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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Wilson Wataru Hatanaka

  • Nome: Wilson Wataru Hatanaka
  • Gênero: Masculino
  • Data de Nascimento: 07/10/1939
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Parantins (AM)
  • Profissão: Engenheiro Químico

Biografia

Nascido em 1939 na região de Parantins- AM, Wilson Wataru Hatanaka conta como foi a imigração de seus pais do Japão para Manacapuru, na Amazônia. Seu pai era Koutakusei e veio na quarta leva de imigrantes. Em 1942 sua família foi retirada da Vila Amazônia (nome do local onde moravam) e foram enviados para Tomé-Açu, para ficarem confinados como "súditos do Eixo", por conta da Segunda Guerra Mundial. Também conta um pouco de sua vida profissional em algumas empresas no estado de São Paulo, para onde sua família mudou-se na década de 1950.





Transcrição da entrevista com Wilson Wataru Hatanaka


Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias

Depoimento de Wilson Wataru Hatanaka, 78 anos.

São Caetano do Sul, 14 de junho 2017.

Pesquisadores: Priscila Ferreira Perazzo e Luciana Almeida.

Equipe técnica: Tayná Meireles.

Transcritor(a): João Paulo Soares da Silva


Pergunta:

Senhor Wilson, você pode começar falando sua data de nascimento e o local?


Resposta:

Eu nasci em Parintins, em 7 de outubro de 1939. O local era um mato, interior do Amazonas e praticamente não tinha nada na localidade. Meus pais vieram do Japão muito novos, casados praticamente às vésperas de sair o navio e foi um casamento arranjado, né. O meu pai era órfão de pai e mãe, ele queria emigrar do Japão porque a situação estava muito difícil na ocasião. No desejo de emigrar a família não deixou e disse: ‘Olha, você só vai se estiver casado’, então de última hora arrumaram uma pessoa, que foi a minha mãe, juntaram os dois e puseram para viajar no mesmo navio.

A família do meu pai era uma família afluente, eles estavam bem de vida, mas o meu pai era órfão de pai e mãe e vivia com os tios. A família da minha mãe era uma família muito bem do interior, da província de GIFU KEN, da cidade de UDAIN e era uma família que vivia de aluguel de terras. Eu estive lá recentemente, há uns dois anos atrás. Eles tinham uma grande propriedade, inclusive eles tinham uma montanha que até hoje é parte da família. É um morrão grande, no pé do qual estava a casa, estava um armazém com antiguidades da região, uma espada de samurai, coisas assim, coisas históricas.

E a família era aparentemente muito bem respeitada. Era tipo um senhor feudal que alugava terras e vivia de aluguel de terras. Ao pé da montanha tem até hoje um pequeno cemitério, os parentes todos que vão falecendo são enterrados naquele local. Eu visitei inclusive o local e para dizer a verdade hoje está abandonado, porque não mora nem um parente na região.

Então o que que aconteceu? No início da vida da minha mãe, ela era criança ainda, acho que a mãe dela faleceu, o pai ficou viúvo, casou e trouxe uma outra família. Então aquela menina se tornou, não um inconveniente, mas um estranho na nova família, né. Ela tinha irmãos, acho que mais uns dois irmãos, e na primeira oportunidade deram ela em casamento com o meu pai, e assim foi a vida dela no início. Ela relata que na viagem ela até estranhava quem era o marido dela, ela não tinha muita familiaridade. Quando chegaram em Manaus eles foram enviados para um terreno no interior do Amazonas, que era um acordo do governo japonês e o governo brasileiro, para fazer um incremento na região desenvolvendo a parte agrícola. Então as pessoas que estavam vindo naquela ocasião, 1935, 1936, 1937, nessa ocasião, eles recebiam um treinamento em uma escola agrícola no Japão. Eles vinham formados e uma grande parte desse pessoal já tinha curso um pouco mais elevado, curso superior, vieram professores também. Nessa turma do meu pai vieram (...) acho que dois professores. Esses dois professores mantiveram as pessoas unidas e formaram uma pequena  comunidade, né. Quando eles foram designados para essa área no interior, eu acho que chamava-se Manacapuru ou alguma coisa parecida, eles tinham que começar a viver a vida do mato, era caboclo. Trouxeram as bagagens deles do Japão, ela ganhou uma série de presentes provavelmente, trouxe uns malões grandes, bonito, que a gente chamava de  KORI, mas eram malas rígidas, não eram mala maleável ERA BAÚ RIGIDO  onde ela colocava os pertences. Trouxe e foram morar lá no mato. [5’]

Mas pode-se imaginar o que se pode fazer no mato, em um local onde só tinha uma pequena construção. Mas o dia a dia da comida, da bebida, essas coisas todas não tinha nada, era na beira do rio...


Pergunta:

Que rio que era?


Resposta:

Eu não lembro, agora eu não lembro o rio... A minha mãe relata o seguinte, que ‘comer não era um grande problema', por que plantavam mandioca e se quisesse proteína, por exemplo carne, tinha caça, carne de caça. Ela diz o seguinte: 'era só iscar um ratozinho, um camundongo, jogar na beira do rio e no fim do dia você vai lá, apanha e tem um peixe lá' e realmente é assim mesmo, tá. É peixe carnívoro, peixe de couro. Então, passar fome não passaram, nunca houve nenhum evento dizendo: 'puxa, hoje não tem comida'. Agora o fato trágico que aconteceu na ocasião, é que o primeiro filho era um homem, menino, ele teve diarreia e não sabiam como tratar, então ele veio a falecer.


Pergunta:

Bebê?


Resposta:

Bebê.

Então hoje uma colher de sal e uma colher de açúcar resolve o problema, eles nem sabiam disso, não tinham instrução para isso, então eram totalmente ignorantes quanto a vida no mato, no Amazonas. O caboclo não, o caboclo se salva de qualquer jeito, né, comendo ervas, fazendo esses tratamentos, vamos dizer assim (...) já habituados na região, mas eles não sabiam disso.


Pergunta:

E a sua mãe e o seu pai comentavam as dificuldades que eles tinham com a língua?


Resposta:

Evidentemente ele não falava língua né, então as amizades deles eram com os próprios japoneses. Então ele diz assim: ‘ah, para visitar o meu amigo remava dois três dias, ia até lá, voltava remando mais dois três dias e chegava em casa. Agora nesse “remando indo visitar amigo e voltando” (...) ele às vezes fazia isso sozinho, muito provavelmente, então minha mãe ficava sozinha com criança em casa e ela morria de medo porque tinha índio, né, tinha muito índio. Quando havia um aviso que: ‘Olha os índios estão brabos {bravos}’, ela dizia que se escondia no mato até as coisas se acalmarem. Então essa era uma vida bem diferente daquela tinha no Japão, muito diferente.


Pergunta:

Ela era de uma outra cidade, ela não era de Tóquio, né?


Resposta:

Não, ela era de GIFU KEN.


Pergunta:

E essa cidade é…


Resposta:

Muito pequena, é uma cidade do interior. Quando eu estive lá eu vi que realmente não era uma vila, mas era uma cidadezinha, vai. E quando ela vivia lá em GIFU KEN, nesta cidade de  UDAIN  ela disse que frequentava uma escola pública. Escola pública era a escola de todo mundo, não tinha uma escola especial, particular e tal. E ela disse que socialmente ela tinha materialmente mais poder. Ela relatava assim: ‘Nossa eu fazia sucesso porque no quintal da minha casa tinha um pé de caqui’ então o caqui na época era meio que um lanche. As pessoas olhavam e diziam: ‘! um caqui, caqui’, então ela dividia o caqui dela com as colegas. Ela manteve amizade por muitos anos, trocando cartas, às vezes, muito depois da guerra também. Não sei qual foi a época, talvez há uns 30 anos atrás, ela voltou e fez uma visita ao Japão com o marido e ela se reuniu com algumas amigas da escola, da época. Então esse local UDAIN  ainda existe, tá lá, a família ainda tem a montanha. Só que a propriedade toda aparentemente passou não para a família dela, mas para família da nova esposa. Aquilo lá foi disperso, já foi todo dividido e a família da nova esposa tá morando lá, mas não tem nada a ver conosco, não tem nenhuma relação conosco.


Pergunta:

Seu Wilson, seus pais vieram numa leva de famílias ou encontraram essas outras famílias japonesas aqui?


Resposta:

Não, não, vieram em um conjunto, em grupo


Pergunta:

E tinha alguma empresa que fazia o acerto de imigração?


Resposta:

Sim, eles vieram organizados, organizados através de uma empresa (...) eu não lembro o nome da empresa. A diferença da imigração para São Paulo e outras regiões com o Amazonas foi diferente, porque lá [Estado do Amazonas] foi organizado, aqui foi desorganizado. Cada um veio por conta, lá não, lá vieram em grupos. Várias levas vieram, acho que cinco ou seis…


Pergunta

Já com as terras decididas, tudo?


Resposta:

Tudo, já tudo organizado. [10’]

Na verdade, historicamente o governo amazonense cedeu uma área muito grande de terra, acho que é 1 milhão de metros quadrados, coisa assim. O governo do Pará também fez a mesma coisa, então já vieram organizado com destino certo. Aí quando eles chegaram lá no interior o que aconteceu, eles tomaram posse da terra, mas nunca vi um documento dizendo que: ‘Essa terra é do seu fulano de tal’, quer dizer, era uma cessão, mas não uma doação ou uma escritura de propriedade. E como ele tinha que sobreviver (...) sobreviver é cortar mato, empilhar e queimar o mato chama-se coivara, então ele fazia a coivara, tudo com mão de obra própria, ele só, não tinha ajudante, não tinha nada.

E com isso eles foram vivendo os primeiros dias até que chegou a guerra, né. Na guerra nós fomos levados para Tomé-Açu de barco, que eu me lembro que nessa época eu devia ter uns dois, três anos de idade, talvez. A memória não é muito clara, mas eu me lembro que nós chegamos em Belém e eu vi um barco grande, e aquele barco foi o que nos transportou. Em Belém não sei se ficamos um dia ou algumas horas. Nós fomos até visitar o Museu Emílio Goeldi que tem lá em Belém. Essa é uma lembrança de passagem, aliás, é a primeira lembrança que eu ainda tenho dessa época.


Pergunta:

Antes da gente ir para Tomé-Açu... Era tudo de barco o trajeto?


Resposta:

Tudo de barco.


Pergunta:

Então essa região que é perto de Parintins, ela é mais para o lado do Pará, é sul de Manaus?


Resposta:

Não, não é, é mais Central.


Pergunta:

Então era uma boa distância. Horas ou dias de barco?

Resposta

Não, não sei, isso eu não lembro.

Então a vida na beira do rio era sempre assim, dizem que era uma rotina. Ele tinha que trabalhar ou caçar para pegar material no mato, porque tinha muita comida, né, tinha palmito, tinha essas coisas todas que eles aprendem rapidamente. E o grande problema era quando ficava doente e também a solidão, porque também não tinha vizinho, não tinha vizinho nenhum,. Para ele matar a saudade de visitar um amigo ele tinha que pegar a canoa, remar pela beira do rio, porque a beira do rio não tem correnteza, ia visitar o amigo mais próximo e ficava nessa vidinha.

Hoje eu não sei se foi melhor ele ter saído ou se ele tivesse ficado lá, porque depois, muito depois eu estive em Parintins. Eu fui pescar , eu fui passear em Parintins. E vi que as pessoas que ficaram lá na cidade , os filhos deles, não os pais, os filhos ...) todos eles se diluíram na população local. Aquelas sete famílias que eram os líderes da comunidade, que foram presos, depois que vieram para São Paulo, os filhos estão todos muito bem, tá. Não conheço nenhum que não tenha frequentado o curso superior, todos se graduaram em curso superior. Agora, estranho que quando eu cheguei de volta Parintins muitos anos depois, eu fui visitar a família OKAMURA, vi que eles tinham um pequeno armazém, então fui visitar o armazém, , mas o armazém era uma mercearia de uma porta, não aquela mercearia [sinal de grande] .

‘Ah, o meu filho tá lá , tá lá na praça’, aí eu fui lá ver o filho dele. Ele tava de calça comum, o chinelo tipo havaiana e você olhando assim [olhar de espanto] era o próprio Caboclo, o caboclo do Amazonas. Tava lá misturado com o pessoal, acho que ele era comerciante. Então esse pessoal que ficou lá na roça, lá no Amazonas, no interior, eles acabaram por ali mesmo, misturado como nativo e sem muita diferença,  não digo como se não tivessem pretensão, talvez tivessem, mas não tiveram oportunidade.


Pergunta:

Seu Wilson, sete famílias foram levadas para Tomé-Açu. Tinham mais que sete famílias?


Resposta:

Ah tinham muito mais famílias


Pergunta:

Quando seus pais vieram…


Resposta:

Vieram grupos maiores.

Tudo isso tem até uma lista Dos imigrantes, a senhora tem a lista ou não? Da imigração primeira leva, segunda leva, terceira leva, quarta leva…


Pergunta:

Ah, nos livros só se tiver, porque a lista assim não  tenho..


Resposta:

Tem. A nossa eu não sei se foi a quinta leva que veio.


Pergunta:

Mas o senhor sabe dizer porque essas sete famílias que foram tiradas? Outros não foram levados, ou foram levados para outro lugar?


Resposta:

Sim. A conversa que a gente sempre ouviu foi o seguinte: Esses eram os líderes! Então tinha o professor universitário, o administrador, gente já formada que veio para fazer a organização, né. E essas pessoas foram consideradas perigosas porque tinham um nível. Como eles tinham nível eles tinham que ser controlados, e para controlar nada melhor do que colocá-los todos juntos, por que estavam espalhados (...) colocá-los todos juntos em um lugar só. Essa foi a ideia que nos passaram, que a gente sempre ouviu, bom ai…


Pergunta:

O senhor tinha uns dois, três anos, foram retirados à força - sem violência - mas eram obrigados a viajar. O senhor lembra se eles contavam, se os seus irmãos mais velhos contaram alguma coisa de como eles receberam essa notícia, de quanto tempo eles tinham para se deslocar, se a polícia vinha junto?


Resposta:

Eu ainda tenho um relacionamento de amizade com um dos que foi desse grupo, o  YOSIYUKI MIYAKE, ele é três ou três anos e meio mais velho que eu. O MÁRIO MIYAKE, etc. Ele não diz revoltado, mas ele diz: ‘, de um dia para o outro, você tem que ir amanhã ?’ então tivemos que largar tudo e ir para Tomé-Açu.. Então, eu não me lembro, mas ele se recorda bem e ele diz: ‘Foi violento’, quer dizer, ‘foi intempestivo’, então de uma hora para a outra eles tiveram que colocar as coisas rapidamente e ser levados para Tomé-Açu. É essa conversa que eles sempre relatam.


Pergunta:

Seus pais não reclamavam disso?


Resposta:

Nunca reclamaram!


Pergunta:

Nem os seus irmãos mais velhos?


Resposta:

Não, eu sou o mais velho ,  eu tenho uma irmã mais velha., a Carolina.

Mas da minha lembrança eu não tenho nenhuma revolta, não tenho nenhuma contrariedade desse tempo porque eu não tinha consciência, nenhuma consciência, eu era criança. E quando fui para Tomé-Açu também. Eu saí de lá provavelmente com seis anos de idade, no máximo sete anos de idade. Tive uma infância de caboclo, de menino de roça, totalmente livre e eu andava para onde quisesse, uma localidade muito pequena. Vivia a infância de um garoto de mato, descalço, calça curta e andava para tudo quanto é lugar, caçar passarinho, comer fruta do mato, brincar aí com a criançada, estudar. Comecei a estudar nessa época. Eu me lembro que a escola era um prédio bonito até, um salão grande, com as cinco turmas juntas, de primeiro, segundo, terceiro, quarto a quinta série, todos na mesma sala. Ao que me recordo não tinha banco escolar, era todo mundo sentado no chão, enfileirado, e a professora lá na frente, uma professora só. E eu acredito que fui alfabetizado nessa ocasião, porque quando eu fui para Belém eu já fui para uma escola particular, e já era alfabetizado, então acho que já fui alfabetizado, e aprendi as quatro operações. Nessa época a escola pelo menos deu seu recado. E nessa época tinha os alemães, não sei quantos, e italianos também, eram aqueles que foram confinados.


Pergunta:

E conviviam todos juntos ou foram separados pela língua?


Resposta:

Não me lembro de nenhum outro que não seja japonês ,os meus amigos, todos os meus amigos de infância eram japoneses.


Pergunta:

E aquela história do barco que o senhor me contou de como chegavam os mantimentos para vocês?


Resposta:

Sim. A Tomé-Açu na ocasião era um matagal grande com uma clareira no meio. Essa clareira tinha um pequeno povoado. Eu me recordo que tinha um ambulatório médico, né, tinha uma escola (...) o ambulatório médico era um posto de saúde, não me recordo de ter médico, mas os primeiros atendimentos eram feitos lá (...) o que mais? Japonês não tinha como fugir, a cara não deixa [risos], então ficava todo mundo ali confinado na ocasião, quem pudesse arrumar trabalho arrumava. Meu pai arrumou trabalho, ele era madeireiro, então ele ia mais para o interior, num lugar chamado COXIU. Não sei se existe ainda, mas ele sempre dizia: ‘ah, vou para COXIU,, não sei nem se a palavra é japonesa ou se a palavra é indígena. Então ele pegava um barco pequeno, ia até essa localidade, passava a semana e voltava no fim de semana. Eles cortavam madeira, empilhavam, colocavam no rio, faziam a jangada e levavam para Belém. [20’]

A única comunicação externa era um barco , era um barco... não digo grande, era um barco de algum porte que fazia a ida e volta. Saia de manhã cedo, ia até Belém e voltava à tarde, no fim do dia. Quem quisesse ir para Belém pegava o barco ‘ia e voltava, ia e voltava’, no mesmo dia ou em outros dias. O grande entusiasmo do pessoal era encomendar algumas coisas e no fim do dia ir lá apanhar na beira do rio. O que era mais esperado era o pão, chamado pão cacete, a bisnaga. O termo no Norte era pão cacete, ai então ‘compra um, compra dois’ e tal. Então se dava o dinheiro para pessoa do barco, a pessoa trazia de volta e você ia lá apanhar. Esse era o grande entusiasmo (...) que era uma gostosura na ocasião, era uma coisa que todo mundo esperava e era gostoso. E eu me recordo que ninguém saía, daquele pessoal japonês, não saía de lá.


Pergunta:

Quando chegaram Tomé-Açu essas sete famílias que vieram de Parintins, já tinha outras famílias? Já era uma comunidade de japoneses que produziam alguma coisa…


Resposta:

Tinha outras família, tinha, tinha alguns japoneses.

Acho que aquele pessoal de Belém foi confinado lá. Quem morava em Belém naquela ocasião foi confinado lá. E tinha outros que não eram japoneses. Acho que [tinha] até italianos e alemães.

Pergunta:

Que foram levados para a guerra, não que eles já morassem lá antes…


Resposta:

Isso. Alguns talvez já morassem, não alemães e italianos, mas ali era um povoado…


Pergunta:

Que já moravam imigrantes japoneses antes?


Resposta:

E também não japoneses.


Pergunta:

Seus pais chegaram a contar alguma coisa sobre a impossibilidade de falar a língua em Parintins ou em Belém?


Resposta:

Em Parintins nunca.., nem em Tomé Açu.


Pergunta:

Não sentiram aquela repressão?


Resposta:

E lá em Tomé-Açu eu só falava japonês no começo com os meus pais, com os outros não, mas com os meus pais eu só falava em japonês.


Pergunta:

O senhor aprendeu tudo?


Resposta:

Escrevia um diário, inclusive. Todo dia eu tinha que escrever o diário , chamava-se NIKKI..


Pergunta:

Em japonês?


Resposta

Em japonês.

Era simples. Japonês tem três níveis de língua. O hiragana, katakana e kanji, cada um desses níveis é mais complicado do que o outro. O kanji é muito difícil, o pessoal diz que tem 3 mil ou 4 mil caracteres, mas o hiragana é muito simples, então eu escrevia tudo em hiragana. Escrevia todo dia um diário simples, ‘[hoje] eu fiz isso, eu fiz aquilo’, às vezes não chegava nem em uma página, mas tinha que escrever e minha mãe colecionava isso. Ela colecionou por bastante tempo.


Pergunta:

E todos os meninos dela faziam isso? Todos os filhos?


Resposta:

Sim, os nossos irmão sim.


Pergunta:

Aí ela ia guardando…


Resposta:

Guardou até um certo tempo…


Pergunta:

Tem um significado disso na cultura japonesa?


Resposta:

Sim e não. Nem todos fazem, mas muito fazem. Faziam, né, não sei se hoje ainda fazem.


Pergunta:

Depois esses diários se perderam ou o senhor guardou algum?


Resposta:

 



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