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Jose Bonifacio Carvalho

Boni Carvalho, como é conhecido, é ator desde os anos 1960. Formou-se na EAD e na Fundação das Artes (SCS) e montou muitas peças na região. Desde 1972, atua no Grupo Cênico Regina Pacis, de S. Bernardo. Trabalha também como arte-educador.

Imagem do Depoente
Nome:Jose Bonifacio Carvalho
Nascimento:04/03/1943
Gênero:Masculino
Profissão:ator / advogado
Nacionalidade:Brasil
Naturalidade:São Paulo (SP)

Transcrição do Depoimento de Jose Bonifacio Carvalho em 07 e 09/12/2004
Depoimento de JOSÉ BONIFÁCIO DE CARVALHO, 61 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 07 e 09  de dezembro de 2004.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Priscila F. Perazzo, Eleonora Chagas e Carla Danielle Porrino (07/12). Amanda Martinez e Vilma Lemos (09/12)

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta:

A gente começa falando um pouco da sua infância, irmãos, pais, data e local de nascimento.

 

Resposta:

Nasci em São Paulo capital, em 4 de março de 1943, meu pai também é José Bonifácio de Carvalho, eu não herdei nem júnior e nem filho, minha mãe é Adelaide de Carvalho. Quero voltar um pouco antes no tempo, isso nos meus pais, porque eles se conheceram em São Caetano. O meu avô paterno que hoje dá o nome ao colégio do Estado, Coronel Bonifácio de Carvalho, morou aqui no final dos anos 20 e os pais da minha mãe também moravam aqui. Minha avó materna é de origem portuguesa, de trás dos montes, e moravam quase vizinhos nessa época, final dos anos 20 e começo dos anos 30. Meu pai devia ter uns 19 anos e minha mãe uns 16 e se conheceram aqui. Só que depois a família do meu pai voltou para São Paulo. Minha avó paterna era professora e às vezes ela era removida de uma escola para outra. Eles voltaram para São Paulo, continuaram com o namoro e se casaram em 1942, em São Paulo, na Igreja da Penha, e nós fomos morar na casa do meu avô paterno, no centro velho de São Paulo, na Rua Rego Freitas. Em 1948, ano da autonomia de São Caetano, exatamente no dia 1º de maio de 1948 a gente mudou para São Caetano. Saímos da casa do meu avô paterno e viemos morar na casa da minha avó materna, num casarão na Rua Amazonas. Aí nós éramos, sou o primeiro de quatro irmãos, tem o segundo, Antonio Carlos de Carvalho, falecido com 50 anos, trabalhou aqui no IMES, foi assessor da diretoria de 1976 até 1983 e dois irmãos gêmeos, Martim Francisco e Francisco Tadeu. Martim Francisco já é falecido e Francisco Tadeu tem 57 anos, mora em Santo André, mas trabalha na Prefeitura de São Caetano há 37 anos. Interessante dessa dos irmãos é que meu pai, muito patriota, não sabia, mas acabaram vindo quatro homens, José Bonifácio, Antonio Carlos e Martim Francisco, Os Três Andradas. Ele tinha orgulho disso. Só que o último ninguém sabia que eram gêmeos. Na hora do parto que foram ver que tinha mais um. Os Andradas eram só três, mas como eles nasceram no dia 28 de outubro, ficou Francisco Tadeu por causa de São Judas Tadeu, esse irmão que mora em Santo André, mas vive ligado a São Caetano também. Nós viemos para São Caetano, fiz toda a minha formação aqui. Na época, os nomes não são familiares para vocês, mas o curso primário eu fiz na Escola Paroquial de São Caetano, atual Sagrada Família, ligada à Matriz de São Caetano. No ano passado comemoramos 50 anos de formatura da escola primária. Depois fiz o ginásio no Colégio Bonifácio de Carvalho, o nome do meu avô, num prédio que ficava na Rua Senador Fláquer. E os três anos de colegial, fiz o curso clássico na época, mais voltado para a área de humanas, fiz no prédio novo aqui da Goiás, de 1958 a 1960. Em seguida prestei vestibular para a Faculdade de Direito da USP, com 18 anos, em 1961, e ingressei na faculdade com 18 anos. Na época não existia FUVEST, era cada faculdade com o seu vestibular. Eu acabei entrando em 19º lugar, numa turma de mais de 200. Eu não interrompi meus estudos nenhuma vez. Só na faculdade, no penúltimo ano, já começa a entrar o teatro, no quarto ano eu fiz quatro matérias e não podia levar quatro DPs, e no ano seguinte fiz as quatro matérias. Depois fiz o quinto ano, em 1966, quando me formei.

 

Pergunta:

Fale um pouco das brincadeiras de criança.

 

Resposta:

Aqui em São Caetano, eu morava na Rua Amazonas, entre a Rua Monsenhor Francisco de Paula e a Rua Nilo Peçanha, um pouco para cima da Goiás, onde hoje é um mercado, o Joanim, na Osvaldo Cruz com Piauí, tinha um campinho de futebol. Tinha vários campinhos, mas tinha um campo de futebol onde a gente jogava, descalço, de terra, meio inclinado. Era aquele joguinho de quatro vira, oito acaba. Era mais futebol mesmo, descalço. Apanhei muito do meu pai na época que jogava bola. Ia para a rua, uma coisa assim meio complicada na época. Mas eu nunca fui grande craque de bola. Empinava pipa, bolinha de gude. Era basicamente isso. Uma coisa que na época era mais comum, era uma coisa mais delicada, mas a gente jogava peteca. Aí misturava os meninos com as meninas. Mas futebol predominava. Quando não era no campinho, era na rua mesmo. Quando mudei para cá, em 1948, a Rua Amazonas não era asfaltada ainda.

 

Pergunta:

Como era antes, quando São Caetano pertencia a Santo André?

 

Resposta:

A gente veio para cá justamente no ano da autonomia que aconteceu em outubro de 1948. Por que nós viemos para cá? Porque meu pai, que era bancário, tinha conseguido um emprego na Prefeitura. Ele foi trabalhar na tesouraria da Prefeitura e a gente veio em maio; estava para acontecer a autonomia, que ocorreu em outubro e ele foi efetivado como funcionário da Prefeitura. Antes da autonomia, aqui em São Caetano tinha uma subprefeitura que pertencia a Santo André, que era o município grande. De 1948 para cá começou a haver a separação dos municípios de São Caetano, São Bernardo e assim por diante. Com a autonomia, São Caetano só tendia a crescer. Conseguiu essa autonomia de uma forma bem pacífica. Evidentemente havia pessoas contra, mas houve uma votação. Comemoramos em 1998 os 50 anos da autonomia. Meu pai chegou até a participar um pouco, embora à distância. Em relação à autonomia, na verdade foi o segundo movimento de separação de São Caetano, porque em 1928, quando meu avô estava aqui, ele participou do primeiro movimento. Ele e mais um pessoal da época. Ele tinha um jornalzinho. Meu avô era farmacêutico e coronel da reserva do exército e tinha havido um movimento em 1928, que não deu certo. Aí, 20 anos depois, aconteceu a autonomia, que meu avô não chegou a ver, porque ele faleceu um ano antes. Tem toda essa ligação com a autonomia de São Caetano. E de 1948 para frente São Caetano só desenvolveu, tinha seus próprios impostos, sua Prefeitura, e aí todo esse desenvolvimento começou por aí e hoje é toda essa potência que é. O pessoal que critica diz que com esse tamanho de território é fácil, que não tem os problemas que Santo André e São Bernardo têm. Mas eu acho que realmente é a população que faz isso.

 

Pergunta:

O senhor se lembra dos cinemas da cidade?

 

Resposta:

A televisão começou em 1950 e até pegar a televisão, a diversão era o cinema. Os cinemas, o único que existiu até pouco tempo foi o Cine Vitória. O prédio está lá ainda, mas não é mais cinema. Existiam duas famílias, a família Lorenzine, que tinha três cinemas, o Cine Max, ao lado da estação ferroviária, que hoje é um templo do Edir Macedo, o Cine Primax. O prédio ainda existe. Era na esquina da minha casa. Depois da Rua Amazonas eu mudei um pouco mais para cima, na Rafael Correia Sampaio e na esquina de cima da Amazonas com a Maranhão tinha o Cine Primax. Eu me lembro que com 14 anos comecei a ir sozinho ao cinema. Antes era meu pai que levava. Na matinê, sessão da tarde, aí começava a namorar. Tinha uma menina que era vizinha de casa e a gente combinava de se encontrar lá dentro do cinema. Primeiro por ser escondido e segundo que cada um pagava a sua. E no centro de São Caetano, onde hoje é uma casa de shows, acho que agora está fechada, na Rua Manoel Coelho, bem em frente à Praça Cardeal Arco Verde, era o Cine Urca, que era da mesma família Lorenzine. O Urca teve uma reforma e virou Cine Lido e depois acabou. Acho que foi o primeiro que fechou esse Cine Urca. O interessante era como você devia se vestir para freqüentar o cinema. Não podia entrar de chinelo nem de sandália. Era sapato fechado, paletó, estando calor ou não. Se você tirasse o paletó durante a sessão, vinha o lanterninha que era aquela figura, uma espécie de um guarda noturno no cinema, que quando a gente entrava atrasado, estava tudo apagado, ele com a lanterninha, por isso o nome, ia indicando os lugares vazios. E ficava vigiando a molecada, principalmente na matinê. Aquela turma que sentava na última fila, para namorar, o cara ia com a lanterninha. Se você tirasse o paletó, o cara vinha. Era aquela vigilância. E tinha a censura dos filmes. A gente queria logo fazer 18 anos para poder assistir a um filme mais picante, proibido. O Cine Vitória era ponto aos domingos, junto com o Cine Max. Tinha duas sessões à noite, isso com 18 anos. A gente freqüentava. A primeira sessão era das meninas, dos casais que já estavam namorando e a segunda sessão era da turma mais pesada, dos solteiros, de quem podia ficar até mais tarde. Era interessante, tanto no Vitória como no Max havia uma concorrência e a gente freqüentava tanto um como outro. Geralmente o filme ficava duas semanas e numa semana a gente ia a um e na outra semana, no outro. Interessante era quando terminava uma sessão e começava outra. O Cine Max só tinha uma entrada e por onde entrava, saía. Era aquela loucura. O pessoal saindo de uma sessão e o saguão cheio. Comprava o bilhete e ele rasgava o bilhete. E sempre ficava um bolo ali para a segunda sessão. A turma ficava embolada perto do bilheteiro e eles abriam uma porta lateral para o pessoal sair. E mais de uma vez, a malandragem era a seguinte: dois ou três colegas compravam um ingresso só ou meia, porque era de estudante, muita gente falsificava a carteirinha, o ano, muitas vezes nem estava mais na escola e tinha carteirinha para exibir para o porteiro a meia entrada. A gente ficava embolado e quando dava aquela primeira avalanche de gente para entrar, entrava um bolo. Dava um ingresso e o resto entrava atrás. É aquele negócio de furar a lona do circo. Também tinha muito isso, porque vinham muitos circos para cá nos terrenos. No cinema era essa a malandragem da época.

 

Pergunta:

Quais eram os filmes que vocês mais gostavam?

 

Resposta:

Dos épicos, "Ben-Hur", "Os Dez Mandamentos". E as meninas gostavam dos filmes mais românticos da Dorys Day, Rock Hudson, os galãs da época, Elvis Presley, Kirk Douglas, filmes de aventura. Nas sessões tinha sempre um seriado antes do filme principal, como tem na televisão hoje. Era "Zorro", "Cavaleiro Negro", "Roy Rogers", o cowboy da época. Era em capítulos e durava quatro domingos. Antes de começar o filme principal, era um capítulo do episódio do "Zorro", o do cavalo, não de capa e espada. Tinha o cavalo e o amigo dele, o Tonto. Eram essas aventuras. Já na época eram antigos. Mas ninguém queria perder esses seriados, como se faz com novela hoje. Tinha também um jornal, "Jornal da Tela", com atualidades. Tinha o "Canal 100", Primo Carbonari. Antes do filme principal tinha sempre alguma coisa a mais na programação. É interessante porque o Cine Vitória, nos anos 60, editava uma revistinha, eu tenho em casa alguns números, e eles davam a programação. Davam uma revistinha com propagandas de gráficas, de lojas, Irmãos Del Rei, Casas Bahia, que não tinha essa dimensão que tem hoje, mas já existia, porque ela começou em cinqüenta e alguma coisa. Era uma revistinha que saía com a programação do mês. O Cine Vitória era chamado de A Jóia do Triângulo Industrial, alguma coisa assim, porque é da família Dalmas. Essa revistinha, recentemente um amigo nosso tinha um calhamaço dessas revistinhas e levou para a gente. Todas as coisas de memória, eu resgato isso mesmo em São Caetano. No ano passado comemorei 50 anos de curso primário. Quando nós fizemos 18 anos do colegial, a gente começou a reunir o pessoal de São Caetano, uma turma pequena, mas a gente se reúne até hoje e fundamos um clube, Turma dos Anos 60. Todo mês a gente se reúne numa cantina de São Caetano para realizar essa troca de bula, porque todo mundo já tem mais de 60 anos. Você está tomando qual remédio? Quem morreu? Desde 1978, com idas de vindas, agora nós somos fixos e toda última quarta-feira do mês a gente se reúne em alguma cantina e bate papo. Cada um vai trazendo. Apareceu flâmula. Na época tinha muito disso por causa dos jogos esportivos, que na época do colégio, o Bonifácio era estadual e o Instituto de Ensino, que está aí até hoje, era um colégio particular. Só tinha essas duas escolas. Diziam que quem estudava na escola estadual era mais pobre e no Instituto eram pessoas que pagavam. Tinha um torneio chamado Instest, Instituto Estadual, tinha vôlei, basquete, futebol, dama, xadrez, ping-pong e vencia quem fizesse mais pontos no total.

 

Pergunta:

O senhor falou que vinham circos para a cidade?

 

Resposta:

O interessante da história do circo em São Caetano, é que como o meu pai trabalhava na Prefeitura, então sempre a Prefeitura cedia o terreno para as companhias de circo. Então eles faziam aquele rodízio no Estado todo, mas meu pai ganhava ingressos. O circo vendia ingressos normalmente, mas para a Prefeitura eles davam uns ingressos de cortesia e a gente sempre na primeira fila do circo. Mas o que tenho mais memória em relação ao circo é já na fase da televisão, do Circo do Arrelia, na TV Record. Era um circo, gravado todo domingo em São Paulo, na sede da Record e a gente podia assistir. Passava na televisão ao vivo. Era o Arrelia, que parece que está vivo ainda, beirando os 100 anos. A gente ia ao Circo do Arrelia, meu pai levava a gente. Aqui era aquele circo com tudo, com animais, com domadores, equilibristas, malabaristas. Era realmente uma atração fora de série. A gente vê hoje na televisão aquele circo chinês, aquela coisa toda, com toda aquela magia e técnicas. Mas o circo mesmo, o chão do picadeiro era uma coisa impressionante. E era de família. A pessoa nascia no circo e continuava a dinastia.

 

Pergunta:

O senhor teve algum contato com música?

 

Resposta:

Música não. Só o teatro mesmo. Agora, a música aliada ao teatro. Mas eu tenho um antepassado na música. Uma irmã da minha avó paterna, minha avó era Maria Amélia Novaes de Carvalho, a irmã dela, Guiomar Novaes, foi uma pianista muito famosa. Ela teve mais fama no exterior do que aqui no Brasil. Ela era brasileira, garota prodígio, que começou com 6 anos a tocar e foi estudar na Europa e faleceu com oitenta e poucos anos, em 1979. Ela é muito conhecida em repertórios internacionais, gravava muito nos Estados Unidos, na Europa e aqui não era muito conhecida. Ela até participou daquela Semana de Arte Moderna, em 1922. A família da minha avó tinha gente em São Paulo e em São Caetano também. Tinha um outro tio nosso, Acácio Novaes, irmão da Guiomar, que foi o primeiro presidente da Câmara Municipal de São Caetano. Ele foi autonomista. Quando me perguntam a minha árvore genealógica na arte, só me lembro da Tia Guiomar, que cheguei a conhecer, era uma pessoa educadíssima. Fui assistir a um concerto dela e tinha discos, gravações. Uns 10 anos atrás, fui procurado por uma professora da ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP, porque ela precisava fazer um trabalho, defender uma tese contando a vida da Guiomar Novaes e acabou chegando em mim porque herdei de uma outra tia todo o material da família, fotos, recortes de jornal, fotos da Tia Guiomar quando criança, porque ela nasceu no século XIX. Essa moça procurou os parentes, os filhos dela já tinham falecido e eu cedi esse material, depois ela me devolveu. Ela fez a tese, tem um livro maravilhoso que ela fez também, usando muitas dessas fotos e uma foto inclusive do século passado, do século XIX, muito interessante, que era copiada em madeira. É a única foto que essa moça obteve dos pais da Guiomar Novaes, que eram a bisavó Pureza e o bisavô Manuel. O que posso dizer em relação à música, embora na família do meu pai, todo mundo, quando a gente era garoto, precisava aprender um instrumento. Cheguei a pegar no ginásio aula canto orfeon. Na época era uma coisa meio de perfumaria. Tive um ano só. Tenho até um bom, ouvido, canto alguma coisa de seresta, mas não leio pauta. É de ouvido. Quando alguém pergunta qual é o tom, eu falo: Eu começo e você me persegue.

 

Pergunta:

Vamos falar um pouco da faculdade de direito. Você fez a faculdade de direito antes do golpe militar ou depois? Como foi a época da ditadura na faculdade de direito?

 

Resposta:

É interessante porque mesmo naquela época, tinha todo aquele movimento, aquela correria, às vezes até invasão da faculdade pela polícia, mas como eu estudava de manhã e trabalhava à tarde, eu era funcionário público, tudo em São Paulo, eu não tinha muito disso. A gente comenta hoje, quando a gente reúne os colegas da faculdade, a cada 5 anos a gente reúne o grupo, e vamos fazer no ano que vem, daqui dois anos, 40 anos, o que a gente fala hoje é que na verdade o pessoal que agitava mesmo era o pessoal que não trabalhava, os filhinhos de papai que estavam lá. Estava por estar. Não era um ideal de liberdade. Podia até ter no fundo, mas ficavam lá porque não trabalhavam, não faziam nada. Como eu trabalhava, terminava a escola eu tinha dez minutos para correr para bater o ponto na repartição. Eu morava em São Caetano, estudava de manhã, das oito ao meio-dia e entrava meio-dia no serviço. Eu saía um pouco antes da aula, corria lá para marcar o ponto para não perder a assiduidade. Eu lembro mais da época de calouro, no primeiro ano, naquela época de trote, que era mais pesado naquela época, e tinha aquele negócio de cortar cabelo e ficar até o meio do ano aquele negócio. Você tinha de ir com roupa de briga, porque na época era paletó e gravata e tinha um pessoal bastante gozador, os professores eram de idade e me lembro de um episódio, naquelas salas enormes, com 200 pessoas, eu fiquei lá no fundo e o professor na cátedra com microfone, eu estava de gravata branca e camisa branca, o professor me chamou lá do fundo e quando estava chegando perto, ele falou: Pensei que o senhor estava sem gravata. O trote era aquilo, o pessoal pressionava, não deixava você sair, tirava a roupa. Você tinha de ir com uma roupa de briga para fazer aqueles pedágios para pedir dinheiro, pintavam a cara, cortavam o cabelo. Tudo isso começou lá. Hoje até curso colegial faz trote. Eu me lembro mais dessa época. Em 1964 eu estava no quarto ano, que foi aquele ano que disse que acabei, talvez tenha até a ver com isso, mas eu comecei a fazer a Escola de Arte Dramática. Estudava de manhã, trabalhava à tarde e fazia a Escola de Arte Dramática, tudo em São Paulo. Pegava o trem das onze, na Luz, para voltar para São Caetano, com outras pessoas de Santo André. Não participei de nada, não tive nenhuma interferência, não fiz nenhum movimento. Não me atraiu na época. Agora aqui em São Caetano, por outro lado, em 1961 nós tínhamos, tudo ligado a São Caetano porque eu ia, assistia à aula e voltava e não tinha ligação com os colegas de São Paulo. Em 1961, quando estava no primeiro ano, nós tínhamos em São Caetano o Centro Acadêmico. Era uma entidade para a gente não perder o contato. A gente terminava o colegial, onde tinha o grêmio, que era super agitado também, o Grêmio Estudantil 28 de Julho, onde tinha muita atividade, jornal, universitários, porque aqui não existia, só em São Paulo e no interior, qualquer faculdade, e o pessoal que estava no colegial é que podia participar desse centro acadêmico. Eles pagavam uma mensalidade.

 

Pergunta:

Tipo a AUSA?

 

Resposta:

Em Santo André tinha a AUSA, Associação dos Universitários de Santo André e em São Caetano tinha o Centro Acadêmico. Em 1961, a coisa já estava meio efervescente e todo o pessoal do centro acadêmico era fichado no DOPS, aquela coisa toda e em 1961 a Câmara Municipal, no final do ano, estava votando um projeto de aumento dos Vereadores, de subsídios. Isso foi uma loucura. Era no prédio do Cine Vitória ainda, no último andar e o pessoal do centro acadêmico organizou uma passeata para fazer o enterro dos Vereadores. E aí sim a gente participou e tem muitas histórias disso. A gente já gravou isso para a Revista Raízes, do Pró-Memória. Tivemos um encontro para falar da época. E tem uma coisa interessante, porque era tudo gente daqui, de famílias antigas e conhecidas. Aí alguém falou que para fazer aquilo tinha de ter a autorização do delegado. Aí foram falar com o delegado. Ele falou que não ficava bem fazer passeata. A gente não falou que era contra o aumento dos Vereadores. Ele falou que a gente podia fazer a passeata, mas não era para passar em frente da delegacia, que era na Rua Rio Grande do Sul, perto de onde é o Banespa. O pessoal organizou, mas passamos em frente da delegacia. Fizemos um caixão perto, com velas na mão e fomos nos postar em frente ao Cine Vitória. O pessoal estava lá no quarto andar e a gente lá embaixo gritando. Se eu participei de algum movimento mais rebelde, foi em São Caetano, um pouco antes de 1964. Esse centro acadêmico existiu até um pouco mais e depois, na época da ditadura não deixaram funcionar, mas a gente já estava fora da faculdade. Era renovado, porque a turma entrava. Esse Clube dos Anos 60, que a gente fundou em 1984, há 20 anos, reunia exatamente essa turma, do centro acadêmico, do Instituto de Ensino, do Coronel Bonifácio de Carvalho, de outras escolas de São Caetano, do Instituto Nossa Senhora da Glória, que era só de meninas, onde hoje é a FAENAC, no topo da Amazonas, uma escola que durou pouco tempo. Todo esse grupo está sendo resgatado nesse clube.

 

Resposta:

O que o levou a fazer teatro nessa época?

 

Resposta:

Eu fiz na faculdade, mas já fazia antes. Começou em 1963, aqui em São Caetano, na Associação Cultural e Artística de São Caetano do Sul, ACASCS, que existe até hoje na Kennedy, que também era no prédio do Cine Vitória, era tudo ali. A Prefeitura foi lá, a Câmara foi lá. Quando a Câmara saiu, a ACASCS se instalou no último andar. Do outro lado era o Clube Comercial que era o clube de dança. Todo domingo tinha danças e o pessoal que gostava de dançar freqüentava o Clube Comercial. E o pessoal que gostava de artes, de pintura, de música, tinha coral na ACASCS, que o maestro era o Roberto Manzo, e tinha o clube de teatro. Começaram a fazer aqueles dramalhões "O Mundo não Me Quis", aqueles dramalhões mesmo. Em 1963, eu freqüentava o clube e não me lembro o que me atraiu, mas acabei entrando no teatro, com 20 anos na época e a primeira peça que fiz foi "O Fogo Frio". Até estava mostrando um jornalzinho da ACASCS. Tudo tinha um jornal, uma revistinha, alguma coisa. O pessoal gostava muito de escrever. E tem a estréia dessa peça, em 1963, peça do Benedito Ruy Barbosa, o mesmo autor das novelas, que é um tema rural e ele é especialista nisso. As primeiras novelas que ele fez tem um pouco da história dessa peça, de um sitiante do Paraná, que sofre com a geada, que é o fogo frio, explorado pelos bancos, naquela coisa de financiar a plantação e depois dava a geada e perdia tudo e o cara hipotecava a casa e tinha de mudar de lá porque perdia tudo. Ele veio em São Caetano na época, tenho fotos disso, entregamos um cartão de prata para ele, aquela coisa toda e foi a primeira peça que fiz. A ACASCS tinha um grupo muito legal que durou até 1972, por aí, porque o presidente do clube também era um dos atores, o Mário Dalmas, da mesma família do cinema, dono do prédio inclusive. E dessa turma também tinha o Milton Andrade, que mora aqui perto, que hoje participa até de novelas da Globo, que veio de Itapira. Começou-se a formar um grupo bastante forte e foi a mudança. Quando a gente entrou o teatro era feito com pontos, aquela pessoa que ficava na frente do palco, dentro de uma caixinha, abaixo do palco, soprando o texto para os atores. E tinha um pessoal que era acostumado a isso e não decorava nada. Também era uma arte isso, porque ele tinha de saber se era homem ou mulher que iria falar. E muitos cenários. Onde hoje é o Santos Dumont faziam aqueles dramalhões com cenários grandes, com porta, janela, tudo montado. Tinha muita maquiagem também. Lembro que a peça seguinte que fiz foi uma tragédia grega, "Eletra, de Sófodes", e eu tinha de fazer um rei antigo com 20 anos. Era uma loucura, aquele negócio de colocar barba postiça branca, pintar o cabelo de branco. Tinha um senhor que era o rei da maquiagem. Voltando nessa questão do ponto, em "O Fogo Frio", tinha um senhor que fazia o pai da família, um senhor que fazia teatro por muitos anos, ele não decorava nada. Para ele precisava ponto. A gente estava começando naquela época, tinha facilidade de decorar, então não precisava de ponto, mas para ele tinha de ter. Nós fomos fazer uma apresentação num clube, não era em São Caetano, e nós chegamos no clube e o pessoal perguntou: Onde é para pôr o microfone? Já começou daí. Não precisava de microfone, mas tinha de ter o ponto. Nesse dia a pessoa que costumava apontar a peça não foi e outra pessoa do grupo foi apontar. Eu me lembro que estava contracenando com ele e o ponto falando. Até me atrapalhava um pouco, porque eu já sabia o texto, embora ele também já soubesse, mas estava acostumado. E de repente soprou um negócio errado. Um olhou para o outro. Eu tentei disfarçar: O senhor virou duas folhas. Eu soprei para o ponto. Esse mesmo senhor, com o tempo, apesar de ser um grande ator, foi ficando com problemas de surdez. Então, não bastava ter a caixinha na frente, porque tinha cenas que ele fazia no fundo, encostado numa janela, numa porta. Então tinha uma pessoa atrás de cada lugar. Para onde ele ia, tinha alguém com o texto, porque ele falava com a maior naturalidade, como se estivesse com tudo decorado.

 

Pergunta:

Esse tipo de ponto tinha no teatro profissional também?

 

Resposta:

Claro. Era assim. Tinha o ponto. Iluminação, não era como é hoje, com esse monte de spots. Tinha a ribalta, aquela faixa com aquelas luzes coloridas que davam a contraluz. Hoje se faz contraluz com spot atrás, mas na época não tinha essa questão de iluminação. Eram aqueles panelões, não tinha foco que você podia abrir e fechar. Era panelão, como esses e a ribalta embaixo. Aqui no Santos Dumont, como eles construíram como auditório, tinha ribalta e nós tiramos a ribalta, como fizemos no Cacilda Becker, em São Bernardo, porque era uma coisa reta. A gente sempre dava uma inclinadinha, de roubar até uma ou duas fileiras da platéia para dar uma inclinada na parte de frente do palco.

 

Pergunta:

E os recursos? A ACASCS era da Prefeitura?

 

Resposta:

Era um clube. A gente pagava mensalidade e tinha essas atividades artísticas. Tinha o baile da saudade toda terça-feira. Uma vez por ano, na época junina, tem o baile da pipoca.

 

Pergunta:

E vocês vendiam ingressos?

 

Resposta:

Sim. Vendiam convites para o baile. Faziam bailes no Moinho São Jorge, que era o máximo do máximo. Fazia até uma passeata. Pegava a caipirada toda, quem dançava quadrilha, pegava uma carrocinha e saía do centro de São Caetano até chegar no Moinho São Jorge.

 

Pergunta:

Esses recursos eram suficientes para vocês montarem as peças?

 

Resposta:

Às vezes a gente também punha a mão no bolso e colaborava. Era importante essa figura do Mário Dalmas, que era o presidente. Além do cinema eles tinham também uma indústria. Uma pessoa boníssima e um excelente ator. Inclusive agora ele está com 80 anos e lançou um livro no Pró-Memória, engenheiro.

 

Pergunta:

E censura às peças?

 

Resposta:

Isso é um capítulo à parte. A censura, todo espetáculo que você montava, você tinha de mandar o texto para a censura.

 

Pergunta:

A censura era na polícia?

 

Resposta:

Não, era o DOPS.

 

Pergunta:
Para onde vocês mandavam? Era em São Caetano?

 

Resposta:

Era em São Paulo, era um órgão estadual. Você tinha de mandar o texto. Antes você tinha de mandar para a SBAT, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais para ver se o autor permitia levar o espetáculo, se não estava com direitos autorais interrompidos, alguma coisa assim. Quando você estava ensaiando você mandava o texto para a censura. Eles vinham assistir a um ensaio. Além do texto, para ver se além do texto não tinha nada que pudesse. A desculpa era a idade, proibido para tal idade. Eles vinham, sempre duas pessoas, você tinha de marcar um dia, mas eles vinham às vezes de manhã, e todo mundo trabalhava. Mas se eles marcavam, você tinha de estar lá. Tinha de apresentar o texto que eles levavam para ver se estavam fazendo aquele texto mesmo. Aí davam a censura, faziam algum corte ou outro. No começo dos anos 60 não tinha tanto, mas na época da ditadura a coisa apertou um pouco mais. Alguns textos eram proibidos, como do Plínio Marcos, do Flávio Rangel, "Liberdade, Liberdade", que eram mais ousados até no título.

 

Pergunta:

Vocês faziam contato?

 

Resposta:

Regina Passes montou "Liberdade, Liberdade", depois proibiram e não deu para montar mais. Mas "Zumbi", que é outro texto do Guarnieri, que a gente montou. Em São Caetano o pessoal era mais tradicionalista, não tinha esse problema de textos. Mas tinha de mandar. "O Auto da Compadecida", que é um espetáculo do Suassuna, que já virou até filme, todo grupo amador montou esse espetáculo. Eu mesmo participei de duas montagens, uma em São Caetano e outra no Regina Passes.

 

Pergunta:

E por quê? Por causa do texto ou tinha uma facilidade na montagem?

 

Resposta:

Porque é legal mesmo. Era tudo, tem tudo lá. Toda aquela mística do Nordeste, aquele envolvimento todo do João Grilo e do Chicó, aquele jeitão brasileiro de tentar enganar, a morte dele, quando ele ressuscita com o auxílio da Nossa Senhora. Então, o censor vinha, só voltando um pouco, e assistia ao espetáculo. A gente sabia   que o cara estava lá, então a gente procurava fazer o texto ipsis líteris, como estava mesmo. Palavrão nem pensar. Mas depois a  gente fazia. Eles podiam voltar em algum outro dia da apresentação, mas nunca voltavam. Dava aquela autorização por certo período, um ano mais ou menos, para fazer o espetáculo, emitiam um certificado, tenho até alguns guardados comigo, certificado de permissão para poder fazer a peça. Mas durante as apresentações a gente viajava no texto. Mas essa parte de censura pegou mais no Regina Passes, porque o pessoal lá era um pouco mais arrojado, vamos dizer assim, então proibiam a peça, não podia levar de jeito nenhum. Mas depois a coisa liberou e hoje não há mais necessidade disso.

O GTC, Grupo de Teatro da Cidade, que o Tiago está mencionando, surgiu do teatro de Santo André. Como disse, tinha o grupo de São Caetano, que era a ACASCS, a SCASA, Sociedade Cultural e Artística de Santo André e o Regina Passes, em São Bernardo. E a SCASA tinha o Teatro de Alumínio, que era muito interessante também, que dependia, se estivesse chovendo você não conseguia se apresentar porque o telhado era de alumínio e fazia um barulho danado. Mas era um espaço muito simpático que foi derrubado quando abriram a Perimetral em Santo André. Esse grupo resolveu se profissionalizar, que era o Antonio Petrim, Sônia Guedes, Anali Alvarez, Alexandre Dresler, e gente de São Caetano como o Josmar Martins, que era do meu grupo e foi convidado a participar do GTC. Eles começaram como uma cooperativa, montavam o espetáculo profissionalmente e dividiam os lucros, quando dava. Foi até o primeiro espetáculo que eles contrataram a Heleni Guariba, que era de São Paulo, uma pessoa bastante enfronhada no teatro, essa coisa toda, não consigo lembrar o nome da peça, mas foi na época da ditadura que eles montaram o grupo, e ela consta na lista dos desaparecidos mesmo. Eu assisti. Depois eles fizeram outros espetáculos. Interessante, já que você está falando no GTC, porque enquanto a coisa era cooperativa, todo mundo ganhando igual, não importasse o papel, se o cara só puxava a cortina ou o ator principal, ganhava tudo igual. Aí chegou num ponto, isso a gente tomou conhecimento e não é a palavra oficial, mas chegou num ponto que o grupo pensou que para progredir, para ganhar, eles tinham que trazer gente conhecida que já está fazendo sucesso em São Paulo e incorporar ao grupo para a coisa expandir. Entre essa turma que estava começando, estava o Antonio Fagundes, a Sônia Braga que é de Santo André, a Cássia Kiss não é dessa época, mas ela é de São Caetano, fez Fundação das Artes. Então, começaram a trazer gente de São Paulo e traziam um ator conhecido, evidentemente o cachê dele era maior do que o dos outros. Já vinha contratado para ganhar X. Aí a coisa começou, porque tinha de mudar e tal. Tanto que durou certo tempo. Alguns anos atrás tentaram reestruturar, mas acabou não dando certo, porque era outra época. Mas como idéia a coisa funcionou, como os outros grupos, como a ACASCS, o pessoal falava: Vocês não são profissionais? O Regina Passes até hoje existe como amador. Tem gente que já fez teatro profissional e volta para o grupo. Enquanto está no grupo é amador, mas saiu de lá, é profissional e faz trabalhos em outros grupos. Mas é o amador no bom sentido, de gostar do que faz.

 

Pergunta:

Falta só um pouco e gostaria que você falasse do Regina Passes, do trabalho que você fez lá.

 

Resposta:

Em 1972, quando praticamente acabou a ACASCS, a gente fundou outro grupo chamado A Turma, a gente até alugou um espaço em São Caetano e continuamos fazendo mais um pouco. Em 1972 o Milton Andrade, que era um dos líderes do nosso grupo passou a ser diretor da Fundação das Artes, então o grupo acabou se desfazendo, indo cada um para o seu lado e eu acabei indo para São Bernardo. Já conhecia o grupo e entrei e a primeira peça que fiz lá foi "A Ralé", do Gorck, com direção, a maioria das peças era direção do próprio grupo, mas de vez em quando a gente contratava diretores profissionais, pagos evidentemente. O Regina Passes tem uma estrutura bem maior, sempre teve fundo de caixa, sempre se sustentou e contratava os profissionais. Eu fiquei lá de 1972 até 2000 e todos os anos sempre montando um espetáculo diferente. Teve algumas passagens interessantes também. O espetáculo que ficou mais tempo foi um que a gente montou em 1992, a pedido até do Congresso de História, "A História é São Bernardo", que contava a história de São Bernardo. Era um guia de turismo contando a história de São Bernardo e a gente fazia vários papéis. Uma hora, era escravo; outra, imigrante; essa coisa toda. Duraram 5 anos esses espetáculos e a gente levou até 1997, 1998 e era uma aula de história sobre São Bernardo do Campo.

 

Pergunta:

De onde vinham esses recursos para as peças?

 

Resposta:

Da bilheteria.

 

Pergunta:

Tinha auxílio da Prefeitura?

 

Resposta:

Nada. Quando muito uma papelaria, uma gráfica que patrocinava o programinha, essa coisa toda. A Prefeitura ajudava muito cedendo o espaço, quando precisava fazer o cenário eles cediam o carpinteiro, tinha um senhor que era do setor de manutenção, que gostava de teatro e ajudava muito. Uma vez nós fomos para Recife e ficamos 15 dias levando o espetáculo, com recursos nossos e a Prefeitura deu um ônibus e dois motoristas e lá fomos nós para Recife. Três dias de viagem para ir e três para voltar. Fizemos uma temporada lá. Fizemos em janeiro e todo mundo trabalhava, então todo mundo tirou férias em janeiro de 1977 e fizemos um fundo de caixa, cada um deu o que podia dar. Tinha gente com nível superior até peão de fábrica. Cada um tinha uma diária. As apresentações que fizemos na época eram sobre a vida de Castro Alves, "Castro Alves Pede Passagem", do Guarnieri também. O que a gente arrecadou lá cobriu as despesas e acabou saindo de graça esse passeio.

 

Pergunta:

Porque o Grupo Regina Passes sofria mais com a censura?

 

Resposta:

Porque era mais ousado, investia em textos mais pesados para a época.

 

Pergunta:

Mas a época também era diferente, estavam na década de 70?

 

Resposta:

O grupo começou em 1962.

 

Pergunta:
Mas na época que você estava qual era?

 

Resposta:

Da minha época foi só "Liberdade, Liberdade".

 

Pergunta:

A década de 70 foi diferente do início do grupo?

 

Resposta:

Até porque em 1971 teve o AI-5, então tinha alguma coisa. Tinha censura. Não me lembro em que ano parou de ter de mandar para a censura. Eles realmente eram mais ousados.

 

Pergunta:

Pediria para você encerrar seu depoimento deixando alguma mensagem para os mais jovens, para os alunos.

 

Resposta:

Para encerrar eu tenho de fazer essa ligação com o IMES. Como disse, trabalhei aqui em 1973, alguns meses só, na gestão do Oscar Garbelotto. Na época já trabalhava numa empresa, na área de recursos humanos e ele me convidou para trabalhar na administração, mas fiquei pouco tempo porque não dava para conciliar dois empregos e entre largar a empresa que eu estava, que era seguro, e uma autarquia, eu achei que a empresa era mais segura. No ano passado o IMES comemorou 35 anos e o coral montou um show musical contando, em música, os últimos 35 anos e me convidaram para fazer um texto, chamado "O Vôo 6803", contando, em texto, a história do IMES, algumas coisas pitorescas, esquetes, e usei como atores os elementos do coral. Fala da história da estátua de São Pedro, de algumas coisas de alunos, como surgiu isso, a desapropriação, o que acontecia na vizinhança. Tinha professores que moravam nesse terreno e hoje dão aula aqui, o  Prefeito da época, que criou o IMES. Realmente é uma casa que a gente gosta muito. Fizemos seis espetáculos, mas está aí a montagem gravada. Foi uma satisfação muito grande e tudo que diz respeito à memória, à escola, estou como este projeto e ficou muito feliz de ter colaborado com o projeto. Obrigado.

 

FITA 2

 

Resposta:

Como se trata da segunda parte do meu depoimento, gostaria de retomar o tema, principalmente na parte de teatro, com algumas datas pontuais. Em 1962 eu ainda não fazia teatro, mas foi um ano muito importante, porque comecei a trabalhar nesse ano, já estava no segundo ano da faculdade de direito e também fiz o tiro de guerra em São Caetano do Sul, era reservista. Era o ano todo. O dia era totalmente tomado. De manhã corrida para o tiro de guerra, das cinco até seis e meia, o sargento me deixava sair meia hora antes, corria para casa, tirava o pé de couve, o uniforme, colocava paletó e gravata, porque a faculdade de direito exigia, pegava o ônibus na Avenida Goiás e ia para o Largo São Francisco, assistia à aula até quinze para o meio-dia, porque ao meio-dia, no Pátio do Colégio, uns 300 metros dali, eu tinha de marcar meu ponto como funcionário público. Então, 1962 foi um ano bastante corrido. Depois eu vou entrar em detalhes sobre a minha função e toda a minha parte profissional na carreira, tanto pública como na área privada. Em 1965 eu estava no quarto ano da faculdade de direito, já fazia teatro há 2 anos e neste ano ingressei na Escola de Arte Dramática, o que foi também um ano bastante corrido. Eu fazia a faculdade de direito de manhã, trabalhava à tarde e à noite eu ia para o curso de teatro. A Escola de Arte Dramática ficava onde hoje é a Pinacoteca do Estado, no Jardim da Luz, perto da Estação da Luz. Chegando no meio do ano eu não agüentei o tranco, era muita coisa, então desisti de fazer a Escola de Arte Dramática, que na época tinha até vestibular, saíam publicado no Estado de São Paulo os aprovados naquele curso e acabei desistindo para poder terminar primeiro a faculdade de direito, e também porque, embora fosse gratuito, não era uma questão financeira, mas eu estava preocupado primeiro em terminar o curso de direito para depois me enveredar no teatro. Como amador eu nunca deixei de fazer, sempre fiz teatro. E neste mesmo ano, estava no quarto ano da faculdade, surgiu no Centro Acadêmico 11 de agosto, eles resolveram montar um espetáculo de teatro. Eles tinham um coral muito bem dirigido pelo maestro Roberto Zaime. Eu até tentei entrar no coral, mas não teve jeito, eu desafinava até para assobiar. Eu me candidatei, eles montaram "A Pedreira das Almas", do Jorge Andrade, e colocaram anúncio para quem tinha interesse em participar. Eu já tinha alguma experiência então participei desse espetáculo que o Centro Acadêmico 11 de Agosto produziu, com figurino e tudo. Esse espetáculo fala de uma situação aqui no Brasil sobre a luta e uma família conservadora e a polícia da época começou a entender que eles eram extremistas. A representante da família era uma senhora, toda envolvida com as tradições da família, a filha dela e o chefe da polícia. Eu fiz esse papel, que era o principal papel masculino. Mas infelizmente foi um espetáculo que nem os alunos da faculdade assistiram. Fizemos divulgação, tivemos um capricho danado na montagem, mas de pouco resultado, mesmo com alunos de todos os anos da faculdade. Em 1968, uma outra data que também marcou bastante; eu continuava fazendo teatro em São Caetano do Sul, aqui na ACASCS e no meu grupo eu comecei a namorar uma moça, que também já fazia parte do grupo, já nos conhecíamos, já tinha uma convivência com ela, e acabei casando em 1968. Comecei a namorar em 1965 e três anos depois nos casamos aqui em São Caetano, na Capela do Hospital São Caetano, uma coisa diferente na época. O padre não queria autorizar fazer fora da igreja, mas como era uma capela, a gente acabou conseguindo a autorização. Aí nós fomos morar em São Bernardo, quando estava começando o BNH e compramos um sobradinho pelo BNH, pela circunstância de poder adquirir um imóvel. Em 1972, já no Grupo Cênico Regina Passes, a primeira peça que fiz lá, "A Ralé". Foi um espetáculo muito interessante dirigido pela Miriam Muniz, que embora o grupo fosse amador, vez ou outra a gente contratava um diretor profissional, pagava, para melhorar o nível do grupo. "A Ralé" e "O Albergue Noturno", que foi a segunda peça, nós montamos o espetáculo, que o próprio nome já diz, era um pessoal que morava numa favela. A idéia original da montagem foi muito legal. A gente foi buscar caixotes de verdura lá no CEASA e colocávamos um em cima do outro e cada caixote era uma casa de alguém. Tinha de tudo, gente que já tinha tido alguma coisa e ficou pobre, ex-ator, bêbado. Era um espetáculo muito bem feito, realista e quem olhava da platéia via aquele pessoal todo sujo. Eu me lembro que as roupas, para a camiseta branca, o segredo era ferver com chá para ficar com aquela cor meio de usada e depois jogava alguma coisa de cândida para dar umas manchas. De longe dava a impressão de todo mundo sujo, aquela roupa que não tirava há vários dias. Na verdade isso não acontecia. Mas como esses caixotes vieram do CEASA, não era muito difícil de a gente ver realmente uma baratinha correndo pelo palco, o que tornava a coisa bem mais natural. E o Grupo Regina Passes, que existe até hoje, com 42 anos de existência, era um grupo bastante organizado, tinha o seu fundo de caixa, como disse ontem, eram bem mais ousado que o pessoal de São Caetano, teve problemas com censura na época, mas era um grupo muito sólido, com famílias. Houve vários casamentos lá. O pessoal trazia a namorada e acabava casando e vice-versa. E o grande líder desse grupo foi o Antonino Assunção, que faleceu em 1995. Ainda tem gente no grupo que é desde a fundação. E interessante é que o Antonino Assunção era do Regina Passes e o irmão dele, Pasqualino Assunção, que faleceu recentemente, era do grupo de Santo André, da SCASA, Sociedade Cultural e Artística de Santo André, que eram os três grupos que existiam no ABC, Regina Passes, em São Bernardo, SCASA em Santo André e ACASCS em São Caetano, que conviveram na mesma época. Era muito forte o movimento amador no Estado de São Paulo todo. Existia até um departamento na Secretaria da Cultura que incentivava isso e fazia festivais anuais, primeiro com eliminatórias regionais, que aqui no ABC era pela Feanta, Federação Andreense de Teatro Amador, que incorporava todos os municípios da região e dessas eliminatórias o grupo vencedor ia concorrer numa cidade, que variava a cada ano, na final. Eram 10 ou 12 espetáculos numa semana toda. Era em Rio Preto, Ribeirão Preto, houve no ABC também, em Franca, São José do Rio Preto. E nesse aspecto dos festivais o grupo de São Caetano nunca teve grandes destaques. Ganhou uma ou outra eliminatória, mas não teve muito destaque. Já o Regina Passes não. Além de ganhar várias eliminatórias, chegou ao prêmio maior, que se chamava Prêmio Governador do Estado. Tinha prêmios para melhor espetáculo, melhor ator, melhor atriz, ator coadjuvante, diretor e assim por diante. E o Regina Passes ganhou como melhor espetáculo com "O Auto da Compadecida", e texto que todos os grupos levavam e inclusive ganharam como melhor ator, que foi o Alcides Médici, que era um senhor de uma certa idade, mas um excelente ator, de origem do circo, com uma espontaneidade, não tinha muita cultura, mas subia no palco e era formidável. Ele era italiano e fazia o João Grilo, um nordestino. Eu era o Chicó, o companheiro dele. Essa peça está bem mais conhecida com a minissérie e o filme da Globo. Pessoas que vinham de culturas totalmente diferentes, mas ficou um espetáculo muito legal. Em 1990, eu ainda pertencendo ao Regina Passes como amador, surgiu um movimento em Santo André, que continua até hoje, nem todo ano eles montam, mas são espetáculos de teatro, beneficentes em prol da FEASA, Federação das Entidades Assistenciais de Santo André, uma entidade que ajuda na administração de todas as entidades, de crianças, de creches, de asilos. Eles dão todo o suporte administrativo e técnico com assistentes sociais, psicólogos. A FEASA, como entidade, também precisa de recursos. As entidades contribuem com alguma coisinha em relação a essa administração. Em 1990 montamos o primeiro espetáculo beneficente. Como era isso? Contratava-se um diretor profissional que era o único que ganhava e o texto, conhecido ou não, e os atores eram pessoas conhecidas da sociedade de Santo André, com experiência de teatro ou não. Tinha gente que nunca tinha subido em palco, mas para fazer a coisa beneficente, acabava ajudando. Lógico, sempre alguém que gostava e já tinha feito teatro alguma vez. Nessa primeira montagem o Petrin foi convidado a dirigir, já era profissional por bastante tempo, e é contemporâneo dessa época dos anos 60 em Santo André e São Caetano, também foi da Escola de Arte Dramática, que eu desisti e ele continuou. Ele veio dirigir e foi formado com um engenheiro, um advogado e eu prontamente me ofereci e fiz parte do espetáculo. Na época a atração principal foi o Willian, que era o capitão da seleção brasileira de vôlei, que era de Santo André. Ele nunca tinha pisado num palco, mas era a atração. E lotava o Teatro Municipal de Santo André. As empresas compravam o espetáculo. A própria Pirelli, que patrocinava o vôlei, Alcan, Rhodia. A arrecadação era em cima das empresas, que compravam os ingressos para distribuir para os funcionários. Era tudo venda antecipada para ajudar. Foi um projeto de muito sucesso, que voltou em 1995 com outro espetáculo, em 1996 e 1997, e eles ainda fazem, mas eu participei dos primeiros, em 1998 não só como ator, mas como produtor também, assistente de direção, para participar do projeto. Mas só o diretor que era remunerado. E tem o pessoal que acabou ficando, que participa dos espetáculos. Mas infelizmente as indústrias, a coisa no ABC já não é mais como antigamente e tem sido cada vez mais difícil. Mas eles sempre conseguem arrecadar alguma coisa, sempre através do teatro.

Eu gostaria agora de falar um pouco, enquanto fazia teatro amador, da minha atividade profissional. Como já disse, era funcionário público enquanto estudante da faculdade de direito e é interessante porque eu trabalhava na Secretaria da Segurança Pública, não era concursado, só um teste, várias figuras podiam trabalhar para o Estado sem serem concursados, extranumerário, interinos, não sei o quê. Você fazia um teste, era contratado, tinha uma verba especial e depois de 5 anos você até conseguia ser efetivado por tempo de casa. Meu título era escrevente datilógrafo interino referência 22. Nada. Era só um nome. Interessante que a minha atividade, que me serviu como referência, já foi no departamento pessoal. Era escriturário do departamento pessoal, mexia com documentos dos funcionários. Enquanto eu fiz a faculdade, que era meio período, de manhã ia para a faculdade e à tarde tinha esse emprego, eu fiquei nessa repartição. Próximo de completar 5 anos, já formado, falaram para prestar concurso para delegado, porque eu já estava na Secretaria de Segurança. Não queria. Aí comecei a procurar emprego, já formado. Pedi demissão e o primeiro emprego era numa empresa do ABC que recrutou através de uma empresa de seleção, e pedia universitários recém-formados em qualquer atividade para trabalhar como relações públicas. O pessoal ia ser treinado. Era a antiga CTBC, Companhia Telefônica da Borda do Campo, que estava construindo um prédio próprio que existe até hoje perto do Paço Municipal de Santo André, e eu e mais dois colegas, sendo que um eu até já o conhecia de São Caetano mesmo e outro, nós fomos treinados para atender ao público, como explicar ao público alguma reclamação, porque a conta estava alta, por que não era ou por que era. Nós ficamos 8 meses sendo treinados, porque atrasou a construção do prédio, e ficamos vendo como abrem buraco na rua, ia a casa para ver como funcionava o telefone, orientava como que funcionava. Tinha pais que, para os filhos não usarem o telefone, colocavam adesivo dentro do bocal para o telefone não funcionar e o pessoal reclamava que o telefone não funcionava. A gente aprendeu todas essas coisinhas. Só que a coisa, 8 meses, não tínhamos aumento, porque a gente tinha um trabalho praticamente de estágio, então comecei a procurar outro emprego, na área do direito mesmo, porque isso aqui não tem muito futuro, embora tivesse contato com as pessoas. Aí comecei a mandar currículo e sendo admitido na Ford do Brasil, em São Bernardo. Nesse meio tempo, isso aconteceu, fui funcionário público de 1962 a 1966, na CTBC de 1967 até final de 1969. Eu me casei em 1968, então trabalhava na CTBC quando me casei. Aí fui para a Ford. Eu me casei e fui morar em São Bernardo, na Vila Paulicéia, Km 16,5 da Anchieta, a Ford era no KM 16, mas não tinha a ligação que tem hoje pela Estrada do Taboão. Tinha de ir pela Anchieta e entrar no quilômetro seguinte. Houve essa coincidência e fui trabalhar na Ford e fui admitido lá como relações trabalhistas. Era alguém que cuidava da parte pessoal, mas de processos trabalhistas. Quando alguém entrava com processo, eu preparava a defesa. Já era formado em direito, mas não tinha nenhuma experiência. Eu preparava a documentação para fazer a defesa daquela reclamação e mandava para um escritório em São Paulo, que fazia a defesa e vinha fazer a audiência. E na Justiça do Trabalho tinha um advogado e um representante da empresa, ou o proprietário, quando a empresa é pequena, ou um preposto, alguém que representa a empresa. Eu ia como preposto nessas audiências com as pessoas que entravam com reclamação trabalhista. Nessa época ainda o movimento sindical não tinha, já tinha uma certa força, mas nenhum movimento mais forte como aconteceu depois. Fiquei um ano e meio lá e depois surgiu o convite de uma outra empresa, nessa mesma área. Era um grupo de empresas, uma delas era a ESAN em Santo André, com escritório em São Paulo. Fui trabalhar nesse escritório, que era chamado de administração central. Eram várias empresas do mesmo grupo, só que com atividades completamente diferentes. Tinha concessionária de automóvel, metalúrgica, tinha uma outra que fabricava radiador, tinha uma fábrica de fogões em São José dos Campos. Então, essa administração central fazia, o objetivo central dessa equipe era uniformizar os conceitos, principalmente na área de pessoal, porque era comum na área de direitos trabalhistas, observando a peculiaridade de cada atividade, metalúrgico, químico, etc. E nesse caso eu que fazia os processos, preparava e eu mesmo fazia as audiências. Nessa época era permitido, hoje não é mais, eu fazia as duas figuras, era advogado e preposto também. Em 1988, com a nova Constituição, até para prestigiar mais a classe dos advogados, não pode mais ser a mesma pessoa. Fiquei nesse grupo durante 5 anos, enquanto durou esse trabalho de desenvolvimento, de uniformização dos sistemas todos e aí chegou num ponto em que não tinha mais como progredir ali dentro. Cheguei a ir para a ESAN, que era a unidade maior do grupo, fui para a área de relações trabalhistas, mas não tinha muita função. Fui ser assistente do gerente, subtreco do vice-troço. Mas como já era do grupo, eu consegui manter o mesmo salário e aqui em Santo André. Nessa altura eu já tinha voltado para São Caetano. Morei um ano e pouco em São Bernardo e São Caetano era mais perto para eu ir para São Paulo. Em 1975 eu falei para o meu gerente: Vou pedir demissão porque não tenho mais futuro aqui. Ele até me ajudou a arrumar outro emprego. Eu acabei indo para a Cofap, também em Capuava. Praticamente pulei o muro e fui ser gerente de pessoal. Era uma empresa grande e estava também se reformulando e fui ser gerente de pessoal, que era supervisor, não tinha título de gerente. Fui cuidar do que já vinha cuidando antes, de folha de pagamento, documentação. Lembrei lá do meu tempo de funcionário público. E como tinha o pessoal antigo na empresa, teve a fase de adaptação, aquela coisa toda. Também fazia a parte administrativa, como supervisor de pessoal e também fazia os processos. Em 1979, 1980, começou o movimento sindical, os processos aumentaram muito, não só do sindicato, que geralmente fazia processos coletivos, de insalubridade, porque a Cofap tinha fundição, trabalho penoso e insalubre, o sindicato fazia muitos processos coletivos. E individualmente, alguma dispensa por justa causa, por alguma falta grave, o sindicato também assumia o processo, dando assistência a quem era associado do sindicato. Mas por outros casos, vários advogados, cresceu bastante, aí não dava para fazer as duas coisas mais. Como eu sempre preferi a parte administrativa, fiquei lá. Depois cresceu e passou a ser recursos humanos, nome que tem até hoje. Mas eu vivenciei toda essa época das greves, do movimento sindical em Santo André. Primeiro foi em São Bernardo, começou lá e em Santo André, principalmente os metalúrgicos, porque a Cofap era a maior empresa metalúrgica da cidade, na base territorial do sindicato, que cuida de Santo André, Mauá e Ribeirão Pires. Como a fábrica fica na divisa, metade em Santo André e metade em Mauá, estava tudo ali. E era realmente a coqueluche do sindicato, porque tinha com quem brigar. As greves, os movimentos. Eu sempre cuidei da parte administrativa. Quando havia esses movimentos o pessoal do caminhão do sindicato já falava que o pessoal do departamento pessoal e da informática podia entrar. Porque senão, parava tudo, folha de pagamento, cartão de ponto. A greve durava, às vezes, 15, 20 dias, um mês. Às vezes o pessoal ficava dentro da fábrica, não trabalhava, mas almoçava. O pessoal chiava, os funcionários medrosos, mas a gente entrava.

 

Pergunta:

O departamento pessoal funcionava na época da greve e os funcionários recebiam os salários?

 

Resposta:

Então, ficava sempre a discussão no final, porque a greve começava no meio do mês. Se ela continuasse, ia receber pelo menos os dias trabalhados naquele mês, gente que tinha férias. A gente tentava fazer a coisa normal. Não conseguia. Alguns casos era gente que estava afastada por doença. Essa parte burocrática de documentação, não havia seleção para novos funcionários. Desde a época da ESAN a gente pegava Kombi e corria os bairros com autofalante chamando gente para trabalhar como peão. Essa fase, de 1972, era a do pleno emprego. Era difícil se conseguir gente. Pessoal especializado então muito menos, aquele pessoal de manutenção, ferramenteiros, que eram os mais fortes, que tinham maiores salários e que puxavam as greves. Eram setores vitais da empresa. Faziam ferramentas para a máquina que ia desenvolver o produto. A parte de pessoal tinha essa atribuição. Às vezes não tinha nada para fazer, mas o pessoal estava lá dentro. Também o pessoal administrativo que fizesse greve era descontado o dia. Sempre aquele pessoal ficava no entra ou não entro, se vão me bater, faziam empurra-empurra. O piquete maior era na entrada, seis horas da manhã e depois o pessoal dava uma aliviada e alguns entravam. Meu diretor, Dr. Amazonas, que chegou a ser Vice-Prefeito de Santo André, ele dormia na empresa. Ele ficava lá. Até um dia ele me chamou, falou que confiava em mim, mas eu não estava vestindo a camisa da empresa. Por quê? Porque eu não ficava lá. Eu ia, fazia meu trabalho e ia embora. É exatamente isso. Eu vou passar a noite aqui para quê? Eu acho que está errado isso. Não sei por que ele ficava lá direto. Por que não fazem um revezamento? Um dia fica o senhor, outro dia fica o gerente tal, se é essa a preocupação, de tomar conta da empresa, de fazer uma salvaguarda do patrimônio. Ele falou que era uma estratégia de guerra. O que ele queria? Queria que o pessoal todo, os supervisores todos, ficassem em volta dele e ele desse as ordens, vai você buscar não sei o quê... A greve dava muitos problemas para a empresa, mas a lição de tudo isso foi que realmente o movimento sindical era muito preparado, um pessoal escolado, sabia o que falar, como falar, começando pelo Lula. Aqui em Santo André tinha vários diretores, o Avamileno que é Prefeito de Santo André era diretor do sindicato e ia lá com o microfone.

 

Pergunta:

Essas empresas multinacionais também não tinham um pessoal preparado?

 

Resposta:

Não tinham. A Cofap muito menos, uma empresa nacional, aquela coisa toda. Ainda mais com um diretor desses, que era mais político do que outra coisa. Eu discutia muito isso com ele. Ele era centralizador. Se você falasse para reunir o pessoal, ele falava, era aquele trauma de departamento pessoal, que era o último. O pessoal desse departamento falava que não ia levar o problema para o presidente. E hoje os recursos humanos todo mundo sabe que é o primeiro recurso da empresa, são as pessoas. Eu falava quando começou a informática, que se não tiver alguém para apertar o botão, não adianta nada a tecnologia. Sempre briguei por essa importância das pessoas, dos recursos humanos na empresa. E tem uma coisa interessante, porque fiquei em Santo André de 1975 até 1985. De 1985 a 1990, a Cofap comprou uma empresa que era do Grupo Villares, na Paulicéia, em São Bernardo, e eu pedi para ir para lá, porque lá, além de ser uma promoção para mim, como gerente de recursos humanos enquanto eu era supervisor em Santo André, ia ter muito mais liberdade para trabalhar. Embora fosse uma empresa antiga, o trabalho de transição foi muito legal e formei uma equipe muito legal. Foram os melhores 5 anos na minha vida profissional, porque eu podia fazer o que eu quisesse, em termos. Era subordinado desse diretor, mas enquanto lá, tudo bem. Aqui está tudo bem, sem problema nenhum. Embora já tivesse tido greve lá também, mas era um movimento mais brando. Às vezes tinha greve brava em Santo André e lá não tinha greve. Inclusive era metalúrgica, mas era um sindicato diferente. Sempre houve essa diferenciação entre São Bernardo e Diadema e Santo André, Mauá e Ribeirão Pires. Tanto é que hoje, com as centrais sindicais, Santo André é Força Sindical e São Bernardo é CUT. Fui para São Bernardo, tive muito contato com o sindicato, com o advogado do sindicato, que era o Dr. Maurício Soares, que depois foi Prefeito de São Bernardo, advogado também. A gente tinha um relacionamento muito bom. Mas não deixou de haver greves também lá, que a gente teve de administrar. Mas aí foi numa outra fase, quando a empresa já estava mais avançada. Começou a fazer cursos para as pessoas, de como lidar com esse problema. A gente superou essa fase. Eu fiquei na Cofap até 1990, depois eu trabalhei com consultoria na área de recursos humanos, até me aposentar pelo INSS em 1996 e continuei trabalhando como consultor para algumas empresas, montei um escritório meu, também de advocacia, porque a advocacia está ligada a essa consultoria. Trabalhei para empresas de consultoria também, fazendo processos e também trabalhando no desenvolvimento de organizações e métodos na área de pessoal

 

Pergunta:

E essa época de greve na porta da fábrica, o que você se lembra de ter visto? Foi terrível?

 

Resposta:

Principalmente em São Bernardo, como gerente de pessoal, eu tinha de estar lá. Às vezes me ligavam meia-noite, porque eram três turnos, me ligavam em casa dizendo que a fábrica parou. E aí? Às vezes a gente até sentia alguma coisa, às vezes não. Eu pegava o carro e ia para lá saber o que estava acontecendo. Conversava com aquelas pessoas que a gente já sabia que eram os cabeças. Lá tinha uma fundição e uma usinagem de anéis, de peças para carros. Como eu tinha muito contato com todo mundo, quase não ficava na minha sala, ficava sempre circulando. Às vezes eu chegava no cara e ele falava: Não sou eu, dessa vez não sou eu. E às vezes conseguia, conversando. Às vezes nem o chefe conseguia reverter o processo e eles ficavam parados mesmo. Esperava trocar o turno. O sindicato estava na porta, não deixava entrar o segundo turno, ou quando entrava, tinha todas essas coisas repentinas. A maior que peguei lá foram 20 dias de greve e a reação da empresa, sempre dialogando, mas não tinha jeito, um dia nós fizemos uma barreira na entrada. O pessoal vai ficando impaciente, alguns querem entrar porque estão perdendo. A gente começou a selecionar quem podia e quem não podia entrar, deixando de fora os agitadores. Fizemos essa blitz lá, porque eles entravam e paravam lá dentro. A gente barrou os cabeças da coisa, a turma entrou e a coisa andou.

 

Pergunta:

A polícia apareceu?

 

Resposta:

A polícia, no começo ainda se chamava, mas a polícia não tem nada para fazer, a não ser se fosse baderna, dilapidar o patrimônio. Mas isso o pessoal fazia muito na surdina, lá dentro da fábrica. A Cofap chamava a polícia porque era muito grande, muita gente, aquele tumulto, mas no sentido de preservar o patrimônio, não deixar o pessoal entrar para quebrar cerca, quebrar muro. O pessoal pulava o muro para trabalhar. A polícia tinha muito pouco o que fazer. E a polícia política, aquele negócio de comunismo, dos movimentos, porque a gente estava no regime militar ainda, eles já tinham esse pessoal todo fichado, mas realmente, com o passar do tempo, polícia não era o caso. Eles podiam alegar que a polícia tinha batido neles. Tudo era motivo para reforçar a greve. Está vendo, o patrão mandou bater. Em termos gerais, até que não foi tão difícil. Santo André teve alguma coisa, um pessoal mais agitado que se atirava na frente dos ônibus para que ele não entrasse na fábrica, deixar o forno vazio e entrar no forno para não poder ligar o forno. Tivemos alguns casos de pessoas mais exaltadas, malucos mesmo. Os próprios colegas falavam que não era assim. Essa convivência foi muito legal porque eles começaram a entender como lidar com o pessoal. Não adianta dar cacetada e liquidar o cara. E tinha, quando o pessoal estava dentro da empresa, esse diretor meu falava para a gente dar uma fiscalizada, pedia para os chefes de equipe para passar o nome de quem agitava. Tinha aquelas listas, ou durante a greve, para mandar gente embora. A turma dedava e mandavam embora. No começo era um clima de guerra. A empresa começou a conviver, a dar um tratamento melhor, mas houve coisas de gente se atirar na frente do ônibus, algum mensalista mais exaltado que queria entrar e enfrentava o pessoal, tinha o pessoal medroso que não sabia se ia ou não. Lá em São Bernardo, como era pequeno em relação a Cofap, dava para a gente controlar as pessoas. Mas já tinha passado na outra empresa maus bocados. Tanto que alguns diretores falavam que em São Bernardo só tinha bandidos. Eu falei que a coisa estava mais calma e houve essa convivência mais pacífica. Só para completar, queria falar um pouco do meu lado familiar. Comecei falando na primeira parte e queria dizer que em 1955, com 12 anos, meu pai faleceu. Ele era funcionário público da Prefeitura de São Caetano, oficial de gabinete, deixou a viúva com quatro filhos, eu o mais velho e mais três irmãos. Foi uma situação difícil. A minha mãe foi uma das primeiras pensionistas da Prefeitura de São Caetano. Existe até hoje o Instituto Municipal de Previdência. Mas a Prefeitura estava começando, porque teve a autonomia em 1948 em 1955 já existia esse instituto e minha mãe foi a primeira pensionista praticamente, até falecer em 1997, com 81 anos. E


Acervo Hipermídia de Memórias do ABC - Universidade de São Caetano do Sul