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Laura Figueiredo estou teatro na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e atou nos grupos teatrais da cidade na década de 1970.
Depoimento de LAURA FIGUEIREDO, 53 anos.
Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 05 de julho de 2005.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Eduardo Chaves.
Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.
Pergunta: Por favor comece pela data e local de seu nascimento e fale um pouco sobre a sua família e da sua infância.
Resposta:
Nasci no dia 5 de maio de 1952, numa pequena cidade do interior de São Paulo chamada Guará, não Guaratinguetá. A minha família é interiorana. A minha mãe realmente faz parte da terra, mas é uma família bem humorada, uma família de artistas, que apesar de não ter tido cultura, não ter tido chances de estudar, traz dentro de si um certo humor. É uma família que, mesmo tendo alguns problemas, minha irmã, meus irmãos, todos têm uma certa queda pela comédia. É muito boa a minha família. Todos fazem piadas das próprias tragédias. Eu vim de lá para cá com mais ou menos 20 anos. Por que vim para cá? Porque, mesmo não sabendo ainda o que eu queria, lá não tinha horizontes que você pudesse falar que iria progredir dentro do que você queria fazer. Então, vim de lá em mais ou menos 1972. Cheguei, me assustei demais, porque você sai de um lugar muito pequeno e chega num lugar muito grande. Tudo para você é novidade. E fui cair justamente, para trabalhar, dentro da Fundação das Artes de São Caetano do Sul.
Pergunta: Foi seu primeiro emprego?
Resposta:
Emprego foi o primeiro aqui. Lá eu tinha estudado e fiz o colegial, era o clássico na época, pela Universidade de Ribeirão Preto, a 50 km da minha cidade. Quando terminei o clássico, vim para cá e eu comecei a trabalhar na Fundação. Eu me dei super bem, porque era ligado à arte e quando fui ver estava totalmente envolvida com a arte. Eu organizava as exposições, os concertos, cuidava do teatro da Fundação. Eu cuidava da agenda do teatro e de uma certa forma acabei participando, como ouvinte, eu fazia parte das aulas deles, assistia às aulas. Quem dava aula lá era o Jonas Bloch. E a minha irmã já estava aqui, a Hayde já estava em São Paulo quando vim. Ela já estava, mais ou menos, adaptada, e já fazia teatro na Fundação das Artes, na escola.
Pergunta: Ela estudava?
Resposta:
Ela fazia educação física, depois dava aula nos colégios de Santo André e à noite fazia teatro. Era uma loucura, porque você tinha de levar a sério o negócio. Você ensaiava muito. Eu acabei entrando junto, porque afinal de contas éramos eu e ela, uma tinha de apoiar a outra. Eu morria de medo. Enquanto eu estava com o pessoal da Fundação, não tinha medo, mas ficava com medo. Era a década de 70. Eu fui fazer teatro em 1975, 76, época da ditadura. Falavam que tinha espião dentro da Fundação. Eu nem respirava. Mas foi uma experiência muito boa. Tanto que quando eu voltava para Guará eu tinha de contar, eu falava que apesar de todas as dificuldades, como ser humano você cresce, principalmente diante do medo e você sozinha. A minha primeira peça que fiz...
Pergunta: Antes de a gente entrar na parte do teatro, fale sobre as suas brincadeiras de infância e como foi a sua viagem para cá?
Resposta:
A minha infância, como toda infância de uma criança do interior, foi muito produtiva. Você tinha liberdade para brincar. Eram aquelas brincadeiras que hoje você não vê mais. A sua brincadeira era subir numa árvore, andar a cavalo, brincar de queimada na rua. Foi uma infância muito boa. Apesar de não ter sido uma infância rica, porque a gente era pobre, mas é engraçado, porque quando você está satisfeita com as suas brincadeiras você não sente falta daquela coisa de ter um brinquedo. O brinquedo da gente era boneca de pano, brincar de casinha, pegar o barro, quando chovia você brincava na enxurrada, era ir para o rio nadar. Era muito legal.
Pergunta: Além de a Hayde estar aqui, o que te fez vir para cá, o que te impulsionou mais a vir?
Resposta:
O que me impulsionou a vir atrás dela talvez foi correr atrás de um sonho, porque você..., na época, eu não era muito ligada, a gente não tinha aquele contato com televisão, mas a gente tinha contato com o circo. Os circos que iam à cidade, eu ficava maravilhada com a mulher que cantava. Tanto que tinha concurso no circo e eu subia no palco para cantar. Minha mãe quase me matava, mas eu subia para cantar aquelas músicas muito antigas, de mil oitocentos e alguma coisa, eu subia para cantar, para concorrer. Eu achava que eu tinha de procurar alguma coisa. Engraçado, mas eu não segui isso. Vocês vão me perguntar por que não segui e depois vou responder. Mas o que me trouxe aqui? Eu vi que a Hayde tinha vindo e ela veio para poder..., primeiro porque a gente ficou sem pai. Meu pai faleceu quando a Hayde tinha 18 anos e eu tinha 15 para 16 anos. Então, a Hayde teve de vir para cá para tentar uma vida melhor. Nós somos quatro irmãos e minha mãe ficou viúva. Nós perdemos nosso porto seguro, que era o nosso pai, que era um cara super inteligente, um cara moderno. Minha mãe já era mais terra, chão, uma pessoa sem cultura e meu pai já era mais culto e meu pai dava muito incentivo para que a gente estudasse. Meu pai era muito culto, escrevia. Talvez por isso. Quando meu pai estava vivo a gente levava, porque papai estava lá, mas quando ele faleceu, minha mãe ficou sem rumo. Então, a Hayde veio e eu fiquei, para tentar ajudar. Mas eu também não achei justo eu ficar, sabendo que ela jamais iria sair dali e não saiu até hoje. Está lá sozinha, naquela casa grande que meu pai construiu. A casa, com muito custo ela permitiu que a casa fosse reformada. Sabe aquelas pessoas que se apegam e ficam naquilo? Aqui que chance eu tenho? Só de me tornar professora, mas que chance tenho se fiz o clássico? Eu não fiz o normal. Na época se podia fazer o clássico, científico ou magistério, que era o normal da época. O que vou fazer aqui? Emprego não tem.
Pergunta: O que era o clássico?
Resposta:
O científico eram as matérias exatas. Se você fosse fazer medicina, você faria o científico. Você teria as matérias ligadas à medicina. O clássico seria para humanas, letras, história, geografia, direito. As matérias que tive no clássico eram latim, francês, inglês, literatura inglesa, literatura americana, lingüística, literatura brasileira. A única matéria que não era ligada, que era mais ligada à área de biológicas, tive biologia e matemática no primeiro ano. Eram três anos. Você podia optar. Se você fizesse o normal poderia dar aula do primeiro ano do ensino fundamental, que na época era o grupo escolar, ginásio, colégio e faculdade. Tinha até um cursinho que se você prestasse, você saía do grupo, que era do primeiro ano ao quarto, você prestava o exame para entrar na quinta série, que se chamava admissão. É velho isso. Como eu gostava muito da área, na realidade eu gostava de literatura, porque eu gostava de sonhar escrevendo. Aliás, eu tenho coisas escritas dessa época, poesias dessa época, que eu escrevi e até que não são tão ruins assim. Até que para a época elas são boas. Eu pensei que tinha de ir para algum lugar. Como a Hayde estava aqui, coitada, teve de tomar conta de mim. Ela não estava agüentando nem ela, e teve de tomar conta de mim.
Pergunta: Você chegou menor de idade?
Resposta:
Não. Cheguei com 20 anos, mas aí que está, não tomar conta por causa da idade, mas tomar conta por causa da ingenuidade, da insegurança. Eu lembro que quando cheguei aqui, no primeiro dia que vi neblina, eu me assustei tanto, porque não via a cidade. Fui morar em Santo André e quando saí na rua eu não via o outro lado da rua. Eu voltei correndo. Aí ela foi me explicar o que era neblina. Imagina um lugar que faz 40 graus à sombra, nunca tinha visto neblina.
Pergunta: Em que lugar de Santo André você foi morar?
Resposta:
Nós morávamos em uma travessa da Senador Fláquer. Cheguei ali.
Pergunta: Como era a casa, o bairro?
Resposta:
Era tranqüilo o bairro, calmo. Não era assustador. O que me assustava era essa neblina, que nunca tinha visto na vida e que todo mundo falava para tomar cuidado com os ladrões. Você andava na rua com medo. A pessoa que olhasse um pouco mais, eu saía correndo. A minha chegada aqui foi assustadora. Aí eu fui procurar emprego. Até aí a Hayde teve de me sustentar. Ela morava com a tia Peré e eu fui morar numa pensão do lado porque não tinha vaga na pensão da tia Peré. Eu tive de morar numa pensão em frente.
Pergunta: Quanto tempo foi isso?
Resposta:
Depois nós fomos morar juntas. Acho que morei na tia Peré um ano. Depois deu para a Hayde alugar uma casa. Sabe onde nós fomos morar? No Bairro Jardim. Não me lembro em qual rua, numa travessa da Catequese.
Pergunta: Na Padre Anchieta?
Resposta:
Por ali. Era uma casinha de fundos. A Hayde alugou. Nessa época ela já estava bem engrenada com o teatro, porque ela já estava fazendo a escola, que inclusive, não sei se vocês conhecem a família Stocco, que me ajudou muito, o Marcão Stocco era amigo da gente e ia lá. Nós fomos morar juntas. E nisso veio mais uma amiga de Guará, para morar com a gente. Aí eu já tinha entrado na Fundação.
Pergunta: Como você conseguiu esse emprego?
Resposta:
A Hayde estudava lá. Ela fazia teatro lá e conversou com o meu cunhado, o Portela, que era curador da Fundação das Artes. Ele tinha ligação, porque ele é da Vila Gerti, a família dele é tradicional e acho que foi mexendo os pauzinhos, o Milton Andrade era o diretor e eu entrei na Fundação.
Pergunta: Qual a sua função?
Resposta:
Entrei como secretária, depois fui assessora da direção. Trabalhei lá seis anos.
Pergunta: E como era a parte administrativa?
Resposta:
Na parte administrativa fiquei pouco tempo, porque depois eu fiquei na parte de arrumar espetáculos, tipo relações públicas. Agendava espetáculos para o teatro, trazia, tanto na parte de música clássica como na parte de música popular, porque nós tínhamos lá a parte popular que era Nilson Godói, Nelson Aires, que estavam na Fundação. Esses caras deram aula na Fundação das Artes. Hoje não estão mais lá. Tinha big band, que às vezes quem dirigia era o Nelson Aires, às vezes, o Godói. Eu arrumava lugares para a big band tocar e trazia espetáculos para o teatro da Fundação. Todo final de semana tinha alguma atividade lá, aberta ao público. Fora exposições, porque lá tinha artes plásticas, música, teatro e dança. A Hayde chegou a dar aula de dança na Fundação. Eu agendava tudo isso e fui me enturmando, porque eu tinha de ficar com ela até ela vir embora. Tinha medo, porque os caras vinham, passavam e pegavam. Eu saía fora, porque isso não pode. Mas era coisa normal que agora sei que é normal, mas na época não. Até que foram montar o Ripião Lacraia, e precisavam de pessoas, porque quem fez foi o Marcos Oliveira, o Marcão, que na época não saía lá de casa, porque era uma pessoa pobre carente e que não sabia ler. O Marcão não sabia ler. A gente foi, sabe quando você forma aquele grupo, um ajudando o outro e ele é um cara com uma mente fantástica, mas não sabia ler, mas ele decorava o texto. É um ator fenomenal. E precisava de gente e vamos e vamos; eu já assisti a tantas aulas que já sei, mas falar é uma coisa e quando você está lá em cima é outra. Tinha de cantar e a voz não saía. Depois de algumas apresentações tudo bem. Nessa época a gente participou do festival de teatro amador e nós ganhamos um prêmio e fomos para Fortaleza. A primeira vez que viajei de avião na minha vida. Se você escrever, dá uma comédia. E todo o grupo foi para Fortaleza, com o Jonas Bloch, para se apresentar lá. Imagina! Eu estava no céu, apesar de estar com meus medos. Era aquilo que eu queria. Só que eu não fiz faculdade nenhuma. Depois fiz Vereda da Salvação, com o Maciel, já num papel melhor, e O Inspetor Geral, onde fiz a mulher do inspetor, dirigida primeiro pelo Jonas Bloch e depois a Hayde dirigiu. Nessa época, não sei se eu me engracei com ele ou ele comigo, era um professor da Fundação, que na época era mais aluno do que professor, em 1976, que eu estava no auge e você faz aquelas opções na vida que você não sabe se foram certas ou erradas, mas optei por casar. O cara é músico, é meu marido até hoje, atualmente ele é vice-diretor da UNESP, violonista, Giácomo Battoloni. Casei e a opção foi: Sai! Já viu italiano deixar mulher subir no palco? Não. Aí foi a última coisa que fiz.
Pergunta: Como se chamava o grupo da Fundação?
Resposta:
Tear. Era dirigido pelo Maciel. Vocês se lembram do Maciel, Augusto Maciel? Faz tempo que não o vejo. Era Teatro de Arena, Tear. Era coisa da cabeça dele. Eu era cantora e atriz.
Pergunta: Como era a preparação para os espetáculos?
Resposta:
Era difícil. Os ensaios eram muito longos, assíduos demais. Se você estava trabalhando, porque a maioria do pessoal trabalhava, você saía do trabalho e ia para o ensaio. Em véspera de estréia você ensaiava madrugada adentro. Fim de semana, das nove da manhã até a hora que ninguém tinha mais voz. Era bem estressante. O teatro, você começa primeiro na leitura do texto. Agora deve ser assim, mas na época ele determinava quem ia fazer o papel e às vezes no meio do ensaio eram trocados os personagens porque ele via que aquela pessoa não tinha a característica direito, porque só com o ensaio você consegue ver se a pessoa desenvolve ou não aquele papel. Começavam os ensaios com o texto na mão e nisso já tinha uma pessoa para criar o cenário e outra para o figurino. Isso já ia sendo feito paralelamente. Mas mesmo antes da estréia tinha sempre alguma coisa que faltava, que você tinha de providenciar na hora. Às vezes dava pau, muita briga.
Pergunta: E na época em que você trabalhava na Fundação, o número de mulheres fazendo teatro era grande, eram mais homens?
Resposta:
Eram mais homens. De mulheres tinha eu, a Hayde, uma outra menina, a Bel, que fez O Inspetor Geral, e agora ela não é mais de Santo André, mas ela morou aqui, a Martinha, que cantava, que é irmã da Isabel, a Ester, mas o resto era o Marcão, o Israel, e muitos homens. Mulheres eram cinco. Sabe por que tinha pouca mulher? Porque tinha preconceito.
Pergunta: Qual era?
Resposta:
O preconceito de que para você fazer teatro você tinha de romper com a família. Não romper, mas romper aquela opressão, porque mulher que fazia teatro nessa época não era bem-vista, tanto que se a gente chegasse em Guará e falasse que estávamos fazendo teatro, em 1976, era mal falada. Não podia falar. Tinha de falar que só trabalhava. Agora sim que o pessoal fala da Hayde, que é atriz, porque ela já fez novelas na televisão. Apareceu na televisão, fez novela, está tudo certo. Mas na época a gente era discriminada. Tanto que, não te falei que tive de fazer escolha entre o casamento e o teatro? Meu marido não ia deixar ser artista. E ele era músico. Ainda é. Mas por que ele fez isso? Não foi nem por culpa dele, mas pela família dele. Tanto que quando meu filho nasceu, o Fábio, em 1979, a Hayde foi madrinha, a minha sogra não deixava o Fábio ir lá porque era pessoa do teatro, que rolava droga, isso e aquilo. Eu podia fazer teatro? Não podia.
Pergunta: E qual a justificativa dele?
Resposta:
O que percebi, nem deixei que ele falasse muito, porque acho que ele estava numa situação difícil. Talvez nem fosse da cabeça dele. Talvez não, não foi da cabeça dele. Depois de um tempo, que você amadurece, você percebe. Percebi que ele estava numa saia justa. Ou ele atendia a mãe dele, aquelas italianas bem possessivas... Ele estava querendo casar, mas não queria contraria a mãe e também não queria me contraria. Eu vou parar um tempo e vou ver o que acontece. Esse tempo se dá até hoje. Aí vem filho e o que acontece? Eu trabalhava na Fundação ainda. Quando o Fábio tinha uns 2 anos, eu tinha empregada, mais uma vez ela interferiu, que eu tinha de parar de trabalhar para cuidar do filho. Eu, como já não estava estudando, naquele tempo ele estava terminando a graduação, eu não fui criar problemas porque eu não estava no palco, não estava no lugar que eu gosto e não vou criar problemas e vou me dedicar. Aí virei dondoca. E eu fiquei sempre atrás dele, arrumando concertos para ele. Quer dizer, isso já estava em mim, porque ele sempre tocou, sempre participou de festivais e eu sempre incentivando, sempre orientando. Um belo dia, quando eu queria retomar, engravidei de novo, de gêmeos, em 1983. Sem contar, voltando um pouco a fita, na época em que estava na Fundação trabalhando, já houve um problema porque eu trabalhava na Fundação, no meio dos drogados. Ele estudava lá, fazia aula de violão com Henrique Pinto, mas como eu trabalhava no meio do teatro eu também não servia para casar. Você entendeu o preconceito que nós enfrentamos na época? A gente não podia falar declaradamente que era atriz. A Hayde tentou, porque o Portela, o meu cunhado, deu apoio. Eu já fui mais covarde, me escondi atrás da mesa. Mas não me arrependo. Poderia estar hoje fazendo teatro, mas há uma compensação, porque de uma certa forma, eu fiquei nos bastidores da arte, porque quantas vezes eu não ajudei nos textos, mesmo na correção, porque a minha área é letras?! Ajudei muito meu marido. Meu marido hoje tem doutorado e mestrado e eu que fiquei atrás. Ele fez a história do violão em São Paulo nos anos 20 e a de doutorado dele foi dos anos 40 a 60. Isso tudo eu pesquisei, eu participei. De uma certa forma eu não fiquei parada. Eu não estava à frente, estava atrás, sempre ativa. Aí, com gêmeos, o que você faz? Você grita. E hoje, aos 53 anos de idade, eu retomei. Faço letras, faço inglês e vou voltar ao palco. A Hayde vai montar uma peça, com apenas três papéis femininos, e um deles é meu. O resto é tudo homem. Ela está procurando homens para participar da peça. Está procurando mesmo. E vai ser, não sei se ela vai colocar música ao vivo, mas meu filho trabalha na peça dela.
Pergunta: Os gêmeos são meninos também?
Resposta:
Dois meninos. Só tenho homens em casa. Eles tocam violão também. A arte está no sangue. Apesar de eles fazerem física e serem futuros físicos, eles tocam cavaquinho, tocam violão, tocam clássico, tocam popular.
Pergunta: E voltando um pouco à época da juventude, vocês iam ao cinema, faziam outras formas de lazer?
Resposta:
A gente ia quando sobrava tempo. Quando a gente estava em atividade, com algum espetáculo, não sobrava tempo. Às vezes a gente ia ver algum outro espetáculo numa segunda-feira, porque era muito complicado. Eu vejo até agora o Jonas Bloch em cima da gente: Vamos, pessoal! Não podia atrasar. O negócio, a gente estava num regime militar, mas a gente estava também num regime militar dentro do palco, porque não podia atrasar. Eu acho que o Jonas foi muito legal, muito importante para a gente, porque ele ensinou, de uma certa forma, que se você não tiver disciplina, em qualquer segmento, você não vai à frente, não vai adiante. Você tinha de vir com o texto muito bem trabalhado. Tinha dia que você não estava, como qualquer pessoa, com aquele espírito. Cinema mesmo, a gente ia muito pouco. Engraçado, uma arte puxa a outra, mas mesmo assim a gente não tinha tempo. A gente ia ver, às vezes, algum espetáculo.
Pergunta: O que vocês assistiam em teatro?
Resposta:
Lembro uma vez que fui, não me lembro o nome, que até era em São Paulo.
Pergunta: E no ABC?
Resposta:
No ABC a gente ia ver grupos amadores como o nosso.
Pergunta: Quais?
Resposta:
Eram os que participavam. A gente ia ver por causa dos festivais, quando vinha gente de fora.
Pergunta: E o GTC?
Resposta:
O GTC era triste... Em matéria de participar, participei de três peças importantes Ripião Lacraia, Vereda da Salvação, O Inspetor Geral.
Pergunta: Essas três peças foram em que anos?
Resposta:
Entre 1974 e 1976. Aliás, preciso ver na minha pasta se tenho alguma coisa da época para passar, porque saiu no jornal, no Diário. Eu tinha uma matéria.
Pergunta: Só uma pergunta sobre a Fundação. Você falou sobre alguns professores. E os professores de teatro? Passaram muitos professores de teatro por lá?
Resposta:
Passou o Jonas Bloch, Chico de Assis, que dava aula de construção de texto. Lembro muito do Jonas Bloch, porque teve um tempo em que só ele ficou na Fundação. Aula de interpretação era dada pelo Jonas Bloch, tinha uma professora que dava aulas de técnicas vocais, a Carminha. Ela levava o Ziembinski para dar cursos. Tinha a Rosa Conchita dando expressão corporal, porque você tinha de fazer tudo isso em teatro. Não era só interpretação. Você tinha aulas de expressão corporal, técnica vocal e dramaturgia, onde você tinha de ler o texto. A Carminha levou muita gente boa para a Fundação.
Pergunta: Você trabalhava na Fundação, mas não fez cursos lá?
Resposta:
A Carminha deve ter feito junto com a Hayde, porque a Carminha não atuou como atriz. Ela foi só dos bastidores. Ela que organizava os cursos, levava os grandes nomes do teatro para dar palestras, seminários, e ela participava de todos, só que como atriz ela não entrou no palco.
Pergunta: A sua participação no teatro foi por um convite?
Resposta:
Foi um convite, mas eu já estava fazendo parte daquele grupo. Embora não estivesse atuando, por eu ficar ali com a Hayde eu sabia todo o texto, as marcações. E de repente alguém olhou para mim e falou que eu ia participar, talvez por ter visto que eu tinha alguma coisa, que eu poderia interpretar. Na primeira peça que fiz, Ripião Lacraia, entrei como figurante. E numa dessas, você consegue se sobressair com alguma coisa. Aí me chamaram para fazer as outras, já cantando, compondo.
Pergunta: Você cantava?
Resposta:
Sim.
Pergunta: Canta ainda, em casa?
Resposta:
Canto, porque às vezes eles estão tocando músicas populares, como de Chico Buarque, e eu canto. Eu ainda canto. Por isso que a Hayde falou que eu tinha de voltar ao palco. Agora que eu já despachei todo mundo, eu vou voltar. Ela falou que eu podia cantar. Inclusive a gente vai fazer um curso de dramaturgia do Chico de Assis.
Pergunta: Você disse que na Fundação havia espiões. Você pode falar um pouco disso para a gente?
Resposta:
Eu ouvia o pessoal falar. Não que eu tenha visto algum espião, porque para mim todos eram espiões. Quando eu via uma pessoa diferente, todo mundo falava para tomar cuidado. Quando a gente fazia os ensaios, todo mundo mandava tomar cuidado com o que falava. Eu não estou falando nada demais. Mandaram um espião do DOPS para ver como é a peça. A censura. Olha, amanhã vem o censor, aquela parte vocês não falam. Você quer terror maior que isso, onde você não sabe o que vai acontecer?! E outra, a Fundação tinha, depois de passado o tempo, falavam que lá tinha espião mesmo, porque lá tinha o pessoal que transava drogas, maconha. Era o tal do preconceito. O pessoal era maconheiro, as mulheres não prestavam e ali também era reunião de subversivos, comunistas.
Pergunta: Era verdade isso? Rolava droga e tinham comunistas?
Resposta:
Olha, não posso dizer que era verdade. Pode até ser que seja, que tivesse alguém lá. Que tinha espião, isso tinha. Ninguém sabia quem era; que tinha gente que dedava, tinha.
Pergunta: Numa peça como O Inspetor Geral?
Resposta:
É uma peça super política. Aí que está. Quando vinha a censura, era feita de uma forma. Hoje não é assim, mas na época todas as peças eram assim. Quando chegava o censor, as partes mais politicamente corretas tinham de ser cortadas. Para a censura era uma coisa e para o público era outra.
Pergunta: Com esses cortes não ficava sem sentido o texto?
Resposta:
Você quer saber? Os caras que iam assistir não entendiam coisa nenhuma. É como esses caras do ECAD, que vão cobrar direito autoral. Você fala que essa música é de fulano de tal, que já morreu há 80 anos e você não paga mais direito. Os caras não sabem quem é Bach e quem é Toquinho. Para os caras, tanto fazia o que você estava fazendo. Se o cara ouvisse um palavrão, a gente cortava. Dava o texto sem. Você tinha de ter uma certa... Isso não só na Fundação das Artes, todos os teatros faziam isso.
Pergunta: Tinham cortes que eram em uma palavra, outros eram de uma página inteira?
Resposta:
Página inteira não. Era um pedaço. Normalmente esses censores não entendem nada. Eles conhecem, mas se você aprofundar, eles não sabem.
Pergunta: Eles eram policiais?
Resposta:
Era gente comum.
Pergunta: Gente contratada pela polícia?
Resposta:
O censor, quando ele vem ver você, é alguém do governo, para ver se a peça está apta a passar ao público, se ela não tem nada de indecente. Até hoje é isso. Antes de estrear um espetáculo, vai um censor para saber até que idade ela pode ser assistida.
Pergunta: Para fazer a classificação?
Resposta:
Ele vai ver qual a classificação da peça, do filme. Normalmente o censor vai. É uma pessoa comum, como qualquer um de nós, que entra lá, assiste.
Pergunta: Só que hoje eles não podem cortar?
Resposta:
Exatamente. Na época eles cortaram. E na estréia vinha alguém para ver. Você tinha de tomar muito cuidado. Chega o cara e leva todo mundo preso, até você provar que não tem nada a ver com aquilo, já foi. O censor era uma pessoa comum. Você tinha de pesquisar, porque às vezes ele entrava até disfarçado. Em 1970, para a arte em geral, para teatro, para música, vocês se lembram do caso do Chico, do pessoal que foi exilado, tiveram as músicas cortadas. Hoje eu tenho consciência disso. Na época, eu vinha de uma cidade e quantas pessoas como eu não tinham consciência do que estava acontecendo no país?! Eu estava aqui e tive uma chance de ver. Agora, as pessoas... Na televisão passava o que eles queriam passar. Você chega numa cidade do interior e os caras elogiam essa época.
Pergunta: Tirando a censura, economicamente o país era melhor?
Resposta:
Não fez nada. Estamos pagando até hoje pela ditadura. Tem aí meia dúzia de ricos. Nós estamos pagando até hoje pela ditadura. O que foi a ditadura? Foi a opressão. Embora, muita gente ache que foi boa, mas não foi. Agora que para o país... Foi um retrocesso para o país. A economia cresceu para meia dúzia de pessoas. O pobre continua pobre. Nós estamos pagando até hoje, porque nós temos uma invasão americana. Nós saímos dos portugueses, caímos nos ingleses e depois caímos nos americanos. O que o Brasil ganhou com isso?
Pergunta: No teatro vocês produziam os figurinos?
Resposta:
Tudo. Era tudo dividido. Às vezes a gente arrumava alguém que cedia alguma coisa, mas era tudo feito com muito sacrifício, porque ninguém queria investir em teatro amador.
Pergunta: Não existia patrocínio?
Resposta:
Não. Às vezes um ou outro amigo de não sei quem soltava o pano e a costureira para fazer o figurino, mas normalmente você arcava com tudo. Conheço fulano que pode fazer essa mesa. Era tudo feito com muito sacrifício. Os espetáculos da Fundação das Artes, a Fundação tinha cenários às vezes, mas nós que fazíamos fora, você tinha de arcar. Às vezes você pedia emprestado. Essa época foi muito boa para revelar grandes talentos, em qualquer área. A Fundação das Artes foi o palco disso, porque dali saíram grandes pessoas. Grandes atores, grandes músicos, mas era muito difícil. Era visto com maus olhos. A mulher que fazia teatro não prestava. Talvez essa seja uma das razões por que eu tenha optado pelo casamento. Não sei se valeu a pena. Quem sabe, hoje, eu não seria uma excelente atriz ou cantora. Valeu pelos meus filhos. Você criar quatro homens não é fácil também. É um desafio, esse desafio eu já venci. Por isso que agora eu falei, com marido encaminhado, filhos encaminhados, todo mundo, eu vou cuidar de mim. Talvez eu queira jogar para fora a artista que tenho aqui dentro. E estou na idade boa, porque agora está tudo liberado. Não tenho de dar satisfação a ninguém. Você pode falar tudo que quiser sem ter medo de nada, porque você já passou por tudo.
Pergunta: Como você vê, independente da sua história, a atuação das mulheres no teatro?
Resposta:
Eram poucas.
Pergunta: Como foi a atuação social?
Resposta:
As que conseguiram romper o casulo do preconceito, essas que realmente falaram: Vamos lá porque é isso que eu quero!, essas contribuíram muito para o ABC. Hoje você olha uma Cássia Kiss, esse pessoal que chegou lá, você fala que é da região, que estudou na Fundação. Seria como a Sônia Guedes. O pessoal, quando vêem, sente orgulho. A contribuição foi muito grande. Mesmo a Hayde, quando estava na televisão, lá no interior, o pessoal conhece São Caetano, o ABC, por causa da Hayde. Gente que nunca veio para cá conhece por causa do currículo dela, por causa da peça que ela levou lá. É importante. Eu acho que, apesar de todas as dificuldades, o que sobrou foi positivo para a nossa região, porque achei que não ia sobrar nenhuma, pelas dificuldades. A Cássia Kiss foi malhada para caramba.
Pergunta: Pela atuação ou por ser mulher?
Resposta:
Por ser mulher. A atuação é outro departamento. Mas por ser mulher. Para a mulher chegar lá em cima ela tem de conchavar com aquele, com aquele. A mulher não tem capacidade. Por que só homem pode chegar lá em cima? Por que a mulher, para escalar, chegar lá em cima, tem de se violentar? Não. Hoje em dia, graças a Deus, não tem mais isso, mas na época era assim. Você subia um degrau no teatro, nas artes, quem será que empurrou? Eu falei para a Hayde que ela não estava na Globo porque ela não quis. Para ela não interessa, isso é muito importante, mas interessa fazer teatro, cara a cara com o povo, e não ser maquiada, para passar aquela imagem para o povo, porque a televisão é uma imagem maquiada. Você encarar o público, tem de ter coragem, e muita coragem. Essa é a minha vida.
Pergunta: A gente gosta de terminar a entrevista pedindo para o depoente deixar uma mensagem final. O que você gostaria de falar, sobre o teatro, sobre a sua vida?
Resposta:
Quero falar que as pessoas que possam vir a ter um sonho, que seja nas artes, na vida particular, no teatro, na televisão, ou em qualquer uma das profissões, e que por algum motivo tenham de mudar de rumo, desviar um pouco do caminho onde ela gostaria de chegar, que não desviem muito, não desistam. Volte para ele, porque nunca é tarde para você mostrar o que realmente você é, se é realmente aquilo que você sonhou. Não importa a idade. Estou com 53 anos, voltando a estudar e pensando em ser atriz. E um dia vocês ainda vão lá e vão me ver atuando, realizando um sonho que um dia eu comecei, mas que interrompi. Interrompi por uma nobre causa, mas nunca desistam; nenhum de vocês. Vá pela cabeça e pelo sonho, porque, por mais difícil que seja, vale a pena.