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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Sônia Dimov

  • Nome: Sônia Dimov
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 08/10/1946
  • Data de falecimento: 17/11/2022
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: São Caetano do Sul (SP)
  • Profissão: Professora aposentada

Biografia

Filha de búlgaros bessarabianos por parte de pai e mãe. Foi professora de escolas particulares (Pentágono) e pública (estadual) e, também, diretora. Em casa, conversavam em búlgaro. Conviveu com o avô paterno, Joan Dimov. Seu avô materno foi Ivan Dimitriev Stoianov. Foi presidente da Associação Búlgara. Quando estudante da USP, soube de professores levados para interrogatório pelo regime militar (+- 70 a 74).



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Transcrição de Depoimento de Sonia Dimov em 22 de agosto de 2018

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias
Depoimento de Sonia Dimov, 71 anos.
São Caetano do Sul, 22 de agosto de 2018.
Pesquisadora: Vilma Lemos
Equipe Técnica: Evandro Gabriel Merli, Leticia Jancauskas, Letícia Polli e Natalia Improta

Pergunta:
Sonia, nós sempre começamos pedindo para a pessoa dizer data e local de nascimento.

Resposta:
Meu nome é Sonia Dimov. Eu nasci aqui em São Caetano do Sul, em 08 de outubro de 1946
.
Pergunta:
Você é filha de búlgaros bessarabianos por pai e mãe?

Resposta:
Sim.

Pergunta:
Conta um pouquinho pra nós de sua família, relacionamento com pais.

Resposta:
Meus pais foram imigrantes na década de 20, precisamente em 1926. Meu pai, na ocasião, tinha 14 anos e minha mãe estava com 10 anos. Vieram se conhecer aqui em São Paulo, depois de 10 anos e, exatamente em 1936, após 10 anos de Brasil, eles se casaram. Lembrando que, para a família, era muito importante os casamentos entre as pessoas da mesma etnia.
Meu pai nasceu em solo do Império Russo, numa região, ao sul da Rússia, hoje seria o sul da Rússia, mas com etnia búlgara. Isso se preservou pela vida toda, a distinção entre a sua etnia e o local de nascimento. Então, em momento nenhum somos considerados russos, apesar de eles terem nascido, tanto meu pai como minha mãe, em solo russo. O que se prioriza não é a localização de nascimento e sim a descendência que seria a etnia.

Pergunta:
Seu pai foi um dos primeiros entrevistados do nosso grupo de pesquisas aqui em 2004. Seu Julio dizia: "Vilma, eu sou da Moldávia", ele me dizia. Sonia, o que significa Moldávia hoje?

Resposta:
Moldávia hoje é uma região, no mapa da Rússia, antigamente tinha uma região que se chamava Bessarábia e depois, com a guerra, se dividiu em duas partes, uma chamada Ucrânia e essa região que é a Moldávia. Hoje se formos procurar o termo Bessarábia, praticamente não vamos encontrar a história da Bessarábia. Por quê? Porque hoje significa Moldávia e Ucrânia.

Pergunta:
O nome de sua mãe?

Resposta:
Eu gostaria de fazer uma observação. Eu vou exatamente pronunciar como meu pai pronunciava o nome de minha mãe.

Pergunta:
E o nome dele também, Sonia.

Resposta:
[Para] Meu pai, para as pessoas da nossa família é Rana. Apesar de que no documento é Anna. Se escreve Anna, mas pronuncia-se Rana. E meu pai tinha no documento brasileiro o nome Julio, mas ele era Rulian. Minha mãe, quando queria chamá-lo: (inintelegível) "Onde está você, Rulian?, que é o nome de batismo. [5'] Quanto ao nome de batismo, na região que eles estavam, não se tinha o hábito de registrar a criança quando nascia em cartório e sim na hora do batismo, na igreja. A igreja oferecia um documento que fazia o mesmo papel da Certidão de Nascimento. Então, esse documento que deve ter sido feito mais ou menos em 1912/13, esse documento que seria a Certidão de Nascimento do meu pai existe até hoje e é o documento que a gente preserva em termos históricos.

Pergunta:
E sua mãe nasceu em 1916?

Resposta:
Sim, minha mãe é de 1916.

Pergunta:
Sonia, seus pais casam-se aqui?

Resposta:
Sim. Eles chegaram em 1926.

Pergunta:
E foram para onde, quando chegaram aqui?

Resposta:
Quando chegaram, o primeiro contato com o Brasil sempre foi o Museu da Imigração do Brasil, pois vieram com contrato de trabalho e essa necessidade de mão de obra para a agricultura, o Museu da Imigração era um ponto que eles chegavam onde os fazendeiros chegavam também para fazer esse acerto de termos, qual região é a que eles iriam trabalhar. Eles foram para uma região próxima a Campinas e ficaram lá por algum tempo e minha mãe morou sempre aqui. Minha mãe morou nessa região também, mas após o casamento; enquanto solteira, ela sempre morou no centro de São Paulo.

Pergunta:
Eles vieram por Santos ou pelo Rio?

Resposta:
Por Santos.

Pergunta:
Por Santos e de Santos para a Hospedaria do Imigrante.

Resposta:
Meu pai, após 70 anos, isso acontece em 1996, decide voltar a exatamente na hospedaria porque até então ele não tinha retornado a esse local. Ele teve um sonho de agrupar as pessoas e o primeiro lugar que quis visitar foi, apesar de que a Hospedaria do Imigrante ficava ali no Brás, muito próximo a São Caetano, mas até então ele não tinha ainda retornado a este local.

Pergunta:
Quando eles vieram, a Hospedaria do Imigrante já era no Brás?

Resposta:
Sim, já era no Brás.

Pergunta:
Conte pra mim, eles casaram e tiveram quantos filhos?

Resposta:
Tiveram 3 filhos.

Pergunta:
Nomes?

Resposta:
Maria, Olga e Sonia, que sou eu.

Pergunta:
Seu pai, além de vir trabalhar na lavoura, foi isso o contrato dele? Depois eles resolvem vir embora. E aí, ele vai viver como?

Resposta:
Eles tiveram comércio. Tiveram a mercearia, uma quitanda e com isso eles viveram praticamente a vida profissional toda.

Pergunta:
Sempre aqui em São Caetano? O mesmo endereço?

Resposta:
Sim, sempre.

Pergunta:
Os avós também faziam parte do núcleo familiar? Eles vieram também, não?

Resposta:
Vieram. Veio o meu avô, a minha avó, meu bisavô e 4 filhos, sendo 3 mulheres e meu pai.

Pergunta:
Ele tinha 14 anos?

Resposta:
Sim, ele tinha 14 anos. Eu não conheci o meu bisavô, mas convivi até a idade adulta com meu avô.

Pergunta:
Como era o nome dele?

Resposta:
Ivan. Minha avó faleceu, eu era pequena, mas a convivência com essas figuras foi uma [10'] problemática de adaptação em termos de viver aqui, desde o problema do vocabulário até o problema de relacionamentos... foi uma coisa assim, que me parecia que havia na casa a todo e qualquer momento, uma mescla de um sentimento profundo de felicidade, mesclado com uma melancolia extrema. Eles eram felizes. Eram sim. Por quê? Porque deixaram um país com uma política extremamente difícil. Se tinha em mente que a família que tinha um homem, sabia que alguns anos pela frente esse homem ia pra guerra. Então a minha avó, meu avô, numa situação difícil de se viver lá nessa região e tendo um filho homem, ainda que sem saber para onde iam, era mais importante do que ficar e continuar com o sofrimento. Essa problemática do filho aborreceu tanto a família da minha mãe como a família do meu pai. E na família da minha mãe, havia 4 mulheres e 1 homem e na família do meu pai, 3 mulheres e 1 homem. As duas famílias saíram exatamente com a certeza de que, se ficassem, os filhos iriam para a guerra. Entre ir para a guerra e pegar a incerteza de não saber onde é, que era a América, porque não se tinha noção se a América era Estados Unidos, Argentina, se é que era Brasil, se aventuram sim para o Brasil. Então a história de vida das duas famílias, eles não se conheciam na Europa, vieram se conhecer aqui no Brasil, era muito semelhante. O roteiro de vida deles era muito semelhante. Isso daqui de certa maneira, aquilo que acabei de dizer, a melancolia e a felicidade tem alguma coisa em comum. A língua favorecia porque eles falavam o mesmo idioma, as famílias tinham um fator positivo, porque estavam se casando com patrícios, isso tinha um peso muito grande e entre os brasileiros que eles pouco conheciam e aquela pessoa que tinha algo em comum, então era preferível casar com patrício. .

Pergunta:
O Ivan era por parte de quem? Do pai ou da mãe? O avô?

Resposta:
Do pai e da mãe. Eles são os dois. João era Ivan.

Pergunta:
Eu tinha anotado João. Era pai do pai.

Resposta:
Essa adaptação de nomes próprios, eles às vezes faziam uma adaptação feliz, interessante, outras vezes nem tanto, porque dependia da pessoa que estava lá, no momento para fazer a adaptação. Então o mesmo nome próprio que vinha da Europa para cá teve traduções totalmente diversas.

Pergunta:
Então você conviveu com o avô Ivan, que era pai do pai?

Resposta:
Sim, avô, pai do pai.

Pergunta:
Como você conviveu até a idade adulta com eles, você tem a lembrança deles dizerem assim: "Que triste a gente ter vindo", embora você tenha falado que eles tinham uma felicidade, uma melancolia, alguma vez você viu eles verbalizarem: "Poxa, vamos voltar ou queremos voltar?"

Resposta:
Nunca, lembrança alguma. Meu avô, tanto o meu pai sempre repetiam que a melhor coisa da vida que eles fizeram foi vir para cá. Por quê? Eles saíram em 1926, [15'] eles se lembraram que a Segunda Guerra estava para surgir. Então em 1946, que termina a guerra eles já estavam aqui, numa situação talvez um pouco mais confortável daquela em que estivessem lá.

Pergunta:
A sua irmã mais velha, a Maria, relatou para mim que tinha muita dificuldade com a língua quando foi para a escola. Você teve essa dificuldade?

Resposta:
Eu tenho, eu acredito que tenho dificuldade em Língua Portuguesa até hoje. Até hoje a sonoridade de uma língua, a medida que eu vou passar para outro idioma, muitas vezes, fico um pouco equivocada. Então a minha irmã mais velha teve sim, porque ela estava numa época em que minha avó ainda estava com a gente, tinha meu avô, meu pai, minha mãe e o idioma usado dentro de casa era o búlgaro e a medida que saíamos, a gente ficava um pouco perdida.

Pergunta:
Quando você entrou na escola, no ensino primário, sendo alfabetizada, você sentiu algum preconceito? "Você é filha de imigrante, filha de estrangeiro"?

Resposta:
Eu não sei se esse preconceito era verbalizado, mas ele era sim, eu acredito que era sim, eu não sei se o preconceito era das outras pessoas ou meu preconceito, em termos de que a gente se achava um pouco diferente. Não sei bem como, mas diferente. Assim as coisas eram mais tradicionais na minha casa, o fogão a lenha existia, todas as pessoas tinham fogão a gás, na minha casa tinha poço para pegar a água. Eu acho importante lembrar quando próximo do Natal, o animal tinha que ser criado, então se trazia para casa o leitãozinho pequenininho ou carneiro e era criado por um tempo e ele era sacrificado praticamente às vésperas das festas, e as crianças corriam e se escondiam para não ouvir os gemidos, que era um verdadeiro terror.

Pergunta:
Isso porque vocês moravam aqui pertinho, na Roberto Simonsen nesta época. Descreva um pouquinho como era essa região quando vocês moravam aí.

Resposta:
Uma coisa que eu lembro assim, a Avenida Goiás, não tinha sido ampliada ainda e era uma rua estreita, as casas muito antigas e uma coisa me marcou muito. Do lado de casa tinha uma farmácia na esquina e tinha a Cerâmica São Caetano e as pessoas da Cerâmica, era comum irem até essa farmácia, comprar medicamentos. E eles iam numa charrete e nessa charrete, as mulheres muito chiques, pessoas de gerentes, de alto executivos da cerâmica São Caetano, eles iam de charrete até a farmácia para fazer suas compras. Então hoje, às vezes, eu paro e fico imaginando o tempo que se passou e as mudanças; teve mudanças extremamente significativas e importantes, outras nem tão significativas, então pelo tempo, eu acredito que São Caetano...

Pergunta:
Como que era o relacionamento com os pais? Vocês e os pais. Seu pai trabalhava, sua mãe trabalhava?

Resposta:
Sim. Eles sempre trabalhavam. Eu acredito que o peso do trabalho era uma coisa muito forte, em termos assim, de cumprir, de honestidade, de prazos, aquela mentalidade de ter que trabalhar para ter sucesso, ter que trabalhar para ganhar dinheiro, eu acho que os filhos às vezes ficavam um pouquinho sem atenção. [20'] E nessas alturas quem dava atenção eram os avós, substituindo. Eu acho que a figura, os momentos de maior felicidade na infância eu não lembro da figura do meu pai, mas sim do meu avô.

Pergunta:
E quem cozinhava, a mãe ou a avó? Ou ambas?

Resposta:
Eu não lembro da minha avó cozinhando não.

Pergunta:
Que comida sua mãe fazia, Sonia? Eram comidas típicas da Bulgária, ou adaptadas, como era?

Resposta:
Não, não necessariamente. Minha mãe sempre teve assim uma satisfação muito grande pela cozinha e uma sabedoria também, e uma coisa que ela já conhecia em termos de muito uso de verdura, de legumes e não priorizar tanto a carne, apesar de que a carne sempre foi alguma coisa muito cara, mas minha mãe tinha uma habilidade tão grande.

Pergunta:
Qual era o prato principal que sempre se fazia nas ocasiões especiais? Que era o cardápio na cozinha búlgara bessarabiana?

Resposta:
Eu acho que a mamaliga, que é a polenta, ela era assim bastante usada.

Pergunta:
Qual é a diferença dessa polenta da italiana? Ou é a mesma coisa?

Resposta:
Não tem diferença.

Pergunta:
A mamaliga, que mais?

Resposta:
A carne assada, isso sim, sempre de vitela. Meu pai gostava muito de vitela, então se ia muito ao mercado municipal em São Paulo, em ocasiões especiais, ele tinha o hábito de comprar. Apesar da gente morar em São Caetano, meu pai tinha muito acesso, ele ia a São Paulo com muita facilidade, em termos de trazer alguns produtos melhores de lá. Uma latinha de haleu, que eu nunca esqueço que toda vez que ele ia pra São Paulo ele trazia a tal latinha do haleu, ele gostava.

Pergunta:
Haleu é?

Resposta:
Doce Sírio. [halawi]

Pergunta:
Ele gostava.

Pergunta:
Brincadeira de infância tinha?

Resposta:
Em casa, eu não lembro.

Pergunta:
E música, Sonia, tinha música? Vocês cantavam?

Resposta:
Não, não.

Pergunta:
Lazer, o que as crianças faziam de lazer, ou também não tinha?

Resposta:
Tinha, tinha. Nós tínhamos alguns parentes de segundo grau em Santos, meu avô várias vezes se propôs a levar as crianças para a praia.

Pergunta:
Ia como?

Resposta:
De ônibus. Ia de ônibus. E lembro perfeitamente do meu avô me levando em circo, vários aqui em São Caetano, de pequena, ele levava sim. No Jardim Primeiro de Maio, ali na Goiás, teve um progresso muito grande que se colocou um telão, eu imagino que isso tenha sido na década de 60/70, por aí. Um grande telão em que se passavam filmes. Então, ele levava para que a gente assistisse a esses filmes, no telão do Jardim Primeiro de Maio.

Pergunta:
Fala um pouquinho da juventude, você estudou nas escolas da região de São Caetano, sempre aqui em São Caetano, fala um pouquinho da juventude, cinema, baile, tinha?

Resposta:
Tinha sim, eu fiz o antigo Ginásio, o Clássico, que era o Ensino Médio, no Coronel Bonifácio de Carvalho, está até hoje e tinha exatamente em frente um salão de baile, um salão pequeno do Grêmio Estudantil. O Grêmio era bem atuante e se reuniam as pessoas lá, fui muito muito, inclusive uma época em que a minha segunda irmã já estava namorando e eu ia com amigas, colegas.

Pergunta:
Tinha muitas salas de cinema por aqui ou não?

Resposta:
Tinha [25'] sim, tínhamos alguns cinemas que hoje não existe mais nenhum deles.

Pergunta:
Você lembra do nome?

Resposta:
Tinha um cinema chamado Cinemax, que era lá embaixo perto da estação.

Pergunta:
Onde?

Resposta:
Perto da Estação. Onde hoje é uma igreja Evangélica. Tinha Cinema Urca, na Rua Amazonas aqui em cima, eu não lembro de ter entrado nesse cinema, nunca. Mas no Cinemax eu ia sim. Tinha o Cine Vitória, que era de uma qualidade melhor, mais moderno e depois de um tempo o Cine Lido, na [rua] Manoel Coelho que também hoje... então me parece que hoje São Caetano deve muito nesse sentido de cultura, porque naquela época se tinha propostas de incentivo cultural muito grande e tenho impressão assim que se apagaram. Eu tive uma amiga que, na época da escola, do colégio, tentou abrir uma livraria e não tinha progresso algum, não teve sequência e até hoje eu acho que São Caetano nos deve um espaço, independente de Shopping, para que se tenha acesso à cultura mais diretamente.

Pergunta:
Você fez cursinho no Objetivo. Você me disse um detalhe importante e significativo, que eles redirecionavam a cabeça dos estudantes.

Sonia:
Eu acredito que o nosso curso de pré-vestibular tenha sido, se não foi o primeiro, eu acho que o segundo, do Objetivo.

Pergunta:
Foi na Liberdade? [SP]

Resposta:
Foi na Liberdade, numa sala super improvisada, uma situação extremamente precária, estava iniciando aquele grupo de ensino pré-vestibular. Naquela ocasião, a maioria dos professores eram já professores da USP.

Pergunta:
Isso na década de 60? 69?

Resposta:
Eu entrei na faculdade em 70, foi em 69. A maioria dos professores eram professores que já tinham atuação profissional dentro da Universidade de São Paulo. À medida em que eles chegavam, eu, particularmente não tinha bagagem cultural nenhuma, nenhuma nenhuma e eles nos direcionavam em termos de possibilidades. Então eu tinha duas alternativas: ou entrava numa escola pública ou eu teria que trabalhar. Perante minha família, eu não tinha outra alternativa, então eu achei mais inteligente tentar o vestibular e fazer o máximo para ter uma situação mais confortável. Quando eu fazia para Humanas todos os professores diziam o seguinte: não se importa com o que você vai fazer e sim que você entre na Universidade. Depois que você estiver na Universidade, você vai escolher... faça uma disciplina aqui outra lá, enfim...Inclusive nós tínhamos orientação de que se o professor X pedisse uma análise de texto no vestibular e isso acontecesse nós teríamos que responder isso e isso, bem semelhante com que a Ana Maria [outra entrevistada] falou da cultura de Arte, se o orientador ou o crítico é clássico ou se ele é moderno. Isso daqui me levou a fazer uma escolha de uma disciplina que pouca gente escolheu, que era a Língua Russa e obviamente se eu fazia Letras, eu cursava a Língua e a Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira.

Pergunta:
Então a opção foi Russo?

Resposta:
Era chamado na época de [30'] Línguas Orientais, que era Russo, Árabe e Sânscrito, e a gente escolhia fazer.

Pergunta:
Isso no fim de 69/70?

Resposta:
Em 70 eu ingressei na Universidade e fiz quatro anos de Língua e Literatura Russa e Portuguesa e Literatura Brasileira

Pergunta:
Você inicia trabalho mesmo, atividade de trabalho, em que ano, Sonia? Você fez a faculdade sem trabalho?

Resposta:
Não! Eu sempre só fiz a faculdade, só fui atuar profissionalmente quando eu terminei a faculdade.

Pergunta:
Onde você atuou?

Resposta:
Em algumas escolas de Santo André, por um período...

Pergunta:
Ensino Médio e Fundamental?

Resposta:
Médio e Fundamental. E atuei por um tempo, alguns anos, em direção de escola pública.

Pergunta:
Você atuou também no Técnico no Pentágono, na escola Pentágono?

Resposta:
Sim.

Pergunta:
Você me disse que, quando você estava lá na USP cursando faculdade, você ouviu falar de um zumzum em relação a professores, o que foi isso?

Resposta:
De 70 a 74, nos estávamos numa Ditadura aqui né? Naquela ocasião a gente não tinha ideia, noção do que significava aquele momento político pra nós. Quando eu iniciei o curso, a figura do professor era uma coisa muito distante, eu particularmente via como um suprassumo da sabedoria que não podia nem chegar perto. Décio de Almeida Prado dava Teatro Brasileiro. Eu, no geral, nem respirava perto dele. E tinha um professor Boris Schnaiderman, que era tradutor de Língua Russa aqui, e trabalhou com a gente tanto em Língua como em Literatura Russa. Ele tinha sido retirado da sala de aula pelos militares, sendo questionado devido a problema político, e vários deles. Depois nós ficamos sabendo de professores, do departamento de História, departamento de Ciências Sociais, todas aquelas disciplinas ou aqueles cursos que teriam comprometimento ou um possível envolvimento com uma coisa chamada Comunismo. Então não se podia. Relativo a minha pessoa, eu nunca tive medo, constrangimento, só que a gente tinha sim um olhar diferenciado. Terminei a Universidade em 74 e comecei a atuar como professora.

Pergunta:
Aí você fez concurso público na Rede Oficial de Ensino de São Paulo e aposentou-se na rede oficial?

Resposta:
Sim.

Pergunta:
Resposta, eu sei que você e seu Julio Dimov, seu pai, foram os pioneiros na organização da Associação dos Búlgaros e Bessarabianos em 76, vocês iniciaram o trabalhos para valorizar, sedimentar. O que você pode contar?

Resposta:
Essa valorização foi em 96 e eles estavam comemorando 70 anos de Brasil. Meu pai tem [ininteligível] interessante, porque ele tem assim uma numerologia. Chegou em 1926, em 1936 ele se casou, em 1946 eu nasci e em 1976 ele retornou ao país e para casa onde ele morava.

Pergunta:
Eu quero que você conte essa história para mim.

Resposta:
Do retorno dele?

Pergunta:
Do passaporte, da possibilidade de ser deportado.

Resposta:
Em 1976, meu pai...

Pergunta:
Ele não era cidadão brasileiro ainda?

Resposta:
1976. Nós vivíamos, o que nós vivíamos? Uma ditadura aqui e um momento histórico de comunismo na Europa, não, [35'] na Europa não, na União Soviética e para onde ele queria ir, que hoje é mudado, estava com um regime Socialista. Então a família acha por bem, que ele se naturalizasse e ele se naturalizou. Minha mãe se naturalizou. Ela não era muito a favor dessa viagem que ele retornou pra lá. Só que lá essa tramitação dos documentos, ele teve necessidade de uma família que estava lá, que era parente, que fizesse o documento que chama, uma Carta Chamada, que veio para cá, e daqui vai para Brasília, e Brasília autoriza o Sr. Julio Dimov a sair daqui e ir para lá fazer essa visita. Lá eles ficaram por três meses e constantemente tinha um policial na porta da casa e eles estavam vigiados o tempo todo.

Pergunta:
E lá, eles ficavam na casa de quem? Ou em hotel?

Resposta:
Não! Eles ficaram na casa de onde saiu, que tinha os outros parentes que estão lá até hoje, que é meu avô, tinha um irmão e esse irmão não veio para o Brasil, porque ele havia ficado viúvo recentemente. Então estes descendentes estão lá até hoje.

Pergunta:
E como foi o retorno? Quando ele volta para o Brasil? Como ele conta a chegada lá, ver o vilarejo dele, Valia Perja.

Resposta:
O vilarejo inteiro se reúne para receber a pessoa, tem festa assim, de toda a população aguardando e minha mãe reconheceu um rapaz, que já não era rapaz, ele era amigo de infância, quando ela tinha 10 anos. Quando ela recebeu a visita dessa pessoa, ela disse: Você é o Fulano que nós aprontamos tal e tal, arte?". E realmente era. Foi emocionante, eu acredito que eles voltaram, 10 anos mais jovens. Antes disso eles passaram pela Bulgária e por Londres. Ficaram, encantados por Londres e Paris. Chegam no Brasil.

Pergunta:
O que da tradição búlgara fica para você, filha de búlgaros bessarabianos?

Resposta:
Olha, primeira coisa que eu acho extremamente importante na figura tanto das pessoas mais idosas, quanto do meu pai que já era uma pessoa mais próxima, é não desistir dos seus sonhos, perseverar e acreditar que você vai ter sucesso na vida. Apesar da noção de incerteza, mas tem que pairar a certeza do grande sonho. Meu pai foi uma pessoa que faleceu com 100 anos de idade, extremamente sonhador, fazendo planos até o último dia da vida dele, então isso me encanta. Me encanta em termos de que você pode mudar sua história de vida sim, a qualquer momento que você queira, desde que você se empenhe a isso.

Pergunta:
Em relação a festividades, eu presenciei muitas festas em sua casa, eu tive a honra de ser convidada a muitas festas. Agora, nas festas familiares íntimas de vocês, aniversários, natal, tinham presente, tinha uma festinha, convidavam amiguinhos, ou não era possível isso?

Resposta:
Tinha uma preparação antecipada na casa, independente de ser uma coisa pessoal. Nessa preparação, você tinha de pintar a casa, porque o Natal estava chegando. Nem que fosse uma cal branco, mas passava a cal branco nas paredes, outra coisa [40'] era fazer, vestido novo. O vestido novo tinha um significado muito importante, então não se tinha um presente que era um objeto, mas se tinha um presente que era satisfação. Então a casa era pintada, o animal já estava em casa, mesmo que se sabia que a morte daquele animal ia ser uma coisa triste, mas fazia parte desse ritual.

Pergunta:
Você é filha de imigrantes búlgaros bessarabianos. O que você cultiva hoje, além lógico, de ser parte, dessa associação, levar avante isso, já passou duas gestões que você foi presidente dessa Associação, o que você privilegia, o que permanece desses valores herdados de tradição, além de levar avante a Associação?

Resposta:
Eu acho extremamente importante seja lá a etnia, a raça que for o conhecimento de sua origem, este conhecimento não e um conhecimento de um ano ou dois anos, por exemplo, em termos de Brasil, o que eu conheço de Brasil? Do Império para cá, do descobrimento para cá, o que eu conheço? Não é isso. É conhecer o inicio do povo, a origem do povo, então no caso do povo búlgaro, eu tenho uma história milenar, onde se mesclam várias e várias invasões, vários e vários povos. Uma coisa que hoje eu me pergunto. Próximo a casa onde eu moro, onde nós morávamos, tinha uma empresa de direção turca e os donos eram turcos e nós tínhamos uma quitanda e mercearia e esses turcos vinham em casa para comer melancia com queijo, que é uma comida típica turca, que hoje faz parte da cultura búlgara recente, devido a invasão de 500 anos. Esses turcos tinham um carinho muito grande por nós e nós por eles e sem sabermos que eles haviam invadido [dominado] a Bulgária por 500 anos. Essa afinidade, talvez eles não sabiam da nossa história, assim como nós não sabíamos que a Turquia fez parte da nossa história, mas nós, nós gostávamos e eu acho isso muito delicado, é um sentimento afetivo independente de saber quem eles eram ou quem nós éramos. Tinha uma outra família de armênios que minha mãe conversava com ela e entendia tudo, porque a Bulgária invadiu a Armênia. Então esses laços... minha mãe entendia muito o que os italianos falavam, porque ela foi na escola romena. Meu pai entendia tudo, absolutamente tudo que os russos falavam, porque ele havia estudado na escola russa, então eles tinham uma facilidade de contato com as pessoas muito grande.

Pergunta:
Fazendo uma reflexão no tempo atual, no que você é búlgara, no que você é brasileira?

Resposta:
Eu não sei, eu acho que o ser humano não se divide, você é uma mescla de todas as vivências que você teve, vivências mais significativas, menos significativas. Eu tive uma amiga que lembra particularidades da minha avó, que eu não lembro nada. Esta amiga minha vinha em casa e [45'] me conta detalhes da minha avó, que pra mim não tem significado algum aquilo naquele momento, então eu não sei. O ser humano não é divisível, que divido por partes, isso é brasileiro, aquilo não. Eu acho que cada ser humano é uma mistura de várias oportunidades que ele teve na vida. Eu acho assim que após a persistência do meu pai em retomar esta história toda, querendo agrupar, buscando as pessoas, conhecendo [ininteligível], conhecendo essas pessoas todas, cada um contribui com uma "partezinha", eu acho isso de uma grandeza formidável. Então isso veio fazer com que esse desconhecimento que nós tínhamos até a juventude, que realmente nós não conhecíamos veio aflorar e desse aflorar veio a necessidade de buscar informação e nesse buscar informação não há outro jeito a não ser estudando.

Pergunta:
Você me retifique se eu estiver errada. Se eu não me engano, em uma das nossas conversas ao longo do tempo aí, quando você foi para Bulgária, você foi entrevistada na rádio. Conta pra mim este episódio. Como é que foi que você foi parar na rádio, o que eles perguntavam, em que ano foi isso?

Resposta:
Após a eleição, a presidenta Dilma se tornou presidenta do Brasil, muita gente ficou interessada na Bulgária, porque até então, não se sabia muito sobre a Bulgária. Naquela ocasião, alguns repórteres lá da Bulgária, vieram pra cá, para o Brasil, quiseram nos entrevistar aqui e ter conhecimento sobre o Brasil. Aí, foi (inintelegível) nós fomos para lá e lá novamente teve um interesse muito grande. Eles fizeram uma recepção muito interessante num departamento chamado Búlgaros para Estrangeiros. Este departamento é um departamento cultural dentro no Ministério da Cultura, um departamento público que as pessoas representativas nos receberam para falar do Brasil.

Pergunta:
Isso em Sofia?

Resposta:
Em Sófia. E assim que outras pessoas souberam que havia 17 descendentes de búlgaros, visitando a Bulgária, eles se interessaram muito muito. Então nós tivemos sim outras pessoas entrevistadas, tivemos televisão, tivemos jornal, tivemos vários órgãos, tanto da imprensa como do Governo em termos que nós pudéssemos informar o que aconteceu com todo esse processo imigratório.

Pergunta:
Então era a titulo de informação, eles queriam saber?

Resposta:
Título de informação, exatamente. Porque, quer queira ou não, era uma novidade, tanto para eles que no Brasil havia um grupo se organizando, então hoje o relacionamento está muito próximo, tão próximo que no ano passado, 2017, nós tivemos oportunidade de receber um historiador com uma jornalista intérprete e esse historiador veio até São Caetano e fez um trabalho com Pró Memória [Fundação], fez um trabalho com Museu da Imigração, colhendo material para expor num curso de História sobre imigração na Bulgária, em Sofia. Essa pessoa esteve aqui sim, foi assim de uma importância grande em termos de troca de informações, tanto dele pessoalmente fazendo entrevista com pessoas, nós tivemos [50'] sim o apoio de vocês, da professora Priscila com equipe fazendo entrevistas com esse professor para que se levasse esse material para lá, é um retorno muito interessante, muito gratificante, que mostra que o processo imigratório, ao mesmo tempo que tem sofrimento, tem também muitas alegrias e muito sucesso.

Pergunta:
E este ano recentemente, você recebeu um rapaz que era romeno ou búlgaro?

Resposta:
A nossa associação tem um site na internet e por este site nós fomos procurados por pessoas com interesses diferentes e há um mês um rapaz jornalista nos procurou para buscar informações.

Pergunta:
Era búlgaro ou romeno?

Resposta:
Romeno.

Pergunta:
Por isso eles mandaram pra fora?

Resposta:
Exatamente, facilitaram. Eles não mandavam, mas facilitavam.

Pergunta:
Facilitavam.

Resposta:
E eles facilitavam. Então, a história que se mescla em relação à Romênia, porque esse local que eles nasceram naquele momento pertencia ao Império Russo, hoje faz parte da Romênia. Então, essa mudança política é uma coisa que tem de ficar muito clara para os estudantes em termos de a razão de ser, porque este rapaz era um rapaz jovem, ele desconhecia muitas das infelicidades que a Romênia fez com seus habitantes, na época de 1926. Aquele processo que ocorreu em 1926 nada mais foi do que uma limpeza étnica de que eles não queriam búlgaros, assim como eles não queriam judeus, assim como eles não queriam alemães. Eles queriam sim romenos. Hoje eles conseguiram sim a República da Romênia, mediante a propaganda brasileira feita nesses países da Europa para buscar mão de obra estrangeira para substituição do processo escravatório que havia se ido com a abolição da escravatura. Então se a gente for pensar em tempo 10 anos, 20 anos, não é nada para haver uma mudança. Essa mão de obra barata, era barata porque eles tinham que trabalhar para pagar sua passagem e passagem eles pagavam com trabalho. Imagine se hoje, se alguém dissesse para nós: "Temos trabalho na China, a passagem é grátis, vamos lá trabalhar na China? Então amanhã a gente arruma as malas e vamos para China". Foi exatamente isso que eles fizeram, sem ter a noção de onde era, mas na esperança de possibilidade de uma vida melhor.

Pergunta:
Por causa da Guerra?

Resposta:
Por causa das guerras sim.

Pergunta:
Ok, Sonia. Nós estamos finalizando. Você quer deixar alguma palavra para os jovens?

Resposta:
À medida que você estuda, eu acho que te abre os horizontes desconhecidos que vai te acrescentar como ser humano e entender toda sua problemática de vida. Então, o estudo me parece assim que dada a necessidade de buscar o novo, o diferente de buscar aquilo que eu sei que está dentro de mim e que eu desconheço. Isso é fundamental. Quem gostaria de uma sugestão, Elias Canetti.

Pergunta:
Um livro?

Sônia:
É. Não vou lembrar agora o nome.

Pergunta:
Ok, procuram no Google. [a depoente referia-se ao livro A língua absolvida]

Resposta:
É. Ele é excelente, ele conta a história dele todo, ele é maravilhoso. Enfim, se você buscar através do estudo o desconhecido e que a esperança, [55'] o sonho, alimentar o sonho é fundamental, mas para alimentar o sonho... Recentemente eu assisti a uma palestra que a pessoa dizia o seguinte: "o seu sonho começa a concretizar no momento em que você coloca data". Achei extremamente significativo, você já colocando data, você já está começando a realizar, concretizar, trazer para o real, o sonho já está no intelecto, na cabeça, na parte não palpável. A hora que você definir uma data, ele já está no concreto e ele já vem para realidade.

Pergunta:
Ok, Sônia. Obrigada.



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