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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Ana Maria Barbosa Sibof

  • Nome: Ana Maria Barbosa Sibof
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 30/07/1948
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Mogi das Cruzes (SP)
  • Profissão: Artista Plástica

Biografia

O avô Constantino Sibof (*1905) com 21 anos veio da Bessarábia e conheceu, no navio, Maria (*1906). Ela tinha 16 anos. Veio para abrir estradas em Mogi das Cruzes, especificamente para Taiçupeba (Distrito de Mogi das Cruzes). Em 1938, já com 12 anos no Brasil, casou-se com Maria Tulunj, sua conterrânea. Ana Maria conviveu e aprendeu a cozinhar com avós. Ela é a neta mais velha.
Os avós receavam conversar em búlgaro por medo de serem deportados. Diziam que a terra (Brasil) era abençoada. O avô veio com uma irmã e dois irmãos.
Ana Maria estudou Belas Artes por um ano, mas trancou a matrícula. Em 1971, casa-se com Cícero Osmar da Rocha. Tem duas filhas. Ficou 14 anos casada, separou-se em 1986. É presidente da Associação Cultural do Povo búlgaro, gagaúzo e bessarabiano, de 2013 até 2021, quando termina seu mandato.
Cultura búlgara: os avós sentavam-se em frente ao mercado de Mogi das Cruzes, na rua principal, e reuniam-se para conversar e comer semente de girassol.



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Transcrição de Depoimento de Ana Maria Barbosa Sibof em 22/08/2018

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias
Depoimento de Ana Maria Barbosa Sibof, 70 anos.
São Caetano do Sul, 22 de agosto de 2018.
Pesquisadora: Vilma Lemos
Equipe Técnica: Evandro Gabriel Merli, Leticia Jancauskas, Letícia Polli e Natalia Improta

Pergunta:
Ana, por favor, comece dizendo sua data e local de nascimento.

Resposta:
Meu nome é Ana Maria Barbosa, meu nome artístico AnaMarB. Eu nasci em Mogi da Cruzes, dia 30 de julho de 1948.

Pergunta:
Conta um pouquinho da sua infância.

Resposta:
A minha infância, vivenciei muito a parte Bulgária e da Bessarábia com meus avós. Eles tinham um pouquinho de receio de falar que eles eram russos, eram búlgaros, porque eles tinham muito medo de ser deportados novamente para lá. Mas a vivência foi a coisa mais linda desse mundo, eu acho que eu tive uma experiência que muitas crianças e que minhas filhas não tiveram.

Pergunta:
Como era o nome de seus avós?

Resposta:
Meu avô se chamava Constantino Sibof e minha avó Maria Sibof.

Pergunta:
Eles eram Búlgaros da região da Bessarábia?

Resposta:
É, da Bessarábia.

Pergunta:
Você sabe qual a razão pela qual eles estavam lá na Bessarábia? Se eram Búlgaros?

Resposta:
Eles nasceram lá, mas eles estudavam fora. Eles vieram na época da guerra para o Brasil. Vieram para o Brasil porque diziam que prometeram muitas coisas e eles acreditavam que ia acontecer, que eles iam ficar ricos aqui, porque prometiam terras e tudo e eles queriam, porque [era] na época da guerra, mas daí chegaram em São Paulo no Museu da Imigração [Hospedaria do Imigrante] e daí alguns foram pro Sul, outros pro Norte e eles foram levados para Mogi das Cruzes pra abrir estradas de uma Companhia de Águas lá na estrada de Taiaçupeba.

Pergunta:
Onde fica?

Resposta:
Em Mogi das Cruzes mesmo, só que é uma estrada que hoje vai pra Bertioga, mais conhecida, mas, na época, era tudo mato, abrir serras né?

Pergunta:
Qual era o nome dos seus avós?

Resposta:
Eu já contei. Constantino Sibof e Maria Sibof. Eles se conheceram no navio e casaram nessa época de transação, nessa estrada, porque eles começaram, eles colocavam as pessoas para dormir nas madeiras e assim eles acabaram se casando.

Pergunta:
Eles casaram no Brasil já?

Resposta:
Se casaram no Brasil. Primeiro, na Igreja Ortodoxa, depois de 12 anos, eles foram casar na Igreja Católica do civil, porque eles não conheciam nada e dessa estrada tinha uma região que era cuidada por italianos, em Taquaruçu, que é uma cidadezinha bonita que tem até uma igreja de Santa Luzia, é bonitinha essa igreja e esses italianos viram que meu avô tinha outros dotes e minha avó também, porque meu avô, ele foi formado na França, alfaiate e minha avó era dançarina, foi na base na arte, música, gostava de música, dança, então... Eles eram de cultura alta na época, mas foram abrir estradas e esses italianos deram conta, não entendiam a língua deles. Meu avô falava que ele fazia isso [gestos de costurar], daí começaram ver coisas pra ele consertar, lavar e a minha avó lavava roupa e toda roupa que lavava, passava, se estava rasgada, meu avô consertava. Os italianos achavam que aquilo era uma coisa nova, e ajudaram eles abrirem uma lavanderia, os italianos... mas eles falavam que não era aquilo que ele queria. Ele queria ser alfaiate, a profissão dele. Mas os italianos ajudaram, pagavam bem pra ele e logo ele montou a primeira alfaiataria dele. Comprou a primeira casa, a segunda casa. Ele foi uma pessoa muito esforçada, um imigrante esforçado para ter o que eles tiveram.

Pergunta:
Quantos filhos eles tiveram?

Resposta:
Eles tiveram 3 filhas.

Pergunta:
Nomes?

Resposta:
[5'] Nomes: Ana, Irene e Catarina e pegaram uma sobrinha pra criar, foi criada, nasceu na casa deles. Então eram 4 filhas, considerando tudo, 4 meninas. Não tiveram filhos homens. Mas eles... e minha avó era analfabeta, não sabia português, entrou na escola noturna pra aprender português. Eram pessoas esforçadas.

Pergunta:
Era analfabeta em português?

Resposta:
Português, mas em búlgaro, russo, ela era bem... ela recebia todos os búlgaros, os russos para ler as cartas na casa dela. Eu vivenciei essa parte também, nas festas também. As festas de casamento levavam uma semana, minha avó dançava em cima de mesa com taça de champanhe em todos os casamentos que eu me lembro de criança. Eu achava aquilo a coisa mais linda do mundo, que as festas eram demoradas, não é? Eram 2, 3 horas, mas todo dia tinha festa. Nos casamentos das minhas tias, eu lembro, minha avó fazia forno para assar os carneiros, eles usavam fazer comida de carneiros com trigo, carneiros, tudo... usavam muito carneiros. Eu vivenciei essa parte que eu achei muito bonito. Eu ajudei ela fazer forno. Eu não gostava de comer as coisas que iam no forno, porque eu via o preparo que ela fazia. Ela fazia o forno com tijolo. Tijolo que ela mesma fabricava, mas daí a parte de cima do forno, ela pegava estrume de cavalo pra dar liga para aquecer melhor e eu achava que aquilo caía dentro do forno, então eu... é vivência que hoje, que a gente sabe, que...mas naquela época que eu ajudava ela fazer, eu achava aquilo muito feio, muito ruim. Eu falava: "Imagine que eu vou comer coisa que é feito com isso!". Mas eu achava que... isso é uma vivência que minhas filhas não viram. Eu tive uma rica, né, parecia uma riqueza na minha vida.

Pergunta:
E você conversava em búlgaro, entendia o que eles falavam?

Resposta:
Alguma coisa. Não, eles falavam entre eles.

Pergunta:
Entre marido e mulher?

Resposta:
Entre marido e mulher. Mas a minha mãe entendia um pouco. Aprendi umas besteiras, mas coisinhas assim que eram besteira, eu aprendi. Mas alguma coisa eu entendia também, mas não sabia responder. Não soube responder. Nem na época eles tinham medo de ser deportados, então eles...

Pergunta:
Eles não falavam a língua por medo de ser deportados?

Resposta:
Por medo de ser deportados.

Pergunta:
Tá. A Ana casou com que idade, a sua mãe, Ana?

Resposta:
Minha mãe casou-se com 18 anos com um de descendência portuguesa. Meu pai era um descendente de portugueses.

Pergunta:
Seu pai se chama?

Resposta:
José Luís Barbosa e minha mãe Ana Sibof.

Pergunta:
Todos nascidos [em]?

Resposta:
Em Mogi das Cruzes. São todos Mogianos.

Pergunta:
A sua mãe nasceu em que ano?

Resposta:
Em 1929.

Pergunta:
E o seu pai?

Resposta:
Em 22.

Pergunta:
Lá mesmo?

Resposta:
Lá em Mogi.

Pergunta:
Mogi. Em sua convivência de infância da qual você tem lembrança com os avós é isso, de alimentação?

Resposta:
É mais de alimentação, festas, músicas.

Pergunta:
Música?

Resposta:
Então, nos casamentos, tocavam aquelas músicas, mas eu não me... eu não vivenciava todo dia, aquelas músicas, só nos casamentos. Tinha muito violino nas festas búlgaras, isso eu me lembro muito bem, que era muito aqui em São Paulo, na Mooca, Ipiranga. Em Mogi, tinha em Brás Cubas que tinha uma colônia grande. Então, eu vivenciava muito, porque eles eram padrinhos de muitas pessoas que eram da Bulgária, filhos que casavam, netos e eles eram padrinhos de muitas pessoas aqui em São Paulo.

Pergunta:
Você gosta muito de cozinhar, portanto posso afirmar que o que você sabe da cozinha búlgara bessarabiana é herança dessa avó?

Resposta:
Ah sim, eu gosto.

Pergunta:
Aprendeu com ela?

Resposta:
Aprendi com ela. Gosto muito das comidas búlgaras e gosto do sabor. Só que quando você fala o nome, na época que eu era criança, eu achava que era um palavrão. Que nem o buschi, que era um charutinho árabe, mas que o preparo é diferente, é feito com... os búlgaros usam muito legumes na comida, cenoura, berinjela, pimentão e no recheio vai também muita coisa...assim, muito hortelã, né. Mas é saborosa a comida búlgara. É muito saborosa...

Pergunta:
Que mais vocês faziam de comida búlgara, que você lembra? O que faziam?

Resposta:
Kiziluseli. Kiziluseli, que é feito com repolho azedo que usam muito na Alemanha também o repolho que fazem com joelho, mas o Kiziluseli é feito com costelinha de porco. [10'] Que usa muito carne de porco e carneiro, era a carne mais usada e usam muito beterraba que lá na Bulgária se usa muito beterraba, o açúcar era de beterraba, tudo de beterraba e só vieram conhecer cana de açúcar no Brasil, em Mogi. Então, não tinha essa cultura na comida.

Pergunta:
Era fácil achar carneiro nessa região onde eles foram morar em Mogi?

Resposta:
Em Mogi, tem muitas pessoas que criam. Em Itaquá [Itaquaquecetuba], Poá tem muita gente que cria carneiro, porque também tem muitos árabes, né? Então os árabes comem muita carne de carneiro. Eles tinham facilidade.

Pergunta:
Você contou pra mim uma história de um preconceito que os búlgaros têm. Qual é a palavra que eles usavam?

Resposta:
Era assim... que quando eles viam, eu não sei por que, lá acho que não existiam tantos negros e eles falavam: "Ó, tcherni... tcherni", então era isso, eu ficava invocada, porque meu avô ficava tão bravo quando chegava uma pessoa e ele falava: "Ó, tcherni... tcherni" e ficava bravo, eu não sei se era um preconceito ou eles não conheciam a situação. E daí eu fiquei sabendo que era o preto, né?

Pergunta:
"Tcherni, tcherni" quer dizer ...

Resposta:
É preto. Então era uma coisa que ficou assim na minha memória de infância.

Pergunta:
Você se lembra de seus pais comentando se os avós comentavam: "Oh! Por que viemos para esse país tão longe... tão...".

Resposta:
Ah, pela promessa de ganhar terras mesmo.

Pergunta:
Eles se lamentavam ter vindo?

Resposta:
Não. Meu avô não se arrependeu de nada, ele tinha medo de ser deportado. O medo que ele tinha era anormal, até anormal.

Pergunta:
E seu avô veio com quantas pessoas de lá?

Resposta:
Ele veio com a família inteira. Todos irmãos.

Pergunta:
Que era quem?

Resposta:
Eram 3 irmãs e dois irmãos. Mas logo um faleceu e outro foi pra Curitiba, o outro ficou morando em São Paulo, aqui em Osasco, também a família era tudo aqui , mas lá em Mogi não tinha nenhum irmão, era só minha avó e meu avô que ficaram lá em Mogi. E o bisavô que chamava de "Diado", que é vovô .

Pergunta:
"Diado" quer dizer vovô?

Resposta:
É, quer dizer vovô. E ele se registrou no Brasil como pedreiro, pra ele ter uma profissão, porque ele não queria chegar aqui sem fazer nada, ele pôs que era pedreiro, puseram ele pra estrada, ele pôs que era pedreiro.

Pergunta:
Mas ele não sabia nada de pedreiro?

Resposta:
Não, não. Lá ele não era pedreiro, ele mexia com hortaliça lá na Bulgária.

Pergunta:
Ô, Ana, eles não cantavam? Você cantou uma música pra mim de herança búlgara.

Resposta:
É por causa do "tcherni", música é russa, porque é assim, dependendo do lugar a influência russa é muito grande dentro da Bulgária, porque é perto, tudo eslavos. Eu não vivi muito com os russos assim, mas eu vejo que a comida é igual e muitas palavras também são parecidas.

Pergunta:
Os seus ancestrais conviveram com russos, com romenos, com turcos, gagaúzos, porque aí foi um caldeirão.

Resposta:
É. Gagaúzos bessarabianos são os mesmos. A mesma... e é muito perto. Quando fala em geografia, o Brasil é muito imenso, mas na Bulgária, o país é pequeno, perto da Rússia, é muito pequeno ali. A capital, Sofia, é maravilhosa, tem uma estrutura boa, mas as aldeias já são mais delicadas.

Pergunta:
Vivem moderadamente, né?

Resposta:
Atualmente, acho que, eu não sei, porque faz 20 anos que eu fui lá, eu não sei agora, vai fazer 20 anos, eu não sei como está atual, mas quando eu... tive até um pouquinho de decepção.

Pergunta:
Estas múltiplas influências foram por causa da guerra, ocupação, invasão, né, cada hora um povo ia e tomava conta dessa região da Bessarábia, não é?

Resposta:
Sim, isso.

Pergunta:
Então canta um pedacinho da música lá que fala dos olhos negros.

Resposta:
Ah! Eu não sei cantar, não. (risos)

Pergunta:
Você cantou um pedacinho...

Resposta:
Eu não sei, nem me lembro mais o que cantei... é uma música famosa russa. Olhos negros, então por isso, porque é "tchernia". [cantando: Porque "tchernia"...nã nã nã nã "tchernia" nã nã nã ...] é essa música. (risos).

Pergunta:
Ana, então você [15'] foi criada em Mogi, tem um dom artístico muito grande, tanto que você, embora não tenha terminado o curso na Belas Artes, você é uma artista plástica em porcelana, em pintura.

Resposta:
É, eu sou assim, uma curiosa, uma técnica de tudo, técnica em artes.

Pergunta:
Como você caminhou pra esta área? Quem te orientou?

Resposta:
Porque hoje, nas escolas, é muito superficial os assuntos de artes nas escolas, mas na época que eu estudei artes plásticas, era coisas que você aprendia desde as costuras...

Pergunta:
Você se refere a que ano?

Resposta:
A época de 53/54 pra frente, até 63/64. As escolas ensinavam muito artes dentro da cultura, da educação, arte era muito importante...hoje não. Quando eu completei 15 anos, meu pai faleceu, eu queria ajudar minha mãe dentro de casa e fui ser cabeleireira, porque era um estudo mais da época que... eu queria ajudar. Minha mãe era modista, eu sabia que tinha que fazer alguma coisa pra ajudar minha mãe.

Pergunta:
Seu pai tinha quantos anos?

Resposta:
41 anos quando ele faleceu.

Pergunta:
Deixou sua mãe com quantos filhos?

Resposta:
Com 3 filhos pequenos. Eu tinha 15, minha irmã 14 e meu irmão tinha 10. Nós somos 3 filhos. Eu, Ana Maria, a Elizabete e o José Luis, que é o nome do meu irmão. E eu comecei a trabalhar com minha mãe, ela era modista, eu bordava os vestidos e com o salão, já naquela época, em 1963, eu já arrumava as noivas e ela já saía pronta.

Pergunta:
Eram vestidos de festas ou de noivas?

Resposta:
De festas e noivas. Minha mãe fazia os das madrinhas e de casamento e eu bordava os vestidos e já arrumava o cabelo das meninas. Então minha mão, a parte manual era muito aguçada. Eu fazia colégio nessa época, fazia trabalho das amigas, fazia da minha irmã e todos tiravam 10. Eu sempre tirei 10 na parte de artes. E quando eu me casei, eu sou da época que quando casava, naquela época, tinha que parar de trabalhar.

Pergunta:
Você casou quando?

Resposta:
Eu casei em 1970... Em 71 ainda estava... a mulher não trabalhava...

Pergunta:
Qual é o nome do seu marido?

Resposta:
O meu ex-marido se chamava Cícero Osmar da Rosa. Advogado, ele se formou em advogado, depois se tornou professor da Universidade. Era uma pessoa bem situada. Daí, quando eu comecei a não trabalhar, pra quem trabalhava com o público, eu não queria ter depressão, não queria ficar trancada num quarto.

Pergunta:
Você tinha 2 filhas?

Resposta:
Eu ainda não tinha filhos, quando me casei eu resolvi... até quando minha filhinha, eu estava grávida, eu fiz todo o enxoval à mão, que era da época de fazer tudo bordado à mão. Apareceu um curso assim, eu falei: "Ah, eu vou fazer esse curso de 1 mês de artes". Daí ela tava pra nascer, depois que ela nasceu, tinha 1 mês e coloquei ela no carrinho e fui fazer o curso e aguçou a arte.

Pergunta:
Em Mogi?

Resposta:
Em Mogi das Cruzes. Era um curso de várias técnicas e de lá em diante eu ultrapassei o professor, ultrapassei as técnicas dele, daí ultrapassei e fui aprender porcelana. Fui fazer workshops, que agora é workshops, antes era só cursinhos. E comecei a fazer de várias matérias e desenvolver, porque não adianta você aprender e não desenvolver. Eu participo muito da parte de pesquisa, então meu sonho, quando comecei a fazer porcelana, era fazer a história [de Mogi] na porcelana pintada à mão. Era meu sonho. Demorei muito pra fazer isso, porque daí eu recebi uma herança e eu falei, eu vou fazer esse projeto que eu vou vender tudo, eu achei que ia vender. Gastei 30 mil reais, isso 15 anos atrás. Minhas filhas ficaram loucas da vida comigo.

Pergunta:
Já estavam crescidas?

Resposta:
Elas já estavam crescidas e já estavam formadas.

Pergunta:
Você já estava separada?

Resposta:
Já estava separada, então eu queria fazer o sonho. Gastei esse dinheiro todinho no que eu...Porque eu não sou muito de ficar pedindo patrocínio, isso patrocínio, porque você pede 50, você ...5 né? 1%. E eu falei, não, esse dinheiro eu vou... vou reverter isso tudo, [20'] não reverti. Vou revertendo aos poucos. Até hoje eu tenho...até vou fazer uma exposição agora dia 1º./9, porque é aniversário da cidade, depois de 5 anos, vou fazer de novo, mostrar esse projeto e que toda vez que mostra o projeto, você vende uma peça ou outra, mas não recebi aquele dinheiro que investi. É coisa de artista, né? Faz parte. Mas eu realizei...eu sou uma pessoa que...eu consigo realizar meus sonhos.

Pergunta:
Fala um pouquinho dos vestibulares de Belas Artes. Por que abortou?

Resposta:
Então... eu tinha as meninas na faixa etária, a minha mais velha tava com14 anos e a outra com 9 e estavam estudando em escola particular. Eu prestei vestibular aqui, Belas artes de São Paulo. Nossa! Ganhei em primeiro lugar na criatividade, ganhei prêmios, ganhei bom todos... nossa! Todo mundo deu parabéns. Mas aí eu fiquei pensando, era escola particular que minhas filhas estudavam e comecei a ver que eu não ia conseguir cuidar delas, pintar para expor e fazer faculdade, unir tudo junto e eu tinha sonho de construir...querer fazer coisas e então dei preferência que elas estudassem. Hoje elas são...uma é biomédica e outra é cirurgiã dentista, todas bem estruturadas...bem eu não tenho mais preocupação na estrutura de vida delas, que elas já estão, cada uma está com seu consultório, com a sua vida em frente.

Pergunta:
Então, você fez vestibular na Belas Artes, ficou 3 meses cursando, daí essa guinada na vida e transferiu para Mogi?

Resposta:
Não, daí eu fiz transferência, fui fazer, falei, tenho isso aqui das Belas Artes. Ah não, Ana. Você, com isso, dá para entrar. Entrei na faculdade de Mogi das Cruzes, Daí, estudei quase 1 ano lá. Daí não consegui, porque, infelizmente pra mim, a faculdade não estava dando crescimento. Não estava dando retorno no que eu precisava, no que eu queria. Sabe, então eu estava mais me doando do que recebendo. Aí eu parei, falei: não, eu vou com meus propósitos de trabalho.

Pergunta:
Não cortando, você se tornou autodidata?

Ana:
Autodidata. Hoje com 753 exposições, 46 anos trabalhando com artes, sou uma pessoa realizada. Pinto hoje muitas coisas búlgaras, em pesquisa porque eu gosto de pesquisar muito e muita coisa. Quando eu entrei para a Associação Búlgara, conheci várias pessoas, a Sônia, o Jorge Cocicov, o Dr. Jorge Cocicov, que escreveu livros, que eu tenho trabalhos em 2 livros dele. Eu fui aprofundando pra conhecer. Eu tenho tido ajuda das meninas que conhecem mais as coisas búlgaras, porque eu não tinha conhecimento na arte búlgara, só quando eu fui lá, eu conheci pouca coisa também, mas não trouxe muita coisa pra mim tentar. Então, eu participo da exposição no Museu da Imigração já há 13 anos que eu mostro o trabalho em cima das coisas búlgaras. E como a Bulgária é um... tem referência de flores porque a rosa da Bulgária é a rosa mais famosa do mundo, manda todas as essências pra França, pra Alemanha, pra todos os lugares do mundo. A essência da rosa é da Bulgária, de lá que manda pro mundo inteiro e na porcelana se usa muito rosa, então eu não sinto muita dificuldade de representar. E procuro pôr todo ano peças assim do cotidiano búlgaro da parte cultural, um trabalho diferenciado e é onde eu estou tentando mostrar o que eu gosto de fazer.

Pergunta:
Você está no segundo mandato da Associação Búlgara?

Resposta:
É, estou no segundo mandato as... sou presidente da Associação Búlgara, do povo búlgaro, cultura búlgara da Bessarábia, gagaúzos e bessarabianos. Então é outro lado que também com o livro do Dr. Jorge Cocicov, eu conheci muita coisa que também não conhecia. E nós estamos tentando resgatar muita coisa. Houve o resgate das 151 pessoas mortas em Ubatuba, na Ilha Anchieta.

Pergunta:
De pessoas mortas, os descendentes?

Resposta:
Descendentes que vieram e foram para lá. O governo mandou um navio para lá e colocou umas pessoas.

Pergunta:
Uns búlgaros?

Resposta:
Uns búlgaros. E 90% eram crianças e eles [25'] tomaram uma sopa de mandioca brava, essa mandioca brava matava... quem morreu? Mais as crianças e os velhos. Daí, quando o Governo tomou a decisão de pegar os que estavam ainda vivos e mandar embora, voltar pra terra. E ano passado nós fizemos uma... o Dr. Jorge com a Associação fez um resgate desses mortos, uma missa que nunca foi feita, uma missa pra essas crianças que é uma judiação, que vieram pra cá pra morrer, que estavam no navio...e então...

Pergunta:
Você falou em resgate da cultura búlgara bessarabiana da qual você descende. Você me contou um episódio no Mercadão lá em Mogi.

Resposta:
Então... meus avós moravam perto do Mercadão. Mogi era muito pequenininho. Cresceu muito, mas ele tinha alfaiataria perto do Mercadão. Nós sentávamos... tinha 3 famílias búlgaras que morava perto umas da outras ali e de tarde minha avó, ela pegava na frigideira, fritava girassóis.

Pergunta:
Sementes?

Resposta:
Sementinhas, porque é costume da Bulgária comer sementes de girassol e semente de abóbora e minha avó colocava e a gente sentava na porta da alfaiataria, que tinha degrau e ficava comendo. Todo mundo: "Ah! os papagaios aí". Os papagaios porque aqui no Brasil quem comia sementes eram só os papagaios e na minha cultura lá deles, eles tinham o costume e eu até hoje adoro semente de girassol torradinha.

Pergunta:
Então pode-se dizer que era o ponto de encontro do imigrantes búlgaros?

Resposta:
Sim, nessa época, nessas... era aquela... muitas pessoas búlgaras então, sentavam. Uns tinham lavanderia, outro tinham alfaiataria, outro lojas de sapato de roupa e minha avó sempre, minha avó sempre gostou de cozinhar, de fazer as coisas, muitas coisas gostosas e ali as criançadas gostavam dessa parte. Eu saía do meu colégio, era perto, ia para a casa dela e ali eu ficava.

Pergunta:
Ana, você tem muita atividade de cursos e de aulas na prefeitura em outras cidades. Conta um pouquinho isso.

Resposta:
Eu fiz...eu sou uma pessoa assim que, quando comecei, eu fui a fundo nos meus cursos e fui convidada pra coisas e, que nem eu falei, eu gosto de pesquisar, fui convidada uma vez pra dar aulas lá em Rondonópolis, Mato Grosso, para os índios e receber cultura deles, das tintas.

Pergunta:
Como é que foi essa troca?

Resposta:
Eu mostrando as tintas que eram industrializadas e eles mostravam as tintas que eles produziam das pedras, da terra, das pedras, das folhas, das folhas, da casca da árvore. Foi uma experiência muito linda isso pra mim.

Pergunta:
Você incorporou alguma técnica que os índios usavam?

Resposta:
Sim, usei muito. Usei não, eu uso ainda muita coisa. E na porcelana, a mesma coisa. Eu aprendi muita coisa com a técnica de porcelana com pedras brasileiras e até hoje eu introduzo no meu trabalho as pedras brasileiras, cristais brasileiros; eu gosto muito de trabalhar com cristal.

Pergunta:
Você tem obras premiadas?

Resposta:
Tenho várias. Muitas premiadas, tenho. Mas sempre eu conto assim, tenho muitas, mas tem sempre aquela que é a última a gente fica assim mais grata, porque é a que está mais perto da vivência de hoje, né? Mas faz 3 anos que eu recebi o último prêmio e... mas o prêmio mesmo pra mim não é o prêmio em dinheiro... é o prêmio de ter acontecido de estar ali naquele momento, porque enquanto eu estiver viva eu quero continuar trabalhando. Enquanto você tiver sendo convidada e você conseguir entrar no salão, porque às vezes depende do crítico de arte. Porque, se você põe o trabalho moderno e o crítico é clássico, seu trabalho não entra e se seu trabalho é clássico e põe com crítico contemporâneo, não entra. Então, é um jogo e então você fica na expectativa sempre. Eu acho isso muito interessante, então, de estar... eu sempre procuro inovação e eu não tenho uma linha só de trabalho, só vou no clássico, não. Eu hoje estou com vontade de pintar uma coisa que está dentro de mim, moderno, eu vou procurar fazer, pôr aquilo no mais moderno possível, mais contemporâneo, mais louco do que se pode imaginar. [30'] E daí... bom... vou pintar uma porcelana. Porcelana não é clássico, no entanto, em 1982, em Kansas City, eu fiz uma exposição em Kansas City.

Pergunta:
Onde você fez?

Resposta:
Em Kansas City, Estados Unidos. Eu não sabia que fui fazer uma exposição só com professores, eu sempre fui muito ousada. E chegando lá, eu não sabia que ninguém tinha colocado abstrato na porcelana em 82. Quando coloquei, explodiu nas revistas de mídias direcionadas à porcelana... o trabalho chamava-se O encontro do amor, ficou no Museu de Kansas City, depois foi pra Dallas, porque é perto.
Eu vim pra São Paulo, daí começaram a me chamar para um monte de exposições e os professores clássicos achavam... ficavam bravos, porque "Ah, faz isso porque não sabe fazer outra coisa". E eu falei: Por que que eu não sei fazer outra coisa? O que é mais difícil numa porcelana? Ah o retrato, tá bom. Aí eu punha abstrato e retrato abstrato e retrato. Daí que veio o respeito pelo meu trabalho de artes, porque os professores clássicos não gostavam da parte contemporânea que eu fazia. "Ah, põe lá e joga uma monte de tinta". Eu falava pra eles: "Não estou jogando um monte de tintas, estou pondo um propósito de trabalho." E daí veio o respeito. Então, hoje sou respeitada também na linha da... lutei pra arte, arte do fogo como era conhecida a arte da porcelana, pra ser arte maior, porque era arte menor. Então, em São Paulo, um grupo, nós não conseguimos isso: fomos para o Rio de Janeiro e lá o Brizola era o governador do Estado, ele conseguiu pôr a porcelana como arte maior. Então tem Edital, no Jornal do Tutorial, que a porcelana conseguiu entrar para a arte maior com os nomes das pessoas e consta o meu nome. Então, isso é uma conquista que eu conquistei, né? Em Mogi também, na mesma época, eu comecei com um grupo feminino de 5 mulheres, numa época de exposição. Faz 2 dois anos que terminou esse grupo porque...

Pergunta:
Elas eram artistas também?

Resposta:
Eram todas artistas. Era um grupo de 5, e 3 já faleceram, então não existe grupo. Existe sim dupla. Mas nós conquistamos o Centro Cultural de Mogi.. esse grupo, e conseguimos a Pinacoteca que é tudo novo. Conseguimos a...mas demorou muito pra conseguir. Elas não conseguiram ver em vida. Mas tem a sala delas no Centro Cultural e na Pinacoteca também. Então, nós conseguimos tudo isso. Foi uma luta, era uma luta. As mulheres têm garra. Hoje eu sou uma pessoa que me realizei em todos os sentidos. Só financeiramente que nunca tenho (risos) porque... (risos).

Pergunta:
Isso que eu ia perguntar. Dá pra viver de arte?

Resposta:
Não tem porque é investimento em cima de investimento, mas se não for assim eu não me realizo. Então, eu não ligo de...hoje eu não tenho, mas se eu tiver trabalho pronto, amanhã eu vou ter.

Pergunta:
Você tem algum trabalho encaminhado agora para esses tempos?

Resposta:
Final do mês agora nós estamos em agosto, no dia 28, 29, 30 e dia 31, dia 1º., que vai calhar com a cidade de Mogi, vou ter a Expo Mogi, vou trabalhar todos esse dias. Vou fazer uma exposição com essa última amiga que é do grupo feminino. Nós vamos levantar a historia do grupo feminino que é a segunda exposição e a terceira vai ser no Centro Cultural, que vai abranger uma exposição que gera para todos os artistas, que quem colaborar com essa exposição do grupo feminino que vai fazer uma homenagem para elas. Então o que eu posso fazer? Tenho que trabalhar. Eu estou me sentindo muito, sabe, divulgação eu tenho na mão, sempre tive divulgação fácil dentro da minha cidade, então eu tenho que aproveitar. Eu estou aqui hoje também a seu convite, convite porque eu estou tentando resgatar uma parte da Associação [dos Búlgaros] o que é uma missão, acho que isso aí, é uma missão que entrou em minha vida, porque tem tantos búlgaros, tantas pessoas.. e se chegou a mim eu tenho que fazer alguma coisa nessa história.

Pergunta:
Além das aulas na prefeitura em Mogi das Cruzes, você me disse de outros projetos, projetos de inverno que você trabalhou em Uberlândia. Que outras cidades?

Resposta:
É isso. Eu fiz em Rondonópolis. Em Uberlândia, eles tinham um projeto muito bonito. Todas as férias, eles englobavam a cidade inteira e eu chegava lá, tinha faixas, a Globo, porque eu sempre dei aula pra criança tanto de 5 anos até 90/92. E tinha uma senhora lá em Uberlândia que esperava chegar a data pra ela fazer, ela tinha 92 anos, naquela época. E isso já vai fazer 10 anos. Então, tinha faixa, a Globo punha faixa no meu nome, para quando eu chegasse lá. [35'] Isso tudo são conquistas que não é pra eu me vangloriar, você entende? Mas são coisas que eu conquistei, coisas que às vezes as pessoas não sabem e eu não sou de ficar falando, falando, só quando dou entrevista assim, eu falo um pouquinho pra contar que já trabalhei muito e trabalho e continuo trabalhando. Hoje eu dou aula em casa, no meu Ateliê. Tenho uma aluna de 93 anos e não por acaso e o acaso, ela era de São Caetano e tem uma paixão por São Caetano. Tem um filho que mora aqui, netos dela que moraram aqui, o marido dela trabalhou aqui também. Então ela....eu falei "Amanhã vou para São Caetano, sua terra" , e ela "Ai, que saudade que eu tenho". Dona Neuma Straizer. Marido também era do SESI. Professor do Sesi.

Pergunta:
Além da pintura em tela e porcelana, você também já transitou por outras áreas, né? Como bordado... que mais? Tricô...

Resposta:
Sim, tudo que é manual. Eu trabalhei muito com tudo que é manual: Crochê, tricô, tudo que é bordado, enxovais das minhas crianças. O meu enxoval próprio, antigamente se faziam em casa enxovais. Hoje tem tudo pronto, uma regalia, muito fácil [risos], vai numa loja de departamentos, tem tudo prontinho. Em um dia você faz o enxoval. Antigamente, não, com 15 anos eu já estava fazendo enxoval. [risos]

Pergunta:
Ana, na nossa conversa, você me falou que doou ouro "doei ouro para o bem do Brasil"?

Resposta:
Existe... na minha... eu passei...

Pergunta:
Onde era isso?

Resposta:
Eu passei muita coisa na minha infância. Eu me lembro que estava no colégio e a professora explicou que tinha que dar ouro para o Brasil...

Pergunta:
Isso na década de 60.

Resposta:
De 60. Eu peguei, fui na minha casa e peguei os ouros que eu tinha. Minha avó que deu coisas de Portugal, aquele ouro português, peguei tudo, cheguei, era numa igreja que a gente entregava, a igreja do Rosário em Mogi das Cruzes, toda feliz entregando meu ouro para o Brasil, pra minha Pátria. Saí de lá com um anelzinho de latão escrito: "Ouro para o bem do Brasil". Eu tenho até hoje esse anel. Já entrou ladrão em casa, tudo ele levou, minhas jóias, mas não levou o latãozinho. Eu acho que é para eu guardar de lembrança. [risos]

Pergunta:
Você angariou o ouro da família e o governo te deu um anelzinho de latão, escrito...

Resposta:
Escrito: "Ouro para o Brasil".

Pergunta:
"Ouro para o bem do Brasil".

Resposta:
"Ouro para o bem do Brasil", está escrito lá.

Pergunta:
Na década de 60, Regime Militar.

Resposta:
Regime Militar. Tem muitas coisas que a gente diz assim, passa, né, mas você, eu comentando, eu lembro a fila que eu enfrentei para entregar esse ouro. Se fosse no dia de hoje, acho que tinha um monte de ladrão catando os ouros [risos]. Bom, foi o Brasil que catou primeiro [risos]

Pergunta: Ana, dentre os pratos que você cozinha, os pratos da tradição búlgara bessarabiana, você citou para mim "milinka, patchá". O que é "milinka"?

Ana: "Milinka" é um folhado feito com queijo, ele é fácil de fazer, mas ele é trabalhoso. Agora diz que existe uns cilindros aí que fica fácil, mais rápido, mas eu sei, sou meio tradicionalista pra fazer as coisas, tenho que fazer de acordo com o que aprendi. Mas ele é trabalhoso porque tem que secar a massa, tem que deixar a massa secar, tem que ser fininha, igual papel. Depois, você enrola com queijo. E "milina", não "milina" é "melinka", cada região fala uma coisa, que pode ser feito com abóbora também. E tem o "tukimanik". Tem a...

Pergunta: O que é o "tukimanik"?

Ana: "Tukimanik" é...só que é um pão já diferente, já é uma massa não folhada, é uma massa de pão mesmo e é recheada também com queijo. Usa-se muito ricota. Usa-se muito ricota lá. Minha avó pelo menos usava muito ricota.

Pergunta: E o "patchá"?

Ana: "Patchá" é feito com os miúdos do porco, orelhinha, miúdos, patinha, rabinho...é gelatina. E tem que tirar a gordura, tem que cozinhar bem, [40'] tirar a gordura, depois põe muito alho e depois na hora de comer, espreme limão.

Pergunta: E aquele arroz com repolho azedo, como chama?

Ana: "Kiziluseli".

Pergunta: "Kiziluseli"?

Ana: É "kiziluseli". Eu já fiz até uma matéria desse "kiziluseli", que está no Youtube até. É feito com carne de porco e o repolho azedo. Tem que azedar em 3 dias o repolho, tem que ser azedo e depois coloca com arroz, tomate, costelinha de porco. Já deu fome, né? Dá fome só de começar a falar. É uma delícia.

Pergunta: E aquela batata ensopada com berinjela?

Ana: É "kartosk".

Pergunta: "Kartosk"?

Ana: "Kartosk", é

Pergunta: Essas são comidas tradicionais usuais...

Ana: Usuais.

Pergunta: Comuns.

Ana: Comidas comuns.

Pergunta: Do cotidiano.

Ana: Cotidiana e muita beterraba. Minha avó cozinhava, usava muito beterraba.

Pergunta: E doces, sobremesas, não tinha?

Ana: Olha os doces que minha avó, pelo menos que ela fazia, era assim, era muito com abóbora, com massa, eu não me lembro, ela fazia ... como minha avó era muito curiosa, ela também [copiava?] muito o jeito das coisas brasileiras. Ela aprendeu a fazer abóbora cristalizada, mas eu não sei se lá faziam, mas lá em Mogi, como era o point fazer fruta cristalizada, figo cristalizado, ela fazia muito e eu aprendi a fazer com ela para fazer isso. Mas eu não sei se é tradição de lá, isso eu não posso confirmar não.

Pergunta: Ana, quando você era criança, jovem, tinha festas de aniversário, bolo, tinha isso ou não tinha?

Ana: Tinha.

Pergunta: Como era a tradição de vocês comemorarem aniversário. Vocês comemoravam aniversários ou não tinham condições?

Ana: Muito. Tinha. Tudo era festa. Tudo era festa. E eu segui essa linha, tudo eu viro festa. A minha avó tudo virava festa. Até brincadeira de criança. Até comer o girassol era festa. Tudo virava festa. Eu sou assim também. A minha avó, com todo sofrimento que ela veio, tudo o que a família dela, maior parte da família da minha avó foi embora, voltou para a Bulgária, só a do meu avô que ficou no Brasil, o resto voltou, porque morreu lá na Anchieta uma parente dela, o resto voltou tudo pra Bulgária.

Pergunta: Na Ilha Anchieta.

Ana: Voltaram tudo pra Bulgária e ela perdeu os contatos, não voltou nunca mais pra lá e nunca mais ela viu a família. Então, com tudo isso ela, acho que sofria, mas ela com tudo, ela transformava em alegria. Os bons momentos, aquele momento, viravam festa. Eu sou assim também. Por mim eu faria festa todo dia.

Pergunta: E o Natal, como era o Natal? Tinha comemoração ou não tinha condição de comemorar o Natal?

Ana: Tinha. Os meus avós sempre, dos dois lados, sempre comemoravam o Natal. Era diferente. O Natal, a Páscoa dos búlgaros era bem diferente.

Pergunta: Como era a Páscoa?

Ana: Páscoa era maravilhoso, porque minha avó fazia os ovos pintados.

Pergunta: Ovos naturais?

Ana: Naturais, cozidos. Ficavam todos em volta da mesa, a família inteira. O Diado, que era o mais velhinho, que era o meu avô, bisavô, começava com o ovo, quebrando dos mais velhos para os mais novos.

Pergunta: Ele ia quebrando?

Ana: E passava de uma mão para a outra e falava: Hritôs Vaskrãvane por 3 vezes.

Pergunta: O que quer dizer?

Ana: Eu acho que é: "Cristo com você", eu penso que era isso. Eu sei que ele falava essas palavras. Então eu tenho... e quando chega a Páscoa, eu ligo para as minhas primas e falo pra elas... Elas falam: "Só você mesmo pra relembrar essas coisas".

Pergunta: E de que cor ela pintava os ovos?

Ana: A minha avó pintava com as cores naturais, beterraba, pimentão, espinafre, cores diferentes e de vez em quando ela fazia um carimbinho, punha uma cor na outra, assim que ...ela era muito caprichosa, a minha avó. Era muito caprichosa.

Pergunta: E tem algum episódio comovente dessa história familiar que você se lembra? Uma coisa que comove o coração, que te deixa emocionada?

Ana: Essas histórias de passagens de Natal. Natal e Ano Novo. Ano Novo, minha avó sempre falava que tinha que ter uma vassoura na porta da entrada para tirar as coisas ruins.. Eu não sei se era um tipo de bruxaria, sei lá, que a gente lembra vassoura...bruxa, né? E sei que ela varria, depois que passava o ano, no dia 31, varria a casa e deixava a vassoura lá fora. Eu não sei o significado, ela só falava...e batia panela...meia noite era bater panela...bater panela [45'] que era mais que uma coisa. Iá no poste das ruas e.... bater panela. Toda a criançada, os bulgaradas da Coronel usava isso. Agora....

Pergunta: Final do ano?

Ana: É passagem do ano. Na passagem do ano, isso.

Pergunta: E você tem lembrança de ganhar presentes de Natal ou no aniversário?

Ana: Do lado dos avós portugueses sim, búlgaros, não. Recebia dia 6 de janeiro, dia de Reis. A minha avó dava sempre presente no dia de Reis.

Pergunta: Que presentes eles costumavam dar?

Ana: A minha avó dava sempre dinheiro, pra não faltar nunca dinheiro, eram coisinhas pequenas. E dava chave, porque ela falava que era a chave da felicidade, sabe? E eram só coisas assim, mais simbolismo... não era nada de...não tinha esse negócio de comprar isso, comprar aquilo, não. Minha mãe que dava assim uma boneca, o meu pais também, mas de avós, assim na minha infância, não tinha essas coisas não. Na parte búlgara era assim mesmo. Ela fazia um bolo também, isso também me lembro,,. Eles faziam um bolo na Páscoa também, ela punha dinheiro embrulhado, ela punha embrulhado no papel de seda, dinheiro...

Pergunta: Dentro do bolo?

Ana: Dentro do bolo.

Pergunta: Assava com o bolo, o dinheiro?

Ana: Não! Depois que assava, ela colocava, quem ia receber dinheiro,quando cortava o bolo, ia ficar rico,e quem recebia essas coisinhas, chave, ela punha umas coisinhas assim...

Pergunta: Simbólica?

Ana: Simbólica. Argolinha porque ia casar. Sabe, eram umas coisinhas assim e também era comemorado em março, dia 1º. de março. Eles faziam muitas festas também dia 1º. de março, que vim saber depois que era dia da Primavera. 1º. de março era dia da Primavera, que era pra nunca faltar colheita, seja a colheita sempre farta.

Pergunta: Isso rememorando o hemisfério norte.

Ana: É porque aqui não. Aqui é setembro, lá é dia 1 d de Março, que hoje eles falam vovó.
Marta, que tem o simbolismo da avó. Vovó Marta.

Pergunta: Por quê?

Ana: Vovó Marta.

Pergunta: Por que vovó Marta?

Ana: Porque tem o simbolismo da avó, eu não sei muito bem o porquê?

Pergunta: Que é vovó Marta?

Ana: Vovó Marta é o símbolo deles, que eles usam para simbolizar a família. É que é a fartura da Primavera, que tem aquelas bonequinhas feitas com lã que eles colocam nas árvores. Acho que alguém já comentou sobre isso. Que é a Babitza. Eu acho... não sei...alguém comentou?

Pergunta: Não. Como é que é isso?

Ana: É uma historinha da época da guerra, que termina a guerra, o último principado que avisou pra... mandou o recado que ia para a guerra e mandou pelo pombo correio. É uma lenda. E o pombo correio, no meio dessa trajetória de levar que acabou a guerra, ele foi... atiraram no pombinho. Então ele estava com o pergaminho amarrado com um fiozinho de lã e machucou o pombinho. Então, um lado ficou vermelho de sangue e o outro lado era branquinho. Na hora que chegou para avisar da guerra, que terminou a guerra, esse... ficou esse símbolo do final da guerra, da mãe Marta, que é dia 1º. de março que é a primavera. Mudança, vivência, coisa de mudanças, coisas boas... então é o símbolo de Boa sorte que é o dia que deseja para todo mundo Boa Sorte.

Pergunta: Ana, nós estamos terminando, eu gostaria que você deixasse alguma mensagem, se você quiser dizer mais alguma coisa, ou finalizar com uma mensagem para as futuras gerações para os jovens que estão aí, uma mensagem.

Ana: Eu acho assim, que às vezes quando a gente é criança, a gente tem vergonha das coisas que acontecem, de ser assim uma descendente de um país que você não conhece, de um modo de falar que é diferente. Eu acho que hoje, [com] a globalização é mais fácil de você entender. Naquela época não era, né, não tinham essa comunicação que nós temos hoje. Mas eu acho que o respeito, o respeito, as pessoas têm que respeitar mais essa parte, essa conduta que às vezes as pessoas não entendem, que a [50'] cultura das pessoas é diferente. As pessoas são diferentes, nós somos diferentes um do outro. A cultura tem que ser respeitada, de países que, pra não ter guerra, tem que pensar na paz, porque enquanto a pessoa fica achando que tudo que ele faz é certo, continua errado. Então tem que pensar mais do lado que é o respeito em primeiro lugar de tudo é o respeito. E eu sou, eu sou uma pessoa que sou gratificada pela vida, vivo a vida hoje e agradeço a vida que eu tenho, porque eu aprendi isso. Não foi fácil não, foi com duras penas, mas eu acho também que as pessoas tem que aprender o respeito e o respeito está ai, começando dos jovens, que são lindos maravilhosos, têm uma cabeça aberta, tem tudo para aprender, né? Igual minha neta fala: "Vovó, vê no Google, pronto! É só ver no Google (risos ), né?

Pergunta: Está bom, muito obrigada!

 

 



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