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Cleide Breda

Cleide Breda sempre morou em São Bernardo do Campo. Atuou como atriz no Grupo Cênico Regina Pacis. Imagem do Depoente
Nome:Cleide Breda
Nascimento:24/03/1957
Gênero:Feminino
Profissão:Bancária / Atriz
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Bernardo do Campo (SP)

Transcrição do depoimento de Cleide Breda em 05/07/2005
Depoimento de CLEIDE BREDA, 48 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 05 de julho de 2005.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Herom Vargas e Eduardo Chaves.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta: Por favor, comece pela data e local de seu nascimento.

 

Resposta:

Em 24 de março de 1957, em São Bernardo do Campo.

 

Pergunta: Em qual barro?

 

Resposta:

Bairro Assunção.

 

Pergunta: O que você lembra da sua família, dos seus pais, em que eles trabalhavam?

 

Resposta:

A minha mãe trabalhava em casa e meu pai trabalhava numa fábrica de móveis. Eu lembro muito pouco do meu pai porque ele faleceu cedo. Lembro que ele colocava a mim e minha irmã, quando ele chegava do emprego, em cima de uma árvore. E da minha mãe lembro que ela sempre comandou a casa, cuidou de nós. Lembro da casa antiga onde a gente morou, uma casa enorme, com três rios. Não lembro do tamanho dos rios, mas eram três rios. E a minha mãe contava que tinha. Depois a gente mudou para o centro de São Bernardo.

 

Pergunta: Você ficou pouco tempo naquela casa?

 

Resposta:

Pouco tempo, até meus 2 anos. Depois nós mudamos para outra. Lembro de mim na porta da casa e só isso, e da vista.

 

Pergunta: Quando vocês mudaram para lá seu pai ainda era vivo?

 

Resposta:

Era vivo. Ele faleceu quando eu tinha três anos.

 

Pergunta: Como foi a vida da sua mãe, cuidando dos filhos?

 

Resposta:

Foi difícil. Eu não sei exatamente a dificuldade que ela tinha, mas ela falava que meu pai era sócio de uma fábrica e uma vez por ano eles recebiam os lucros dessa fábrica. Então, praticamente minha mãe tinha esse dinheiro e o dinheiro da aposentadoria do meu pai. Ela falava que costurava para a gente, toda roupa ela fazia para nós, para meus irmãos, para todos nós. A comida, às vezes ela falava que tinha dia que não tinha nada e aí chegava um tio com alguma coisa, um irmão dela, que ajudava. Mesmo na escola, a gente não participava de muita coisa. É que naquela época não tinha muita coisa para participar, mas pelo menos tinha uma festinha ou outra que a gente não participava. Mas foi bem. Para mim foi tranqüilo. A gente não sentiu tanto isso. Só percebia que não era fácil, mas a gente se divertia. Era gostoso.

 

Pergunta: Vocês foram morar no centro. Como era o centro de São Bernardo?

 

Resposta:

Eu lembro que a gente só ia à missa, não tinha outro lugar para ir. Era difícil. Você às vezes saía, mas ia à casa de outro parente, dos avós, geralmente de domingo, e a gente ia a pé. A gente ia reclamando até, mas a gente ia a pé. A minha avó morava no Bairro Assunção, perto de onde a gente nasceu. Depois a gente ia à missa, todo domingo, e era pertinho de casa. Tinha, onde é a Avenida Faria Lima, um rio, que era aberto. São Bernardo tem aquela avenida e o rio passa por baixo. Naquela época era aberto, de vez em quando dava enchentes porque o rio transbordava, e era perto da nossa casa. A gente morava na Rua Terezinha Setti, onde é a Cooperativa da Rhodia agora. Ali enchia bastante.

 

Pergunta: Entrava na casa de vocês?

 

Resposta:

Não. Poucas vezes entrou. Na época entrou umas três ou quatro vezes, mas bem baixinha a água. Nunca encheu de água. Lembro da igreja, que era aonde a gente ia. Tinha uma pastelaria, onde a gente saía e ia comer pastel às vezes, não sempre, de vez em quando. A gente ia comer pastel raramente. A gente voltava da missa, comprava um pastel e ia para casa. Do centro só lembro da igreja, poucas ruas, não tinha a Avenida Faria Lima ainda. Tinha um caminho apenas para entrar na Marechal, que era a Américo Brasiliense.

 

Pergunta: E as brincadeiras?

 

Resposta:

A gente brincava de esconde-esconde, de peteca, de correr.

 

Pergunta: Vocês faziam as petecas?

 

Resposta:

Fazíamos de pano. Queimada também. Andar de bicicleta, a gente não tinha, mas a gente brincava com a bicicleta do amigo e da amiga. Aprendemos a andar de bicicleta, tanto que era do pai dela, porque tinha um cano no meio e a gente aprendeu a andar de lado. Era gostoso. Estávamos sempre eu, minha irmã Rênia e meu irmão mais novo. A gente brincava assim.

 

Pergunta: Foram quantos filhos que seus pais tiveram?

 

Resposta:

São cinco mulheres e um homem, seis irmãos. Dava para brincar bastante. As minhas irmãs mais velhas trabalhavam, eu e a Vilma ficávamos em casa e ajudávamos minha mãe. A gente só podia sair depois de arrumar a casa, ajeitar tudo. Aí que a gente podia brincar um pouco. Não brincava demais porque minha mãe não deixava muito. Era comandante.

 

Pergunta: Ela era brava?

 

Resposta:

A gente achava, mas era assim. É que talvez não dava para a gente ficar brincando muito, porque a gente só pensava em brincar. Ela não deixava só brincar. Ela segurava as rédeas.

 

Pergunta: Tinha muitos amigos na região?

 

Resposta:

Eram duas amigas que a gente brincava bastante e tinha em outra rua, mas geralmente era com essas duas que a gente brincava mais.

 

Pergunta: E a escola, como foi?

 

Resposta:

Quando eu estava com 7 anos, entramos no Iracema Munhoz, que é próximo à nossa casa. Já fomos logo para o primeiro ano. Não sei se naquela época tinha o pré, mas já fomos logo para o primeiro ano.

 

Pergunta: E como era a sala de aula, como eram as carteiras, os professores?

 

Resposta:

Lembro da professora, dona Helena. A gente gostava muito dela. Eu e a Vilma ficamos na mesma classe, então a gente não se sentia muito perdida. E a sala era grande, a carteira era daquelas de levantar. Não era cadeira, como é hoje em dia. Era carteira e aqui tinha o banco atrás, tudo grudado, uma coisa só.

 

Pergunta: A carteira era presa no banco?

 

Resposta:

Era tudo preso. Não saía do lugar.

 

Pergunta: Você tinha medo de ir para a escola?

 

Resposta:

No começo tinha um pouco de medo, porque a gente nunca tinha ido numa escola e senti muito medo. Mas depois a gente vai acostumando, brincando e conhecendo mais e se sente mais à vontade. Mas no começo eu tinha medo.

 

Pergunta: E a questão do uniforme?

 

Resposta:

Era saia azul, blusinha branca e tinha gravatinha. Conforme você ia passando de ano, aumentava. No primeiro ano tinha uma fitinha branca na gravata azul, no segundo ano tinha a segunda fitinha. Ia colocando. Depois que parou de ter uniforme, mas no começo era assim.

 

Pergunta: Vocês compravam os uniformes?

 

Resposta:
Não sei se minha mãe fazia ou se comprava os uniformes. Lembro que o sapato que a gente tinha eu não gostava. Era um sapato de verlon, tipo Melissa, de plástico, e eu queria um sapato colegial que era de amarrar, parecia couro, tinha uma risquinha no meio. A gente queria esse, mas a minha mãe comprava o de verlon porque não tinha dinheiro para aquele. Era a única coisa que eu não gostava no uniforme.

 

Pergunta: Você tinha aula de artes?

 

Resposta:

Tinha aula de música. A professora ensinava música, mas foi mais à frente, não logo que entrei na escola. Acho que na quinta série. Mas eu não tinha artes, só português, matemática.

 

Pergunta: Literatura?

 

Resposta:

Acho que na quinta série tinha literatura, porque aí começou a dividir as matérias. Na época era só português, matemática, geografia, história, uma mesma professora que dava todas as matérias. Na quinta série que mudou, que seria o primeiro ginasial, e que dividiram as matérias.

 

Pergunta: Você lia muito?

 

Resposta:

Lia mais ou menos. Depois que comecei a trabalhar que passei a ler bastante, mas não lia muito. Nunca fui de ler.

 

Pergunta: Com quantos anos?

 

Resposta:

Eu já tinha uns 16 anos ou um pouco antes. A minha irmã começou a trabalhar antes e ela levava revistas e livros e eu lia bastante. A gente até tinha livros em casa. Eu dava só uma olhadinha e não lia.

 

Pergunta: Você se lembra dos títulos?

 

Resposta:

Tinha Clássicos da Literatura Juvenil, que adorava ler.  A cada 15 dias chegava o livro e não via a hora de ler. É o que mais lembro. Do resto, eu lia qualquer coisa, revista, jornal. O que tinha eu ia lendo. O que chegava, que dava para ler durante o serviço, eu ia lendo. Qualquer revista, fotonovela, aqueles livrinhos de bolso. Só não gostava de ler coisas de terror. Gibizinho também, qualquer coisa.

 

Pergunta: Na sua casa tinha rádio?

 

Resposta:

Tinha.

 

Pergunta: Você ouvia rádio?

 

Resposta:

Muito pouco. Teve uma época que tinha rádio e teve época que não tinha, porque acho que quebrou e não consertou. Quando consertava a gente ouvia, mas não ouvia muito.

 

Pergunta: E televisão?

 

Resposta:

Lembro de assistir com um pouco mais de idade, quando tinha o Nacional Kid, aqueles programas que a gente gostava de assistir. Tinha novela, minha mãe assistia. A gente sentava e assistia todo mundo junto. Lembro dessa época. Teve uma época que não sei se a TV quebrou, porque quando meu pai era vivo, tinha tudo em casa e depois que ele faleceu, minhas irmãs contam que o que tinha ficou e depois foi quebrando e a gente tinha mais dificuldade em arrumar. Mas, normalmente a gente assistia. Lembro de desenhos, que tinha Poppye na época.

 

Pergunta: Quando você começou a trabalhar?

 

Resposta:

Com 16 anos, numa banca de jornal, que era ali no centro de São Bernardo mesmo. Tinha um vizinho nosso, o Sr. Assunção, que ofereceu o emprego e estava precisando de meninas e fomos trabalhar nessa banca. Era gostoso trabalhar lá. Foi lá que comecei a ler bastante. A Vilma e a Hilda começaram a trabalhar antes, as minhas irmãs, e elas levavam, mas quando comecei a trabalhar eu lia bastante.

 

Pergunta: Você trabalhando e suas irmãs também começaram a ficar mais fora de casa, vocês começaram a sair, a ir ao cinema?

 

Resposta:

De vez em quando a gente ia, não com freqüência. Hoje em dia a gente vai bastante, mas naquela época a gente não ia sempre. Numa ocasião ou outra.

 

Pergunta: Em quais cinemas?

 

Resposta:

Tinha o Cine São Bernardo, o Cine Anchieta. O Cine São Bernardo é onde tem o bingo, na Marechal, atualmente. O Cine Anchieta era onde tem a Pernambucanas hoje, também na Marechal. Depois surgiu o Havaí, que era lá no Conjunto Anchieta. A gente também ia lá.

 

Pergunta: Em Santo André, São Caetano, vocês iam?

 

Resposta:

Tinha um que ficava perto da (Rua) Campos Sales. Esqueci o nome.

 

Pergunta: Como eram as salas de exibição?

 

Resposta:

Grandes, bem grandes, enormes. Não sei quantos cabiam, mas bem grandes perto dos de agora. Acho que umas três vezes mais, dependendo do cinema.

 

Pergunta: Você foi ao Tangará?

 

Resposta:

Fui. Tinha o Cine Vitória, em São Caetano, que também ia. Tinha outro em Santo André que não lembro.

 

Pergunta: E as produções que vocês iam assistir eram como?

 

Resposta:

Assisti Dio Come Ti Amo. Adorei, achei uma gracinha. Agora, assisti a um monte, mas não lembro.

 

Pergunta: Você acha que a sua ida para o teatro, mais à frente, se deveu um pouco aos filmes que você assistia?

 

Resposta:

Acho que não influenciou, mas eu achava bonito a pessoa fazer, representar. Pelo menos fazia o que queria. Eu gostava muito.

 

Pergunta: As sessões de cinema eram à tarde?

 

Resposta:

A gente sempre ia à tarde. Minha mãe também não deixava ir à noite.

 

Pergunta: Você ia com sua irmã?

 

Resposta:

Eu, minha irmã, uma outra amiga. Geralmente éramos nos três e depois tinha alguma amiga de escola que acompanhava.

 

Pergunta: E a condução? Pegavam ônibus?

 

Resposta:

Sempre de ônibus, ou a pé. Em São Bernardo a gente ia a pé ou de ônibus quando a gente ia ao Conjunto Anchieta, que era no final da Marechal e demorava uns vinte minutos, a gente não pegava ônibus, mas ia a pé.

 

Pergunta: A questão de ser perigoso voltar mais tarde existia?

 

Resposta:

Eu acho que não. Não lembro que falava com tanta freqüência. A minha mãe não deixava a gente sair à noite talvez por causa disso, mas para mim, eu não sentia medo. Eu achava que podia ir à noite sem problemas, mas ela não deixava. Eu não tinha esse medo.

 

Pergunta: E a paquera, o namoro?

 

Resposta:

Geralmente a gente paquerava na escola mesmo. Para namorar mesmo, namorei umas duas pessoas só antes do meu marido. Mas a gente paquerava bastante. A gente ia a bailinhos de sábado à noite na casa de algum amigo.

 

Pergunta: Tinha em clubes?

 

Resposta:

A Associação tinha, de vez em quando a gente ia e no Clube da Volkswagen, que a gente ia também.

 

Pergunta: Qual era a Associação?

 

Resposta:

Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo. A gente ia de vez em quando. Tinha bailes das dez às quatro.

 

Pergunta: Como eram esses bailes?

 

Resposta:

Tinha bastante gente, vários tipos de músicas, e a gente dançava. Eu adorava dançar. Acho uma delícia.

 

Pergunta: Que tipos de música?

 

Resposta:

Sempre gostei de samba, adoro dançar bolero e de rock também gosto. Mesmo que não saiba, eu danço também.

 

Pergunta: E como apareceu o teatro?

 

Resposta:

A minha irmã já fazia. Em uma ocasião a gente falou que queríamos fazer, aí o Sr. Assunção falou para a gente ir ao grupo dele. Nós fomos. Eu comecei a fazer e achei que foi ótimo para mim, porque me soltei um pouco mais. Eu era bem tímida e me soltei um pouco mais e achei que deu para pelo menos conversar um pouco sem ficar tão vermelha. Eu sou o tipo de pessoa que com qualquer coisa fica vermelha, dependendo da situação.

 

Pergunta: As três irmãs são atrizes?

 

Resposta:

Somos. Acho que é alguma coisa que a gente tem, um gene, alguma coisa que não sei te explicar.

 

Pergunta: Enquanto vocês faziam teatro, vocês trabalhavam?

 

Resposta:

Sim.

 

Pergunta: Trabalhavam e estudavam?

 

Resposta:

Trabalhávamos e estudávamos.

 

Pergunta:

Como eram os ensaios, como era o grupo?

 

Resposta:

Era bastante gente. Tinha umas 25 a 30 pessoas, não sei exatamente. Era o Grupo Cênico Regina Paces. Na época, nós começamos, a primeira peça que fiz, eu não falava nada, só cantávamos e dançávamos um pouco. Eu adorava fazer, porque era divertido. Era super gostoso. Antes de você entrar em cena o pessoal se reunia, contávamos piadas. Depois do espetáculo a gente sempre saía para comer alguma coisinha. Era muito gostoso. Bem light. A gente se encontrava lá e passávamos umas horinhas boas. Os ensaios eram gostosos. Geralmente era de sábado e domingo, porque o pessoal trabalhava e estudava de noite e a gente ensaiava de sábado e domingo. Quando tinha estréia da peça, nós ensaiávamos à tarde também, para poder dar conta.

 

Pergunta: E você fazia algum tipo de trabalho fora do grupo, se apresentava em lugares diferentes ou fazia só teatro mesmo?

 

Resposta:

Só teatro. Não fazia nada a parte.

 

Pergunta: Você comentou que desfilava, não é?

 

Resposta:

Uma amiga do grupo convidou a gente para desfilar com as roupas de uma loja. Era uma associação de secretárias e essa associação tinha um chá da tarde, alguma coisa que eles davam para as secretárias e eles pegavam e, para entreter o pessoal, chamaram eu e minha irmã para desfilar. Eu adorava.

 

Pergunta: Que loja era?

 

Resposta:

Não sei. Mas era gostoso, porque era um monte de roupa bonita. Você desfilava com a roupa, se trocava. Era rapidinho, mas era muito bom.

 

Pergunta: Isso foi com quantos anos?

 

Resposta:

Acho que com 19, 20 anos.

 

Pergunta: Com quantos anos você entrou no Regina Paces?

 

Resposta:

Eu entrei, preciso fazer as contas, com uns 18, 20 anos. Acho que nessa época eu tinha uns 21 anos, quando desfilei.

 

Pergunta: Os ensaios eram em dias de semana também?

 

Resposta:

Não sempre. Normalmente era de sábados e domingos ou feriados. Quando estava para estrear a peça, que precisava dar um pique maior, porque às vezes você não gravava o texto, porque você ficava uma semana sem ensaiar e você esquece, então a gente ficava da parte da tarde até umas dez horas da noite ensaiando para pegar o ritmo. Tem de pegar o ritmo.

 

Pergunta: Vocês produziam os cenários?

 

Resposta:

Sim. Cenários e figurinos. Uma pessoa que não quisesse participar como atriz ou ator, ficava com a parte do cenário. A pessoa ia atrás. Normalmente o figurino tinha uma pessoa. Geralmente eram sempre as mesmas que estavam ali e iam atrás de figurino, iam atrás de costureiras, levavam a gente na costureira para experimentar a roupa. Ou a gente aproveitava um figurino que já tinha sido usado e refazia.

 

Pergunta: E os textos, quem escolhia?

 

Resposta:

Geralmente era o diretor, quem ia dirigir, que lia um ou dois textos para nós, quando já tinham lido vários, e separava uns três ou quatro para a gente ler para ver o que seria o escolhido para ser encenado.

 

Pergunta: Você fazia que tipos de papéis? Era variado?

 

Resposta:

Sempre fui boazinha. Nunca fiz de pessoa ruim. Eu até queria fazer, mas o pessoal nunca me dava. Só davam de pessoas boazinhas. Então, era geralmente assim. Dá a impressão que não representa muito. Agora, uma pessoa que tem um papel mais forte, você tem de usar mais seu talento. Aí era difícil e nunca pegava. Para mim que era muito delicada, o pessoal não dava esses papéis.

 

Pergunta: Vocês faziam peças de humor?

 

Resposta:

Sim. Era uma delícia fazer peças de humor. Eu adorava, era o que eu mais gostava. Drama nunca foi muito o meu jeito. Até hoje para assistir a uma peça, a minha irmã Hilda sempre reclama que eu só gosto de assistir comédia, uma peça light e ela, de vez em quando, gosta de assistir alguma coisa mais dramática, um drama forte. Eu já não gosto, mas sempre gostei de comédia.

 

Pergunta: Você estudou teatro?

 

Resposta:

Não. Fiz cursos à parte. Mesmo quando a gente ia apresentar, começar a ensaiar uma peça, a gente sempre fazia uma oficina para desenvolver um pouco mais.

 

Pergunta: Alguns personagens ou espetáculos mais românticos marcaram você?

 

Resposta:

Não que marcou para mim, mas que eu gostava de fazer era Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera. Eu adorava fazer papel assim. Enchia, a platéia sempre tinha muita gente assistindo. Essa eu gostava de apresentar.

 

Pergunta: E como vocês divulgavam?

 

Resposta:

A gente tinha gráficas que faziam filipetas e a gente distribuía em escolas, onde a gente pudesse ir, às vezes em saídas de outros teatros, para divulgar. Eram essas pessoas, ou escolas ou pessoal de teatro. Onde tinha uma saidinha, a gente ia às vezes.

 

Pergunta: E nos bairros?

 

Resposta:

Não. Geralmente tinha pessoas conhecidas nossas, que a gente divulgava para eles poderem assistir. Eu morava no centro e a gente distribuía perto das escolas do centro, dependendo de onde ia ser o espetáculo. Se fosse no Cacilda Becker, a gente distribuía próximo às escolas do centro para poder a pessoa vir, porque é fácil. Se fosse em teatros como o Abílio Pereira de Almeida, que é lá no Baeta, a gente ia às escolas de lá e distribuía, ou uma semana antes do espetáculo, porque a pessoa está próxima e é mais fácil de ir. Tinha o teatro no Taboão, que esqueci o nome, a gente ia lá e distribuía nas escolas.

 

Pergunta: Você não é da época do salão paroquial?

 

Resposta:

Eu fiz uma ou duas só lá. Naquela época, o grupo começou no salão paroquial, mas ele depois foi se desenvolvendo e nós ganhamos um local na Marechal, que foi quando eu entrei. A gente chamava de teatro sótão, que foi quando comecei a fazer. No salão paroquial eu fiz algumas vezes apresentação da Paixão de Cristo, alguma coisa de natal. Era teatro ou dentro de escolas. Em EMEIs, que a gente fazia muitas peças infantis, a gente ia direto apresentar.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Se o espetáculo tivesse sido vendido, porque teve época que a Prefeitura comprava o espetáculo e a gente se apresentava nas EMEIs e teve época que não comprava. A gente divulgava e vendia. Mas não era um preço muito alto. Se fosse hoje, seriam uns três reais. E com a filipeta paga um ou dois reais, a metade do preço do ingresso. Dependia de como era, mas nada muito alto.

 

Pergunta: Como era feita a construção dos personagens? Era só decorar o texto?

 

Resposta:

Nós decorávamos. Se a gente não conseguisse pegar o personagem, o diretor fazia uma oficina com a gente para a gente conseguir chegar lá. Se tivesse de gritar muito, dependendo do texto, ele ia fazer exercícios com você para que você chegasse a gritar como era necessário. Ele ia usar outras formas para você conseguir fazer como ele queria. Você tinha um trabalho em cima do ator.

 

Pergunta: Vocês se sentiam bem com esse trabalho ou tinha coisa que vocês não gostavam?

Resposta:

Tinha coisas que não gostava de fazer.

 

Pergunta: Por exemplo?

 

Resposta:

Quando ele fazia você conhecer as pessoas. Você tinha de passar a mão no rosto das pessoas, conhecer através da mão. Esse tipo de coisa não gostava muito, mas dependendo da situação, prendia a pessoa para você conseguir gritar, então era legal, porque você gritava mesmo. Mas, dependendo da situação, era ruim.

 

Pergunta: Você disse que a peça que você mais gostou foi Toda Donzela Tem Um Pai Que é Uma Fera. Por que essa peça? Por que era o personagem principal? Você sempre pegava personagens principais?

 

Resposta:

Não. Esse, por coincidência foi. Mas alguns que peguei, uns quatro ou cinco, que não eram os personagens principais, mas o título, então eu era a donzela nesse. Teve A Sereia de Prata, que também fiz a sereia, A Bruxinha Que Era Boa, esses eu peguei, mas eu gostava porque me divertia. Você se sente bem e eu gostava. Também fiz com o meu marido.

 

Pergunta: Você conheceu seu marido no teatro?

 

Resposta:

Nesse grupo de teatro.

 

Pergunta: Qual o nome do seu marido?

 

Resposta:
José Luiz do Prado.

 

Pergunta: É ator?

 

Resposta:

Um ótimo ator, excelente. Não só eu que achava.

 

Pergunta: Vocês sofreram algum tipo de repressão nos espetáculos?

 

Resposta:

Na época que entrei, não. Até cheguei a encenar Liberdade, Liberdade, que era peça que gostava muito porque o texto era muito bom e tinha músicas muito bonitas. Era gostoso. Tinha uma pessoa que tocava violão, música ao vivo. Era muito gostoso. Nessa época já não teve problema. Tinha censura. Eles tinham de assistir, ver a idade das pessoas para assistir, mas não teve problema de impedimento de espetáculo.

 

Pergunta: E como a sociedade via, você sentiu-se rejeitada, as pessoas olharem de lado porque fazia teatro?

 

Resposta:

Eu não percebi. Eu acho que ninguém olhou de lado, mas também não posso garantir. Eu não percebia nada disso. Eu sempre fui um pouco avoada, então, se as pessoas fazem alguma coisa, eu não percebo.

 

Pergunta: Quem mais era atriz? Vocês tinham, porque a imagem da atriz nessa época era uma coisa não vista com bons olhos. Vocês fizeram teatro porque gostavam mesmo do teatro?

 

Resposta:

Exatamente. Eu não sei se alguém olhava torto. Mas eu acho que não.

 

Pergunta: Você teve filhos?

 

Resposta:

Tive uma filha, que já está com 18 anos.

 

Pergunta: E você trabalhava no teatro ainda?

 

Resposta:

Quando engravidei, parei de fazer. Estava com três meses e meio e parei. Quando ela tinha 3 anos, ela ficou, falou que queria fazer, aí entrei outra vez junto com ela. Aí a gente chegou a fazer peças infantis, uma peça adulta, Mulheres, que ela também entrava um pouco. Só que assim, com 3 anos de vez em quando ela entrava em cena, de vez em quando não. Mas eu voltei porque ela quis fazer. Eu fiz mais uns 4 anos. Aí ela continuou.

 

Pergunta: E dava para compartilhar o trabalho, ser mãe, teatro?

 

Resposta:

Com certeza. Meu marido sempre gostou, eu também, e ela adorava ir lá. Ela se sente em casa, porque pai e mãe estão lá, onde a gente fosse ela ia junto. Ela gostava muito.

 

Pergunta: Conte como foi quando vocês descobriram que você estava grávida.

 

Resposta:

Eu estava fazendo uma peça. Eu já era casada há 6 anos, não tomava remédio para evitar, não fazia nada e também não controlava a menstruação, não era ligada nessas coisas. Quando fui descobrir, via que as roupas estavam apertadas, a barriga estava crescendo, mas eu achava que não ia ficar grávida. Eu fui descobrir com três meses e meio, que comecei a achar que a barriga estava muito grande. Aí fui ao médico e ele garantiu que era gravidez, aí que fiz o teste e deu mesmo. Mas até aí achava que não era.

 

Pergunta: O figurino não entrava?

 

Resposta:

Ficava bem apertado. Aqui na cintura, porque eu usava uma saia bem justa em cima e larga embaixo, não fechava.

 

Pergunta: Aí você descobriu que estava grávida?

 

Resposta:

Aí que senti. Eu não percebia porque não sentia nada. Eu achava que não era.

 

Pergunta: E o teatro amador?

 

Resposta:

Eu participei de pouco. Participei uma vez em Diadema, uma vez em Tatuí e mais uma ou duas vezes. Era gostoso e eu gostava de participar. Ia com o grupo e era gostoso ficar com o grupo, porque era uma família. A gente se sentia bem. Era gostoso. Você passava a tarde, ensaiava e depois dormia em alojamentos e no dia seguinte apresentava. Eu encarava dessa forma, eu gostava.

 

Pergunta: E a sua participação no Cenarte?

 

Resposta:

Trabalhei uns dois anos e meio, três anos. Participei com meu marido, profissionalmente, e nós apresentamos A Árvore que Andava. Era um espetáculo infantil e fazíamos apresentações de final de semana. Era de sábado e domingo. Era em São Paulo, em Santos, no ABC, Santo André.

 

Pergunta: O que era o Cenarte?

 

Resposta:

Era um teatro que já fechou agora, mas ficava na Treze de Maio, em São Paulo.

 

Pergunta: Era um grupo, uma escola de teatro?

 

Resposta:

Não sei falar se era escola. Era uma casa de espetáculos e depois tinha essa companhia Cenarte, mas não sei explicar se era escola. Acho que não era escola. Montavam espetáculos profissionalmente.

 

Pergunta: E como aconteceu o convite para trabalhar nessa companhia?

 

Resposta:

Nós tivemos uma temporada com a peça Porandubas Populares, nesse teatro mesmo. O dono de lá que convidou eu e meu marido para fazermos parte do pessoal do espetáculo infantil. Na época eu não fazia apresentação como atriz, mas eu fazia a iluminação dessa peça.

 

Pergunta: Fez outras coisas no teatro?

 

Resposta:

Fiz iluminação, sonoplastia e como atriz.

 

Pergunta: E mais recentemente, nos anos 70 e 80, você trabalhava também?

 

Resposta:

Trabalhava no Banespa.

 

Pergunta: Fazia o quê?

 

Resposta:

Era escriturária, caixa.

 

Pergunta: E vocês nunca pensaram em pedir patrocínio ao Banespa?

 

Resposta:

Não. Como nós tínhamos amigos que comandavam mais o grupo, eles iam atrás de patrocinadores e geralmente conseguiam com as pessoas que eles tinham contato. A gente acabou nunca pedindo. Não lembro de eles terem pedido para a gente ver no Banespa.

 

Pergunta: Havia pessoas que comandavam o grupo. As decisões não eram partilhadas?

 

Resposta:

Eram partilhadas. Eles até falavam de ver se o Cacetari financiava as filipetas. A gente não se preocupava com isso. Eu não. Tinha o pessoal que era diretor, porque o grupo sempre teve eleição, então tinha diretor, presidente, tesoureiro, então, era esse pessoal que ia atrás e comandava. Tem de ter alguém para tocar.

 

Pergunta: Os textos eram escolhidos assim?

 

Resposta:

Os textos... Eram lidos vários textos e ficavam dois ou três textos que eles já tinham lido e a gente lia em grupo e decidíamos qual deles iríamos apresentar. Ou, dependendo do diretor, ele já falava que ia apresentar tal texto. Para nós estava ótimo.

 

Pergunta: Esses diretores eram sempre no ABC?

 

Resposta:

Sim. Lembro quando a gente se apresentava em Diadema, o diretor era o Ulisses Cruz. Mas não lembro qual era o grupo de teatro dele. Lembro dele.

 

Pergunta: E em Santo André você nunca ouviu falar no GTC, no Teatro de Alumínio, na Fundação das Artes?

 

Resposta:

Do GTC não. Da Fundação das Artes sim. A gente chegou a se apresentar lá com um espetáculo, mas eu não me lembro de mais detalhes.

 

Pergunta: Você se lembra de algum trecho dos espetáculos, das palavras?

 

Resposta:

Do Liberdade, Liberdade eu só lembro de um trecho. No final a gente falava: Aprendi a te dizer e te conhecer com Liberdade. Era super lindo e me arrepio ao pensar nele, mas não lembro.

 

Pergunta: Você entrou na faculdade quando?

 

Resposta:

Em 1978, na faculdade de jornalismo, na Metodista.

 

Pergunta: Não chegou a trabalhar na área?

 

Resposta:

Não. Só fiz o estágio e só.

 

Pergunta: Onde?

 

Resposta:

Tinha o Jornal Rudge Ramos, da própria faculdade. Na época era o jornal da faculdade.

 

Pergunta: Lembra dos professores, das aulas?

 

Resposta:

Nos dois primeiros anos não gostei muito. Gostei mais do terceiro e quarto anos, porque as aulas eram mais ativas. A gente entrava mais, apresentava. Tinha o estúdio de fotografia, de rádio e TV. Essa época foi gostosa e me lembro de um professor, Armando Azarre. Tinha a mulher dele, mas não lembro o nome. Tinha um monte de professores.

 

Pergunta: Você já era casada?

 

Resposta:

Já era casada. Eu terminei em 1981 e eu casei no último ano.

 

Pergunta: Vocês encenavam peças de teatro na faculdade?

 

Resposta:

Não foi bem uma montagem, mas levamos uma peça à Metodista. Nós apresentamos O Estranho Procedimento.

 

Pergunta: Por quanto tempo você trabalhou como atriz?

 

Resposta:

Eu trabalhei de 1976 até 1986, direto, e depois eu voltei por mais quatro anos.

 

Pergunta: E aqui no IMES vocês apresentaram?

 

Resposta:

Não me lembro. Parece que eu vim uma vez, mas não lembro se vim assistir. Não lembro.

 

Pergunta: Como última pergunta, a gente costuma pedir para o entrevistado deixar uma mensagem para os espectadores do futuro, sobre a sua vida, alguma coisa que você ache importante deixar registrado.

 

Resposta:

Eu gostei muito de fazer teatro, achei ótimo. Para mim, fez eu me desenvolver bastante porque eu era bastante tímida. E eu conheci meu marido, uma pessoa excelente. Eu acho que foi super bom para mim por esses dois motivos. Minha filha também fez teatro. Para mim, eu consegui crescer como pessoa, consegui me desenvolver mais e foi ótimo. Era uma época muito boa porque a gente se divertia muito e era muito gostoso. Eu gostava de fazer personagens que talvez eu nunca pudesse ser na vida real. Achava isso excelente.

 

Pergunta: Você tem saudades dessa época?

 

Resposta:

Saudade de representar, mas agora também está bom.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul