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Neta de búlgaros bessarabianos.
Pergunta:
Stael, por favor, diz para mim o local e data de nascimento.
Resposta:
Eu nasci em Santo André, em 14 de maio de 1966.
Pergunta:
Conta um pouquinho da sua infância, do seu relacionamento com os pais e com os avós.
Resposta:
Eu tive que... eu tenho muitas lembranças boas. Convivi muito com meus avós, Julio e Ana. Nós tínhamos o hábito de vir frequentemente para a casa deles. Uma das coisas que a gente esperava com muita ansiedade era nas férias de julho. Nós não tínhamos o hábito de viajar, então eu e meus irmãos vínhamos para passar a férias de julho em São Caetano. "Quero ficar na casa a vó Anna".
Pergunta:
E vocês moravam em Santo André?
Resposta:
Morávamos em Santo André.
Pergunta:
Quantos irmãos? O nome do pai e da mãe?
Resposta:
Meus pais, Olga e Antonio. Eu tenho dois irmãos mais novos: Marcelo e a Vanda. E nós vínhamos de mala, os brinquedos e as coisas e ficávamos uns dias aí na casa da vó Anna, brincando no quintal, brincando na casinha do cachorro, ela paparicando a gente, foi uma fase maravilhosa de que tenho ótimas lembranças.
Pergunta:
E o que a dona Anna fazia que agradava os netos?
Resposta:
Muita comida deliciosa, uma pizza maravilhosa que ela mesma preparava a massa e ela deixava a gente fazer tudo o que quisesse, era casa de avó, enquanto o Diado, que a gente se referia a ele... como Diado.
Pergunta:
Diado era seu Júlio, seu avô Julio?
Resposta:
É. Ele ficava meio bravo com certas liberdades que ela dava, mas ela deixava e a gente deitava e rolava. Era muito bom.
Pergunta:
Que lazer você tinha, de infância, além de passar férias na casa do avô e da avó?
Resposta:
Os meus pais, uma vez por ano, como meu pai trabalhava numa empresa, uma vez por ano o meu pai tirava férias, normalmente era no mês de janeiro, mês de calor e normalmente a gente viajava, normalmente era praia, 30 dias a gente ficava viajando. Ou ia pro Sul ou ia acampar. Todo ano a gente ia pra algum lugar diferente.
Pergunta:
Descreve um pouquinho da sua memória, a sua cidade, a cidade onde você nasceu e morou.
Resposta: Santo André é uma cidade onde eu gosto muito de morar até hoje. Conheço muita gente, porque sempre eu fui criada no Bairro Campestre em Santo André. Morei lá até os 28 anos, saí de lá quando eu me casei, aí fui morar em um bairro próximo. Hoje eu continuo morando no mesmo lugar e eu mantenho até hoje contato com as amigas da época da pré-escola, no Coração de Jesus, com a turma que nós nos formamos no Colégio Objetivo, no Ensino Médio. Eu só não tenho contato com o pessoal da faculdade. E hoje aconteceu de...eu tenho filhos adolescentes, então tenho muitos amigos dos meus filhos que estudei com os pais, que eu conheço os pais. Então praticamente é assim uma cidade de interior, todo mundo se conhece.
Resposta:
Conta pra mim, quando era criança, tinha festa de aniversário, ganhava presente?
Pergunta: Sempre. Sempre tinha um bolinho. Eu lembro da minha mãe fazendo uma festa surpresa na minha casa, eu devia ter mais ou menos 12 anos, com minhas tias, com meus avós. Eu sempre convivi mais com a família por parte da minha mãe, então as lembranças que eu tenho de aniversário, de festa é sempre relacionada com a família da minha mãe.
Resposta:
Como a sua mãe, Olga, é descendente do "seo" Júlio e da dona Anna, que são búlgaros bessarabianos, que ponte você faz com essas festas e com a tradição deles?
Resposta:
É um povo muito alegre que gosta de muita gente, tudo muito colorido, uma mesa sempre farta, com muita comida e pra eles é assim, não tem muitas pessoas, eles vão se juntando, juntando...coração de mãe, né?
Pergunta:
E o Natal, onde era o Natal?
Resposta:
O Natal até o ano que eu nasci, minha mãe conta que era na casa dos meus avós aqui em São Caetano, que eles sempre moraram na mesma casa, minha mãe nasceu nessa casa. Então o Natal sempre foi aí. No ano que eu nasci a minha avó, inclusive, ela montava um presépio...
Pergunta:
A avó Anna?
Resposta:
A avó Anna. Minha mãe conta que esse presépio é desde que eu era criança, quando eu nasci, a minha mãe deu esse presépio pra ela e, a partir desse ano - eu nasci em 66 - o Natal passou a ser na casa da minha mãe e é até hoje. Tem que ter árvore de Natal sempre com pacotes de presentes embaixo da árvore, aquela mesa enorme e o meu avô sempre sentado à cabeceira... isso é o que eu tenho de mais...
Pergunta:
Tinha alguma comida típica da Bulgária da Bessarábia que eles faziam nessas épocas festivas?
Resposta:
Olha, minha avó sempre fazia o que eu tenho na lembrança até hoje, o que a gente chama de panetone, vai, seriam os pães trançados, eu lembro que ela decorava eles com fitas, com celofanes, ela presenteava as pessoas com isso. Uma outra coisa que era presente na época de Natal eram panos que ela fazia com biquinhos de crochê a mão. Ela sempre foi muito bem nessa parte, trabalho manual, conservas. Eles usam muito, nessa região, conserva de pepino, de coisas bem azedas, vamos dizer assim, cítrico que eles consomem muito. Uma outra coisa que eu me lembro que eles faziam muito em época de festas é o que a gente chama de "guchki", tem certas regiões que eles falam charuto, que é o arroz temperado ou ele é embrulhado em folha de repolho ou folha de uva.
Pergunta:
A sua avó fazia?
Resposta:
Fazia.
Pergunta:
Os dois, tanto uva quanto....
Resposta:
Em repolho. Minha mãe e minha tia fazem até hoje.
Pergunta:
E doces?
Resposta:
Doces...a lembrança que tenho da minha avó são os doces de compotas, o que eu amava era o doce de figo, inclusive tem um pé de figo até hoje no quintal da casa. Era doce de abóbora, doce de mamão, de sidra...
Pergunta:
Tinha um doce específico da região de onde vieram os seus avós? A milina, por exemplo.
Resposta:
Mas a milina é salgada, né.
Pergunta:
Mas tem doce, com abóbora e canela?
Resposta:
Ai agora você me pegou, eu acho que era mais salgada.
Pergunta:
Salgada. É. Tá.
Pergunta:
Alguma vez você sentiu alguém olhar estranho porque você era descendente, neta de búlgaros bessarabianos ou nunca vivenciou isso?
Resposta:
Não. Nunca vivenciei.
Pergunta:
Tá. Você tem um irmão Marcelo que se dedicou a gastronomia, não é? Você me contou um episódio dele em relação à comida e a Dona Anna, sua avó.
Resposta:
Ele gosta de comer língua, que é um prato que muita gente fica assustada de ver e eu , particularmente, não gosto, mas eu lembro dele pedindo para minha avó fazer isso e até hoje ele pede para minha mãe fazer. Uma outra coisa que a minha avó fazia que ele gostava, eu lembro dele pequenininho pedindo, era dobradinha e a avó Anna fazia com feijão branco e hoje ele pede para que minha mãe faça e eu escuto muito ele falar: "Ah, eu estou fazendo uma tal receita adaptada da receita da Avó Anna". Então, ele é um dos que continua com a culinária que ela tinha o hábito de fazer pra gente.
Pergunta:
Você me contou outro episódio de relembrar a tradição búlgara bessarabiana num programa Ana Maria Braga. Você pode contar pra mim?
Resposta:
Eu não lembro a data, ano que foi feito esse convite, mas fizeram um convite para minha tia Sonia, eles queriam que montasse uma ceia de Natal típica. Então, minha tia chamou algumas amigas da minha avó, meu avô era vivo na época, e ela pediu para que eu trouxesse os meus filhos. Então, foi montada na sala da casa da minha tia uma mesa com comidas típicas, frutas típicas, com patrícios deles e a Ana Maria Braga veio pra entrevistá-los.
Pergunta:
Ela veio ou mandou os representantes entrevistá-los?
Resposta:
Não. Veio uma equipe, a equipe dela veio entrevistar e esse programa foi ao ar no mês de dezembro.
Pergunta:
Você se lembra exatamente do que tinha nessa mesa farta, sempre farta né?
Resposta:
Sempre farta, sempre muita coisa, toda colorida.
Pergunta:
Que coisa típica?
Resposta:
Milina, o pão que seria o panetone, frutas secas, sempre decoração com trigo, é uma coisa que eles colocam bastante... de casa eu não vou lembrar o que tinha...
Pergunta:
Não lembra? Em relação à língua, você sabe algumas expressões ou a tradição búlgara bessarabiana ou isso se perdeu ao longo dos anos?
Resposta:
A verdade é assim, os meus avós, a minha mãe e as minhas tias, entre eles, sempre conversavam, eles sempre respeitavam se tivesse alguém de fora, eles não conversavam em búlgaro, normalmente entre eles só. Eu lembro, a minha avó falava que era um desrespeito eles conversarem em um idioma que as outras pessoas não entendessem. Então, assim, algumas palavras a gente sabe, como travesseiro, cobertor, o basiquinho.
Pergunta:
Como que é travesseiro?
Resposta:
Padushka.
Pergunta:
Cobertor?
Resposta:
Tcherga.
Pergunta:
Arroz?
Resposta:
Não sei...
Pergunta:
Não sabe... Alguma outra palavra que você usava? Como você fala avô?
Resposta:
Diado.
Pergunta:
E avó?
Resposta:
Avó, normalmente chama-se de Baba. Só que nós nunca chamamos de Baba. Era Vó Anna, sempre foi Vó Anna...não pegou o Baba.
Pergunta:
Quer dizer que vocês, os netos, foram diluindo a questão da língua de origem dos avós?
Resposta:
Segundo a minha mãe, ela diz que eles usavam, como os meus bisavós também moravam juntos até uma certa época, minha mãe conta que depois que ela e minha tia começaram a namorar, foi diminuindo a frequência de usar o idioma, porque tinha gente de fora, por exemplo, o meu pai não fala nada. E assim eu tenho a lembranças delas conversando entre elas, os meus filhos às vezes pediam, pediam quando eram menores: "Vó, fala alguma coisa", porque eles achavam bonito, mas não conhecemos a língua.
Pergunta:
Stael, tem algum episódio comovente da relação com os avós nessas tradições todas, que você se lembra com muito afeto, com muito carinho?
Resposta:
Eu acho que uma coisa que marcou muito pra mim, foi as Bodas de Ouro dos meus avós, que foi na Igreja Ortodoxa. Nós somos 5 netos.
Pergunta:
A Ortodoxa da Vila Alpina?
Resposta:
É. Da Vila Alpina. É uma igreja bem pequenininha, mas é uma graça, uma igrejinha maravilhosa. Nós somos 5 netos, eu e meus dois irmãos e eu tenho mais dois primos mais velhos. E quando os meus avós fizeram Bodas de Ouro, eles colocaram para que eu entrasse com meu avô, que eu sou a neta mais velha, e o meu primo entrou com a minha avó. Então teve a cerimônia, eu tenho até hoje [foto] a gente numa escadaria entrando com eles nessa igreja, depois teve uma recepção que foi festa na casa da minha avó e eu lembro daquela casa cheia como sempre , todas as festas. Aquela casa lotada de gente e todo mundo comendo, conversando, sempre assim muito animadas as reuniões que tinham na casa dos meus avós.
Pergunta:
Você frequenta a Igreja Ortodoxa?
Resposta:
Eu frequento assim, em datas, vou ser bem sincera, eu frequento, eu acho que frequentei mais depois que meus avós faleceram do que antes. Às vezes tem algum evento, a minha tia me avisa, eu levo os meus filhos, meu marido, por exemplo, o meu marido e o meu filho amam frequentar, assistir à missa deles, porque é bem diferente do que a gente está acostumada na Igreja Católica.
Pergunta:
Dá pra descrever um pouquinho como é? Ela é longa?
Resposta:
É. É uma igreja pequena, você não pode...só sentam as pessoas de idade, tem pouquíssimos bancos, o pessoal fica em pé. Tem um arco na entrada e você tem que respeitar aquilo de não ultrapassar aquilo se estiver de calça comprida, só pode entrar de vestido. É uma das regras deles. Eu já fui abordada uma vez, porque esqueci que estava de calça e fui tentar passar e uma pessoa veio me chamar a atenção, mas eu acho que são as regras deles e a gente tem que respeitar.
Pergunta:
Quanto tempo dura uma cerimônia?
Resposta:
Ah, depende, tem umas que duram a noite inteira . A missa, eu acho que 1 hora e meia, duas, mais ou menos. Mas é bem bonito. Eu acho que, se você tiver oportunidade de conhecer, vale a pena.
Pergunta:
E o público é desde o avô, a avó, o pai, os filhos, os netos, é variado o público da missa?
Resposta:
Não. Normalmente são pessoas de idade.
Pergunta:
Crianças?
Resposta:
Muito raro, pelo menos as que eu tive a oportunidade de assistir, criança... criança é muito difícil de se ver.
Pergunta:
Tem algum ritual relacionado à alimentação nessas missas, ou não? Descreva a missa um pouquinho.
Resposta:
Tem. A missa não é realizada em português, ela é realizada em.... [esqueceu], no final da missa eles servem o suco de uva que representa o vinho e o pão e normalmente depende de qual é a finalidade da missa, vamos dizer assim, por exemplo, depois do falecimento, 40 dias após, tem uma missa e a tradição é que depois dessa missa, a família da pessoa que faleceu ofereça um jantar ou um almoço. Então, depende. Esse suco de uva que eu estou falando e do pão eu não me lembro qual tipo de missa que é, qual a finalidade, vamos dizer assim. Eu sei que, após o falecimento, tem esse ritual. Quando minha avó faleceu, minha mãe e minhas tias ofereceram um jantar para as pessoas que compareceram à missa.
Um outro fato que me marcou também foi o velório do meu avô que foi dentro da igreja Ortodoxa. Meu avô participou da pedra fundamental dessa igreja.
Pergunta:
Da Vila Alpina?
Resposta:
É. Então o velório dele foi realizado dentro da igreja e uma das tradições é, nós que éramos da família, é levar um pouquinho de terra e colocar dentro do caixão, vamos dizer assim. Isso é uma tradição, que da terra veio à terra retorna.
Pergunta:
O ritual de velório é o mesmo da igreja católica tradicional?
Resposta:
É.
Pergunta:
Sai o caixão, as pessoas acompanham, rezam, oram?
Resposta:
É. Uma outra curiosidade é a vela que eles usam, ela é de mel, então ela tem um cheirinho adocicado, ela é mais escura do que a vela da Igreja Católica, eu estou me baseando pela Igreja Católica porque é ela que eu frequento. Ela tem um cheirinho adocicado, é mais amarelada, é mais amareladinha.
Pergunta:
É de cera de abelha?
Resposta:
E é uma cera diferente da que a gente está acostumada a ver.
Pergunta:
E esse ritual de cultuar no velório, de cultuar o morto dura?
Resposta:
A mesma coisa.
Pergunta:
A mesma coisa. E o hábito é enterrar mesmo?
Resposta:
Também, também.
Pergunta:
Pode cremar? Você tem essa noção ou não?
Resposta:
Não.
Pergunta:
Não pode?
Resposta:
Não, não sei te dizer. E assim essa parte de enterros, a família, nós nunca tivemos o hábito, você está falando de cremação, né, eu não sei te responder pelo fato de a família da minha mãe nunca teve o hábito de visitar depois que teve o velório e foi enterrado, a família não tem o hábito de ir até o cemitério, fazer visita a túmulo, entendeu?
Pergunta:
Só tem os 40 dias após e tem esse almoço, né?
Resposta:
Isso. Almoço ou jantar, fora isso não tem isso de frequentar, de visitar túmulo.
Pergunta:
Conta pra mim, um pouquinho, você se casou com um descendente de italianos, seu marido é descendente de italianos?
Resposta:
É, meu marido é descendente de italianos.
Pergunta:
Você casou-se com que idade?
Resposta: 26 anos.
Pergunta:
Tem um episódio marcante que você me disse que foi 11 de Setembro, você pode relatar pra mim?
Resposta:
É, 11 de setembro foi o acidente das Torres Gêmeas. [nos Estados Unidos da América]
Pergunta:
Você já era casada?
Resposta:
Já estava casada, meu filho tinha 2 anos e 3 meses e eu estava grávida de 6 meses da minha filha. E eu lembro que o sogro me ligou, que era pra eu ligar a televisão que estava dando um atentado nos Estados Unidos. E eu liguei e tenho... ver aquelas cenas dos aviões entrando nos prédios. Dois dias depois, o meu sogro teve uma parada cardíaca fulminante dentro do restaurante e 3 meses depois, minha filha nasceu. Então foi assim, uma data que pra mim...Setembro, daquela data até o final do ano foi bem tumultuado.
Pergunta:
E como é essa troca de culturas, seu marido descendente de italianos, você de búlgaros bessarabianos? Como foi a convivência?
Resposta:
Olha, minha sogra sempre me diz que a minha família adotou ele, como meu marido é filho único, assim, desde o primeiro ano que eu comecei a namorar, eu namorei muito tempo e eles começaram a frequentar a casa dos meus pais e dos meus avós, todo mundo teve uma ótima integração, inclusive a tia do meu marido já viajou várias vezes com a minha tia. Todo mundo conseguiu se entrosar bem, então eles fizeram parte, as festas, essas reuniões, eles sempre vieram na casa da minha avó, tanto é que meu marido fala até hoje que no dia que minha avó faleceu, ele sentiu como se fosse a avó dele, porque ele conviveu muito. Ele adora ir na Igreja Ortodoxa. Se você chamar ele, vamos na missa católica ou vamos na ortodoxa, ele vai preferir a ortodoxa. Ele fala que sente uma paz, é um lugar diferente. É outro astral.
Pergunta:
Você me disse que fez Objetivo... não é?
Resposta:
Ensino Médio no Objetivo.
Pergunta:
Ensino Médio e depois você foi para a Fundação Santo André. Lá você fez Pedagogia?
Resposta:
Pedagogia.
Pergunta:
E atuou na área profissional?
Resposta:
Eu trabalhei 8 anos com Pedagogia no Colégio Objetivo de Santo André.
Pergunta:
Depois de formada ou durante a formação?
Resposta:
Durante e depois.
Pergunta:
Abandonou a profissão ou o que motivou você a...
Resposta:
Não. Eu resolvi trabalhar com meu marido porque ele tem comércio, já tinha na época e tem até hoje e eu fui trabalhar com ele.
Pergunta:
Comércio de quê?
Resposta:
Roda e pneu de carros.
Pergunta:
Roda e pneu. E até hoje você trabalha com ele?
Resposta:
Até agora.
Pergunta:
Conta um pouquinho pra mim do casamento. Como é que foi, os seus avós ainda estavam vivos, como é que foi?
Resposta:
Estavam. O meu casamento foi como sempre, a gente adora uma festa. Eu casei na Catedral do Carmo em Santo André e depois o meu pai e o meu sogro deram uma festa, na época era o Buffet Padovese, com muita gente como sempre a gente gostou, lotado de gente e meus avós participaram e depois eu viajei e fiquei 1 mês fora, viajei de navio pelo Caribe. Isso já faz 24 anos.
Pergunta:
E você tem 2 filhos. Um de 19 e uma menina de 16. E tem alguma lembrança de questões políticas do Brasil que interferiram na sua imaginação, na sua formação?
Resposta:
Não.
Pergunta:
A que atividade você se dedica, além de trabalhar?
Resposta:
Atividade de lazer? Eu gosto de dançar, fazer atividade física, frequento Studio onde tem vários tipos de danças, de ginástica, dou uma assessoria pros meus filhos que ainda são adolescentes.
Pergunta:
Conta um pouquinho pra mim da sua experiência como pedagoga.
Resposta:
Eu trabalhei no Objetivo Fundamental e Médio.
Pergunta:
Como foi essa experiência?
Resposta:
Eu gostei bastante, mas eu acho que é muito complicado lidar com adolescentes, quando você não tem apoio principalmente da família, porque a família acha que a responsabilidade de criar o filho é da escola e não o trabalho conjunto entre família e escola.
Pergunta:
Stael, você é a neta mais velha do seu Julio e da dona Anna?
Resposta:
Sou.
Pergunta:
Você teve algum privilégio, alguma regalia por isso?
Resposta:
Não.
Pergunta:
No tratamento? As tias?
Resposta:
Não. Não, sempre foi uma farra danada.
Pergunta:
Cotidianamente, você tinha por hábito vir à casa dos seus avós ou era só em momentos específicos?
Resposta:
Não, a gente vinha com frequência. A gente adorava tomar lanche da tarde com ela. Sempre a gente sabia o horário mais ou menos que eles tomavam café, então... aquela mesa, pão, manteiga, pão doce, café que ela adorava café com leite, chá, então a gente teve esse hábito de vir que nós deixamos bastante de vir depois que eles faleceram.
Pergunta:
E o episódio da manteiga e da sua filha?
Resposta:
Minha filha tem até hoje uma lembrança, ela tinha 2 anos e meio na época. Ela adorava perfurar essa manteiga, ela enfiava o dedinho e fazia um buraco na manteiga e a minha avó deixava e ela fala que lembra até hoje, a avó falando pra ela: "Não, não, não, não pode furar manteiga", mas uma bronca assim, que pra ela, ela sabia que a avó estava brincando. Ela chamava de avó também, não de bisavó. Ela tem uma ótima lembrança desse pedacinho de manteiga dela.
Pergunta:
E tinha alguma música que seu Julio e dona Anna cantavam de que você se lembra?
Resposta:
Não. O que eu tenho de lembrança de música da região deles, eu pra mim, eu acho que é música de, como é o que eu vou dizer, eu entendo uma música de lamúria, pra mim ela não é muito alegre. Mas eles não tinham muito esse hábito não. Uma coisa que eu tenho lembrança do meu avô é ele recebendo visita para ele traduzir as cartas das pessoas que recebiam carta de outros países. Eu lembro da gente falando: "Cadê o Diado? Ah ele tá lendo a carta de fulano". Ele traduzia as cartas do pessoal, acho que não entendiam.
Pergunta:
Se você bem se lembra que até seu avô tinha máquina com caracteres cirílicos.
Resposta:
Tem até hoje e meu filho é apaixonado por essa máquina.
Pergunta:
É uma relíquia?
Resposta:
É. Até hoje, meu filho fala dessa máquina de escrever.
Pergunta:
Stael, conta pra mim, um pouquinho como é que foi a sua infância, agora com os teus pais; você falou dos avós, relacionamentos, e na família, com seus pais?
Resposta:
Ótima. Ótima. Meu pai e minha mãe sempre foram muito participativos comigo e com meus irmãos. A gente brincava muito na rua, muito no quintal, porque era uma casa com um quintal bem grande, então eu tenho lembrança da gente brincando de bicicleta, brincando de casinha, o meu pai chegando, meu pai trabalhava na CBC, que é Companhia Brasileira de Cartuchos, ele vinha a pé da fábrica, então eu lembro dele trocando de roupa, colocando shorts, brincando de fazer ginástica com meu irmão no quintal, levando a gente pra passear. Uma lembrança que eu tenho, junto dos meus pais com meus avós é a gente fazer pic nic na cidade da criança em São Caetano, Zoológico, então eles sempre foram muito participativos, muito amorosos, muito carinhosos.
Pergunta:
Alguma música que marcou a sua adolescência? Filmes, músicas...
Resposta:
Olha, eu sou ruim com nome de música e filme.
Pergunta:
Você gosta de música? Cinema?
Resposta:
Gosto assim, mas eu sou péssima pra guardar nome. Se as pessoas falam, tem um tal filme? Eu falo, deixa eu olhar a capinha pra poder lembrar. Meu pai gosta muito de samba, então eu, pra mim é assim, toda vez que eu escuto algum samba eu associo ao Natal, porque era uma época que meu pai colocava, porque como a ceia e o dia de Natal sempre foi na minha casa, então ficava aquela bagunça, papel de presente, dos presentes das crianças tal e eu lembro que, de manhã, a gente arrumando a casa pro almoço, meu pai colocava esse tipo de música, então foi uma coisa que me marcou.
Pergunta:
Então, o samba é ligado ao seu pai?
Resposta:
É uma das coisas que me marcou e adoro escutar até hoje.
Pergunta:
E pra você, especialmente pro gosto de jovem, tinha alguma música, quando adolescente?
Resposta:
Não, especificamente, não. Uma coisa que me marcou também muito é o Natal na casa dos meus pais, sempre teve Papai Noel.
Pergunta:
Vestido?
Resposta:
Vestido. Tem até hoje. Até hoje mantém essa tradição. Segundo a minha mãe, esse Papai Noel vem desde a época do meu primo, ele deve ser uns 4 anos mais velho do que eu. E mesmo ele descobrindo que papai Noel não existia, ele não contou pro irmão, o irmão não me contou e eu não contei pro meu e passou para os meus filhos e até meu marido já foi papai Noel, já entrou na dança. Eu tenho uma cena que eu tenho muito marcada, porque a minha irmã que tinha pavor de Papai Noel, então eu tenho a cena da avó Anna segurando ela no colo, acalmando ela, porque ela chorava, esperneava, então avó Anna sempre tentando dar uma acalmada nela porque ela ficava tão apavorada com o Papai Noel ... e todo ano tem aquela farra, a farra com Papai Noel, né? Mas isso vem desde a época que eles eram vivos.
Pergunta:
Você tem alguma outra palavra que você se lembra de ouvir os avós falarem em búlgaro?
Resposta:
Não.
Pergunta:
Seu marido era descendente de italianos, ele usava quando vocês namoravam as expressões, você frequentava a casa do sogro, eles tinham hábito, eles eram imigrantes ou eram já nascidos no Brasil?
Resposta:
Não. Meus sogros são nascidos em Santo André.
Pergunta:
Santo André. Então não havia essa cultura?
Resposta:
Não. A família do meu marido não tinha costume de fazer nem ceia de Natal, tanto é que minha sogra fala que foi adotada e que ela ama o jeito que é a minha família, de festas, de todo mundo unido. E é engraçado que meus filhos, eles tem ótimas lembranças, apesar de serem pequenos quando meus avós faleceram, mas eles têm lembrança até hoje da casa, das festas, das reuniões. É muito legal.
Pergunta:
Stael, eu acho que já consegui o que eu pretendia nessa entrevista. Você já contou um pouco da sua história. Pra gente finalizar esse depoimento, você poderia falar alguma mensagem, alguma coisa de emoção para os jovens, para as pessoas que forem assistir o seu depoimento ou para os seus filhos? Deixar uma mensagem, o que você quiser.
Resposta:
Olha, eu acho que todo mundo deveria pesquisar um pouquinho do seu antepassado. Eu acho que tem muita coisa que implica o jeito que a gente é, que a gente pensa, como a gente age. Tem muita coisa que vem lá de trás, tem muita coisa que hoje eu estou entendendo.
Pergunta:
Você se identifica com descendente de búlgaros bessarabianos ou isto já está mais afastado?
Resposta:
Está mais afastado. Eu tenho ótimas lembranças assim nítidas na minha cabeça, coisas como eu já te passei, as Bodas de Ouro dos meus avós, quando a minha avó faleceu, eles tinham 63 anos de casados, faz 14 que a minha avó faleceu, então passou um bom tempo, mas eu tenho cenas assim na minha cabeça que eu sei, eu nunca vou apagar. Tenho muita saudade, eles fizeram parte da minha vida assim diariamente, eles iam para minha casa como eu vinha pra cá. Mas eu acho que tem muita coisa do jeito que a gente age, que a gente pensa que tem a ver com esse passado, os antepassados.
Pergunta:
Uma última pergunta. Você alguma vez, já alguma vez foi conhecer o local de onde eles vieram, lá na Bessarábia?
Resposta:
Não! Só minha tia que foi lá.
Pergunta:
Está bom. Obrigada Stael.