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Marina Volcov morou na divisa de São Caetano do Sul com São Paulo, na várzea, perto do rio. Seus vizinhos eram das famílias Picoli e Morceli. Sua infância foi próxima ao rio Tamanduateí.
Seu primeiro marido, Ernesto Ribardenera Jara, foi vice-cônsul geral do Equador (1956). Em 1963, casou-se com Bernardo Pastore.
Marina tem dois filhos: Ernesto, do primeiro casamento, e Ernani, do segundo casamento.
Faz bordados em pedraria na empresa Ernesto Jara Bordados, Borer Borer ME e já foi manicure no salão Jacques Janine em São Paulo.
Os pais vieram da Bessarábia com quatro filhos e o pai lutou na I Guerra Mundial.
Texto produzido por Vilma Lemos a partir das memórias e relatos de d. Marina. Optou-se por redigir em 1ª. pessoa. O texto passou pela leitura da depoente.
Nasci no dia 29 de outubro de 1933, mas só fui registrada em 1934 e puseram que nasci em 14 de maio! Naqueles tempos, era assim, juntava-se uma porção de crianças nascidas e registravam em levas (risos). Nasci em São Caetano do Sul (SP). Meus irmãos Melania (mais velha), Ana (Ranna), Neide (Nadesda) e Cristina (Krastina) nasceram na Bessarábia e Andreia (André), na Ilha Bela. Pet, Sergei e Maricha morreram bebês e estão enterrados no Cemitério de São Caetano do Sul.
Meu pai se chamava Pedro Volcov, nascido na Bessarábia em 1885, sob dominação da Romênia na época. Minha mãe se chamava Xênia, nascida em 1883, na França, na cidade de Lyon.
Meu pai tinha vindo da I Guerra, a situação estava ruim, os romenos dominando a Bessarábia, cobravam muitos impostos. Por isso, decidiu vir para o Brasil. O governo prometeu que eles viriam aqui para ensinar, prometeram casa e terras também. Mas a realidade foi bem diferente. Meu pai chorava quando contava a história.
Antes de partir, minha avó acompanhou mamãe até o navio, deu-lhe muitas joias, que foram costuradas na barra da saia. Essas joias sumiram no Brasil, no caminho de Santos para o Brás.
Quando chegaram em Santos, os donos de fazenda só queriam famílias que tivessem filhos homens. Checavam também a saúde física.
No porto de Santos, aconteceu um empurra-empurra. Minha mãe estava grávida. Rasgaram os papéis que diziam que iriam dar casas para os que chegaram. Meus pais pensaram em voltar para a Bulgária.
Nisso, meu pai viu um alemão, capataz de fazenda, protegendo a família Raico, búlgaro, amigo de infância de meu pai. As mulheres dessa família eram lindas! Daí, meu pai juntou-se a eles. Meu pai falava bem alemão. Este alemão veio a se casar com uma filha dos Raico.
Meu pai procurava uma tia que já estava aqui no Brasil. Levou 7 anos para se encontrarem. Era a Baba Penaglia, mãe da Kalina, que vocês já entrevistaram. Por isso, ele viajou para o Sul e minha mãe e os filhos ficaram na V. Alpina.
Ela queria voltar para a Bessarábia. Mais ou menos em 1930, meu pai e as famílias do Sul vieram para São Paulo e foram na porta do Consulado porque queriam voltar. Faziam reivindicações. Apanharam muito. Meu pai foi preso! Minha mãe deu à luz sozinha. Ele ficou quase um ano preso! Na prisão, ele cantava e tocava a balalaica. As pessoas gostavam muito.
Lá na Vila Alpina, conhecemos uma negra, a d. Chica, na igreja. Meu pai adorava ela. Sempre levava legumes para ela. Foi ela que ensinou eles a plantar.
A tia Pena, mãe da Kalina, trabalhou em fazendas. Fazia pães e as pessoas se encantaram com suas receitas.
Minha mãe ficou muito doente, passou por várias internações. Na última, mandou chamar Donna, viúva, amiga da mãe e dela. Pediu para cuidar de nós, suas joias. Minha mãe faleceu quando eu tinha 6 anos. Ela costumava dizer para o marido "Pedro, Pedro, onde você foi me trazer! Nós éramos ricos, lá (Bessarábia) tínhamos tecelagem!". Meu pai dizia que ela dançava como uma "borboletinha". Ele chorava muito quando falava dela.
Meu pai esperou um ano para se casar com Donna, que também era búlgara. Ela era trabalhadora intensa, incansável. Eu só tive consciência de que não era minha mãe biológica aos 12 anos. Ela foi excelente mãe e não gostava de ser chamada de madrasta. Não teve filhos com meu pai, mas trouxe um filho, o Jorge Dimitrov.
Quem cuidava de mim quando pequeninha era meu irmão André. Nossa diferença de idade era de 4 anos. Ele fazia comida, lavava roupas. Para poder fazer as coisas, me punha numa bacia grande - naquele tempo, tomávamos banho de bacia, com canequinha - forrada com travesseiro de pena, dava uma mamadeira de chá e dizia "Você me respeita!"
As minhas irmãs estudavam internas no pensionato da Santa Casa. Uma vez por mês vinham para casa. Eu só estudei até a 4ª. série ginasial. Em São Caetano do Sul estudei no Grupo Escolar Senador Fláquer. Já na Vila Prudente, estudei na Escola Orozimbo Maia, onde fiz a admissão ao ginásio.
Nós moramos em muitas lugares: São Caetano, Santo André (Fazenda da Juta), São Paulo, na Vila Bela e V. Prudente (na Ibitirama com rua das Glicínias). Moramos na várzea, o Rio Tamanduateí foi minha infância, na divisa São Caetano com São Paulo. Fomos vizinhos das famílias Picoli e Morcelli.Quando me casei, vim morar nos Jardins, em São Paulo.
Na Vila Bela, meu pai era negociante, tinha um Empório, onde vendia de tudo: corda, querosene, tamancos etc.
Eu namorei bastante. Como eu cantava e dançava com trajes típicos das mulheres búlgaras, eu fazia muito sucesso, todos gostavam. Gostei muito de um rapaz, o Dinho, Oswaldo, filho de portugueses. Eu tinha 13 anos, ele 21. Mas ele já tinha uma "amiga", a Diva.
Quando eu tinha 17, 18 anos, conheci meu futuro marido, Ernesto Ribardenera Jara. Ele tinha uns 30 anos e trabalhava na diplomacia, era Vice-Cônsul Geral do Equador no Brasil. Foi numa festa de uma amiga de minha irmã Cristina. Eu pensava que ele estava interessado na Cristina. Um dia, ele apareceu na Vila Bela com uma caixa de bombons e flores. Perguntou para meu pai sobre Cristina. Eu estava pulando corda e ele conversou comigo. Daí, começou a vir toda semana.
Em 13 de outubro de 1956, eu me casei com ele. Tivemos um filho, o Ernesto, hoje com 60 anos. Mas, para minha tristeza, meu marido teve uma hemoptise e faleceu em 16 de setembro de 1957. Fiquei casada apenas um ano.
Em 1963, casei-me novamente com Bernardo Pastore, que conheci num baile em São Caetano. Ele era funcionário público da Secretaria do Tesouro e tinha um "bico" com táxi. Eu era 3 anos mais velha que ele. Não fui feliz nesse casamento, que durou 7 anos. Engravidei e tive outro filho, o Ernane Pastore, em 1968, que também mora em São Paulo.
Tínhamos um bar e restaurante na Rebouças com a Av. Paulista, mas construíram um viaduto e o dinheiro da desapropriação?! Nunca vimos.
Mudamos para uma chácara no Jardim Periperi e eu ficava muito tempo sozinha, isolada, com 2 filhos. Separei-me de Bernardo e voltei para a V. Bela, fui morar com uma tia mais velha. A situação financeira era ruim. Voltamos para São Caetano do Sul, Ernesto tinha 14 anos.
Trabalhei como manicure no salão Jacques Janine. Na década de 1970, mudei para a Praça Roosevelt e arrumei emprego como corretora na GBOEX (pecúlio dos militares). Aí, trabalhei por 12 anos e a situação financeira melhorou.
Em 1983, meu filho Ernesto e eu entramos na área de Alta Moda, com a marca Fundamental: Ernesto Jara Bordados, Borer Borer ME (Bordados). Eu já fazia bolsas artesanalmente bordadas em pedraria.
Hoje, ainda sou preparadora do material para os trabalhos do bordado.
Os búlgaros e suas tradições representam muito para mim. Participo das reuniões dos descendentes, ainda faço as comidas típicas como "pirishques (pastéis de forno recheados com uvas pretas inteiras e açucaradas),piruski (massa doce frita), kacha (pedaços de frango cozido e acrescidos de um pouco de farinha de trigo), mamaliga (polenta), milina, sopa (macarrão com leite, prato salgado). Canto e danço como os búlgaros da tradição de meus pais. Desde quando eu era pequena, meu pai vinha, me beijava, beijava e eu enrolava o bigode dele para não irritar minha pela. Aí, ele cantava para mim na língua búlgara. Em casa, nós só falávamos búlgaro.
Os búlgaros são tudo para mim, marcam minha vida, mesmo eu tendo nascido e vivido aqui no Brasil.