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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Maria Amélia Ferreira Perazzo

  • Nome: Maria Amélia Ferreira Perazzo
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 15/04/1940
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Santo André (SP)
  • Profissão: Professora

Biografia

Maria Amélia Ferreira Perazzo nasceu e viveu a vida toda em Santo André. Estudou no Externato Padre Capra (atual Instituto Coração de Jesus), no centro da cidade. Era filha do médico Dr. Floriano de Paula Ferreira e da professora primária Ary de Souza Ferreira. Cursou o magistério e fez o curso superior em Pedagogia. Trabalhou por 51 anos na educaçlão de Santo André. Casou-se com Cleonísio Vicente Perazzo em 1966 e teve 3 filhos.



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Transcrição do depoimento de Maria Amélia Ferreira Perazzo em 8 de julho de 2003

IMES - CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


Projeto Memórias do ABC


Depoimento de MARIA AMÉLIA FERREIRA PERAZZO, 63 anos.
IMES - Centro Universitário de São Caetano do Sul, 8 de julho de 2003.
Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Daniela Macedo da Silva.


Pergunta:
Pode começar dizendo, data de nascimento, onde nasceu e conte um pouco de sua infância.

Resposta:
Eu nasci em Santo André, em 15 de abril de 1940. Vivi toda a minha vida em Santo André, onde passei minha infância, no centro, porque morei sempre no centro de Santo André, próximo da catedral. Estudei no colégio, na época chamava Externato Coração de Jesus, que também era ali no centro, então a minha vida foi sempre no centro de Santo André. A minha infância foi como a infância das pessoas da época. Santo André era uma cidade pequena e, guardadas as devidas proporções, era como é hoje: cidade pequena, próxima a São Paulo, com suas vantagens e desvantagens. Havia poucos carros naquela época, a gente brincava muito no largo da igreja, brincava de casinha na escadaria da igreja. Às vezes o padre ia lá e tocava a criançada. Brincava-se de pega-pega também no largo da igreja. As casas eram de quintal, com árvores, tinha roque, fazia perna de pau; faziam-se bonecas de pano porque os brinquedos não eram sofisticados naquela época; brincava-se muito de cortar e recortar revistas, a gente brincava com essas bonecas de papel. Eu tinha um tio que fazia essas casinhas de madeira, casinhas de boneca, abertas para a gente brincar. Na minha casa tinha garagem grande, eu tinha mais três irmãs, tinha primos e a gente brincava muito nessa garagem. A gente dividia com o cabo de vassoura, dividia a garagem e cada pedaço era a casa de um, dividia-se entre irmãs e primos. Então, foi uma infância mais do tipo cidade pequena, cidade do interior. Dava pra brincar na rua, em dias quentes como os de hoje por exemplo, à noite as famílias sentavam, punham as cadeiras na calçada e a gente brincava com as vizinhas, com as crianças da vizinhança da rua, um tipo de infância mais típica de cidade de interior, porque Santo André era de interior, mas era como é hoje, uma cidade próxima à capital, com muitas coisas, divertimento, compras, por exemplo. Para comprar sapatos a gente ia comprar em São Paulo. As compras eram feitas mais em São Paulo do que em Santo André. Para os passeios íamos ao cinema mais em São Paulo; no teatro infantil mesmo, com mais ou menos com dez, onze anos, comecei a freqüentar teatro mesmo em São Paulo, com Bibi Ferreira, Lucinha de Moraes, Conchita de Moraes. Elas faziam peças infanto-juvenis, então a gente freqüentava mais São Paulo. Agora brincar, estudar, em Santo André.

Pergunta:
E o teatro amador e o teatro de alumínio?

Resposta:
Teatro de alumínio. Eu já era mocinha quando foi criado o teatro de alumínio, foi o primeiro teatro em Santo André que a gente começou a freqüentar, mas aí eu já devia ter quinze ou dezesseis anos.

Pergunta:
Como era?

Resposta:
Era quente para chuchu e quando chovia fazia um barulhão enorme, mas passavam peças muito interessantes. O Petrin, a Sônia Guedes. A Sônia tinha estudado com minha irmã e com uma de minhas primas e era muito amiga das minhas primas, então a Sônia freqüentava a família da gente, as festas de aniversários, era muito bom tê-los. Depois, mais tarde o Gean Francesco Guarniere veio fazer muitas peças em Santo André, especialmente ali onde era é o Sindicato dos Metalúrgicos. Nessa época, eu já era universitária e participava dessas peças mais intelectualizadas, mais politizadas.

Pergunta:
E você participava do CPC, Centro Popular de Cultura?

Resposta:
Sim, nisso eu já era universitária, quando a gente participava desses encontros, discutia peças de teatro, discutia livros, coisas de política, mas como universitária. Fazia parte também da Universidade Católica, tudo isso como universitária. Santo André tinha a Associação Universitária de Santo André, a AUSA, lá reunia muita gente que freqüentava o CPC, muita gente freqüentava junto. Reunia a estudantada, as universitárias que estudavam em São Paulo, poucos estudavam na faculdade de economia que já existia na Fundação Santo André. Quando a AUSA fechou, a gente até se espalhou um pouco, e logo no início do golpe de 64 a gente ainda se reunia muito na AUSA, mas você imagina como eram feitas essas reuniões. Eram feitas à noite, tinha uma sala interna, porque a AUSA ficava na Coronel Oliveira Lima e na frente era um salão em que a gente dava muita festa, mas no meio tinha uma saleta que dava para o poço interno do prédio. A gente se reunia ali, para não aparecer muito do lado externo, e havia uma escadaria que dava para esse salão. Qualquer barulho, a gente apagava a luz e se escondia, se abaixava atrás das mesas e dos móveis que tinham ali. Era assim que a gente se reuniu por muito tempo, até que foi fechada. Muitos colegas foram presos, teve colegas universitários torturados e mesmo lá no Sindicato dos Metalúrgicos a gente se reuniu muitas vezes, foi quando a polícia invadiu e todo mundo teve que fugir. É claro, dava um alerta, os que não fugiam foram presos, então, hoje a gente acha assim um tempo gostoso, mas foi muito triste, porque se tinha muito medo. Claro que, como jovens, a gente achava que podia fazer alguma coisa. Tinha aqueles mais ousados que faziam planos de invadir quartéis para roubar armas para a gente contra-atacar. Alguns deles se juntaram e se filiaram aos movimentos revolucionários contra a revolução e tiveram problemas. Na época, a filha do Fioravante Zampol era da nossa turma, ele teve que mandá-la para fora, vários colegas, em geral os homens eram mais aflitos, mas assim mesmo teve a filha do Fioravante Zampol, teve uma moça chamada Cleide, o pai dela era o dono do primeiro hotel em Santo André, Cavalo Branco, onde hoje é a Associação Comercial e Industrial de Santo André. Ali era um hotel. Essa moça foi apanhada, ela desapareceu, foi assassinada.

Pergunta:
Por que mais homens do que mulheres?

Resposta:
Primeiro, porque poucas mulheres eram universitárias. Quando eu entrei na faculdade acho que dava para conta nos dedos: eu, a Consuelo, minha irmã e uma amiga chamada Isaura, a que foi vereadora Marli Cammarosano, havia uma moça que fez engenharia, até essa que causou uma celeuma na cidade, uma mulher fazendo engenharia, então nós éramos seis ou sete universitárias, junto com a Vera dentista, que era dentista, então éramos poucas mulheres. E as mulheres eram mais reprimidas pelos pais. Os pais tomavam um cuidado maior com as filhas e os rapazes eram mais livres para namorar, mas eu me lembro uma vez, não sei se vai interessar, mas foi em 8 de abril, foi um ano depois, acho que em 1965, a minha casa ficava no centro da cidade, ali perto dessa AUSA, e como ficávamos sempre na AUSA, os rapazes vinham na minha casa e nós estávamos reunidos em um grupo de universitários, na minha casa, era 8 de abril, teve um desfile na cidade à noite, abrindo o desfile passaram os batedores, os batedores pararam bem no portão da minha casa e nós estávamos dentro e só ouvimos o barulho das sirenes. Minha mãe ficou tão nervosa que ela não conseguia levantar da cadeira para ver o que era, ela tremia. A essa altura nós todos já corremos para um quartinho que tinha lá no fundo. Meu pai, mais corajoso, foi espiar já pensando em quem ele ia chamar para nos defender, porque àquela altura todo mundo já pensava que toda a turminha ia ser levada pela polícia, porque era essa época. Eles chegavam nas casas, iam invadindo, invadiam as casas e levavam os estudantes, as pessoas e não davam satisfações para as famílias.

Pergunta:
E por que eram tão poucas as mulheres universitárias assim?

Resposta:
Porque, veja, eu entrei na faculdade nos anos 60, quando as mulheres estavam começando a abrir esse caminho. Entrei justamente em 1960 e aqui em Santo André era. Em São Paulo não, lógico, já tinha muito mais mulheres nas faculdades. Existiam poucas faculdades, não é como hoje. Eu me lembro que tinha faculdade de Filosofia em São Paulo, faculdade em Santos, em Bauru também, uma no interior, em Rio Claro, mas eram poucas as mulheres aqui em Santo André, como era uma cidade mais operária, de maneira que elas faziam mais os cursos profissionalizantes, já tinha escola profissional, a Júlio de Mesquita, que muitas moças estudavam lá ou faziam o curso normal, e o curso normal só tinha no Américo Brasiliense e assim mesmo no meu tempo. A minha irmã mais velha foi fazer no Padre Anchieta, em São Paulo, porque não tinha o curso normal, ela era mais velha e não tinha ainda em Santo André. Então, as mulheres seriam professoras primárias ou faziam cursos profissionalizantes ou casavam e iam ser donas de casas. A família mais velha, não meus pais, meus pais já eram pessoas mais avançadas, achavam que a gente devia estudar; meu pai dizia que o melhor marido era um diploma, mas as tias e minha avó mesmo diziam: Vocês não vão casar, vocês estudam muito e os homens não gostam de mulheres que estudam; em vez de fazer faculdade vocês deveriam fazer cursos de arte culinária. O que, diga-se de passagem, era o que precisava. Praticamente a minha geração foi a geração que começou abrir o caminho para o trabalho da mulher, para elas trabalharem fora. No meu caso nem tanto, porque eu fui ser professora, mas já havia essa moça que fazia engenharia, outras faziam odontologia, medicina e advocacia. Então, já começavam outras profissões, mas não era comum, pelo menos em Santo André, uma cidade ainda um tanto provinciana.

Pergunta:
Voltando um pouquinho no tempo, daria para você descrever o centro de Santo André?

Resposta:
Ah... Como eu disse, tinha muito pouco carro e era uma glória para a gente passear de carro. Meu pai era médico, mas não tinha carro, mas trabalhava com um médico que morava no largo da igreja e que tinha carro. Então, quando meu pai precisava fazer alguma visita a um doente mais longe, esse médico que trabalhava com ele, tinha o carro e um motorista e o motorista levava meu pai. Se a gente podia, a gente ia junto. Era a maior felicidade nossa ir passear de carro pelas periferias de Santo André com o meu pai. Então, na Coronel Oliveira Lima passava ônibus. Eu já era professora primária, lecionava na Vila Humaitá e tomava ônibus na Coronel Oliveira Lima. Subia a rua, depois tinha a Alfredo Fláquer que hoje é a Perimetral. Antes era bem tranqüilo. Onde hoje é a Catequese, o Paço Municipal, ali era um bosque que tinha uma pequena floresta onde passava um rio, que já está canalizado, mas a gente atravessava ali a Catequese, minha avó morava na Catequese, a gente atravessava em cima de pinguela. Você sabe o que é pinguela? São aquelas pontinhas de madeira, na verdade uns troncos que punham ali para atravessar, e a gente ia pelo meio do mato. Ali no Paço Municipal e Catequese, Figueiras, a região subindo as Figueiras, era tudo sem asfalto, muito poucas casas do lado do Bairro Jardim, eram casas enormes muito arborizadas, mas quase tudo sem asfalto. O ponto de atividade era ali na estação. Na estação tinha a casa do chefe da estação. Como meu pai era médico da estrada de ferro, a gente era conhecida do chefe da estação, tinha filhos colegas da gente e uma das coisas mais gostosas era ir a casa deles e brincar na estrada de ferro, do lado da estação. Ali perto da Rhodia se fazia uns presépios maravilhosos. Não me lembro quem fazia, era um senhor que montava o presépio, mecanizado, então no Natal era um passeio obrigatório na cidade, atravessar a linha para ver o presépio e ali a gente atravessava com aquelas porteiras antigas que faziam aqueles barulhos, atravessava pela estrada de ferro mesmo. A Coronel Oliveira Lima e o largo da igreja do Carmo, que é hoje, era o centro dos chamados flertes: sábado e domingo os rapazes ficavam numa esquina, ali na Coronel Oliveira Lima, onde hoje é uma loja de roupas masculinas, era o Quitandinha, então os rapazes ficavam ali no Quitandinha e as moças passavam para lá e para cá. Quando eu era menina, no Natal, por exemplo, a gente ganhava os presentes e ia andar na Coronel Oliveira Lima empurrando o carrinho de bonecas, os patins, a bicicleta, a bola, os meninos, a gente ia brincar na Coronel Oliveira Lima, na Campo Sales, então a cidade era bem tranqüila. A gente ia até São Bernardo a pé, fazia o tal caminho da vila, que era o mesmo, chamava São Bernardo, já não era mais vila, mas era conhecido como Caminho da Vila, que tinha a Pereira Barreto, em uma grande parte que não era asfaltada, a gente ia passear em São Bernardo, e ia a pé, sempre a pé. Outro lugar que a gente ia muito era a Fundação, que eram chácaras, que era a Chácara Suplicy, para se fazer piquenique. Ali tinha muito eucalipto, muitas árvores. Outro lugar em que minha avó nos levava muito era na Vila Luzita, não sei como que está ali a Vila Luzita; antes, passava um rio, não sei se canalizaram, mas tinha um rio e na beira daquele rio, o rio era limpo, e na beira daquele rio a gente fazia piquenique, e tomava ônibus na Vila Luzita. Era longe, a gente tinha esses passeios. O carnaval em Santo André era muito divertido, era na Coronel Oliveira Lima, começava no sábado à tarde, era carnaval de rua, embora tivesse de salão, mas o Clube Rhodia era ali no início da Coronel Oliveira Lima, e Aramaçan, na Alfredo Fláquer. O grosso ia da Oliveira Lima até a Perimetral, e era muito animado o carnaval de Santo André, ia todo mundo para rua se divertir, naquele tempo se podia usar lança-perfume, e então todos brincavam com o lança-perfume, tinha um chamado sangue-de-boi, que era vermelho, os rapazes ficavam com o sangue-de-boi para jogar das meninas, e era bem divertido. Mais tarde o Clube da Rhodia, ali na Cardoso Franco, dava ótimos bailes, o Primeiro de Maio, e o Aramaçan que ainda era no centro, davam bailes excelentes de carnaval. Muitas vezes ia de um clube para outro na mesma noite, passava pelos três clubes, a pé e só rapaziada, só gente moça, porque não tinha os problemas de violência de hoje, então havia segurança e a gente andava. Mais tarde veio o salão de festas do Moinho, que na época chamava Moinho São Jorge, em Santo Ande, um salão belíssimo, ali foram dados muitos bailes, bailes debutantes muito bonito. Santo André também, quando era mocinha, quando eu tinha quatorze, quinze, dezesseis anos, tinha muitos bailes de debutantes. Naquela época aquelas fábricas de tecido, a Bangú e a Paramol, eram fábricas importantes e as pessoas iam conhecer, faziam desfiles, desfiles de moda, as moças da cidade desfilavam, veio a PD, já tinha umas atrizes, Marli Bueno desfilava às vezes, convidavam alguma misses, mas o grosso do desfile era formado pelas moças da cidade, e Santo André tinha fama de cidade de moças bonitas. Então vinham muitos rapazes de São Paulo na missa das onze horas, eles não entravam na missa, esperavam a saída da missa das onze, a missa das onze horas era ali na Catedral do Carmo, era onde nós estreávamos a roupa nova, sapato novo, a gente deixava para estrear na missa das onze, e quando saía da missa, os rapazes estavam todos lá embaixo esperando pela gente, ali muita coisa acontecia.

Pergunta:
Nessa época você já era professora? Quando foi que você começou como professora?

Resposta:
Eu comecei a trabalhar antes de me formar, eu me formei no normal em 1957, nesse ano de 1957, até bem antes, minha mãe e a minha irmã mais velha já lecionavam e eram poucas as professoras, quando faltava professora na escola deles, a gente que era normalista já substituía, já podia substituir eventualmente. Em 1957, antes de eu me formar em agosto, o meu pai teve um enfarto e minha mãe tirou licença. Não havia substituto para as aulas dela, então o diretor falou: Põe sua filha; a senhora orienta. Em agosto de 1957, eu já comecei a lecionar. Depois que minha mãe voltou, o SESI fez um concurso e não exigia professora formada, era para alfabetização de adultos, isso também em 1957. Eu fiz o concurso, fui aprovada, e escolhi uma classe no Clube Rhodia, que já era na Antônio Cardoso. Comecei a trabalhar com alfabetização de adultos, e quando eu me formei, eu só fiz dezoito anos em abril do ano seguinte, em 1958, eu comecei um curso de especialização, de aperfeiçoamento, me chamaram, e em abril eu comecei a lecionar como substituta efetiva porque para começar a trabalhar no Estado tinha que ter dezoito anos, eu comecei a trabalhar como substituta efetiva na Vila Humaitá, que na época, além de muito longe, o ônibus ia até aquela praça que ainda tem hoje e da praça a gente descia por barrancos até o grupo escolar. Quando chovia, lá onde o ônibus parava tinha uns paus de vassouras para a gente descer afirmando nos paus, segurando no pau de vassoura, aquilo escorregava, aquela lama, ali era chamada de zona rural e quem lecionava em zona rural ganhava mais pontos do que quem trabalhava na cidade. Então eu fui trabalhar lá, para fazer pontos para poder ingressar, mas acabei não ingressando como professora de primário porque fui fazer faculdade e passei a trabalhar como professora de ginásio. Quando eu estava fazendo a faculdade, eu dava aula no primário, já não estava mais na Vila Humaitá, estava na Vila Lucinda, que era mais perto, porque eu fazia faculdade de manhã dava aula à tarde como substituta efetiva, então às vezes tinha classe, às vezes não tinha, e à noite eu dava aula como alfabetizadora de adultos lá no SESI. Já no quarto ano de pedagogia eu fiz um concurso na Prefeitura para orientadora das escolas especiais, para crianças portadoras de deficiência mental. Essas classes não pertenciam à Secretaria da Educação, pertenciam à Secretaria da Saúde, era Departamento de Assistência Médica Social, e eu fui trabalhar como orientadora dessas classes. Porque eu trabalhava à tarde, deixei de lecionar no primário. No último ano de faculdade, eu fui convidada pelo professor Lazzarine para ir dar aula no IESA, no curso normal do Colégio de Santo André, então passei a dar aula para o curso normal. Quando me formei, eu continuei trabalhando na Prefeitura e trabalhando no IESA. Trabalhava no IESA com o professor Roberto que era diretor do Américo Brasiliense. Eu me formei em 1963 e 1964, o professor Roberto me convidou para dar aula de matemática, porque a professora de matemática do Américo Brasiliense tinha deixado todas a aulas do Américo, tinha ido para o interior, e comecei a dar aula de matemática no ginásio do Américo Brasiliense. Dei aula durante uns dois anos de matemática e já passei a dar aula para o curso normal e por sete anos eu dei aula no Américo Brasiliense, para o curso normal, para o curso de administração escolar, para o curso de aperfeiçoamento, tudo ligado à área de formação de professores. Nessa época veio aquela bendita matéria Educação Moral e Cívica. Quando foi colocada essa matéria, para poder lecionar nessa matéria, precisava que o currículo do professor fosse aprovado lá no DOPS. Então, a gente tinha de arrumar um atestado de bons antecedentes e o diretor encaminhava para aprovação. O diretor, que era o professor Pedro Cia nessa época, que tinha sido meu colega, me pediu para dar essa matéria. Eu dei um tempo muito curto. No clássico e no cientifico lecionei Educação Moral e Cívica, mas devia dar no máximo um ano, porque essa disciplina a gente não sabia, tinha medo de dar essa aula, a gente tinha cuidado para falar, já era o período difícil, um período pós-1968, do AI-5, período que a gente tomava um cuidado muito grande para se dar aula. A gente tinha certeza que tinha alunos infiltrados, pessoal infiltrado para ver o que você falava, então a gente foi muito cuidadosa e acho que isso foi muito ruim para a educação porque a gente eliminou a criticidade do aluno. A gente simplesmente ia lá, dava o recado e despejava o conteúdo, não deixava que eles pensassem. A gente tinha muito receio do que poderia acontecer. Colegas eram presos, professores desapareciam e isso tudo a gente viveu e conheceu. Tinha uma aluna, ela foi minha aluna, depois professora, a Norma, ela desapareceu, nunca mais tivemos notícia dela.

Pergunta:
Fale um pouco do Américo Brasiliense. O que ele era, o que ele significava para a cidade e para quem trabalhava lá?

Resposta:
O primeiro diretor foi o professor Amaral Wagner, que foi uma figura importantíssima para a cidade, autor da letra do Hino de Santo André, foi o primeiro diretor. O Américo Brasiliense começou numa das chácaras onde é o Primeiro de Maio, o atual IESA, o Santo André, ali eram chácaras das famílias Maia e Suplicy, que pouco ficavam em Santo André. Ali onde é o Primeiro de Maio era onde a dona Deise Maia e o irmão moravam. Era uma chácara. Depois foram fazendo barracões, o colégio foi crescendo, mas era muito aberto, onde é hoje o Paço Municipal, na época é que estavam começando a construir a chamada Praça IV Centenário que é onde é o Paço Municipal. Nessa praça tinha umas gincanas, tinha feira, nos dias de feira a gente saía da escola e ia comprar pastel na feira, do lado. Apenas eu estudei nesse Américo Brasiliense, cheio de barracões, depois ali foi construído o atual prédio do Américo Brasiliense, e eu já voltei para lá como professora. E sempre foi uma escola de referência, foi uma escola muito boa. Ela faz parte daquele grupo de escolas públicas que formavam bem os seus alunos. É claro que um período só a elite mesmo estudava, não era elite endinheirada, mas era o que as famílias valorizadas procuravam, mas os professores eram muito conscienciosos, muito preocupados. Quando terminavam os exames de vestibular, eles iam verificar se os alunos deles tinham sido promovidos ou tinham ficado retidos nas suas disciplinas; se ficasse muito aluno, eles se reuniam e repensavam, tinham brios enormes. Eram extremamente severos, era escola tradicional, bastante severa, mas muito responsáveis. Em geral eram professores que só trabalhavam ali, no IESA, no Américo, no Senai, no Senac. Então, é lógico que não é como hoje, que os professores trabalham em vários lugares. Eles passavam e dedicavam o tempo todo. O professor Tocantins, que era o diretor da escola, vários professores, o professor da elite, professor Galante que era vice de Santo André, professor Lazzarine, vários professores, que até têm nome de escolas, eram muito preocupados, mas era uma turma; quando eu fui dar aula lá eu era bem nova, e tinha estudado lá, então no início era estranho a gente ser recebida pelos ex-professores, mas só no início, logo depois estava enturmada, não era só eu, mas meus colegas também tinham estudado lá e já estavam como professores. Às sextas-feiras à noite, a gente saía, ia naquela Pizzaria Jóia, que era ali perto do Américo. A gente se reunia às vezes na casa de um colega, depois das aulas íamos para a casa de um colega, o diretor, naquele tempo além de diretor tinha o vice-diretor, tinha preparador de ciências, tinha orientador educacional, uma equipe técnica, então a gente se reunia, todos com muita amizade, um grupo bom de professores, muito sérios. Muita gente que hoje é autor de livro, é político, empresário em Santo André, foi aluno do Américo e, nas suas entrevistas, diz que estudou lá. Os estudantes do Américo eram bem preparados. E a gente encontra muitos médicos, já com carreira feita, e saídos lá do Américo Brasiliense. Eu acho que até hoje o Américo conserva um pouco dessa tradição, apesar do desmonte da escola pública, a gente pode falar que o Américo Brasiliense ainda tem uma estrutura que o mantém. É uma das escolas muito procuradas porque não tem violência. Embora tenha professores de todo tempo do magistério e de todas as idades, efetivos e não-efetivos, os professores efetivos estão lá há muitos anos, também têm muito orgulho da escola, têm muito brilho, tanto que eles fazem um cursinho para os próprios alunos, esse cursinho é dado aos sábados e no intervalo do período da tarde para a noite, pelos próprios professores, eles cobram só o material que é usado, eles não pedem nada, então o Américo conserva um pouco dessa estrutura.

Pergunta:
E como era a vida de uma mulher com o trabalho?

Resposta:
Lembrando sempre que eu sempre fui professora, nas várias funções do magistério, mas sempre professora, e o trabalho de professora é um trabalho que até os pais diziam: Vai estudar para ser professora, porque aí você pode cuidar da casa, dos filhos e trabalhar. De fato, isso me ajudou muito. Antes de eu ter filhos, eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite. Trabalhava no Américo Brasiliense, trabalhava no IESA e trabalhava nessas classes especiais, que passaram da Prefeitura depois para a APAE. Trabalhei em São Bernardo, no Departamento Social de São Bernardo. Quando nasceu a Priscila, eu fiquei no Américo Brasiliense e no IESA à noite, no Américo Brasiliense à tarde. Para o ginásio, eu dava aula de matemática. Então, eu trabalhava à tarde ficava com a filha de manhã, à tarde ela dormia, minha mãe chegava, minha mãe era professora e chegava antes de mim e ia pegar minha filha porque morávamos vizinhas, eu ia trabalhar e ela ficava com os meus pais. Quando eu tive meu segundo filho, eu passei a lecionar só à noite. Eu dava aula, tanto no IESA quanto no Américo Brasiliense à noite. Aí eu fiquei só com o Américo. Nesse intervalo eu ingressei, fui para o Ester Medina e no Ester Medina trabalhava à noite, dava aula à noite porque o normal só funcionava à noite. No Ester Medina de dia funcionava um grupo escolar, e o colegial era vespertino e à noite. Portanto, não era tão difícil conciliar. Quando nasceu meu terceiro filho, eu continuei a trabalhar à noite até eles irem para a escola. Quando os três estavam na escola, eu passei a trabalhar de manhã e à noite. Os três na escola de manhã e à noite eles ficavam com o pai, porque nessa época eu já morava longe da minha mãe. Quando fui para a direção já tinha o Fábio, que tinha sete anos quando comecei trabalhar o dia inteiro, de modo que foi possível conciliar porque a minha profissão de professora permitia conciliar. Naquela época, as mulheres trabalhavam como auxiliares da parte econômica da família. Hoje que as mulheres são, em grande parte, provedoras. As mulheres é que trabalham para manter a família, mas no meu tempo era mais um auxílio da economia familiar. E sendo professora, eu organizava meu horário e mesmo sendo diretora de escola eu levava o pequeno comigo, ele estudava de manhã e à tarde ele ficava na escola em que eu era diretora até que foi possível conciliar por lá.

Pergunta:
Quando ocorreu a guerra, a senhora era pequena, mas a senhora se lembra?

Resposta:
Eu era bem pequena porque eu nasci em abril de 1940, logo depois do começo da guerra. Talvez a questão da guerra que é muito marcante, eu lembro de algumas coisas. Me lembro por exemplo dos blecautes, em que determinado horário, todas as noites tinham de ser fechadas as cortinas da casa, apagadas as luzes, a cidade ficava toda escura e nessa época eu morava no largo da igreja, atrás da igreja. Então, a gente gostava de ficar espiando pela janela aquela escuridão, o escuro. Eu me lembro de quando o Brasil entrou na guerra. Eu era bem pequena, mas a minha família, minha família, meus pais, as irmãs do meu pai e da minha mãe, os tios reunidos na minha casa, eu me lembro bem dessa cena, o rádio ligado, a família reunida para ver se o Brasil entraria, como estava a situação do Brasil na guerra. E na minha cabeça, eu gravei por isso, eu ouvia a palavra dos campos de concentração, que muito provavelmente falavam em arame farpado, e eu tinha a idéia de campo, um grande terreno com arame farpado em volta, a volta toda e as pessoas no meio, e provavelmente ouvia essas atrocidades que aconteciam nos campos de concentração, então eu me lembro que sentia um pavor enorme, eu via essas imagens, de crianças dentro desses campos de concentração. Lembro também da falta de açúcar, de açúcar não refinado, de vez em quando meu pai achava e levava açúcar em cubinhos, então tinha que ser um pouquinho para cada um; para o leite tinha fila, não me lembro bem se eles davam uma senha para tirar leite em pó quando tinha crianças, alimentação ficou mais regulada, a gente gostava muito de uma bala, bala Paulistinha, que até hoje tem, mas com a falta de açúcar era raríssimo ter a bala. Quando o meu pai comprava essa bala e levava, era uma alegria, embora fossem duas para cada uma, nos éramos quatro, eram duas a três balas para cada uma. Lembro da vitória, da chegada dos expedicionários andreenses ali na Campos Sales, perto dá catedral. Ali tinha o colégio da Santo André, o primeiro colégio de Santo André, era bem grande. Ali se construiu o arco do triunfo e eu me lembro bem da chegada deles, a roupa de expedicionário, guardei bem alguns de muleta, me lembro muito bem disso. A gente recebendo ali na calçada, jogando papel picado, aquela alegria embora eu fosse pequena e não pudesse imaginar exatamente o que era essa satisfação da guerra, mas eu sentia uma alegria grande porque tinha acabado a guerra. Depois disso eu tive uma colega polonesa que chegou fugida da Europa, e era colégio de freiras, as freiras nos prepararam para recebê-la e ela não podia ouvir o toque da campainha da troca de aula, isso no ginásio, tocava a campainha ela entrava em pânico. Depois, bem mais tarde eu soube que ela havia cometido suicídio, mas ela trazia neurose de guerra, e essas coisas da guerra ficaram na minha cabeça. Mas isso era na primeira série, mas de quando eu era pequena me lembro também da preocupação que minha mãe tinha com o meu pai, porque o meu pai era anti-mussolinista, Santo André é uma cidade de italianos e meu pai fazia discurso contra o Mussolini em qualquer esquina, e minha mãe tinha muito receio. Ela conta que se a guerra tivesse sido ganha pela Itália ou pelos alemães, meu pai seria preso, era o primeiro nome encabeçando a lista por causa disso. Então, essas coisas simbolizam mais os sentimentos que eu fiquei da guerra, mais as sensações que eu tive, até pelo que os adultos ali falavam.

Pergunta:
Depois do golpe de 64 surgiram muitas greves. Você participava das greves na época do golpe militar?

Resposta:
Essas greves do golpe militar do Jango, João Goulart, eu era universitária, então assim que eu entrei na faculdade, nós entrávamos em março, no final de março, e no começo de abril eu sei que teve uma greve e fui com um grupo de estudantes na rua e nós fizemos movimentos, para dizer a verdade, mas não sei nem para o que era. Mas fazia-se greve. As universidades faziam movimentos por tudo e me lembro das greves do período do Goulart. Inclusive a gente ia de trem para as faculdades em São Paulo, tinha até os vagões para estudantes porque a gente encontrava todo mundo ali, e me lembro dos militares nas estações para que os trens funcionassem. Então, essas greves agitavam bastante a cidade. Em São Paulo tinha freqüentemente. As greves se davam, mas também se davam os movimentos dos operários e dos estudantes. Eram passeatas, eram bastantes movimentos assim no centro da cidade. Como eu estudava no Sapiense, que era numa travessa da Consolação, a gente ia da Estação da Luz até lá, a pé, atravessava a Av. Ipiranga toda, subia a Avenida Ipiranga e atravessava a Praça da República. Então freqüentemente tinha comícios e tinha soldados também.

Pergunta:
E depois, em 1978, 1979?

Resposta:
Em 1978 e 1979 eu já tinha até filhos. O que eu me lembro bem é aqui em Santo André. Como eu levava os filhos no Coração de Jesus, tinha alguns protestos e a gente levava de carro. Era ali pertíssimo do Sindicato dos Metalúrgicos, então quantas vezes o carro emparelhava com aqueles brucutus, caminhões cheios de soldados, a gente tinha a sensação de estar em guerra. Passavam aqueles caminhões cheios de soldados e de metralhadoras. Eu não participei muito dos movimentos porque tinha filhos pequenos nessa época. Uma das vezes só que eu me lembro bem, como professora a gente fazia alguns movimentos, vamos falar da greve dos professores, mas me lembro de uma vez que eu fui à igreja de São Bernardo, num daqueles movimentos organizados por Lula, cheio de soldados, meu marido ficou muito bravo, com medo de que me acontecesse alguma coisa, mas eu participei muito dos movimentos de greve dos professores, e teve a do Maluf, foi terrível, foi muito grave. Isso até atrasou a minha aposentadoria, porque as faltas da gente eram injustificadas, a gente teimava em ficar na escola, deixava até os diretores atrapalhados porque aí vinha a ordem para colocar os professores para fora, íamos muito para São Paulo, fazíamos aquelas passeatas, íamos até o Palácio, tinha polícia para todo lado, de vez em quando a gente tinha que correr porque jogavam gás lacrimogêneo, era aquela professorada correndo. Então foi essa a participação, foi mais na greve dos professores.

Pergunta:
Você se lembra da inauguração da televisão, da chegada do homem a Lua?

Resposta:
Lembro. Eu vi na casa de uma amiga minha na Praia Grande. Meus pais tinham casa na Praia Grande, nós estávamos lá, eu fui ver na casa dessa amiga que tinha televisão. Lá não era essa maravilhava, já não era nítido o que se via, e lá na Praia Grande muito menos, mas vi as sombras do capacete, aqueles vultos chegando na Lua e uma das coisas mais emocionantes que vi foi a bandeira ser fincada na Lua. Imagina uma bandeira da Terra ser fincada na Lua, mas foi uma das coisas mais emocionantes, embora não tenha dado para ver nitidamente. Foi muito interessante porque as pessoas mais idosas achavam que era truque. Foi truque! Como o homem pode ter chegado a Lua?!

Pergunta:
Você pode falar do movimento Diretas Já?

Resposta:
A minha participação foi pequena, fui eu, meu marido e nossos três filhos, mas já chegamos tarde, não conseguimos chegar na Praça de Sé, ficamos na Praça João Mendes. Estava tudo muito lotado, nós ficamos vendo do telão, e a gente ouvia pelo microfone, mas como era muita gente e a gente com três crianças, aí também meu marido ficou com medo de algum tumulto, algum corre-corre, e, com três crianças pequenas, fomos lá com três filhos. Também não tinha dimensão da seqüência disso. Naquele momento o que era importante era a gente sentir que a ditadura estava nos seus estertores, de maneira que era também um momento de a gente sentir uma satisfação de participar da história sem entender as dimensões e as implicações.

Pergunta:
O que você gostaria de deixar registrado com o seu depoimento?

Resposta:
O que eu gostaria de deixar registrado é essa oportunidade de a gente poder, com os fragmentos da memória da gente, registrar que a gente foi um sujeito da história, alguém que existiu e que de alguma forma a gente construiu, participou. Isso é muito bom, acho que registrar a memória é muito importante, é uma oportunidade que me foi dada, muito boa, principalmente. Embora isso aqui sejam fragmentos, porque a memória a gente só vai se lembrando com fragmentos e para contextualizar tudo isso precisaria de muita coisa, mas é interessante a gente ver que não é só uma história oficial, mas é a história de cada um, com a nossa simplicidade humana, a gente participa e isso fica registrado. Era isso que queria deixar, que acho que é muito importante trabalhar com a história das pessoas. É muito importante.



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