Digite o termo que deseja pesquisar e selecione a categoria
Theresinha trabalhou na Calçados Floreal, como despontadeira. Foi vendida nos anos 1970, transformando-se na Calphi Calçados, onde ela tornou-se gerente na área administrativa.
PROJETO MEMÓRIAS DO ABC
Depoimento de THERESINHA LOPES, 65 anos.
IMES - Centro Universitário de São Caetano do Sul, 10 de julho de 2003.
Entrevistadores: Vilma Lemos e Daniela Macedo da Silva.
Pergunta:
Dona Theresinha, nós estamos interessadas em sua história de vida. Gostaríamos que a senhora falasse onde nasceu, onde estudou, onde morou, relacionamento com os pais, infância...
Resposta:
Eu nasci aqui em São Caetano, em 20 de outubro de 1937. Depois de três meses, eu fui embora para o interior, fui morar em Penápolis. Depois de lá, com sete anos vim para Sorocaba. Em Sorocaba, nós ficamos até os catorze anos. Com catorze eu vim embora para São Caetano. Eu nasci aqui perto da Cerâmica, era o Barreiro da Cerâmica, na época; agora é o Chico Mendes.
Pergunta:
Por que era um barreiro?
Resposta:
Porque de lá a Cerâmica tirava o barro para fazer as telhas, os tijolos, que faziam com certeza, então eles falavam barreiro, porque era um barreiro lá dentro, tudo era um barreiro, lama. Então falavam Barreiro, onde é o Chico Mendes, famosíssimo.
Pergunta:
A senhora é descendente de espanhóis? Conta um pouquinho deles para a gente.
Resposta:
Minha mãe veio com dez anos da Espanha, então, ela conta que o pai dela não morava junto porque não tinha serviço na época lá na Espanha para ficar junto com a família, então ele trabalhava fora. Minha avó tinha um burrinho e carregava lenha de manhã para poder manter os filhos que tinha. Um dia ele chegou e disse assim: Olha, eu vou embora para o Brasil, porque no Brasil as famílias ficam juntas, os pais com os filhos, e aqui não, aqui não tem serviço, então ficam separados. Se vocês quiserem ir... Todos falaram que sim, que eles viriam, e vieram de navio. Ela dizia que pegou o navio Daka, ela fala que eles foram em um barquinho e do barquinho tiveram que subir com corda até o barco. Ela conta do navio, que nunca eles tinham visto um negro, e quando eles viram um negro, eles ficaram apavorados. Isso no navio. Meu avô disse: Não se preocupem porque eles são gente igual a nós, eles são gente boa. Porque acho que na Espanha, naquela época, não tinha negro. Eu vou contar a história e depois vocês vão lá em casa, ela vai contar tudo de novo.
Pergunta:
Isso foi quando?
Resposta:
Foi quando ela veio da Espanha, 1919, 1920, não sei, porque ela veio com dez anos da Espanha e está com noventa e quatro anos, faz oitenta e quatro anos. Ela vai contar que de lá vieram... Eu não vou contar, porque se vocês forem lá em casa ela vai contar como ela veio, que ela foi para a fazenda; tudo isso ela vai contar.
Pergunta:
E a senhora?
Resposta:
Eu não. Com catorze anos, viemos de novo para São Caetano, porque eu tinha ido embora daqui com três meses, e eu cheguei aqui com catorze anos e comecei a trabalhar já com aquela idade, em calçados. Eu entrei na firma de calçados, Chinelos Floreal, era na Rua São Paulo com a Rua Augusto de Toledo, era aqui em São Caetano do Sul mesmo. Quando a gente entra, não sabe nada, tinha que passar cola, cortar linha...
Pergunta:
Com quantos anos?
Resposta:
Eu tinha catorze anos. Depois de você passar cola, cortar linha, você vai aprender a refilar - refilar é o forrinho que sobra do sapato, a gente costura, solta o forrinho, e a gente refila.
Pergunta:
Como ficava a situação da mão?
Resposta:
A mão ficava com calos. A gente tinha que fazer uma proteção de couro para colocar, porque aquilo inflamava muito, formava bexiga, estourava a bexiga de tanto cortar, de tanto cortar.
Pergunta:
Então o trabalho era muito manual? Tinha máquinas?
Resposta:
Isso era quando entrava, porque não sabia, depois é que passava para a máquina, depois quando a gente já aprendeu bastante, já começou a aprender a costurar, o que a gente fala pespontar. A gente seria uma pespontadeira, que era costurar as costurinhas do sapato. Então a gente já aprendeu a pespontar. Eu fiquei muitos anos pespontando, passei como encarregada de sessão, depois passei para gerente de produção, e quando eu fiz quinze anos de firma, na época não tinha fundo de garantia, como fizeram acordo com outras moças, eu falei que também queria fazer, pois já tinha quinze anos, então peguei a máquina de pesponto no lugar do valor a que eu tinha direito, e comecei a pespontar em casa. Eu levava serviço da própria firma em que eu trabalhava para casa e eu costurava de noite, no outro dia eu levava para a firma de novo, e de tarde levava outra vez para a casa e pespontava em casa.
Pergunta:
E ganhava um extra com isso?
Resposta:
Ganhava por par em casa, eu pespontava e ganhava separado. Foi daí que eu comecei a juntar um dinheiro para mim, eu pagava aluguel, meu pai era vivo ainda, mas logo meu pai faleceu, logo que eu comecei a pespontar em casa, eu comecei a pespontar e sobrava aquele dinheirinho, trabalhava de dia na firma e de noite em casa, e falei para minha mãe: Eu vou ver se eu compro nem que seja um barraco para nós morarmos sem pagar aluguel. E comecei a procurar casa, mas era difícil porque era pouco o dinheiro que a gente tinha para comprar. Fomos ver na Vila Gerty, fomos ver em todo lugar e não dava. Quando eu achava a casa, eu não conseguia dinheiro para dar de entrada. Apareceu essa e eu consegui. Depois meu irmão se casou também e eu fiquei sozinha com minha mãe e com essa irmã que não enxerga. Eu falei para minha mãe: pois agora nós vamos comprar. A casa em que eu moro era como um barraco, tinha porão, tinha escada para subir, o estuque estava caindo, o quarto afundou, tinha todos esses problemas, mas mesmo assim nós estávamos dentro da casa; depois é que eu fui reformando aos poucos. Eu fiquei sete anos para pagar a casa. Na época, a gente podia fazer promissórias, já faz mais de trinta anos, eu nem sei mais quantos anos. Eu fiz setenta e duas promissórias de duzentos reais cada uma. Eu ganhava duzentos e cinqüenta reais por mês e pagava duzentos reais da casa. Eu pespontava de noite e minha mãe ia pegar o serviço de manhã, ela trazia, ela passava cola para mim, à noite eu dobrava, pespontava, ela refilava, que era recortar, no dia seguinte ela ia entregar na firma, ela trazia mais, durante o dia ela preparava um pouquinho, durante a noite eu pespontava. Aos sábados e domingos eu fazia manicura, eu fazia limpeza de pele, eu fazia permanente nas pessoas, para conseguir pagar a casa, porque ganhando duzentos e cinqüenta e pagando duzentos de prestação, não dava para viver de jeito nenhum. Depois, quando eu reformei, tive que reformar o quarto, porque o quarto estava afundando e não tinha condições de morar nele, o estuque estava caindo, tive que reformar o quarto; e só depois, quando acabei de pagar a casa, é que eu a reformei toda. Eu ainda tinha a minha avó, mãe da minha mãe, morando comigo. Uma época elas ficavam doentes, eu tinha que trabalhar, porque eu não queria ficar em casa, eu fechava a porta de manhã e deixava as três doentes em casa, porque eu tinha que trabalhar, então uma vizinha vinha, um irmão vinha fazer alguma coisa, porque eu jamais poderia ficar em casa porque eu que sustentava todas elas. Depois minha avó foi embora, os meus tios falaram que não tinha condições de uma moça sozinha sustentar todas elas.
Pergunta:
Quantos anos a senhora tinha quando sustentava todas elas?
Resposta:
Quando meu pai faleceu, eu tinha trinta (anos), então eu tinha que ter mais de quarenta, uns quarenta, uns trinta e cinco (anos) por aí, devia ter quando eu comprei a minha casa, porque meu pai faleceu e depois de dois anos, o meu irmão casou e ficamos as três sozinhas, e pagando aluguel. Aí era difícil.
Pergunta:
A senhora começou a trabalhar com catorze anos. Então como foi a infância? A senhora teve infância, brincadeira?
Resposta:
Muito pouco, lá em Sorocaba, porque com sete anos eu entrei na casa de uma família, porque a mulher era meio doente, era ela, o marido, um filho casado e um solteiro, então ela falava: Vem me fazer companhia. Eu lavava uma loucinha, eu subia em cima de um caixotinho e lavava a loucinha para ela, eu tirava o pó; e eu fiquei com ela dos sete aos quatorze (anos). Quando eu vim embora para cá, ela pediu para a minha mãe me deixar com ela, e eu ficava porque eu gostava tanto dela, que eu ficava lá, só não dormia na casa dela, eu ficava de cedo até a noite.
Pergunta:
E ganhava quanto?
Resposta:
Não! Eu nem ganhava, acho que nem ganhava (risos) naquela época, porque eu ficava com ela fazendo companhia e ela era tão boa, ela ajudava minha mãe em alguma coisa, na época minha mãe tinha que lavar roupa para fora, porque em Sorocaba foi muito difícil; eu tinha mais duas irmãs que trabalhavam e um irmão e meu pai, mas ganhavam muito pouco, não era como agora que o povo ganha milhões, na época se ganhava pouco, minha mãe para sustentar todos, todos trabalhavam, mas ganhavam pouco, ela lavava roupa para fora, tudo isso, e eu também desde pequena, então a gente pouca infância teve para brincar. Agora com dezesseis ainda não estão trabalhando, estão estudando. A gente não teve condições de estudar assim. Eu queria estudar, lá em Sorocaba tinha uma escola que chamava Profissional, então lá você entrava de manhã e saía à noite, e lá você aprendia a fazer tudo: costura, bordado, você saía já pronta, mas precisava pagar para você estudar e lá em casa ninguém tinha condições de pagar estudo.
Pergunta:
A senhora estudou até que série? Não havia escola pública?
Resposta:
Até o quarto ano só. Naquele tempo não tinha. Só tinha até o quarto ano. Depois eu vim pra cá e já comecei a trabalhar, daí a gente trabalhava tanto, dia e noite, então não teve condições de estudar mais.
Pergunta:
Mas a senhora me contou que ia a bailes?
Resposta:
Ah! Eu ia! Eu dancei muitos anos, acho que dez anos; quando era formada moça, com dezoito, vinte anos, eu dançava de quinta, sábado à noite, de domingo na matinê e de domingo à noite.
Pergunta:
Onde?
Resposta:
Eu dançava aqui no Guarani, no Comercial, no São Caetano, na GM, a gente também dançava.
Pergunta:
Como as mulheres iam vestidas?
Resposta:
Ah! Muito bem. Naquele tempo, a cada baile a gente queria fazer uma roupa diferente. A gente ia muito bem vestida, não é como agora que vai de calça jeans, não; a gente ia bem vestida. E a gente já tinha os parceiros da gente nos bailes, não é como agora, agora é diferente. A gente já tinha os parceiros quando chegava nos bailes, já tinha os parceiros, e a gente dançava a noite toda com eles. Foi uma maravilha na minha vida, eu gostava muito da minha vida quando eu dançava, eu tinha muitos amigos naquela época, e a gente queria ir com eles e voltar de madrugada, quatro, cinco horas da manhã, nós vínhamos pela rua todos juntos e não acontecia nada com a gente. Agora, a gente não pode nem abrir o portão às dez horas da noite. Naquela época, não. Naquela época a gente ia às dez horas para o baile e voltava às cinco horas da manhã.
Pergunta:
Quem pagava a conta?
Resposta:
Ah! Eram eles. Não é como agora que as mulheres pagam. Uma vez, eu fui ao cinema e só porque o rapaz falou assim, eu fui com uma amiga minha e o namorado dela, e ele me falou: Quantos ingressos eu tenho que tirar? Eu falei: só a minha. Só que ele tirou só naquele dia. Eu falei: Não quero homem assim. De jeito nenhum. Porque eu acho que naquele tempo era assim, agora não é mais, mas o homem pagava tudo. Ia no ônibus, mesmo um amigo da gente, não era namorado, não, era amigo da gente, você saía com eles, eles pagavam tudo para você, era ônibus, era onde você tomava refrigerante, tudo eles pagavam para a gente. Hoje em dia não é assim. Eu não queria que fosse assim como é agora, antigamente era melhor do que agora.
Pergunta:
Dona Teresinha, que tipo de roupa as mulheres usavam e que tipo de música se dançava?
Resposta:
Ah! A gente dançava muito samba, bolero, todas essas músicas mais antigas. Tinha até competição de dança. Eu competia muito também porque eu dançava bastante. Mas era muito bom. Tinha muitas músicas boas, todas as músicas antigas. Não era como agora. A gente dançava muito de rostinho colado; agora não, dança tudo solto; naquele tempo não, naquele tempo você dançava juntinho com eles. Era muito bom.
Pergunta:
Que cantores faziam sucesso?
Resposta:
Nelson Gonçalves, Gregório Barros, e outros, todos esses eu dançava muito.
Pergunta:
A senhora sabe cantar alguma musica?
Resposta:
Não, não sei.
Pergunta:
Toca algum instrumento ou tocava?
Resposta:
Não. Mas gosto muito de música. Eu levanto, a primeira coisa que eu faço é ligar o rádio, porque eu adoro música.
Pergunta:
Descreva para mim como era o bairro onde a senhora comprou a casa?
Resposta:
É como está agora. Aquela rua, antes de eu comprar, era fechada, mas quando eu comprei já estava em construção aberta, as casas são as mesmas. Só nesse pedaço já faz cinqüenta e dois anos que estou, porque eu morava na Avenida Carlos João, no comecinho, depois fui mais para baixo, depois subi mais, depois fui lá para o fim e depois voltei para esta casa onde estou morando agora. Mas só nesse pedaço faz mais de cinqüenta anos.
Pergunta:
Esse bairro não se alterou muito? As casas são as mesmas?
Resposta:
Aumentou sim, bastante. Veja que a Cerâmica vai ser demolida, não vai ter mais a fábrica da Cerâmica, serão uns prédios empresariais, de escritórios, essas coisas. Dizem que até o final do ano não chega a fábrica da Cerâmica, que eles vão demolir tudo. E lá onde é o Chico Mendes, eles falavam que era o barreiro da Cerâmica. Lá ficou muito bom agora, mas não era bom, era só mato, barro, barrocas assim. Agora é muito bom.
Pergunta:
O bairro em que a senhora comprou sua casa era deserto ou tinha muitas casas?
Resposta:
Tinha sim. Quando eu comprei já tinha as casas todas lá, bastantes. Não tinha assim... Lá no final da Rua São Paulo, eles fizeram uma ponte que caiu, não sei se vocês chegaram a saber, essa ponte atravessa de São Caetano para São Paulo, no final da Rua São Paulo, a ponte caiu e dizem que eles vão construir e que até o final do ano estará pronta. Lá também era tudo uma lagoa onde é o Tamoio, lá também era tudo barro, águas paradas, era tudo assim lá embaixo, mas isso quando eu vim morar em São Caetano. Depois que eu estou nessa casa, já estavam feitas as casas lá embaixo, está muito bonito lá, agora.
Pergunta:
E quando a senhora ia aos bailes, de onde eram as amigas? Os pais deixavam sair? Como era?
Resposta:
Deixavam. Só que às vezes ia a avó de uma, a avó de outra, a mãe de uma outra, mas eram amigas, vizinhas da gente e amigos que a gente tinha, às vezes não eram daqui, eram do Ipiranga, e vinham pegar a gente, era muito bom. Naquela época era bom, a gente ia aos bailes, era a melhor diversão que a gente tinha.
Pergunta:
E saindo em grupo assim, como é que namoravam? Como chegava a um namoro?
Resposta:
Às vezes elas iam... Eu mesma, eu não namorava assim, não. Eu dançava com eles, eles eram noivos já na época. Eles namoravam, às vezes elas não iam, depois eles iam para os bailes e eu ficava com eles até as quatro da manhã dançando, porque às vezes as namoradas não iam, e eles gostavam de ir, a gente ia. Não sei, acho que a gente dançando assim era mais difícil de se afirmar com namorado, porque você tinha vários parceiros para dançar. Você namorando, você não pode dançar com ninguém, só com aquele.
Pergunta:
Os homens podiam?
Resposta:
Os homens podiam. Eu não namorava os que eu dançava, não, nenhum. Eu namorei muito pouco. Eu namorava um mês só, mais que um mês eu não namorava. Se eu achava que dava, eu continuava, senão eu já mandava andar, porque eu era muito exigente. (risos)
Pergunta:
Por que não dava para continuar o namoro?
Resposta:
Eu olhava muitas coisas nos rapazes, no modo de se vestir, no modo de tratar a gente. Hoje em dia, os moços vão ao cinema, eles põem os pés em cima das cadeiras da frente, fazem todas essas coisas. Na minha época, eles não faziam. Eu também não sou tão velha assim, mas não faziam. Quando eles sentavam com a gente, eles tinham que se portar direitinho nas cadeiras. Não era assim como agora que eles deitam nos bancos quando vão com as namoradas, eles põem o pé na cadeira da frente. Tudo isso. No meu tempo, eu olhava tudo isso. Se ele não se portasse bem comigo, também não queria mais; eu era muito exigente.
Pergunta:
Se não pagavam a conta também?
Resposta:
Também. Se não pagava... Se passasse no ônibus, na roleta, e não pagasse, esse não ia duas vezes comigo, não, porque eu não queria. Eu era assim mesmo. Eu não gostava desse tipo, então era assim mesmo.
Pergunta:
Vocês iam aos cinemas?
Resposta:
Sim. Íamos.
Pergunta:
Que artista fazia sucesso?
Resposta:
Não me lembro, não me lembro. Uma vez, eu namorava um rapaz, já fazia uns três meses que eu namorava ele, e nós fomos assistir "E o vento levou". Nesse dia, eu dei um fora nele, talvez teve coisa que eu não gostei (risos) e falava: E o vento levou mesmo, porque eu não gostava dele. Minha mãe falava: Ai, meu Deus! Eu falava: Não dá certo. O que eu ia fazer? Eu olhava muita coisa no rapaz. Não sei por quê. Não sei se é porque a gente dançava, já tinha os parceiros da gente, então a gente não afinava com outros rapazes para namorar.
Pergunta:
Vocês iam ao cinema, bailes. E o rádio? Você ouvia rádio?
Resposta:
Ouvia. Ouvia música. Eu tinha adoração na época por um cantor, Francisco Carlos. Eu tinha muitas fotos dele. Quando vinha nos bailes em São Caetano, tudo isso, eu ia. Eu levantava de madrugada, eu ia, eu furava fila, eu passava e queria sentar na frente, porque eu gostava muito dos artistas. Eu gosto ainda, mas aquele lá eu gostava demais dele. Quando ele vinha a São Paulo, eu ia para ver ele. Só que no dia em que eu conversei com ele, eu tive uma decepção com ele, porque ele era um homem no palco e outro fora. No palco ele conversava, ele brincava com a gente, cantava com a gente, quando ele desceu que eu fui conversar com ele, ele era um homem arrogante, então a gente fica desiludida. Ele já está velho também, mora no Rio, mas eu gostava muito dele, eu adorava.
Pergunta:
A senhora disse que ele dava volta nos bairros?
Resposta:
Na minha época, o Silvio Santos fazia nos bairros o que agora eles falam que é show. No Cinemax, no centro de São Caetano, então eles faziam a ronda dos bairros, alegria dos bairros. E a gente ia. Começava às vezes nove horas e quando eram 4 horas da manhã a gente já tinha que estar na porta, sentada numa das primeiras. Vinham muitos artistas, igual vêm nos shows que eles fazem. Agora eles falam shows, antigamente era outro nome. E eu ia muito, eu não perdia, eu adorava os artistas.
Pergunta:
Com quem?
Resposta:
Com as amigas da gente, que saíam com a gente para passear. Lá onde é o jardim Primeiro de Maio, na Avenida Goiás, a gente passeava de domingo, dava volta, todo sábado e domingo ia lá passear. Agora não tem como passear de noite. Hoje você vai em uma lanchonete. Naquele tempo não era assim.
Pergunta:
Vocês davam volta e os moços?
Resposta:
Os moços ficavam parados, e as moças passeavam. Era uma delicia. A gente parava e conversava com eles, paquerava.
Pergunta:
As mulheres paravam?
Resposta:
Paravam. Eles conversavam com a gente, depois traziam a gente para casa. Era muito bom aquele tempo, melhor do que agora.
Pergunta:
Se o dinheiro era pouco, como conseguiam dinheiro para pagar tanta coisa?
Resposta:
Não, não gastava nada. No jardim não gastava nada.
Pergunta:
E as roupas dos bailes?
Resposta:
Os bailes a gente não pagava; mulher era difícil pagar nos bailes. E a gente ia com eles e eles alugavam mesa, o que a gente bebia ou comia eles pagavam tudo, mulher era difícil pagar. Não pagava como agora. Eu, se fosse para pagar, não pagava nada. (risos)
Pergunta:
Mas se o dinheiro era pouco, difícil...
Resposta:
Mas gastava menos que agora. Agora vai muito em lanchonete, gasta muito.
Pergunta:
Dava para comer? Como? O que se comia?
Resposta:
Eu, na minha casa, a minha mãe fala que nós, agora, estamos melhor que antigamente, porque o tempo que eu comprei minha casa era difícil, ganhava muito pouco. Eu falo que eu tenho que agradecer a minha casa muito a minha mãe, porque eu ganhava pouco e ela era muito econômica, ela andava em São Caetano pegava a sacolinha dela e ia lá para baixo, em São Caetano, para comprar as coisas mais baratinhas, para economizar, porque não dava para comprar o que queria. Então ela falava que ela ia na feira e não dava para comprar coisas que ela queria, como frutas. Agora compra, mas naquela época não dava para comprar, porque o dinheiro não dava. Agora a gente come o que quer, tem mais fartura, tem mais dinheiro, dá para comprar mais, mas na época não dava para comprar nada.
Pergunta:
Como eram as condições de trabalho? Como a senhora chegou ao cargo que chegou?
Resposta:
Muitos anos de firma e muito interesse pela firma. Eu me interessava muito, eu trabalhava muito, nos fazíamos muitas horas extras, a gente se esforçava ao máximo. Não era como agora que entra, trabalha uns meses e já sai. Na época, a gente precisava trabalhar também, então a gente ficava mais tempo na firma trabalhando. Eu falo que eu me criei lá com eles porque eu entrei menina e saí de lá com cinqüenta anos, então eu me criei com eles; quando os filhos deles nasceram, da dona da firma, a gente estava sempre ali junto, a gente sempre se interessou pela firma então eles tinham confiança na gente e foram passando. Quando abriu o Calfi Calçados, ele era da Floreal, era o genro do dono da Floreal, eles separaram a sociedade e ele abriu Calfi Calçados, então eu fui com ele para a Calfi Calçados e nós dois começamos na firma a zero, porque ele só levou umas máquinas de calçados. Ele cortava as amostras e eu pespontava e foi aumentando a Calfi Calçados, mas nós começamos com um par de calçados por dia, dois pares, foi começando aos poucos, e depois a gente fez a Calfi Calçados, aumentou a firma, mas só tinha uma máquina de pesponto, uma escarnideira, uma cortadeira. Depois ele comprou as máquinas grandes, e ficou com cinqüenta, sessenta pessoas. Era bastante gente.
Pergunta:
Tinha greve nas firmas?
Resposta:
Não. Nós nunca fizemos, mas teve uma época que o Lula fez greve e foram para fechar a firma também, mas nós não, eu nunca gostei de greve, nunca aprovei greve. Eu acho que não é certo, a gente deve dialogar com os patrões e não fazer greve. A gente precisa trabalhar. Acho que patrão precisa da gente, mas a gente também precisa do patrão, porque a gente precisa do serviço, então eu nunca aprovei greve.
Pergunta:
Como a senhora vê a política local?
Resposta:
(Risos) É difícil, porque é tanta roubalheira que tem na política que é bom nem falar. Aqui de São Caetano não escuto falar muito do prefeito, se rouba, se faz as coisas assim, não. Não escuto falar nada dos vereadores, de nada. Eu gosto muito daqui, votei para ele, no filho dele, eu gosto. Só que eu acho que ele deveria olhar mais a saúde de São Caetano, porque a gente ganhar pouco e não ter um hospital para ser atendido... Quando meu pai faleceu, há trinta e oito anos, naquele tempo tinha INSS, então tinha hospital público, se você ficava doente, você tinha um hospital para ir sem gastar nada. Hoje em dia não tem. Hoje em dia você não tem nada. E se você não tem dinheiro, como é que fica? Só se for para as clínicas. Hoje, em São Caetano, tem posto de saúde, mas se você precisa de uma internação por mais tempo, onde você vai? Não tem em São Caetano do Sul. Espero que o prefeito termine logo esse hospital e faça alguma coisa por nós, porque a gente está precisando de um hospital em São Caetano.
Pergunta:
A senhora tem lembrança de como foi a adaptação dos seus pais como estrangeiros, imigrantes, aqui no país?
Resposta:
Minha mãe conta tudo isso. Se eu contar para vocês, depois ela vai contar tudo novamente.
Pergunta:
Suas lembranças?
Resposta:
Ah! Eu não me lembro muito, não. Eu nasci aqui, meus irmãos já eram todos grandinhos, e depois nós voltamos de novo para o interior. Eles trabalhavam na roça, eu não, porque eu era muito pequena, mas a minha mãe me levava na roça, e ela fala que me deixava debaixo de um pé de café, fazia uma caminha e me deixava lá para eles poderem trabalhar na roça, capinar, fazer todas essas coisas. E depois quando eu tinha sete anos nós viemos para Sorocaba, então no interior eu não trabalhei nada, mas meus irmãos trabalharam na roça.
Pergunta:
Vocês falam espanhol?
Resposta:
No tempo do meu pai, sim. Quando meu pai era vivo, minha mãe só falava espanhol com ele. A gente nunca falou, mas eles falavam lá e a gente entendia tudo. Depois, quando ele faleceu, ela não falou mais. Se ela encontra uma pessoa espanhola, ela fala em espanhol, ela gosta de falar, mas nós mesmos não falamos espanhol em casa.
Pergunta:
Seu pai tinha uma expectativa quando veio para o Brasil?
Resposta:
Ele veio menino também, ele veio com doze anos. Ele e meus tios, todos falecidos, da parte do meu pai são todos falecidos.
Pergunta:
A senhora lembra do período da Ditadura, de Getúlio Vargas, que tenha interferido na vida dos cidadãos, das pessoas?
Resposta:
Quando eu morava em Sorocaba, teve uma greve que eles falavam, acho que era do partido do Lula, porque eles falavam do vermelho, e tinha uma, não sei se era da família, ela chamava Ivete Vargas, então eles falavam comunistas, que ela era comunista. Nós morávamos encostadinho ao partido, então fazia muita guerra lá, muita revolução, tinha cavalaria. Para nós eles não faziam nada, eles falavam: Vocês não saiam de dentro de casa. Nem trabalhar a gente podia ir, porque ficava a cavalaria na rua e eles brigavam muito. Eu não sei o que era.
Pergunta:
Quando era?
Resposta:
Ah... Já faz mais de cinqüenta anos.
Pergunta:
Que idade a senhora tinha?
Resposta:
Uns dez anos, por aí...
Pergunta:
E quando falavam de comunismo, como a senhora tem essa memória de criança?
Resposta:
Muito ruim, porque eles brigaram muito, vinha a cavalaria e parecia guerra. Eu não sei se era guerra (risos), a gente era menina, eu sei que teve época que faltavam coisas, faltava pão, faltava açúcar, faltava farinha. Então a gente tinha que levantar cedo, de madrugada, ficar na fila para pegar um pãozinho. Outra época, não tinha leite ou não tinha açúcar, tudo isso faltava. Às vezes, a gente tinha que pousar nas filas para poder pegar um quilo de açúcar, uma coisa assim, porque era difícil. Não era como agora que tem fartura das coisas.
Pergunta:
A senhora já se aposentou. Como foi sua aposentadoria?
Resposta:
Eu já tinha tempo de serviço então aposentei, só que eu aposentei com muito pouco. Na época, eu queria pagar mais para poder me aposentar com mais, mas eles falavam que não precisava pagar mais, porque eu não tinha condições de pagar mais, porque eu ganhava pouco, e eles falavam: Não precisa você pagar mais, porque você não vai precisar depois de mais. Mas depois, como ele abandonou a firma, ele se separou da mulher dele e abandonou a firma, então eu também saí da firma, e eu me aposentei com pouco. O governo já rebaixou mais ainda, a gente não ganha na faixa do salário mínimo, porque o governo tirou, então foi difícil. Mas depois eu saí, entrei em outra firma, em dois lugares, depois uma outra pessoa me arrumou uma máquina de overloque e eu costurava em máquina de overloque para a oficina de costura.
Pergunta:
O que faz uma oficina de costura?
Resposta:
Máquina de overloque? Ela faz tudo. Na época, fazia roupinha de bebê, pagãozinho de bebê, fazia calcinha, mijãozinho, blusinha, e eu fiquei muitos anos com a máquina de overloque, fazendo, mas depois chegou uma época que foi difícil, porque a minha mãe foi ficando com mais idade e não dava para ajudar. A única coisa que eu faço em casa e que dá para fazer são os chinelos para casa, em casa eu faço e vendo, essas pessoas que compram uma vez, elas vêm comprar sempre. Isso eu faço ainda para vender.
Pergunta:
Que tipo de chinelo?
Resposta:
Chinelo de tecido, tecido desses de tapeçaria. Eu compro tecido e compro a sola em São Paulo que eu mando importar a sola, em casa eu corto, eu coloco o viés no tecido, eu colo e monto o chinelo. Isso eu faço ainda.
Pergunta:
Com que máquina?
Resposta:
Com aquela máquina de pesponto, que tem mais de cinqüenta anos, porque comigo ela já tem quarenta anos e já era antiga na firma. Imagina!
Pergunta:
Máquina nacional?
Resposta:
Esquerda, da Singer.
Pergunta:
Era importada?
Reposta:
Não sei. Acho que não. Singer acho que é brasileira.
Pergunta:
A senhora dirige?
Resposta:
Dirijo.
Pergunta:
Tem carro?
Resposta :
Tenho.
Pergunta:
Então conseguiu?
Resposta:
Consegui, quando eu trabalhava ainda. Quando eu aposentei, eu continuei trabalhando e dava um pouco. Você ganha o salário da aposentadoria e mais o que você trabalha, fazendo uma economia dava. Juntei um dinheirinho e deu para comprar. Eu peguei uma indenização, quando eu aposentei já tinha fundo de garantia, sobre o que eu tinha direito e deu para eu comprar um fusquinha 75. Fiquei com o fusquinha uns cinco anos, depois eu vendi e comprei um 80. E estou com ele até hoje, mas não dá para trocar mais, porque não tenho mais dinheiro para comprar outro carro, mas está muito bom, porque eu não gosto muito de dirigir, é só pra levar a minha mãe e a minha irmã para sair ou para fazer algumas compras, está muito bom.
Pergunta:
Dona Terezinha, uma última pergunta.
Reposta :
Mas pode perguntar o que quiser.
Pergunta:
A senhora viveu o período da ditadura. O que a senhora gostaria de deixar para os jovens e para as futuras gerações da sua experiência de vida?
Resposta:
Hoje em dia está tão difícil. É uma pena, porque a pessoa hoje em dia estuda tanto e depois não tem serviço para o que estudou. Eu acho que o governo deveria ver mais isso, dar mais serviço para o povo, deixar o povo trabalhar mais cedo. Você vê moços de l7, l8 anos e que ainda não trabalham. Acho que os jovens deveriam começar a trabalhar mais cedo para dar mais valor à vida, porque começando cedo, você dá mais valor naquilo que você tem. Se você pega tudo de mão beijada, o pai paga escola, paga roupa, paga tudo, então não se dá valor a nada quase. Eu não. Eu dou muito valor ao meu trabalho, a tudo, porque eu comprei esta casa com tanto sacrifício, e agradeço a minha mãe bastante porque ela foi muito econômica. Eu falo: mãe, se a gente tem esta casa hoje em dia é porque a senhora ajudou muito, porque a senhora foi muito econômica, se a senhora fosse uma mulher que esbanjasse e não fosse econômica em casa, eu não teria conseguido comprar. Você veja, na época a gente parcelou por promissórias e depois para reformar tive que fazer um empréstimo no banco e paguei juros para o banco, foi difícil, por ganhar pouco e ter que pagar o banco ainda, mas graças a Deus eu consegui. E minha mãe fala: Você recebeu tantos anos de firma, você deveria estar melhor. Eu falo: Não, mãe, a gente tem que agradecer, porque depois que a gente saiu, a gente está tão bem, estamos nós três, nós ganhamos pouco, mas sabemos cuidar de tudo. Está dando para viver bem, a gente compra o que a gente quer. Se eu estivesse trabalhando seria mais difícil. Como estaria minha mãe, se eu estivesse trabalhando? A idade que tem, a outra que não enxerga. No entanto, estamos as três em casa juntas, eu cuido delas e me sinto tão feliz. E agradeço a Deus por tudo que eu tenho. A gente nunca deve deixar de agradecer a Deus, tudo que a gente tem Deus dá para a gente.