Pesquisa


Projetos Mais Acessados

  1. Risos e lágrimas:o teatro amador em Santo André na década de 1960
  2. Punks do ABC: bandas, gangues e idéias de um movimento cultural...1980
  3. A Segunda Guerra Mundial no ABC e a trajetória de seus combatentes
  4. Culturas e linguagem: metáforas em identidades, ritos e cerimônias nas
  5. Comunicação e cultura na Johannes Keller Schule em São Caetano do Sul
  6. Associações alemãs em São Paulo
  7. A alma feminina nos palcos do ABC: o papel das atrizes (1965 a 1985)
  8. O Grupo Teatro da Cidade: experiência profissional nos palcos do ABC..
  9. Comunicação, Identidade e Memória na Comunidade Germânica no ABC
  10. Ativismo feminista e questão racial

Todos os Temas
Todos os Projetos

Havani Barreiro Fernandes Duarte

Atriz amadora no Grupo de teatro TAPRIM, do Primeiro de Maio Futebol Clube, em Santo André. Até 1969, trabalhou em empresas como Rhodia, Antárctica e Craysler, ligada a sistemas de computadores. Estudou no Colégio Coração de Jesus de Santo André (antigo Externato Padre Capra).

Imagem do Depoente
Nome:Havani Barreiro Fernandes Duarte
Nascimento:03/02/1943
Gênero:Feminino
Profissão:Não informada
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:Santo André

Arquivos de Imagem

Havani Duarte_I003

Havani Fernandes e Henrique Lisboa (Taubaté) em ensaio da peça 'Arena canta Zumbi' no clube 1º de maio em Santo André no ano de 1967


Arquivos de Vídeo

Depoimento em Vídeo

Depoimento de Havani Barreiro Fernandes Duarte, São Caetano do Sul, 10/07/2004


Transcrição do Depoimento de Havani B. F. Duarte em 10/07/2003

Depoimento de Havani Barreiro Fernandes Duarte, 60 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 10 de julho de 2003.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC

Entrevistadores: Vilma Lemos e Daniela Macedo da Silva.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

Pergunta: Local de nascimento?

Resposta:

Santa Terezinha, Santo André

Pergunta: Onde você passou sua infância? Como era sua família, o relacionamento com os pais, brincadeiras? Depois a gente entra em escolaridade.

Resposta:

Foi na infância mesmo, na casa da minha avó, ouvindo música de viola. Todo domingo tinha um programa de rádio, chamava-se Na beira da Folia. Seis horas era de praxe, minha avó falava assim: Liga o rádio aí, para a gente ouvir música de viola. Eu acho que começou daí esse gosto musical. E meu pai, como bom baiano, adorava Dorival Caymi. Ele cantava algumas coisas, mas naquela época era mais música de viola mesmo, congada, quando tinha festa, era uma vez por ano, igreja, mas começou daí, da casa da minha avó.

Pergunta: Essas músicas vocês cantavam em casa, na casa de amigos, em clubes? Como era essa festa?

Resposta:

Na casa da minha avó.

Pergunta: Lembra alguma música desse período?

Resposta:

No comecinho desse programa: Nesses versos tão singelos, minha bela, meu amor. Para vocês quero contar como é grande a minha dor. Eu sou como sabiá que quando canta é só tristeza, nem um galho para ficar.

Pergunta: Brincadeiras de infância?

Resposta:

Roda. Brincadeiras de roda.

Pergunta: Como era?

Resposta:

Todo dia juntava uma turma e ia brincar. Brincadeira de roda foi muito bom, muito gostoso, mas eu não lembro nada assim, nenhuma música. Se eu conseguir lembrar, depois eu volto.

Pergunta: Então vamos voltar um pouquinho na música.

Resposta: Música?

Pergunta:

Quem cantava? A família toda cantava junto, cantava em coro? Como era? O avô, a avó?

Resposta:

A avó dava umas treinadinhas, mas era mais para ouvir. Eu que era mais sapeca, eu cantava junto, mas aquela hora, era hora de silêncio mesmo. Seis horas da tarde, era hora de fazer mentalização, ouvindo essas músicas caipiras. Agora em casa, meu pai não era muito de cantar, minha mãe cantava, mas assim, sozinha, fazendo serviço de casa. E meu pai assobiava. Acho que vi meu pai cantar umas duas vezes.

Pergunta: E essa cantoria familiar era em torno do rádio?

Resposta:

Só o rádio.

Pergunta: Então o rádio ocupou um papel importante na vida familiar?

Resposta:

Nossa! Muito. Muito importante.

Pergunta: O que mais você lembra do rádio, desse período de infância?

Resposta:

De infância? A minha mãe também ouvia rádio. Aquelas cantoras ótimas.

Pergunta: Quem?

Resposta:

Ah! Elizeth Cardoso é da época. Quem mais? Os outros que eu for lembrando eu falo para você. Minha mãe ouvia muito Silvio Caldas, Francisco Alves, era mais homem que cantava, mulher acho que não tinha muito espaço nessa época. Então o rádio ficava ligado o dia inteiro.

Pergunta: Que programa de rádio você tem lembrança desse período?

Resposta:

Mais tarde, quando eu tinha uns treze, quatorze anos, que eu lembro um pouquinho mais. Lembro: Picape do Pica-pau. Ele fazia comentários, malhava quem não sabia cantar.

Pergunta: Quem que era?

Resposta:

Não lembro o nome dele por causa do apelido.

Pergunta: Que rádio era?

Resposta:

Rádio Bandeirantes.

Pergunta: E era um programa de variedades ou um programa musical.

Resposta:

Musical, e só música brasileira. Aí começaram a trazer as cantoras. Ângela Maria. Eu sei as mais novas. De cantores, deixa eu ver se eu me lembro de alguns, porque faz tempo, passa, dá um branco.

Pergunta: Mil novecentos e?

Resposta:

Eu tinha 13 anos, 1956, por aí. Eu sou de 1943.  Se eu não fiz a conta errada, 1955, 1956. Depois eu posso avançar um pouquinho na época.

Pergunta: Vamos falar de um pouquinho da escolaridade? Onde estudou? Como eram os relacionamentos? Como era o professor? Como era a classe?

Resposta:

Na aquela época era meio rígido, a gente não podia..., eu estudei num colégio de freira.

Pergunta: Qual o nome?

Resposta:

Instituto Coração de Jesus. Tinha assim muito espaço, eu sempre fui muito brincalhona, então eu levava cada bronca federal. Às vezes até o pai precisava ir. Mas ele já conhecia meu tipo e não era coisa maldosa. Eu saí daquele colégio e fui estudar no Júlio de Mesquita. Se chamava Escola Industrial Júlio de Mesquita. Fui começando, eu imitava artistas tocando.

Pergunta: Quem você imitava?

Resposta:

Eu imitava Ivon Couri.

Pergunta: Dá para imitar?

Resposta:

Ele cantava uma música tão engraçada. Eu só sei uma coisa de nada. Era só: Feijão, feijão, feijão, feijão, feijão. E ele fazia assim. E a turma ficava assim. A bronca era geral também, porque a escola não era tão rígida, mas a turma saía da concentração. E uma vez a professora entrou na aula, ela demorou muito e eu estava em cima da mesa cantando essa bendita música. Levei uma bronca danada. Essa aí nem minha família sabe. Para os meus filhos, acho que eu nunca contei pra eles, porque passou, a gente tem outras coisas pra fazer e esquece desses detalhes. Eu não me lembro a outra música que ele cantava. Mas eu imitava bem ele.

Pergunta: Você estudou por quanto tempo?

Resposta:

Na época era ginasial, fiz até o ginásio. Quando eu fiz 16 anos, não quis mais estudar. Meu pai ficou uma pimenta comigo, mas o meu negócio era trabalhar mesmo. Eu comecei a trabalhar. Trabalhei no Fórum de Santo André.

Pergunta: Antes de começar no trabalho, você tem lembranças da cidade? Como era? O que mudou? Como eram as casas?

Resposta:

Que maravilha!

Pergunta: As ruas?

Resposta:

Muito bom!

Pergunta: Dá para descrever pra nós?

Resposta:

Dá. Nós morávamos na Rua Cesário Mota, uma rua muito tranqüila; apesar de ter o Fórum na mesma rua, a delegacia na rua lateral e o cinema Carlos Gomes uma rua acima Senador Fláquer, a gente foi muito feliz nessa época. Só coisa boa. Brincar na rua, ir ao cinema. As ruas eram bem tranqüilas. Não tinha muito movimento como tem agora. Se não me falha a memória, só um vizinho nosso tinha carro naquela rua. Na rua inteirinha, só ele tinha carro.

Pergunta: Como era a rua?

Resposta:

Eu acho que já tinha calçamento de piche, mas eu peguei muito paralelepípedo ainda.

Pergunta: Tinha prédios?

Resposta:

Poucos, era mais casas.

Pergunta: As brincadeiras que vocês faziam eram na rua?

Resposta:

Só ali naquela calçada porque juntava a moçada ali. Em casa, nós éramos quatro, eu sou a mais velha, e meu irmão mais novo que eu também era muito engraçado, muito bagunceiro, então tudo era lá em casa, tinha minha irmã Heleni, e depois o Hércules, só que para o Hércules a diferença de idade é de dez anos, então ele também participava mais com a molecadinha da idade dele mesmo. Agora lá em casa fervia porque meu irmão também era triste e a minha irmã era quietinha, mas ela participava.

Pergunta: Fervia por quê?

Resposta:

Porque ficava todo mundo ali concentrado, e a minha mãe nunca falou nada.

Pergunta: Vocês faziam o quê?

Resposta:

Conversava, brincava, combinava para ir ao cinema, porque só tinha aquelas coisas assim.

Pergunta: Falando em cinema, vamos  falar de lazer. Já na juventude, que tipo de lazer? Cinema, teatro, clube, bar? O que você fazia?

Resposta:

Primeiro, cinema.

Pergunta: Que tipo de filme você assistia? Onde assistia?

Resposta:

Era mais assim série. A gente não perdia um domingo porque passava Tarzan, rei da selva, Fantasma. De filme eu quase não me lembro muito, passava mais era filme de cowboy, para os meninos. Com aquela idade, eles nem passavam filmes mais românticos, drama, porque se não a gente não ia ao cinema. Então era mais filmes de cowboy mesmo, Roy Roger, Tom Rinks que é ainda mais antigo que Roy Roger. Tarzan então era imbatível. Quase todo domingo tinha filme do Tarzan. Só que eles passavam alguns filmes assim em série, e você tinha que ir no outro domingo para saber o que estava acontecendo. Flash Gordon, por exemplo, passava um pedacinho e depois você tinha que ir ao cinema. Então a gente só ia ao cinema para ver o que ia acontecer no outro domingo. E cinema só ao domingo, a gente não ia ao cinema assim a toda hora, porque também acho que nem tinha. E nós gostávamos muito de cinema.

Pergunta: Era muito caro o ingresso?

Resposta:

Não, porque não tinha todo dia e era gostoso ir aos domingos, porque reunia todo mundo, fazia aquela baderna.

Pergunta: Domingo, ir ao cinema era um acontecimento?

Resposta:

Era muito bom.

Pergunta: Como vocês se vestiam?

Resposta:

Normal. Calça comprida nem pensar. Uma saia, um vestidinho, nada muito curto, nada muito assim escandaloso. Não sei se a época agora é escandalosa ou não, é só comentário. Mas a gente vivia de manguinha, golinha, aquelas coisas, assim. Aquele vestido rodado enorme e sapatilha.

Pergunta: Era moda?

Resposta:

Era moda, sapatilha era, voltou a moda de novo. Acho que nunca saiu da moda, mas agora está bem assim. Eu vejo nos programas a sapatilha,  na primeira colocação de calçado.

Pergunta: Os pais iam ao cinema?

Resposta:

A minha mãe adorava cinema. Ela ia toda quarta-feira, que era uma sessão em que só iam senhoras.

Pergunta: Só mulheres?

Resposta:

Era a sessão das moças. Então ela ia toda quarta-feira. De vez em quando eu ia na beirada também. Então toda quarta-feira mamãe ia ao cinema e ela também adorava cinema.

Pergunta: Havia sessões para homens?

Resposta:

Não, só das meninas, toda quarta-feira.

Pergunta: Havani, vamos falar um pouquinho de baile. Você freqüentou? Onde? Como era? Como se vestia? Quando ia?

Resposta:

Todos. Adorava dançar. Nós começamos a dançar acho que foi no Primeiro de maio, que tinha domingueira. Todo domingo tinha baile. Então, a gente usava aqueles vestidos bem rodados, aquele monte de anágua embaixo.

Pergunta: O que é anágua?

Resposta:

Anágua é aquele saiote, todo engomado. A gente usava uns dois ou três bem rodados, que era para os vestidos ficarem adoráveis. Algumas ainda arriscavam usar uma coisinha mais..., mas a gente usava muito vestido rodado. Depois que veio a moda tubinho, nós começamos a usar tubinho. Mas o vestido rodado para baile, num evento mais social, a gente usava aqueles vestidos belíssimos. Cheio de anágua embaixo. Aquelas coisas! E o tubinho, depois já começou a usar calça comprida.

Pergunta: Por que chama tubinho?

Resposta:

Tubinho porque era um vestido assim. Era um tubo mesmo. Os gordos que me perdoem, mas vou te falar viu.

Pergunta: Não tinha nenhum detalhe?

Resposta:

Tinha botãozinho, como aquela mulher japonesa, algum bolsinho. Mas geralmente ele era liso de tudo. Por isso se chamava tubinho. E comprido. Não muito curto.

Pergunta: Nesses bailes, vocês iam acompanhadas ou sozinhas?

Resposta:

Sempre acompanhadas.

Pergunta: Por quem?

Resposta:

A minha mãe não perdia um. E a mãe da vizinhança toda. As mães ficavam numa mesa. Juntava aquele monte de mãe. Inclusive é uma coisa que agora contando, mas na época fazia o salgadinho, pastel, quibe. E elas entravam com aquele prato de salgadinho e a moçada ficava do lado. Na hora que terminava aquela seleção musical, juntava todo mundo naquela mesa. Tomava Coca-Cola, comia um salgadinho. Mas elas entravam de sacola mesmo.

Pergunta: E como escapavam das rédeas do pai e da mãe?

Resposta:

Meu pai nunca se importou. Meu pai não ia, mas a minha mãe sempre foi aos lugares, ao cinema, tudo, ele não. Meu pai era bem moderno, tinha uma cabeça muito além da época. Eu perdi meu pai muito cedo. Foi nessa época mesmo que a gente freqüentava os lugares. Eu ia fazer dezenove anos quando meu pai faleceu. Mas a gente continuou com essa coisa de ir ao cinema. Na semana que o pai faleceu, ele faleceu numa sexta-feira, eu acho que na segunda ou terça eu levei minha mãe ao cinema. O que os vizinhos vão falar? Eu sempre fui moderninha também, a cabeça um pouquinho mais avançada. Eu falei: Ficar em casa não adianta. Vamos ver um filme gostosinho, até uma comédia. Falei: Vamos ao cinema. Meu irmão já fazia parte do Ocara, nessa época, e tinha que sair no carnaval em fevereiro, ele  já tinha até comprado a fantasia. Vai ou não vai? E minha mãe falou: Vai perguntar para sua avó. A mãe dela. A minha avó falou: Você tem mais que ir mesmo, vai ficar chorando em casa? Seu pai não ia gostar. E meu irmão saiu no carnaval, fevereiro. Meu pai faleceu em janeiro. E meu irmão participou. Minha avó também era bem  moderna, a mãe da minha mãe.

Pergunta: Ela era descendente de quê?

Resposta:

De italianos.

Pergunta: Só por curiosidade. Você disse: As mães traziam salgadinho, Coca-Cola. O refrigerante era Coca-Cola, guaraná, ou o quê?

Resposta:

Coca-Cola, guaraná, a gente arriscava tomar uma Cuba Libre.

Pergunta: O que é Cuba Libre?

Resposta:

Rum com uma rodelinha de limão e Coca-Cola em cima. Mas aquele rum não se esgotava nunca, porque a gente ia colocando Coca-Cola em cima. Era só um dedinho de rum e o copo ia ficando vazio e só Coca-Cola. Cerveja, não; a moda era Cuba Libre.

Pergunta: E Martini?

Resposta:

Martini até que alguém tomava, mas o forte da moçada era Cuba Libre mesmo. Não sei se eles tomavam outra coisa assim, escondido, mas Cuba Libre... Você olhava a mesa assim... E refrigerante, porque a moçada não bebia assim de abusar.

Pergunta: Que tipo de música vocês dançavam? Ou não dançavam?

Resposta:

Bolero e samba canção; valsa já tinha saído do cardápio. Era mais bolero e samba canção. Era muito gostoso. Só música lenta.

Pergunta: Vamos falar da dança, da música.

Resposta:

Depois eu falo das orquestras pra você. A gente dançava ao som de orquestra. Era muito chique. Tinha as orquestras... Verei se lembro de alguma que eu.

Pergunta: Vamos falar das orquestras.

Resposta:

Vamos falar das orquestras! Eu me lembro. Sílvio Mazuca, Osmar Melani, Dick Farney era imbatível. Tabajara, orquestra Tabajara. O Silvio Mazuca era mais... Tabajara era um pouquinho mais avançada, tocava rumba, uns ritmos mais calientes. Esse tipo de música eu não conseguia dançar. O pessoal bailava, mas eu não. Bolero e samba canção era o forte. E não parava. Era só o tempinho de comer um salgadinho e dançar de novo. Deixa eu ver se lembro alguma música assim, muito gostosa. O Dick Farney cantava uma música assim: Dick, arrumei um amor Leblon, lá, lá, lá... Beleza da praia, não é de ninguém, não pode ser minha, nem sua também.

Pergunta: E quanto ao teatro da época, você não lembra de nada?

Resposta:

Tinha teatro. A primeira vez que fui ao teatro foi na escola Júlio de Mesquita. Sônia Guedes, querida Sônia Guedes, e Petrin. Então a gente não ia ao teatro, para São Paulo, porque era complicado. E a turma gostava mais de ficar em Santo André e não tinha teatro. Teatro eu fui na Júlio de Mesquita e depois numa época assim um pouquinho mais moderna. Depois, se você quiser continuar nesse assunto, pergunte da época do teatro, assim mais moderno, mais para frente. A gente ia apenas ao cinema, nas domingueiras, aos bailes quando vinha orquestra. Sim, esqueci de um detalhe! Todo sábado a gente fazia bailinho na casa de alguém. Alguém levava a vitrolinha, aquelas pequenininhas, seus discos, as meninas levavam o salgadinho e os meninos o refrigerante.

Pergunta: Que salgadinhos eram?

Resposta:

Era lanchinho, porque salgadinho naquela época o pessoal pedia para mãe fazer, aquelas coisas. Minha mãe fazia um bolo salgado muito gostoso, tinha bastante recheio, e lanchinho de pão Pullman, presunto, queijo, acho que nem tomate tinha. E refrigerante. Bebida alcoólica nem pensar! Eu nunca vi ninguém tomando uma cerveja, nada. Refrigerante. Todo sábado era na casa de alguém. Isso era à tarde, começava por volta de cinco e pouco para não terminar muito tarde, e dez horas ia cada um para sua casa .

Pergunta: Dez horas todo mundo ia pra sua casa! Então dez horas a cidade adormecia?

Resposta:

Adormecia. Adormecia mesmo! Porque dez horas não tinha mais nada. Se ia ao cinema, também dez horas tinha que estar em casa. Não sei se alguém ficava na rua, mas também não saía mais depois. Era muito difícil.

Pergunta: O ingresso para esses bailes, para ver essas orquestras famosas, era muito caro?

Resposta:

O pai era sócio do Primeiro de Maio, então eu não lembro. Sócio eu acho que não pagava. E o Primeiro de Maio tinha um poder aquisitivo muito bom, então eu não lembro de pagar, nem carnaval, nem quando vinham as grandes orquestras.

Pergunta: Já que você falou em carnaval, fale um pouquinho das fantasias, lança-perfume, como é? Tinha concurso? Como era o carnaval no ABC?

Resposta:

Tinha. Quando eu era mais garota, assim, já tinha os blocos que saíam. Eles faziam o pré-carnaval, ou seja, o Ocara e o Panelinha, para depois, na terça-feira gorda, saía aquele rancho, gigante. Então saía mais em bloco. Assim, uns vinte caras em cada bloco, dezesseis. Eu apanhava para ir no carnaval. Você acredita? Tomava umas bolachinhas do pai. Porque minha mãe adorava. Ela queria ir na rua ver o que estava acontecendo. Então, eu ficava em casa chorando que não queria ir. E eu morria de medo de lança-perfume. Nossa! Eu tinha um pavor daquilo. E meu pai uma vez me deu uns petelecos e disse: Vai junto com a sua mãe. Ele não ia, mas minha mãe ia. Ele não se importava que minha mãe fosse, e nem eu. Ele fazia questão que eu fosse. Tem gente que apanha porque foi e eu tomei uns tabefes porque não queria ir.

Pergunta: E havia rivalidade dos clubes nessa época?

Resposta:

É, Ocara e Panelinha sempre, mas só nessa época de carnaval. Só na época de carnaval, acontecia de a turma brigar, se enfrentar, pode ser que tenha acontecido isso, mas eu não fiquei sabendo. Era só no carnaval mesmo, porque era muito gostoso, porque um queria ganhar o troféu, o outro também queria, então eles faziam o máximo. Então o carnaval era muito bom, muito gostoso e muito chique.

Pergunta: Tanto o de rua como o de clube, ou só o de clube?

Resposta:

Ocara e Panelinha, só os dois, porque rancho... Aqueles blocos que saíam acho que não tinham condições de fazer aquelas coisas melindrosas que eles faziam.

Pergunta: Esse pessoal sem rancho, da rua, era gente de poder aquisitivo menor?

Resposta:

Não porque eu também não saía. Depois me convidaram para sair. Mas meu irmão virou diretor de um bloco, a moça deu para ele a bandeira, se chamava Chora na Rampa e depois eles passaram para Bronca Clube, não sei por que, também nunca perguntei. Então nós saímos para fazer aquele carnaval antes; acho que uma semana antes a gente saía com o bloco. Podia usar o que quisesse, para a bateria sair e mostrar o potencial da bateria. Mas era rancho. Nunca fizeram coisa assim, sair como saía o Ocara e  Panelinha.

Pergunta: Por que chamava rancho?

Resposta:

Rancho. Eu não sei como se fala agora, mas rancho era aquela coisa imensa que eles faziam. Eu não sei, você tem que perguntar para alguém, não se chamava bloco, chamava rancho mesmo.

Pergunta: Seria o equivalente a bloco?

Resposta:

Não, aquela coisa mais virtuosa. Agora nem sei como é que chama quando sai aquela escola de samba, era outra coisa, mas se falava rancho mesmo, tenho certeza.

Pergunta: E que fantasias faziam sucesso? Eram fantasiados?

Resposta:

Ah! Sim, mas cada bloco tinha uma ala, especificado, assim, de alguma coisa. Primeiro saiam os guardiães, depois os gregos, ala das baianas acho que nunca tinha naquela época.

Pergunta: Era todo ano a mesma forma ou havia variações?

Resposta:

Não, saía cada ano uma fantasia diferente. E a rixa ali até ganhar troféu mesmo. De melhor bateria, melhor em tudo, e eu saía no bloco. Uma vez saiu bloco e de protesto mesmo porque eles iam fechar a Santa Casa aqui em Santo André. A minha irmã conseguiu arrumar uniforme de enfermeira. Eu tenho foto lá em casa, deveria ter trazido para vocês. Saíam os pacientes, de jaleco branco, com aquelas calças cortadas, enfaixados, tudo cheio de mercúrio- cromo, um saía de bengala, e a ala das enfermeiras. Precisa ver que lindo, todo mundo branquinho, com uniforme completo de enfermeira mesmo. Elas usavam aquele lenço, aquela aba, uma roupa branca e mais o avental por cima.

Pergunta: Ia fechar por quê?

Resposta:

Eu não lembro. Nessa época a gente não se envolvia com essas coisas. A gente não ficava sabendo. E a cabeça ficava em outro lugar. Dezenove, vinte anos, a cabeça... Deixa para os mais velhos se preocuparem.

Pergunta: Tem alguma música tema de carnaval?

Resposta:

Deixa eu contar um detalhe: eu era porta-estandarte. Meu irmão saía na bateria e eu era porta-estandarte. Ensaiava todo mundo na Rua Cesário Motta, na nossa rua mesmo. Saía de lá o bloco. Sempre saiu da casinha. É que eles batucavam tanto que a gente não cantava, tinha esse detalhe.

Pergunta: Nem no salão?

Resposta:

Ah! No salão sim. Tomara que chova três dias sem parar; mesuro grande magoa; e lá em casa não tinha água nem para cozinhar. Tocava música mais antiguinha. Também, lógico, tocava umas moderninhas também. Agora essa época foi de ouro mesmo.

Pergunta: Atividades políticas, ainda na juventude algum envolvimento?

Resposta:

Não. O meu pai, na hora de votar, dava umas coordenadas.

Pergunta: Você já trabalhava?

Resposta:

Eu comecei a trabalhar com 14 anos.

Pergunta: Conta para a gente que trabalho você fez, como eram os direitos trabalhistas, como é que se via a mulher trabalhadora?

Resposta:

Nós não tivemos problemas! Eu pelo menos nunca tive. Comecei a trabalhar na Rhodia, trabalhei na sessão de colocar palheta no óleo. Sabe o que é palheta? Eu fazia isso. De tanto fazer isso, a palheta tinha uma substância, eu não lembro, era acetona em cima de uma camurça, colocava-se a palheta ali para ficar macia e depois no óleo. Acabou com a minha mão. E não podia trabalhar de luvas, ninguém trabalhava, acho que nem existia isso. Eu fui trabalhar numa loja ali na rua do comércio, Coronel Oliveira Lima. Eu trabalhava em uma loja, e na frente, graças a Deus, tinha uma loja que vendia discos, então tocava o dia inteiro músicas que estavam no auge. E eu cantava junto. Nelson Gonçalves também, estava no auge nessa época. E depois, no Fórum, quando entrava um inquérito policial civil, eu que preenchia a fichinha.

Pergunta: Teve uma pessoa que disse que você, no Primeiro de Maio, atuava em algumas peças. Como eram essas peças?

Resposta:

No dia Primeiro de Maio, nós começamos com uma peça bem pequena. Até minha irmã fez uma pontinha, ela era secretária. Eu não lembro o tema, só que depois que terminaram essa peça, o Augusto, que foi nosso diretor, foi o precursor, Augusto Maciel, ele que juntou uma turma para fazer teatro, a gente cantava, tinha um violeiro, umas musiquinhas ali, a peça eu não lembro, só sei que a minha irmã era secretária, e depois tinha o bailinho.

Pergunta: Foi Santo Milagroso?

Resposta:

Não, Santo Milagroso foi depois. Começou no Primeiro de Maio. A gente fazia aquelas coisinhas, aquelas brincadeiras aos domingos, chamava-se domingueira, mas Augusto quis fazer uma coisa forte, com mais responsabilidade. Então o que nós fizemos? A gente estava ensaiando só para cantar músicas de festivais, da Record, que era uma vez por ano. E a gente cantava nas domingueiras, mas eu quis fazer algo mais. Então nós fomos ao teatro, e ele pegou sua apostila, fez uma cópia para cada um e juntou a turma, ele tinha uma turma muito boa. Tinha o Taubaté que fez teatro até pouco tempo atrás, a Cecília, a essa hora aonde ela estiver, deve estar muito feliz, tinha um vozeirão, um potencial, um rapaz chamado Antonio Carlos que também tinha uma voz belíssima água e depois foi para o rádio. A gente perdeu o contato depois daquela fase. Tinha o baterista muito bom. O rapaz que tocava violão, e Augusto, o diretor. Era em torno de uns nove rapazes e só eu e a Cecília éramos as cantoras. Eles também cantavam. Mas a gente que puxava. E esse moço Antônio Carlos que cantava muitíssimo bem foi para rádio, também tinha uma voz muito boa, muito linda, então esses três seguravam e os demais encenavam. Nós fomos lá, a peça, aquele encanto. Eu não sei quais das artistas eu peguei, mas acho que foi a Dinah Sfatt, Maria Betânia acho que já tinha, não sei se ela fazia uma ponta, não lembro. Eu lembro mais da Dinah Sfatt e do Guarniere. Começamos a decorar essa peça. Foi um sucesso!

Pergunta: Apresentavam para quem? Onde?

Resposta:

Primeiro, no Primeiro de Maio. Foi a nossa casa. Depois alguns clubes começaram a chamar a gente. Ocara tinha uma sala muito pequena, mas o pessoal do Ocara freqüentava o Primeiro de Maio, não tinha a sede, aquela sede enorme, que cabia um monte de gente. Então quando fazia, o pessoal do Ocara era mais ligado com a gente do Primeiro de Maio. Depois nós fomos convidados a participar com essa peça em Piracicaba e o dinheiro não era para a gente, era revertido para os meninos que iam se formar em agronomia, Piracicaba. Não sei se alguém viu ou o Augusto fez contato com alguém e nós levamos essa peça em Piracicaba, mas antes a gente fazia um joguinho no palco, antes de entrar em cena a gente cantava as músicas de festivais.

Pergunta: Você lembra?

Resposta:

Lembro. Eu acho que cantei essa música umas cinco vezes lá em Piracicaba.

Pergunta: No mesmo dia?

Resposta:

Na mesma noite. Depois que acabou a peça, eles serviram um jantar para a gente. Coisa simples, de meninos de república, mas foi feito num bar imenso. Nunca vi tanto menino junto. E eu cantei a música do Chico Buarque, A Banda, só um trechinho porque ela é muito comprida e eu esqueci os melhores: Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor, a minha gente sofrida, despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor. E mais uma, e não sei o quê. E lá vou eu de novo. A segunda vez ainda, foi muito gostoso. E depois nós fomos duas vezes a Campinas. Nós ficamos bem internacionais mesmo. O pessoal de Campinas adorou, e depois a gente foi numa próxima vez, continuamos fazendo aqui, em Santo André. Eu acho que estava na hora de renovar. Alguém me perguntou outro dia se ninguém foi preso. Era coisa de protesto.

Pergunta: Vamos falar um pouquinho da ditadura.

Resposta:

Também não senti. Li alguma coisa, lógico, do que estava acontecendo, mas a gente não se envolvia com isso, pelo menos o pessoal que estava com a gente. Era mais o pessoal de São Paulo. Da faculdade, pode até ser que alguém tenha ido, mas eu não fiquei sabendo. A nossa turma era aquela mesmo, como falei, era aquela panelinha mesmo. A gente ficava só aqui, não saía para outros lugares.

Pergunta: Esse grupo de teatro permaneceu junto por quanto tempo?

Resposta:

Eu saí antes, eu saí em 1968. Acho que fiquei uns dois anos, um ano e pouco com eles, levando a peça a outros lugares. A gente ia em todos os lugares que convidavam, a gente estava lá. Restaurante nós fizemos uma vez. Tem uma casa de esquina, muito antigo esse restaurante, na Senador Fláquer com a rua do comércio, lá onde começa a Fernando Prestes, na parte de cima, no penúltimo quarteirão já começa a Fernando Prestes, começo da Fernando Prestes, Ítalo-Brasileira, Sociedade Ítalo-Brasileira. Depois nós começamos a ensaiar o Santo Milagroso. A gente ficou bastante tempo assim, na área. No Santo Milagroso eu fiz uma ponta, a mulher do pescador. Minha fala era só aquela, na hora que tiram meu marido da água, eu falava: Ai, Deus... Quer dizer, estavam tirando, eu falei: Não deixem morrer meu marido porque é o único que eu tenho. Era só isso, ficava lá no palco, mas a minha fala era só essa. Eu não lembro onde nós fizemos essa peça, acho que foi no teatro em São Caetano do Sul. Santo André demorou um pouquinho para ter teatro, lá nós nunca fomos. Que mais? Depois começamos a ensaiar Antígole e eu já era noiva. Meu noivo não estava nem aí. A gente saía na escola e ele ia atrás, porque não sambava nada, nunca falou para eu não ir. Meu irmão: Você deixa seu noivo aí, sozinho, e você fica ensaiando, ou ele ou o teatro. Mas a opção foi minha. Conheci meu marido e em um ano nos casamos. Eu conheci meu marido em fevereiro, época de carnaval, muito boa essa época. Em abril do outro ano a gente se casou. Eu que fiz a opção, porque se fosse por ele, eu não tinha deixado. E a gente nem discutiu isso. E Antígole era uma peça muito complicada para minha cabeça. Eu sempre fui meio atrapalhadinha assim. Eu acho que eu daria melhor em comédia e Antígole era muito sério. Então eu pendurei a chuteira. Mas contínuo cantando por aí, de vez em quando.

Eu acho que era mais para nossa idade mesmo, de vinte e poucos anos assim, na faixa de trinta e poucos aos quarenta, porque quando nós fizemos na Sociedade Ítalo-Brasileira, e no Primeiro de Maio também, mãe e pai ia junto, então acho que atingiu uma faixa um pouco mais velha que a gente. Mas a faixa era a moçada mesmo de vinte  até uns trinta e pouco.

Pergunta: Vamos falar um pouco da televisão, da inserção da televisão na sociedade, do homem na lua, como foi isso?

Resposta:

Nossa! Homem na lua foi ótimo, porque quem iria imaginar que aconteceria isso. E a televisão, meu pai, novidade era com ele mesmo. Televisão também tinha seus horários. Aqueles programas eram bons, mas tinha o horário para terminar. A gente não assistia TV o dia inteiro. E os programas eram muito bons. Tinha um programa, Sítio do Pica-pau Amarelo, que a gente assistia todo domingo, e os cantores, os calouros. Tinha o programa de calouros, acho que era mais para parte musical, teatro assim começou um pouquinho mais tarde. Aquelas novelas, não era nem teatro, era novela. A televisão foi uma coisa boa que aconteceu, mas não deixava de ir ao cinema.

Pergunta: Você tem uma história de trabalhar em firmas, como era?

Resposta:

Nossa, aquilo lá era imenso! Agora é tão moderno. Agora eu não sei nem mexer. Acho que fui quase pioneira. Eu comecei a trabalhar na Antártica e não tinha curso, como tem agora. Eu não sabia nem o que era aquilo. Tinha o meu curso de datilografia. E até hoje continua. Porque se não sabe datilografia, também não consegue trabalhar. Mas eu fui para a Antártica, eu tinha uns dezenove, vinte anos e quando eu vi aquilo, eu me assustei. Eu fiz o curso lá mesmo de quinze dias com uma das moças que tomavam conta do setor. Eu só trabalhei na digitação, que naquela época se chamava perfuração, aqueles cartões, se entra no horário. Se dava errado, jogava no lixo. Agora esse moderno aí, não sei nem mexer, então continuei fazendo isso até na época que saí da Antártica.

Pergunta: Muitas mulheres trabalhavam?

Resposta:

Sim. Muito mais mulheres do que homens. Homem mais para mexer em máquinas grandes que eram mais complicadas. Mas digitação era só mulher, sem preconceito.

Pergunta: Onde mais você trabalhou?

Resposta:

Acho que  foi no Fórum, na loja e depois na Antártica.

Pergunta: Tinha direitos trabalhistas, registro em carteira, como era?

Resposta:

Antes era o pai que cuidava disso, depois meu irmão. Nunca  tive problema nenhum.

Pergunta: Registro?

Resposta:

Não. Falando em registro até quando eu trabalhei na Antártica, que foi meu último emprego. Eu trabalhava aqui na Rhodia, eu tinha dois empregos. Das 7:00h às 13:00h, lá na Mooca, e das 16:00h às 22:00h aqui na Rhodia. E ainda ia para o carnaval.

Pergunta: Era registrada nos dois empregos?

Resposta:

Nos dois empregos.

Pergunta: Com os direitos trabalhistas?

Resposta:

Nos dois, igualzinho.

Pergunta: Saiu para se casar?

Resposta:

Não. Ficou complicada minha vida porque tem uma hora que você não dá conta. Fiz isso um ano e ainda ajudava a mãe em casa porque era minha mãe que costurava a fantasia. Era tudo lá em casa. E ajudava a mãe ainda nos afazeres. Então, eu fui cansando, porque era um ano para baixo e para cima. E trem..., às vezes, até chegava um pouco atrasada no outro, no outro dia. Mas eu sempre levantei na hora certa. Trabalhar para mim era uma delícia.

Pergunta: Ia de ônibus ou trem?

Resposta:

Eu ia de trem. Eu morava ali perto da FAISA, na Lino Jardim, e ia a pé, não tinha Paço Municipal, era uma reta só. Eu ia até a estação. Tinha que tomar o trem das 6h20min, porque se tomasse o das 6h23min, eu já ia marcar cartão atrasado.

Pergunta: E ali no Paço Municipal tinha o quê?

Resposta:

Nada, só terreno.

Pergunta: Como era a iluminação?

Resposta:

Também não tinha. Mas também não tinha perigo. Tinha mais na avenida. Na 15 de Novembro. Mas também tinham poucas casas, dois botequinhos, mas não tinha perigo, não. Atravessava aquilo ali. Horário de verão então minha mãe ficava descabelada, coitada porque era 5h30min, 5:00h eu saía de casa; 6:00h era 5:00h. Mas nunca aconteceu nada, tranqüilo.

Pergunta: E a participação política, mais atualmente nas Diretas Já?

Resposta:

Não, nessa parte eu não sou política.

Pergunta: Aposentadoria, família, filhos?

Resposta:

Aposentadoria... Eu falei para o meu marido: Você não está pagando minha aposentadoria? E ele falou: Eu não. Como é que eu fico? Ele falou: Meu seguro é alto. Eu falei: Mas não interessa. Ele falou que estava resolvendo isso daí,  porque já estava na época. Eu comecei a trabalhar com dezesseis anos, eu tenho sessenta, eu acho que já fechou. Ele falou que ia ver.

Era muito escuro. Era coisa muito simples. Só que chamava atenção. Quando passava na rua. Era coisa moderna, não tinha. Não sei se São Paulo tinha, eu acho que sim. Depois eles fizeram aqui. Agora Santo Milagroso acho que foi lá. Mas no Teatro de Alumínio a gente levava só músicas de festivais. E não sei se nós levamos no teatro. Acho que umas duas vezes nós fizemos alguma coisa lá, desse jeito.

Pergunta: Tem alguma atividade hoje, no terceiro setor, que ajude pessoas assim, ou seja, qual a sua atividade hoje?

Resposta:

Eu sou muito doméstica. Não parece. Adoro ficar em casa. Umas das atividades é ficar em casa. De vez em quando vou aos asilos por aí e cuido da minha tropa.

Pergunta: Quantos filhos, netos?

Resposta:

Três filhos e dois netos.

Eu já comentei de cinema. No cinema a gente ia para fazer molecagem mesmo, assobiar.

Pergunta: Lembra dos filmes?

Resposta:

Ah! Lembro de quase todos, porque era... Esse detalhe eu deixei escapar. Ainda bem que você perguntou. Eram apenas filmes nacionais. Mazaroppi, Oscarito que eram imbatíveis. E as meninas que cantavam Emilinha Borba, sempre tinha música nos filmes da Atlântida. Sempre tinha porque era só passado assim, dentro de uma boate ou num lugar que tinha orquestra, então sempre tinha música.

Pergunta: Vamos encerrar então com a sua riqueza, sua lição de vida. O que gostaria de deixar para os jovens de hoje como mensagem?

Resposta:

Eu tenho um filho músico. A música faz muito bem para a saúde. Graças a Deus que agora eles estão fazendo assim, juntando a moçada para aprender a tocar alguma coisa, cantar, tocar, participar, então esporte, música, estudem bastante que faz bem pra saúde.

Pergunta: Podemos cantar uma música?

Resposta:

Vamos lá. Tem certos dias em que eu penso em minha gente e sinto assim todo meu peito apertar, pois me parece que acontece de repente, como desejo de eu viver sem me notar. Igual a quando eu passo no subúrbio, muito bem, vindo de trem de algum lugar, aí me dá uma inveja dessa gente, que vai em frente sem não ter com quem contar. São casas simples com cadeiras na calçada e na faixada escrito em cima que é um lar, e na varanda flores tristes e baldias, como a alegria de não ter onde encostar. Aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de não ter como lutar, eu que não tenho peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar.


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul