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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Amélia Chiarotti Barelli

  • Nome: Amélia Chiarotti Barelli
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 26/07/1924
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Descalvado (SP)
  • Profissão: Operária

Biografia

Amélia Chiarotti Barelli trabalhou  por 19 anos  na Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), no ABC.  Nas máquin as da produção e depois como inspetora de qualidade. Na época, vivenciou a criação do FGTS para os trabalhadores (década de 1960) e muitos preconceitos em relação a mulher operária.



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Transcrição do Depoimento de Amélia Chiarotti Barelli em 07/07/2003

Depoimento de Amélia Chiarotti Barelli, 79 anos

Universidade de São Caetano do Sul, 7 de julho de 2003.

Núcleo de Pesquisas Memórias do aBC

Entrevistadores: Vilma Lemos e Daniela Macedo da Silva.

Transcritores: Meyri Pincertato; Marisa Pincertato e Márcio Pincertato. 

Pergunta: Comecemos pela infância da senhora, então a senhora vai dar o depoimento da sua vida até a idade adulta. Então, se a senhora quiser, pode começar a falar da infância. Onde a senhora nasceu, falar da sua família, como era o relacionamento com os pais, que brincadeiras a senhora tinha quando era criança?

Resposta:

Brincava muito na rua.

Pergunta: Então vamos lá. Onde a senhora nasceu?

Resposta:

Em Descalvado.

Pergunta: Como era o relacionamento com seus pais?

Resposta:

Sempre fui educada com muita dedicação, tudo muito bom. Meu pai sempre foi muito trabalhador. Sempre fui pobre.

Pergunta: Família grande ou pequena?

Resposta:

Minha mãe teve dez filhos, de vinte; teve alguns mortos também.

Pergunta: A cidade em que a senhora nasceu é grande ou pequena?

Resposta:

Foi na fazenda.

Pergunta: E a senhora brincava muito, fazia brincadeiras?

Resposta:

Brincava na rua de corda, pulava aqueles morros.

Pergunta: Que mais?

Resposta:

Só isso. Brincava de boneca. Bonequinha de espiga de milho.

Pergunta: Fazia boneca de espiga de milho?

Resposta:

Tinha aqueles cabelinhos bonitinhos, maravilhosos, então sai aquela boneca.

Pergunta: Não tinha brinquedos?

Resposta:

Não tinha. Não existia brinquedo para mim.

Pergunta:

A senhora estudou?

Resposta:

Estudei até o segundo ano.

Pergunta: Nessa da fazenda?

Resposta:

Estudei até o segundo ano.

Pergunta: A escola ficava onde?

Resposta:

Ah! Eu andava longe, em outra fazenda.

Pergunta: Por quanto tempo a senhora andava? Ia a cavalo ou ia a pé?

Resposta:

Ia a pé.

Pergunta: Quanto tempo?

Resposta:

Uma hora, uma hora e meia.

Pergunta: Até chegar na escola?

Resposta:

Até chegar na escola.

Pergunta: E a professora também era da escola da região? Da fazenda?

Resposta:

A professora vinha de fora.

Pergunta: Ela tinha carro?

Resposta:

Não lembro. Não estou lembrada.

Pergunta: Depois dessa fazenda, a senhora morou numa cidade? Até que idade a senhora morou na fazenda?

Resposta:

Até ficar mocinha. Depois saí de lá.

Pergunta: E saiu para onde?

Resposta:

Vim para São Paulo.

Pergunta: Como era essa fazenda onde a senhora morava?

Resposta:

A fazenda era tudo simples. Bem simples.

Pergunta: O que a senhora fazia nessa fazenda?

Resposta:

Ah! Ia para a roça com as minhas irmãs; nós não fazíamos nada; nós íamos apenas para brincar.

Pergunta: Tinha que fazer os serviços na fazenda?

Resposta:

Tinha que carpir.

Pergunta: A senhora plantou?

Resposta:

Plantei arroz, feijão, milho. Com preguiça, mas fazia.

Pergunta: Depois, quando a senhora veio para São Paulo, a senhora tinha diversões ou não tinha?

Resposta:

Nunca tive diversão.

Pergunta: Não ia a baile, cinema?

Resposta:

Não, não.

Pergunta: Não foi a baile?

Resposta:

Nunca, nunca.

Pergunta: Foi ao cinema alguma vez?

Resposta:

Ia, mas eu dormia o tempo todo no salão lá. Dá um sono danado.

Pergunta: E clubes, a senhora freqüentou algum deles?

Resposta:

Muito pouco.

Pergunta: Então como a senhora se divertia quando era jovem?

Resposta:

Não tinha divertimentos, era muito pouco.

Pergunta: Como a senhora arrumou seu marido? Como foi o namoro? A senhora casou-se com o primeiro ou teve muitos namorados?

Resposta:

Não, teve só esse. Peguei amor em um só.

Pergunta: E como era o namoro?

Resposta:

O namoro era na praça, beijo.

Pergunta: Onde namorava? Em casa?

Resposta:

Em casa.

Pergunta: Quem ficava junto?

Resposta:

Meus pais.

Pergunta: Seus pais ficavam juntos? Não ficava sozinha?

Resposta:

Não.

Pergunta: E o casamento, como foi isso para a senhora?

Resposta:

O casamento foi simples. Só que depois eu não tive muita felicidade no meu casamento.

Pergunta: Beijava?

Resposta:

Beijava bastante.

Pergunta: Podia beijar?

Resposta:

Podia beijar.

Pergunta: Mas não na frente dos pais?

Resposta:

Não, na frente dos pais não.

Pergunta: Beijava na rua?

Resposta:

Não, nunca beijei na rua.

Pergunta: A senhora participou de alguma atividade política, de alguma guerra, de alguma revolução?

Resposta:

De greve eu participei.

Pergunta: Greve de quê?

Resposta:

De negócio de salário. Eu ia com a turma, com as colegas da gente.

Pergunta: De onde?

Resposta:

Da empresa CBC.

Pergunta: A senhora trabalhou na Cia. Brasileira de Cartuchos?

Resposta:

É. Trabalhei dezenove anos.

Pergunta: Teve outro trabalho ou serviço além desse?

Resposta:

Além desse, quando eu morava na Mooca, de lá da fazenda viemos morar na Mooca, eu trabalhei numa firma de alumínio, essas coisas.

Pergunta: E a senhora fazia o quê?

Resposta:

Eu trabalhava com maquinista, um moço. Eu fiz um faqueiro, eu ajudei o maquinista, eles tinham muita confiança em mim, então eu ajudava o maquinista a limpar as peças, fizemos um faqueiro para o Getúlio Vargas. De ouro. Um faqueiro de ouro.

Pergunta: Foi entregue para ele?

Resposta:

Foi entregue para ele.

Pergunta: E quem bancou? A firma?

Resposta:

A firma. Até os pós que saíam das peças, então pegava um pincelzinho e colocava num papelzinho, dobrava e levava para o escritório.

Pergunta: E de onde veio esse ouro?

Resposta:

Não sei. Você vê que o maquinista fazia as peças, eu limpava e colocava numa caixa. Então, nunca ensinaram.

Pergunta: Fez um faqueiro para o Getúlio?

Resposta:

Para o Getúlio Vargas. De ouro, de ouro mesmo.

Pergunta: De ouro?

Resposta:

De ouro.

Pergunta: Nessa firma que a senhora trabalhou teve greve?

Resposta:

Nessa aí nunca assisti a greve.

Pergunta: Não teve?

Resposta:

Não.

Pergunta: O salário era bom?

Resposta:

O salário era pouco, sempre pouco.

Pergunta: Tinha registro em carteira?

Resposta:

Tinha.

Pergunta: Tinha férias?

Resposta:

Tinha.

Pergunta: Como a senhora aprendeu o seu ofício?

Resposta:

Aprendi pelo meu trabalho.

Pergunta: Fala um pouquinho disso.

Resposta:

Eu comecei a trabalhar ajudando na máquina, aqui na CBC.

Pergunta: Agora a senhora já está falando da CBC. Como foi na CBC? Como a senhora conseguiu emprego na CBC?

Resposta:

Na CBC, eles me pegaram porque eu estava precisando trabalhar, porque eu morava com a família.

Pergunta: Fala um pouquinho.

Resposta:

Antigamente, a gente casava e morava com a família, então quando eu separei da família, eu precisei comprar tudo, não tinha nada. Eu entrei na CBC para comprar as coisas que eu precisava.

Pergunta: Quando casava, era costume morar com a família?

Resposta:

Com a família do rapaz.

Pergunta: E quantas pessoas moravam?

Resposta:

Tinha meu sogro, minha sogra, tinha meu cunhado, tinha minhas cunhadas.

Pergunta: Solteiros ou casados?

Resposta:

O moço era solteiro. A mulher já era casada.

Pergunta: Morava bastante gente em uma casa só?

Resposta:

Morava bastante gente.

Pergunta: Então a senhora foi trabalhar na CBC?

Resposta:

Na CBC para comprar as coisas que eu precisava de casa.

Pergunta: Era muito caro comprar as coisas para a casa?

Resposta:

Eu comecei a comprar a colcha, talheres, faca, porque eu não tinha faca para cortar pão.

Pergunta: Onde comprava essas coisas?

Resposta:

Eu ia comprar na loja.

Pergunta: E a senhora entrou na CBC para fazer o quê?

Resposta:

Entrei, trabalhei junto na máquina, para carregar.

Pergunta: A senhora entrou para...?

Resposta:

Para construir as balas, munição.

Pergunta: Munição.

Resposta:

É. Mas, como viram minha capacidade, houve uma explosão, houve uma explosão de pólvora preta. Então eu me queimei toda, fui jogada longe acho que uns três metros. Aí eles ficaram com dó de mim e me tiraram da fábrica. Puseram-me para escolher a qualidade. O que era bom, o que era ruim, separava tudo direitinho e anotava os defeitos.

Pergunta: Quando houve essa explosão, a senhora teve de ir para o hospital?

Resposta:

Eu não estive no hospital. Eu estava grávida de dois meses da minha filha, me jogou de barriga no chão, me estourou tudo.

Pergunta: Machucou?

Resposta:

Não, mas me queimei toda.

Pergunta: Não foi para o hospital?

Resposta:

Não fui.

Pergunta: O patrão não mandou para o hospital?

Resposta:

Não, não mandou não, porque não foi ferimento, só queimei o braço e parte do rosto.

Pergunta: Teve que ficar afastada do serviço por isso?

Resposta:

Fiquei afastada.

Pergunta: Quanto tempo?

Resposta:

Fiquei um mês mais ou menos em casa.

Pergunta: Recebendo?

Resposta:

Recebendo. Quando eu cheguei lá, eles já me trocaram de serviço.

Pergunta: Quantos filhos a senhora tem?

Resposta:

Tive quatro: dois homens e duas mulheres.

Pergunta: Quando a senhora veio para cá, para a cidade, como a senhora ia para o serviço?

Resposta:

Eu ia a pé.

Pergunta: A senhora morava perto ou longe?

Resposta:

Longe, longe. Na Barcelona lá em cima, descia toda aquela descida, subia para ir trabalhar.

Pergunta: A senhora morava nessa época na Barcelona?

Resposta:

Na Barcelona.

Pergunta: E ia até a CBC, que era aqui em Utinga.

Resposta:

Era em Utinga.

Pergunta: Ia a pé?

Resposta:

Ia a pé.

Pergunta: Não havia ônibus?

Resposta:

Não havia.

Pergunta: Nenhum?

Resposta:

Nenhum.

Pergunta: E como era esse trajeto? Havia casas? Era muito mato?

Resposta:

Tinha bastantes casas.

Pergunta:

Nesse período?

Resposta:

Antiga, sim. Na descida. Agora subindo lá tinha mato.

Pergunta: E a iluminação? Era boa?

Resposta:

Era boa porque entrava às sete horas no serviço, já era claro.

Pergunta: Era asfalto? Era terra? Era cascalho?

Resposta:

Era asfalto e tinha terra.

Pergunta: Era de terra também.

Resposta:

De terra também.

Pergunta: A senhora, nesse período, participou de greves?

Resposta:

Na CBC? Participei sim.

Pergunta: Conta para a gente.

Resposta:

Eu fui apenas para dar risada. Ia ver a turma brigando lá e eu só ria.

Pergunta: Brigavam por quê? O que eles queriam?

Resposta:

Por causa de salário.

Pergunta:

Mais ou menos quando foi isso? Em que ano?

Resposta:

Em que ano foi eu não lembro. Não estou lembrada em que ano foi.

Pergunta: Mais ou menos quando?

Resposta:

Não, não vou lembrar.

Pergunta: Em 1950?

Resposta:

Por ali, mais ou menos.

Pergunta: E o que eles faziam? Onde era a greve?

Pergunta: Em Santo André.

Pergunta: Dentro da firma ou fora?

Resposta:

Fora.

Pergunta: Faziam passeatas?

Resposta:

Não. Passeata eu nunca vi, passeata não.

Pergunta: E como os grevistas agiam? Como era?

Resposta:

Eles iam lá, tinha os que comandavam e eles combatiam o salário mínimo. Aqueles que entravam e que brigavam pelo salário eram mandados tudo embora. Mandavam embora. Tinha uns vigilantes que ficavam lá e olhavam quem entrava na guerra, na briga, então eles marcavam e mandavam embora.

Pergunta: Então esses grevistas sempre que faziam greve eram mandados embora?

Resposta:

Eram.

Pergunta: E havia sindicato nessa época?

Resposta:

Havia; havia sim.

Pergunta: Era forte esse sindicato?

Resposta:

Era forte.

Pergunta: E como ele deixava mandar embora tanta gente?

Resposta:

A fábrica mandava ficar quietinho, ia embora. Fazer o quê.

Pergunta: Quando a senhora foi para a CBC, a senhora já era casada?

Resposta:

Já era casada.

Pergunta: Quando engravidou, teve licença-maternidade?

Resposta:

Tive.

Pergunta: Ficou afastada por quanto tempo?

Resposta:

Por três meses.

Pergunta: E recebeu dinheiro?

Resposta:

Recebi direitinho.

Pergunta: A senhora se lembra de alguma conquista importante do trabalho, dos trabalhadores nesta época?

Resposta:

Havia muita briga, muita discussão, porque um mandou fulano embora, outro não. Então havia muita discussão lá.

Pergunta: A senhora trabalhou até que ano?

Resposta:

O ano que eu saí, não estou lembrada.

Pergunta: Qual foi o último ano de trabalho da senhora?

Resposta:

Sabe que eu esqueci tudo.

Pergunta: Mais ou menos, tem idéia?

Resposta:

Não tenho nem idéia.

Pergunta: Casou-se quando?

Resposta:

Eu casei com 16 anos de idade.

Pergunta: Foi em mil, novecentos e...?

Resposta: Não estou lembrada.

Pergunta: A senhora é descendente de italianos?

Resposta:

Sou.

Pergunta: Conheceu seus avós?

Resposta:

Conheci. Conheci só minha avó, minha avó era portuguesa, meu avô era português e a mãe do meu pai era italiana, veio da Itália, meu nono era da Itália, meu pai era italiano; minha mãe era filha de portugueses e meu pai era filho de italianos.

Pergunta: Eles falavam em italiano com vocês?

Resposta:

Meu avô falava muito em português, mas não entendia nada.

Pergunta: E em italiano não?

Resposta:

Em italiano, não. Minha nona falava muito em italiano.

Pergunta: A senhora sabe alguma palavra?

Resposta:

Lavava os pezinhos dela. Ela gostava muito de mim, porque eu ficava sentadinha no chão e lavava os pezinhos dela. Ela gostava de mim, porque eu lavava os pezinhos dela.

Pergunta:

A senhora se lembra da guerra?

Resposta:

Eu lembro de quando era menina, da guerra.

Pergunta: O que a senhora lembra? Conta para nós.

Resposta:

Ah! Eu tinha muito medo de avião, na roça. Tinha medo que o avião fosse cair. Tinha muito medo dessas coisas.

Pergunta: E a senhora lembra o que o seu pai falava da guerra?

Resposta:

Meu pai e minha mãe nunca, meus pais, meus avós nunca participaram em guerra.

Pergunta: Mas sofreram as conseqüências da guerra?

Resposta:

Ah! Sofreram. Trabalharam muito na roça, pobreza, bastante pobreza.

Pergunta: A senhora se lembra do golpe militar de 1964, da ditadura militar?

Resposta:

Eu lembro, mas não estou lembrada do que aconteceu.

Pergunta: E das greves aqui no ABC, dos operários, a senhora lembra?

Resposta:

Ah! Lembro. Eu lembro que eu só dava risada, eu não brigava com ninguém.

Pergunta: A senhora era da paz?

Resposta:

Era da paz.

Pergunta:

A senhora se aposentou?

Resposta:

Aposentei, graças a Deus.

Pergunta: Pelo tempo que trabalhou na firma?

Resposta:

É, eu trabalhei e fiz acordo.

Pergunta: Então a senhora tem uma aposentadoria?

Resposta:

Eu tenho.

Pergunta: Tem neto?

Resposta:

Tenho dez netos.

Pergunta: Hoje, como a senhora lembra da cidade, da época que a senhora ia trabalhar e hoje? Teve muita mudança?

Resposta:

Ah! Teve, nossa!

Pergunta: Do que a senhora lembra de significativo? De importante?

Resposta:

Eu lembro que hoje eu estou mais feliz.

Pergunta: Mas da cidade, da construção da cidade?

Resposta:

Muito bonita.

Pergunta: A senhora lembra de algum prédio que tiraram, que a senhora achava bonito, e que demoliram?

Resposta:

Não, desse nunca aconteceu.

Pergunta: A senhora quer falar mais alguma coisa do serviço? O que a senhora gostaria de falar? Como era o relacionamento da senhora com os companheiros de trabalho?

Resposta:

Todo mundo me estimava. Queria muito bem. Meu chefe me queria muito bem, os diretores todos me queriam bem.

Pergunta: Quantas horas a senhora trabalhava por dia?

Resposta:

Entrava às sete horas e saía às seis horas da tarde.

Pergunta: Tinha horário de almoço?

Resposta:

Uma hora de almoço.

Pergunta: Tinha refeitório?

Resposta:

Tinha.

Pergunta: Na própria firma?

Resposta:

Na própria firma.

Pergunta: Como era essa comida? Era boa?

Resposta:

Eu levava marmita de casa.

Pergunta: Então o refeitório era só para esquentar a marmita?

Resposta:

É, era só para esquentar. Tinha refeitório. Quando não levava, eu ia ao refeitório almoçar.

Pergunta:

E por que não almoçava sempre no refeitório?

Resposta:

Porque achava a comida de casa melhor.

Pergunta: E os outros trabalhadores reclamavam da comida ou não?

Resposta:

Não, nunca reclamaram de nada. Eles comiam muito bem.

Pergunta: Vou fazer uma última pergunta para a senhora: O que a senhora gostaria de deixar documentado, registrado, com esse depoimento, para os jovens, para as gerações futuras, em relação ao o que a senhora viveu, à sua experiência de vida?

Resposta:

Pela minha experiência de vida, eu gostaria que toda a mocidade estudasse, estudassem, se formassem grandes homens, tivesse, uma profissão boa, não tivessem vício nenhum. Muita coisa que eu gostaria é isso aí. O maior prazer da minha vida é ver todo mundo estudar.

Pergunta: A senhora quer dizer mais alguma coisa?

Resposta:

Eu sinto muita lembrança do meu serviço. Muita saudade.

Pergunta: A senhora me falou que mandou um faqueiro para o Getúlio Vargas. A senhora sabe se ele recebeu?

Resposta:

De ele receber eu nunca soube. Eu lembro que eu ajudava o moço, era até um alemão o moço, eu trabalhei com ele. Ele falava da namorada dele para mim, contava tudo.

Pergunta: A senhora deixa que mensagem como a última mensagem para os jovens?

Resposta:

Tudo de bom para eles. Que eles estudem, se formem. Que vá cada um no seu trabalho e que ganhem bem e não tenham vício nenhum.



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