cidade onde fica a rua dos bancos, que é a Senador Fláquer, até onde eu morava, que é Rua Primeiro de Maio, eu vim levando um caçarote assim na cabeça, porque não obedeci o horário que era para estar em casa, ou seja, às dez horas é não às onze. Eu na frente e ele atrás, cada pouquinho com o cascudo na cabeça. Isso apenas para você ter uma idéia do que era. Então, hoje é um negócio totalmente diverso.

 

Pergunta:

Dona Lúcia, ainda na sua infância, a senhora é de família italiana. Como foi ser de família italiana em Santo André, na época da guerra? Sua avó parece que falava italiano ainda?

 

Resposta:

Não. Minha mãe é que falava com a gente. A gente falava tudo misturado, mas eu lembro de coisas assim, por exemplo, de ficar na fila do pão, isso era uma coisa que marcou, porque não tinha farinha, porque a farinha vinha de fora e a gente comia broa de milho, então para pegar pão a gente ficava na fila desde quatro horas da manhã, cada dia um, era uma tortura, todo mundo queria comer pão, mas não queria ficar na fila. Então, são coisas assim que eu me lembro. Meu pai era um homem fachista, fachista mesmo. Ele achava que era, e a gente também não entendia. Era assim. Para ele Mussolini era um Deus da terra, e dada às dificuldades, que eram imigrantes que vieram ao Brasil. Minha mãe era uma pessoa maravilhosa, sempre dizia assim que a terra dela era o Brasil, porque a terra onde os filhos dela tinham nascido só podia ser a terra dela. Era uma pessoa assim, ela tinha mais cultura que ele, ela era enfermeira lá na Itália, e ela tinha um nível melhor do que ele. Mas eles se queriam muito bem e eu acho que ela passou todo aquele amor que ela tinha para esta terra. Ela não se considerava italiana, ela se considerava brasileira, ela fazia coisas maravilhosas, basta dizer que ela veio para casar com meu pai, aqui ela se casou por procuração, ela veio sozinha para casar com ele aqui. Ele veio imigrante, mandou chamá-la e ela, atrevida do jeito que era, apaixonada, ela veio embora. A mãe dela, quando ela tomou o avião, dizia assim para ela: Vou rezar o tempo todo para que você volte. E minha mãe voltou, já casada e com filhos depois de muitos anos.

 

Pergunta:

A senhora tem alguma lembrança sobre se havia restrição para falar a língua italiana?

 

Resposta:

Tinha, tinha sim, mas a gente falava dentro de casa, mas tinha sim restrição.

 

Pergunta:

A senhora sabe de alguém que sofreu por causa disso?

 

Resposta:

Houve um incidente, eu não me lembro quem foi, mas houve um incidente. É a tal da história, você lembra de coisas. Por exemplo, a polícia tinha toda a liberdade de entrar nas casas, então eu me lembro de uma ocasião que meu pai escondeu um distintivo, distintivo de fachista na caixinha de luz, porque alguém denunciou que tinha alguma coisa. E quando ele morreu, ele morreu muito jovem, foi um acidente de moto e o desejo dele era morrer, ser enterrado com a camisa preta, chama camisanera e uma amiga nossa pediu para todo mundo sair da sala e a minha mãe deu a camisa para ela, Noêmia Assumpção, é um nome bastante conhecido e fez parte da minha vida, e ela então enfiou por dentro da roupa assim uma camisa e foi o jeito que minha mãe achou que estava fazendo o último desejo dele. O último desejo dele.

 

Pergunta:

Em que ano foi isso?

 

Resposta:

Aí é que está. Eu não tenho idéia, não me lembro, mas eu já tinha a Márcia pequenininha quando ele faleceu. Ele morreu muito jovem, eu já tinha a Márcia, que é a mais velha.

 

Pergunta:

Voltando para o lazer, Panelinha etc. E cinema? Havia essa possibilidade? Ia-se ao cinema? Com quem? Sozinha? Como?

 

Resposta:

Havia. A gente tinha também uma turma de amigos. O cinema era gente muito conhecida. Eu conhecia o Giane, que era o porteiro do cinema, eu estava sempre no cinema, menos na sessão do amendoim, que era a sessão dos homens, porque naquela não podia ir mulher. Eu entrava, esperava a luz apagar e o Giane falava: Pode entrar, pode entrar! E a gente entrava e assistia a todos os filmes que o Cine Carlos Gomes oferecia para a gente, porque se fosse para pagar, eu não poderia realmente, mas eu não pagava.

 

Pergunta:

Quais eram os filmes a que vocês iam assistir?

 

Resposta:

Tudo o que aparecesse, mas eu me lembro que eu era apaixonada por Adriana Darney. Acho que é assim que a gente fala. Não sei se vocês lembram de atrizes assim. Era linda, maravilhosa, então eu queria ser igual a ela. Deixava o cabelo assim crescidinho, tentava fazer tudo aquilo que eu via, que parecia, até os gestos, tentava copiar porque eu achava que era meu ídolo, era assim que eu queria ser.

 

Pergunta:

Vocês iam no cine Tangará também ou era muito difícil?

 

Resposta:

Não, porque era mais tarde o Tangará. O Tangará eu já freqüentei menos, mas se tivesse acesso... Eu sempre morei no centro da cidade. Eu nasci na Rua Campos Sales, que continua sendo Rua Campo Sales, mas a igreja era o local de contato, tinha o Padre Mario, Padre Florenti, que eram padres italianos que almoçavam e jantavam lá em casa. Havia muito contato dos padres com a família da gente, então a gente tinha assim liberdade também de entrar e sair na igreja.

 

Pergunta:

E quando esses padres iam jantar, participar com vocês, a senhora lembra o que eles conversavam? Como era?

 

Resposta:

Cantavam com a gente. Cantavam com a gente, a gente ria, era só bobagem, nada de repressão, de qualquer coisa, eram pessoas normais iguais a gente.

 

Pergunta:

E do rádio, ficou alguma memória na sua história?

 

 

Resposta:

Não, para mim não muito.

 

Pergunta:

Nem na família?

 

Resposta:

Não. Ele existia, mas eu me lembro assim muito mais que eu era uma pessoa que gostava de ler muito. Eu lia muito, então já ficava um pouco excluída, mas vivia, assim eu tive possibilidade de sair mais de casa, porque, perto da minha idade, eram muitos rapazes, então participava de tudo o que aparecia. Eu até ajudava a jogar futebol, quando faltava alguém, eu ficava no lugar. O que precisasse, e eles geralmente gostavam de me empurrar no gol, essa coisa toda que eles corriam mais. Mas até isso para mim não foi difícil. As coisas não eram difíceis porque eu tinha companhia e eu não outras moças que pudessem me fazer concorrência. Eu me sentia um espetáculo. Eu tinha bastante acesso com todos eles, então era muito bom.

 

Pergunta:

E atividade política?

 

Resposta:

Não me interessei muito assim nada.

 

Pergunta:

Vamos falar um pouquinho de trabalho, profissão, a formação profissional, como foi?

 

Resposta:

Eu estudei, fiz faculdade na Fundação e depois de casada eu passei a fazer faculdade de direito. Eu fiz a Fundação, eu morava de bem próximo da escola Júlio de Mesquita, então o diretor, senhor Damasceno, passava e me via ali na porta com as crianças, tinha um pequeno jardim, uma grade e eu ficava ali com as crianças, ele parava para conversar comigo: Que criança linda! Isso e aquilo, aquelas coisas normais, então: A senhora trabalha? Claro que eu trabalho, na minha casa. E ele falou: Não! Ele perguntou se eu gostaria de trabalhar na escola, porque eu já havia falado para ele que era professora, que tinha me formado professora, mas eu não lecionava. Aí ele me ofereceu um lugar e eu me lembro que eu comecei a trabalhar, isso não sai da minha cabeça, porque é forte para mim, porque eu comecei a trabalhar em agosto na escola dando aula e todo mês eu encontrava com o senhor Damasceno, sempre, e dizia assim: Senhor Damasceno, eu só não recebo, o resto eu consigo fazer tudo. E passei a receber. Meu primeiro salário chegou em dezembro e foi usado no Natal, evidente, para todas as meninas, para as crianças. Então isso ficou. E quem me fez o decreto de nomeação, que antigamente era assim, não precisava concurso, foi o Ademar de Barros. São coisas que a gente guarda. Hoje é tão complicado para concurso, isso e aquilo, e aquilo era tão fácil, e eu falei: Mas como é que faz? Quando eu perguntei para o senhor Damasceno se era para lecionar, ele falou: Deixa para mim. Eu faço tudo. E eu comecei a lecionar e não parei, me aposentei como professora, também como advogada.

 

Pergunta:

Em que área a senhora lecionava?

 

Resposta:

Eu dava ciências. Ciências físicas e naturais no ginásio, depois comecei a dar aula em cursos de aprendizado, à noite, mas sempre lá no Júlio Mesquita e, posteriormente, quando eu me formei como advogada, no Galeão, no Galeão Carvalhal. Depois em cursos de secretariado, direito, no ramo do direito. Deixei de dar aula de ciências para abraçar o direito, e era em cursos técnicos, cursos de secretariado.

 

Pergunta:

Onde a senhora fez faculdade?

 

Resposta:

Eu fiz no Vale do Paraíba. Em São José dos Campos.

 

Pergunta:

A senhora mencionou que tinha facilidade, quando mais jovem, de ir para São Paulo, de trem. Como era essa viagem de Santo André a São Paulo?

 

Resposta:

Os trens eram maravilhosos. Tinha os bancos de palhinha francesa ou inglesa e aquele tecido que cobre o encosto era de linho. A gente tomava o trem faltando quinze minutos para as sete e ia até o Parque Dom Pedro. Quer dizer ele parava no Brás, e quando tinha dinheiro tomava o bonde para ir até o Parque Dom Pedro, onde ficava o Roosevelt, que é lá que eu estudei. E quando não tinha dinheiro, a gente ia a pé, de bonde ou a pé, dependendo, mas a gente tinha passe mensal para o trem, então não tinha problema; a partir do momento que você tinha o passe, você ia e voltava tranqüilo de trem. E o trem era assim, cadeira cativa, tinha vagão inteirinho de estudante, um guardava lugar para o outro, era tranqüilo.

 

Pergunta:

Mais tarde, quando a senhora já era profissional como professora e advogada, como era a vida da mulher que trabalhava, cuidava dos filhos, administrava a casa? Como era a vida da mulher nessa época, relacionando trabalho e família?

 

Resposta:

Eu não tenho assim nenhum parâmetro, porque eu me casei cedo, me separei muito cedo também, eu tinha 28 anos, eu toquei meu barco ali firme e assim tendo que trabalhar e estudar, mas tive muita ajuda dos meus irmãos, da minha mãe. Não era ajuda monetária, essa eu provia, mas para tocar a casa. Eu tinha uma irmã, Ivone, que ficou bastante tempo cuidando delas. Uma ia para a escola de manhã, eu ia para a escola de manha; ela estudava à tarde, então ela ia à tarde. Até um irmão meu, que faleceu, à noite ficava lá em casa, quando eu tinha aula no noturno, pois dava aula à noite. Então a gente foi indo, foi indo, até que cada um organizou sua vida.

 

Pergunta:

Na época que a senhora se separou, a senhora sentia alguma diferença da sociedade?

 

Resposta:

Era terrível. Era terrível, porque mulher separada não prestava, era terrível. Minha mãe ficou evitando as coisas, ela ficou um ano sem sair de casa, porque não é que as pessoas segregavam, elas olhavam de forma depreciativa, então minha mãe ficou um ano sem sair de casa, fiquei com muita pena dela, mas não tinha o que fazer. E eu me lembro de outra coisa que me marcou muito também, que as meninas estudavam no colégio das freiras e as freiras me pediram que tirasse as crianças da escola. Assim com muita delicadeza, muita sutileza e eu fui embora, adeus.

 

Pergunta:

Elas justificaram?

 

Resposta:

Não, nem precisou; a gente entendia. A gente entendia.

 

Pergunta:

E qual foi sua atitude depois disso?

 

Resposta:

Simplesmente eu tirei as tirei da escola e pronto. Elas foram para os colégios do Estado, estudaram no Américo, e tinha até uma tia lá, freira lá dentro do colégio, que era irmã do tio Otaviano. E ela também deve ter sofrido, porque ela era impotente para essa situação. A ordem deveria vir de cima, mas tudo terminou bem.

 

Pergunta:

Isso era uma coisa comum no colégio das freiras?

 

Resposta:

Eu acho. Não é que não fosse comum a separação, era muito difícil, eram atitudes assim. Eu não sei se eu era voluntariosa, mas eu achei que era a única coisa, era minha única saída, eu não tinha outra. Chegou um momento que a gente se via encurralada, então ou você vai ou você desiste. Então eu fui e toquei o barco. Era muito difícil, porque inclusive foi assim muito comentada a coisa, porque era aquilo que é no inicio. Depois as pessoas começaram, com o tempo, a se libertar e se impor e cada um foi tratar da sua vida e outras separações surgiram. Mas no tempo em que eu me separei era assim uma coisa inusitada e você fica um foco da coisa.

 

Pergunta:

Queria que a senhora comentasse do teatro.

 

Resposta:

A gente foi muito unido, eu e meus irmãos, unidos, então, desde a fundação do Panelinha, a gente estava sempre envolvida, então, a partir do momento que eu tinha mais tempo para ficar com as crianças, porque eu não tinha marido, eu tinha me separado, então eram mais as dificuldades de tocar a vida. O clube era o nosso lazer. Havia assim uma área de terreno que era da minha família e essa área, a partir do momento que meu pai morreu, precisou ser vendida, porque a gente precisava de dinheiro. Havia uma terra pegada que era do meu tio, houve uma doação para o clube e o clube foi podendo comprar a área, que eu nem tinha isso como herança, mas eu me lembro que era da Ivone, do meu irmão caçula, e essa área foi se incorporando e a gente foi construindo. A gente tinha o carnaval do Panelinha, aquelas brigas com o Ocara, porque faziam todas aquelas atividades, todo mundo queria ganhar o primeiro lugar, reuniam-se grupos, depois a coisa foi crescendo, passou a ser escola de samba, que não era escola de samba como é hoje, mas a gente vivia no clube, a gente vivia ali. A gente tinha que dar uma destinação, uma parte social maior, então surgiu o teatro como uma tentativa de aproximar os sócios, a parte social, fora baile ou jantar, que pudéssemos organizar, então a gente passou a desenvolver atividade teatral amadora. Teve alguns espetáculos teatrais, em São Paulo, no clube, não me lembro o nome do clube, não me recordo, e a gente começou a atividade teatral ali no clube. Começou com espetáculos mais singelos, simples, Pluft, o fantasminha, depois Três em lua de mel, coisas assim que eram suaves e fomos melhorando. Isso foi em 1967, que eu comecei a participar desses espetáculos, lá mesmo, para a platéia dos sócios do clube, mas a coisa foi tomando um vulto e a gente foi começando a participar dos festivais que apareciam. O teatro do Panelinha era um grupo familiar, todo mundo participava, criança da família, adulto da família e era aquela turminha sempre. Então a gente começou a participar dos festivais, se entusiasmou, fazíamos às vezes dois, até às vezes três espetáculos durante o ano, e íamos trazendo gente também de fora, embora eu acho que houve um pouquinho até de segregação, que o Panelinha era mais panelinha. É um nome, nunca vi um clube ter um nome tão adequado como o Panelinha que é panelinha, até hoje é assim. Em 1967, a gente começou a se interessar por teatro e começou a participar e a fazer atividades teatrais, foi ali que a coisa começou. E em 1968, eu não digo que havia grupos querendo se suplantar, havia assim uma disputa teatral, os grupos cada vez mais exigindo assim um apoio, surgiu então a Federação de Teatro aqui na região, no ABC. E a Federação era a CET, não sei se vou explicar direitinho; a CET era a Comissão Estadual de Teatro, e ela subvencionava cursos e festivais. Em 1968, havia uma certa disputa entre os grupos e o presidente da FIANTA, que já tinha sido criada em 1967, e a gente surgiu com uma chapa, uma terceira chapa para a presidência da FIANTA. Essa terceira chapa era eu, que era do clube Panelinha, que era um clube que havia implantado recentemente as atividades teatrais e eu não sei por que eu fui eleita. Na verdade eu não sei por que eu fui eleita, porque a gente começou a fazer o espetáculo, a começar a fazer teatro e de repente eu era eleita presidente da Federação. Eu nem fiz trabalho nenhum, mas a coisa foi assim. Eu tive que participar ativamente, porque a gente, inclusive, participou da seleção dos locais para que se realizasse o festival e nós ganhamos a participação, quem iria; o teatro, o festival seria a sede do festival, desse sexto festival de teatro, deveria ser em Santo André e a gente se propôs a organizar o alojamento e o local onde esses grupos iriam se apresentar. Era assim uma coisa muito importante, porque em Santo André, recentemente, o teatro da cidade estava se articulando e tinha um teatro maravilhoso, que era o teatro do Paço Municipal de Santo André, era o teatro com maiores recursos até do que todos os teatros de São Paulo. A gente tinha que fazer bonito, então a gente arregaçou as mangas e saiu para organizar o espetáculo. Conseguimos, na época o Secretário da Educação ou Diretor era Müller de Paiva, que, em conversa, nos prometeu a reforma do Conchita de Morais, onde deveriam se realizar os espetáculos, nos prometeu que o teatro estaria pronto, porque o Teatro Municipal era um teatro já para espetáculos não-amadores, mas os grupos estavam assim encantados e todos se esforçando, porque um dos prêmios ao vencedor do festival seria apresentação no Teatro Municipal. Isso era a glória para qualquer amador, se apresentar onde a Bibi Ferreira pisou era uma coisa de outro mundo, então era um empenho muito grande. E nós ficávamos nas tratativas, entre a CET, que fornecia a parte material, dinheiro para tudo que fosse necessário, mas isso era muito complicado, a prestação de contas era um negócio bem complicado, e a gente ficou batalhando e nós estávamos quase a vinte dias do teatro, da abertura do espetáculo do festival, e o Müller então me veio com a notícia de que a Casa da Esperança, que era o local que a gente tinha no nosso relatório como sendo o local em que seriam abrigados, alojados todos os grupos teatrais, ele disse que havia não havia esse consenso da Secretária, então dona Lair Lacerda, porque ela achava que o grupo de pessoal de teatro não era um pessoal confiável e ordeiro. Ela até falou que o pessoal não era ordeiro e nem confiável. Nós levamos a notícia ao presidente da COTAESP. A COTAESP para vocês entenderem era o órgão que englobava as Federações. As Federações na ocasião eram no estado de São Paulo, eu acredito, em vinte. Tinha a Federação de Santos, da Capital, de Bauru, Presidente Prudente, e os festivais eram feitos sorteando-se uma das cidades, daquelas que se ofereciam para suportar, para fazer esse festival. A coisa ficou muito complicada e eu liguei, conversei com o Carlos, que era o presidente da COTAESP, que reunia as Federações e nós fomos à Cacilda Becker e conversamos, dissemos:

- Festivais

 Olha, ele o Conchita diz que sai, porque está pronto, mas a Casa da Esperança não cede para abrigar o pessoal de teatro. O pessoal de teatro não era bem visto, era meio baderneiro e então ela disse: Não, absolutamente. Ou é tudo ou é nada, então vamos procurar uma outra cidade da jurisdição, de Santo André, da jurisdição da FIANTA. Aí fomos para São Bernardo, marcamos um encontro, fomos lá, e tivemos uma acolhida maravilhosa do prefeito Egídio de Lima, que chamou um arquiteto e um engenheiro na nossa frente, estava Carlos Pinto, Cacilda e eu, e eu com os grandes, no meio dos grandes, e ele transformou um auditório no Teatro Cacilda Becker, que é de São Bernardo, com os recursos que ele tinha, mas o festival foi maravilhoso e eu só não consigo me lembrar se foi Santos ou a Capital que foi a vencedora desse festival. Mas, dentre os grupos selecionados para se apresentar no festival, nós tínhamos grupos de São Caetano, Santo André, São Bernardo, grupos bons, o Regina Fatti, fez um bom trabalho teatral e o Panelinha também se apresentou. Não vencemos a seleção interna da jurisdição, mas o espetáculo que nós apresentamos era um espetáculo de jovens em que havia canto e interpretação. Isso estava muito em moda, que eram aqueles espetáculos Arena canta Zumbi, aqueles espetáculos de protesto. O nosso não era de protesto, era um musical, era assim a vida dos adolescentes, eu arrumei uns alunos meus do Júlio de Mesquita que tocavam, então eles fizeram todas as letras e as músicas desse espetáculo. Cacilda gostou demais do espetáculo. Nós abrimos o festival, or concur, com essa turminha nossa. Márcia participou. Você imagina que minha filha tinha que estar lá, a vaidade da mãe fica... Eles se apresentaram e ela gostou demais, então ela pediu que a gente apresentasse na abertura do festival esse espetáculo, ela esteve na abertura, assistiu, parabenizou a filha, porque disse que a filha tinha futuro, essa coisa toda, e a gente fica envaidecida, é evidente. O que mais que eu posso dizer? E aí ficamos tocando aquela FIANTA por dois anos e nesse tempo tivemos oportunidade de trazer, através da CET, cursos que foram dados. Jonas Bloch veio para fazer um curso com os recursos que a CET nos dava, o Roberto Vinhatti, a Ivonete Vieira, a Milene Pacheco. Então, eram cursos de oratória, outro curso de respiração, impostação, tudo; a gente batalhou para que tivesse tudo isso. E nesse momento já a Fundação das Artes estava-se criando, tanto que a Noreta foi para a Fundação, Márcia, minha filha tinha quinze anos, foi para a Fundação. Até precisei pedir autorização da diretoria porque não tinha aluno para os cursos de teatro com menos de dezoito anos, e ela tinha quinze anos, eu precisei ir lá, conversar, pedir, autorização para que ela fizesse o curso. Então, a partir desse momento, que o Panelinha começou um a ir para um lado, o outro a se integrar em outro grupo, porque até algumas pessoas do nosso grupo passaram para o grupo do Maciel, que é outra pessoa que batalhou demais para o teatro, então o Panelinha de teatro foi se diluindo, porque cada um se interessou por um outro setor e aquele teatro praticamente foi desaparecendo.

 

Pergunta:

A senhora chegou a participar do começo do CPC, Centro Popular de Cultura?

 

Resposta:

Não me recordo.

 

Pergunta:

Nesses festivais, como era a receptividade do público? Quem ia, como reagia?

 

Resposta:

O público participava, eram mais jovens, a não ser as pessoas que estavam, família de quem estava apresentando que prestigiava porque fazia parte da família, então era mais público jovem. Era de universitário ou um público de colegial, de uma faixa de idade maior e era uma atividade de lazer, porque eu acho que os grupos foram se formando pelo interesse de se agrupar que os jovens têm, porque a vida dos jovens é viver em conjunto e também porque isso os ocupava, trazia prazer e não despendia muito; acho que por isso eles se reuniam. E a coisa começou a ir a socialmente, houve problemas, começou também problema com censura, essa coisa toda. A gente não se preocupou, porque nós nunca montamos um espetáculo, nada que tivesse problemas com censura. Os espetáculos eram singelos e a gente já fazia uma pré-alteração sem envolver, mas existia um policiamento nos textos e a gente tinha que aguardar a censura dar o aval; muitas vezes a gente mudava para a censura e depois na hora quando levava o espetáculo, levava o espetáculo do jeito que a gente queria, e que a censura tinha criado, umas coisas pequenas, algumas coisas eram tão bobagens que a gente não podia acreditar como aquilo poderia ser censurado, porque era bobagem.

 

Pergunta:

Vocês não tinham censores na platéia, alguma coisa desse tipo?

 

Resposta:

Não, se tivesse a gente nem se dava conta. Eu não me lembro de ter na platéia, porque a censura para liberar o espetáculo para a gente poder levar, ela vinha ao local onde o ensaio geral acontecia e então a gente fazia já, se achava alguma coisa, a gente já mudava ali, mas na hora a gente fazia do jeito que a gente sempre fez. E nunca houve assim um troco para isso, não: O espetáculo de vocês é proibido. Para nós não. E não me lembro de nada assim da Federação. Lembro do grupo do Antonino Assumpção, de lá de São Bernardo, que eles estavam fazendo uma linha de Arena canta Zumbi, essa coisa, eles tiveram um pouco de problema, mas não na minha gestão. Não me lembro se do Paschoalino ou do Antonino Assumpção. Eles tiveram, não digo problemas. Nós amadores fazíamos isso, nós apresentávamos do jeito que eles queriam para eles; no ensaio geral, o censor aparecia, geralmente era uma mulher, ela vinha, fazia as observações, a gente apresentava no mesmo dia o espetáculo com as observações, mas quando a gente apresentava o espetáculo nos locais, nos teatros, a gente fazia do jeito que a gente tinha em mente.

 

Pergunta:

Ela fazia observações no texto e depois ela participava?

 

Resposta:

Ela fazia observações no texto e a gente fazia. Por exemplo, um ator vai ter que tirar isso daí, então o ator fazia o pedacinho tirando.

 

Pergunta:

A senhora disse que às vezes eram umas bobagens. A senhora tem lembrança que tipo de bobagem era censurada?

 

Resposta:

Não tenho nada no momento para te dizer, não me vem à lembrança, mas eram coisas tão insignificantes.

 

Pergunta:

Não dava nem para relacionar o porquê de eles estarem censurando?

 

Resposta:

Não, sempre alguma coisa política, sempre política, nada, nada além disso.

 

Pergunta:

Qual a reação dos familiares em relação à sua participação nas peças e no teatro? Seus filhos gostavam?

 

Resposta:

Nada. Adoravam, ficavam ali, iam na platéia, batiam palma, queriam subir no palco, queriam representar. E eles queriam fazer, todos, talvez mais a Márcia, o Marcelo, os mais atirados, os mais afoitos, tanto que a gente fazia um teatrinho no clube também para eles. Foi a primeira vez que a gente fez um espetáculo, por exemplo, Pluft, o fantasminha, com criança, porque era feito o Pluft, mas com adulto, então a gente fazia com criança; depois fazia Romanofe e Julieta com adolescente. À medida em que eles iam crescendo, a gente ia adaptando teatros, peças, a gente procurava, pesquisava. Tinha mais pequenas coleções de textos teatrais na CET e a gente ia buscar, tinha espetáculo, eles tinham um material muito bom, é uma pena que isso tenha terminado, mas eles tinham um material muito bom, a gente ficava pedindo lá na CET, a gente conseguia curso. A gente tinha uma verba para cursos, a gente ia participar em cidade fora, eles davam uma verba para manter toda essa despesa, um prêmio. Eu mesma fui com uns grupos para Presidente Prudente, Santos, São Carlos. Eu percorria com eles também. Participava, eles se apresentavam. Eles vinham para cá, nós íamos para lá; havia esse intercâmbio.

 

Pergunta:

Como foi repartir a vida de uma mulher, separada, trabalhadora, estudante, mãe, diretora, coordenadora de tantos eventos? Como foi que a senhora foi uma mulher trabalhadora nesse período?

 

Resposta:

Eu tive muita ajuda, eu tive irmãos e irmãs e eu tenho assim uma verdadeira admiração e um carinho muito especial por um irmão meu que morreu e minha irmã Ivone, abaixo de mim, e minha irmã mais velha, sempre que eu não podia tinha alguém pronto para ficar no meu lugar. Então eu dizia: Eu preciso ir em tal lugar. Eu tenho que fazer isso. Alguém estava presente lá em casa. Eu só tenho que agradecer a Deus, que tudo o que eu tive foi assim, nem sei se eu mereço tudo.

 

Pergunta:

Em relação ao grupo de teatro, teve dificuldade para montar cenário, figurino?

 

Resposta:

Nós fazíamos tudo. Quando não conseguíamos fazer, saíamos a campo também procurando, pedindo, e a gente fazia cenário, iluminação, trocava também, era muito bom. A gente competia só no festival, de resto a gente tinha assim atores de outros grupos quando a gente precisava de um e a gente tinha uma ajuda. Era uma competição só no momento do festival, como era a competição no carnaval entre o Panelinha e Ocara, que era assim uma briga. Eu quero ser vencedora. Eu quero ganhar. Eu vou ganhar. Então a gente fazia qualquer negócio. Não tinha horário, a gente ficava até três, quatro horas da manhã, às seis horas levantava para trabalhar. Era amor mesmo.

 

Pergunta:

Patrocínio vocês nunca tiveram?

 

Resposta:

Não, por ser um clube, que era o Panelinha, o clube dava um lanche para a turma toda, dava uma verba. Nós precisamos comprar isso, aquilo. E eles estavam presentes, porque era muito bom para o clube, projetava o nome do clube. E era muito gostoso, então todo mundo queria participar, ir aos ensaios, aparecia sempre um monte de gente e era uma distração para os associados do clube. E eles também ajudavam, se fosse preciso, com cenário que tinha que pôr pano, pintar, pregar prego e subir em uma escada para iluminar, spot, a gente corria atrás de quem tinha poder, quem podia ajudar e o pessoal do clube tinha gente com poder aquisitivo que podia suprir essas coisas, então a gente tinha todo o material razoável para espetáculo teatral. Não eram grandes montagens, fazíamos sempre montagens que a gente pudesse suportar o ônus, ninguém se metia a fazer como em Hollywood, coisas que eram espetáculos que exigiam uma produção muito grande. Era tudo muito tranqüilo, mas havia muito empenho.

 

Pergunta:

Para terminar, o que a senhora gostaria de deixar registrado no seu depoimento para os jovens e futuras gerações sobre a sua experiência de vida?

 

Resposta:

Eu acho que os jovens estão no caminho certo hoje. Eu acho assim magnífico, não tenho amigos velhos, me casei de novo, tenho um marido que tem oitenta e um anos, mas ele, assim como eu, também adora jovens. Eu acho que eles estão certos. Eu só lamento algumas coisas em que eles acabam se envolvendo e que a gente não tinha. Nosso pensamento era outro e hoje eles têm tantas possibilidades de demonstrarem uma capacidade de levar esse mundo de um jeito bem melhor do que a gente está vendo aí, porque a gente está em uma situação terrível, mundial, eu acho que a globalização não foi uma coisa boa. Eu faço muitas reservas à globalização, porque está muito difícil pegar as rédeas da coisa agora. Mas eu acho que eles estão batalhando, está tudo muito difícil para eles e eu acho que eles têm que se unir e lutar para que eles sejam valorizados, porque eu vejo uma dificuldade tão grande de eles arrumarem um lugar ao sol, é uma batalha muito grande, que não foi a minha batalha, a minha batalha foi outra, mas eu tive oferta de emprego, eu prestei concurso e passei, foram na porta de casa me chamar para dar aula, na minha casa assim, no murinho da casa, como eu comentei, então eu acho muito difícil isso para o jovem, eu acho que ele tem que batalhar muito para vencer isso e eu sei que eles são capazes, eu tenho certeza, eu confio neles. Confio nos meus filhos, confio nos meus netos, tenho certeza que vão conseguir mudar isso, essa insegurança, essa falta de ideal, porque eles não têm, eles não têm futuro. Eu tinha futuro, embora tivesse toda essa dificuldade, eu tinha futuro, eu ia chegar lá, eu vou chegar lá, eu sempre fiz isso para chegar lá. Então eu tenho certeza que eles farão isso, mas eu acho que ele precisam se unir mais e pensar que realmente eles são capazes.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul