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Marta Wachtler nasceu em Kaunas, Lituânia, mas é naturalizada brasileira. Imigrou para o Brasil ainda na infância com seus pais e irmãos, Vilius Raciunas e Amalija Raciunas. Ainda pequena, morou em Caxambu, no Estado de Minas Gerais e em Caieiras e Jundiaí, no Estado de São Paulo, até se estabelecer em São Caetano do Sul na época da vida escolar. Estudou até o 5º ano na Johannes Keller Schule, escola alemã localizada no bairro Santa Paula na cidade de São Caetano do Sul. Trabalhou como cabelereira e manicure até se casar. Conheceu Carlos Wachtler, seu marido, ainda na época em que estudavam na escola alemã. Marta e o ferramenteiro Carlos tiveram 4 filhos. Marta tem recordações das situações pelas quais passaram sua família e outros imigrantes na época da chegada ao Brasil, dos costumes dos imigrantes germânicos no ABC, como suas confraternizações em clubes e escolas e a preservação da língua alemã no seio familiar. Conta ainda histórias do serviço militar de seu pai na Rússia, da 2ª Guerra Mundial e da crise financeira durante a ditadura militar.
Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias
Depoimento de Marta Wachtler, 86 anos
São Caetano do Sul, 11 de dezembro de 2008
Pesquisadoras: Mariana Lins Prado e Priscila Perazzo
Equipe técnica: Felipe Dessico
Transcritora: Mariana Lins Prado
Pergunta: Dona Marta, por favor. É... Local e data de nascimento.
Resposta: Eu nasci na Lituânia, na capital chamada Kaunas, dia 29 de dezembro de 1922.
Pergunta: Conta um pouquinho da sua infância lá.
Resposta: Eu vim com três anos, eu não lembro nada, eu lembro apenas uma passagem do navio e só.
Pergunta: Quantos irmãos?
Resposta: Nós éramos em seis, seis irmãos.
Pergunta: Quando vieram pra cá?
Resposta: Quatro irmãos e duas irmãs.
Pergunta: Fala um pouquinho da família, do pai, da mãe, dos irmãos.
Resposta: Bom, minha família morava na, na Lituânia, numa grande colônia alemã, eles são descendentes da Prússia, da Alemanha, né. Mas eles são nascidos na Lituânia. E... E moravam lá e quando veio a guerra, meu pai foi, teve que ir na guerra mas é do lado dos russos, né.
Pergunta: Qual guerra?
Resposta: De 18 [1918] lá. E a minha mãe, com cinco crianças, antes de eu nascer, ela acompanhou meu pai durante a guerra lá na Rússia. Foram até o mar Cáspio, até lá, com crianças. E depois voltaram, quando terminou a guerra, voltaram, voltaram pra Lituânia. Papai recebeu um posto na Lituânia numa fortificação que era em volta da capital. Mas com as fortificações já abandonadas, não é, pra tudo. E na escola, meus irmãos como iam na escola alemã, lá na Lituânia mesmo, escola alemã e... Aí lá receberam jornais que no Brasil estavam recebendo imigrantes. E como meu pai tinha começado a vida de novo, né, então ele falou “vamos começar então no Brasil, em vez de começar aqui, vamos começar no Brasil. Vamos tudo na imigração e vamos pro Brasil”.
Pergunta: Seu pai era militar?
Resposta: Ele era, não, meu pai era soldado, né. Foi, intimado a ir durante a guerra, né.
Pergunta: E sabe antes da guerra no que que ele trabalhava?
Resposta: Não, meu pai era marceneiro. Marceneiro. Mas assim, a vida dele antes do Brasil, eu sei pouco. Porque eu nasci depois. Na volta, quando eles voltaram pra Lituânia, nasci eu. E aí eu vim com três anos. Quer dizer, passei toda a minha infância aqui no Brasil.
Pergunta: Então o seu pai, a sua família veio pro Brasil, motivado pelas informações que tiveram...
Resposta: Que tiveram na Imigração. Que davam, que era o trabalho nas fazendas, que davam uma vaquinha, davam terrenos pra cultivar e tudo, então meu pai veio. Mas quando ele chegou...
Pergunta: Chegou onde? Em Santos?
Resposta: Chegou em Santos. É, de Santos vieram pra São Paulo, na Imigração de São Paulo, e daí foram transferidos pra Caxambu. Caxambu tem uma fazenda grande e eles foram pra lá.
Pergunta: Esse Caxambu é Minas?
Resposta: É. É, por aí... Minas, São Paulo, não sei. E ficaram uma temporada, mas como os donos da fazenda não pagavam em dinheiro, era, tudo tinha que ser comprado na venda e tinha marcado na caderneta, nunca sobrava dinheiro, eles sempre tavam devendo. Então meu pai falou “Não, eu não tô acostumado com isso, eu tô acostumado com dinheiro na mão, eu não quero assim”. Aí eles, ele não concordou, então meu pai saiu. Saíram da fazenda, vieram de volta pra Imigração na Mooca, né. E lá eles anunciaram, disse que tinha uma família que precisava de um lugar, né, aí veio a... Os Weiszflog, da Companhia Melhoramentos de São Paulo, que eles tinham uma casa de campo e uma fábrica em Caieiras, aí eles levaram minha família como... Como administrador da chácara, né. Como é que fala? Não é administrador. É... Esqueci agora o nome.
Pergunta: Cuidava lá da propriedade.
Resposta: É, pra, pra... Caseiro, caseiro. Pra serem os caseiros lá da chácara em Caieiras. Então eles ficaram lá, e ficaram uma porção de tempo até a minha irmã mais velha que casou-se, né. Ela conheceu um moço de Jundiaí, e casaram, e ela mudou pra Jundiaí. Aí a minha família resolveram mudar pra Jundiaí. Aí deixaram Caieiras e foram pra Jundiaí. Lá foram trabalhar numa fábrica de louça grande que tinha lá, e tudo trabalhou lá.
Pergunta: Quem trabalhou lá? Seu pai?
Resposta: Meu pai, meu irmão mais velho. Né, meu cunhado...
Pergunta: E a senhora já tinha quantos anos nessa época?
Resposta: Ah, eu tinha quanto? Seis anos?
Pergunta: A senhora lembra desse ir e vir?
Resposta: Eu lembro um pouquinho da casa de Jundiaí, um pouquinho, né. E depois de lá viemos, eles souberam que aqui em São Caetano tavam construindo a General Motors, né, e tinha bastante serviço pra marceneiro, pra coisas assim, então eles resolveram vir pra cá. Vieram pra cá e com a economia que meu pai tinha, eles compraram terreno e fizeram uma casa.
Pergunta: E foram morar onde?
Resposta: Na rua São Paulo, aqui em São Caetano. Logo que chegaram, foram pra rua São Paulo. E... Mudamos na casa, ainda tava toda crua, tudo ainda né, mas mudaram pra cá e ficamos aqui em São Caetano. Depois daqui que eu fui na Escola Alemã aqui em São Caetano, aí que comecei a ir pra escola, porque aí eu tinha uns oito anos, mais de oito anos. Porque durante a crise de 32 [1932], num sei, minha família, os homens da minha família, foram, eles souberam que o Brasil, é, o país tava dando os terrenos lá na Ribeira de Iguape, lá perto de Iguape, então eles foram lá e era mata virgem, né. Eles fizeram o sítio lá na mata virgem mas era muito, muito longe do trem e das pra transportar arroz e as coisas que eles plantavam, então desistiram, né. Fecharam tudo e saíram. Saíram e voltaram pra São Caetano. Nós tínhamos a casa em São Caetano, minhas irmãs já trabalhavam em São Paulo, eu ia na escola.
Pergunta: E o seu pai veio trabalhar em que aqui em São Caetano? Na fábrica da GM?
Resposta: Ele trabalhou um tempo na GM, depois saiu, depois ele trabalhou na Ferro Lanner, que era uma fábrica aí, americana, e depois ele faleceu, durante o serviço, né. Ele morreu com sessenta e poucos anos. E nós ficamos aqui em São Caetano. Eu continuei indo na escola, né, até o quinto ano, e depois resolvemos ir trabalhar.
Pergunta: Quando o seu pai faleceu, é, quem sustentou a casa? Os irmãos?
Resposta: As irmãs, os irmãos, né. Tudo as irmãs e os irmãos.
Pergunta: Porque a senhora só estudava.
Resposta: Eu só estudava.
Pergunta: E os outros, não estudaram?
Resposta: Estudaram na Europa, aqui no Brasil não. Só na Europa, que eles foram lá na escola alemã lá na Lituânia, eles tavam na escola alemã. E aqui não continuaram o estudo porque precisava trabalhar, né. Sustentar a casa, a família...
Pergunta: Então a senhora aprendeu fácil o português, porque chegou pequena.
Resposta: Ah, eu aprendi fácil, porque desde pequena, né...
Pergunta: E em casa, como era?
Resposta: Ah, em casa falávamos só alemão. Minha mãe só falava alemão, meu pai, alemão...
Pergunta: E havia algum preconceito das pessoas quando ouviam vocês falarem alemão?
Resposta: Não, não... Nós tínhamos amizades com todas pessoas. Lá onde nós morávamos tinha muitos estrangeiros, tinha russos, tinha poloneses, tinha lituanos. Então a gente se entendia com todos, não tinha esses preconceitos, de raça, de coisa, de Alemanha, porque sempre o alemão é considerado ruim, e tal, mas é o contrário. A gente é tudo, a gente se dava bem com todos.
Pergunta: Dona Marta, conta um pouquinho pra nós da, das, da família, do ritual aqui no Brasil, do Natal, de festas, tinha isso?
Resposta: Tinha, nós tínhamos festas...
Pergunta: Fala um pouquinho de aniversário e de Natal.
Resposta: Bom, aniversário não se festejava muito, porque ah... Não era muito, não se tinha muito dinheiro pra isso. Então eu sei que eu, as minhas irmãs, eu nem me lembro quando festejaram aniversário. O meu aniversário eu só festejei com dezoito anos. Quando eu fiz dezoito anos, aí fizemos uma festinha. Convidamos rapazes, moças, e tínhamos uma vitrola... E assim, foi uma festinha animada. E assim, às vezes, é, às vezes durante a escola, quando eu ia na escola, que reunia as amigas, né. A gente ia em casa, fazia um bolinho, as amigas, e só. Mas uma festinha mesmo foi só com dezoito anos. [risos]
Pergunta: E como era comemorado o Natal na sua casa?
Resposta: O Natal... Nós tínhamos... Bom, eu sou luterana, né. Evangélica luterana. Então nós tínhamos o costume sempre, todos os domingos que não se ia na missa, o meu pai ia na Bíblia, lia um trecho da Bíblia e nós cantávamos hinos de igreja, e meu pai fazia um pequeno sermão em casa, mesmo, com toda a família reunida.
Pergunta: A senhora sabe alguma música desse período?
Resposta: Ah, a gente conhece o que canta na igreja.
Pergunta: Mas da época?
Resposta: Da época, ainda até hoje cantam...
Pergunta: Canta um pedacinho pra gente.
Resposta: Ah, eu não sei cantar, eu não tenho voz pra cantar! E na escola alemã fazíamos muita festa de Natal, com presépio, a cena de Jesus, nascimento de Jesus e tudo, mas participávamos todos os alunos da festa de natal, representávamos no palco...
Pergunta: E havia ceia?
Resposta: Ahn?
Pergunta: Havia ceia?
Resposta: Não, não tinha grande ceia.
Pergunta: O que se comia no dia de Natal?
Resposta: Não, fazia uma coisa diferente de todos os dias, mas não era uma coisa assim, muito... Bom, fazíamos assim muito pão de frutas, né, que era o principal pra festejar o Natal! Pão de frutas que é um bolo com bastantes frutas, variadas, né, assim, frutas secas. E... Sinceramente, era um pernil, e um pato recheado. Pato, naquela época, nós tínhamos em casa criação de patos, né.
Pergunta: Tinha quintal, a casa?
Resposta: Tinha quintal, tinha, minha mãe tinha quintal.
Pergunta: E o que mais tinha no quintal, além de pato?
Resposta: Tinha uma árvore de frutas, tinha pêssego, tinha uma fruta que chamava lichavo (?), que é que nem uma cerejinha, assim brasileira, tínhamos uma enorme árvore, isso dava bastante, a gente fazia geleia, geleia, essas coisas. E tinha pato, galinhas, patos... Patos, minha mãe, além da carne, ainda aproveitávamos as penas e penugem pra fazer cobertor... Como tem agora esses edredons, nós fazíamos com penugem de pato. [risos]
Pergunta: E a culinária da sua mãe, quando vocês chegaram ao Brasil, assim da sua infância?
Resposta: Bom, minha mãe fazia mais o tipo estrangeiro, né, fazia mais... Mas depois também acostumou a fazer o feijão e o arroz.
Pergunta: O que que era comida estrangeira pra senhora?
Resposta: Tinha de tudo... Mamãe fazia, fazia por exemplo o, o que eles fala? Aquele charuto, o repolho enrolado, fazíamos, é... Como é que fala esses? Raviolis? Só que é com ricota dentro. Ravioli de ricota, ravioli de carne, raviolis, pastéis. Ih, uma porção de variedades, né. Tinha bastante, minha mãe cozinhava bem, ela fazia tudo que era novidades.
Pergunta: Fala um pouquinho desse bairro, qual era esse bairro de São Caetano quando vocês vieram?
Resposta: Não, São Caetano tinha pouca casa. Eu morava na rua São Paulo, tínhamos que ir a pé até na Vila Paula, onde era nossa escola, é na... Onde fica o Teuto, era a escola alemã. É na rua Piauí. Íamos a pé até lá e tinha pouca casa. Depois começou a fazer mais...
Pergunta: Tinha energia elétrica?
Resposta: Ahn?
Pergunta: Tinha energia elétrica?
Resposta: Depois de um ano, no começo não. Ficamos acho que uns dois anos sem energia elétrica. Depois veio a elétrica.
Pergunta: E a água era encanada?
Resposta: Água de poço. Água de poço, era tudo água de poço. Mais tarde veio a água. Até quando eu casei, em 1947, eu vim morar aqui na Barcelona, aí na rua Flórida, ainda não tinha luz elétrica, água encanada. Não tinha nada aqui, nada, nada, nada, nada. Era tudo mato, pasto. Tudo! Tinha nada. Era um lugar alto, bonito. A gente gostava, se via tudo, toda Utinga, ali, tudo. Ficamos também dois... Mais de dois, quase quatro anos sem luz. Depois é que reunimos, pagamos um poste pra puxar a luz até minha casa. Só depois.
Pergunta: Aqui no Brasil, depois, com uns oito anos, nove anos, a senhora já brincava um pouquinho.
Resposta: Ah, sim! Eu tinha as minhas amiguinhas...
Pergunta: Brincava aonde? Em que rua? Quem eram as amiguinhas, eram de outras nacionalidades?
Resposta: Ah, eu tinha amigas espanholas, que moravam na rua Rio de Janeiro, que eu morava na rua São Paulo, atrás era a rua Rio de Janeiro, e minhas amiguinhas que moravam lá eram todas filhas de espanhóis. E tinham outras que moravam na [rua] Osvaldo Cruz, que era lá por perto, eram portuguesas. [risos]
Pergunta: Então era uma mistura.
Resposta: Era uma mistura!
Pergunta: E se entendiam como? Todas falavam português.
Resposta: Ah, falavam brasileiro, é, a gente se entendia, tudo bem. Brincávamos e sempre juntas, como todas.
Pergunta: E ninguém punha apelido?
Resposta: Ah, e tinha minhas amigas, tinha várias também. Tinha as minhas amigas da escola, que eram descendentes de alemães, que eram iugoslavos, e húngaros, e tudo. E tinha esses, amigos espanhóis, tinha amigas portuguesas e tudo, e tinha de toda raça! Russa, eu tinha amiga russa, minha amiguinha era russa. Até aprendi um pouco a falar russo, que eu vivia na casa deles, e eles na minha casa, elas aprenderam alemão e eu russo, porque os pais dela falavam só russo, e os meus pais só falavam alemão. Então quando ia na casa do outro, a gente acabava aprendendo a língua deles, né.
Pergunta: E brincavam de quê?
Resposta: Ah, de tudo! De corda, pular corda, esconde-esconde, ah, tantas...
Pergunta: Tudo na rua?
Resposta: Tudo na rua, é, brincávamos na rua, porque não tinha movimento... Ficava bem, umas noites bonitas, até dez horas ficávamos... Os pais sentavam tudo nas portas das casas, dos quintais, ficava tudo ali e a gente ficava brincando na rua.
Pergunta: E os pais, tantos pais de nacionalidades diferentes, eles se conversavam?
Resposta: Conversavam! Conversavam, eles ficavam conversando...
Pergunta: Misturavam a língua?
Resposta: Misturavam! [risos] Conversavam muito, é, é...
Pergunta: Conta um pouquinho da escola da senhora, essa escola dos alemães que a senhora foi.
Resposta: Bom, a escola era... Eu gostava de ir na escola, lógico, né. E nós tínhamos aula de português e tinha aula de alemão. A gramática, a aritmética era a mesma coisa, né. Não tinha essa divisão. Mas a gramática, a história, tudo, tinha a parte brasileira e a parte alemã. Nós tínhamos aula das sete e meia até o primeiro recreio, que era acho que quase dez hora, era aula de alemão. Depois tinha aula de brasileiro, até o meio dia, tinha brasileiro. E depois nós íamos pra casa e às três horas voltávamos, às três horas, que tinha aula de canto, outro dia tinha de ginástica, outro dia tinha é... Como é que se fala? Não sei como é que se fala aqui em português, mas era caligrafia. Caligrafia, pra escrever bonito. [risos] Tínhamos aula de caligrafia, aula de trabalhos manuais, bastante bordados, as meninas, e aula de música. Aprendia violino, aprendia órgão.
Pergunta: Todas as tardes voltaram?
Resposta: Todas as tardes tínhamos voltando às três [horas]. Só aos sábados que não. Voltávamos às três, às quatro, às cinco. E tínhamos a lição em casa, né.
Pergunta: Havia mais professores alemães ou brasileiros?
Resposta: Tinha mais alemães. Mais alemães, mas tinha duas professores portuguesas que ensinavam a parte portuguesa.
Pergunta: E como é que era a disciplina lá?
Resposta: Era rígida, não podia a pessoa abusar muito, não! [risos] Se na rua moleques, sempre mais meninos, fumavam, ou faziam asneiras, é... Jogavam pedras assim na janela, quando ia na escolas eles levavam umas “chicotadinhas” com uma varinha de marmelo! Mesmo sendo na rua, não só dentro da escola, isso na escola fazia também.
Pergunta: E quem contava aos professores?
Resposta: Ah! Sempre tem alguém que conta, né! [risos] Os próprios alunos “Ah, você fez isso, você fez aquilo!”
Pergunta: E eram classes mistas ou eram separadas?
Resposta: Eram mistas, mistas.
Pergunta: E havia mais homens ou mais mulheres na sala?
Resposta: Mais homens. Mais meninos, né. Meninas tinha menos.
Pergunta: E que castigos os professores davam pros alunos?
Resposta: Olha, castigos assim de escrever muitas vezes não eram tanto porque diz que só azara a letra. Escrever cem vezes, que diz que tinha costume de... Mas tinha o seguinte: tinha um menino que era muito danado, né. E ele aprontava muito, então tinha que ficar de pé na frente, né, o castigo era ficar de frente, no canto, parado. E o diretor entrou, da escola, né, e falou: “O quê? Você já tá outra vez aqui nesse canto, né”, falou pra ele, e o menino fez assim com o ombro, né. Ah, ele levou um tapa na cara. Na hora, na hora. Que isso é falta de respeito, né. Mas olha, ele nunca mais foi pro canto. Depois melhorou, melhorou bem o rapaz! E esse era o castigo, ele era na hora castigado, né.
Pergunta: O diretor era alemão também?
Resposta: Austríaco.
Pergunta: Austríaco, austríaco.
Resposta: É, falava alemão também. Alemão, austríaco, é a mesma língua, né.
Pergunta: A senhora ficou na escola até ela fechar, ou saiu antes?
Resposta: Não, eu saí antes. Eu fui só até o quinto ano, aí eu já tinha quatorze anos e aí minha mãe achou que eu devia trabalhar. [risos]
Pergunta: E a senhora lembra o que aconteceu com a escola?
Resposta: Ahn?
Pergunta: A senhora lembra o que aconteceu com a escola?
Resposta: A escola depois, com o nazismo na Alemanha, então começou a achar que também... Aí não queriam mais a diretoria alemã, porque era um diretor suíço, o nosso diretor, o fundador da escola, né. O diretor, é, de todo dia, era austríaco, mas o fundador mesmo era o suíço. E depois tinha que ter uma diretoria brasileira, pra ser, pra continuar a escola. E não achamos quem queria ser diretor da escola alemã. E ficou então. Ficamos, aí ficou, porque nós tínhamos o grêmio da escola, né, lá no Teuto, era o grêmio da escola, e ficou pro grêmio a, o grêmio ficou depois fazendo festas assim, de fim de semana e fechou a escola.
Pergunta: E vocês estudavam religião ou política na escola?
Resposta: Também, religião. Não, política não. Mas religião, sim. Nós tínhamos religião, aulas de religião também, tinha a católica e tinha a evangélica luterana, né.
Pergunta: Essa escola era paga?
Resposta: Paga, era paga.
Pergunta: Mais ou menos quanto assim do orçamento da família?
Resposta: Olha, eu sei que a minha mãe falava assim que era dez mil réis por mês e era pesado, mas ela, todo mundo fazia uma força e pagava. Dez mil réis, logo no começo, quando abriu a escola. Depois não sei.
Pergunta: Tinha muitos alunos?
Resposta: Tinha, tinha bastante. Tinha bastante.
Pergunta: Quantas salas, assim?
Resposta: Bom, tinha a sala primária, era uma sala cheia, uma sala grande.
Pergunta: Uma só?
Resposta: Uma de primário. Depois, no meio, tinha o segundo, o terceiro e quarto ano, era uma sala do meio que terceiro e quarto ano era na mesma classe, na mesma sala. E depois tinha quinta, sexto e sétimo e oitava era uma outra classe do outro lado... Quer dizer, era do mesmo lado, só que a porta entrava-se pelo outro lado. Tinha três classes grandes com, cheias com alunos. Mas era assim, quinto, sexto, sétimo e oitavo ano era numa classe. Porque tinha poucos alunos. Quando eu fui na escola, só tiraram diploma duas moças, três moças e dois ou três rapazes, que tiraram o oitavo ano, né, que acabaram a escola. E os outros, depois, não chegaram a completar os oito anos porque, com essa guerra do nazismo na Alemanha, ficou tudo atrapalhado e fecharam. Eu saí no quinto ano, e tinha meninas que saíram no sétimo ano e acabou a escola. Lá no museu daqui de São Caetano mostrou uma vez, toda a escola, os alunos e todos, né.
Pergunta: Foi dali que a gente começou nossa pesquisa. E agora só um minutinho, que nós vamos desligar a câmera aqui.
[pausa]
Pergunta: Continuando? Então a senhora pode me contar essa parte das festas que a senhora tava contando?
Resposta: Ah, as escolas se reuniam. A de Santo André, Vila Mariana, São Paulo e a de São Caetano, tudo no clube Germânico, chamava. É o clube Pinheiros, agora, não é? E faziam a comemoração do primeiro de maio, né, com ginásticas, e coisas folclóricas e... Os alunos iam tudo lá.
Pergunta: Vocês cantavam cânticos também em alemão?
Resposta: Cânticos também, alemães, também.
Pergunta: Nessa vocês tinham que fazer algum ritual? Nazista? Nessa época do Hitler?
Resposta: Não.
Pergunta: “Heil, Hitler”, essas coisas?
Resposta: Algumas escolas talvez faziam. Na escola alemã eram poucos que tinha essa mania, né. Não eram todos que eram a favor ao nazismo na escola, não é, não era obrigado a fazer.
Pergunta: Então mesmo quem não fosse a favor, não era obrigado a fazer?
Resposta: Não era obrigado a fazer.
Pergunta: A senhora fez alguma vez?
Resposta: Eu fui na Juventude Hitlerista, que eles falam, por causa que não tinha escoteiro pra menina aqui, brasileiros, só tinha escoteiros meninos. E lá, como eles acampavam, as meninas acampavam, eles faziam assim, retiradas, assim, nas florestas, assim fora, né, acampamentos e tudo, então eu participei por causa dos acampamentos. Mas de política, a gente não entendia nada, a gente não entendia nada e nem interessava, né. Interessavam os jogos, e os acampamentos, e as diversões, né. E só isso.
Pergunta: E o material didático, Dona Marta? Qual era o material que vocês recebiam nas escolas?
Resposta: Nós recebíamos do Rio Grande do Sul. Companhia, espera, Companhia... Agora esqueci o nome, tava lembrando até agora. Acho que era Dortmund, num sei como é que era. E eles mandavam os livros pra nossa escola, livro de leitura, de Geografia, História. Todos esses livros eram do Rio Grande do Sul.
Pergunta: Esses dessa livraria, eram em alemão. Ou em português também?
Resposta: Em português também. Português, alemão e português. Eram de lá os livros. Porque tinha uns livros com a História Brasil, né, com a História brasileira, e tinha a História universal, da guerra, Alemanha, os outros países, tudo, era em alemão. E a História brasileira era em português. E tinha livros, tinha de, como é que fala? De cultura natural. Nós tínhamos aulas também de... Alemão chama Natur, quando cresce o trigo, e o milho, e essas aulas.
Pergunta: Agricultura?
Resposta: Agricultura e isso tudo, essas aulas nós tínhamos também. E... E vinha os livros tudo do Sul. Passava de uma geração pra outra, de uns alunos pra outros. As minhas sobrinhas que foram mais tarde na escola usaram todos os meus livros, porque não traziam outros, eram sempre os livros que se usavam na escola, eram sempre os mesmos, né.
Pergunta: E a senhora pagava, o seu pai comprava por esses livros?
Resposta: Pagava, a gente comprava os livros na escola, pagava-se o livro na escola.
Pergunta: Depois doava-se pra escola...
Resposta: E doava, doava pra escola não, doava pros parentes que iam na escola. Dava pra amigos, parentes que freqüentavam a escola. Precisavam do livro, a gente dava. Aí, eles não precisavam comprar, porque eram os mesmos livros que usava, né. Era sempre prático, de um ia pro outro.
LADO B
Resposta: Porque foi quando a minha irmã abriu um salão de cabeleireiro, eu fui trabalhar de cabeleireira, manicure.
Pergunta: E a senhora tinha prática nisso, já sabia?
Resposta: Não, eu aprendi com a minha irmã, né. [risos] Aprendi na família. E depois fiquei trabalhando em São Paulo, na Casa Cossato, que era uma das mais, melhores de São Paulo, cabeleireiros, né. Trabalhei lá. Até depois, mudamos pra, que os cabeleireiros da Cossato abriram o salão particular deles e eu, nós nos mudamos pra lá. Era o Rorijan, e daí, até eu casei, depois larguei de trabalhar.
Pergunta: Com quantos anos?
Resposta: Ahn?
Pergunta: Com quantos anos a senhora casou?
Resposta: Quase vinte e cinco. Eu ia fazer vinte e cinco. Em 47 [1947] eu casei.
Pergunta: Conta pra mim assim, a senhora diz que as suas irmãs, algumas foram morar em São Paulo, também. Era nesse cabeleireiro?
Resposta: Primeiro elas quando vieram pro Brasil ficaram, trabalharam de empregada e babá. Mais babá pras crianças, né. Tomar conta de criança.
Pergunta: Em São Paulo?
Resposta: Em São Paulo. Tudo em São Paulo. Depois, com a crise, que nós tínhamos quase que vender a nossa casa, uma das minhas irmãs foi aprender cabeleireira. Ela falou “Ah, esse negócio de empregada, babá, não dá.” Então ela aprendeu cabeleireiro, ela foi numa escola de cabeleireiros, aprendeu e foi trabalhar num salão alemão também, com alemães. Salão Colônia, na Consolação. Era ali, (?), chamava o salão de cabeleireiro. E depois ela mudou pra um outro salão, aí eu completei já quatorze anos, quase quinze, aí eu fui trabalhar de ajudante nesse salão, com quinze anos. E ela depois me ensinou a manicure e depois, aí ela abriu um salão por conta dela, ela e o marido, né, aí eu fui trabalhar com ela.
Pergunta: Em São Paulo?
Resposta: Em São Paulo, na Consolação. Lá em cima, na Consolação. Trabalhei vários anos, depois eu saí, foi pro Cossato, na Barão (?), e lá no Rorijam, que é na República, na Praça da República. E depois, quando eu casei, fiquei em casa.
Pergunta: Antes dos casamentos dos irmãos da senhora, todos trabalhavam. Havia necessidade. Como que era o dinheiro? Pra quem ia o dinheiro?
Resposta: Juntava pra casa, ia pros pais, né.
Pergunta: Quem que gerenciava o dinheiro?
Resposta: Os pais, os pais, minha mãe e meu pai gerenciava o dinheiro. Tudo bem.
Pergunta: Chegava no final do mês, que que fazia?
Resposta: Entregava o dinheiro, cada um ganhava uma parte. Os meus irmãos, os homens, eles faziam as