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Neta de imigrantes, agora busca resgatar as suas origens. Já morou em Franco da Rocha, atualmente (2018) mora em São Caetano do Sul. Trabalhou na Prefeitura de São Paulo em escritório de contabilidade.
Presenciando o drama que vivia novamente o povo búlgaro, o jovem casal Ivan Stoianov e Damma Stoianov foram encorajados a deixar Hasan-batar com destino à América. Tinham poucas informações a respeito do país chamado Brasil. Sabiam que ficava na América. Ignoravam se era a do norte, central ou do sul. Estavam cientes que se tratava de um país que lhes prometia emprego, terras, fartura, clima tropical e a possibilidade de viverem na plenitude sua história, língua, tradições, religião sem serem perseguidos pelos governantes. Existia um boato sobre a possibilidade de que ganhariam casas que tinham rodas, as quais poderiam levar para onde quisessem. No Brasil, sonhavam fundar uma Nova Bessarábia. E lá se foram, deixando irmãos, amigos, parentes. Ivan com vinte e cinco anos trouxe consigo o irmão mais novo Ilie que estava com dezessete anos. Damma tinha vinte e seis anos deixou sua irmã Domnikiia Konstantinova Atanasova e seu irmão Vasili Coitchev, bem como cunhados, sobrinhos e demais parentes. Na época, o casal tinha três filhos pequenos, Eugênia com seis, Niculae com quatro anos, e Ana com um aninho.
Partiram assim, em caravana, utilizando os mais variados meios de transporte, charretes, carroças, trens, longas caminhadas a pé, conforme trechos do livro XXXXXX de Jorge Cocicov, pg XXXXX. Levaram meses para chegar de Hasan-batar até o porto de Bremen na Alemanha. Enfrentaram ao final desta jornada, o inverno europeu. Em Bremen, aguardando a documentação necessária para o embarque, o jovem casal viveu o drama de verem morrer seus filhos Ana e Niculae, que adoeceram em virtude da longa jornada que fizeram e do frio intenso que fragilizou os pequenos e os fez adquirirem (Tifo?). A data de falecimento de ambos não foi registrada.
Por fim embarcaram em Bremen no navio Sierra Morena em dezessete de abril de 1926.
Desembarcaram no porto de Santos em cinco de maio do mesmo ano. O trecho do livro XXXXXXX de Jorge Cocicov, descreve com perfeição, como se sentiram ao pisar em solo brasileiro.
Toda a família ficou deslumbrada com as belezas naturais do país. Boquiabertos apreciavam as praias e admiravam o clima quente. Tudo propiciava um banho de mar.
Ilie, no esplendor de sua adolescência, na flor de sua juventude, não resistiu e disse para seu irmão "Ivan, vou dar um mergulho. Está muito calor. Deve ser maravilhoso nadar nessas águas...". Ivan, responsável pelo irmão mais novo, aconselhou "Não, Ilie. Não vê essas ondas? Aqui não é o Mar Negro. O mar daqui é traiçoeiro...". Imagina-se que Ilie nem ouviu as últimas palavras de seu irmão mais velho, e, como adolescente que era, se pôs a correr em direção às águas do mar. A inconsequência de Ilie, custou-lhe a vida. Afogou-se. A imensa alegria de se sentir livre, a prazerosa sensação de calor em contraste com a refrescância das águas do mar, nas brancas areias daquela praia de Santos levaram para sempre o jovem Ilie.
Não bastasse os dois filhos que perderam, agora Ivan e Damma perdiam Ilie? A tristeza de ambos foi muito grande. "E agora? Como faremos? Era um dos nossos". Não há registros de como procederam com o corpo, se houve algum sepultamento. O que permanece é a imagem daquela família que, de um momento para o outro, passou da alegria para a tristeza, do sonho para o drama. Ivan andando de um lado para o outro com as mãos na cabeça, Damma chorando e, ao mesmo tempo, tentando consolar Ivan. Eugênia, criança assustada, vendo seus pais em desespero, sem entender direito o que estava acontecendo.
Superada essa dificuldade partiram de trem rumo ao seu destino, estação Laranja Doce situada na cidade de Martinópolis, para trabalharem na empresa Boston Cattle Co. Ltda.
Tudo já havia sido tratado lá mesmo em Bremen, antes de deixarem a Europa.
Ao se depararem com a realidade que os aguardava, ficaram decepcionados. Não era bem aquilo que haviam sonhado. Tratava-se de viver no meio da mata, derrubando árvores e preparando o terreno para ampliação da estrada de ferro, pasto e plantio de café. Não havia nada por perto. Estavam literalmente no meio do mato.
Superando grandes dificuldades, aos poucos foram se habituando ao clima, construíram sua casa, assim como seus conterrâneos e outros imigrantes de diversas partes do Leste Europeu que enfrentavam os mesmos desafios. Por lá viveram e tiveram mais dois filhos, Nicolau em 07/12/1927 e Maria em 07/09/1929. E foi durante esse período, acredita-se, que o sobrenome e o nome de Ivan foram modificados, pois seus filhos já foram registrados na cidade de Pirangi com sobrenome Stainoff e tendo como pai João Stainoff. Como a pronúncia era difícil para os brasileiros entenderem, e eles não sabiam ler em português, não se deram conta da troca feita em seus documentos. Em 1932, Damma engravidou novamente. A vida seguia seu curso natural, Ivan trabalhando na derrubada de árvores, Damma ajudando como podia e, ao mesmo tempo, cuidando de sua casa e de seus filhos, até que, durante o trabalho, João espetou uma farpa de madeira no pé. O que, de início, parecia algo simples, começou a preocupar João, Damma e seus amigos. Tentaram curar a ferida, utilizando-se de todos os métodos que conheciam e dispunham. Um conhecido, então, resolveu utilizar um canivete para tentar retirar a lasca de madeira. Não se sabe ao certo qual foi exatamente a causa, mas, por conta desse ferimento, João desenvolveu tétano e faleceu.
Damma se viu sem o seu amado marido e companheiro que a protegia e amparava. Como faria para viver sem ele? Mal falava a língua portuguesa, com dois filhos pequenos, grávida e viúva. "O que é que eu vou fazer agora?" Dizia ela. Orava, clamando forças para enfrentar mais esse sofrimento. Suas preces foram atendidas, quando um primo da família, Jorge Dimitrov, comovido com a situação vivida por Damma, resolveu levá-la dali. Os gêmeos nasceram em 23/12/1932, mas só o menino resistiu e sobreviveu. Damma foi morar na Mooca, cidade de São Paulo, com seus três filhos Eugênia, Nicolau, Maria e João. Em 28 de setembro de 1933 logo depois do nascimento dos gêmeos, conseguiu um emprego de lavadora de louças na empresa "Cia Paulista de Louça Esmaltada". Nesse período morou com seus filhos na Rua da Mooca nº 08. Enquanto trabalhava, Guina, como era carinhosamente chamada Eugênia, sua filha mais velha, agora com quinze anos, cuidava da casa e de seus irmãos mais novos. Até que durante o ano de 1933, contraiu pneumonia e veio a falecer. Damma ficou arrasada. Perguntava aos céus o que mais tinha a enfrentar. Chorou muito a perda de sua filha companheira que tanto a auxiliava. E ficava novamente a pergunta "E agora? Como vou fazer para trabalhar? Tinha três filhos para cuidar e o sustento da casa para ganhar.
Há um relato muito interessante sobre Nicolau o filho mais velho de Damma. Conta-se que ele preocupado com a situação da mãe e da necessidade pela qual passavam, vendia balas no centro de São Paulo na Praça da Sé. Tinha até uma estratégia de venda utilizando um jargão gritando "Bala de Coco! Bala de Coco! Quem não come fica louco!!!" Certa vez, ele e um coleguinha seu, cansados do longo percurso a pé que faziam diariamente e como não venderam todas as balas, resolveram, inocentemente, dormir lá mesmo na Praça da Sé, sem imaginar o transtorno e o desespero que causaram em seus parentes e amigos que não sossegaram até encontrá-los.
Nicolai e Stefanida Dimitrov, amigos e conterrâneos, se ofereceram para cuidar de João, agora com onze meses, diminuindo assim o trabalho de Damma, que aqui no Brasil adotou o nome de Antonia, abrasileirando-o. Aquela imigrante, que já havia passado por tantas provações, teria uma difícil decisão a tomar. Muito pensou e muitas lágrimas rolaram por aquela face. Depois de muito refletir, aceitou a ajuda do casal Dimitrov, que havia perdido uma filha e, não se sabe o motivo, Stefanida nunca mais engravidou. Eram vizinhos, moravam próximos, pensou Antonia, sempre que quiser poderei visitar meu pequeno "Vania", como eram carinhosamente chamados os Ivans, abrasileirados para João. Decidiu aceitar a oferta.
Conta-se que o casal Dimitrov, principalmente Stefanida, apegou-se muito ao pequeno "Vania", e, com medo de o perderem, mudaram-se para longe. A família Nicolai Dimitrov foi para Quatá, onde era fundada a Colônia Nova Esperança, organizada pelo pastor Karlis Grigorovitch. Jorge Cocicov levantou diversos registros sobre esse valoroso trabalho, que tinha como objetivo reunir os búlgaros, gagaúsos e bessarabianos, conforme registros constante nas págXXXXXXX do livro. Antonia permaneceu em São Paulo, novamente abatida por mais uma perda.
Em 1º de junho de 1934, Antonia começou a trabalhar na Fiação Marcello Dall'Ovo Ltda., como tecelã.
A batalhadora D. Antonia continuou sua luta, com a solidariedade de seus primos George e Cecília Dimitrov, até que em 1938, conheceu Haralampii Feodor Casa, com quem contraiu segundas núpcias. Haralampii, no Brasil, "Orlando", era sapateiro, gagaúzo, nascido em Conrat em 12/12/1899. Muito alegre, descontraído, veio trazer esperança à pequena Antonia. Nessa época já residiam no bairro de Santa Clara, antiga Rua Cinco, hoje Rua Itiuba. Mais tarde mudar-se-iam para Rua Gopiara, Nº 223, no mesmo bairro.
Os ventos finalmente começaram a soprar a favor do novo casal. A vida não foi fácil, mas juntos conseguiram superar muitas dificuldades. Orlando acolheu como seus os filhos de Antonia, que não decepcionaram por suas atitudes e escolhas. Nicolau, o mais velho, muito trabalhador, economizou o que pôde, enquanto trabalhava na "Tecelagem Varan", para, posteriormente, tornar-se lojista e proprietário de uma das mais conhecidas lojas de móveis da Vila Prudente, a "Palácio dos Móveis". Com os ganhos desta loja, conseguiu sustentar e formar seus três filhos, Márcia, Maurício e Miriam, frutos de seu casamento com Luzia Nassute, descendente de italianos.
Maria sempre ajudou muito sua mãe, a quem era muito apegada e tinha uma enorme admiração e respeito e, como boa cerzideira, auxiliava a renda da casa. Casou-se com João Ghenov, também filho de imigrantes gagaúzos, com quem teve três filhos, Deise, Rubens e João.
Passados alguns anos, da união de Antonia e Orlando, o casal Nicolai e Stefanida Dimitrov, retornou para São Paulo e Antonia pôde finalmente acompanhar o desenvolvimento de seu filho João Stainoff que, após a morte de sua mãe adotiva Stefanida, voltou a morar com sua mãe natural, Antonia. Este, durante suas atividades como aprendiz do alfaiate Timóteo Peev, conheceu Enelcina Peff, com a qual se casou, não antes de trabalhar muito, juntamente com seu irmão mais novo João Casa, num salão localizado na casa da mãe Antonia. Foi preciso costurar muitos ternos para conseguir juntar dinheiro e abrir sua loja "Credi Celeste", em homenagem à Vila Celeste, na Rua do Orfanato, 1716. João casou-se com Enelcina em vinte e três de maio de 1959 e tiveram três filhos, Roseli, Reynaldo e Regiane, educados na fé evangélica, que João herdou durante o período que viveu com os Dimitrov, sob os ensinamentos do pastor Karlis Grigorovitch.
João Casa, o caçula de Antonia com Orlando, participou como sócio de seu irmão mais velho na administração de uma loja de roupas masculinas na Av. Sapopemba. Casou-se com Maria Aparecida com quem teve dois filhos, Celso Augusto e Eliane. Com o fruto de seu trabalho, auxiliado pelo trabalho de sua esposa como Agente de apoio escolar conduziram e formaram seus filhos.
Antonia e Orlando acompanham com alegria o desenvolvimento de seus filhos e mantiveram a tradição da Páscoa, Natal e final de ano com a reunião de todos os familiares em deliciosos almoços que levavam um dia inteiro e mais o outro dia em que o mais importante era a conversa entre todos, os pratos típicos das festas. Na Páscoa, os ovos coloridos feitos pela própria Antonia. A mesa do almoço era arrumada fora de casa e ficava posta por todo o tempo enquanto tivesse gente conversando ou comendo.
A casa de Antonia e Orlando tinha um lindo jardim e uma pequena horta e quando recebiam os netos, Antonia colhia rabanetes e após lavá-los oferecia a eles que os saboreavam com todo o gosto. Esta cena ficaria gravada na memória de seus netos por toda a vida. A cozinha da casa era extremamente limpa e arrumada, assim como toda a casa, mas na cozinha não podia faltar as bolachas, que seus netos sempre pediam e que ficavam numa lata decorada com umas imagens antigas, guardada no canto esquerdo no alto acima do guarda comidas.
Durante os anos 60 Antonia se correspondeu com sua irmã Domnikiia Atanasova Cosntantinova e com seu irmão Vasili Coitchev. Chegaram a se presentear por correspondência. Em uma das cartas, Domnikiia descreve os presentes que havia recebido de sua irmã aqui do Brasil, motivados pelo casamento de um de seu filho Nicolai carinhosamente apelidado de "Kolio". Até que nos anos 70 as cartas foram rareando e pararam de se corresponder. Há bem pouco tempo alguns familiares descobriram que a neta de Domnikiia, Olga, vive ainda na região dos endereços das cartas recebidas por Antonia, em Ismahil ao sul da Ucrânia. Roseli neta de Antonia bucou ajuda na internet para tentar localizar seus parentes que ainda residiam pela Europa. Não demorou muito para um novo amigo, Mauro Adriano Ushetsky, se prontificar a ajudá-la. Enviou cartas em russo para os endereços constantes nos remetentes das cartas recebidas pela sua avó nos anos 60. Roseli não acreditou quando Mário, após alguns meses, comunicou que havia localizado uma sobrinha neta de Antonia chamada Olga. Foi uma grande alegria para toda a família. Assim, Mauro transcreveu uma carta de Roseli para Olga enviando juntamente fotos da parte da família aqui do Brasil. Há bem pouco tempo Olga respondeu a carta em russo contando o quanto sua avó Domnikiia sofreu após a vinda de Damma aqui para o Brasil, perdeu seu marido e 10 dos seus 12 filhos restando apenas Ana, a mãe de Olga e seu tio Nicolai (Kolio). Olga também legendou algumas fotos que Antonia havia recebido e que não sabíamos quem era quem. Hoje Olga vive em Izmahil, Odeskaia, Ucrânia.
Texto redigido por Roseli Stainoff.