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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Yvonne Mesquita Faria

  • Nome: Yvonne Mesquita Faria
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 23/03/1929
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Penápolis (SP)
  • Profissão: professora

Biografia

Ivonne Mesquita Faria estudou em escolas de Penápolis e tornou-se professora. Lecionou em escolas rurais e, quando veio para Santo André, deu aulas no primeiro Grupo Escolar da cidade, na rua Senador Flaquer. Vivenciou a 2ª Guerra e a ditadura militar na região.





Transcrição do depoimento de Yvonne Mesquita Faria em 10 de junho de 2003

IMES - Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa


PROJETO MEMÓRIAS DO ABC


Depoimento de YVONNE MESQUITA FARIA, 74 anos.
IMES - Centro Universitário de São Caetano do Sul, 10 de julho de 2003.
Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Eleonora Chagas Mendes.

 

Resposta:
Eu nasci no dia 23 de Março de 1929, em Penápolis, interior do estado de São Paulo. Tive uma infância feliz, sem preocupações, mas por ser filha única eu fui sempre uma criança sozinha.

Pergunta:
Sua infância foi em Penápolis mesmo? Até quantos anos?

Resposta:
Até eu me formar professora eu morei em Penápolis; depois, eu saí para lecionar.

Pergunta:
E como era a cidade de Penápolis? Quais as características da cidade?

Resposta:
Cidade pequena, mas um povo muito bom, todo mundo se conhecendo, todo mundo amigo, lugar agradável de se viver.

Pergunta:
A senhora morava na cidade mesmo?

Resposta:
Na cidade.

Pergunta:
E seus pais faziam o quê?

Resposta:
Meu pai era gerente de uma casa comercial muito grande que tinha lá, uma coisa difícil de ter no interior; e minha mãe era dona de casa, gostava de bordar, gostava de costurar, mas por prazer mesmo, nunca trabalhou fora.

Pergunta:
Qual tipo de comércio seu pai tinha na época?

Resposta:
Ele era gerente dessa loja, era uma loja que vendia desde alfinete até camisa, era muito grande, ele era gerente porque a esposa do dono da loja tinha muito ciúme dele, embora ele fosse um homem muito feio, mas era rico, então não saía do escritório, e meu pai cuidava de tudo.

Pergunta:
E as brincadeiras de criança daquela época?

Resposta:
Eram ótimas! Eu brincava muito na rua, a gente podia brincar na rua, até adolescente a gente ainda brincava na rua, de roda, de pique, de lenço atrás, eram todas brincadeiras assim, e era uma época em que... Os adolescentes daquela época eram diferentes dos de hoje. Naquela época a gente era criança mesmo, brincava mesmo, as mães sentavam nas calçadas conversando e os filhos ficavam brincando nas ruas.

Pergunta:
E a senhora ia à escola?

Resposta:
Ia. Fiz o curso primário no colégio das freiras, ginásio no Estado e voltei para o colégio das freiras para fazer o normal.

Pergunta:
E como era no colégio das freiras?

Resposta:
Ah! Era muito bom, porque mesmo naquela época elas eram muito amigas, não era aquela rigidez, era uma congregação mais aberta, dos franciscanos, era muito gostoso.

Pergunta:
Tinha uniforme?

Resposta:
Tinha uniforme.

Pergunta:
Era só de meninas?

Resposta:
Não, tinha meninos também.

Pergunta:
Mas nas mesmas classes ou separados?

Resposta:
Não, no primário era só de meninas e depois, quando a gente fazia o curso preparatório para o ginásio, tinha menino na mesma classe.

Pergunta:
E por que o ginásio a senhora foi fazer no Estado?

Resposta:
Por que lá não tinha ginásio, no colégio das irmãs não tinha, tinha que fazer no Estado, mas era excelente.

Pergunta:
E a opção, se é que teve opção para fazer o curso normal?

Resposta:
Não, não foi uma opção, é que não houve outra. Eu não queria fazer o normal, eu queria fazer matemática, mas no internato não havia curso colegial, na época, e eu teria que viajar uns quarenta minutos de ônibus para uma cidade ali perto para fazer, e meu pai não deixou, era só eu de filha, sozinha não vai, então não tinha outra opção, não tinha outra. As moças da minha época tinham que fazer o normal, se quisessem estudar.

Pergunta:
E depois que a senhora se formou?

Resposta:
Depois a gente... Era muito diferente de hoje, a gente tinha que lecionar na zona rural porque os outros colégios eram dois e estavam já lotados - ali os professores chegavam e só saíam quando morriam ou aposentavam, então a gente tinha que pegar escolas no interior, era muito sofrido na época, muito mesmo, e quem hoje mora aqui, leciona aqui, não faz idéia do que a gente passava.

Pergunta:
E onde a senhora lecionava?

Resposta:
Tudo lá por perto mesmo.

Pergunta:
A senhora é capaz de descrever a escola, crianças, se dava para ensinar alguma coisa?

Resposta:
Era aquele negócio: três séries na mesma classe e a primeira série tinha uns três graus assim, os mais fracos, os médios e os melhores; depois vinham o segundo e o terceiro graus. E lecionar para tudo isso ao mesmo tempo era complicado. Por exemplo, internatos. Numa escola em que eu lecionei, eu ia de charrete, meu pai contratava um charreteiro e ele me levava todo dia e depois lecionei em outros nos quais eu ia de ônibus, eu tinha pavor porque aquelas estradas eram de terra e quando chovia era aquele barro, o ônibus derrapava, eu tinha muito medo. Teve escola que eu morei lá, então era complicado também, até o banheiro não existia, era aquela casinha de madeira no quintal cheia de baratas, um medo terrível. Depois em outro lugar eu morei com algumas professoras e tinha uma senhora baiana que dava pensão para gente, depois de a gente ficar lá comendo muito tempo, a gente soube que o filho dela era tuberculoso e a higiene lá era terrível. A gente só comia porque tinha fome mesmo, então era muito complicado. A gente estranhava muito. Eu já não queria aquilo, então acho que para mim ainda era pior.

Pergunta:
A senhora tinha mais ou menos quantos anos?

Resposta:
Eu me formei com dezoito e já comecei a lecionar. Já que eu tinha me formado mesmo...

Pergunta:
A senhora era solteira?

Resposta:
Era.

Pergunta:
E como foi o namoro, o casamento?

Resposta:
Meu marido era de lá também, então a gente começou a namorar quando eu tinha 16 anos, isso era normal, e depois ele saiu para estudar, ele foi para Uberaba, e a gente foi levando até que depois ele se formou, trabalhou em Sorocaba e depois veio para Santo André. Eu já tinha ingressado no magistério, eu escolhi uma escola em Santo André e no ano seguinte a gente se casou e está lá até hoje.

Pergunta:
E por que vocês escolheram Santo André?

Resposta:
Em Sorocaba ele não gostou, não gostou de jeito nenhum, era aquele povo muito..., sei lá, atrasado, apesar de ser uma cidade boa, não é que era atrasado, era cheio de preconceitos, contra o dentista novo que tinha conhecimentos mais modernos, o modo de tratar era já bem mais moderno, e eles não aceitavam aquilo, eles eram aquela coisa antiga de dentista trocar o algodão o ano inteiro e depois perder o dente, era a isso que eles estavam acostumados. Ele não gostou de jeito nenhum. Ele veio para São Paulo fazer um curso de cirurgia e o médico que dava esse curso é que o aconselhou a ir para Santo André e foi assim. A gente não conhecia e eu pude também escolher a escola, e estamos aí.

Pergunta:
Dona Yvonne, mais ou menos no tempo da Guerra, entre 42 e 45, a senhora tinha uns treze ou quinze anos?

Resposta:
É.

Pergunta:
A senhora tem alguma lembrança? Como foi a vida nesse período?

Resposta:
É, eu tenho. Eu lembro assim mais do racionamento que havia, porque havia primeiro o racionamento de gasolina, então a vida era difícil porque faltando a gasolina, faltava a farinha que vinha da Argentina, faltava o sal que vinha do Nordeste, e os carros tinham aparelhagem, uns tubos assim de gasogênio e tinham um cheiro horrível, então era uma época muito difícil, você não tinha pão. Meu pai conseguia..., meu pai não, as pessoas conseguiam da prefeitura um cartãozinho de racionamento para retirar nas padarias umas broas de fubá que eram completamente verdes, horríveis, e meu marido, como o pai tinha fazenda, trazia uns sacos de sal que davam para o gado, trazia para cidade, e ali distribuía para as pessoas aquele sal que eram pedras que precisava dissolver na água e as pessoas colocavam no arroz, no feijão, e as pessoas até choravam quando iam lá e eles davam aquele tanto de sal, saquinho de sal, porque não tinham, e fazer comida sem sal era terrível. Então dessas dificuldades é que eu me lembro mais.

Pergunta:
A região ali tinha estrangeiros, alemães, japoneses?

Resposta:
No internato tinha muitos japoneses, tinha alguns outros, alemães e tudo mais, mas eram muitos japoneses. Eles eram muitos perseguidos, não só japoneses, mas todos os estrangeiros eram proibidos de ligar o rádio e eles queriam ouvir as notícias porque eles tinham deixado suas famílias em seus países de origem. E até aqui em São Caetano um médico alemão, doutor Kraust, comentou com a gente, eu não sei onde eles moravam na época, que os pais deles queriam ouvir notícias então tinham que pôr o rádio no porão bem baixinho porque iriam presos se os pegassem ouvindo rádio, era proibido para os estrangeiros. E para você ir para algum lugar numa cidade vizinha tinha um documento, chamado salvo-conduto, e isso era mais por causa dos estrangeiros, mas qualquer pessoa precisava, mas eu acho que era mais para ter o controle sobre os estrangeiros.

Pergunta:
A senhora e seus pais tiveram por algum momento de tirar esse documento?

Resposta:
Acho que não, a gente não costumava sair dali. E tenho umas lembranças de quando acabou a guerra, que a cidade inteira festejou, foi até uma bebedeira nos bares, o pessoal, até meu pai que não era de tomar nada foi encontrar os amigos e todo mundo festejou muito animado, era uma alegria muito grande.

Pergunta:
O que as pessoas pensavam da guerra?

Resposta:
O Brasil entrou na guerra. Em Penápolis mesmo houve pracinhas que morreram na guerra. Um tio do meu marido também foi, só que ele voltou da guerra, mas houve festejos, então foi muita alegria, tinha vários em Penápolis que foram à cidade e vibraram de alegria quando terminou.

Pergunta:
A senhora lembra mais ou menos quando a senhora chegou em Santo André?

Resposta:
Em 1955.

Pergunta:
E como era Santo André nessa época?

Resposta:
Nossa! Era bom, era bem menor, o clima era muito diferente. Eu me lembro que eu era solteira e fui morar bem ali no centro de Santo André numa pensão de professores. E, naquele tempo, na Coronel Oliveira Lima, passava ônibus e eu lecionava na Vila Helena, numa escola, numa escola isolada, e por volta de quinze ou vinte para as oito eu ficava na calçada esperando o ônibus, mas você não enxergava nada, a neblina era tanta que eu só enxergava quando o ônibus chegava ali bem pertinho, era um clima bem diferente, bem mais frio.

Pergunta:
E a senhora sentiu muita diferença?

Resposta:
Eu senti, eu estranhei muito. Mas era bem mais tranqüilo.

Pergunta:
E como eram as ruas? Tinha prédios naquela época? Como era a construção das casas?

Resposta:
Não tinha. Tinha um ou outro, mas não tinha assim tanto como agora, eram mais casas. E as pessoas também se conheciam mais. Por exemplo, a gente tinha uma vizinhança e acabava ficando todo mundo amigo. Eu tinha uma casa que tinha um terreno na frente e ali meus filhos brincavam com os filhos de todos os vizinhos, ali a gente fazia festa junina, carnaval, então era assim uma coisa quase como igual ao interior.

Pergunta:
Quando a senhora casou, a senhora foi morar onde?

Resposta:
Eu morei nesse lugar que era uma travessinha da Rua Senador Fláquer, a cem metros do grupo escolar.

Pergunta:
A senhora dava aula no grupo escolar?

Resposta:
Nessa época, não. Eu dava aula primeiro na Vila Helena e depois na Vila Marina e depois eu fui removida, por engano, para o Grupo, porque ali também não tinha vaga, quem ia lecionar no primeiro Grupo só saía quando aposentasse ou morresse. Quando eu fui para lá tinha professores que já estavam lá há trinta anos, trinta e três, e ninguém queria sair. Então saiu minha remoção por um engano, quando eu fui lá toda feliz tomar posse, não tinha vaga e não podia voltar atrás porque depois a vaga que eu deixei, outra escolheu; no entanto, eu precisei ficar à disposição da Delegacia de Ensino até uma professora se aposentar.

Pergunta:
E a senhora achou isso bom ou ruim?

Resposta:
Eu achei bom, eu gostava mais de trabalhar na Delegacia do que de lecionar.

Pergunta:
Por quanto tempo a senhora ficou assim?

Resposta:
Dessa vez eu fiquei uns três meses apenas e uma professora se aposentou e eu fui para lá; depois logo eu fiquei como auxiliar de diretor; eu fui trabalhar por sete anos na Delegacia, eu preferia essa parte de secretaria do que a sala de aula.

Pergunta:
E na cidade, quando vocês precisavam de médicos, de farmacêutico, abastecimento, como era?

Resposta:
Se precisasse de médico, não tinha problema, o Hospital São Cristóvão tinha excelentes médico; tinha o Dr. Celso que era um excelente médico; tinha um pediatra muito bom que era o Dr. Silveira Lobo, todo mundo que eu conheço levou seus filhos lá, era excelente. Então problema de médico não tinha, de farmácia não tinha. Naquela época tinha aquelas farmácias com aqueles farmacêuticos antigos, seu Zezinho, da Farmácia, não me lembro o nome da farmácia, tinha um no Ipiranguinha, tinha outro na Senador Fláquer, então eram farmacêuticos muito antigos, tinham muito conhecimento, então essa parte também era excelente. Parte de mercado tinha poucos, mas tinha a Cooperativa da Rhodia que era pertinho da minha casa, não tinha problema, padarias. Aliás, naquele centro em que eu morava tinha tudo.

Pergunta:
A senhora chegou a ir aos bailes do Rhodia, bailes do Primeiro de Maio?

Resposta:
Não, eu nunca fui. Quando nós éramos solteiros, eu e meu marido dançávamos muito, Penápolis tinha grandes bailes, tinha uma orquestra famosíssima só de irmãos que formavam a orquestra, bailes com eles eram maravilhosos, a gente ia, não perdia um, não perdia carnaval. Depois que nós nos casamos, meu marido não quis ir em mais nada, a gente casou em janeiro, em fevereiro já não quis mais ir no carnaval.

Pergunta:
Janeiro de que ano?

Resposta:
De 1956. Não foi mais, então não freqüentei baile.

Pergunta:
A senhora não freqüentou os bailes de carnaval?

Resposta:
Não, só os de rua, de rua sim, Ocara, Panelinha. Era lindo, a gente achava lindo. Agora tem muitas escolas de samba, eu nunca fui a esses desfiles de agora, não tem condição, mas na época eles concorriam, então cada um fazia mais bonito que o outro. A gente fez um trabalho na faculdade, no núcleo de pesquisa, e meu grupo escolheu carnaval, então nós fizemos muitas pesquisas, tinha toda a história do carnaval, toda a origem no mundo, toda a influência aqui no Brasil, até o carnaval de Santo André, a gente tinha fotos do Panelinha, do Ocara, para colocar no trabalho da gente.

Pergunta:
Vocês conseguiram reunir fotos?

Resposta:
Nós conseguimos fotos e colocamos várias.

Pergunta:
E o cinema, vocês moravam perto do Carlos Gomes?

Resposta:
Eu morava perto do Carlos Gomes, e ali na Perimetral também tinha o Cine Santo André, eram os dois que ficavam mais perto. Às vezes, a gente ia para São Paulo também.

Pergunta:
E o que vocês assistiam?

Resposta:
Ah! Eu me lembro muito de ter assistido Dr. Givago, eu estava grávida e quase morri para assistir aquele filme de quatro horas, esse filme me marcou muito porque foi terrível.

Pergunta:
A senhora se lembra de filmes brasileiros do Vera Cruz, Mazzaropi?

Resposta:
Assistimos Mazzaropi, Eliana, aquele outro, Grande Otelo.

Pergunta:
Os cinemas que a senhora mais freqüentava eram esses dois? E o Tangará?

Resposta:
Era mais longe, mas a gente ia.

Pergunta:
Ia a pé?

Resposta:
Era a pé, a gente não tinha carro. Depois já tinha uma filha quando fomos ter um carro, lá em Penápolis, a gente ia para lá todo ano, nossos parentes continuavam lá.

Pergunta:
Vocês compraram carro lá em Penápolis?

Resposta:
É, nós fomos de férias e apareceu uma barata não sei nem que ano era, já perdi as contas, e viemos naquela barata, num aperto, e a estrada não era tão boa quanto é hoje, então a gente ficou muito cansado, mas tudo era bom.

Pergunta:
Quantos filhos a senhora tem?

Resposta:
Eu tenho três filhos, eu tinha mais um, só que eu perdi novo; sim: três filhos e cinco netos.

Pergunta:
E a senhora sempre trabalhando na educação de alguma forma?

Resposta:
É, sempre trabalhei. Eu já estava no ensino mesmo, tinha ingressado, feito a minha dose de sacrifício, eu também não tinha coragem de deixar, não valia a pena deixar.

Pergunta:
Como era assim na época, a senhora mulher, dona de casa, trabalhando fora, criando os filhos? Como era? Seu marido entendia isso?

Resposta:
Meu marido trabalhava de manhã, à tarde e à noite.

Pergunta:
Trabalhava em quê?

Resposta:
Ele era dentista, trabalhava de manhã, à tarde e à noite, às vezes até meia noite ou mais, e eu trabalhava também, só que os períodos eram de três horas, mas era problema de empregada, de repente a empregada não aparecia, você não podia ir para a escola, ou às vezes era a criança que estava doente e eu tinha receio de deixar com a empregada, uma era surda, então era difícil. Meu marido chegou a deixar de trabalhar na parte da manhã para olhar as crianças, para eu ir trabalhar, e eu queria trabalhar, não queria deixar, mas não era vantagem ele parar e eu ir dar aula, mas em todo caso... Ele parou uma época até a gente acertar mais, as crianças crescerem mais. Ele colaborava também, ele sempre colaborou muito.

Pergunta:
Quando vocês chegaram aqui na cidade, estavam se desenvolvendo as indústrias, as fábricas. A senhora, como professora, lembra dos movimentos de greve, já que a senhora morava perto dos sindicatos?

Resposta:
Foi bem depois, mas a gente se lembra das movimentações, porque a gente passava por lá e via notícias. Eu tinha uma amiga que o filho é jornalista e de madrugada eles ficavam nas portas das fábricas, as mães morriam de medo. Então era assim mesmo, era mais em São Bernardo.

Pergunta:
Ali no sindicato de Santo André tinha movimentação?

Resposta:
Tinha, sim.

Pergunta:
E em 1964, a senhora tem lembrança da ditadura militar? A senhora se lembra da censura daquela época?

Resposta:
Eu mais ouvia dizer, principalmente da parte dos artistas que tinham que se calar. Outro dia eu estava lendo sobre isso que algumas músicas que eles faziam, eles usavam palavras para se referir aos militares, tinha que ser tudo muito disfarçado, muitas músicas foram impedidas de serem publicadas, muitos foram também exilados. A gente participava de ouvir tudo isso, muito do que a gente ouvia era que o prefeito, que era amigo nosso, foi prefeito de São Bernardo, e naquela época ele era advogado do sindicato, ele foi preso e torturado, então esse foi o que a gente viu de mais perto. A gente tinha uma revista do movimento de igreja, eles marcaram época no Brasil todo, aliás no mundo todo, e tinha uma revista e eu participava da redação, ele também era, e as reuniões para montar as revistas eram sempre na minha casa, onde a gente convivia mais com Maurício.

Pergunta:
Alguma coisa que a senhora escreveu foi censurada?

Resposta:
Não, eu não. Mas houve quem escrevesse. Havia padre, advogado...

Pergunta:
E alguma dessas revistas foram censuradas?

Resposta:
Não.

Pergunta:
Viveu alguma coisa mais...?

Resposta:
Não. Acontece que não foi naquele auge.

Pergunta:
E na época que a senhora escrevia, trabalhava na redação?

Resposta:
Foi na década de 1970.

Pergunta:
E sobre a política da cidade, a senhora tem lembrança dos Prefeitos, dos Vereadores? Como eram as eleições aqui?

Resposta:
Bom, eu era vizinha do Dr. Brandão, mas eu me lembro que uma vez até foi eleito Lauro Gomes, tinha sido prefeito de São Bernardo, e um ótimo prefeito, então a gente teve uma esperança de que ele fosse fazer muito por Santo André, só que ele morreu logo após tomar posse.

Pergunta:
Depois disso teve mais algum que a senhora se lembre?

Resposta:
Não. Tinha uma casa ao lado do meu prédio, tinha uma casa de pedra, depois foi até um restaurante.

Pergunta:
Tinha alguma movimentação?

Resposta:
Não. Ali perto da minha casa tem até hoje o Sindicato dos Rodoviários, ali era um movimento terrível, de vez em quando era uma gritaria na rua, saía até tiro, vinha a polícia e fechava tudo. Eu lembro disso até hoje.

Pergunta:
E no dia da eleição, como a cidade ficava?

Resposta:
Quando tinha eleição era a mesma coisa, parece que não tinha tanto movimento como hoje, eu acho que é porque hoje em dia tem mais gente, se bem que quando eu fui para Santo André tinha mais habitantes que hoje, com as mudanças das empresas, muita gente foi embora, ou para o norte e sul do Brasil ou para as cidades para onde as empresas foram, então hoje tem menos habitantes que naquela época. Então eu não sei se as pessoas não se conscientizavam muito, se não era todo mundo que votava, não tinha muito movimento, hoje em dia tem mais movimento, mas é tranqüilo porque é tudo mais organizado.

Pergunta:
Quando a senhora trabalhava, tinha fundo de garantia?

Resposta:
Eu trabalhava no Estado, então eu tinha só o salário-família, não tinha mais nada.

Pergunta:
E quando a senhora se aposentou, não pôde pleitear mais nada?

Resposta:
Não, quem trabalhava no Estado só tinha isso daí. Só aposentadoria.

Pergunta:
Senhora Yvonne, a senhora se lembra do período em que chegou a televisão, o rádio?

Resposta:
Eu me lembro, porque o meu marido comprou uma das primeiras televisões.

Pergunta:
Onde vocês compraram? Em lojas?

Resposta:
Geralmente ele gostava de comprar as coisas no Mappin, em São Paulo, na Praça Ramos, deve ter sido lá. Nossa! Era maravilhosa, até preto e branco.

Pergunta:
Como foi a chegada?

Resposta:
Nossa! Foi uma festa, o som dela era maravilhoso, muito bom mesmo.

Pergunta:
Os vizinhos já tinham televisão ou não?

Resposta:
Não, acho que não.

Pergunta:
Seus filhos, antes de terem televisão, não assistiam televisão em outro lugar?

Resposta:
Não. Quando ele comprou, eu nem tinha filhos ainda; se tinha, talvez a minha filha fosse recém-nascida.

Pergunta:
Antes da televisão, tinha rádio? Como era?

Resposta:
Meu marido até hoje ouve rádio, eu não. Não sei por que não gosto muito de rádio; gosto muito de música, mas de rádio, aquelas notícias, não sou muito assim...

Pergunta:
A senhora se lembra de alguma coisa do rádio que ficou marcada? Futebol?

Resposta:
Futebol, não. Quando eu morava em Penápolis, eu e minha mãe gostávamos de novela de rádio, meu pai gostava de futebol. Eu não podia nem ver.

Pergunta:
Quais cantores faziam sucesso, naquela época?

Resposta:
Orlando Silva, Carlos Galhardi, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, eu tenho até um CD chamado Os Quatro Grandes, dos quatro.

Pergunta:
Lembra de alguma música?

Resposta:
Ah! Não. Faz tempo.

Pergunta:
A senhora costumava comprar discos?

Resposta:
Comprava. Comprava vários, não me lembro de cada um, mas tinha por exemplo A Deusa da Minha Rua. Orlando Silva era o cantor das multidões. Quando eu era solteira e lecionava no interior, todo domingo a gente ouvia o programa do Francisco Alves e ele cantava à noite, aquilo todo mundo ouvia. Quando ele morreu, na cidade em que eu estava foi assim..., todo mundo, eu estava num baile quando veio a notícia, foi aquele silêncio, aquela tristeza.

Pergunta:
A senhora estava no baile onde?

Resposta:
Foi no interior. Quando ingressei no magistério, lá na Alto Sorocabana, então nos estávamos no baile e veio essa notícia, ficou aquele silêncio, emocionante.

Pergunta:
Dona Yvonne, a senhora tem lembrança de alguma propaganda da época, de algum produto?

Resposta:
Dos cobertores Paraíba, essa todo mundo que tinha criança, cantava: Já é hora de dormir... Não, não sei bem como era. Mas acho que essa toda mãe...

Pergunta:
Essa propaganda era de rádio ou de TV?

Resposta:
Eu via na TV, o menininho com a vela subindo a escada e cantando: já é hora de dormir. E a gente falava para os filhos.

Pergunta:
E a propaganda repercutia nos filhos?

Resposta:
Eles também riam, eles também gostavam, nessa hora ia todo mundo dormir.

Pergunta:
A senhora tem lembrança de quando o homem chegou à Lua?

Resposta:
Eu me lembro muito. Eu lecionava para uma quarta série no Primeiro Grupo, e eu tinha uma filha que fazia curso preparatório no Curso Stocco e lá eles tinham muita criatividade, e elas usavam todos os dados, tudo que saía nos jornais e na televisão sobre a Lua, os cálculos que eram feitos, a alimentação, elas aproveitavam a matéria para dar aulas e eu também aproveitava isso e fazia com a minha classe, então acho que ninguém daquela época esqueceu.

Pergunta:
Mas vocês assistiram à chegada do homem na Lua?

Resposta:
Sim. A gente não esquecia porque se aproveitava tudo em todas as aulas. E eu aproveitei o curso do Stocco. Então ficou bem marcado.

Pergunta:
E sobre a construção de Brasília? A senhora tem lembrança disso?

Resposta:
O meu filho nasceu no dia da inauguração de Brasília, e a gente acompanhava. Depois, oportunamente, eles ainda eram pequenos, nós fomos lá, então Brasília ainda era aquela cidade planejada, depois acho que aumentou muito a população, aquela cidade Satélite. Parece que não é mais como era, quando foi construída, mas foi muito bonita.
Eu queria falar para vocês do Primeiro Grupo, porque a única coisa que sei mesmo era do Primeiro Grupo, onde hoje é o museu de Santo André. O prédio começou a ser construído em 1912 e o grupo foi instalado em 1914, foi feita uma anexação de nove escolas isoladas que tinha ali na redondeza, então começou a funcionar em julho de 1914, mas como naquela época Santo André e São Bernardo eram uma cidade só e era São Bernardo que tinha ascendência política e administrativa, o grupo se chamou Grupo Escolar de São Bernardo, embora ficasse aqui em Santo André, e só em 1937 que ele passou a se chamar Primeiro Grupo Escolar de Santo André; e depois, vinte anos depois, é que foi-lhe dado o nome, esse atual, de Prof. José Augusto de Azevedo. Foi uma coisa marcante. No começo foi chamado de São Bernardo.

Pergunta:
E tinha muitas outras escolas em Santo André ou praticamente era só essa?

Resposta:
Nos bairros tinha grupos menores, mas naquela época acho que não, acho que só tinha ali. Tinha escolas que funcionavam até em casas de professores. Depois eles juntaram essas escolas e formaram o grupo escolar.

Pergunta:
A senhora sabe quem freqüentava esse grupo?

Resposta:
Meu vizinho de apartamento, Dr. Clóvis Thon, ainda ontem estava comentando comigo que quem doou o terreno foi a madrinha dele, os padrinhos dele, ela era da Família Thon. Depois, quando o grupo fez cinqüenta anos, nós tivemos uma grande festa, durou uma semana, então nós pegamos a foto da primeira turma que formou, localizamos muitos daqueles alunos, então o avô desse Dr. Clóvis Thon era da primeira turma, que formou também o avô da esposa dele. Nós localizamos várias pessoas, as procuramos e elas estiveram presentes nas comemorações. Era o pessoal aqui da cidade mesmo que freqüentava lá. E nas vilas tinha outros grupos menores. Não sei quando foi criado esse, se tinha, mas depois passou a ter. Todavia, tinha o grupo escolar.

Pergunta:
Era mais para as pessoas que moravam no centro? Seria mais uma classe média?

Resposta:
Eu acho que sim. Pelos nomes, esses descendentes de italianos antigos, moradores da cidade, era esse pessoal.

Pergunta:
Perto desse grupo tinha o colégio das freiras, e muita gente estudava no colégio das freiras.

Resposta:
Isso já bem depois.

Pergunta:
Antes do colégio das freiras, a opção de escola era o grupo?

Resposta:
Ali para o centro, era. Não tinha tantas vilas naquela época, também não sei se tinha tantas escolas. Não sei a partir de quando começaram a construir grupos nos bairros.

Pergunta:
Quando a senhora trabalhou na Vila Helena e na Vila Marina, deveria ser muito longe para Santo André.

Resposta:
Mas tinha ônibus, não tinha problema.

Pergunta:
E como era essa região? Era zona rural?

Resposta:
Não. Era cidade mesmo. Só que era menor, não eram bairros muito grandes. Por exemplo, na Vila Marina, às vezes tinha greve de ônibus, a gente ia a pé. Mas não era muito longe. Não sei dizer, mas era depois daquele jardim famoso onde fica o cinema, não era muito longe, mas a gente ia de ônibus, só que às vezes tinha greve, já naquela época, 57, 58.

Pergunta:
E as condições de trabalho nas escolas eram boas ou eram como Penápolis, que juntavam todas as séries?

Resposta:
Não, quando era escola isolada, sim, quando era rede escolar, não. O ambiente era muito bom de trabalhar, pelo menos nos últimos tempos que trabalhei, eu via que era muito diferente, porque as pessoas precisavam completar número de aulas, então lecionava aqui e lá, às vezes não davam conta, então faltavam, já era uma dificuldade, mas para ganhar mais o professor tinha que pegar o máximo de aulas, e o máximo de aulas não tinha numa escola só, eram duas ou três escolas, era uma correria. Então era uma coisa que não era tão boa quanto naquela época em que trabalhei.

Pergunta:
A senhora se aposentou quando?

Resposta:
Em 1979.

Pergunta:
Nessa trajetória em que a senhora começou e depois do que a senhora viu posteriormente, como a senhora caracteriza a situação da profissão de professor, o status da profissão de professor, as condições de trabalho, condições de salário?

Resposta:
De salário até era melhor. Eu tenho até uma amiga que o marido dela era delegado e ele dizia que ela ganhava mais do que ele, antes, depois foi defasando; acho que hoje professor ganha menos que uma empregada doméstica. Se contar que empregada tem tudo, acho que sim. Eu até fui beneficiada por uma lei porque antigamente a gente trabalhava quatro horas por dia e trabalhava aos sábados, então fomos beneficiados por uma lei, quem trabalhou aos sábados, então nosso salário dobrou. E foi a sorte.

Pergunta:
E como as pessoas viam o professor? Como era o comportamento dos alunos em sala de aula?

Resposta:
Sim. Na época, tinha professoras ótimas, inteiramente dedicadas, então eram bem conceituadas e muito respeitadas pelos pais. Eu já notei uma diferença quando fiquei sete anos na Delegacia e lá eu já percebia muitos pais irem reclamar de professores, depois o Governo não permitiu mais que professores ficassem à disposição das Delegacias, eu voltei para a escola, eu já percebi um ambiente totalmente diferente, de desrespeito do próprio aluno, aluno de primeira série, de segunda série, desrespeitava diretor. Era impressionante. Ela dizia: eu sou brava, minha mãe fala que sou do signo tal e que eu sou muito brava. Enfrentava professora com sete ou oito anos. E diretora também. Então eu via. E você não podia fazer nada porque os pais iam para a Delegacia denunciar, então começou a haver um desrespeito muito grande. Hoje em dia é muito pior.

Pergunta:
A senhora não chegou a pegar aquelas greves grandes de professores?

Resposta:
Eu já estava aposentada. O Governador do Estado pôs cavalos em cima dos professores.

Pergunta:
Mesmo aposentada a senhora chegou a presenciar?

Resposta:
Não.

Pergunta:
A senhora comentou sobre escrever um livro de memórias de uma professora.

Resposta:
Eu não escrevi, mas tinha vontade de escrever, porque a gente passava por tantos pedaços, alguns cômicos, alguns trágicos, mas ficou só na idéia.

Pergunta:
A senhora lembra de algum?

Resposta:
Eu não sei nem se é muito indiscreto falar, mas em todo caso, quando eu lecionava na zona rural, eu morava numa casa com quatro professoras num quarto e no outro quarto tinha um diretor e um professor, então uma das professoras tinha uma irmã freira, era muito pudica, e eu me lembro que uma vez eu fiquei com uma gripe muito forte, com começo de pneumonia, e eu tive muita febre e durante a noite eu precisava ir ao banheiro e o banheiro era lá fora e chovia, eu não podia ir, primeiro que à noite eu morria de medo das baratas, e também porque chovia muito eu não sabia o que fazer, eu arranjei uma lata de vinte litros e pus no quarto e falei: eu faço xixi ali mesmo. E ela não admitia que eu fizesse porque ela dizia que os rapazes do outro quarto poderiam escutar, porque a casa não tinha forro, e ela não queria que eu fizesse, e eu com febre precisava fazer. Ela arranjou uma vara de bambu bem comprida e falou: quando você estiver com vontade, você me cutuca com o bambu que eu te ajudo, você senta na janela e faz, porque tem o barulho da chuva que caía...

Pergunta:
E foi assim que a senhora fez?

Resposta:
Assim, porque ela ficava apavorada com medo que os rapazes escutassem. Eu falei: E daí, eles também fazem. Ela era uma pessoa excelente, só que ela era muito assim, tudo ela achava que era escandaloso. Esse foi o que me marcou muito.

Pergunta:
Mais algum episódio com aluno?

Reposta:
Eles eram tão humildes. Logo que eu ingressei foi também numa cidade do interior, Santo Anastácio, e não tinha escola, a classe funcionava num..., era uma máquina de beneficiar café, estava desativada, então era uma porta dessas de ferro que erguia e a classe era ali, mas ali em frente era a estrada, passava muito trânsito, era um barulho, poeira, tudo mais, e um dia eu estava dando aula quando vejo dois animais tendo relações sexuais em frente da porta da escola, eu fiquei assustada, apavorada que os alunos vissem, mas para eles aquilo eram muito natural, não era natural para mim, que fiquei horrorizada, um cavalo e uma égua, aqueles monstros, eu fiquei apavorada com aquilo, e para eles era tudo muito natural, olharam e era aquilo que eles estavam cansados de ver. Dessas duas coisas eu nunca esqueci.

Pergunta:
Para finalizar a entrevista, o que a senhora gostaria de deixar registrado para os jovens, para as futuras gerações?

Resposta:
O que eu poderia dizer para os jovens é que eles lutassem pelos ideais que eles têm, que foi justamente o que eu não fiz, porque naquela época a gente nem ousava contrariar um pai ou discutir um assunto, assim como eu não fui fazer o que queria, porque ele não deixou e eu respeitei. Sei que os jovens de hoje não são assim, mas que se eles tiverem um ideal, que eles lutem por ele e perseverem nessa luta pelos ideais que tiverem. Acho muito importante.



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