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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

José Duda da Costa

  • Nome: José Duda da Costa
  • Gênero: Masculino
  • Data de Nascimento: 20/07/1934
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Garanhuns (PE)
  • Profissão: técnico em controle de qualidade

Biografia

Emissoras de rádio e trabalho no ABC.



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TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE JOSÉ DUDA DA COSTA EM 08/07/2004

Depoimento de JOSÉ DUDA DA COSTA, 69 anos.

IMES – Universidade de São Caetano do Sul, 08 de julho de 2004.

Entrevistadores: Rita de Cássia Donato dos Santos, Herom Vargas, Vilma Lemos e Priscila F. Perazzo.

 

 

Pergunta:

A gente começa falando do dia do nascimento: local do nascimento e como foi na infância, a família, a escola.

 

Resposta:

Eu nasci no dia 20 de julho de 1934, numa cidade chamada Garanhuns, no Estado de Pernambuco, precisamente num vilarejo que era subdistrito e depois virou cidade, porque os políticos não deixam barato. Meu pai era agricultor, sitiante, tinha dois sítios, criava gado, muito pouco, mas na época ele tinha quatro empregados e eles cuidavam da lavoura, do sítio. E além do mais meu pai era o que eles chamavam de marchantes, eles matavam o gado, três cabeças por semana, tinha um açougue  em que ele vendia, além de negociar com queijo. E na minha casa, era uma casa muito grande, tinha vários cômodos e tinha um armazém grande que comprava algodão, mamona, feijão, milho, que era a lavoura da localidade. Aquilo acumulava e, quando tinha muito, eles ensacavam e um caminhão levava embora. Não sei como eles faziam. Tinha uma balança que a gente pesava, tinha ume mesinha que a gente chamava pirô, e ali ficava o dinheiro. Vinham pessoas humildes que compravam pouca coisa. Ele negociava com gado e queijo. E esse sítio tinha um curral grande, a gente não tinha tanto gado para encher o curral e as pessoas, quando vinham com a boiada para negociar no centro da cidade, alugavam, para pernoitar nesse sítio do meu pai. E aquilo para a gente era uma festa, porque vinha vaca de leite e no dia seguinte tinham baldes de leite, porque o pessoal tirava o leite e aquilo era muito à vontade. Esse sítio tinha de tudo de fruta do local, porque o clima lá é muito bom. Lá, para ter uma idéia, até fiz uma brincadeira, escrevi uns versinhos, que lá garoa igual aqui em São Paulo. Tem até música falando disso. Nesse sítio tinha fruta de tudo quanto é espécie. Tinha uma grande horta, minha mãe plantava cenoura, hortaliças. E tinha também os empregados que cuidavam daquilo. Eu na verdade só brincava.

 

Pergunta:

Vocês eram quantos irmãos?

 

Resposta:

Eu fiquei órfão com dez anos e aí a família se dispersou. Eu vim morar com a minha irmã na cidade de Garanhuns e trabalhar numa oficina mecânica, mas antes de eu vir, meu pai estava namorando e eu ia ao sítio do futuro sogro dele comprar fruta para vender na feira. Eu comprava laranja e jaca. Eu alugava um burrico, colocava aquele cesto, que lá se chama caçoade, cheio de laranja e vinha na feira e vendia. Aquilo era dinheiro meu. Eu pagava o cidadão lá e aquilo era o lucro que eu tinha.

 

Pergunta:

E a família tinha quantos irmãos?

 

Resposta:

Éramos seis irmãos. Um irmão homem, que já faleceu... Vivos eu e mais duas irmãs, o restante já faleceu. Eram mulheres as outras. E eu sei que depois disso vim morar com a minha irmã e trabalhar numa oficina mecânica de ajudante de mecânico. Lá eu ganhava dez cruzeiros por semana. O dono da oficina gostava muito de mim e não tinha filhos e queria me adotar como filho dele para ser herdeiro. Talvez hoje estivesse rico, mas meu pai não deixou. Tudo bem. Eu era criança, tinha 11, 12 ou 15 anos e era mais inocente do que uma criança de 4 anos. Não existiam informações. Rádio era só quem era muito rico para ter rádio. Eu vivia brincando e não tinha essa preocupação. Eu comecei o primário, estudei dois anos apenas e acabou, não tive mais chance de estudar, só de trabalhar para me manter, porque eu pegava o dinheiro que eu ganhava na oficina para comprar macacão. Foi assim que comecei a me disciplinar e aprender a viver a minha vida, me sustentar.

 

Pergunta:

O senhor veio para cá com quantos anos?

 

Resposta:

Com 13 anos. A viagem foi acidentada. Vim sozinho num caminhão pau-de-arara, e em Minas Gerais, era fevereiro de 1948, dia 5 de fevereiro, e no dia 13 de fevereiro, não tem nada a ver, mas dia 13 de fevereiro meu caminhão tombou em Minas Gerais, próximo de uma cidade chamada Medina, e morreram três pessoas. Eu estava em cima e só vi o mundo escurecer. Parecia que eu tinha morrido. Fui o primeiro que acordou e vi todo aquele monte de gente. Alguns tinham vindo a pé, já com medo, porque a estrada era muito acidentada, chovia demais. E eu fiquei preocupado, depois vi levantar um e outro e o coração parou o sufoco. Aí nós ficamos lá até acudir todo mundo, alguns faleceram. A viagem durou, de lá até aqui, 23 dias. Você imagina. E eu criança, inocente, tinha 13 anos mas não tinha idéia.

 

Pergunta:

O senhor saiu de lá por quê?

 

Resposta:

Porque lá não tinha perspectiva de evoluir. Era para eu vir para Recife para trabalhar numa farmácia, mas uma das minhas irmãs não deixou, porque ela não tinha ninguém com ela e essa outra minha irmã que morava em Recife já tinha outra que estava com ela e ela falou que era muita carga para uma irmã mais velha cuidar. Meu irmão tinha vindo para São Paulo, trabalhava numa empresa de ônibus, ele já é falecido, e me chamou para vir para cá. Não tive dúvidas e fui embora. Vim trabalhar na empresa de ônibus, de ajudante de oficina, em Santo André. Quando eu completei 14 anos fui ao Parque D. Pedro, porque trabalhava sem documentos, porque menor de 14 anos não tinha carteira de trabalho, nada disso, fui ao Palácio das Indústrias em São Paulo, que era o centro de São Paulo, do ABC, para tirar documento. Eu tirei uma carteira para menor, que era vermelha. Até foi engraçado, porque isso marca na vida da gente. Tinha mais de 200 moleques para tirar a carteira e entrei e tinha de fazer uma redação, escrever o ditado. Tinha de copiar o que estava escrito na lousa e tinha de fazer umas operações aritméticas básicas. E eu errei numa dessas operações e a mulher que tomava conta me deu o maior esporro no meio de todo mundo: Você pode voltar no ano que vem, está errado. Eu não podia esperar um ano e tive de usar a criatividade ou a malandragem do brasileiro, e aí usei. Eu falo sem constrangimento porque eu sabia, se eu não soubesse, não teria ido lá fazer. Só por causa de um número eu não ia ficar um ano. Aí eu dei um tempo, fiquei rodando e depois de uma hora entrou um cidadão para conversar com essa funcionária, ela era idosa, não tenho preconceito com idoso porque também sou idoso, mas ela estava lá distraída e entrei na fila novamente. Peguei o papel, fiz direitinho e ela liberou. Era para esperar um ano e esperei uma hora e tirei a profissional. Aí me mandaram trabalhar de cobrador de ônibus.

 

Pergunta:

O senhor morava onde em Santo André?

 

Resposta:

Morava na Vila Pires. Nessa época eu ganhava, não lembro direito...

 

Pergunta:

O senhor morava sozinho ou em pensão?

 

Resposta:

Morava com meu irmão. Depois vim morar sozinho porque a empresa em que eu trabalhava, eu trabalhei de cobrador e depois fui para Santos, Cubatão, depois retornei, porque já estava com 17 anos. Eu me alistei em Cubatão, pensei em servir ao exército. Existia o Tiro, mas não queria servir ao Tiro. Ou tudo ou nada. Sempre fui nesse negócio de tudo ou nada e só quebrei a cara até hoje, mas eu pensei que no Exército eu poderia ficar lá. Nunca tive a idéia de ser militar, mas eu pensei em ter uma carreira militar. Vim novamente, meu irmão tinha ficado viúvo, estava sozinho, e vim ficar com ele um pouco. Eu me desliguei dele, voltei a trabalhar na empresa de ônibus na Vila Prosperidade, porque a empresa comprou uma outra empresa em São Caetano, chamada Autobus São Paulo – São Caetano e fiquei trabalhando na oficina. Depois me mandaram embora porque foi vendida novamente a empresa, a garagem da Vila Prosperidade mudou para a Avenida Um, na Mooca, que hoje é a Avenida Henry Ford. Dali me mandaram embora, e fui trabalhar na Rua 25 de Março, em São Paulo, de vendedor na porta da loja, para chamar os clientes. Tem um episódio engraçado. Eu fui trabalhar lá porque eles estavam pedindo empregados, me ofereci e me pegaram. Tinha um menino cujo pai trabalhava de zelador do Parque Shangai, era um parque que existia onde hoje é uma grande igreja do Davi Miranda, um parque semelhante ao Playcenter, com brinquedos de tudo quanto é coisa. Dentro do parque tinha a casa desse zelador, que o filho dele trabalhava na loja e à noite a gente saía da loja, jantava na casa dele e a gente ia trabalhar num circo que tinha dentro do parque, vendendo Guaraná Caçula. Era uma garrafinha pequena, tinha uma caixinha que a gente colocava no pescoço e a gente ia vender, até dez e meia.

 

Pergunta:

O senhor tinha 17, 18 anos?

 

Pergunta:

Acho que 16, 17 anos, porque eu morava na Vila Prosperidade.

 

Pergunta:

Como era a região, a Vila Prosperidade?

 

Resposta:

Era tudo mato. A Avenida Goiás não era nem a metade do que é hoje, porque eles a ampliaram. São Caetano não tinha nada, era quase um deserto, porque era subdistrito de Santo André. Aliás, em 1948 que São Caetano pegou a autonomia, justamente no mês que tinha vindo para cá. Eu pegava um ônibus que vinha até a Vila Prosperidade quando saía do circo, de São Paulo até a Vila Prosperidade. Eu cheguei a perder esse ônibus, quando saía tarde do circo, então tinha de vir a pé da estação de São Caetano até a Vila Prosperidade. Ali onde é o negócio da Petrobrás, ali era tudo mato. Naquele tempo não existia bandido. Existir sempre existiu, mas não era tanto como é hoje. Hoje tem mais bandido do que gente. Antes disso eu trabalhei na empresa de ônibus e numa época eu fui cobrador e morando na Vila Prosperidade eu ia para Santo André de trem. Vinha a pé por trás, porque não tinha a Avenida do Estado, não tinha nada disso. Só tinha um caminho, tinha a Swift, passava ao lado, de madrugada, pegava o trem. Não estou falando cronologicamente porque estou falando o que vem na lembrança. Voltando no início da chegada em Santo André, tinha quatro garotos, todos menores de idade, 12, 13 anos, a gente tinha de pegar um litro de éter e com a estopa – os ônibus tinham um motor muito primitivo – abria o capô do ônibus e colocava uma estopa molhada no filtro de ar e o outro ligava o ônibus. Então, os ônibus eram todos viciados em cheirar éter, para secar o diesel para o ônibus pegar. A gente deixava trabalhando para esquentar o motor. E às vezes a gente tinha de tirar o ônibus, manobrar, porque os motoristas não tinham chegado. Era proibido, mas tinha de fazer. Aprendi a dirigir em pé, porque era miúdo. Depois, quando acabava essa fase, a gente ia para a oficina e meu trabalho era colocar solução na bateria dos ônibus. Quando vieram 19 ônibus coach, modernos, todos os ônibus usavam uma bateria só, e esse usava duas, porque tinha muita coisa elétrica no ônibus. Era muito grande. A gente tinha umas bombonas, muita gente usa para fazer vinho caseiro que eram aqueles garrafões de 60 litros e a gente enchia aqueles garrafões até faltar um pouco, para colocar ácido sulfúrico. Olha, criança trabalhando com ácido. Aquilo era um perigo, mas ninguém sabia nada disso. A gente enchia a caixinha de bateria, que é um material que não é corrosivo, enchia de ácido e depois despejava naquela bombona, para fazer a solução, água de bateria, que hoje existe, que é corrosivo. Ela ficava decantando durante uma semana. Aquilo esquentava até ferver e depois de uma semana estava fria e a gente colocava na bateria.

 

Pergunta: 

Teve algum acidente?

 

Resposta: 

Num desses trabalhos, brinco com as pessoas dizendo que fui batizado em Santo André, especial com ácido. É um batismo único no mundo. É um fato que aconteceu, infelizmente, e aquela caixinha, como eu era miúdo, eu ficava embaixo e o outro menino, mais alto, ele pegava aquela caixinha e escondia. E por gravidade, uma mangueirinha corria e eu ia enchendo as baterias. E numa distração dele, caiu em cima de mim e tomei um banho de ácido. Era em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, onde hoje tem um estacionamento. Aí correu todo mundo. Fiquei completamente nu e me deram um banho com mangueira de lavar ônibus, aquele esguicho. Lavaram com sabão, porque eu podia ter ficado cego. Dois dias depois o macacão virou cinzas, desmanchou. Eu brinco, que fiquei careca por causa disso.

 

Pergunta: 

O senhor não teve problemas?

 

Resposta: 

Ficaram marcas, mas não aconteceu nada demais, não teve seqüela nenhuma. Esse foi um dos acidentes que tive.

 

Pergunta: 

O senhor morava com seu irmão?

 

Resposta: 

Na Vila Pires. Ele não tinha filhos.

 

Pergunta: 

Como surgiu a idéia de estudo? Como ficou o estudo, a escola? O senhor ia à escola quando o senhor chegou aqui?

 

Resposta: 

Até está no depoimento que fiz no Museu de Santo André, eu brinco que era o grupo escolar de Santo André, e eu fui estudar. Eu não fugi da escola, mas a escola fugiu de mim. É um negócio ao contrário. Por que fugiu? Porque eu fui lá estudar e não deixaram, porque eu era criança e não podia estudar de noite. E de dia eu tinha de trabalhar. Então, não podia estudar de dia porque não tinha quem me sustentasse. Eu não tinha ninguém, pai, mãe. Meu irmão trabalhava, e eu tinha de trabalhar para me sustentar. Eu falei, mas não quiseram saber. Se não pode, não pode, então fiquei semi-analfabeto.

 

Pergunta: 

Mas havia escola à noite?

 

Resposta: 

Havia, mas criança não podia. Eu tinha boa vontade, mas não deixaram.

 

Pergunta: 

O senhor não sabia ler?

 

Resposta: 

Sabia, mas eu precisava completar, porque tinha estudado dois anos no primário. Eu queria completar para seguir, ser alguém na vida. O que é alguém na vida? Eu tinha a idéia, sempre gostei de aeronáutica e sempre brinquei que foi porque o Santos Dumont nasceu também no dia 20 de julho, o mesmo que eu nasci, aquela coisa, mas o pessoal, não sei explicar por que, eu gosto muito do espaço. Para você ter uma idéia, o homem pisou na lua no dia 20 de julho, então é um número meio simbólico. Não tem muito a ver, mas parece que faz sentido. Eu queria seguir porque adorava, mas não deu nada certo, então deixei para lá.

 

Pergunta: 

E quando o senhor vai para o Telecurso, para a Madureza?

 

Resposta: 

Fui fazendo cursos profissionalizantes. Em São Paulo estudei arquitetura. Eu começava a estudar, aí ficava desempregado e cancelava tudo, não retornava e partia para outra coisa. Alguns eu concluí. Em São Paulo eu trabalhava à noite fiz curso de caligrafia. É o diploma mais bonito que tenho, mas nunca mostrei para ninguém. Tenho tudo numa pasta, um monte de certificados. Em Santo André fiz esses curtos mais rápidos, com carga horária menor, jornalismo, relações públicas. Mas não gosto de falar nisso porque dá a impressão... Eu sei um pouco. Queria seguir carreira acadêmica, naquela época chamava ginásio, colegial, eu não tive essa oportunidade, então abandonei. Até tenho um amigo, nós fizemos madureza juntos e ele estudou no IMES, fez administração e hoje trabalha na área política, mas nunca me incomodei. O estudo é muito bom, mas são coisas que para mim importam tanto quanto o estudo, porque a cultura não é só formada nas faculdades. A cultura é formada na própria vivência, no meu caso, porque a gente vai se espelhando nas boas vivências das pessoas. Sinceramente fico agradecido quando vejo os jovens se esforçando, querendo aprender mais, pesquisando, e ouvindo aquelas pessoas que têm mais experiência, porque a vida é dinâmica, é um moto-perpétuo.

 

Pergunta: 

Como funcionava essa Madureza, já que o senhor trabalhava? O que o senhor lia?

 

Resposta: 

Eu sempre li de tudo e mais um pouco. Como eu fui fazer Madureza? Eu via sair no jornal o resultado dos exames e via que eu sabia tudo. Fui lá, prestei o exame e passei, sem freqüentar a escola. Eu fui naquela base da bolinha e deu tudo certo. O sistema é esse. Eu cheguei a fazer, trabalhei na General Electric, e foi aí que eu fiz dois cursos de eletricidade pelo Senai, fiz curso de metrologia, de desenho mecânico. Mas como gosto muito de eletricidade e a área em que eu trabalhava era com aparelhos elétricos domésticos, eu cismei em fazer um curso de longa distância de engenharia numa escola americana chamada Escolas Internacionais.

 

Pergunta: 

Em que ano era isso?

 

Resposta: 

Em 1961, por aí. Tenho um amigo, Aldo Bevilácqua, era engenheiro da Rhodia, trabalhou durante 47 anos e ele fez esse curso de engenharia por correspondência nessa escola e tenho livros, ele tem livros publicados e ele passou um livro de uma viagem que ele fez para a França, porque ele trabalhava na Rhodia, que é francesa, ele foi fazer um curso na França e ficou encantado, porque na área de engenharia ele dava de dez a zero nos franceses. E não é petulância da parte dele, pois está tudo documentado, porque ele tinha aprendido com os americanos, que são os mais avançados. Eles avançam muito. Se for bom, eles pegam para eles e por isso eles são uma potência mundial atualmente.

 

Pergunta: 

O senhor passou no exame de Madureza. E as leituras, que leituras o senhor fazia? Revistas, autores brasileiros?

 

Resposta: 

A minha leitura começou, não tenho constrangimento, com história em quadrinhos. Que tipo de gibi? Tenho até hoje encadernado, guardadinho: Edições Maravilhosas, da Editora Brasil América. É bom. Eles resumiam os grandes romances, as grandes histórias. Para você ter uma idéia, eu tenho em casa, em quadrinhos, A Ilíada e A Odisséia. Acho que já falei tudo. Camões, Eça de Queiroz, tudo em quadrinho. Eu comecei assim. E o importante na revista é que está documentado, lia a revista e quando terminava a revista tinha um chamamento: Se você gostou da revista, isso é apenas um aperitivo. Procure entrar numa biblioteca  e compre o livro. Achava uma coisa fantástica. Aí eu lia o livro. Eu lia a história em quadrinhos e lia o livro.

 

Pergunta: 

O senhor gosta de colecionar coisas. O que mais o senhor tem?

 

Resposta: 

Perguntam se eu sou colecionador e eu digo que sou apreciador. Colecionador, com todo respeito, uma pessoa quando quer colecionar alguma coisa tem de ter, primeiro, bom gosto; segundo, muito dinheiro. Eu vou colecionar máquina fotográfica, gravador, eu tenho de ter todos os modelos do mundo. Onde eu vou guardar uma coisa dessas ou ter dinheiro? E para quê? Tem gente que coleciona e só ele sabe, está guardado num cofre, na caixa forte. Para mim não tem valor nenhum. A coleção que tenho é aberta a todo mundo, porque tenho gravações, tenho coisas muito boas de ouvir na área de música. Eu só não deixo, porque perdi muita coisa, por emprestar, porque a pessoa não devolve e eu ia cobrar e a pessoa falava que não era ela. Como não tenho esse hábito de marcar as coisas, se a pessoa tem seriedade, ela empresta uma coisa e devolve, aí eu prefiro gravar a música e as pessoas vão lá, alunos de faculdade vão fazer algum trabalho, vão lá e ficam à vontade, podem anotar o que quiser. Só não deixo levar, porque se levar, não retorna. Infelizmente essa é a realidade.

 

Pergunta: 

Quer dizer que as histórias em quadrinhos que o senhor lia eram adaptações de romances, de autores brasileiros, portugueses?

 

Resposta: 

Victor Hugo, brasileiros também, como Lima Barreto, esse pessoal todo.

 

Pergunta: 

O senhor tem essas adaptações?

 

Resposta: 

Mall Batan, dele tenho ‘Uma História Sem Fim”. Eles publicaram nove histórias na íntegra. Li, tinha a coleção e acabei emprestando e ficando com poucos, tenho uma meia dúzia de livros, “O Homem que Calculava”, etc. O Mall Batan eu gravei na memória algumas histórias dele, muito boas.

 

Pergunta: 

O senhor tem algum autor brasileiro de sua preferência, escritor, poeta?

 

Resposta: 

Acho que todos os bons. Quando se fala dos grandes escritores, por exemplo Gilberto Freire, “Casa-grande e Senzala” que acho que devia ser obrigado que todas as faculdades obrigassem a ler ou não recebia o canudo. Tem um livro que se chama “O Brasil e Suas Riquezas”, de Valdomiro Posshe, que tenho em casa. Devia ser obrigatório em todas as escolas. Graciliano Ramos. Não estou falando porque são autores polêmicos ou não. Isso não interessa. Interessa é que eles dão uma informação segura, correta e verdadeira. Na área da música, a pessoa conhecer o trabalho do Mário Lago, porque a música brasileira, quando se fala de música, tudo, mas tudo que a pessoa quiser saber a respeito da história do Brasil está na música. As críticas, as coisas bonitas. Acho que o único país no mundo, falo assim, não conheço as músicas do mundo inteiro, mas tenho certeza quase que absoluta que nenhum país do mundo, na música, fala do próprio país como tem o Brasil. Vou dar um exemplo. “Aquarela do Brasil” que o Brasil todo conhece. Mas tem uma muito mais bonita, chamada “Canta Brasil”, do Davi Nasser e Alcir Pires Vermelho, tem “Brasil”, do Benedito Lacerda, tem “Onde o Céu Azul é Mais Azul”. Tem muita música falando do Brasil. “Meu Caboclo”. Eles falam do Brasil, de todas as nuanças, todas as coisas bonitas que tem no Brasil. E também tem umas que falam das coisas ruins, é lógico. Eu gosto de rabiscar algumas poesias e escrevi a respeito da música. Vou ler um trecho de “As Cores da Música”: A música é colorida e as cores são musicais. Eu comprovo isso com a maior facilidade, porque tenho uma gravação de uma peça musical de um russo chamada “Quadros de uma Exposição”. Ele foi numa pinacoteca e musicou o que ele viu. Então, faz uma comparação entre a música da Europa e a música brasileira que é também colorida. Eu faço essa comparação ao ouvir uma “Aquarela do Brasil” ou uma “Asa Branca”, do Luiz Gonzaga. Ele dá uma descrição, que a gente está ouvindo a música, mas vendo as cores, porque ele dá uma descrição da área onde está acontecendo aquilo.

 

Pergunta: 

O senhor está falando de música. Vamos falar de rádio? Qual a vivência do senhor, o que o senhor pode nos contar?

 

Resposta: 

Quando era criança, não em Barbacena, mas tinha um senhor que tinha uma loja de tecidos e tinha um rádio. No vilarejo era o único rádio que tinha e na época eu gostava de ouvir o Repórter Esso. Achava bonita.

 

Pergunta: 

O senhor lembra o prefixo?

 

Resposta: 

Era de um músico carioca. O nome dele era Maestro Carioca. Não sei se ele é carioca de verdade. Aquilo pegou e o Brasil inteiro confiava no Repórter Esso. Eu achava bonita a locução. Ficava encantado ouvindo o rádio e as músicas. A música entrou na minha cabeça por dois canais. Meu pai tinha um sítio muito grande e tinha dois tios, muito bem de vida, e eles iam passar férias lá, levavam as crianças e levavam as empregadas domésticas. Lembro do nome de uma, chamada Alzira. Era uma morena, mais ou menos da minha cor e cantava como uma cigarra, o dia inteiro. Era criança e não ligava muito. Achava bonito. O Nordeste é muito musical. E à noite, na frente da casa era numa praça e o fundo da casa dava numa rua e essa rua tinha uma serraria e eles tinham aquelas toras de madeira e à noite eles faziam serenata. Periodicamente vinham ciganos e eles cantavam. Achava aquilo bonito e ficava ouvindo os ciganos cantando. Aí já gostava de ouvir. Em Garanhuns eu vim e foi quando a música me pegou e me segurou. Estava sentado na calçada, criança de tudo, com 12 anos, pensando no que seria o meu futuro. Tinha um serviço de alto-falante e tocou uma música do Pixinguinha chamada “Rosa”. Aquilo eu achei tão sublime, tão bonito, me emocionou. E eu não tinha dinheiro para pedir para repetir. Fiquei umas três horas para ver se repetia, mas não repetiu. Eu ia todo dia para ver se tocava aquela música. A partir daí comecei a gostar de música e não parei e não vou parar.

 

Pergunta: 

O senhor toca, canta?

 

Resposta: 

Não sei nem assobiar. Não toco instrumento nenhum. É uma vergonha. Nesse ponto sou um fracasso total.

 

Pergunta: 

E o senhor trabalhou em rádio?

 

Resposta: 

Nunca trabalhei em rádio. Eu fiz amizade com pessoal de rádio, em 1953, quando tinha a Rádio Clube de Santo André, quando era instalada ali ao lado da Estátua, em cima do prédio da Sociedade Ítalo-Brasileira. Ali era a rádio e o pessoal da rádio, eu trabalhava num restaurante, era cozinheiro e garçom. Meu horário de trabalho era das 19:00h à 1:00h da manhã. Só que 9:00h ia todo mundo embora e ficava só eu. Eu entrava na cozinha e a partir das 9:00h eu era garçom e cozinheiro. E vinha o pessoal da noite, artistas, médicos, advogados, esse pessoal que acabava de trabalhar e vinha jantar. Aí tinham total liberdade de entrar na cozinha e escolher o que queriam e até de ajudar a fazer. Na época tinha o Sandu, em Santo André, que tinha dois médicos que vinham toda noite, quando eles davam plantão. Eles iam lá e queriam cozinhar porque achavam bonito. Eu só anotava o que eles faziam.

 

Pergunta: 

O pessoal da rádio também ia ao restaurante?

 

Resposta: 

Eu fiz amizade com o pessoal da rádio, um locutor chamado Walter Supê. Eles vinham e a gente conversava.

Pergunta: 

Ele contava para o senhor como era a programação da rádio?

 

Resposta: 

Eu ia até a rádio, olhava como era.

 

Pergunta: 

O senhor assistia a esses programas?

 

Resposta: 

Via, assistia, ouvia. Eu ouvia muito, porque ouvir música nunca atrapalhou ninguém. É lógico que se a pessoa estiver concentrada, tem de ser uma música suave.

 

Pergunta: 

O senhor ia como platéia?

 

Resposta: 

Eu tinha um rádio no restaurante e ouvia muito na época a Rádio Gazeta de São Paulo, chamada de emissora de elite. Eu gostava de ouvir porque as músicas que tocavam lá eram de altíssima qualidade. E tinha um programa, não lembro se era duas vezes por semana, todo dia não era, chamado “A hora do livro”. Então, todos os livros que eram lançados eram comentados nesse programa por um professor da USP chamado Fernando Soares. Tive oportunidade de passar um dia com ele, ter uma aula, porque também fui vendedor de livros e ele começava o programa com um poema e terminava com o mesmo poema. O livro aberto é um cérebro que fala / fechado, um amigo que espera / esquecido, uma alma que perdoa / destruído, um coração que chora. É muito bonito. Eu achava aquilo fantástico e acho até hoje, porque as pessoas sobre livros falam muito sobre aquele poema do Castro Alves, “O livro e a América”: Qual bendito que semeia / livra o livro à mão cheia / e faz o povo pensar / o livro caído na alma é germe que faz a palma / é chuva que faz o mar. Então, para não ficar muito por baixo fiz um sobre o livro: O livro, o livro na fogueira / para me fazer companheiro / perdoando a grande asneira praticada em Alexandria / queimaram a biblioteca inteira no auge da covardia / e o livro indefeso, sucumbiu na agonia. Fiz essa poesia e até o Ademir Médici gostou e publicou. Tudo bem. voltando ao rádio, ouvia muita música.

 

Pergunta: 

Vamos falar do rádio aqui em Santo André. O senhor ia a esses programas de auditório?

 

Resposta: 

Quando trabalhei na empresa de ônibus, tinha um motorista que era músico, o Coqueirinho. Até ontem conversei com o filho dele. Esse era sanfoneiro e tinha vários que tocavam. Tinha uma dupla muito famosa em São Paulo, José Fortuna e Pitangueira. Só que as duplas antigas eram todas de três, tinham os dois titulares e um que acompanhava. Era Zé Fortuna, Pitangueira e Coqueirinho, mas era uma dupla. E esse Coqueirinho era muito famoso e ele tinha programa na rádio. Quando ele trouxe para a Rádio Clube de Santo André, tenho fotos e documentos, na época estava no auge um cantor mexicano, Miguel Acebes.

 

Pergunta: 

Que época era?

 

Resposta: 

Época de 53, 54.

 

Pergunta: 

E quem ia?

 

Resposta: 

Tinha platéia, auditório, mas eu freqüentava a rádio em São Paulo.

 

Pergunta: 

E aqui em Santo André?

 

Resposta: 

Quase não ia. Ia muito ao estúdio, quando entrava lá não podia falar nada, só o locutor falando. Quando parava, apagava a luz, dava para conversar. Eu ficava só assistindo. Eu gostava de ver.

 

Pergunta: 

O senhor não tem contato com pessoas que iam assistir como platéia?

 

Resposta: 

Não. Alguns artistas iam jantar e a gente conversava.

 

Pergunta: 

Que artistas?

 

Resposta: 

Os cantores da época. Não lembro o nome. Lembro de artista de teatro. Jaime Barcelos. Ele trabalhou num filme com o Paulo Autran chamado “O Destino em Apuros”, o primeiro filme brasileiro colorido. Eles vinham fazer festa em Santo André e iam jantar lá. Aí pegava amizade. Eu não sei explicar, porque para mim eram pessoas comuns e não tinha aquilo de pegar autógrafo. O Vicente Celestino veio em Santo André, eu gostava demais e gosto até hoje, e foi o único cantor, naquele estilo dele, não teve mais, claro que teve tenores, mas não igual a ele; tem Paulo Fortes e outros, Cândido Botelho, mas vi no jornal que ele vinha se apresentar em Santo André no Cine Carlos Gomes às dez horas da manhã e eu fui. Eu era casado de novo, estava em lua-de-mel, e eu entrei, o cinema vazio, não tinha ninguém, mas sentei e daqui a pouco entrou um cidadão de óculos. Era o próprio Vicente Celestino, pediu licença e ficamos nós três conversando uns quarenta minutos. Uma pessoa distinta, começou a falar, mas não tinha aquela de pegar autógrafo, tirar fotografia. Aquilo foi um marco, de eu ter contato com uma pessoa importante, para a época e para a música brasileira.

 

Pergunta: 

Ele deu o espetáculo? E a platéia?

 

Resposta: 

Deu. Depois começou a chegar gente. Não lotou, mas ficou a metade. Ele fazia isso assim espontaneamente, fazia na rua, em circo. Ele era um cantor que não tinha preconceito. A única coisa que ele exigia era silêncio absoluto e atenção para o trabalho dele. Se ele estivesse cantando e a pessoa conversando, ele parava na hora e ia embora.

 

Pergunta: 

Só voltando um pouco para o rádio. O senhor falou que gostava de ouvir rádio. Os programas das rádios da região eram como os programas da rádio que o senhor costumava ouvir?

 

Resposta: 

Aí surgiu a segunda rádio, que é hoje a Rádio ABC, ali perto da Firestone. E tinha um amigo meu, que até hoje vai à minha casa toda semana, que nós trabalhamos na International, onde hoje é o Carrefour, que era uma fábrica de caminhão e tratores. Vendia peças e montava. Ele saiu da International e, quando ele estava lá, ele montou uma biblioteca circulante. O que é isso? Ele gostava muito de ler, conhecia todos os professores das escolas de Santo André e São Caetano e ele comprava livros e ganhava livros, porque ele vendia livros, eu também vendia livros, e ele levava o livro na casa da pessoa, a pessoa pagava dez cruzeiros por mês e tinha direito a quatro livros. Ficava uma semana, devolvia e pegava outro. Ele passava em todas as casas dos que eram sócios e com isso ele ganhava o dinheiro dele, divulgando conhecimento. E ele tinha um programa na Rádio ABC e me chamou para ajudar. Fui lá conhecer, como aqui, porque a gente vê o cidadão falando com aquela voz bonita, pensa que é um boneco e quando vai ver é um homem mais feio do que eu. Ele fazia esse programa de divulgação de livros no estilo do Fernando Soares da Rádio Gazeta. Inclusive foi lá que eu vi um disco dos adventistas, um disco grande. Era um programa de meia hora, uma hora, tudo no disco. Ele colocava aquela gravação e ficava falando, cantando, divulgando o esquema dele. Mas eu não tinha contato com os técnicos, com os locutores, com aquele pessoal. Eu só ouvia, mas ouvia muito pouco, porque eu já estava em outro trabalho e já não dava tempo de ouvir rádio da região.

 

Pergunta: 

Por que o senhor não gostava de ouvir as rádios daqui?

 

Resposta: 

Porque já estava habituado a ouvir coisa de fora. Eu ia muito na Rádio Record, nos programas de auditório. Lá fiquei conhecendo a Sílvia Solmente. Não de conversar. Com alguns eu conversei e outros não. Pessoas importantes da música popular brasileira, por exemplo o Almirante Henrique Domingues. Ele teve um programa no Rio de Janeiro, um, não, vários programas, que é chamado de a maior patente do rádio brasileiro. O cunhado dele é o Braguinha, o João de Barro. Ele tinha um programa muito significativo. Tinha um programa de curiosidade e um programa de suspense chamado “Incrível, Fantástico, Extraordinário”. Então, aquelas histórias que a gente não acredita passavam lá. E ele era um pesquisador e tinha um acervo grandioso. Antes de ele falecer, foi feito um projeto piloto, o Ricardo Cravo Alvin fez, e deu origem ao Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, e hoje há mais de 500 espalhados pelo Brasil. A origem foi lá, com o acervo do almirante. O governo comprou e ele ficou como curador até morrer. Ele começou a colher depoimentos, como está acontecendo agora, dos artistas, para pertencer ao acervo do Museu da Imagem e do Som. Depois ele faleceu e continua o trabalho até hoje. Aqui em Santo André eu já tive essa preocupação para ver se alguém se dispõe, mas isso é um relaxo.

 

Pergunta: 

Que diferenças existiam entre os programas de São Paulo e os daqui?

 

Resposta: 

Acho que por serem mais tradicionais. Aqui eles lançavam o pessoal da região, mas não é falar mal nem bem, mas do meu gosto, a qualidade já estava enraizada na cabeça da gente. Ouvir um Orlando Silva, Silvio Caldas, Vicente Celestino, Carlos Gallardo, os grandes instrumentistas e os daqui eram mais iniciantes, quase amadores. Tem de dar valor aos amadores, mas como estávamos mais habituados a ouvir aquela qualidade, e eu sou meio chato, gosto de cada vez mais qualidade. Tem de dar oportunidade para todo mundo, mas se tiver qualidade, porque, com todo respeito, dar oportunidade para certas pessoas que estão na televisão, pelo amor de Deus, é esculhambar com a cultura do país.

Pergunta: 

E o tipo de música que essas pessoas da região tocavam?

 

Resposta: 

Eu vim a conhecer essas pessoas tardiamente, infelizmente. Osvaldo Borole, que é muito meu amigo, praticamente irmão, um compositor, na época ele fazia um programa na Rádio ABC, depois ele vai dar um depoimento. Aqui sempre residiram grandes artistas de São Paulo e do Brasil, só que eu não tinha contato com eles, não tinha aquele interesse. Ouvia, mas sem aquela preocupação de documentar, de ser o chamado fã-clube. Por exemplo, Anísio Silva trabalhou na Pirelli, um grande cantor, saiu e foi para o Rio de Janeiro; Orlando Silveira, um grande maestro, começou aqui e foi para o Rio de Janeiro. Tinha de ir para o Rio de Janeiro, porque lá era a Meca de qualquer lugar do Brasil. Tinha de ir para o Rio de Janeiro, senão, parava. Do Guarujá, tem a Nilsa Ribeiro, que mora no Jardim do Estádio, eu, o Joca, o Canhotinho de São Caetano, a gente passava tardes maravilhosas. Esse pessoal tinha de sair da região, porque se ficasse aqui, morria de fome. Talvez por causa disso, via ele lá mas não sabia que era daqui.

 

Pergunta: 

O senhor conheceu a Rádio Cacique?

 

Resposta: 

Depois veio a Rádio Cacique e depois veio a Rádio Alvorada, em São Bernardo.

 

Pergunta: 

O senhor conheceu?

 

Resposta: 

Não conheci. Eu ouvia algumas vezes. O que ouvia na rádio na época, tinha uns programas que gostava das músicas, dos prefixos. Não sei explicar o que era, mas sempre adorei.

 

Pergunta: 

O senhor lembra algum prefixo?

 

Resposta: 

Lembro. Tenho em casa. Tinha um programa na Rádio Clube ou ABC, chamado “Recordações do Oriente”, do Chico Chabuco, e a música, achava engraçado, porque era diferente. O nome da música é “Procissão do Sardá”, o compositor é Hipoliton Ivanov. Baiano não é. Deve ser russo. E esse prefixo é muito bonito e tenho em casa.

 

Pergunta: 

O senhor sabe cantar?

 

Resposta: 

É muito difícil.

 

Pergunta: 

O senhor lembra de alguma propaganda?

 

Resposta: 

Lembro. Na rádio tinha um programa chamado “Parada de Sucessos”, na Rádio Nacional. Até na semana passada emprestei para o Marcelo Duarte um dos prefixos e esse programa começava com uma música estrangeira “Saint Louis Blues”. Uma gravação diferente da época. Tenho dez diferentes, até com o Book Pitman, pai da Eliana Pitman. Tenho a biografia desse pessoal, tenho quase 60 mil sobre biografias. Eu gosto. E era meia hora o programa, quinze minutos tocando música, parava e tocava o sucesso do dia. Era para o pessoal comprar. O prefixo era “Aquarela do Brasil”, uma gravação estilizada, com arranjos feitos pelo Morton Gold. Tenho as duas gravações, a original em 78 rotações, um LP daqueles pequenos e uma com a Orquestra Boston Pops, o mesmo arranjo, bonito e diferente. Não sei por que gostava, porque marcava. Isso tudo eu passei para LP, para gravar, porque nem a Eldorado não tinha mais essa música e eu tenho em casa.

 

Pergunta: 

O senhor disse que para fazer sucesso o artista tinha de ir para o Rio de Janeiro. O senhor tem um palpite do porquê de os artistas da região não fazerem sucesso aqui na região, na época?

 

Resposta: 

Na região e em São Paulo inclusive, porque a Meca da indústria artística, de cantores e músicos, tinha de ser no Rio de Janeiro, porque as gravadoras, as sedes eram lá. Sede de tudo, do governo, era tudo lá e as fábricas eram aqui. Uma fábrica em São Bernardo, a Odeon, mas a gravação era feita no Rio de Janeiro. Ia gravar no Rio de Janeiro. E tem episódios interessantes de cantores que iam para lá. Nelson Gonçalves era um deles. Tenho esse depoimento porque a TV Cultura tem um programa chamado “Ensaio”, que tenho vários, porque em casa eu gravo seis horas de programa e ele ia para o Rio de Janeiro porque não tinha, ninguém valorizava. O santo de casa não faz milagres. Faz, mas esse milagre é pouco.

 

 

Pergunta: 

Aqui não tinha estrutura, no caso?

 

Resposta: 

Também. Não tinha estrutura e não se interessavam. Até hoje não se interessam, infelizmente.

 

Pergunta: 

Nós estamos acabando. Queria pedir que o senhor deixasse alguma mensagem, alguma coisa da sua vida que seja importante.

 

Resposta: 

A mensagem, hoje em dia está muito difícil, o sistema está perverso, mas a gente tem de burlar, no bom sentido, esse sistema perverso e sempre procurar ouvir as pessoas que têm mais experiência, as boas experiências, para passar para a gente e a gente pesquisar, pesquisar e pesquisar. E tudo isso passar, com o maior prazer, para todo mundo. Essa que é a minha mensagem.



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