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Filha de búlgaros bessarabianos. Casou-se aos 19 anos, tem 2 filhas Gláucia Regina e Grasiela Luiza. Seus pais Trifon e Penna conversavam em búlgaro com os filhos João e Helena, irmãos de Annita. É irmã de Rosa Noeff Papa.
D. Annita é irmã mais nova de d. Rosa Noeff Papa, nascida no Brasil.
O relato transcrito abaixo é de autoria de Vilma Lemos e passou pela leitura da entrevistada. Optou-se pela narrativa em 1ª. pessoa.
Tenho 71 anos e sou filha de búlgaros da Bessarábia. Meus pais -Trifon e Penna - vieram para o Brasil como imigrantes em 1926. De Santos, foram direto para uma fazenda em Pirajuí (SP)
Sou a filha mais nova de 5. Nasci no Brasil. Com meus pais veio uma irmã mais velha com 2 anos, a Helena, que, mais tarde, irá se casar com búlgaro. Meus pais chegaram em abril e em maio nasceu meu irmão João.
Minha mãe contava que tinha uns brincos - sabe aqueles brincos tipo portugueses? - e precisou trocar por uma bacia para dar banho no meu irmão recém-nascido e por tecido para fazer roupa. Ela tinha muita habilidade manual, sabia bordar, fazer crochê, fazia nossas roupas, calcinhas, anáguas, vestidos. Para você ter uma ideia, ela fazia meias com cinco agulhas!
Ela foi alfabetizada em búlgaro em casa, no tempo de neve, quando não podiam ir para os campos porque o inverno era muito rigoroso. Em português, era analfabeta.
Meu pai, já na Mooca, trabalhou como guarda em empresas. Ele era muito alegre. Construiu um quarto e cozinha nessa época para morarmos, mas um dia, deu um temporal muito forte que destelhou a casa. Os vizinhos ajudaram a recuperar. Na Bessarábia, ele lutou na guerra de 1917, mas desertou. Nessa época, não tinham o que comer, por isso decidiu emigrar. A Romênia havia invadido a Bulgária.
Meus pais falavam búlgaro em casa aqui no Brasil. Nós entendíamos, mas não falávamos, acho que só o João e a Helena, os mais velhos, falavam.
No início de casada, eu morei com eles.
Meu pai morreu primeiro. Teve derrame e o levaram para a Gastroclínica, ali no Ibirapuera (Hospital Edmundo Vasconcelos). Acho que, porque meu pai era muito brincalhão, parece que brincou com um enfermeiro e foi mal interpretado, acharam que ele estava ruim da cabeça. Fomos encontrá-lo amarrado, chorando, queria ver a neta, minha filha, a quem era muito apegado.
Na semana seguinte, não o encontramos mais nesse hospital e ninguém sabia dizer onde estava. Fomos descobrir, depois de muito perguntar, que o levaram para um hospital psiquiátrico em Mairiporã. Lá, estava numa ala fechada. Os muros eram alto e só em dias estipulados era permitida a visita. Ele só chorava, queria ir para casa. Não deixaram. Durou um mês lá. Teve novo derrame. Quando vimos o corpo, os cotovelos dele estavam dilacerados, porque se apoiava neles querendo levantar. Morreu aos 72 anos.
Apesar disso tudo, sempre ouvi meu pai dizer que "Minha terra é aqui!".
Minha mãe morreu em 1981, aos 80 anos. Como todo mundo conhecia ela no bairro, embora tivesse Alzheimer nessa época e fugisse para a rua - ia à farmácia, por exemplo, para comprar aspirina (havia um monte em casa!), sempre a achávamos. Ela morava comigo então. Eu tinha duas crianças pequenas e tive de interná-la num asilo de freiras, porque não estava dando conta da situação. E foi num dia frio, após o banho, que se resfriou. Acamada, teve um enfarte fulminante.
Eu me casei com 19 anos. Tenho duas filhas, a Gláucia Regina, socióloga e a Grasiela Luiza, artista plástica.
ANNITA NOEL MANZANO
COMPLEMENTAÇÃO DA CONVERSA TELEFÔNICA COM D. ANNITA. 9/9/2018
Annita nasceu em 25/6/1946, na cidade de São Paulo. Profissão: do lar.
A entrevistada narrou que o pai, Triffon, era búlgaro, mas veio para o Brasil com passaporte romeno. Lutou durante a I Guerra Mundial, mas desertou com outro amigo. Voltaram caminhando até chegar à aldeia onde moravam os pais. Apresentou-se à polícia e ficou preso alguns meses. Tinha 19 anos.
Annita ouvia os pais dizerem que a aldeia onde moravam era próxima do Rio Danúbio. Triffon casa-se com Penna. Quando vieram para o Brasil, já tinham uma filha, Helena, com 2 anos. A promessa era ganhar terras, ferramentas de trabalho para o cultivo. De Santos, foram para Pirajuí, numa fazenda. A mãe estava grávida e o filho João nasce dois dias depois de chegarem ao Brasil.