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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Antonio Possidônio Sampaio

  • Nome: Antonio Possidônio Sampaio
  • Gênero: Masculino
  • Data de Nascimento: 29/10/1931
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: Iaçú (BA)
  • Profissão: Advogado

Biografia

Antonio Possidônio Sampaio migrou da Bahia para a região do ABC na metade do século XX. É advogado e escritor na região.



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Transcrição do depoimento de Antonio Possidônio em 06/07/2005

IMES – UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA



MEMÓRIAS DO ABC



Depoimento de ANTONIO POSSIDÔNIO SAMPAIO, 74 anos.

IMES – Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 06 de Julho de 2005.

Entrevistadores: Herom Vargas e Helga de Fávaro.



Pergunta:

Vamos começar pela data e local de seu nascimento.


Resposta:

Nasci num lugarejo chamado Fogo Preto, que antigamente pertencia ao município de Santa Terezinha e hoje pertence ao município de Irecê, na Bahia, no dia 29 de outubro de 1931.


Pergunta:

O senhor pode contar como era a sua infância, seus pais e irmãos?


Resposta:

Eu sou órfão e quando a minha mãe faleceu, eu fiquei com uma tia em Cruz das Almas, em uma chácara, na Bahia também. E antes dos 10 anos eu voltei para a companhia do meu pai em Irecê, porque precisava fazer estudos mais formais. Eu estudava com professora particular e tinha dificuldade em certas matérias. Meu pai era, como acontecia muito, tinha uma família muito grande, e para a gente estudar, tinha de trabalhar. Eu fui estudar em Ipati e também trabalhar. A minha vida inteira foi sempre trabalhar e estudar.


Pergunta:

O pai do senhor fazia o quê?


Resposta:

Meu pai trabalhava como ferroviário. Eu não conheci minha mãe porque a perdi muito cedo.


Pergunta:

E a sua tia?


Resposta:

Minha tia tinha essa chácara, também era viúva e vivia dos produtos da chácara.


Pergunta:

Na sua infância o senhor lembra das brincadeiras?


Resposta:

As brincadeiras eram as comuns, as que eram possíveis. A gente saía muito para nadar no rio, caçar passarinhos. Eram essas coisas simples que hoje é difícil de fazer. Mas isso até 10 anos, porque depois dessa idade meu brinquedo era o trabalho. Eu trabalhava em estabelecimentos comerciais, onde você tinha horário para começar e não tinha horário para terminar. Isso, de certa maneira, eu gostaria de estudar, mas a região não propiciava, eu larguei a cidade. Percebi que o meu futuro era a ferrovia ou ser comerciante. Com a minha experiência, poderia ser comerciante.


Pergunta:

O senhor estudou na Bahia?


Resposta:

Lá eu fiz até o terceiro ano primário, um primário bem estruturado que me ensinou a ler e contar. Tinha também um cursinho de iniciação ao comércio. Mas quando cheguei em São Paulo era tempo de me apresentar para o Exército e por sorte eu fui para o Guarujá, peguei uma unidade boa. Quando terminei o Exército é que comecei, fiz curso de datilografia, comecei a trabalhar num escritório.


Pergunta:

Como o senhor veio da Bahia para cá?


Resposta:

Viemos de trem.


Pergunta:

O senhor e quem mais?


Resposta:

Vim sozinho, mas na viagem a gente fez camaradagem. Muita gente vinha para o Rio de Janeiro, porque naquele tempo era a capital cultural. E pelo rádio a gente ouvia todas aquelas informações sobre o Rio de Janeiro e São Paulo não tinha essa influência que tem hoje. Quando cheguei no trem, teve aquela camaradagem e o pessoal falou que vinha para São Paulo. Vim e nunca mais saí.


Pergunta:

Tinha 17 anos?


Resposta:

Tinha 17 anos e meio.


Pergunta:

E chegando em São Paulo tinha de se apresentar ao exército?


Resposta:

Como eu tinha experiência de balconista, eu trabalhei numa espécie de bar. Mas aquilo não era o que eu queria. Tive de me apresentar ao Exército e o Exército me abriu novas perspectivas. Conheci mais pessoas, já assimilei mais a cultura de São Paulo. Quando voltei do Exército fiz curso de datilografia, fiz um curso de comércio prático e comecei a trabalhar de escriturário.


Pergunta:

E como foi chegar, com 17 anos, na cidade grande, em São Paulo?


Resposta:

Foi um impacto terrível. Eu cheguei de trem e muitos anos depois eu escrevi um livro mostrando a experiência de um jovem que chega à capital. Mas ele chega de ônibus, é um mineiro que chega e tem aquele choque terrível com a cidade grande, ele procurando pensão, até se adaptar à cidade. O livro se chama Galeria da Solidão. Fala desse impacto que um jovem interiorano tem quando chega na capital.


Pergunta:

O senhor veio morar em pensão?


Resposta:

Sempre morando em pensão.


Pergunta:

Em que bairro?


Resposta:

Eu morei em várias pensões, no centro principalmente, na Mooca, morei na Santa Cecília, na Visconde de Parnaíba, na General Jardim. E depois passei a morar em república estudantil e posteriormente na Casa do Estudante do Centro Acadêmico XI de Agosto. Eu fazia isso até de propósito, para me comprometer com o movimento estudantil. Eu sempre tive um gosto muito especial pela participação política.


Pergunta:

O senhor fez direito?


Resposta:

Sim. Entrei em 1960 e quando estava para terminar o curso, teve o golpe de 1964. Isso está muito latente na minha obra. O que fiz nos anos 70, naquela altura já estava no jornalismo, também trabalhei na Gazeta Mercantil, depois trabalhei no jornal Notícias Populares, que não existe mais. Em 1964 percebi que meu futuro estava no ABC e vim para Santo André em 1965. Abri um escritório de advocacia com um sócio e logo o Sindicato dos Metalúrgicos, com o Maurício Soares que foi meu colega, me convidou para resolver um problema do sindicato. Era um acidente de trabalho e tive de resolver esse problema. Era para ficar um ano e terminei ficando 30 anos no sindicato.


Pergunta:

E a faculdade, que lembranças o senhor tem dos professores, das aulas?


Resposta:

A lembrança, na faculdade a gente tinha uma crítica muito grande, porque a faculdade, como a sociedade brasileira, estava muito desinformada. Tem um professor que a gente se lembra com saudade, o Dr. Ortelas. Encontrei com ele uns dias atrás e tinha uma matéria sobre ele. Eu me lembro do Valcir Amaral Santos, que era professor de processo civil. Ideologicamente nós éramos contrários, mas a gente tinha um certo diálogo. Lembro do professor Reale. Eu me lembro desses professores mais pelo fato de você conhecer a sociedade brasileira. Os professores davam aulas dizendo de um mundo de liberdade e quando a ditadura chegou, com exceção de alguns, foi um choque tremendo. As pessoas falavam contra a ditadura militar e sofriam represálias. Algumas pegavam o bonde da ditadura militar. É como a sociedade brasileira. Você tem um discurso e na prática o discurso é outro.


Pergunta:

E esse incômodo o senhor transformou em participação política?


Resposta:

Eu tenho uma verdadeira adoração pela política, mas eu não tenho prazer na participação partidária. Nunca me candidatei a nada, a não ser em entidade de classe. Sempre atuei na entidade de classe. Mas isso, de certa maneira, como estudei sempre em escola pública, eu tinha uma consciência que tinha um débito com a sociedade. E até hoje eu tenho essa mentalidade. Quer dizer, nós não temos associações de ex-alunos. Lembro que essas entidades viraram sucata, quando o ano de 1964 chegou. Alguns ex-alunos se cotizaram, fizeram um jornalzinho, restauraram a biblioteca, procuraram colecionadores, ou eles mesmos ajudaram a restaurar a biblioteca. Então, era esse tipo de gente que hoje a gente sente falta na sociedade brasileira, para transformar este país. Transformar ou pegar o bonde da transformação, que está em curso, mas falta o principal capital, que são as pessoas, os cidadãos. Sinto uma pobreza muito grande, a ausência de participação, principalmente de estudantes. A grande escola da política é a faculdade, o grêmio estudantil. Quem não entra por ali, acho que está equivocado. Se você passou pela faculdade e não teve participação política, como na escola em geral, com certeza está equivocado. Isso, de certa maneira, justificou os trabalhadores do ABC organizarem seu partido e ocuparem um espaço que a elite não teve preocupação de ocupar.


Pergunta:

Na faculdade o senhor se lembra de ações, algumas coisas, alguns debates?


Resposta:

Na Casa do Estudante, onde eu morei, nós tivemos uma participação muito interessante. Nós íamos participar dos congressos estudantes. O último que participei foi da UNE, em Belo Horizonte, em 1963. Quando chegou em 1964, eu estava na Casa do Estudante e os grêmios estudantis foram fechados e transformados em diretórios acadêmicos pela Lei Suplicy, não este de agora, mas um que era Ministro da Educação na época, e ficaram todos inativos. Nós surgimos com um jornal na Casa do Estudante, que foi o primeiro brado contra essa mesmice, essa paralisia. Esse jornal, que considero alternativo, tinha um papel muito importante, tão importante que dois dos seus colaboradores foram envolvidos no processo da Lei de Segurança Nacional. Nós tivemos esse registro histórico. Então, a Casa do Estudante, o pessoal que morava lá, era um pessoal que, além de gostar de farra, nós éramos um pessoal que também fazia política, de muita altivez e a gente não deixou passar em branco isso.


Pergunta:

Que farra vocês faziam lá?


Resposta:

Era paquera. Tinha estudantes nas pensões próximas. Naquele tempo a rua ainda era um espaço muito privilegiado para as pessoas se encontrarem. Era o local da democracia. E muitas moças passavam na Avenida São João, onde era a Casa do Estudante, muitas vezes sabendo da fama dos estudantes. Inclusive moradores, como o Michel Temer, que morou lá, e políticos e juristas. Era um prédio com 14 andares e cento e tantos moradores. Era uma comunidade valorosa. Eu me lembro que no mês de julho de 1964, quando fizemos o jornal, ele foi distribuído no campus da USP, que estava começando, e fizemos uma festa das Casas dos Estudantes e a segurança baixou lá e o jornal acabou sendo apreendido. A gente sabe como era o processo de segurança e dois colaboradores do jornal foram processados.


Pergunta:

Esse jornal falava sobre o quê?


Resposta:

Primeiramente era sobre a reforma universitária. Além de falar de outros assuntos, dos assuntos internos da faculdade e da Casa do Estudante, ele era alternativo porque não falava só da corporação, do conjunto, mas falava de assuntos gerais, que interessavam a todos. Um dos assuntos do momento era a reforma universitária. A gente tinha um movimento grande, os congressos da UNE batiam muito na reforma de base, entre elas, a principal era a reforma universitária. E houve uma crítica à ditadura. Teve um número que foi muito mal-humorado, que criticava os militares e o jornal foi apreendido, foi objeto de processo.


Pergunta:

E havia espaço para a política e para as artes?


Resposta:

O importante do grêmio estudantil era que você não dissociava a luta política da poesia e do teatro. O teatro, principalmente o teatro estudantil, era muito forte. A gente tinha grandes utopias. É bom lembrar que em 1959 houve o triunfo da revolução cubana, que teve uma influência muito grande no Brasil também. Outra coisa que teve um momento fundamental foi a vinda de Sartre e Simone De Beauvoir, em 1960, logo depois de passar por Cuba. Isso também dava dimensões, dava uma utopia ao Brasil. O Brasil, naquele momento, estava passando por uma grande utopia social de transformação. Aquele país ainda agrário que não estava ainda industrializado em certas partes do país, mas que precisava se atualizar. E a luta do estudante não era só estudar, mas debater essas reformas. E a questão cultural estava muito presente, tanto é verdade que a UNE atuou em Santo André com o Sindicato dos Metalúrgicos, através do teatro de arena.


Pergunta:

O senhor participou do GTC?


Resposta:

Não. Não tive chance. Fiquei mais na parte de jornalismo.


Pergunta:

Vocês fizeram esse jornal mensalmente?


Resposta:

Não tinha uma periodicidade regular. Fizemos até o número oitavo, que foi até o final de 1965. Quando cheguei lá na Casa do Estudante, como era jornalista, comecei a dar uma forma a esse jornal alternativo, na forma de tablóide, procurando fazer uma pauta. A gente fazia entrevistas com moradores da casa, tudo isso para ver como você pode não ficar só dentro da escola. A formação da gente previa o desenvolvimento geral. Dizem que era a preocupação do movimento sindical também.


Pergunta:

E o centro de São Paulo, como era? Que lembranças o senhor tem dessa época?


Resposta:

Tenho a imagem do centro velho. De vez em quando, pelo menos duas vezes por mês eu faço uma caminhada pelo centro velho. Tenho uma saudade muito grande dessa época. São Paulo era muito bonita. Eu me lembro que a rua da paquera era a Rua Barão de Itapetininga, uma rua que tinha o Restaurante Fasano e o Mappin Store, que era uma loja onde hoje é das Casas Bahia. Era uma loja elegante. As madames iam tomar chá à tarde. Lembro que a Lígia Fagundes Teles conta da saudade da época do chá. São Paulo parecia uma província, mas era uma coisa deslumbrante. São Paulo estava numa ebulição dos anos 50 para os 60. São Paulo teve uma fase muito rica. Hoje, lá eu não tinha noção da época em que vivia, mas hoje, olhando para trás, a gente percebe como São Paulo era importante.


Pergunta:

E a sua família não veio para São Paulo, só o senhor?


Resposta:

Só eu. E o ano de 1964 foi muito triste para mim. Eu morava em São Paulo sozinho. Uma das coisas que me lembro de 1964 era que vim trabalhar em Santo André, em 1967 vim para o sindicato e então, a partir de 1968, com o AI-5, eu tinha muito cuidado em não envolver a minha família. Cheguei um tempo muito grande que não tinha nem telefone em casa. Inclusive gente da minha família, me lembro que tinha uma irmã que estava fazendo a formatura e ela veio me convidar e eu a recebi na porta do apartamento, porque estava guardando um dirigente sindical dentro do meu apartamento, estava com ele lá. Não poderia explicar isso para pela, porque o pessoal não entenderia. Esse foi um período terrível e que hoje procurei até descrever essa lembrança num livro chamado Em Busca dos Companheiros, porque esse ato ensejou a separação das pessoas. Eu fui à Bahia nos anos 70, quando teve um relaxamento maior, mas eu era muito discreto, não envolvia, porque o pessoal da Bahia é muito conservador. A Bahia é um estado conservador, de políticos conservadores. Então, eu tive esse episódio na minha vida. Eu me orgulho muito mais de ter enfrentado essa situação, deixei até de me casar para me envolver mais na política, só fui me casar nos anos 80, mas me orgulho muito mais disso do que se tivesse sido omisso, se tivesse feito aquela carreira, prestado concurso e tivesse aquela vida certinha. Me ofereceram o cargo de procurador na Nossa Caixa, que era do Estado e não quis, porque estava aliado com a democracia. Apesar de ter um momento difícil, mas me orgulho em não ter me omitido.


Pergunta:

O senhor teve quantos irmãos?


Resposta:

Os conhecidos eram vinte e poucos irmãos. Meu pai fez muitos filhos. Nascia irmão e eu nem conhecia. Meu pai é uma dessas pessoas que tenho uma memória muito carinhosa. Meu pai tinha uma sociabilidade muito grande com as pessoas. Pobre quando faz filho, me lembro que estava trabalhando lá na Bahia e, quando cheguei em casa, a casa estava cheia de músicos tocando músicas, todos encantados. Eu me perguntava como meu pai conseguia isso. Meu pai foi um exemplo de um brasileiro que fazia tudo com espontaneidade, que tinha consciência do seu papel. Essa é a lembrança que tenho dele. Infelizmente ele não pode mais estar presente, ele morreu em 1981 e eu estava aqui e não pude conviver com ele. O ano de 1964 foi muito difícil para as pessoas. Claro que foi mais difícil para quem foi para o Araguaia, mas ninguém ficou feliz de ficar aqui, porque sabiam com muita clareza, principalmente depois do momento em que o Lula aparece no sindicato, que o sindicato tinha um papel fundamental na organização política dos trabalhadores. Eu me orgulho de ter tido essa parcela, discreta, executando tarefas que não apareçam, mas o próprio Lula, em entrevistas, já reconheceu isso, não só minha, mas de outros companheiros também. Eu vi claramente que a nova sociedade, surgida em 1964, se preocupava mais com o consciente. A elite não tinha futuro político e os trabalhadores perceberam isso e começaram a se organizar. Primeiro eles enfrentaram os governos através das greves e quando eles perceberam que as greves não eram suficientes, tiveram de se organizar politicamente. Esse me parece o fato mais extraordinário que marcou o século XX. Isso, vocês que estudam a memória têm de se aprofundar nisso e trazer, porque tem muita gente, aqueles companheiros que chamo metaforicamente, que foram empurrados ou desceram do comboio, que estão por aí. Eduardo Coutinho tentou localizar alguns espiões, mas tem muita gente que está por aí e não está falando, que não está se mostrando, e que tem muito a contar sobre o país.


Pergunta:

O senhor morava no centro de São Paulo e veio quando para o ABC?


Resposta:

Eu vim para cá em 1965, mas continuei morando lá. Morei em vários locais. Morei muito tempo no Bixiga e até hoje tenho um apartamento lá, porque tenho uma saudade muito grande de São Paulo. O Bixiga agora está em decadência, o centro velho todo. Só em 1989 eu mudei para cá. Meu filho nasceu em 1987 e eu percebia que ficava muito difícil, porque eu chegava à noite em casa e ele já estava dormindo. Mudei para cá e acertei. Meu filho está hoje com 17 anos e meio e a gente teve esse papel. Perdi minha companheira no ano 2000 e a gente conseguiu vencer mais essa etapa também.


Pergunta:

O senhor veio nos anos 60 para trabalhar?


Resposta:

Em 1965. Em 1967 me convidaram para o sindicato e fiquei lá até 1997 e me aposentei e o sindicato falou para eu continuar numa parceria. Eu fui muito parceiro do sindicato. Tenho um escritório de advocacia com outros companheiros, mas a gente tem uma parceria com o sindicato, um envolvimento. Um escritório de advocacia, só com advogados, que está no mercado, não satisfaz a gente. Nós temos uma preocupação social, temos um comprometimento.


Pergunta:

Em 1965 como era a região de Santo André?


Resposta:

Como eu vivia em São Paulo, eu tinha uma visão muito parcial da cidade. A gente vivia com muito medo. Em Santo André, naquele momento, ainda havia, em 1964 houve intervenção no sindicato, mas a militancia sindical continuava. E os militantes que estavam no sindicato eram muito vigiados. Eu me lembro que uma vez fui pegar o trem para voltar a São Paulo e quando percebi vi um sujeito com uma marmita, muito estranho, e vi que ele era conhecido, mas ele era agente do DOPS, e estudava direito com um colega nosso. ... Com o jornalismo eu tinha uma coisa, até o pessoal do Diário me chamava de “Olho Vivo”, porque eu era muito curioso. Às vezes levantavam uma matéria mais baseada na curiosidade. Estava vendo o pessoal olhando a floresta e eu olhava uma árvore, ou um ninho na árvore da floresta. Isso me valeu para perceber essas coisas. Quando vi aquele cara carregando a marmita, desajeitado, percebi e quando me aproximei conheci esse cara, que era colega de um amigo nosso. Quando cheguei perto dele, tive um constrangimento quando percebi que era ele. Aqui tinha muita gente, a espionagem era muito mais do que se imagina. A gente vivia sobressaltado e quando chegava a hora da greve, a gente ia visitar as famílias dos trabalhadores que estavam presos. Isso foi nos anos 70. Era engraçado que tinha uma atmosfera de medo, mas a gente não tinha medo. Não tinha esse medo que hoje existe. Uma das grandes características, não só do Brasil, é o medo. Até fiz uma matéria sobre isso para a revista Livre Mercado, no final do ano, numa coletânea, onde falo desse problema do medo, que a gente percebe nas pessoas. Todos vivem com medo, medo de não ter emprego, medo porque ganhou dinheiro e perder tudo. Uma sociedade assim não tem futuro. A gente precisa mudar isso. Viver com medo, principalmente para quem, como eu, viveu sem medo, não era essa sociedade, essa sociedade incomoda a gente. As pessoas têm medo de você. Você sai do apartamento e as pessoas te evitam, se você tem comprometimento político. Isso é doloroso e nasceu durante o regime militar. Eu evitei, naquele episódio da minha irmã, para não comprometer a pessoa. Isso você vê que até hoje ela não sabe e um dia vou ter de conversar com ela a respeito disso. Talvez ela pense que seja até uma desculpa. A gente pensa que não tem mais idade para isso, mas a natureza de quem se formou na luta, a gente cria essa consciência. A omissão é pior que um crime. Você comete crime de duas formas, pela ação e pela omissão e para quem tem consciência política, omitir-se é cometer um crime pior, porque perdura na sua consciência aquela sensação de que você se traiu.


Pergunta:

E no jornalismo, a sua iniciação foi no jornal da faculdade?


Resposta:

Não. Nos anos 50 havia em São Paulo um grupo de estudantes, de pessoas interessadas, chamado Centro de Oratória Rui Barbosa, que foi fundado em 1949, no centenário de nascimento de Rui Barbosa. Esse centro de oratória foi importante porque era lá que as pessoas exercitam temas, discussões sobre a construção de Brasília e lá que desenvolvi a minha consciência política. Eu me lembro que esteve lá no centro Fernando Henrique Cardoso. Era uma grande opção para um debate livre e nós nos reuníamos no auditório da União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, aos domingos de manhã. Depois de 1964 foi ocupado o Sindicato dos Bancários e o grupo acabou se dispersando também. Mas foi um grande... Lá conheci vários companheiros e também conheci o marido de uma das professoras daqui, a Dalila. Depois fui presidente daquele centro e organizei o jornal, chamado O Bordiano. Como a gente não podia falar sobre todos os temas, pensei em fazer uma coisa mais interessante para atrair o público. Pensei em fazer um projeto, um mandato baseado na leitura, um projeto completo que você tem de ler, escrever e discutir. Eu fiz um curso de jornalismo e lá apareceu a Dalila, que conheceu lá o Valdecir. Tenho amigos daquele tempo até hoje, apesar de perseguição.


Pergunta:

Como era o formato?


Resposta:

Era um tablóide também. Eu me lembro que em 1968 e 1969 a gente investia muito em teatro. Havia um grupo de teatro que funcionava na oficina, onde o Ziembinski era o grande formulador de cabeças, Sólon Trindade, que tem um grupo de teatro. A gente sempre reunia estudantes e intelectuais, Juca de Oliveira, que foi meu contemporâneo de faculdade, mas ele não terminou a Escola de Arte Dramática, mas participou do centro de oratória e levou o pessoal da EAD. Tudo isso se perdeu em 1964.


Pergunta:

E como acabou o jornal?


Resposta:

O grupo se dispersou. O jornal chegou a circular com 3 mil exemplares, distribuídos em faculdades, mas era um trabalho de parceiros. Você ia para a faculdade e levava o jornal, para envolver os estudantes, aqueles que tinham mais envolvimento político.


Pergunta:

Era feito em gráfica?


Resposta:

Gráfica profissional. A gente tinha essa consciência de fazer uma coisa de qualidade. Esse jornal foi ilustrado, tinha uma entrevista com Luiz Arlutim, que foi do teatro de arena e a diagramação foi feita por Titi Ralamasque, que é um grande ilustrador, trabalhou no Estado de São Paulo, tudo na base do comprometimento. A gente conseguia descolar esses recursos através do comprometimento.


Pergunta:

E tinha um partido apoiando?


Resposta:

A gente falava de política, mas não era partidário. A gente sempre teve cuidado nisso. E na cultura você tem de tomar muito cuidado para não partidarizar a obra. Isso é muito difícil, porque a gente tem a tendência de envolver e achar que a sua verdade, eu que fui sempre muito comprometido com o PT, vi nascer, não tive competência para ser militante, me inscrevi no partido em São Paulo, mas percebi logo que não tinha essa competência, então eu sigo a filosofia do PT, do partido, acho que é a melhor proposta para o Brasil, mas em todo lugar, hoje sou conselheiro da União Brasileira dos Escritores, fui lá e fundei o jornal O Escritor, há 25 anos, mas nunca pus minhas idéias. Isso em qualquer organização que você estiver, o segredo é esse, você ter uma postura ideológica, mas respeitar o outro. Essa convivência eu aprendi no centro de oratória. Grandes amigos meus são da direita, como um que era lacerdista feroz, orador incrível, e nós tínhamos grandes pegas e ele já fez um depoimento dizendo que me respeitava porque nós éramos amigos. A democracia passa por isso. Se você não tiver esse subjetivismo, essa coisa de ser profissional, dentro da advocacia também existem adversários dos seus interesses, mas o respeito enquanto gente, enquanto pessoa, tem de existir. Você tem um papel, mas antes de tudo temos as pessoas. Precisamos ter essa relação afetiva. Eu sempre escolhi isso. Não é fácil você ter isso. Levei muito na cabeça por não atrelar minhas idéias a partido, mas acho que o caminho é esse.


Pergunta:

O senhor trabalhou na Gazeta Mercantil e Notícias Populares?


Resposta:

A Gazeta Mercantil lançou um jornal popular para competir com o jornal Última Hora. Na Gazeta Mercantil fazia matérias econômicas, entrevistava personalidades da área empresarial, principalmente da área agrícola, que me interessava muito, mas me passaram para um jornal popular, sensacionalista de certa forma. Claro que num jornal desse não teria cultura. E me mandaram embora em 1964, sorte minha, e com essa graninha me permitiu abrir o escritório aqui.


Pergunta:

E como foi sua atuação no ABC?


Resposta:

Aqui tive participação em jornais que acho importante, o maior deles que acho, Tribuna Metalúrgica. Existe até hoje. Nos anos 70, quando foi fundado, naquele tempo, fui advogado e tive um papel muito importante no sindicato porque não tinha muita mão de obra especializada e os advogados eram chamados para várias funções. Em 1971 foi fundado o jornal e eu passei a ser colaborador desde o primeiro número. E tinha um presidente do sindicato que gostava de fazer as matérias de fundo, mas o redator, o editor do jornal, era o Antonio Carlos Flecha de Lima, um jornalista que não fazia muitos jornais alternativos, mas jornais de identidade. Eu acho que ele teve dificuldade teórica em escrever um jornal alternativo que seria mais de opinião e debates. E tem um jornal alternativo, a Tribuna Metalúrgica que é corporativo, mas também tem influência fora. Ele não é só um jornal de corporação. Ele é um jornal que tem influência, uma postura ideológica e política, um papel político. Em 1971, quando esse jornal foi fundado, achei que havia a necessidade de envolver essa pessoa que fazia, que cuidava do jornal.


Pergunta:

Esse jornal era feito lá?


Resposta:

Em uma gráfica de São Paulo.


Pergunta:

A redação?


Resposta:

Era o Nunes que tomava conta. Ele encomendava os artigos e depois ele dava o acabamento final. Até publiquei um pequeno ensaio chamado A Nova Imprensa Sindical, onde conto isso, no começo dos anos 80, em que falo dos jornais de entidades. Então, a gente fez esse curso de jornalismo também para envolver essas pessoas que estavam fazendo a Tribuna. Esse jornal, quando nasceu, os operários não tinham confiança no sindicato, recebiam o jornal e jogavam fora. Mas com o tempo, quando Lula chegou ao sindicato, quando assumiu a presidência, o jornal deu um pulo de qualidade muito grande, inclusive explorando a parte visual. Eu me lembro que a partir de 1975 houve uma crítica muito grande a grupos nacionais, teve o Henfil e vários ilustradores que contribuíram com o jornal. O jornal começou a virar, a ter credibilidade, graças à política exercida por Lula. Só que quando percebi que o sindicato robusteceu, tinha mais condições econômicas, era a hora de me retirar porque era advogado. E assim foi. Sempre na minha vida procurei fazer as coisas, exercer as tarefas que os outros não fazem. Em 1975 havia a necessidade de fazer matérias sobre a imprensa sindical, o pessoal estava cobrando o jornal e não acharam ninguém que fizesse. Pediram para eu fazer e fiz sem metodologia, sem nada, mas dei as informações. Sempre fui um tapa-buraco na minha vida.


Pergunta:

E a Tribuna Popular?


Resposta:

É engraçado que nos jornais alternativos você encontra, por trás deles, um idealista, um amante da imprensa ou então um grupo ideológico, um grupo político. Essa Tribuna Popular era de uma pessoa que tinha tido cinemas em Santo André, mas tinha esse jornal como forma de justificar a sua vida. Um dia ele apareceu, formou uma amizade com a Dalila e percebemos que havia a necessidade de ajudar aquela pessoa, que era um romântico do jornalismo e começamos a fazer textos, divulgar livros, divulgar o movimento literário.


Pergunta:

Foi em que ano?


Resposta:

Nos anos 90, de 1992 em diante. Eu assinava uma crônica política com um personagem chamado Amaro Sim, que viveu no tempo da ditadura. Durante muito tempo, era mensal o jornal, e escrevia sobre Amaro Sim. Posteriormente comecei a fazer crônica. Era um jornal para entender o movimento literário no ABC. Lá tinha muita gente, além da Dalila, que é uma grande ativista cultural e teve um espaço grande. Muitas dessas pessoas escreveram poesias ou textos de trova para esse jornal.


Pergunta:

E como terminou o jornal?


Resposta:

Terminou com a morte dele. Ele faleceu e o jornal morreu. O jornal era a cachaça dele. A gente percebeu, eu sempre que percebo uma pessoa com esse tipo de vontade, sempre estou disposto a ajudar, porque a nossa cultura, Dom Quixote está fazendo aniversário, mas para mim é a figura eterna. Qualquer companheiro que vejo que tenha alguns escritos quixotescos, com esse sonho que está faltando às pessoas agora, estou para ajudar. E foi assim, não só eu, mas várias pessoas que perceberam isso, fizeram.


Pergunta:

Era vendido o jornal?


Resposta:

Era distribuído gratuitamente em bancas do centro e dos bairros. Ele era da região, do outro lado da linha, do Parque das Nações.


Pergunta:

O senhor gosta de literatura?


Resposta:

Eu gosto. Eu tinha sido jornalista e quando saí do jornal tinha de me afirmar em advocacia, mas tinha vontade de continuar exercitando meu sonho. E como sempre fui leitor e sempre gostei de ler, quando chegou no final dos anos 60, uma das formas de me compensar da minha luta como advogado era escrever. Eu já lhe falei que qualquer projeto de leitura tem de ser completado pela escrita e também pela discussão, e se possível também pela publicação do que se escreve. Eu parti do princípio da leitura do mundo, e para mim a leitura do mundo, se você lê e não escreve, a sua leitura é incompleta, porque há tantas propostas de oferecer um mundo de comunicação, disputando a preferência e você fixa no que você mais gostou, mas não é só isso. Se você leu e escreveu, ainda fica incompleto. Você precisa conferir com a discussão.


Pergunta:

Que autores o senhor marcaria como principais na sua formação literária?


Resposta:

São vários. Tive uma fase de Jorge Amado, Graciliano Ramos, aquele pessoal que veio de 22, que tinha preocupação social. O pessoal de 22, achei que tinha um momento anárquico, mas agora estou vendo a importância de 22. Eu me preocupei mais com o pessoal do nordeste, principalmente com Jorge Amado e Graciliano Ramos, pelo seu caráter. Depois você vai aguçando o gosto e o autor. Hoje o meu predileto é Guimarães Rosa. Grandes Sertões é a minha bíblia em cima da mesa. Aquela tia que falei que morei com ela, ela era analfabeta, mas era rica em canto e conversa. Ela e a filha Paula conversavam num português tão diferente e melhor. Depois que vim tomar contato com os personagens de Guimarães Rosa que percebi que a linguagem sessentista estava lá. Teve uma sobra disso. Hoje me encontro muito com isso.


Pergunta:

A gente pede para o entrevistado deixar uma mensagem que ache importante que seja guardada do seu depoimento. Qual mensagem o senhor poderia deixar?


Resposta:

Pela minha experiência de vida vocês percebem que o que mais me satisfez na vida foi participação, meu envolvimento político. Para mim, a pessoa que não tem envolvimento político é um cidadão equivocado da vida. Sinto que o país está carecendo muito de renovação nessa área política. Os quadros que estão se formando vão ser quadros do grande capital. Então, na Casa dos Estudantes todos eram conscientes dessa importância. E os professores têm de chamar a atenção, não partidarizando, mas fomentando a participação. Eu acho que dentro de um projeto de leitura, do Paulo Freire, de leitura do mundo, a gente pode, dentro do possível, da limitação que tem o professor, articular isso, fazer essa leitura, criar condições de a pessoa escrever e debater. Seria isso. A minha proposta é que, qualquer que seja a idade que você tenha, que você se comprometa com um projeto de vida. É isso.



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