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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Antonia de Pádua Bento

  • Nome: Antonia de Pádua Bento
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 08/11/1930
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Bragança Paulista (SP)
  • Profissão: cantora

Biografia

Antonia de Pádua Bento cantou nas rádios da região do ABC.





Transcrição do Depoimento de Antônia P. Bento em 05/07/2005

 Depoimento de ANTONIA DE PÁDUA BENTO, 74 anos.

Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 05 de julho de 2005.

Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC 

Entrevistadores: Elias Estevão Goulart e Robson Conceição.

Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.

 

Pergunta: Gostaria de perguntar à senhora o local e a data de seu nascimento.

 

Resposta:

Nasci em Bragança Paulista, no dia 8 de novembro de 1930.

 

Pergunta: Quantos irmãos a senhora teve?

 

Resposta:

Nós éramos seis, dois falecidos e tem a Maria José que mora em Taubaté e a gente tem uma irmã de criação que se chama Ávila.

 

Pergunta: Do que a senhora se lembra da sua infância? Como eram, naquela época, as brincadeiras?

 

Resposta:

No início a gente não tinha muita alternativa, porque a gente morava sempre em beira de estrada de ferro, então a gente não tinha possibilidade de sair para fazer alguma brincadeira. A gente tinha de brincar dentro de casa mesmo, não tinha outro jeito.

 

Pergunta: E a profissão dos seus pais?

 

Resposta:

Meu pai era ferroviário. Ele trabalhava na estrada de ferro, era cabineiro, aquele que dá sinal para os trens se movimentarem.

 

Pergunta: E a senhora foi à escola?

 

Resposta:

Comecei na escola com 11 anos porque naqueles lados não tinha condições de ir à escola. Tinha de ir a Santos ou no alto da serra e os pais da gente tinham muito medo.

 

Pergunta: No tempo em que a senhora morou em Bragança Paulista?

 

Resposta:

Não. Eu saí de Bragança com 2 anos.

 

Pergunta: Como era a cidade quando a senhora morava em Bragança.

 

Resposta:

Posso te dizer agora, há pouco tempo nós fomos fazer um espetáculo lá em Bragança e achei uma cidade simpática.

 

Pergunta: A senhora tem alguma lembrança?

 

Resposta:

Não. Saí com 2 anos.

 

Pergunta: E veio morar onde?

 

Resposta:

Fui morar na Lapa. Depois da Lapa, meu pai começou a mudar de lugar, cada ano estava em um lugar.

 

Pergunta: E quando a senhora veio para o ABC?

 

Resposta:

Em 1940 a gente veio para cá.

 

Pergunta: E onde foram morar?

 

Resposta:

No mesmo lugar, na Rua Antonio Ventura.

 

Pergunta: E a senhora entrou na escola?

 

Resposta:

Quando cheguei aqui eu entrei na escola, com 11 anos. Era muito dificultoso. A gente tinha de ir a escola da Senador Fláquer, tinha muita enchente naquela época e a gente não estudava direito. Posso dizer para você que se consegui fazer alguma coisa foi com muito esforço, porque nem diploma, nem nada eu tenho.

 

Pergunta: Era longe?

 

Resposta:

Não era longe. Não sei se vocês conhecem, saía da Rua João Pessoa e atravessava a porteira. Então, a gente ia a Igreja Pamplona, onde era a escola.

 

Pergunta: Qual era a brincadeira que vocês faziam na escola?

 

Resposta:

Brincar de roda com as crianças. A gente reunia a criançada para brincar de roda.

 

Pergunta: A casa em que vocês vieram morar era alugada?

 

Resposta:

Meu pai comprou.

 

Pergunta: Seu pai trabalhava. E sua mãe?

 

Resposta:

Minha mãe não. A gente mudou para São Caetano e logo ela teve derrame e ficou sem atividade.

 

Pergunta: E como foi a sua adolescência? Quando você começou a cantar?

 

Resposta:

Eu comecei a cantar com 9 anos.

 

Pergunta: A senhora estudou canto?

 

Resposta:

Não cheguei a estudar. Na Fundação das Artes, fiquei um ano lá, mas depois tive de desistir por causa do pagamento, não tinha condições de pagar. Na primeira época que estudei era de graça, que foi logo que fundaram a escola. Um ano depois começou a ter de pagar e tive de me afastar da escola.

 

Pergunta: E como foi esse seu começo no canto?

 

Resposta:

A gente começa a cantar dentro da igreja. Eu era solista na igreja, cantava nas missas de final de semana e aí foi indo e quando mudei para São Caetano fiquei conhecendo esse famoso cantor Roberto Manzo. Ele que me encaminhou para cantar. Ele formou um coral e eu entrei no coral.

 

Pergunta: O coral era onde?

 

Resposta:

Era na paróquia. Todas as coisas que eram feitas eram em volta da paróquia da Sagrada Família. O primeiro coral que ele fundou chamava-se Capela Áurea. Aí depois ficou Coral Sagrada Família. Tem o Coral Sagrada Família que é o coral de serviço, como a gente fala, e tem um coral em que a gente canta em casamentos, vai para fora.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Foi em 1965 que eu conheci. Ela me levou e nós começamos a trabalhar lá. Comecei como auxiliar dela. A gente fazia os programas de calouros, programas infantis e lá pelas sete horas da noite a gente entrava como cantoras. Aí tinha um conjunto para acompanhar a gente.

 

Pergunta: Como era o programa?

 

Resposta:

O programa infantil era para as crianças cantarem, ver qual criança tinha possibilidade de cantar, tornar-se parte do programa. Às vezes tinha alguns desafinados, mas a gente deixava. E os calouros eram adultos, das seis e meia às sete e meia. A gente tinha de organizar, para ver quem servia para entrar no programa, quem servia podia cantar. A gente organizava essas coisas.

 

Pergunta: A senhora lembra o nome?

 

Resposta:

O das crianças não tinha, era Programa das Crianças que a gente falava. Os de adultos era Calouros do ABC.

 

Pergunta: Eram programas de rádio?

 

Resposta:

Na Rádio ABC de Santo André.

 

Pergunta: Os programas em que a senhora cantava eram diferentes?

 

Resposta:

Era a continuação. Às sete horas entrava. Não tinha um nome de programa. A gente já entrava direto.

 

Pergunta: Que músicas eram cantadas?

 

Resposta:

Música popular brasileira.

 

Pergunta: E tinha música de outros países?

 

Resposta:

Tinha música espanhola, danças.

 

Pergunta: Era apresentado por você?

 

Resposta:

Sim.

 

Pergunta: E tinha público?

 

Resposta:

Tinha. Não era muito, mas tinha gente para aplaudir os participantes, principalmente as danças. O pessoal adorava ver as pessoas dançar.

 

Pergunta: E como era o programa?

 

Resposta:

Entravam adultos, crianças, os espanhóis também, faziam um pouco de cada coisa.

 

Pergunta: Quanto tempo era o programa?

 

Resposta:

Era uma hora.

 

Pergunta: E vocês faziam propagandas? Como eram?

 

Resposta:

Eram produtos diversos.

 

Pergunta: Tinha um texto para ler, músicas nas propagandas?

 

Resposta:

Não me lembro das músicas. Podia ser uma música popular, uma música em inglês, mas não me lembro.

 

Pergunta: A senhora ia todos os dias à rádio?

 

Resposta:

Todos os dias.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Difícil de Santo André para Santo André não, mas para ir para São Caetano era sim. Era difícil porque o lugar em que você tomava o ônibus era um lugar deserto. Às vezes tinha alguma companhia, alguma pessoa, mas eu morria de medo de alguém estar perto de mim. Para ir para lá eu saía uma e meia de casa e duas horas já estava lá.

 

Pergunta: E tinha ônibus nessa época?

 

Resposta:

Tinha.

 

Pergunta: Em qual período a senhora trabalhou na rádio?

 

Resposta:

Trabalhei uns três anos. Enquanto essa senhora estava lá, eu também estava. Quando a demitiram, demitiram todo mundo.

 

Pergunta: Por que demitiram?

 

Resposta:

Era política.

 

Pergunta: Alguém comprou a rádio?

 

Resposta:

Para te dizer a verdade, não sei. Sei que todo mundo que estava ali saiu. Eu fui a última a sair. Eu queria ficar, mas não deu jeito.

 

Pergunta: E havia bastante público nos programas?

 

Resposta:

Geralmente de domingo vinha bastante gente, enchia bem o auditório, ficava gente em pé.

 

Pergunta: A senhora recebia correspondências?

 

Resposta:

Recebia. Até fotografias de fãs.

 

Pergunta: O que falavam nas cartas?

 

Resposta:

Falavam que gostavam, que era para continuar, pediam para ajudar as crianças. Eu gosto muito de criança e ajudava sim.

 

Pergunta: Eles pediam músicas?

 

Resposta:

Pediam. Principalmente a famosa Babalu. Eu não gostava de cantar essa Babalu.

 

Pergunta: A senhora recebia para fazer esse trabalho na rádio?

 

Resposta:

Não. Tudo de graça. Tudo por vontade de fazer alguma coisa. Até falei que saiu uma propaganda da Rádio ABC e pensei em ir lá ver se conseguia entrar lá de novo. Mas não deu certo.

 

Pergunta: A senhora tem alguma gravação dos programas?

 

Resposta:

Não. Se tiver alguma coisa, é lá dentro da rádio, alguma coisa gravada lá. Eu nunca soube. Até a última correspondência que recebi dessa senhora, ela falou: Que tempo perdido nós tivemos nessa rádio. Não acho que foi tempo perdido. Eu fiz o que gostei.

 

Pergunta: E tinha outra rádio na região?

 

Resposta:

Tinha a Rádio Cacique, aqui em São Caetano, que não deu certo, e tinha a outra rádio de Santo André, que não lembro o nome.

 

Pergunta: Quais eram os artistas na época do programa?

 

Resposta:

A Olga Perdigão, outras que não lembro o nome. A gente conseguiu o Eduardo Araújo, Oscar Ferreira, Wilson Miranda. Essa gente vinha cantar.

 

Pergunta: Tinha alguma diferença das rádios do ABC para as rádios de São Paulo?

 

Resposta:

Acho que não. A mais conhecida era a Record. Eu tinha amizade com a mulher do Blota Jr., a gente se conhecia há muito tempo, então estava sempre lá. Mas não havia alguma coisa de diferente que pudesse prejudicar.

 

Pergunta: Mas quem estava mais em evidência ia às rádios de São Paulo?

 

Resposta:

Sim. A rádio de Santo André, que não me recordo o nome, não queria que nós fôssemos cantar lá.

 

Pergunta: E a sua família, qual a reação do seu pai e da sua mãe quando souberam que você queria cantar?

 

Resposta:

Meu pai era um pouco mais enfezado. Ele achava que eu não devia ir porque ele achava que eu ia me perder. O problema dele era esse. Mas a minha mãe gostava demais que eu cantasse. Quando eu falava que estava indo, ela falava: Vai com Deus e que ele te acompanhe. Mas meu pai, no jeito dele, não gostava. Eu acabei deixando mesmo por causa dele. Ele chorava. Em vez de ir dormir, ele ficava na porta me esperando chegar em casa. Eu falava que estava inteira. Enquanto eu não chegava, ele não sossegava, mas a minha mãe ia dormir. Aí eu pensei em não fazer mais meu pai sofrer, que não valia a pena.

 

Pergunta: Como era o dia-a-dia na rádio?

 

Resposta:

O agitamento mesmo era no domingo. Durante a semana era normal. Recebiam-se visitas, que iam para conhecer. Durante a semana era normal.

 

Pergunta: Em casa a senhora ouvia rádio?

 

Resposta:

Ouvia outras rádios também, para ver o procedimento. Para eu falar alguma coisa no rádio, eu tenho de ouvir o que os outros falam, para não me perder. Eu escutava a Rádio Record, a Rádio Bandeirantes e outras.

 

Pergunta: E havia programas similares ao seu nas outras rádios?

 

Resposta:

Sim. Havia programas de calouros tanto na Bandeirantes como na Record.

 

Pergunta: Nesses programas de calouros havia algum cantor famoso?

 

Resposta:

O único que passou foi esse Miranda, que chegou a ser gravado. Mas depois passou.

 

Pergunta: Tinha alguma música de alguma cantora famosa que vocês cantavam?

 

Resposta:

Dalva de Oliveira, Angela Maria, Isaurinha Garcia, que tinha muita amizade.

 

Pergunta: E como foi namorar?

 

Resposta:

Namorar eu não tinha vontade, porque todos os namorados que a gente arrumava falavam: Você já vai cantar? Não vai. Mas eu gosto de cantar, gosto de conversar com o pessoal. Então, namorado era rapidinho. Uma semana e acabava.

 

Pergunta: E a senhora se casou?

 

Resposta:

Não me casei, uma por causa deles mesmos, dos meus pais. Os dois tiveram derrame e eu não podia largar. Muitas vezes o pessoal falava para eu colocar num asilo, mas não. Eu não quero colocar meus pais num asilo. Deixe-os comigo.

 

Pergunta: A senhora é a filha mais velha?

 

Resposta:

Sou a filha mais velha.

 

Pergunta: Fora esse tipo de trabalho como cantora, que outro tipo de atividade a senhora exerceu?

 

Resposta:

Dona de casa e só.

 

Pergunta: E quando a senhora trabalhou no Externato?

 

Resposta:

Sim, era monitora no Externato Santo Antônio. Tinha os ônibus e eu ia junto levar as crianças nas casas delas. Foi a única atividade, também de graça.

 

Pergunta: Não recebia nada?

 

Resposta:

Eu recebia muitos presentes das crianças, mas mesmo do Externato, nada.

 

Pergunta: Como a senhora foi para esse trabalho?

 

Resposta:

Por cantar lá. Pediram-me para ajudar a levar as crianças para casa, porque não podia deixar só o motorista, porque as crianças eram bagunceiras. Sabia que não tinha dinheiro.

 

Pergunta: Qual o horário?

 

Resposta:

Fazia de manhã, das seis às oito horas, depois voltava às onze horas para levar as crianças e trazer e depois às cinco horas levar a última turma.

 

Pergunta: Por quanto tempo a senhora teve essa atividade?

 

Resposta:

Quatro anos.

 

Pergunta: Em que ano foi isso?

 

Resposta:

De 1988 até 1991.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Eles às vezes comentavam: Se for do gosto dela, deixe-a ir. Eles falavam que se pagava a passagem para ir, tudo bem.

 

Pergunta: A alimentação, as despesas da casa, como vocês faziam?

 

Resposta:

Era com o salário do meu pai.

 

Pergunta: E depois que ele faleceu?

 

Resposta:

Eu tive de ir, foi nessa época que ganhei o prêmio do Senac, também não recebi nada de mais. Eu recebi a pensão dele durante quatro anos e depois eles cortaram porque eu não era inválida, não tinha problema nenhum de saúde. Lutei bastante para continuar, mas não consegui. Aí comecei a cantar e nessa época eu já recebia, não era um dinheirão, mas dava para me sustentar. Aí comecei a me cuidar.

 

Pergunta: Onde a senhora cantava?

 

Resposta:

Na Igreja Sagrada Família, em casamentos e eles pagavam um tanto.

 

Pergunta: A senhora cantava em algum restaurante?

 

Resposta:

O único restaurante em que cantei foi no Pavilhão do Queijo, na Rua Santa Catarina. Até tenho essa foto da Olga Perdigão, que ela era baixinha, então ela subia na mesa para cantar e o pessoal vê-la. O restaurante enchia e o pessoal falava que não viam a cantora. A gente a colocava em cima da mesa para o pessoal ver ela cantar. Eu também já subi na mesa.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Na época eu gostava de dançar, mas também acabou. As pessoas foram casando e eu fiquei sozinha, porque ir ao salão sozinha não tem graça.

 

Pergunta: E aonde a senhora ia?

 

Resposta:

No antigo Patropi, na Rua Santo Antônio com a Baraldi. Tinha um salão lá e a gente ia dançar. Cheguei a cantar lá também com o conjunto, mas depois acabou e eu fiquei só com a igreja.

 

Pergunta: O que a senhora lembra da cidade nessa época?

 

Resposta:

Era uma coisa muito feia, porque não tinha calçamento. Era tudo terra. Quando chovia você tinha de andar de bota, por causa do tanto de barro que tinha. Depois que entrou o Prefeito Dalmas é que começou a colocar calçada, paralelepípedo. Mas também quando chovia você não conseguia sair de casa. Vocês perceberam que é tudo descida? Então a água vinha lá de cima e enchia todas as ruas. Até parei de estudar porque não tinha condição de você estudar com aquela aguaceira.

 

Pergunta: Onde a senhora estudou?

 

Resposta:

Lá no Grupo Escolar, não me lembro o nome. Ia fazer o curso no Bonifácio de Carvalho, mas não deu porque não tinha referência para estudar. Tinha de fazer a primeira série para eu poder continuar. Eu, com 20 anos fazer a primeira série? Não fiz mesmo. Era ruinzinho. Durante quatro anos foi uma tristeza e depois foi que começou a melhorar a cidade e agora está assim. Não tinha tanta escola como tem agora. Até quando entrei no IMES pela primeira vez falei: Não acredito que exista esta escola aqui. O professor disse que esta escola é a melhor que tem agora.

 

Pergunta: E quando vocês mudaram, para onde a senhora mora, havia energia elétrica e água?

 

Resposta:

Não. Só tinha energia elétrica. Água você tinha de ir buscar onde agora é a garagem, o parque. Tinha um poço de água limpa. Os homens arrumaram, puseram uma mureta em volta e uma corda para puxar a água.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Pergunta:

Minha mãe era empregada doméstica e logo que as crianças começaram a chegar, ela começou a ficar doente e não tinha mais condições de trabalhar. Aí logo ela teve o derrame, ficou bem e depois piorou de vez.

 

Pergunta: Quantos anos a senhora tinha?

 

Resposta:

Eu tinha 38, 39 anos.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Dona Hilda morava no centro de São Paulo, porque o marido era ferroviário e a dona Albertina era do interior de São Paulo, se não me engano, de Pirassununga.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Tinha o cabineiro e o chefe de estação, mas as famílias não se davam porque eles achavam que eles eram superiores aos cabineiros e aos maquinistas. A gente quase não tinha amizade.

 

Pergunta: Aqui tinha uma vila de ferroviários?

 

Resposta:

Sim. Todos os ferroviários compravam. Os que moravam em sobrados, não podiam nem passar perto. Eram todos ignorantes, porque trabalhavam todos na mesma companhia. Só porque tinham um cargo a mais, não se davam. A única coisa que conseguia era brincar com as crianças. Chegavam seis horas e todas brincavam, mas dentro da casa você não entrava. Na minha casa todo mundo entrava.

 

Pergunta: E no tempo de rádio, havia alguma roupa, uma moda que vocês tinham de usar?

 

Resposta:

Não. Apenas quando ia se apresentar tinha de ter uma roupa um pouco melhor para você se apresentar no palco. Roupa comum era chata. Você ia procurar um vestido, um calçado um pouco melhor para você poder se apresentar.

 

Pergunta: No tempo que a senhora trabalhou, a senhora teve registro em carteira?

 

Resposta:

Sim. Tive registro em carteira no Quarup.

 

Pergunta: A senhora trabalhou em quê?

 

Resposta:

Era servente. Servia café, ajudava a buscar coisas no restaurante.

 

Pergunta: A senhora se lembra quantos anos ficou lá?

 

Resposta:

Três anos. Foi antes de entrar no Externato.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

A maior greve foi a que o senhor Lula fez. Nessa época tinha a GM e a Brasinca, que eram as firmas grandes. Teve rebuliço nas ruas. Eles ficavam todos acampados. O pessoal da GM e da Brasinca se juntava e ficava aquela bagunça.

 

Pergunta: Ficavam próximas as firmas?

 

Resposta:

A Brasinca era do lado de lá. A gente ficava no meio das duas firmas.

 

Pergunta: Os ferroviários participavam da greve?

 

Resposta:

Não.

 

Pergunta: O que as pessoas achavam das greves?

 

Resposta:

Uns achavam que eles estavam certos, outros achavam ruim porque eles ficavam na frente das casas, estavam fazendo bagunça, quando iam embora ficava cheio de lixo. Mas eu, como eu falava, não era contra e nem a favor. Eu ia conversar, perguntava para eles qual era o motivo, mas nunca me indispus com eles. Eu gostava de ver eles lá. Eles montavam o negócio lá, começavam a cantar, um aparecia com um violão, outro com um pandeiro e ali faziam uma bagunça. Até falava que ia entrar no meio, mas ficava quieta. Eu gostava de ver isso.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

O tipo de música dela era sacra, música de igreja.

 

Pergunta: Como era o serviço médico da cidade? (Inaudível)

 

Resposta:

Levava em benzedeira, levava em médico. Quando mudei para cá tinha perto de casa um posto de saúde e quando a gente ficava doente ela levava a gente. Foi mais eu que cuidei dessa parte de doença do que ela. Ela teve derrame e eu fiquei responsável pelas coisas.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

O único que foi mais esperto foi o do meio, que foi conhecer um senhor lá e ele o levou para a Ford e lá ele aprendeu a trabalhar no torno. Mas ele teve problema de pulmão, não sei se por causa desse serviço, mas ele faleceu depois de três anos trabalhando lá. O outro trabalhou na Brasinca, mas era assim, trabalhava semana sim, semana não, porque era viciado em bebida. Ele não ficava muito tempo. O pessoal tinha dó por causa do conhecimento que tinham da gente e o aceitavam de volta. Mas nos últimos tempos não deu para trabalhar porque ele até dava um mau exemplo.

 

Pergunta: A senhora falou que seu irmão trabalhava no torno e teve problemas. A senhora sabe se mais gente teve problemas do mesmo tipo? (Inaudível)

 

Resposta:

Que eu saiba não, porque a mulher dele, depois que ele faleceu, se afastou. Então a gente não sabe direito se teve mais gente com esse problema ou não. Ele trabalhava muito na beira do torno.

 

Pergunta: O que mais a senhora se lembra de São Caetano quando a senhora era mais jovem?

 

Resposta:

Foi na primeira cidade que a gente parou quando veio da Lapa. Há 50 anos estou aqui e estou feliz. Outras cidades, agora que vou começar a conhecer porque entrei na terceira idade. Então, agora a gente vai viajar e conhecer os lugares.

 

Pergunta: Quando a senhora acompanhava as crianças até as casas delas no Externato, a senhora sabia quem eram os pais, a classe social dessas pessoas?

 

Resposta:

Era tudo da classe alta, porque no Externato Santo Antônio são crianças muito mal-educadas, sem educação, mas são ricas. Chegaram a bater em mim até.

 

Pergunta: Tinha só um ônibus?

 

Resposta:

Não, porque tinha outros lugares. Tinha para a Prosperidade, para o Centro de São Caetano.

 

Pergunta: E todos os monitores eram contratados?

 

Resposta:

Eram oito motoristas e eles levavam as suas esposas. As esposas trabalhavam também de graça. Eram as tias das crianças, como elas nos chamavam.

 

Pergunta: E como foi no tempo da ditadura?

 

Resposta:

Era horrível. Quando a gente via televisão, a gente via aquelas reportagens de gente batendo em jovens. Eu achava esquisito isso. Todos eram brasileiros e sabemos que pela lei da Igreja somos todos irmãos. Como um irmão bate no outro? Até teve, recentemente, uma confusão em São Paulo e sentaram o cacete. Mesmo no jogo de futebol, aquela bagunça que teve.

 

Pergunta: A senhora sofreu algum tipo de problema por ser cantora?

 

Resposta:

Nunca.

 

Pergunta: E tinha algum tipo de dificuldade nessa época?

 

Resposta:

A dificuldade era comprar roupa e comida, porque só meu pai trabalhava.

 

Pergunta: Não tinha racionamento de comida?

 

Resposta:

Teve racionamento do açúcar. A gente tinha uma vendinha em que o dono vendia e marcava na caderneta. A gente ia lá e comprava. Meu pai tinha um limite e se passasse, não dava. A gente sabia até quanto podia gastar.

 

Pergunta: (Inaudível)

 

Resposta:

Eu me lembro de um desfile grande em que participaram todas as escolas, o Tiro de Guerra. Para mim foi um momento muito importante, porque nunca tinha visto essas coisas. Achei lindo todo mundo desfilando, a cavalaria passando.

 

Pergunta: Isso foi onde?

 

Resposta:

Foi no centro, logo que fizeram a Rua Amazonas. O desfile começou lá em cima e desceu até a estação.

 

Pergunta: Foi uma data comemorativa?

 

Resposta:

Aniversário de São Caetano.

 

Pergunta: Como foi a época da emancipação da cidade?

 

Resposta:

Foi uma festa. Até que enfim alguma coisa boa está acontecendo. Você imagina água e barro. Eu até falei que ia dar parabéns ao Prefeito pelo que ele estava fazendo, porque até que enfim alguém lembrou de nós aqui.

 

Pergunta: Qual foi o Prefeito?

 

Resposta:

Foi o Dalmas.

 

Pergunta: A senhora canta em muitos casamentos?

 

Resposta:

Todo sábado, mas tem casamento que não tem coral, só orquestra. Quando tem coral e orquestra eu estou lá e esse é remunerado.

 

Pergunta: Em qual igreja?

 

Resposta:

Sagrada Família. Às vezes o pessoal convida para ir a outras, mas é difícil. É difícil aceitar.

 

Pergunta: Quantos fazem parte do coral?

 

Resposta:

Acho que são 25 pessoas. Nesse que é formado todos os sábados somos 9. Tem a orquestra e tem o coral grande, que às vezes é convidado e tem 16 a 25 pessoas. E tem o coral que sai para fazer apresentação fora. Às vezes nós somos convidados e vamos para Mogi das Cruzes e lugares assim.

 

Pergunta: Faz tempo que tem esse coral?

 

Resposta:

Faz vinte anos que tem o coral e a orquestra.

 

Pergunta: A senhora poderia cantar uma música para finalizar?

 

Resposta:

Posso. Preciso pegar a letra.

(Música)

 

Pergunta: A senhora gostaria de deixar registrada alguma mensagem?

 

Resposta:

Quero agradecer de ter sido convidada, a pessoa que te indicou, se você encontrar, você agradeça a ela e agradecer a vocês pela paciência de ter me recebido e estar aqui com vocês. Gostei muito mesmo. No começo eu queria dizer que não ia, queria telefonar falando que não vinha, mas minha sobrinha falou para eu vir. Quem sabe a senhora vai ter a oportunidade de aparecer. Eu vim. Então, é isso que tenho a agradecer. Desculpe pela garganta estar ruim, mas é isso. Muito obrigada.



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