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Lídia Zózima Sampaio

Teatro no ABC. Imagem do Depoente
Nome:Lídia Zózima Sampaio
Nascimento:04/04/1957
Gênero:Feminino
Profissão:professora / atriz
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Caetano do Sul (SP)

Transcrição do depoimento de Lidia Zozimo Sampaio em 06/07/2005
 

Depoimento de LÍDIA ZÓZIMA SAMPAIO, 48 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 06 de julho de 2005.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Herom Vargas e Eduardo Chaves.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta: Por favor comece pela data e o local de seu nascimento.

 

Resposta:

Nasci no dia 4 de abril de 1957, em São Caetano do Sul, na Beneficência Portuguesa.

 

Pergunta: E como eram seus pais, irmãos, a família?

 

Resposta:

Meus familiares são todos estrangeiros. Vieram do Paraguai, meu pai, minha mãe veio do Mato Grosso do Sul, mas também da área do Paraguai e eles vieram e buscaram como lugar para morar São Caetano, no Bairro Prosperidade.

 

Pergunta: Quando eles vieram?

 

Resposta:

Não tenho idéia de quando eles chegaram, mas por volta de 1955.

 

Pergunta: Qual o motivo da vinda deles para cá?

 

Resposta:

Meu pai era um revolucionário. Hoje em dia posso falar porque ele já faleceu e não tenho o que dizer das questões políticas que ele vivenciou, mas foram bastante difíceis para ele. Era uma pessoa extremamente sensível, mas que viveu o militarismo de uma maneira bastante intensiva, porque não tinha outra opção. Ele se formou como tenente muito jovem, com 20 anos. Ele cuidava de tropas, de toda aquela problemática da Bolívia e do Paraguai, as questões da Guerra do Tchaco, alguma coisa assim. Ele me falava muito superficialmente porque ele era um preso político que fugiu e veio se exilar no Brasil. Na época ele quis trocar de nome, mas a questão foi que ele pôde se adequar perfeitamente sem precisar disso. Toda documentação dele não era realmente regular. Era como se ele tivesse nascido de novo. Ele acabou encontrando minha mãe, uma pessoa simples. Ela era filha de indígena e negro, a coisa do cafuzo, e eles resolveram ficar junto, casaram e estou aqui. Minha mãe já tinha uma filha e era muito complicado, na época, ter filhos que não fosse do próprio casamento. E tudo isso era muito complicado. Qualquer questão moral, questão de pai e mãe, questão de família, é muito complicado de falar. Hoje em dia a gente fala abertamente, mas naquele período minha mãe era considerada uma mulher vulgar, ela não tinha muita saída, era muito servil em todos os aspectos, e ela ficava com um medo danado que descobrissem que a minha irmã não era por parte de pai também. Até os 20 anos, eu estava com uns 15 anos quando soube disso, e eu só vim falar com a minha irmã sobre isso quando estava com 20 anos. Só para você ter uma idéia de como era complicado falar sobre esses aspectos. A gente não tinha uma abertura para poder falar sobre isso. Eles não gostavam de falar da intimidade deles, da família como todo mundo tem. A gente tinha muitos amigos, mas eram os que se tinha no presente, não os do passado.

 

Pergunta: E seus avós, você conheceu?

 

Resposta:

Não conheci. Minha avó era indígena. Ficou feliz de pelo menos ter tido contato com todas essas raças, porque meu pai era espanhol, e tinha muitas pessoas espanholas e portuguesas dentro da ancestralidade dele. Foi uma mistura bem forte do poder e do servir, dessas duas áreas. É um conflito até hoje. Sinto que estou no teatro por causa disso, porque o teatro é um conflito.

 

Pergunta: E em São Caetano seu pai trabalhava em quê?

 

Resposta:

Depois da guerra ele foi trabalhar num frigorífico. É meio complicado. Isso trazia muita tristeza. Quando estava com 8 anos ele me levou para ver onde ele trabalhava. Ele me fez ver o animal, o corredor da morte. E naquela época, com 8 anos, eu que vivia sempre cercada de animais, porque em São Caetano só tinha casas enormes e eu morava numa dessas casas, com um pomar, árvores frutíferas, galinha, pato, tudo, e esses eram meus companheiros, na verdade, não tinha coleguinhas da escola, não gostava, talvez por não ter avô, avó perto, e eles falavam dos tios e das festas, e eu me afastava disso tudo para ficar no meu mundinho, quando vi isso, eu tinha esses animais como meus amigos, quando vi a vaca passando pelo corredor, a facada que davam, não meu pai, mas outra pessoa, imediatamente já amarravam a perna do animal, foi meio traumatizante. Se não me engano hoje é uma empresa de ônibus lá, porque eu nunca mais fui lá. Para mim foi muito difícil. Ele só queria mostrar que ele trabalhava e que era importante o serviço dele.

 

Pergunta: Sua mãe não trabalhava fora?

 

Resposta:

Ela lavava e passava roupa. De vez em quando a gente recebia pessoas, jovens que vinham de outros países, que ficavam em casa, porque nossa casa era muito grande. Era como uma pensão, mas não era para muitas pessoas, mas para algumas pessoas que vinham do Paraguai e queriam conhecer, depois arrumavam serviço e ficavam lá.

 

Pergunta: Seus pais tinham contatos?

 

Resposta:

Alguns contatos. Mas eles não explicavam muito a origem desses contatos, e eu nunca me interessei também. Eu me afastava muito desse universo. Não era tão curiosa nesse sentido.

 

Pergunta: Como era o Bairro Prosperidade nessa época?

 

Resposta:

Eu fiquei até os 7 anos nesse bairro, onde nós tínhamos essa casa grande, com esses animais, depois morei na (Rua) General Osório, numa casa maior ainda, com mais animais também. E lá... Passei outro dia por lá e vi que está a mesma coisa. Eu lembrava que naquela época havia enchente, e minha mãe chorava nesses dias. Ficava cheio de água, o rio vinha e eu achava maravilhoso, porque eu ia brincar de barquinho, eu achava linda aquela água entrando e eu podendo brincar na minha piscina particular. Minha mãe ficava desesperada e eu não entendia.

 

Pergunta: A água entrava na casa?

 

Resposta:

Pelo menos cobria o tornozelo. E eu achava divertido aquilo, mas realmente meus pais não achavam. Isso foi na Prosperidade e por isso nós mudamos para outra região, na (Rua) General Osório, um bairro nobre, alto, de classe média. Eu tinha piano em casa, a gente estudava piano, fazia dança. A partir dos 7 anos já estava entrando na área de dança.

 

Pergunta: Você se lembra das brincadeiras?

 

Resposta:

Era papai, mamãe, filhinhos. Eu tinha um  monte de bonecas e alguns colegas. Mas era muito esporádico também, não que a gente tivesse uma ligação forte. De vez em quando apareciam alguns colegas e a gente fazia esses tipos de brincadeiras, talvez para aproximar um pouco das questões familiares. Mas a minha ligação foi forte com os animais. Acho que isso tomava muito tempo. Eu conversava muito com eles e com as árvores. Hoje chamariam de esquizofrenia pura, eu falo que foi a melhor fase da minha vida, porque me deu um pouco mais de sensibilidade ao que nos cerca. Sinto falta das árvores dentro de casa. Hoje eu moro em apartamento e sinto falta das plantas dentro de casa, mas é o que acontece numa região que está prosperando. Todo mundo vem para cá e aí os locais que eram amplos vão desaparecendo. Ainda bem que o local é cercado por jardins e o pessoal está, cada vez mais, cuidando da parte estética. São Caetano era muito feia porque não tinha cuidado com a terra, com a planta, com os jardins. A Kennedy era esgoto a céu aberto, uma coisa totalmente largada. Eu lembro que passava por essas áreas para ir à escola e imaginava todos aqueles locais floridos. Hoje, quando passo e vejo tudo florido, penso, não no egocentrismo, mas que a imagem da minha infância, passando por aqueles campos, todos cheios de flores, com cascatas, coisas que eu imaginava, hoje tem. Eu fico feliz. Vou imaginar coisas boas, apesar de não ter, mas daqui a 100 anos quem sabe.

 

Pergunta: E a escola?

 

Resposta:

Era a D. Benedito. Eu entrei com 7 anos. Eu não passei pelo jardim de infância, nada disso.

 

Pergunta: Onde ficava?

 

Resposta:

Na Martim Francisco. Ainda existe, se não me engano.

 

Pergunta: Você tem lembrança dos professores?

 

Resposta:

Eles eram bastante rígidos. Eu não vou citar nomes, mas ontem mesmo encontrei uma delas, que é nossa aluna, porque nós temos os jogos teatrais na Fundação das Artes, e ela faz parte dos núcleos adultos, ela está bem vitalizada ainda, mas já está com uma certa idade, e ela perguntou como foi, como professora, para mim. Eu não tive coragem de falar, mas para vocês eu falo. Não quero guardar mágoas, mas eu levava muita regüada na cabeça, porque eu era extremamente distraída. Não que eu era falante, porque não falava com ninguém, mas eu era distraída. Vira e mexe ficava olhando um inseto passando pela janela e ficava lá, enquanto ela estava explicando a matéria. Quando ela me perguntava e eu respondia, ela achava que eu colava. Eu ficava muito chateada porque ela não confiava na minha intuição, porque o resultado que eu tinha dos problemas eram fruto da minha intuição e não da técnica ou do que tinha aprendido. É uma coisa que hoje em dia eu tenho uma certa dificuldade, em virtude desses baques. Mas falei para ela que foi muito bom porque descobri algumas coisas a respeito do ser humano naquele período, mas não falei se eram boas ou más.

 

Pergunta: O fato de os seus pais serem do Paraguai, eles comentavam com você, havia algum certo tipo de preconceito das pessoas para com eles?

 

Resposta:

Eles eram bastante sociáveis. Não parecia que meu pai tinha passado por uma guerra. Mas, por outro lado, ele era meio bravo, ditador. A última palavra era sempre a dele. Por outro lado, com os amigos ele era bastante receptivo. Gostava de fazer festas, de São João, São Pedro, Santo Antônio, Natal, Ano Novo. Ele convidava toda a vizinhança. Todas as economias que ele tinha, não eram para comprar casa, carro, ele não se preocupava em reservar nada. Ele simplesmente chamava todo mundo e compartilhava com todos o que ele tinha ganhado durante o ano. Eu achava isso maravilhoso da parte dele, mas hoje vejo que a minha vida podia ser bem melhor hoje, não precisaria trabalhar tanto quanto eu trabalho. Mas eu acho que é a experiência que cada um traz. Depois, quando ele ficou com mais idade, ele chegou a falar para mim que eu não sabia o que era uma guerra e queria agradecer a Deus para que eu nunca soubesse mesmo como era uma guerra, mas era muito duro ver as pessoas morrer, principalmente quando você tem responsabilidade sobre elas. Ele tinha muitos soldados e recrutas que dependiam da autoridade dele, e se ele não fosse um pouco duro, eles simplesmente morriam. São coisas que eu não iria entender. Ele dizia que ou eram eles ou éramos nós. Ele viu muitas pessoas amigas, familiares, morrerem diante da agressividade da guerra, sendo estupradas, maltratadas. São coisas que a gente procura esquecer. Hoje em dia tudo que eu faço é para resgatar o que eu posso ter tirado de alguém, então eu compartilho o que tenho. Talvez isso seja uma maneira de resgatar um pouco a minha essência.

 

Pergunta: E você tinha lazer? Tinha bailes, cinema?

 

Resposta:

Tinha bailinhos de família. Todos aniversários eram feitos no fundo do quintal, com lona e aqueles aparelhos, aquelas luzes estroboscópicas. Não era muito escuro, porque os familiares sempre davam uma olhadinha para ver se estava tudo certo, as meninas ficavam de um lado e os meninos de outro e convidavam para dançar e a dança não era muito juntinha, meio afastados. A gente não tinha a liberdade que se tem hoje. Hoje você fica assustada.

 

Pergunta: E namorado?

 

Resposta:

Nem pensar. A gente sempre ia acompanhada por alguém da família. Havia os olhares, a paquera, aquela coisa que não se materializava. O platônico era muito real, pelo menos dentro do meu bairro, do meu círculo de amigos, era assim. Deveria ter os mais arrojados, mas esses eu não conheci.

 

Pergunta: Vocês iam ao cinema?

 

Resposta:

Eu fui uma vez com meu irmão, que era menor que eu. O que tinha muito no cinema, como era escuro, o lanterninha nem sempre ficava tão de prontidão. Eu fui com meu irmão e uma galera de garotos entrou lá e mexia comigo. Eu fiquei muito constrangida, meu irmão não fez nada porque ia apanhar, porque era um bando. Eu comecei a gritar dentro do cinema, uma coisa de louca, só porque o menino colocou a mão na minha perna. Eu gritava. Foi tanta vergonha que passei que depois disso, eu estava com 12 anos, e foi no Cine Vitória, e eu não queria mais ir ao cinema. Eu ouvia os comentários e falava que só ia com adultos. Eu gostava, mas não podia assistir por causa disso. Lembro que era um filme da Rita Pavone. Era muito interessante.

 

Pergunta: Você ia para São Paulo?

 

Resposta:

Não. Raramente eu saía de São Caetano. Aqui eu morava, tinha todas as informações, tudo que eu precisava.

 

Pergunta: Vocês assistiam à televisão?

 

Resposta:

Não. Era uma das coisas que eu não fazia. Assistia esporadicamente a algumas novelas, mas não era de assistir televisão, porque meus pais, chegado um horário, eles simplesmente desligavam e você ficava reclamando. Eu respeitava muito a autoridade e essa hierarquia adquirida, essa experiência. Hoje não sei, talvez fosse diferente, porque pelo que eu vivi, eu trouxe uma coisa diferente. Mas acho que todos nós fazemos isso.

 

Pergunta: Você tem uma irmã mais velha?

 

Resposta:

Sim. Hoje em dia ela está nos Estados Unidos, ela mora lá há muito tempo, uns 35 anos e tenho um irmão mais novo, um ano mais novo, que mora no Rio de Janeiro.

 

Pergunta: Você cursou faculdade?

 

Resposta:

Sim. Quando casei acabei entrando na faculdade, com 17 anos. Eu entrei e fiz administração, aqui no IMES e depois fiz economia e depois passei para o teatro. Eu fazia a Fundação das Artes.

 

Pergunta: Como era o IMES nessa época?

 

Resposta:

O prédio era muito simples, um prédio só. Eu me concentrava nos estudos, ficava na sala de aula a maior parte do tempo, dificilmente eu ia à atlética ou ao DAC, Diretório Acadêmico XIV de Outubro. Eu pouco ia ao DAC. Meu marido que ficava mais lá. Eu achava, tinha aqueles princípios que meus pais tinham passado, que o homem da casa é que vai fazer o social e você fica mais contida.

 

Pergunta: Ele estudava aqui também?

 

Resposta:

Também. Ele ficou até o terceiro ano e eu completei e estudei mais. Eu lembro do Didone. Do Laércio. O Joaquim era praticamente colega de sala. A gente ia aos festivais de música juntos.

 

Pergunta: Você participava das atividades culturais?

 

Resposta:

Eu participava, porque eu já fazia a Fundação das Artes, na parte de dança e música e eu quis participar em algumas atividades no IMES e nós fizemos esse trabalho. Como eu tinha uma voz um pouco mais baixa que as demais, falavam que eu ia ficar como uma excepcional. Eu só ficava parada. Eu nem imaginava que ia fazer teatro. Eu consultei todos os locais, a APAE, para saber que tipo de excepcional eu iria fazer. E quando fiz esse trabalho de pesquisa, acabei arrumando uma personagem que tinha visto na APAE que me rendeu ganhar os festivais que nós participamos, em Ribeirão Pires, Santo André.

 

Pergunta: Como se chamava o grupo de teatro?

 

Resposta:

GETA, Grupo Experimental de Teatro Amador.

 

Pergunta: Em que ano foi isso?

 

Resposta:

Em 1975 ou 76.

 

Pergunta: Como eram as aulas?

 

Resposta:

Nós simplesmente sentávamos e discutíamos os assuntos que nós achávamos que eram importantes que nós trouxéssemos para a faculdade. As questões sociais, como os catadores de papel, a gente falava muito disso. A gente buscava justamente que universo era esse. De repente nós, como administradores, víamos essa organização nas ruas. Para nós era importante para a gente descobrir como fazer isso, como conscientizar as pessoas para essa questão social, o que a gente pode fazer por isso, vamos questionar como a gente pode interferir nisso, vamos pensar juntos. A idéia era um grupo de estudantes, sem nenhum conhecimento de teatro, que se juntava para fazer um trabalho de conscientização.

 

Pergunta: E quantas pessoas faziam parte do grupo?

 

Resposta:

Umas 10 pessoas.

 

Pergunta: Eram mais mulheres?

 

Resposta:

A maioria eram homens. Éramos 4 meninas.

 

Pergunta: E o seu marido, o que achava?

 

Resposta:

Ele não gostava. Ele perguntava se tinha beijo. Quando ele viu que eu era excepcional, ele deixou. Até aí eu podia, eu tinha limites. Como ele participava do DAC, sempre estava lá, era uma maneira de eu estar um pouco mais próxima dele, e foi por isso que eu entrei no JETA, porque eu ficava muito tempo esperando ele para ir para casa. Enquanto isso minha filha ficava com a minha sogra. Eu não tinha coragem de ir sozinha para casa. Eu era muito assim.

 

Pergunta: Você já tinha uma filha?

 

Resposta:

Sim. Inclusive isso, na época foi muito triste para mim. No dia em que fiquei sozinha com esse rapaz que foi meu marido, acabou havendo um relacionamento mais íntimo. Por ignorância da minha parte, com certeza, fiquei grávida aos 16 anos. Eu me casei com 17 justamente porque estava com uma filha. Então, para que não ficasse numa situação, perante a sociedade, desagradável, eu me casei, fui obrigada a casar. Não foi uma experiência agradável, porque você ficar grávida na primeira vez, você acha que é obra do espírito santo.

 

Pergunta: Sua família fez questão do casamento?

 

Resposta:

Sim. Tanto a minha como a dele. As famílias pressionaram para que houvesse esse casamento, para eu não ficar desonrada e ele pudesse depois ter a possibilidade de ver a menina. Nisso, nessa história toda, uma das coisas que fiz de medo, de tanto medo do que os outros iriam falar, antes de contar sobre a gravidez, eu aceitei um convite da minha irmã para ir aos Estados Unidos. Eu fui grávida de três meses, usando uma cinta apertadíssima, para que minha mãe não notasse que eu estava grávida, de medo do meu pai e da minha mãe. Quando fui para lá, sofri um acidente de carro com a minha irmã. Eu não ia contar para ela até que acontecesse. Eu estudava e como sozinha ia ter um filho? Era muita ingenuidade. Hoje a gente chama de burrice a falta de informação, mas era da minha parte, que vivia tanto com os animais, que eu era um ser totalmente diferente de todos os demais. Eu sofri esse acidente e fui ao médico porque estava passando mal. Ele falou que eu estava grávida. Aí eu já estava com 5 meses e minha irmã quis que eu abortasse, eu falei que não. Ela me mandou voltar para casa e falar com meu pai. Eu voltei com 6 meses e fui obrigada a contar ao meu pai e passando por todos esses problemas, fui obrigada a casar. Foi uma história difícil.

 

Pergunta: Você fazia faculdade com uma filha?

 

Resposta:

Com uma criança pequena.

 

Pergunta: Trabalhava?

 

Resposta:

Não. Eu cuidava dela e fazia faculdade porque meu pai pagava. Ele fazia questão que eu continuasse os estudos.

 

Pergunta: E quando você entrou no teatro, eles gostaram?

 

Resposta:

Eles sempre me induziram que eu tinha de sempre aprender alguma coisa com as artes, a sensibilidade, a beleza, a questão dos cuidados da mulher, dos refinamentos. Meu pai gostava muito do refinamento que a arte traz e queria que eu tivesse isso. Eu era simples demais e ele queria que eu tivesse melhores condições, pudesse ter um outro tipo de vida e pudesse dar condições às minhas filhas. Ele estava com a razão e de alguma forma ele me ajudou bastante, me trouxe bastante consciência e criatividade.

 

Pergunta: Eles apoiavam você no teatro?

 

Resposta:

Eles adoravam me acompanhar. Mas eles se mudaram, foram para o Rio depois que tive a minha filha, devido ao trabalho que meu pai conseguiu no Rio de Janeiro. Por isso meu irmão está lá até hoje e eu fiquei por aqui por causa do meu marido. Eu não queria mudar para lá. Mas sempre que eles podiam, eles vinham ver os trabalhos que eram desenvolvidos.

 

Pergunta: E quais produções vocês fizeram?

 

Resposta:

Nós ficamos muito tempo fazendo a peça, não sei se meus colegas, não posso dar datas precisas, e não sei se meus colegas puderam dar continuidade, fazerem outras coisas, mas por um ano e meio ou dois anos eu dei continuidade e acompanhava os outros exercícios que eles se propunham a fazer. Tanto que participei de um festival de música porque o JETA já estava, nem todos podiam participar, a gente fazia muitas substituições. Era sempre a mesma peça, mas com substituições. Eu não tinha tanta voz ativa no grupo porque estava lá para fazer e aceitava tudo. Eu sinto que no tempo que fiquei lá, tive um aprendizado muito grande, tanto que depois participei do festival porque eu queria dar continuidade. Mas o pessoal foi desistindo no meio do caminho, tanto que o JETA deixou de existir, foi desaparecendo. Ainda teve algumas continuações, não sei com que peças, mas eu me afastei definitivamente e me concentrei mais na Fundação.

 

Pergunta: E você já fazia parte da Fundação? Como era lá?

 

Resposta:

Não digo como é hoje, porque também era bastante ativa, com bastantes condições. A gente não tinha muita ligação com a diretoria, mas a gente vivia cruzando com, os que hoje a gente reconhece como artistas, com o Marcos Frota, era ainda adolescente. Era muito rico. Eu gostava de vivenciar aquele universo, onde a gente podia estar perto das artes visuais, que também fiz parte, fiz música e dança. Eu tomava meu tempo, cada vez mais tomava meu tempo a ir ao encontro do que eu queria. Eu queria muito ficar nas artes. Na parte de administração e economia, que fiz aqui, era para acompanhar como meu marido estava conduzindo as coisas dele. Mas como ele não deixava eu estar junto, com o passar do tempo eu fui percebendo que quem cuidava mais das economias era meu sogro. Uma vez que passou para ele, ele praticamente faliu e fomos perdendo a maioria das coisas que nós havíamos adquirido. Eu ainda, nessa questão passiva, porque a mulher nesse período ainda era bastante passiva em relação às decisões que um homem poderia tomar, mas hoje em dia ela é muito mais participante e não deixa o marido sozinho e fala mesmo, mas naquele período, ai de você se você falasse alguma coisa. Dava briga, desentendimentos, e eu não gostava de me indispor e não queria que meus filhos vissem discussão.

 

Pergunta: Nessa época em que você estudava no IMES e na Fundação das Artes era a época do regime militar. Vocês sentiam a censura? Como era o ambiente?

 

Resposta:

Desde a época da infância nós não tínhamos liberdade de falar qualquer coisa, opiniões próprias.

 

Pergunta: Havia censura na Fundação das Artes?

 

Resposta:

Não. A gente procurou trabalhar, e achávamos que era bem ousado para a época, fazer uma peça de Plínio Marcos, porque você estava falando de questões sociais, mas a gente não mexeu uma vírgula no que estava lá. Passou pela censura e estava tudo certo.

 

Pergunta: Vocês mandavam as peças para a censura?

 

Resposta:

Para aceitar a participação em festivais, tudo tinha de passar pela censura, qualquer atividade. Se você ia cantar uma música, o que você ia fazer, tinha de passar por uma determinada censura. Se não fosse de uma maneira formal, era pela própria instituição mesmo. Isso não é apropriado e você não vai fazer isso e acabou. Não tinha muito de falar que era importante. Era não e acabou. A gente procurava obedecer. Tinha muito essa questão do capitalismo e comunismo. O capitalismo é o mau e o comunismo é bom. Vendiam uma coisa totalmente distorcida. E se a gente fizesse uma pesquisa profunda, você via que eles também não estavam tão bem. O que a gente tem a gente sabe como é e o que a gente não tem, como você vai saber se é bom?

 

Pergunta: Você se lembra se a Fundação dava algum apoio ao grupo?

 

Resposta:

Não. A gente usava o teatro. O espaço era sempre cedido, sem nenhum problema. A gente só reservada a data. Nesse sentido sim. Você sempre teve o espaço aqui também, desde que você mostrasse o que você ia desenvolver. Não era uma coisa arbitrária.

 

Pergunta: Você tem lembranças dos professores?

 

Resposta:

Uma professora que tive aula bastante tempo foi a Rosa Toshiba. Há pouco tempo que tomamos caminhos diferentes, trinta anos depois. As outras pessoas, um escultor que foi para o Japão, que até fez uma réplica da estátua de São Pedro, ele acabou reproduzindo e foi embora. Todos os outros professores, o Azevedo, a Mitie, que também faleceu, o Alexandre Matos.

 

Pergunta: Hamilton Andrade?

 

Resposta:

Ele era o diretor e a gente pouco se via. Ele sempre estava envolvido nas questões administrativas e a gente não tinha tanto acesso, porque naquela época eu era aluna. Só em 1987 que eu acabei me tornando professora.

 

Pergunta: Você fez o curso de teatro?

 

Resposta:

Não. Eu fiz o curso de dança. A Sueli Azevedo, sabendo que eu tinha feito teatro e que tinha ganhado prêmio em festivais, ela resolveu me passar para a professora de expressão corporal, porque ela conhecia o meu trabalho e ela me deu essa oportunidade de ficar com o pessoal do teatro. Foi bem difícil.

 

Pergunta: Como foi sair da dança e ir para o teatro?

 

Resposta:

Eu estava no caminho da dança, mas quando fui chamada para o teatro, era uma das coisas que eu achava que completava mais, porque você não era apenas dançar, um sentimento, uma expressão, leveza, uma idéia, mas você podia falar. Isso era uma das coisas que me fascinava. O que faz um ser ter aquele sentimento, aquela emoção, e como ele vai falar isso, como ele vai chegar num espectador e, é muita arrogância da minha parte falar que vai transformar o outro, mas se você consegue emocionar, fazer com que o outro ria ou chore, é quase que um milagre. É muito bom para você. E outra coisa que eu acho que nesse sentimento humano eu queria ser para todas as pessoas, a minha ambição era muito grande, porque apesar de ser quieta, eu queria ser todas as pessoas do mundo, ou seja, ter a oportunidade de ser todos os seres. Então, você ter a oportunidade de ser um homem, uma mulher, uma prostituta, uma rainha, uma princesa, ser uma bruxa, me fascinava, porque você podia pesquisar e mudar. Assim como eu pesquisei esse ser, que hoje não acho que uma excepcional é deficiente, mas acho que é um ser que tem uma outra experiência que a gente não tem idéia, porque a gente não está na pele dessa pessoa. Apesar de os grandes teóricos acharem que é algo científico, eu ainda tenho minhas dúvidas em relação às descobertas que fiz enquanto ser humano, ficando ao lado de outro que tenha, aparentemente, essas anomalias que não fazem parte do genérico. Eu descobri que o universo é fascinante, que era uma coisa que eu queria carregar em mim desde criança, que é o lado espiritual que de repente eu descubro que com o teatro, sem que ninguém fale que isso é bom ou mal, você percebe o outro em essência. Então, o outro não é mau porque ele quer ser mau. Ele acha que aquilo, de alguma maneira, é bom para ele.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Não. Sobre esse ponto fui bastante alienada.

 

Pergunta: E outras peças?

 

Resposta:

Eu assistia àqueles em São Paulo, Sérgio Cardoso, Teatro de Arena, alguma coisa que de alguma maneira você tinha condições de ver, mas não havia nenhuma crítica em relação. Eu procurava mais me envolver com o que estava fazendo.

 

Pergunta: Você estudava no IMES. Por ser uma faculdade que tinha muito mais homens do que mulheres, como você se sentia?

 

Resposta:

Fui muito respeitada. Era um universo que, pelo fato de você ser casada, você tinha o amparo de todos. Ninguém se aproximava porque eu era casada. Alguém que vinha conversar, já ouvia: Olha, ela é casada. Era uma coisa de unanimidade e não havia nenhum perigo.

 

Pergunta: Não tinha os abusados?

 

Resposta:
Pelo menos não os conheci. Foi bem interessante, um período em que fiquei perto das pessoas. As pessoas me respeitavam muito e não tive nenhum problema.

 

Pergunta: Como você via as pessoas com você em relação ao teatro? Elas falavam alguma coisa, te olhavam de modo diferente?

 

Resposta:

Não, porque acho que a postura que você toma, como você enfoca, como você reage no cotidiano, assim que você vai ter a resposta. Até hoje eu sinto que nesse ponto fui respeitada como pessoa, como ser humano e ninguém nunca ousou falar que eu era isso ou aquilo. Também eu não dava margem a nada disso. Sou uma pessoa que não fuma, não bebe, só socialmente, mas raramente. Hoje sou mais maluca do que naquele período. Eu descobri que era uma velha quando era jovem e hoje, com um pouco mais de idade, não quero me chamar de velha, eu estou me sentindo uma adolescente, uma criança que está descobrindo o mundo. Eu percebo que estou descobrindo hoje muitas coisas. Hoje que me permito muitas coisas. Na época foi muito traumatizante por uma série de coisas que eu vivi, quando tive minha primeira filha, como as pessoas me tratavam. Até hoje eu sinto que isso acontece, mas as pessoas adquirem as suas condições para estarem onde estão.

 

Pergunta: Você chegou a participar de outras peças?

 

Resposta:

Eu fiquei na Fundação direto, desde o primeiro ano como profissional. Fui do primeiro grupo profissional que saiu da Fundação das Artes, fui professora e estou até hoje, na turma 39. Eu fui professora de todos eles.

 

Pergunta: E quando você voltou a fazer teatro?

 

Resposta:

Voltei no Hair, em 1999, se não me engano.

 

Pergunta: Você começou a atuar como atriz?

 

Resposta:

Sim. Naquele período tive muitas chances, mas pelo fato de o meu marido não querer que eu me envolvesse, quando ele via que eu ia fazer uma excepcional estava tudo certo, mas quando me convidaram para fazer outras peças, ele falou: Ou você fica casada ou vou me separar, porque não vou aceitar que você continue no teatro. Dar aula você pode.

 

Pergunta: Como você voltou a fazer teatro?

 

Resposta:

Eu voltei quando estava já rompendo com ele.

 

Pergunta: E participou da montagem de Hair?

 

Resposta:

Sim.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Muitas vezes eu participava na coxia, nos camarins, porque eu era preparadora corporal de alguns grupos que ele produzia. Então, a gente vivia se encontrando e quando eu soube que ele estava aqui eu comecei a me aproximar, porque eu gostava muito dele e as minhas duas casas foram o IMES e a Fundação das Artes. Então, eu achava que tinha de me aproximar um pouco mais, porque eu gostava muito desse lugar, onde você respirava o lado intelectual.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

O Grite, a própria palavra já diz, é um grito de dizer: Puxa, duvido. Você começa a experimentar de tudo, desde a parte mais frágil, o lado mais hostil e agressivo, e o Grite permite que você experimente muitas possibilidades. Ele não faz você enxergar só de uma maneira, uma estética. Ele faz você buscar o que você está querendo dizer e como você está querendo dizer, sem necessariamente te impor regras fechadas. Eu sinto que voltar para o Grite foi uma oportunidade única, para fazer tudo que eu ansiava desde então.

 

Pergunta: E esse festival foi sua primeira experiência profissional?

 

Resposta:

Sim. A anterior era extremamente amadora. Cada um queria dizer uma coisa, ninguém sabia bem o que, mas queriam dizer, então a gente se reunia e dizia, mas ninguém sabia muito bem o que estava dizendo. Hoje não, a gente pesquisa, discute, conversa, troca idéias, briga, se agoniza, encontra meios de partilhar as mesmas idéias, ou integrar as coisas, esse respeito que a gente não encontra facilmente.

 

Pergunta: Teve algum fato na sua vida que fez você ver a vida de outra maneira?

 

Resposta:

Sim. Foi no período de 1996, quando fiquei muito doente e tinha muito pouco tempo de vida. Quando eles me disseram que tinha apenas dois anos de vida, porque eu tinha uma metátese que havia tomado meu corpo e não havia jeito, achei que a única coisa que eu poderia fazer era viver bem. Foi apenas um lapso, porque eu fiquei por um ano afastada, mas mantive as turmas da Fundação, me encontrei com eles em algum período. Eu fui para a Índia. Lá fiquei três meses e vivi com intensidade esses três meses, uma crença, uma civilização muito diferente da nossa, e passei a ver, com meus próprios olhos, e ter uma percepção de vida muito diferente do que a gente está acostumada a ouvir ou ver pela televisão. A gente ouve e acredita naquilo. Não que esteja errado, nada disso, mas nada como a sua própria experiência para você ver realmente o que aquilo significa. Eu vi que a Índia não é um lugar de pobreza, muito pelo contrário. A palavra é extremamente importante no que diz respeito ao conhecimento do ser humano. Existem muitas maneiras de se viver na vida e não é apenas essa, pelo capitalismo e pela política que nós temos, existem maneiras muito diferenciadas. Eu conheci um espaço no sul da Índia, próximo a Bangalore e foi um presente dos alunos da Fundação das Artes, porque eles me deram... Eles perguntaram o que eu queria fazer, quando eles souberam que eu tinha tão pouco tempo de vida. Eu falei que queria conhecer um homem santo. Eu fui encontrar esse homem santo. As pessoas se reuniram e aí que eu acho esse poder grande do ser humano poder encontrar um meio para adquirir uma solução, nem que seja te dar um presente para aquilo que eles receberam durante tanto tempo, que foi a minha experiência, e eles me deram esse presente. E aí eu tive uma coisa, que foi um fenômeno, e ao mesmo tempo eu não sei explicar, vocês não vão entender, mas cada um, dentro da sua motivação, vai buscar ou não. Não sei se dentro desta entrevista vale dizer, mas eu sinto que aquilo que vocês quiserem buscar na vida, vocês alcançam e quando eu procurei esse homem santo, eu não imaginava que ia ter um presente tão grande. Eu imaginei que simplesmente ia conhecer um homem especial. Eu cheguei na cidade, onde os prédios parecem castelos de contos de fadas, que são museus, hospitais, escolas, faculdades, onde existe tanta gente, umas 10 mil pessoas reunidas, onde ninguém ouve falar em Ocidente, ou se ouve hoje em dia pela internet, mas não sabem o lugar tão especial, onde as pessoas descobrem esse amor incondicional. Esse homem materializa jóias, cinzas, flores, frutas, o que for necessário. Ele consegue transpor paredes. Eu não vi ele transpor paredes, mas vi ele materializar cinzas, que é o que acabei adquirindo e trazendo e tomo um pouco desse pó, não é alucinógeno, que de repente, não sei se por milagre, mas nunca mais fui ao médico.

 

Pergunta: A gente costuma pedir para o depoente deixar uma mensagem gravada. Uma parte da mensagem você até já deu, mas enfim, algo que você queira deixar registrado, que seja importante para a sua vida.

 

Resposta:

Acredito que toda essa experiência foi muito rica. Eu acredito também que tudo que já vivi, as várias pessoas viveram de maneira diferente, mas percebo que dentro do universo em que vivemos, que é tão rico, existem tantos universos paralelos, que hoje em dia não existe o impossível. Tudo para mim é possível. O que é impossível, só depende de você tornar o seu sonho possível. Se você for buscar a arca de Noé, a coisa mais esdrúxula possível, desde que você se concentre em adquirir isso, tudo é possível dentro desse milagre que a vida propicia. A arte, antes de tudo, é uma criação, é você criar e se tornar um pouco Deus. A gente pode se tornar um deus, a gente pode tudo. É só uma questão de você trazer o que está dentro do corpo. Seria maravilhoso e a gente não precisaria de tantas coisas. A gente materializaria as coisas, como vi que isso é possível.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul