X

Digite o termo que deseja pesquisar e selecione a categoria

  • TEMAS
  • PROJETOS
  • DEPOENTES

HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Amélia do Nascimento

  • Nome: Amélia do Nascimento
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 22/08/1934
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Santa Cruz Palmeira (??)
  • Profissão: Cantora

Biografia

Amélia do Nascimento chegou em São Bernardo do Campo aos 7 anos (década de 1940). Iniciou sua carreira musical em Mauá na década de 1950. . Fundadora da Rádio Independência (SBC). Teve um programa musical na rádio de duração de 30 minutos, com patrocinadores. Cantou em todas as rádios do ABC e, ainda, em Santos e no Rio de Janeiro. Gravou com diversas orquestras sinfônicas. Nas suas apresentações usava o nome de "Marília do Nascimento". Tem 2 discos gravados com músicas de sucesso em novelas do rádio. Apresentou-se no Prgrama do Chacrinha.





TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE AMÉLIA DO NASCIMENTO EM 07/12/2004

Depoimento de AMÉLIA NASCIMENTO, 70 anos.

IMES – Universidade de São Caetano do Sul, 07 de dezembro de 2004.

Entrevistadores: Rita de Cássia Donato dos Santos e Herom Vargas.

 

 

Pergunta: 

Comece falando a data e local de seu nascimento.

 

Resposta: 

Nasci numa cidade do interior de São Paulo, Santa Cruz das Palmeiras, no dia 22 de agosto de 1934.

 

Pergunta: 

Conta como era sua família, como eram seus pais, seus irmãos.

 

Resposta: 

Meu pai eu quase não conheci, porque quando tinha 3 anos de idade ele faleceu. Meu pai era músico, fazia os instrumentos, violão, viola, sanfona, cantava, dançava catira. Eu acho que herdei muito essa parte do meu pai. Com o falecimento do meu pai, os parentes da minha mãe, meus tios, moravam já em São Bernardo do Campo, então nós viemos para São Bernardo. Chegamos aqui em 1939. Minha mãe se casou novamente, fomos morar em Mauá quando eu tinha 6 ou 7 anos. Fui eu, meu irmão, meu padrasto e minha mãe. Eu já gostava de cantar, soltava a voz. Eu gostava de balançar, então meu irmão me fez uma balança. Foi aí que eu me descobri como cantora. Minha mãe lavava roupa para as pessoas que trabalhavam numa olaria e eu cantava às seis horas. Seis horas da tarde eu ia para a balança e cantava.

 

Pergunta: 

Em Mauá?

 

Resposta: 

Sim. Meu padrasto foi para lá para trabalhar. As pessoas da olaria perguntavam: Dona Maria, quem está cantando? Ela respondia que era a filha Amelinha. Ela vai ser uma grande cantora. Aí passou o contrato e voltamos para São Bernardo em 1944, foi quando a minha mãe faleceu. Não quero nem mencionar, porque hoje estou aqui, mas com o coração pequeno aqui dentro. Fomos morar lá, começou cada irmão a ir para um lado e eu mesma fui morar com meu tio, aí minha irmã se casou e fui morar com ela aqui no Ipiranga. Voltamos para São Bernardo e ficamos lá.

 

Pergunta: 

Como foi a sua infância?

 

Resposta: 

Não tive assim aquela infância de criança, de brincar, de ganhar brinquedo, de Papai Noel. Só fui ter quando era grande, mas queria ter quando era pequena. Tem histórias que se eu contar eu vou chorar e não quero, quando eu descobri que Papai Noel não existia. Eu já morava com meu tio e a criançada toda da rua ia pegar capim para colocar embaixo da cama, porque amanhã era dia de Papai Noel, eu falei para o meu irmão pegar capim. A gente tinha 8 anos. Naquela época as crianças não eram espertas como hoje. A minha avó fez o fecho de capim e à noite colocamos embaixo da cama. No outro dia acordamos com aquela coisa de Papai Noel e olhamos debaixo da cama. Estava lá do mesmo jeito. Ele não veio. Minha irmã começou a trabalhar e no outro ano o Papai Noel veio. Ganhei um guarda-chuva e um monte de coisas.

 

Pergunta: 

A senhora tem lembranças de como era Mauá nessa época? E os bairros de São Bernardo?

 

Resposta:

Eu gostaria de voltar um dia a Mauá, porque onde eu morava minha mãe falava que era uma casa do tempo do cativeiro. Tinha porta, tinha janela, mas minha mãe colocava saco. Eu falo que Deus sempre foi maravilhoso comigo e com minha família, porque a gente morava no meio do mato. Hoje virou uma cidade. Não me lembro do nome da vila. Para a gente chegar até Mauá demorava bastante, vindo a pé. Meu irmão me carregava nas costas. O colchão era de capim, minha mãe punha saco e a gente dormia, porque era época de guerra. Quem era pobre era pobre mesmo. Hoje sou rica e maravilhosa, hoje vivo num paraíso? Não tenho nada.

 

Pergunta: 

A senhora tem lembranças da época da Segunda Guerra Mundial?

 

Resposta: 

Lembro que morava com meu tio na Vila Gonçalves e passavam aqueles aviões à noite. Tinha o blackout, todo mundo tinha de ficar em casa. Eu morria de medo e ficava embaixo da cama. Quando terminou a guerra, em 1945, foi quando a minha mãe morreu. Ela caiu na rua, no Baeta. Nós fomos para a casa do meu tio. Ele falava: Ah, meus sobrinhos, a guerra acabou. Graças a Deus! Depois começou a ter farinha, mais comida, mais pão, porque nós não tínhamos. Mesmo se você tivesse dinheiro para comprar, não tinha.

 

Pergunta: 

E vocês ficaram morando com seu tio?

 

Resposta: 

Meu tio, que foi mais que um pai, foi uma pessoa maravilhosa na nossa vida, minha e de meus irmãos. Ele tinha muito cuidado comigo, porque eu sofri paralisia quando eu tinha um ano e meio de idade, no interior. Ele sempre teve muito cuidado comigo. Não só ele, como meus irmãos todos tinham muito cuidado comigo, porque eu era muito peralta.

 

Pergunta: 

O que a senhora aprontava?

 

Resposta: 

Eu era muito sapeca. Eu subia na goiabeira para apanhar goiaba. Sabe aquelas carroças? Um dia levantou aquele negócio onde amarra o cavalo e eu gritava, com as perninhas assim. Pulava corda, pulava amarelinha. Gostava de ser professora. Sempre quis dar aula. Meu sonho era ser professora. Mas eu era professora brava. Quando minha mãe morreu, falando em professora, já que nós estamos numa faculdade, hoje não existe mais isso, mas eu estava no primeiro ano, e a escola ficava bem defronte a uma rua, a janela e eu estou lá. Eu gravei tudo na minha cabeça. A vaca malhada, malhada é a vaca. Era a cartilha. Eu olhava, porque eu via meu irmão mais velho correndo para lá e para cá. O que será? E a professora: Vai sua cabeça tantã, sua goiabeira. E batia com a régua na minha cabeça. Eu estava preocupada com o que estava vendo lá, porque meu irmão estava correndo e gritando. Aí entrou um senhor e me carregou no colo e pediu para a professora me dispensar e falou que a minha mãe tinha caído na rua e morrido. Fiquei com aquele trauma de professora.

 

Pergunta: 

A escola era em São Bernardo?

 

Resposta: 

Sim. A gente morava no Baeta. Não existe mais. Agora tem o (Shopping) Metrópole em frente. Mudou tudo. Está tudo bonito e maravilhoso.

 

Pergunta: 

A senhora morava no bairro Baeta?

 

Resposta: 

Até minha mãe falecer. Depois nós fomos mais para o centro e depois fui morar no Ipiranga. Quando minha irmã se casou, voltei a morar na Vila Duzzi e foi aí que começou a minha vida artística. Levei uma surra, porque as nossas casas eram separadas com um poço, olha que perigo, e ia ter um concurso de calouros na época do Lauro Gomes, quando ele ia começar a ser prefeito de São Bernardo. E vieram falar para mim porque eu era doida para cantar. Eu peguei o vestido de noiva da minha irmã, cortei e me vesti escondida e pulei o poço. Não sei como não caí no poço. Aí a vizinha veio falar: Dona Aparecida, a senhora deixou a Amelinha usar seu vestido de noiva? Não. Eu fui cantar lá no show. Eu gostava de me arrumar. Ela foi lá na vizinha. Não sei se você conhece, hoje é dona do Nordestão, de comida nordestina de São Bernardo, eles eram nossos vizinhos, me deu uma surra, mas eu fui. Eu cantei, ganhei em primeiro lugar. Quem apresentava era Miranda, que era de um jornal de São Paulo. Aí o Tito Lima, que era assessor do Lauro Gomes começou a fazer shows em cinemas. De caloura passei a ser convidada.

 

Pergunta: 

A senhora tinha que idade?

 

Resposta: 

Tinha 19 anos.

 

Pergunta: 

Foi sua estréia?

 

Resposta: 

Sim. Tudo começou com Lauro Gomes. Sempre trabalhei para ele na política e ele sempre ganhou. Meu pai também era político. Eu puxei muito ao meu pai. Só eu. Cantei com Angela Maria, com Orlando Silva, com Orquestra de Roberto Reis, com Los Panchos, com Vicente Celestino, todos aqueles artistas, com Emilinha Borba, Marlene, tudo, que era o meu sonho. Eu ouvia pelo rádio, quando morava com meu tio, porque ele ganhou um radinho do Café Jardim e eu ouvia as rádios de longe e sonhava. Também realizei quase todos.

 

Pergunta: 

Qual foi a primeira rádio em que a senhora cantou?

 

Resposta: 

Em 1959 inaugurou a Rádio Independência. O Tito Lima, tudo que acontecia, como não tinha telefone, ele mandava uma pessoa me avisar que ia ter um show e que ia ser inaugurada a Rádio Independência. Aí eu fui uma das cantoras, com a Gessi Soares de Lima, que cantou muito no Sílvio Santos, Benvinda Alves, uma portuguesa. Tinha a Padaria Icaraí, que de pequena eu ia lá comprar pão, não tinha operado a perna ainda, quando eu morava na Rua General Osório e a padaria era na Rua Marechal Deodoro, e a dona Armínia gostava muito de mim e me dava roupas porque tinha dó de mim. Aí ela me patrocinou um programa de meia hora na Rádio Independência. Eu trazia Raul Gil, aqueles conjuntos da época. Mas o Raul Gil era infalível.

 

Pergunta: 

O programa era todos os dias?

 

Resposta: 

Era meu o programa. Eu que anunciava, que falava. Depois fui cantar na Rádio Nacional. Quem me levava para cantar lá era o Prefeito Altino Pinotti. Os prefeitos eram todos meus amigos. Tudo que eu pedia eles faziam.

 

Pergunta: 

O seu programa acabou?

 

Resposta: 

Acabou a Rádio Independência. Aí o Diário do Grande ABC comprou e foi mais para baixo. Eu voltei a cantar na Rádio Diário do Grande ABC. Nesse ínterim, eu tinha um programa na Rádio Nacional. Eu cantava no programa do Antonio Rato. Toda sexta-feira eu ia para São Paulo e quem me conheceu foi um professor que vinha tocar violão, professor Menezes. Esse que gostou da minha voz, que me convidou. Até que esse mesmo professor, que me deu aula, eu já tinha tido outras aulas de canto com Odete Camingalde.

 

Pergunta: 

Todas de São Bernardo?

 

Resposta: 

Todas de São Bernardo. Antes eu vim fazer show na Rádio Cacique. Não me lembro do nome do locutor que apresentava o programa, mas eu cantava todo sábado à tarde.

 

Pergunta: 

Era programa de auditório?

 

Resposta: 

Sim, me amavam, me aplaudiam. Quando eu gravei, eu vim me apresentar com o meu grupo.

 

Pergunta: 

Que tipos de músicas a senhora cantava?

 

Resposta:

Quando não era profissional eu cantava músicas populares, boleros, músicas portuguesas, espanholas. Italianas eu sei, mas não gostava. Devia ter nascido em Portugal. Eu adoro cantar fados e boleros.

 

Pergunta: 

Valsas?

 

Resposta: 

Não. Valsa eu só gravei uma. Eu cantava Angela Maria, Emilinha Borba, Pixinguinha. Cantava as músicas da época, como “Carinhoso”, Noel Rosa, tantos. Mas aí comecei a cantar em espanhol, que foi quando veio o trio Los Panchos e queriam me levar embora porque eu cantava muito bem em espanhol. Mas minha irmã não deixou, porque eu era a caçula e ela cuidava de mim e falou que era perigoso.

 

Pergunta: 

Quantos anos a senhora tinha?

 

Resposta: 

Eu era novinha, muito bonita, com a pele bonita, aquele jeito, aquela coisa, toda vaidosa. Eles ficaram enfeitiçados comigo, mas minha irmã não deixou. Eu cantei com a Orquestra de Roberto Reis no Baile da República, na 15 de Novembro.

 

Pergunta: 

Como era a reação das pessoas vendo o que você cantava? Havia algum tipo de preconceito?

 

Resposta: 

Nunca. Eu tinha. Eu ia fazer um filme com o Mazzaropi, porque quando eu gravei “Espelho”, uma música muito linda, vendeu todos os discos, só que eu doei todos os direitos autorais. Mesmo que eu precisasse, eu doei para a casa das crianças defeituosas.

 

Pergunta: 

E o fato de a senhora ser mulher, no meio de tantos músicos?

 

Resposta: 

Eu era amada, apaixonada, todo mundo queria namorar comigo. Eu nunca fui, agora estou um pouco amarrada, mas sempre fui desprendida, solta. Quem é mais que nós, quem é mais que eu? Deus me deu minha cabeça. Eu viajei de avião sozinha, ia para lá e para cá, casei, fiquei grávida, cuidei da barriga, do bebê. A perna para mim nunca foi empecilho, numa me impediu de nada, nem de amar e nem de ser mãe, e adoro meu filho. Eu tinha medo, porque não podia, mas Deus me ajudou.

 

Pergunta: 

Quando a senhora começou a cantar, a senhora não era casada?

 

Resposta: 

Não. Quando fui convidada para gravar o terceiro disco eu desisti, não quis mais. Só fui matar a vontade e realizar meu sonho. Eu queria ver como era lá dentro, como eram as coisas. Eu vi que amava minha família, meus sobrinhos nascendo, meus irmãos se casando e eles me amavam, porque nós nos amamos muito, somos muito família,  mesmo com a perda de nossos pais. Nós fomos criados pelo meu tio, que sempre deu educação, carinho, amor, respeito e honradez. Eu sou muito feliz de estar aqui.

 

Pergunta: 

Antes de a senhora gravar o primeiro disco, a senhora trabalhava numa fábrica de discos?

 

Resposta: 

Eu fui trabalhar na fábrica de discos Odeon. Só que eu ficava vendo os defeitos. Eu tinha uma salinha e eu colocava o disco para tocar. E tinha o senhor Hans, que era o diretor e ele falava: Amelinha, como você consegue achar o defeito? É porque adoro música clássica. Eu adoro essas músicas de câmara. A gente percebe quando está falhando.

 

Pergunta: 

A senhora ouvia os discos?

 

Resposta: 

Ouvia. Se eu contar o que faço e o que não faço, você fica boba. Não sei como eu faço.

 

Pergunta: 

E onde era essa fábrica?

 

Resposta: 

Em São Bernardo, paralela à Via Anchieta, quando você vai para Santos, sai da Volks. Hoje não existe mais.

 

Pergunta: 

Não era gravadora?

 

Resposta: 

Não. Faziam o disco. Ouvi muitos discos do Francisco Alves, Dalva de Oliveira, fora os clássicos, em que me amarro.

 

Pergunta: 

Que tipo de disco a senhora gravou?

 

Resposta: 

O primeiro disco, o professor Menezes me levou para fazer um teste na Chantecler. Eu fiz um teste com 200 candidatos e passei em primeiro lugar. Agora vamos escolher as músicas. Aí veio um compositor português, Joaquim da Borda, que fez músicas para Marta Mendonça, Edite Veiga. A Marta Mendonça me pediu para arrumar um namoro dela com o Altemar Dutra. E tinha uma música que quando ouvi a fita não acreditei. Eu vi essa música no meu sonho, um jardim cheio de árvores, eu corria, porque eu nunca corri, mas eu andava e ouvia essa música, aquele coral, aquela orquestra no meu sonho. Só que o Sílvio Caldas passou a mão na minha cabeça e disse que eu nunca ia ser cantora. Eu acordei com a maior decepção da minha vida. Agora quando ele deu a música para mim, eu aprendi a letra, ensaiei e cantei com a Orquestra de Élcio Álvares, o Coral de Ouro. Foi a maior emoção da minha vida, como um parto.

 

Pergunta: 

Onde era a Chantecler?

 

Resposta: 

Era na Rua Aurora. Tinha Teixeirinha, duplas caipiras. Você encontrava todos os artistas que gravavam.

 

Pergunta: 

Aqui no ABC não tinha gravadora?

 

Resposta: 

Não. Hoje tem um estúdio onde fui cantar uma vez.

 

Pergunta: 

A senhora nunca cantou em alguma rádio de Santo André?

 

Resposta: 

Cantei na Rádio Clube, Rádio ABC. Eles vinham me pegar de táxi. Hoje tem um programa de rádio que eu ouço à noite, que esqueci o nome dele. Mas comecei nessas rádios até chegar na Rádio Nacional.

 

Pergunta: 

Qual rádio era mais forte no ABC?

 

Resposta: 

A Rádio Clube sempre foi a primeira. Agora é a ABC.

 

Pergunta: 

Por que ela era a mais forte?

 

Resposta: 

Eu acho que era porque o dono da rádio podia pagar os artistas, os melhores locutores, que eram Miguel Romeiro, Irineu, o Lombardi do Sílvio Santos. Ele fazia um programa lá. 

 

Pergunta: 

A senhora lembraria as músicas que a senhora gravou?

 

Resposta: 

No Lado B eu gravei uma música do José Augusto Menezes, a valsa “Encantamento”. Tinha um arranjo maravilhoso. Infelizmente, todo mundo me cobra, eu não fiquei com nada. Nem fita, nem disco, nem nada.

 

Pergunta: 

Por quê?

 

Resposta: 

Quando me desliguei não pensava no futuro, que ia me casar, ter filhos. Tenho revistas, jornais. O Ferreira Netto, jornalista, na Folha de São Paulo, eu era a primeira a ter foto. Na Revista do Rádio também. Na MercNews também tem uma homenagem, no ano passado, no Dia da Mulher. Teve também o Newseller, que depois veio a ser o Diário do Grande ABC. Fiz muitos shows em São Paulo, no programa do Enzo de Almeida Passos. No Canal 7 eu era a princesinha. Depois fiz a Discoteca do Chacrinha. Ele lançou meu disco, fui muito bem e ele me adorava, tanto que depois eu fui ao programa dele no Rio de Janeiro para lançar meu disco lá. Ia ficar uma semana, mas tive de ficar um mês.

 

Pergunta: 

E o segundo disco?

 

Resposta: 

O segundo disco, um dia estava na Chantecler e chegou o Maestro Zezinho, do Sílvio Santos. A gente ficava numa sala e ele chegou e eu não o conhecia e ele disse que gostaria de conhecer a cantora Amélia Nascimento porque tinha ouvido meu disco, a minha voz, e tinha adorado e ele queria que eu cantasse com ele. Eu era tão boba, tão humilde, que ficava num cantinho. Quando me apresentaram a ele, ele perguntou se eu gravaria uma música dele. Foi quando eu gravei “Quantas Vezes” e do outro lado eu gravei “Como uma Sinfonia” para o Festival San Remo. Vendeu muito.

 

Pergunta: 

A senhora gostava mais do rádio ou dos programas de televisão?

 

Resposta: 

Eu queria cantar. Minha irmã brigava comigo, porque se a gente estava passando e eu escutava um violão, ai meu Deus, eu saía escondido e quando me viam, eu já estava lá cantando. Ela me batia, porque não queria. Eu fugi de casa para cantar em São Paulo, aí esse professor me colocou num pensionato, fiquei lá e gravei. Quando viram que era verdade, ninguém acreditava. Ligaram para casa porque eu ia a televisão, que era para avisar os vizinhos que eu ia estar no programa tal. No Almoço com as Estrelas eu tinha cadeira cativa. Foi lá que conheci Os Incríveis, Jair Rodrigues.

 

Pergunta: 

A senhora gravou dois discos?

 

Resposta: 

Quando fui gravar o terceiro, que a Dora Lopes pediu para eu cantar uma marcha dela, falei que queria ficar com a minha família. A minha irmã, que me criou, só teve uma filha e eu amava demais essa minha sobrinha, ela faleceu. Ela deixou quatro netos.

 

Pergunta: 

A senhora parou de cantar com quantos anos?

 

Resposta: 

Antes de eu gravar, tinha uns amigos que tinham um restaurante em Pinheiros e eu fui contratada para cantar no restaurante, na Rua Martins Carrara, com um contrato de  seis meses. Os japoneses me adoravam. Não casei com japonês, mas com um mineiro. Eu cantava em japonês. Eles jogavam dinheiro no palco. Quando terminou o contrato eu fui embora e aí começou a trajetória da Rádio ABC, Rádio Independência, Lauro Gomes me ajudou muito. Ele fechou a Rádio Vip e todos os direitos autorais, eu não quis nada, o conjunto também. Eu doei todos os direitos. Só que hoje parei de doar.

 

Pergunta: 

A senhora ia ao cinema no ABC?

 

Resposta: 

Quanta loucura eu fiz, olha só. Eu cantava nos salões de carnaval e as pessoas sabiam que eu cantava aqui e ali. Eu tinha uma amiga que o pai dela adorava sair em desfile de carnaval. A Elvirinha da padaria me deu um vestido vermelho longo, cheio de flores, e meu cabelo era loiro, bastante solto, muito bonito, e ele falou: Amelinha, não esquece de ir lá no carnaval de Santo André? Era 1959. Eu ganhei como Rainha do Carnaval, a moça mais bonita. Tinha pessoas com as câmeras filmando. Passou em não sei quantos cinemas, mas eu não vi. As pessoas me viram, falaram que eu estava linda. Eu ganhei dois mil e quinhentos e deixei na minha bolsa e me roubaram. Foi tanta coisa gostosa que mesmo com a minha idade, foram anos bem vividos. Nunca prejudiquei ninguém.

 

Pergunta: 

Carnaval foi só dessa vez?

 

Resposta: 

Não. Depois disso eu parei. Eu encerrei minha carreira em 1968.

 

Pergunta: 

A senhora participou de algum comercial?

 

Resposta: 

Não. Nunca ofereceram músicas para eu gravar. Eu gravei uma de política, da época do Lauro Gomes, para o Névio Carlone, que é da Estância Alto da Serra, que era o pai do Névio, que faleceu. Ele pediu para eu gravar a marchinha. Gravei com a Gessi Soares de Lima e um conjunto. O Lauro Gomes, quando eu chegava, ele falava: Chegou a menina dos meus olhos. Se ele não me via na frente, ele falava que não ia ganhar as eleições porque eu não estava. Eu comandava as crianças. Eu ia de casa em casa e pegava as crianças e ensaiava. Eu gravei com crianças. 

(Gravação fica baixa)

Tenho muitos amigos aqui no Barcelona, Vila Paula. Vim inaugurar uma casa de doces na Amazonas.

 

Pergunta: 

Da Rádio Cacique a senhora tem alguma lembrança?

 

Resposta: 

Da Rádio Cacique eu queria lembrar, mas a gente esquece, do rapaz que me apresentava. Ele me adorava.

 

Pergunta: 

A senhora cantou bastante?

 

Resposta: 

Cantei. Era convidada quase todo sábado. No Cine Boreal, em Rudge Ramos também. A gente fazia muitos shows em cinemas. Contratavam outros artistas e eu estava sempre em primeiro plano, até eu chegar a profissional.

 

Pergunta: 

Em quais outros cinemas a senhora cantou?

 

Resposta: 

Cine São Bernardo, Cine Anchieta, Cine Boreal, Cine Tangará, Cine Carlos Gomes.

 

Pergunta: 

Sempre tinha shows nesses cinemas?

 

Resposta: 

Muito. Tinham festivais. Participei de dois festivais de música. A minha professora de canto fez um tipo de bolero para mim, não me lembro se era “Cantinho do Céu” ou “Caminho do Céu”. Peguei terceiro lugar. No Cine Tangará também ela fez músicas para mim.

 

Pergunta: 

Isso antes de a senhora se tornar profissional?

 

Resposta: 

Sim. Tudo quando era meninota ainda. Não levava muito a sério ainda. Ia quando queria e quando não queria, não ia.

 

Pergunta: 

A senhora encerrou a carreira por volta de 1968?

 

Resposta: 

Eu fui fazer cursos, porque queria trabalhar. Eu cursei puericultura, porque sempre gostei de crianças, fiz datilografia, me aperfeiçoei um pouco mais na leitura, conhecimentos. Gostava e sempre gostei de ler. Hoje a criançada não gosta de ler, mas eu aprendi muito com a leitura. A dicção, o português, escrever, falar. E tudo por mim, não que você chegasse e falasse. Eu quero, eu vou. Sempre foi assim, com garra, com vontade; hoje você vê muito pouco as pessoas lutando para adquirir alguma coisa.

 

Pergunta: 

A senhora estudou enfermagem?

 

Resposta: 

Fui enfermeira. Fui trabalhar no Pronto-Socorro Dentário primeiro, na época do Prefeito Virgílio de Lima e depois Geraldo Faria Rodrigues. Já estava dentro, só mudei para o Pronto-Socorro Municipal. Quando via acidente, eu não agüentava. Eu não queria ver.

 

Pergunta: 

A senhora trabalhou como enfermeira por quanto tempo?

 

Resposta: 

Aí me casei, trabalhando. Eu me casei em 1971 e continuei trabalhando. Aí eu engravidei, perdi, engravidei de novo, perdi e aí nasceu minha filha, a Ana Maria, quando completei 38 anos. Ela nasceu de 7 meses, muito lindinha e eu trabalhava no Pronto-Socorro. E lá ela ficou internada. Vocês escolheram hoje para me dar um presente, porque, numa época dessas, eu pedia para Papai do Céu que eu queria um bebê e ele me deu a Ana Maria e hoje ela é a pessoa mais importante da minha vida.

 

Pergunta: 

E a senhora não cantou mais?

 

Resposta: 

Não. Só cantei para o meu marido e para meus filhos. Depois tive vários convites, mas eu não aceitei. Aí meu filho... O Carlos toca no Chapéu de Couro e Irmandade do Som. Aí eu comecei a ajudar eles. Eles fizeram shows em teatros e eu fiz um show com eles no Teatro Elis Regina. Foi onde eu voltei, depois de 40 anos, com meu filho me levando pelas mãos.

 

Pergunta: 

Que música a senhora cantou?

 

Resposta: 

A música “Quantas Vezes”, a última. E a banda se adaptou. Deu bem certo com a gaita, bateria e violão. Foi aí que eu cantei.

 

Pergunta: 

A senhora pode cantar para gente?

 

Resposta: 

Antes de cantar quero dizer que agora estou me sentindo a mulher, a mãe, a amiga de São Caetano e de vocês, mais feliz do mundo, porque agora sei que Papai Noel existe e ele me provou, porque ele nunca mentiu para mim, porque tudo que ele queria me dar estava guardado. Só que eu tive de esperar o tempo certo. Que Deus abençoe cada um de vocês. Hoje minha filha trabalha com vocês e meu filho também. Eu brinquei com ele que só falta a mãe ir para São Caetano também. Eu fico muito agradecida por vocês fazerem isso comigo. Eu me sinto muito feliz. Mesmo com meu coração triste, porque eu queria estar mais alegre, contar mais coisas, porque não sou assim, mas acho que vai ter outra oportunidade, quando vir fazer algum show, que vou ensaiar mais e cantar direitinho.

 

(Música)

 

Pergunta: 

A gente está terminando. A senhora gostaria de deixar mais alguma mensagem?

 

Resposta: 

Feliz Natal. Papai Noel existe. Às vezes ele pode demorar um pouco, mas ele virá. Feliz Natal, paz e sorte para todos.



« VOLTAR


Em realização

Realização Hipermidias

Apoio

Apoio Fapesp Finep USCS
TOPO