Digite o termo que deseja pesquisar e selecione a categoria
Vilma Amaro trabalhou como repórter em jornais da região e da chamada imprensa alternativa nos anos 1970. Teve ativa atuação política e vivenciou a ditadura militar.
Depoimento de VILMA AMARO, 58 anos.
Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 08 de julho de 2005.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Herom Vargas, Priscila F. Perazzo e Olga Fávero.
Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.
Pergunta: Por favor comece falando a data e o local de seu nascimento.
Resposta:
Nasci em 15 de setembro de 1947, na cidade de Santos.
Pergunta: Fale um pouco sobre a sua família.
Resposta:
Eu sou de origem portuguesa. Acho que a primeira geração, meu avô, bisavô, todos nascidos em Portugal. Meus pais são de origem camponesa, na realidade pequenos proprietários da região de Coimbra. Vieram para cá com a guerra, em um cargueiro. Meu pai veio um pouco antes porque era costume dos portugueses, o marido vir um pouco antes para fazer a vida e depois que se arrumasse, estivesse com uma situação um pouco melhor, chamava a mulher. Foi o que aconteceu. Eu já tinha uma irmã nascida em Portugal, que tinha 6 anos. A gente foi morar em Santos. Estudei no Olavo Bilac, em Santos e depois a gente foi para Ribeirão Pires. Eu já tinha 12 anos.
Pergunta: Em Santos, como era a cidade, a sua infância?
Resposta:
Na realidade a minha infância foi muito boa, tenho recordações maravilhosas, porque é uma cidade agradável, eu gosto muito de praia. A gente morava num local razoável, a Vila Belmiro, bem na esquina do Santos Futebol Clube, perto da Portuguesa Santista, então a gente freqüentava as festas nos dois clubes. Eu conheci o Pelé, ainda mocinho começando no Santos. Depois meu pai comprou um restaurante pertinho do Santos Futebol Clube, que era o Restaurante Luís XV, que era bastante conhecido na época, que fornecia comida até para o Santos Futebol Clube, então muitos jogadores freqüentavam. Na época a gente podia também freqüentar estádio de futebol e ia muito com meu pai assistir muitos jogos do Santos, acompanhava e entendia. Hoje não, não entendo nada. Na época era gostoso. Tive uma infância bem agradável, bem gostosa, muito legal.
Pergunta: Seu pai sempre teve comércio?
Resposta:
Quando chegou de Portugal ele sempre mexeu com comércio, padaria ou restaurante, o que os portugueses faziam em Santos. Minha mãe era dona de casa.
Pergunta: E você ouvia música?
Resposta:
Sim. Tenho muitas recordações. Ouvia bastante Amália Rodrigues e outros cantores.
Pergunta: Em Santos a colônia portuguesa é grande?
Resposta:
É bem grande. E tem os clubes, que a gente freqüentava, Vasco da Gama e outros da colônia. E tinha festas portuguesas, artistas que vinham de Portugal e a gente assistia. Era uma vida bem agitada que a gente tinha em Santos. Não lembro muito da questão política, e pouco eu lembro das greves do porto e na ferrovia, que eram as duas principais atividades da população santista. Eu lembro que tinha esses movimentos populares. Meu pai não tinha muita instrução, porque era do campo, mas eles sabiam ler e escrever, porque o pessoal do campo de Portugal não tem muita escola. Minha mãe sabia ler e escrever e meu pai eu não sei onde ele buscou essas influências, mas ele tinha algumas idéias anarquistas. Acho que isso me influenciou um pouco a me direcionar um pouco para a política. Ele não gostava muito de padres, coisas que os anarquistas criticavam muito. Embora minha mãe fosse católica fervorosa, ele sempre criticava. Ele tinha algumas idéias anarquistas. Lia muito sobre a revolução russa.
Pergunta: Você tinha livros em casa?
Resposta:
Sim. Ele era uma personalidade muito interessante. Era autodidata, estudou matemática, até mesmo coisas difíceis como logaritmos, essas coisas difíceis. Acho que isso me direcionou um pouco para a questão política.
Pergunta: Mas uma parte da sua educação também foi católica, pela sua mãe?
Resposta:
Sim. Fui aquela católica marxista anarquista. Hoje eu pergunto o que é moderno. É o punk? Então estou nessa. Sempre quero estar na vanguarda. Acho que foi esse aspecto do meu pai, mais que da minha mãe. Minha mãe era mais recolhida, uma pessoa meio segura. Meu pai era mais aberto, tinha amizade com todo mundo, uma pessoa bem franca. Isso me motivou a ter interesse pela política.
Pergunta: E a escola?
Resposta:
A escola na época era ótima. Era escola pública, sempre estudei em escola pública porque a gente não tinha condição de pagar uma escola particular, e na época eram caras. Sempre estudei em escola pública, até na faculdade. A Cásper Líbero, de jornalismo, na época não era paga porque o Cásper Líbero deixou um testamento dizendo que os recursos que ele deixara eram para manter a faculdade. Já no meu tempo ela passou a ser paga e houve até uma briga. O pessoal até foi discutir com o cardeal e ele apoiou a luta dos estudantes, mas no fim venceu o pessoal ligado à Fundação, da TV Gazeta, e depois criaram a televisão e a faculdade começou a ser paga.
Pergunta: Você saiu de Santos por quê?
Resposta:
Vim de Santos para Ribeirão Pires. Acho que porque Santos era uma cidade mais quente e quando eu nasci meus pais já eram mais idosos, tinham 41 e 42 anos e eles gostavam de lugar mais frio. E Ribeirão Pires era meio que a Suíça dos santistas. Muitos portugueses tinham chácaras em Ribeirão Pires, inclusive o ex-prefeito de Santos e depois Governador, Mário Covas. Era muito comum. Era como Campos do Jordão, para o santista. Eles gostaram do clima e a gente mudou. Eu vim com muita raiva porque eu adorava Santos. No fim fui ficando e acostumando.
Pergunta: Quando vocês se mudaram para Ribeirão Pires?
Resposta:
Eu tinha 12 anos de idade. Eu tinha acabado de concluir o curso primário no Olavo Bilac. Até lembro que vim no trem cheia de medalhas, porque eu era muito competitiva, tinha medalha de ouro. Não sei se isso era correto, mas isso estimulava a gente a ser bom aluno, tirar nota boa. Eu não queria medalha de prata. Queria a medalha de ouro, porque era para a melhor aluna do colégio. Eu lembro que vim no trem cheia de medalhas e todo mundo falando.
Pergunta: E a viagem de trem, como era?
Resposta:
Era bonita. Até lamentei terem tirado essa linha de trem até Santos, porque acho que foi, esse momento foi quando construíram a Rodovia Índio Tibiriçá, eu acho que por pressão das empresas de ônibus, que era competitivo, porque todo mundo ia para Santos de trem. Era uma viagem muito agradável, parava um pouco em Paranapiacaba porque tinha aquelas cremalheiras, um processo muito complicado.
Pergunta: Como era Paranapiacaba?
Resposta:
Era com aquele clima que a gente conhece, mas tinha uma estação muito bonita. Quando houve a reforma nas estações todas, de São Paulo até Paranapiacaba, parece que tinha uma resistência da população de Paranapiacaba para não mudar a estação, que conservassem como patrimônio histórico. Aqui no Brasil o que acontece? Quando você quer manter alguma coisa, você queima. Acho que foi isso. Não posso afirmar porque não sou da polícia, mas acho que deve ter havido um incêndio criminoso e parte da estação foi queimada. Foi uma pena porque era linda, tinha um relógio lindo. A estação de Ribeirão Pires permaneceu. Você pode ver que é uma das únicas, porque a população exigiu e parece que a Prefeitura também brigou e a estação permanece. É uma coisa bonita aquela estação conservada. A gente não dá muito valor ao nosso patrimônio. Quando estive no México vi que o mexicano mais simples dá um valor para as coisas dele, para as coisas antigas e a gente não tem esse valor cultural, e que seria importante ter. Muitas coisas foram destruídas na ferrovia e isso é lamentável.
Pergunta: Quando você veio para Ribeirão Pires como era a cidade?
Resposta:
Era um pingo, com 13 mil habitantes. Imagine que eu morava em Santos, uma cidade agradável, gostosa, você ia para a praia de bicicleta. Era uma cidade super fria e para mim foi insuportável. Eu não conseguia entender aquele frio de Ribeirão Pires. Era uma cidade pequena e até fazer amizade com as crianças foi uma dificuldade.
Pergunta: Você estudava em Ribeirão Pires?
Resposta:
Quando fui morar lá não tinha o curso ginasial, só o primário. Eu fui estudar em Mauá, no instituto de Mauá. Depois me enturmei e foi bastante divertido. Eu gostava de brincar de queimada, até disputei um campeonato e fui vice-campeã. Aí abriram o Felício Laurito, em Ribeirão Pires e concluí a terceira e quarta séries lá. Não tinha colegial e fui fazer o colegial em Santo André, no Américo Brasiliense, fazer o curso clássico seguido do curso de matemática.
Pergunta: Como você fazia para vir para Santo André?
Resposta:
De trem ou ônibus. De ônibus era um terror, super lotado. O curso que fiz, tanto em Mauá, no Felício Laurito ou no Américo Brasiliense, eram cursos de excelente nível. Todas as escolas públicas, de altíssimo nível. Eu estudei latim no clássico. Todos os alunos dessa professora que foram fazer direito na Faculdade do Largo São Francisco, o pessoal que foi fazer direito, todos entraram em primeiro lugar em latim. Até ela comentou que se sentia muito satisfeita como professora, porque todos os alunos dela pegavam os primeiros lugares. Latim era o pavor de todo mundo, mas ela era uma professora excepcional, super vocacionada, mas exigente. Você tinha de traduzir certinho. Assim que a gente aprendeu. E todos os professores eram de alto nível. Um tempo depois fui prestar vestibular para história na USP e tinha geografia e eu não tinha tido geografia no clássico, mas só com o que eu tive no ginásio eu consegui tirar 8. Você vê que os cursos eram realmente muito bons. Pouco tempo atrás uma professora de Ribeirão Pires, tinha muitos professores de Santos em Ribeirão Pires, porque lá não tinha o curso, tinha sido aberto naquele ano, então muitos professores vinham de Santos e tinha uma professora chamada Vilma Terezinha, tinha o meu nome, essa era uma professora excepcional e maravilhosa. Tão excepcional que eu fui fazer história porque ela me motivou a ter o gosto pela história. Ela dava uma aula moderna para os padrões. Isso faz muitos anos, décadas, mas a aula dela era moderna. Você podia ir à biblioteca e pegar o livro que você quisesse. Não tinha aquilo de ficar preocupado. Você pegava o que você quisesse. Só que as perguntas dela eram tão objetivas, tão bem elaboradas, que você tinha de ler quatro ou cinco livros, saber pesquisar, para responder às perguntas. Ela levava, não tinha vídeo nem nada, mas ela levava uns fatos da história, locais. Lembro que vi coisas do Peru, sobre os Incas. Isso me motivou. Eu não vou seguir a carreira de historiadora porque é muito complicado, mas vou fazer história porque me senti motivada, fui influenciada quando jovem. Isso é importante.
Pergunta: O colégio Américo Brasiliense em Santo André era um colégio referência?
Resposta:
Sim. Acho que eu era a mais pobre lá. Tinha muita família tradicional, família Romano, Pelozini, Signoreli.
Pergunta: Como eram as ruas perto do colégio?
Resposta:
Não era tão movimentado, mas ali já era a região central. Não era como é hoje, mas a gente se sentia meio caipira, porque tinha muita família tradicional, família de japoneses, e eu não era rica e me sentia um pouco deslocada no início, mas também foi muito legal depois. Os professores eram bons, então a gente era motivada ao estudo, para saber. Eu tinha muita vontade de saber, de querer ser alguma coisa. Isso veio da minha família, especialmente da minha mãe, que falava que eu tinha de ser alguma coisa, estudar é importante na vida, estudar. Isso me motivou a estudar e eu fui sempre muito competitiva na vida, de querer saber, de querer ser sempre a primeira. Na época eu já gostava de jornalismo. A gente fez um jornalzinho lá no Américo. Iniciei a minha carreira jornalística no Américo Brasiliense.
Pergunta: Como chamava o jornal?
Resposta:
Não lembro. Uma das matérias que era uma discussão grande era o tal do monoquini, que era um biquíni que não tinha a parte de cima, tinha umas tranças. Eu fiz uma pesquisa entre os alunos para ver o que eles achavam disso, os meninos debochavam e fui super engraçado e saiu uma matéria bastante cômica. E coisas assim. O que eu via que tinha qualidade, a gente debatia e pesquisava.
Pergunta: E no colégio você fez teatro, música?
Resposta:
Não fiz. No Américo Brasiliense teve um episódio que marcou muito, marcou todo mundo, que foi o golpe de 1964. Eu fui a única contra o golpe na classe, eu e mais uma menina, que não lembro o nome, Helen Granziera, que o irmão dela depois foi presidente da UNI, Rui Granziera. Ele era ligado ao movimento estudantil. Ela não entendia muito, mas ela era contra o golpe. Eu fiquei sozinha, porque todo mundo falava que o comunismo era isso e aquilo, e eu achava que era errado, que o João Goulart, até hoje tenho admiração por ele, amo João Goulart, acho que ele foi um bom Presidente e muito injustamente tratado. Eu fiquei sozinha. Lembro de um episódio gravíssimo e que me deixou chocada. Acho que foi um pouco antes, porque de data eu sou complicada. Eu tinha uma amiga japonesa em Ribeirão Pires, porque lá tem muitos japoneses, e era minha amiga íntima, andava para cima e para baixo com ela e um dia ela não falou mais comigo. Por quê? Eu fiquei sem saber o que aconteceu. Será que eu estava jogando e não passei a bola para ela? O que aconteceu? Lembro que muitos anos depois eu encontrei com ela e fui me desculpar, mas ela falou que o pai dela falou para ela não andar comigo porque eu era comunista. O pai e a mãe disseram para ela não andar comigo porque eu era comunista. Eu fiquei chocada, porque era quase uma criança. Era o estigma que a gente tinha, de ser comunista.
Pergunta: Era por causa do seu pai?
Resposta:
Meu pai tinha essas idéias, mas ele também não sabia conceituar muito. Ele lia muito, mas não sabia conceituar. Ele lia muito sobre a Rússia, a revolução russa, ele pegava o livro dele e ficava lendo, sobre os camponeses que derrubaram o czar e tal, então ele sempre discutia nessa direção. Você vê que desde criança a gente sofria por causa disso.
Pergunta: Qual teria sido a sua atitude, os seus comentários, que faziam com que as crianças e os pais das crianças pensassem que vocês eram comunistas?
Resposta:
Porque eu coloquei mesmo que o golpe era feito pelos Estados Unidos, que era uma coisa da direita.
Pergunta: Você tinha consciência disso?
Resposta:
Tinha, sabia. Com 12 anos eu discutia política com qualquer um.
Pergunta: Você lia o quê?
Resposta:
Lia tudo, três ou quatro jornais, quando não tinha dinheiro lia do vizinho, pedia, revistas, lia Sartre, imagina, com 13 anos. O pessoal achava o máximo aquele niilismo, aquelas coisas.
Pergunta: Você conseguia esses livros como?
Resposta:
Antes do golpe tinha esses livros nas bibliotecas, fuçava, comprava, pedia para o meu pai. Depois do golpe ficou complicado porque muitos livros foram proibidos, mas antes tinha. Eu fuçava em bibliotecas públicas, buscava. Era difícil ter dinheiro, mas quando meu pai me dava um dinheirinho eu comprava. Realmente eu fiquei firme na minha posição, completamente contra todo o Américo Brasiliense, porque era contra o golpe, a favor de João Goulart, a favor, a favor e ninguém me tirava da idéia. A gente ouvia muito rádio. No começo da adolescência eu ficava grudada na Rede da Mentalidade, de noite ouvindo a Rede da Mentalidade, que era composta pela Rádio Marconi de São Paulo e a Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Desde o momento que tentaram impedir a entrada de João Goulart, porque teve uma tentativa de golpe quando ele estava na China, tentaram impedir a entrada dele, houve essa tentativa e houve uma resistência e no fim ele tomou posse. Desde essa época eu ficava grudada ouvindo o rádio para saber o que estava acontecendo. Lembro de um general chamado General Machado Lopes e que era do terceiro exército, que era do Sul e ele ficou ao lado do Brizola e falou que podiam bombardear Porto Alegre, mas eles não iam conseguir efetivar o golpe. Eu achava isso maravilhoso, achava fantástico esse general, que coisa maravilhosa ele resistindo com os gaúchos, que coisa incrível. E recentemente eu conheci, faz uns três anos, conheci um dos donos da Rádio Marconi, que foi candidato a prefeito, que brigou com o Geraldo Alckmin, até se saiu bem em um debate, Dorival de Abreu, da família Abreu. O Dorival de Abreu estava muito doente, cheguei a conhecê-lo na cama, fiz a entrevista com ele e pretendia até resgatar um pouco a história, mas tive de trabalhar e não deu para levar à frente esses projetos, para resgatar a história da Rádio Marconi. A Rádio Marconi teve o registro cassado. A família Abreu tem uma rádio ligada à colônia nordestina, mas eles não têm a ênfase que tinha o Dorival de Abreu na luta política. Eu conheci o jornalista, na época era bem jovem, que fazia esse programa da Rádio Marconi, que é o Paulo Canavarro. Ele é vivo e fez um livro sobre Adhemar de Barros. É um grande jornalista e lembro dele resistindo na Rádio Marconi, falando sobre política e de coisas super interessantes. Ele foi exilado e ficou no Peru e não foi para o Chile. Depois ele me contou vários episódios interessantes da vida dele. Ele apoiou também Omar Torripos, no Panamá, apoiou a revolução da Nicarágua. Ele até me contou, não sei se vocês têm interesse, porque não é daqui, mas eles foram de avião levar armas para a Nicarágua, por ordem do Torripos, que morreu no Brasil, num acidente de avião na Amazônia, explodiu o avião, que pode ter sido até uma coisa armada. Foi uma grande expressão latino-americana. Veja como as coisas se entrelaçam um pouco.
Pergunta: Você acabou o clássico e fez jornalismo. Por que você escolheu jornalismo?
Resposta:
Porque eu já gostava de jornalismo. Eu gostava de escrever, sempre escrevia no colegial e as professoras falavam que eu escrevia muito bem.
Pergunta: Você se lembra em que ano entrou na faculdade?
Resposta:
Em 1966.
Pergunta: Em qual faculdade?
Resposta:
Cásper Líbero. Entrei também em sociologia e história. Mas eu tive de trabalhar e larguei história e fiz jornalismo.
Pergunta: E você continuou morando em Ribeirão Pires?
Resposta:
Sim.
Pergunta: Você ia até a Cásper Líbero de trem?
Resposta:
Sim. Antes era perto da Estação da Luz a faculdade e depois ela mudou para a Paulista e aí ficou um pouco mais distante. E o período da faculdade foi fantástico. Eu era meio quietinha, reservada, tímida. Eu discutia política, mas era meio tímida. Na faculdade acho que soltei a franga e fiz coisas terríveis. Nós fazíamos coisas de ofender, provocar o diretor da escola. Ele falava: Você e o Evaristo são os piores alunos que pisaram nesta escola em 40 anos. Ele ficava irritado com a gente, e a gente fazia palhaçada, pichava. Uma vez pichei Viva a República, Abaixo a Monarquia. Eles eram violentos dentro da faculdade. Na época foi criado o Comando de Caça aos Comunistas, o CCC e na nossa escola o centro acadêmico era ligado à esquerda, eu e outras pessoas ligadas à esquerda. O CCC chegou a invadir a escola um dia. Eu tinha colocado num mural de vidro a lista do pessoal desse comando, que saiu numa revista, acho que na Manchete, e coloquei. Eles foram lá, invadiram e quebraram. O pessoal me proibiu de subir até lá porque eles iam me matar. Quebraram o vidro, onde eu tinha feito a denúncia e agrediram alguns colegas nossos. Foi uma denúncia da direção. Sei que quando passei para o segundo ano, o diretor, o Clóvis Garcia, foi de classe em classe falando para os alunos: Não conversem com a Vilma, nem com o Sílvio e nem com a Zenaide, porque eles são três comunistas. Sei que no dia seguinte todos os alunos queriam saber quem era a Vilma, o Sílvio e a Zenaide, porque despertou a curiosidade. Teve uma luta política bem efervescente que peguei na faculdade Cásper Líbero.
Pergunta: E os professores, como eram?
Resposta:
Eram horríveis. A maioria era horrível, tudo do CCC, da TFT. Tinha um professor excelente, maravilhoso, e que depois foi deputado, o Freitas Nobre, e que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas. Ele dava ética e comunicação. O que conheço de ética, a minha postura ética na imprensa se deveu muito ao ensinamento dele. Ele era muito ético. Foi deputado e foi um dos líderes contra ditadura e curiosamente não foi reeleito. Foi uma das coisas mais horríveis para o Parlamento Brasileiro, porque acho que ele ficava tanto em Brasília que ele acabou não podendo cuidar das bases e não foi reeleito. Era um brilhante professor. Dentro daquela história, tinha gente de nível.
Pergunta: Você pertenceu a UNE?
Resposta:
Quando estava na faculdade de jornalismo eu pertenci ao grêmio estudantil e nós fizemos dois congressos, eu e o Evaristo Muller, que era um aluno do terceiro ano, já falecido, foi assessor da Volkswagen, e ele era muito articulado. Ele estava no terceiro ano e eu no primeiro, então a gente se conheceu e decidimos ir a um congresso. Nós fomos até Belo Horizonte e depois a Fortaleza. Havia poucas faculdades de jornalismo e sei que nós fizemos documentos, e aconteceu até um episódio engraçado quando fomos fazer o congresso no Ceará. Eu já pertencia a Quarta Internacional, um grupo trotskista. Até trouxe um exemplar, porque andei queimando tudo na época, porque se a polícia chegasse na minha casa e pegasse, eu me estrepava toda. Aí falei com o pessoal do grupo, da Quarta, que ia para o Ceará. Fui lá na FAB e consegui um avião da FAB para levar a gente de graça e ia para o Ceará para fazer um congresso de estudantes. Então você vai levar umas coisas. Mas é lá no Campo de Marte, da Aeronáutica. Estou lá para pegar o avião e me aparece o pessoal com duas malas de material subversivo. Eu quase desmaiei, mas levei. Se tivesse alguém metido a besta que fosse abrir a minha mala eu estava ferrada, ia pegar cadeia. Levei o material para o Ceará. Chegando lá onde a gente vai ficar? Na Marinha. Levo aquele material para a Marinha. Aí encontrei os contatos nossos na cidade e um deles chegou a ser secretário do Jarbas Vasconcelos, em Pernambuco, e ele perguntou onde estavam as coisas. Quando falei que estavam na Marinha, ele ficou falando que eu era louca. Fui lá pegar aquele material e levei para a universidade. E a universidade estava numa efervescência muito grande, estava em greve, cheio de soldados em volta. Eu não tinha visto isso ainda em São Paulo. E esse menino, o Arlindo, sobe no muro e começa a falar com os soldados: Vocês são explorados como nós. O que vocês estão fazendo aí reprimindo a gente? Vocês têm de passar para o nosso lado. Os soldados ficaram olhando, porque a Quarta Internacional, que é o grupo do Pozzada, é o único grupo que defende a união do operário, do camponês e do soldado e também era antiguerrilha. Ele levou a sério essa proposta de reunião dessas categorias e chegou lá e debochou dos soldados e não foi preso. Ele ficou falando, e os caras ouvindo e achando esquisito, mas ouviram.
Pergunta: Que tipo de material era aquele?
Resposta:
Era sobre a Frente Operária, um jornalzinho mimeografado muito precariamente, de um grupo trotskista e o pessoal gozava da cara da gente que a gente propunha coisas de louco, mas a gente era os menos loucos, porque nunca fomos para a guerrilha. A gente nunca pegou em armas porque a gente era contra. A gente defendia mais a questão da discussão, de levar à conscientização, de fazer a nossa luta e não partir para guerrilha. Mas são coisas até interessantes. Poderia ter sido presa naquele momento. Se me pegassem com aquele material seriam uns quatro anos de cadeia. Eu não ia sair tão rapidinho.
Pergunta: E você estudava jornalismo, participava do movimento estudantil e trabalhava?
Resposta:
Eu interrompi a história. Eu estava contando que a gente organizou esses dois congressos e foi uma coisa lamentável, porque a gente acabou perdendo a votação, por um voto, para que os estudantes pertencessem a uma executiva da UNE. Eu lamentei profundamente, fiquei muito chateada, porque foi por um voto. A gente estava vindo de volta no avião, aquele avião da FAB muito legal, que acho que era da Segunda Guerra, de 1947, que os soldados usavam, com banco de ferro e de lado, tipo avião de guerra de soldado. A gente tinha de fazer uma votação para ver quem voltava em um avião mais novo, e o pessoal da USP me odiava, não era um pessoal de direita, mas era um pessoal meio alienado. Não vou me candidatar porque não vou ganhar. No fim eles me escolheram. Mas como, se me combateram como loucos lá no Ceará e agora me escolhem?! A explicação foi que lá era uma votação fundamental, mas aqui a gente sabe que você tem interesse, que você trabalha e tinha de viajar melhor. No fim achei uma postura simpática. Eu não era uma boa aluna, mas participava da União Estadual dos Estudantes, participava com o José Dirceu, mas era mais ligada ao Luiz Travassos e o José Dirceu era dissidência.
Pergunta: Isso na UEE?
Resposta:
Sim. Quando tinha coisas relativas ao nacionalismo eu apresentava na UNE, mas não tinha muita tarefa na UNE e era mais da UEE e também do DC da PUC, porque a faculdade de jornalismo era ligada à PUC na época. Eu era do DCE da PUC. Por isso a gente foi discutir com o cardeal, porque como era ligada à PUC, eu era vice-presidente do DCE da PUC.
Pergunta: E você já trabalhava?
Resposta:
No começo eu não trabalhava, mas depois abriram A Última Hora aqui no ABC, que já era da Folha de São Paulo. Eu sempre admirei A Última Hora, porque era o jornal do Samuel Weiner e eu achava um negócio legal que e eu queria aquele lugar, naquele espaço, queria aquilo.
Pergunta: Por que você gostava desse jornal?
Resposta:
A Última Hora era um jornal que defendia João Goulart, defendia a esquerda, o Partido Comunista e os trabalhadores. Então, eu queria trabalhar lá, embora já tivesse outras influências, mas para mim ficava aquela idéia de que era isso A Última Hora. Abriram o jornal no ABC, mas não deu certo aqui em Santo André, mas depois me transferi para São Paulo, quando já era ligado à Folha e fui trabalhar um pouco para a Folha também.
Pergunta: Era o seu primeiro emprego?
Resposta:
Meu primeiro emprego, e já como jornalista. Quer dizer, fui com a cara e a coragem. Eu quero A Última Hora, quero, porque é o local em que sempre desejei trabalhar, por favor me dêem a oportunidade.
Pergunta: E correspondeu à sua expectativa?
Resposta:
Não lembro do chefe, mas ele era um senhor de esquerda, um cara legal. E como eu era muito jovem, eu fazia política estudantil pelo telefone do jornal e achava o máximo, o maior barato. Eu comandava o movimento estudantil por ali. E achava muito engraçado. Ele foi muito simpático comigo e tive muita sorte. Foi muito legal a experiência aqui. Mas o jornal não se sustentou economicamente e fecharam a edição do ABC o jornal foi para São Paulo.
(Falha na gravação)
Falando sobre a questão da UNE e da UEE, do movimento estudantil, quando entrei na faculdade eu era aquela menina caipira boba, idiota, e que não sabia nada. Sabia o que eu lia na minha casa, mas sem nenhum traquejo político. Mas comecei a participar. E se tinha uma reunião às seis horas da manhã, eu ia e me sentia mal se não fosse. E se tinha eleição para representante do DCE da PUC, das faculdades ligadas à PUC e eu queria ter um dos cargos lá. Só que na época eu não pertencia a nenhum partido político ainda e era impossível você se candidatar sem pertencer a algum partido. Esses partidos eram todos clandestinos, claro, o Partido Comunista, a dissidência comunista; e eu não pertencia a nada. Cheguei lá e falei que queria um cargo para mim, assim com a maior inocência. Mas por quê? Porque eu trabalhei, vim em todas as reuniões e quero o cargo para mim. Aí ficou uma confusão, por umas duas horas discutindo de quem seria o cargo. Aí chegou um tal de Fabiano, que chegou a ser presidente do diretório, ligado à Igreja, e ele queria o cargo para ele. De jeito nenhum, eu que trabalhei, eu que fui. Eu tinha uns 18 anos, mas era briguenta, mesmo intuitivamente, porque eu não tinha experiência política.
Pergunta: E tinha mais mulheres ou era mais o público masculino?
Resposta:
Tinha mulheres sim. Na época tinha a Catarina Melone, que ficou na direção da UEE, a Carmelita, que também era do DCE da PUC. A maioria era homem, mas tinha mulheres. Eu queria esse cargo para mim de qualquer jeito, porque quando eu quero, eu quero, fiz aquela confusão, uma discussão porque eram 17 candidatos para o cargo e o José Dirceu era da PUC e a PUC era ligada à Ação Popular, do Travassos, um movimento ligado à Igreja, de origem chinesa e o José Dirceu era o único dirigente ligado à dissidência do Partido Comunista, o único. Ele era respeitado por ser dirigente de uma outra organização. Aí chega o José Dirceu e fala: De fato ela tem trabalhado, eu tenho visto, eu tenho acompanhado e ela merece o cargo. Não sei por que, se acharam que eu estava ligada ao José Dirceu, o pessoal caiu na real e acabei ficando com o cargo para mim. Eu achei muito simpático da parte dele, porque eu não era do movimento dele, não tinha nada a ver com o grupo dele e ele falou que eu tinha trabalhado mesmo, que ele tinha visto, eu representava a faculdade em tudo e eu merecia.
Pergunta: Por que você acha que o José Dirceu defendeu você?
Resposta:
Não sei dizer. Acho que foi uma questão de justiça. E também tinha o comando de greve do movimento estudantil, porque na época de 1966, quem se colocou à frente das lutas foram os estudantes e não os operários, que seriam depois. A gente participava do comando de greve, que se reunia nas igrejas, com o José Dirceu e o Luiz Travassos, tudo clandestino. Se pegassem a gente dirigindo as greves, ia todo mundo preso. E eu participava do comando de greve do movimento estudantil e por isso estava sempre presente. Acho que foi isso, por ter visto o meu trabalho, por estar sempre encaminhando as coisas e acho que ele achou que eu merecia, uma questão de merecimento. Eu estava sempre na direção das greves e do movimento estudantil. Eu achei isso muito simpático da parte do José Dirceu.
Pergunta: E voltando à Última hora, você começou a trabalhar na sucursal do ABC?
Resposta:
Sim e depois fui para São Paulo.
Pergunta: Você se lembra onde ficava a sucursal?
Resposta:
Era na região central de Santo André, mas não lembro. Eles achavam que o ABC era uma região bem industrializada e eles iam ter muitos anúncios para poder desenvolver. Acho que a direção não pensou só no dinheiro, pensaram em viabilizar o jornal, porque precisa ter anúncio para viabilizar. Eles acharam uma região industrial, mas não pegou, não colou essa coisa de fora na região. Foi uma pena, mas o jornal fechou.
Pergunta: Ficou pouco tempo?
Resposta:
Ficou pouco tempo e eu fui para São Paulo, que era ligado à Folha de São Paulo e fui trabalhar no setor do interior, um setor chatíssimo, porque era uma coisa de interior e depois fui mudando de setor.
Pergunta: Mais ou menos por essa época veio o AI-5, em 1968?
Resposta:
Eu saí depois do AI-5.
Pergunta: Que lembranças você tem dessa época?
Resposta:
Aí começou a repressão mais violenta. Já tinha uma repressão, mas você veja, a gente tinha a repressão ao movimento estudantil, nas passeatas do movimento, mas tinha uma série de coisas, os estudantes apanhavam. Um dia o presidente do nosso centro acadêmico apanhou e chegou todo arrebentado. Eu consegui escapar porque eu ficava nos cantinhos, nas beiradas e nunca cheguei a apanhar na rua. O nosso presidente foi espancado, ficou com uma costela quebrada. Numa dessas passeatas baixou a Polícia Marítima de Santos, que era um terror, porque tinha uns cacetetes que se encostasse, quebrava no meio. Depois do Ato fico muito mais séria a repressão, muito mais séria mesmo.
Pergunta: Você chegou a ser presa?
Resposta:
Fui presa num congresso da UNE e depois fui presa num apartamento. Havia um congresso de secundaristas e os meninos secundaristas fizeram uma reunião. Eu nem era mais secundarista, mas sei que a polícia chegou e eu estava lá no apartamento de uma amiga minha. Chegaram com metralhadora. Até perguntaram de onde eu era e falei que era de Santos. Eles acharam que eu era representante de Santos nesse congresso. Mas eu não era secundarista, mas universitária. Eles me levaram, fui no meio de dois policiais com metralhadoras, igual uma criminosa. Pensei que tinha chegado o meu dia. Mas aí realmente, fiquei uns 15 dias, não fiquei muito tempo, porque não estava ligada ao movimento secundarista, era universitária. Eles priorizaram, focaram no congresso dos secundaristas. Eram meninos de 14 anos, todos chegando arrebentados na nossa frente, pela tortura.
Pergunta: Onde vocês ficaram presos?
Resposta:
No DOPS, só que a gente não ficou em cela, o DOPS estava abarrotado, então a gente ficou num quarto da Polícia Militar, com 17 meninas presas. Não sei se não conseguiam achar coisa alguma e acabei sendo liberada. Fui liberada por último, eu e uma jornalista da Veja, Angela Zirogue. Nós fomos as duas últimas a serem liberadas. Teve uma hora que até gritei com o delegado, porque estava cheia de ficar lá e falei: Vocês não têm nada contra mim e estou fazendo o quê? Perguntaram se eu sabia quem tinha de falar. Eu não sabia nada de congresso nenhum. No fim a gente acabou sendo liberada. Mas teve episódios desagradáveis, tipo um dia que os policiais estavam todos bêbados e tentaram invadir a nossa sala, acho que para estuprar, mas nós pusemos todas as camas e colchões e trancamos a porta. Mas em compensação tinha coisas interessantes. Um tenente da Polícia Militar, a gente fez greve de fome porque a gente recebia comida da Casa de Detenção, que era uma comida imunda, suja, o feijão todo colorido, uma coisa imunda, vinha num prato imundo, o garfo era um cabo de pente enrolado com esparadrapo, uma coisa nojenta, e a gente não queria comer aquilo e ninguém comeu. Aí chegou esse tenente, não sei se ele simpatizou comigo, porque eu tinha uma cara de criança, sempre uma carinha de menininha, não sei se ele ficou com dó e ele falou: Estou indo para Santos, mas quando eu voltar, eu te trago um chocolate. Eu pensei que ele não ia trazer nada. De fato, ele chegou meia-noite, bateu lá e me deu um monte de chocolates e falou que não ia falar nada que a gente tinha furado a greve de fome. Então, achei um gesto de solidariedade do policial.
Pergunta: E a reação dos seus pais, como foi?
Resposta:
Eles ficaram horrorizados. Meu pai, um português camponês que não entendia nada e chega um policial de Ribeirão Pire fala que a filha dele está presa. Meu Deus, que horror. Só que ele foi bem esperto. O pessoal começou a discutir e ele falou: Eu não entendo nada de política e sou salazarista. Aí o pessoal falou: O senhor é do Salazar? Então é um dos nossos, mas fale para a sua filha não se meter em confusão, essas politicagens. Quando eu saí, o delegado falou: Vai para casa porque seu pai está preocupado. Eu estava muito preocupada porque na minha agenda tinha o telefone do Paulo de Tarso, que era contato do Mariguela e eles estavam folheando minha agenda. Eu fazia Variedades no Última Hora e falei que ele era o assessor do Roberto Carlos, esse é daquela cantora Vanderléia. Por sorte eles não abriram nos telefones que eu tinha, que eu gelei. Paulo de Tarso Venceslau foi um rapaz que foi muito torturado, que estudava na Faculdade de Economia da USP. Mas calhou de pegar esses nomes na minha agenda.
Pergunta: (Inaudível)
Resposta:
Com toda essa repressão, alguém do Última Hora falou alguma bobagem sobre o Araguaia, eu nunca tive nada com guerrilha, sempre fui contra, mas alguém falou essa bobagem e sobrou para mim. E falaram que era melhor eu ir embora porque achavam que eu tinha arquivos da guerrilha do Araguaia, que eu estava ligada a isso. Vá embora porque você vai se ferrar. E o delegado já tinha me falado que eu tinha sido presa duas vezes e na terceira não ia escapar porque alguma coisa ia ter de esclarecer. Aí eu não tive alternativa e fui embora.
Pergunta: Quando você foi embora?
Resposta:
Acho que em 1969 ou 1970, porque fiquei três anos até o golpe, depois do AI-5. Saí clandestinamente porque perdi o passaporte e saí pelo Paraguai e cheguei no Chile. Foi uma experiência fascinante.
Pergunta: Era a época do Aliende?
Resposta:
Época do Salvador Aliende, que era um socialista. Na época foram candidatos Pablo Neruda e Salvador Aliende. Pablo Neruda, o poeta, mas Salvador Aliende tinha uma reflexão histórica e ganhou a eleição. Para mim foi uma descoberta maravilhosa, porque a esquerda do mundo inteiro estava no Chile acompanhando o processo. Tinha delegações do Vietnã, do Laos, todo aquele pessoal que sofreu na Guerra do Vietnã, toda a América Latina.
Pergunta: Ficou lá até 1973?
Resposta:
Sim, quando saí naquela situação que falei, que fui até a polícia e falei que ia sair. Voltei para o Brasil, mas vi que não tinha condições e fui para a Venezuela e consegui ser correspondente do jornal O Globo e de uma revista especializa em economia. Fiquei na Venezuela numa condição muito ruim, até bem instalada, conheci uma família espanhola, fiz amizade com a filha daquela senhora, eram muito simpáticos comigo, mas fiquei isolada de movimentos políticos, porque todo o pessoal do Chile se espalhou pelo mundo. A gente ficou completamente isolado de participação política, e isso foi muito ruim. Ficava sem saber o que estava acontecendo.
Pergunta: Você voltou quando para o Brasil?
Resposta:
Acho que em 1975, porque eu cansei, estava cheia da Venezuela, e não ia dar certo ficar lá. A Venezuela era um país muito estranho para mim, não sei se porque estava sozinha, mas era um país muito esquisito. Era governado pelo Carlos Andrés Peres, que era um democrata. O que me chamou a atenção na Venezuela é que eu abria aquela seção de coluna social e via sempre elogios ao presidente do Partido Comunista Venezuelano. Isso achava legal, porque tinham a liberdade. Eu não me entrosei muito e ficava muito isolada na Venezuela. Isso pesou muito e quis ir embora, porque é difícil ficar sem ter contato com as pessoas.
Pergunta: E aí voltou para o Brasil?
Resposta:
Sim, e fui trabalhar no Jornal da Tarde. Por muito tempo era voluntária.
Pergunta: Como era o trabalho no jornal?
Resposta:
Comecei a fazer Internacional, fiz sobre a Venezuela, trouxe uma matéria de lá, depois fui para a Folha de São Bernardo e um belo dia chega o Flávio Andrade, diretor do jornal e fala que eles estavam com problemas, porque precisavam de um diretor e eles não eram jornalistas e a única pessoa mais segura era eu, porque eu pertencia ao jornal do Tito Costa, tudo bem, e achava que eu podia ser diretora. Fiquei meio apreensiva no início, mas tudo bem. Ele falou para eu escrever sobre o ABC, falar sobre o movimento dos metalúrgicos. Aí comecei a fazer as partes do ABC para eles e era diretora do jornal. Fiquei por muito tempo diretora responsável do jornal.
Pergunta: Como era esse jornal?
Resposta:
O jornal existe até hoje, só que agora é de uma tendência do PT, porque vi esse jornal na Câmara Municipal de São Paulo, no gabinete do Ítalo Cardoso, mas já é outra coisa. O jornal tem esse título, mas tem outra proposta. Na época era um jornal de resistência e acabou sendo o principal jornal. Quando estava em São Bernardo, até a filha do Prestes, que colocava anúncios no jornal, veio falar comigo porque ela ia fazer uma reportagem sobre o ABC e precisava falar comigo porque eu era do ABC. Até comentei que não era tão importante assim e não tinha porque falar com ela. Eu era responsável pelo jornal, mas não me achava importante. Por que eu? Realmente não fui. Acho que tive uma posição justa, porque não tinha estatura para falar com Antonio Carlos Prestes.
Pergunta: Como era a pauta do jornal?
Resposta:
Era referente ao ABC e sobre os metalúrgicos e as greves.
Pergunta: Era o começo do movimento?
Resposta:
Não. Já era 1979, 1980, já tinha um movimento muito expressivo. Aliás, convergia todo o país para o movimento dos metalúrgicos. Até tinha uma discussão, porque o jornal era do Prefeito Tito Costa e o pessoal falava que em vez de dar notícias da Câmara e da Prefeitura a gente ficava cuidando dos metalúrgicos. Mas o centro histórico é o sindicato. Eles estão na história do país e nós temos de falar disso. O que acontece na Prefeitura a gente trata também, mas o mais importante é o sindicato.
Pergunta: Só um parêntese. O jornal era do Prefeito Tito Costa, de São Bernardo?
Resposta:
Eu trabalhava no In Tempo como voluntária e as matérias que fazia para o jornal de São Bernardo, onde eu acompanhava os metalúrgicos, eu aproveitava as informações e dava um tratamento de esquerda para o In Tempo, fazia outra matéria, porque nem todas as matérias você podia fazer da mesma forma. Você tinha de dar outra forma para o jornal In Tempo. As informações eu tinha porque estava diretamente ligada a todos os acontecimentos. Dava outra forma para o jornal In Tempo e assinava até com outro nome. Embora eu fosse diretora responsável, eu colocava outro nome, Vânia de Almeida, para falar do movimento dos metalúrgicos. Um dia, eu estou numa assembléia na Igreja Matriz e juntou um pessoal da polícia, falando que a greve dos metalúrgicos era política, tanto que o jornal In Tempo diz que os metalúrgicos estão se organizando nas fábricas. Fiquei até preocupada, porque a gente dá essa notícia como forma de alertar os outros trabalhadores e a polícia fez uma outra leitura, estão vendo, eles estão se organizando politicamente, isso é uma luta política. Não é por questões salariais, mas por questões políticas, combatendo a ditadura. E citaram as minhas matérias. Achei até engraçado esse episódio.
Pergunta: E como era a distribuição desse jornal?
Resposta:
Era distribuído em bancas, e nós tínhamos assinaturas, muitas assinaturas. Todas as universidades, todos os estudantes, todo mundo queria ler o In Tempo, porque ele também era muito ligado às questões internacionais, porque era um jornal trotskista. Todo o pessoal trotskista que saiu do país e que ficou perdido, se juntou no In Tempo. Era gente de várias linhas. Eu era o POR, Partido Operário Revolucionário. Várias pessoas se juntaram para fazer esse jornal. Ele era muito internacionalista, tinha muitas coisas que aconteciam no mundo. Era um jornal muito atuante e vibrante e presente na luta contra as coisas que aconteciam no ABC e chamava a atenção e tinha muitas assinaturas mesmo, e muita gente assinando o jornal. E também tinha apoio do Flávio Andrade, que tinha dinheiro.
Pergunta: O que era o Partido Operário Revolucionário?
Resposta:
Era esse partido a que eu pertencia, porque quando estava na faculdade, qualquer pessoa que falasse sobre comunismo eu ia atrás, pode ser qualquer partido. Um dia, até foi uma moça do Partido Comunista, eu sempre saía muito com ela, mas não sei por que ela me orientou sobre um tal de Akan, que era trotskista e ela falou que ele ia me dar uma orientação trotskista. E nessa ele me levou para o POR, porque ele era do POR. Hoje ele mora em Paris, é um dos físicos mais importantes da França. Ele me orientou e me levou para o partido trotskista e depois achei muito interessante Trotsky, fantástico.
Pergunta: Mais internacionalizado?
Resposta:
Trabalhei na Câmara Municipal de São Paulo com a Vereadora Lígia Corrêa, que era do MR8. MR8 era de origem stalinista. Nessa entrevista veio o chefe da oposição do Parlamento Russo, depois que teve toda aquela mudança na União Soviética e estava aí o chefe da oposição, que é um stalinista violento e mandaram arrumar uma entrevista com ele e arrumei no jornal O Globo. Ele falava espanhol e é engraçado como o trotskismo vem na cabeça da gente, e um jornalista perguntou a que ele atribuía a queda, o fracasso da União Soviética, e ele responde assim: Em vez de criar pessoas comprometidas com a população, com os trabalhadores, criou-se uma casta burocrática, então houve um desvio da proposta socialista. Eu falei: Que interessante, então Trotsky tinha razão. Ele quase me matou, porque imagina alguém falar para um stalinista que Trotsky tinha razão. Daqui a pouco chega uma chefia do MR8 e me manda sair da sala. E isso foi recentemente. Quer dizer, Trotsky é uma coisa que, acho que os pensamentos dele são tão importantes, tão fundamentais na história, que até hoje incomodam. A explicação que o stalinista deu foi sobre Trotsky. Isso desviou a luta pelo comunismo. Foi a explicação que ele deu e eles não aceitam Trotsky até hoje e me mandaram retirar da sala. Fiquei chocada e muito esquisita.
Pergunta: Onde era o jornal In Tempo em São Bernardo?
Resposta:
Ele não era aqui. Eu trabalhava na Folha de São Bernardo e quando saía da Folha ia para São Paulo, na Rua Francisco Leitão, em Pinheiros. Era uma casa. Era um jornal muito bem organizado. Os jornais de esquerda são todos esculachados. Ele era organizado, tinha um mailing perfeito, um controle perfeito.
Pergunta: E como era financiado?
Resposta:
Tinha as assinaturas e acho que o Flávio Andrade tinha dinheiro, então ele bancava do dele.
Pergunta: Como era o formato do jornal?
Resposta:
Era tablóide, e eu tenho aí o jornal para vocês verem. E eu falava e até motivou uma manifestação da polícia sobre a organização do movimento operário em São Bernardo do Campo e a gente mostrava que essas lutas do movimento operário não eram só deles e isso podia desembocar numa luta pela democracia, como realmente aconteceu, com Teotônio Vilela e Governadores, gente pensante do país, todos aqui em São Bernardo. A gente fazia coisas um pouco além do próprio jornalismo. Lembro que quando o Lula foi preso, até esse episódio queria registrar, que quando ele se escondeu, foi na casa do Tito Costa, quando a polícia estava atrás dele, ele se escondeu em Torrinha, na fazenda do Tito Costa. E nesse episódio, quando ele foi eleito agora, o pessoal perguntou sobre esse momento da prisão, ele nunca falou isso. Achei uma injustiça com o Tito Costa, porque o PT tem um enraizamento com o PMDB, tinha porque agora está lá ajoelhado pedindo apoio. Mas o PT tinha horror do MDB e depois do PMDB e por isso ele tentou apagar esse episódio, mas a gente sabe que ele esteve escondido na fazenda do Tito Costa. O Tito Costa foi um grande Prefeito. Ele não era nem de esquerda e nem de direita, ele era um jurista e ele queria o cumprimento da lei. Como o pessoal ia buscar metalúrgico sem um mandado de prisão, aqui ninguém vai pegar metalúrgico nenhum, só com mandado da justiça, porque sou um jurista, sou legalista, e acabou. Tanto que São Bernardo ficou conhecida como a República de São Bernardo, pela liderança que ele teve. Ele teve papel importante nessas lutas. Ele cedeu o Estádio Vila Euclides. A justiça impediu o uso do estádio para a assembléia dos metalúrgicos e ele entrou com um mandado se segurança pedindo a liberação do estádio para os metalúrgicos. Você vê que ele teve um compromisso com a luta, que não era só a luta dos metalúrgicos, mas a luta pela liberdade. Ele era democrático e esse era o grande compromisso dele. Eu acho que o PT, o Lula e outros, cometem uma injustiça quando não falam do Tito Costa, da ação dele. Se tivesse um Prefeito de direita, um Prefeito reacionário, claro que a luta iria existir, teria um processo histórico que seria vencedor, mas talvez tivesse dificultado um pouco. Quando eles iam prender algum metalúrgico, ele escondia dentro do gabinete, nos banheiros. Ele foi um prefeito comprometido com a causa dos metalúrgicos. Acho que temos de resgatar a memória dele, é importante. Ele é velhinho, ainda continua advogando, está lá em Torrinha e foi um grande Prefeito, politicamente, e acho que precisamos resgatar a memória dele.
Pergunta: O jornal de São Bernardo onde era?
Resposta:
Ao lado da igreja, na Rua Padre Lustosa, perto da Igreja Matriz, onde era realizada a assembléia dos metalúrgicos. Tanto que o movimento era todo em frente à igreja, nós ficamos 40 dias cercados pela polícia. Toda vez que ia trabalhar tinha de explicar que eu trabalhava lá e enfrentava cães e bombas de gás para poder trabalhar.
Pergunta: Você conhece outros jornalistas ligados à esquerda?
Resposta:
O João Plácido trabalhava com a gente, era um brilhante jornalista, depois trabalhou no Diário do Grande ABC, mas sempre, por algum motivo, ele achou que devia sair da Folha de São Bernardo e criar um jornal de iniciativa própria, uma coisa independente; e ele saiu. Foi saudado na época como uma coisa importante, mas não deu para ir para frente porque viabilizar um jornal era muito difícil. Nós acabamos fechados, porque quando houve o processo eleitoral, a gente ficou ligado ao PT, o Tito Costa era do PMDB e o jornal começou a defender o PT descaradamente. Até o Diário do Grande ABC publicou uma nota assim: Engraçado, o Prefeito do PMDB tem um jornal que é do PT. Você imagina a situação do Prefeito como ficou! E a gente realmente defendia o PT, a luta dos metalúrgicos. E ele nunca interferiu na linha do jornal. Mas ficou complicado porque o PMDB deve ter dado um xeque-mate, fecha esse jornal, porque ele é seu e ele é do PT. Sei que fechou e ficamos todos desempregados porque a gente defendia o PT e por ter coerência.
Pergunta: (Inaudível)
Resposta:
Nós criamos uma cooperativa de jornalistas na época, com 31 jornalistas, porque a gente queria participar do movimento em São Bernardo, do ABC, a gente não tinha nenhum instrumento, não tinha emprego também. Então a gente se juntou e fez essa cooperativa com 31 jornalistas e aí saíram alguns projetos. Um desses projetos foi o ABC Mulher, mas eu já estava mais na Folha de São Bernardo e colaborei pouco. Sei que saiu esse jornal ABC Mulher, ligado às causas que a gente defendia, luta por creche, coisas mais do interesse da mulher, mas não fui muito ligada e participei de poucos números. Isso porque eu era jornalista registrada e nem todos eram, então eles precisavam de um apoio.
Pergunta: Foi em 1980?
Resposta:
Por aí. Eu participava antes de, não me confundam com sapatão, eu tenho namorado, mas participei muito do movimento feminista. Então, era uma coisa que sempre me interessava. Até trouxe o jornal Brasil Mulher, que está meio rasgadinho, que foi o primeiro jornal de oposição, antes que surgissem aqueles jornais como o In Tempo, Opinião, a gente teve o Brasil Mulher, um jornal feito por mulheres, em oposição à ditadura, pela liberdade democrática. Ficou marcado um pouco isso. Foi o início da minha participação no movimento feminista e foi uma experiência interessante. Depois houve uma luta política muito grande, um partido pegou o jornal, ficou uma situação de colocar todo mundo para correr, e quando houve essa derrubada do outro grupo eu saí junto com o pessoal e a gente não colaborou mais. Mas foi um jornal muito importante. Até recentemente a Câmara Municipal tentou fazer uma exposição, eu até reuni as pessoas, as moças que tinham feito, a jornalista Marina Dandré, Joana Lopes, que foi a fundadora, mora em Curitiba e está na Europa, mas não deu certo. A Marina Dandré teve um episódio interessante. A gente precisava de dinheiro, de recursos, então assinatura era importante para o jornal. Ela pegou o Brasil Mulher e levou até o Sindicado dos Metalúrgicos e falou para o Lula: Você tem de comprar para distribuir para o sindicato, para os operários, porque nós precisamos de recursos. Ele falou: Claro, maravilha, quanto você precisar, pode trazer aqui que eu compro. Ela fez a edição e o que ela colocou? Luta pela anistia. O que o Lula fez? Anistia não, essa discussão não. Isso foi anteriormente à conscientização dele. Aí ela voltou frustrada com o jornal embaixo do braço porque ele não tinha comprado. Anistia não, falar de preso, disso eu não quero saber. Foi o que ele falou na época. Ela fala que até hoje vota no PT, mas essa mágoa ficou para sempre na memória dela.
Pergunta: Você se lembra de outros jornais?
Resposta:
Tinha a Tribuna Metalúrgica que era ligada ao sindicato. Teve um episódio que o Julinho de Grammont, falecido, um grande jornalista, ele veio de São Paulo para o ABC e passou a ser assessor do Lula no sindicato e ele colocou na biografia dele que ele criou a Tribuna Metalúrgica. E aí o pau comeu lá no sindicato, porque quem criou foi o Antonio Carlos Nunes, que é um jornalista, um economista, que criou o jornal e tenho até um exemplar que fala o nome dele. Ele foi um dos criadores. O Júlio de Grammont não fez. Embora ele tenha sido um grande jornalista, isso não é verdade. A verdade tem de ser dita. E o Antonio Carlos ficou muito bravo e foi lá no sindicato reclamar. Esse Antonio Carlos foi um dos pioneiros dos jornais sindicais. Hoje ele mora em Aquidauana.
Pergunta: (Inaudível)
Resposta:
Quando o conheci, ele já era ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos. Era um jornal de apoio, como nós também éramos. Os temas eram iguais, só que saíam fotos maiores, com palavras de ordem.
Pergunta: Era diferente?
Resposta:
Não acho que era tão diferente, mas as características sim. Era um jornal de luta, em defesa da democracia, contra a ditadura, em defesa da luta metalúrgica. A diferença é que ele era bastante ligado ao sindicato, então ele tinha palavras de ordem para os metalúrgicos. Todos à assembléia, vamos derrubar, coisas ligadas ao movimento metalúrgico. A gente, a Folha de São Bernardo não era ligado. A gente era um jornal, só que a gente privilegiou o movimento metalúrgico. Ia contar um episódio de quando o Lula foi preso, que eu fiz esse intervalo para falar que ele esteve escondido na casa do Tito Costa e o papel do Tito Costa, que foi fundamental para a defesa da democracia aqui na região do ABC, respeitadíssimo, todos os deputados louvaram o espírito de legalidade do Tito Costa, e quando o Lula foi preso o sindicato ficou abandonado, porque estavam vários dirigentes presos. Os jornalistas sumiram, todos foram para São Paulo. E o movimento continuava, as fábricas tinham de ser avisadas e motivadas. Quem ficou na direção do sindicato, um pouco fazendo esse trabalhou de formiguinha nas fábricas foi o Manoel Anísio. Hoje ele é presidente da Associação dos Metalúrgicos Aposentados, que foram aposentados pela Anistia. Até é uma pessoa interessante. Eu tinha um carro de reportagem e ele falou: Vilma, me leva com o carro da reportagem até a Volkswagen para eu não ser preso. Vai comigo lá. Eu levava. Eu fazia mais que jornalismo, levava até lá, dava apoio em todo lugar que ele podia ir e acompanhava a luta dos metalúrgicos quando o movimento aqui se esvaziou por causa dos presos políticos. A gente era comprometido com essa luta. E teve uma ameaça de bomba, quando o Lula estava fazendo um discurso na igreja e a gente foi ameaçado com uma bomba. Ele falou que ia falar que era coisa da direita, que estava desesperada. Eu tinha de fazer o jornal na igreja, na casa paroquial, porque o nosso diretor estava em São Paulo e ele mandou eu ir para a igreja, sair do jornal e fazer o jornal na igreja. Eu escrevi o jornal na casa paroquial e enquanto isso a polícia revistou tudo para ver se tinha bomba. Não acharam nada.
Pergunta: A gente está chegando ao final, mas a gente costuma pedir para o entrevistado deixar alguma mensagem, alguma idéia, alguma conclusão, para as pessoas que forem assistir ao depoimento, sobre a sua vida, seu trabalho.
Resposta:
Eu gostei de estar presente na luta política sim, na luta política ou na vida nacional. Eu acho que isso é importante, desde que a pessoa se sinta à vontade e motivada. Claro que ninguém é obrigado a isso. Mas isso me trouxe conhecimento, pessoas e hoje eu tenho uma história para contar. Gostaria que toda aquela luta, se fosse reproduzida hoje, porque com todos esses casos do Governo Federal, tem de preservar a governabilidade, mas se a gente tivesse uma formação política, seria importante. Hoje se esqueceram da formação política. Isso é fundamental. Quando eu estava no movimento trotskista, a gente tinha a escola de quadros. A gente se fechava numa casa durante uma semana e a gente estudava marxismo, dialética. Tem de estudar isso. Isso é a base da história. Todo mundo tem de estudar isso. Isso acontece com os quadros do PT, infelizmente, porque ninguém tem formação política. Pegaram o bonde andando, a luta metalúrgica e o poder e esqueceram a formação política. Gostaria de destacar que vi esse movimento reproduzido no Amapá, no governo do João Roberto Capiberibe, do Partido Socialista Brasileiro. Hoje ele é senador, sofreu uma injustiça, quase foi cassado, porque fizeram uma denúncia de compra de votos por 26 reais, que foi uma pessoa que falsificou o depoimento. Estive no Amapá, trabalhei com ele e ele me fez ir até o Chile. Ele teve compromisso com a Amazônia, com o desenvolvimento sustentável. Ele tem lastro político e procura incutir nas pessoas o lastro político, a formação. Isso eu acho importante e fiquei muito satisfeita e muito honrada de ter participado dessa experiência de desenvolvimento sustentável. Acho que o país precisa ter essa força ideológica. Acho que o socialismo, de outra forma, não desapareceu. A gente tem de lutar por outra forma de vida, melhor para o povo, lutar contra a globalização. Dizer que a globalização é irreversível é mentira. Ela é reversível porque ela é um fracasso. As pessoas hoje não têm emprego, não têm nada. A globalização é um fracasso e hoje está presente a luta contra a globalização. Essa é a mensagem que deixo, que estudem e tenham formação política para defender uma coisa de forma correta.