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Aparecido Lopes de Almeida Filho é conhecido pelo nome artistico de Marcelo Duarte. Trabalhou nas rádios da região do ABC.
Depoimento de APARECIDO LOPES DE ALMEIDA FILHO (MARCELO DUARTE), 54 anos.
IMES – Universidade de São Caetano do Sul, 08 de julho de 2004.
Entrevistadores: Rita de Cássia Donato dos Santos e Herom Vargas
Pergunta:
Vamos começar com você contando quando você nasceu, onde e como foi a sua infância, como era a sua família.
Resposta:
Nasci em 1950, em Jundiaí, e a gente veio para Santo André quando eu tinha 4 anos e desde então eu moro em Santo André.
Pergunta:
Seu pai fazia o quê?
Resposta:
Meu pai era ferroviário, era aposentado; minha mãe era falecida.
Pergunta:
Quantos irmãos?
Resposta:
Um casal. Eu e minha irmã.
Pergunta:
Vocês vieram fazer o que em Santo André?
Resposta:
Minha irmã nasceu aqui e eu em Jundiaí. Nós viemos para morar, para começar a vida.
Resposta:
Seu pai mudou de emprego?
Resposta:
Ele já era ferroviário nessa época e se aposentou aqui mesmo.
Pergunta:
Ele foi transferido para cá?
Resposta:
Não. Ele trabalhava na estação da Mooca até aposentar.
Pergunta:
E vocês vieram morar onde, em Santo André?
Resposta:
Primeiro fomos morar na Vila Helena, depois na Vila Assunção, depois Bairro Paraíso, depois fomos morar em Jundiaí e então voltamos para cá.
Pergunta:
E como era a sua infância?
Resposta:
A minha infância era normal. Sempre gostei de rádio, então, quando era garoto até tinha uma rádio imaginária chamada rádio guarani. Tinha uns vidros de perfume que pareciam microfones, então eu colocava e fazia programas e aí foi o começo de tudo, onde comecei a gostar de rádio, de música.
Pergunta:
O senhor toca alguma coisa?
Resposta:
Não toco nada de instrumento. Só ouço.
Pergunta:
E a escola, a sua formação?
Resposta:
Fiz até o ginásio, depois tive de parar para trabalhar. Entrei no rádio em 1961, na Rádio ABC. Já fui para São Paulo, trabalhei na Eldorado por 25 anos, aí aposentei lá e agora tenho um programa de rádio que toca música popular brasileira, músicas da Jovem Guarda.
Pergunta:
Como era a cidade de Santo André nos anos 50 e 60?
Resposta:
Era bem diferente. Tenho lembranças da escola, dos lugares que a gente freqüentava.
Pergunta:
Conta para a gente como era a escola, como eram esses lugares?
Resposta:
Estudei no Hermínia Lopes Lobo, em Santo André, lá mesmo fiz o ginásio, depois saí, fiz o famoso curso de datilografia. Agora o pessoal fala de computador, mas antigamente tinha de saber bater à máquina. Saber bater à máquina já era meio caminho garantido para um emprego.
Pergunta:
E o lazer de final de semana?
Resposta:
Lazer era cinema. Sempre gostei muito de cinema. Era mais cinema e bailinhos de fim de semana.
Pergunta:
Você ia a qual cinema?
Resposta:
Em Santo André tinha o Cine Tamoio, Tangará, Carlos Gomes. O Tamoio e o Tangará não existem mais. Tinha o Cine Paraíso, no bairro onde eu morava, depois virou uma igreja.
Pergunta:
Que filmes você mais gostava?
Resposta:
Dos filmes da época. Tinha os seriados todo domingo. Passava o mês inteiro, como uma novela. Cada dia passava uma parte e depois tinha o filme principal. Começava com um jornal, o famoso Canal 100, depois passava o seriado e depois passava o principal. Sempre tinha matinê. Agora o cinema funciona o dia todo, mas antigamente tinha a matinê, que era às duas horas da tarde dos domingos. Antigamente funcionava só à noite, com duas sessões, uma, às dezenove horas, e outra, às vinte e uma. A gente ia muito nas matinês. A gente ia trocar gibis. Levava uma porção de gibis e trocava no cinema.
Pergunta:
Era como uma coleção?
Resposta:
Tinha os mocinhos dos anos 50, que eram Durango Kid, Rock Lane. Então a gente trocava. Era mais coisa de cowboy.
Pergunta:
Que outros gibis havia?
Resposta:
Fantasma. Não sei se tem ainda. Tenho uma coleção incrível em casa.
Pergunta:
Capitão América?
Resposta:
Capitão América eu não cheguei a curtir. Era mais o Fantasma, o Mandraque, Zorro, Durango Kid, Rock Lane. O Zorro andava com o Tonto, aquele índio. Aqui chamava Zorro, mas o original era Lone Ranger, Cavaleiro Solitário. E como ele usava máscara, o pessoal chamava de Zorro. E tinha o Zorro da espada, que passava no cinema. Depois, mais tarde, começou a passar na televisão aquele Zorro do Walt Disney.
Pergunta:
E os seriados, você se lembra de algum título?
Resposta:
Tinha “O Maravilhoso Mascarado”, “O Homem de Ferro”. Sempre no final ele ficava em perigo, ou a mocinha. No domingo seguinte, a molecada ia lá ver o que acontecia. Ela ficava presa no trilho do trem e aparecia: O que vai acontecer? Não percam no próximo episódio o que vai acontecer. Sempre ele se saía bem.
Pergunta:
Quase sempre filmes de aventura?
Resposta:
Geralmente. Sempre gostei de filmes de aventura. Gosto também de filmes de ficção científica, tipo “Em Algum Lugar do Passado”, que acho um filme muito bom, isso nos anos 80, “E. T.”, “Contatos Imediatos”.
Pergunta:
Nos anos 50, 60, atores que você se lembra do cinema que marcaram a época?
Resposta:
Eram esses de filmes de aventura. Tinha o Rock Hudson, Marilyn Monroe. Ela começou bem antes, mas a gente chegou a assistir filmes dela, nos anos 60.
Pergunta:
Você falou em bailes. Vocês iam a bailes?
Resposta:
Bailinhos eram mais no final dos anos 60, quando tinha o Jonny Rivers, Ray Connyf, Billy Voguel. Quando era garotinho tinha um cantor chamado Benito Grande, que fazia muito sucesso, que cantava bolero.
Pergunta:
Isso em clubes da região?
Resposta:
Eram bailes de família, bailes de garagem.
Pergunta:
Você não foi muito a clube?
Resposta:
Ia mais no carnaval. Não gosto muito de carnaval, mas ia muito, no tempo em que o lança-perfume ainda era legal. O pessoal usava lança-perfume para espirrar na moça mesmo, não para outras coisas.
Pergunta:
Por que espirrava nas moças?
Resposta:
Era tradição. Inclusive na Oliveira Lima, em Santo André, tinha o carnaval de rua. Eu me lembro, era garotinho, que eu ficava na porta das lojas vendo passar. Passava o pessoal e espirrava lança-perfume, porque era gelado, nas moças. Elas tinham uma reação, e era uma forma de paquerar a menina.
Pergunta:
Era gelado. E o perfume?
Resposta:
Tinha um perfume. Aí no comecinho dos anos 60 o Jânio Quadros proibiu, porque eles começaram a usar para outras coisas. Mas até o início dos anos 60 usavam e fazia muito sucesso no carnaval. E o baile de carnaval era outra coisa. Não tinha nada a ver com o que é hoje. Agora é mais zorra.
Pergunta:
Onde eram esses bailes?
Resposta:
Tinha no Aramaçan, no Primeiro de Maio.
Pergunta:
As pessoas iam fantasiadas?
Resposta:
Geralmente iam fantasiadas.
Pergunta:
Qual era a fantasia mais comum?
Resposta:
O pessoal usava um quepe, um tipo de boné, que era muito comum no carnaval do final dos anos 50 e 60. As moças iam fantasiadas também.
Pergunta:
O senhor freqüentava?
Resposta:
Nos anos 60 eu já freqüentava, no final dos anos 60 já tinha 18 anos.
Pergunta:
Esse carnaval de rua não era com escolas de samba?
Resposta:
Era escola de samba. Em Santo André tinha o Panelinha, que fazia muito sucesso, o Ocara Clube.
Pergunta:
Desfilavam na Oliveira Lima?
Resposta:
Depois começaram a desfilar na Praça IV Centenário, onde é o Paço Municipal. Ali que aconteciam os desfiles de rua nos anos 60.
Pergunta:
Como você nasceu nos anos 50, você viveu muito proximamente da ditadura militar, do golpe de 64. Que lembranças você tem desse período? Aconteceu alguma coisa com você?
Resposta:
Tinha 14 anos. Inclusive estava saindo do grupo escolar. Não me aconteceu nada. Eu me lembro que o pessoal falava que tinha exército na rua. Eu não sei, nunca passei por nada.
Pergunta:
Aqui na região aconteceu alguma coisa?
Resposta:
Não me lembro de nada. Tinha um pessoal, nos anos 60 e 70, principalmente, um pessoal que invadia rádios. Uma vez invadiram a Rádio Clube, amarraram o pessoal. Dizem que eram comunistas, mas nunca entrei. Estava trabalhando na Rádio ABC e teve esse acontecimento na Rádio Clube. O pessoal entrou, amarrou o pessoal da transmissão e colocavam mensagens, não ouvi nada, mas eles colocavam mensagens subversivas no ar. Não sei. Isso no final dos anos 60, na época do AI-5, em 1968, mas eu não passei por nada disso. Nunca ninguém me parou na rua, soldados. Também eu procurava não entrar.
Pergunta:
Aqui as coisas eram mais pacatas?
Resposta:
Aqui na região eram. Eu me lembro de coisas que aconteceram no Rio de Janeiro e em São Paulo. Às vezes eu ia para São Paulo e passava na Avenida São Luiz e estava cheio de policiais na calçada. Mas nunca ninguém me parou para pedir documentos. Acho que não tinha cara de comunista.
Pergunta:
Quando você começou a trabalhar em rádio, qual era a programação das rádios? Quando você começou na região, em quais rádios você trabalhou?
Resposta:
Trabalhei na Rádio ABC, no Bairro Casa Branca e comecei lá como técnico de som. Tinha programas de auditório.
Pergunta:
Com eram esses programas?
Resposta:
Os programas faziam o maior sucesso. Enchia de gente o auditório. Aí a televisão acabou com esse negócio de auditório. Mas me lembro que tinha o programa do Cocherine, às quartas-feiras à noite, que enchia de gente. Vinham artistas de São Paulo. Agora a gente fala de São Paulo e o pessoal morre de rir, porque São Paulo está aqui mesmo. Mas antigamente, nos anos 60, quando vinha pessoal de São Paulo, puxa! Parece que Santo André era interior.
Pergunta:
Tinha programas de calouros também?
Resposta:
Tinha programas de calouros. Esse programa do Cocherine era sertanejo. Tinha um programa na Rádio ABC chamado Solistas de Amanhã. Nessa época já não trabalhava na rádio, que foi em 1964. O pessoal ia lá tocar sanfona, harmônica, acordeão. Tinha um programa do Miguel Romeira, de muito sucesso, chamado Peneira Rodine, que era um programa de calouros. Tinha o programa na Rhodia, de domingo de manhã, chamado Ronda das Cirandas, e quem apresentava era um cara chamado Zezão.
Pergunta:
Como funcionava?
Resposta:
O pessoal ia cantar, meninos e meninas, tipo Xuxa. O pessoal ia cantar. Eu me lembro de uma cantora chamada Ivani Trote, que fazia muito sucesso. Ela cantava uma música chamada “O Trovador de Toledo”. Essa música era da Gilda Lopes. Tinha um pessoal que cantava boleros.
Pergunta:
Qual era o gênero musical que mais tocava na região, o que mais tocava nas rádios?
Resposta:
Coisas que estavam fazendo sucesso na época, como bolero, samba-canção, samba.
Pergunta:
O que fazia sucesso no ABC era o que fazia sucesso em São Paulo?
Resposta:
Era. E a Rádio ABC concorria com as rádios de São Paulo, coisa que agora não acontece mais, porque tem muita rádio. Não existia FM, então a Rádio ABC fazia muito sucesso nessa época.
Pergunta:
Existia alguma forma de pesquisas de audiência para vocês saberem o quanto a Rádio era ouvida?
Resposta:
Já existia o famoso Ibope, mas eu nunca vi.
Pergunta:
Os resultados não vinham para vocês na rádio?
Resposta:
Tem hoje ainda o Ibope. Não sei quem faz as pesquisas. Dizem que são as faculdades, mas não sei.
Pergunta:
Vocês que trabalhavam na rádio não sabiam o quanto vocês eram ouvidos?
Resposta:
A gente sabia pelos ouvintes que ligavam para a rádio, que mandavam cartas. Agora eu tenho um programa de rádio e sei a minha audiência pelo número de cartas e ligações que recebo. Sei mais ou menos a audiência. Isso funciona como um termômetro de audiência.
Pergunta:
E o que vinha nessas cartas para esses programas?
Resposta:
Pediam músicas. Agora o pessoal manda histórias, gostam que falem no ar, gostam de músicas antigas. Outro dia escreveu uma ouvinte dizendo que no sábado ela já dorme pensando no que vai tocar no domingo de manhã.
Pergunta:
Quando você começou a trabalhar na rádio, como era organizado, como era o arquivo, como eram os fichários?
Resposta:
Hoje tem computador. Antigamente tinha a famosa máquina de escrever, então o artista vinha com o divulgador, com o disco embaixo do braço, entregava o disco e fazia uma ficha do disco com as faixas e o nome do autor, e a gente colocava no arquivo. Ficava lá em ordem alfabética e você consultava o arquivo.
Pergunta:
O artista vinha pessoalmente?
Resposta:
Geralmente vinha com o divulgador. Hoje com esse negócio de computador mudou muito o formato. Eles mandam direto. Nem existem mais gravadoras. Elas estão fechando por causa do problema de pirataria. Antigamente o artista vinha com o divulgador.
Pergunta:
E esse divulgador era da gravadora?
Resposta:
Sim. Quem eu conheci pessoalmente na época da Jovem Guarda era a Martinha, Paulo Henrique. Roberto Carlos nunca vinha com divulgador, porque ele já tinha um esquema, uma máquina. O artista que começava vinha.
Pergunta:
E era comum chegar um artista novo sozinho, com um disco?
Resposta:
Às vezes. A gravadora já tinha os divulgadores. Agora você tendo um computador em casa você já vira um artista, dá para gravar uma música. Antigamente você tinha de ir ao estúdio e eram as gravadoras que tinham esse processo, esse projeto. Tinha a Copacabana, RCA, Continental. Agora as gravadoras que não fecharam, ou alguém comprou ou virou uma gravadora pequena, só um selo.
Pergunta:
Aqui na região tinha a Odeon, em São Bernardo?
Resposta:
Sim.
Pergunta:
Mas era uma filial? Não era o estúdio de gravação?
Resposta:
Inclusive a Odeon gravou muita coisa no Estúdio Eldorado. Eu trabalhei na Rádio Eldorado. Eu não cheguei a pegar essa época, mas eles gravaram muita coisa lá, aqueles bolachões de 72 rotações. Tony Campelo, Cely Campelo, gravavam lá. Depois, mais tarde, nos anos 70, Caetano Veloso gravou lá, Rita Lee, Gilberto Gil também gravaram no Estúdio Eldorado.
Pergunta:
Aqui no ABC não existia estúdio de gravação?
Resposta:
Não me lembro. De gravar artistas de nome, não.
Pergunta:
Você conheceu o Estúdio Camerati, em Santo André?
Resposta:
Já ouvi falar, mas não conheço.
Pergunta:
Não é do seu tempo?
Resposta:
Foi nos anos 80.
Pergunta:
E nos anos 60, as músicas, você conheceu bem de perto a Jovem Guarda?
Resposta:
A Jovem Guarda, eu vivi bastante, os Beatles, os festivais da música popular brasileira de 1966 até o final dos anos 60.
Pergunta:
Como era a repercussão disso tudo na região, do rock, dos festivais?
Resposta:
Eles faziam bastante sucesso.
Pergunta:
Como a juventude daqui reagia a isso?
Resposta:
O pessoal gostava muito. Estava no auge o Roberto Carlos, o pessoal da Jovem Guarda. Depois surgiu a Elis Regina. Ela começou a carreira no início dos anos 60 cantando boleros e depois, em meados dos anos 60, ela começou na TV Record a fazer sucesso. Antes ela participou de um festival da TV Excelsior com “O Arrastão”, do Edu Lobo. Foi onde ela ficou conhecida e nos anos 60 ela teve um programa de muito sucesso chamado O Fino da Bossa, com Jair Rodrigues, isso já por volta de 1966 e 67. Eles faziam muito sucesso aqui e no Brasil todo.
Pergunta:
Os artistas, aqui na região também, tudo que era sucesso nas rádios de lá fazia sucesso nas rádios daqui?
Resposta:
Sim.
Pergunta:
Qual era a diferença na programação?
Resposta:
Praticamente o que tocava em São Paulo tocava aqui também. No Rio também, agora o Rio é a capital, porque é da Globo. Mas antigamente era São Paulo, tanto que a TV Record fazia muito sucesso. A TV Excelsior foi uma das primeiras televisões. O que o pessoal faz hoje em novelas gravadas, a TV Excelsior fazia ao vivo. Tinha um programa chamado Times Square, de muito sucesso, com musicais.
Pergunta:
Como eram as novelas de rádio?
Resposta:
Novelas no rádio, praticamente tinha uma rádio que fazia novelas o dia todo, que era a Rádio São Paulo e nessa rádio tinha novelas de sucesso. Tinha o Valdemar Sivione, que era o galã. Inclusive ele está na ativa ainda. Tinha a Gilmara Sanches, que depois virou jurada do Silvio Santos. A Rádio São Paulo, o prefixo dela era PRA5 e tinha novela o dia todo. Geralmente faziam sucesso. Aí a televisão chegou e acabou com as novelas de rádio.
Pergunta:
Aqui no ABC nenhuma rádio chegou a fazer novelas?
Resposta:
A Rádio ABC chegou a fazer, mas não me lembro, não estava trabalhando na rádio.
Pergunta:
Você se lembra de alguma propaganda das rádios?
Resposta:
Tinha o jingle da Firestone, das Casas Pernambucanas.
Pergunta:
As empresas da região anunciavam nas rádios daqui? A Rhodia, por exemplo?
Resposta:
Anunciavam. A Rhodia anunciava na Rádio ABC. Tinha um programa no domingo de manhã patrocinado pela Rhodia.
Pergunta:
Era comum que as empresas patrocinassem programas ou não?
Resposta:
Era, porque as rádios daqui..., só tinha a Cacique de São Caetano, a ABC, a Clube, em São Bernardo teve a Independência, que depois virou Rádio Diário que agora foi vendida para um grupo religioso, mas o rádio fazia muito sucesso e o pessoal anunciava no rádio. E a televisão não tinha essa força toda que tem agora. O rádio perdeu muito com a televisão, principalmente no horário nobre. Apesar de que eu sou mais rádio. Às vezes estou no computador e estou ouvindo rádio. Só assisto ao Jornal Nacional, ou a algum filme e minisséries, que a Globo faz muito bem.
Pergunta:
Você começou a trabalhar na Rádio ABC e ficou quanto tempo?
Resposta:
Fiquei até 1973 e aí fui para a Eldorado e fiquei até o final dos anos 90 e me aposentei lá.
Pergunta:
Aqui na região só trabalhou na Rádio ABC?
Resposta:
Trabalhei um pouco na Rádio Independência, que era em São Bernardo, sempre na parte técnica.
Pergunta:
Onde era a Rádio Independência?
Resposta:
Era na Marechal, depois mudou para outro lugar, que não me lembro. Ficavam em cima de um banco. E tinha programas de auditório também. A Cacique tinha programas de auditório e faziam muito sucesso. Tinha um locutor chamado Carlos Leves, Euzilar Gonçalves, que foram para São Roque ou Santos. Tudo isso nos anos 60, na época da Jovem Guarda. Tinha o Nelson Robles, na Cacique, que tinha um programa de bastante sucesso. O Rádio, nos anos 60, à noite era bem ouvido. O pessoal não se ligava em televisão. Tirando os festivais, o pessoal ouvia mais rádio.
Pergunta:
Que outros programas você se lembra?
Resposta:
Eu me lembro mais dos programas musicais da Cacique. Tinha de esporte, mas não me ligava muito. Sempre curti mais música.
Pergunta:
E a estrutura dessas rádios? No caso da Cacique, era maior ou menor que a ABC?
Resposta:
Ela se comparava com a Rádio ABC, com a Rádio Clube. Era a mesma faixa. Não era uma rádio grande, mas também não era pequena.
Pergunta:
A de São Bernardo era menor?
Resposta:
A Independência era, mas ela se equiparava a ABC, Clube e Cacique. A Clube agora virou Trianon. Foi para São Paulo.
Pergunta:
Tinha muita dupla sertaneja?
Resposta:
Tinha nesses programas da ABC. Chitãozinho e Xororó, não me lembro deles, mas eles começaram na ABC. E tinha esse pessoal que depois foi para São Paulo fazer sucesso.
Pergunta:
Enquanto eles se apresentavam nas rádios da região, eles não faziam sucesso?
Resposta:
O negócio era mais em São Paulo. Quando eles se apresentavam na Rádio Nacional, que agora chama Rádio Globo, era a rádio de maior audiência. Tinha programas de bastante sucesso. Tinha um programa que se chamava Parada de Sucessos, das onze e meia ao meio-dia, e fazia um sucesso incrível. Tocavam as músicas mais vendidas da semana. O Silvio Santos começou na Rádio Nacional, o Paulo Rogério. Fazia sucesso o dia tudo. Não sei se é porque eu curto muito o rádio, e acho que tudo que é de rádio faz sucesso. Não curto muito a televisão.
Pergunta:
Tinha o programa ie-ie-iê?
Resposta:
Era na Cacique. O que tocava? Tocava Jovem Guarda, Beatles, Roberto Carlos, Wanderléia, Jerry Adriani, Wanderlei Cardoso.
Pergunta:
Por que esse nome?
Resposta:
Por causa do movimento. Vamos fazer um programa chamado Programa do Ie-ie-iê.
Pergunta:
Os Beatles eram chamados Os Reis do Ie-ie-iê?
Resposta:
Inclusive tem um filme dos Beatles, “A Hard Days Night”, que aqui no Brasil se chamou “Os Reis do Ie-ie-iê” em 1964. Em 1965 eles filmaram “Help”. Aí fizeram um desenho animado que não disse muita coisa para mim. Tanto é que o Roberto Carlos fez um filme na mesma época baseado no “Help”, que é “Em Ritmo de Aventura”, que conta histórias, ele corre para lá e para cá. No “Help” também os Beatles correm das fãs por causa de um anel.
Pergunta:
Envolvendo com as músicas e com as modas de música, isso se refletia na moda de roupas?
Resposta:
Claro. Principalmente no tempo da Jovem Guarda, foi lançada a Calça Calhambeque, uma botinha que o Roberto Carlos usava. Tem gente que usa até hoje. Da Wanderléia, lançaram a boneca dela, como lançaram no final dos anos 50 uma boneca com o nome Cely, porque a Cely Campelo fazia muito sucesso. Tudo que fazia sucesso, a mídia lançava coisas. Nos anos 60, por causa dos Beatles, todo mundo andava de botinha e terninho, cortava cabelo igual.
Pergunta:
Você se lembra quando entrou a minissaia?
Resposta:
Quem inventou foi a Mary Queen. Ela desenhou em meados dos anos 60 e o pessoal da Jovem Guarda adotou. A Valdirene usava minissaia, a Wanderléia, a Martinha, a Silvinha.
Pergunta:
Você conheceu o Carlos Gonzaga?
Resposta:
Conheci. Não o conhecia pessoalmente, mas há pouco tempo ele veio na Rádio ABC num programa de entrevistas e eu fui lá e conversei com ele... Ele fazia versões do Paul Anka e do Neal Sedaka. Como o grupo Renato e Seus Blue Caps, na época da Jovem Guarda, fazia versões das músicas dos Beatles e fizeram muito sucesso.
Pergunta:
Você gostava muito da Jovem Guarda?
Resposta:
Foi a época que eu curtia bastante. Inclusive tenho muita coisa da Jovem Guarda em casa, coletâneas que toco no meu programa.
Pergunta:
E esse programa hoje é sobre o quê?
Resposta:
Tenho dois programas, um das cinco às sete da manhã, aos domingos, que toca música popular brasileira, e das oito até as onze, eu misturo Jovem Guarda com Beatles, final dos anos 50, Bob Derrek, Neal Sedaka, Paul Anka e faço uma misturada. Tem um pessoal que gosta. É na Rádio ABC AM.
Pergunta:
Quais lugares você costuma freqüentar? Tinha bares na região?
Resposta:
Nunca fui de freqüentar bar. Minhas paqueras nunca aconteceram em bar.
Pergunta:
Onde tocava, como era? Tinha bandas que se apresentavam?
Resposta:
Não me lembro muito bem, mas tinha barzinhos que tinham música ao vivo, que tocava todo esse pessoal.
Pergunta:
Você se lembra de cantores e compositores da região que lançavam músicas nas rádios do ABC?
Resposta:
Fez muito sucesso o Ed Carlos que é de Santo André, e ele foi na cola do Roberto Carlos. Ele conseguiu cantar na Jovem Guarda. Ele gravou uma música chamada “Estou Feliz”, que foi o maior sucesso dele. Hoje ele tem uma casa de carnes, que se chama Ed Carnes no Cambuci. Ele é da região. Que me lembre de artistas, teve a Gessi Soares de Lima. Não me lembro, porque foi no final dos anos 50. Carlos Gonzaga.
Pergunta:
Você gosta muito de música, mas e a literatura? O que lia o jovem naquela época?
Resposta:
Lia muitas histórias em quadrinhos. Lia livros, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”. A gente curtia mais quadrinhos.
Pergunta:
E revistas?
Resposta:
Revistas da moda, O Cruzeiro, Manchete. Gostava muito de revistas que falassem de cinema. Tinha uma chamada Cinemim, que contava tudo de cinema. Curto muito cinema também. Revista do Rádio que falava de rádio.
Pergunta:
Do cinema brasileiro você tem lembranças que de filmes, atores?
Resposta:
Eu me lembro de “O Cangaceiro”, “O Pagador de Promessas”. Inclusive ganhou a Palma em Cannes em 1962. Depois veio aquele cinema que o pessoal chamava de cinema novo, do Glauber Rocha. Eu não curto esse tipo de cinema.
Pergunta:
Os filmes da Vera Cruz?
Resposta:
A Vera Cruz começou com “O Cangaceiro”, depois teve o Mazzaropi. Eu gostava muito dos filmes dele. Na região o Mazzaropi fazia muito sucesso. No Cine Carlos Gomes, eu me lembro que quando passava filmes do Mazzaropi a fila dava voltas. O pessoal ia assistir mesmo. No Rio era Oscarito e Grande Otelo. Aqui era o Mazzaropi quem fazia sucesso. Aqui o Oscarito não fazia muito sucesso, só no Rio de Janeiro. Tanto que o Mazzaropi não entrava no Rio. Teve uma época que teve uma certa, na música e no cinema, uma rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo, porque cada um achava que eram eles que lançavam artistas. Tinha uma briguinha. Agora está tudo igual por causa da dona Globo.
Pergunta:
E os cinemas da região? Você falou do Tangará, do Carlos Gomes.
Resposta:
Aqui em São Caetano tinha o Max.
Pergunta:
Você vinha para cá?
Resposta:
Poucas vezes. Eu ia mais aos cinemas de Santo André.
Pergunta:
São Bernardo tinha cinema?
Resposta:
Tinha o Cine São Bernardo na Marechal.
Pergunta:
Mas vocês de Santo André e São Caetano não costumavam ir a São Bernardo?
Resposta:
Às vezes passava um filme no Cine Max que não estava passando em Santo André e eu vinha assistir. Agora, com esse negócio de shopping, o cinema caiu muito. O Tangará era um cinema incrível. Era como se fosse um teatro. Aí surgiram esses cinemas de shopping, mais pelo negócio de segurança, e o pessoal vai mais em shopping. Os cinemas das cidades fecharam.
Pergunta:
A turma se arrumava, se produzia?
Resposta:
Eu não me lembro, mas tinha um tempo que o pessoal ia de gravata. Não entrava sem gravata.
Pergunta:
Você vivenciou isso?
Resposta:
Não. Chamavam de calça rancheira. Não era jeans. Meu pai falava que para ir ao cinema tinha de ir de gravata, senão não entrava.
Pergunta:
Você passou pelo movimento hippie, pelo tropicalismo?
Resposta:
O tropicalismo eu me lembro, mas o hippie eu não curtia muito. Tinha o Caetano, Os Mutantes e a Rita Lee, Gilberto Gil. Era o pessoal da turma dos baianos.
Pergunta:
E como era o comportamento dos jovens na região do ABC?
Resposta:
Eles se comportavam com o que estava na moda.
Pergunta:
Tudo que os jovens de São Paulo faziam, tinha as grandes revoluções?
Resposta:
Eu nunca fui muito de moda porque para andar na moda era meio caro. Eu andava normal.
Pergunta:
Aqui era mais provinciano?
Resposta:
Inclusive o pessoal chamava Santo André de cidade dormitório, porque o pessoal fazia tudo em São Paulo. Muita gente ia para São Paulo, eu não, participar dos festivais, e vinham dormir em Santo André. Era pequeno o movimento em Santo André, mas não era também forte como era em São Paulo, como ainda é. São Paulo é um pulinho agora, mas antigamente era uma viagem ir para São Paulo.
Pergunta:
Você tem alguma lembrança do Teatro de Alumínio?
Resposta:
Muito pouco. Eu me lembro que era na esquina da Alfredo Fláquer, que hoje é a Perimetral.
Pergunta:
Você não ia assistir às peças?
Resposta:
Eu passava em frente, mas era bem garoto.
Pergunta:
E as peças do Panelinha? Afinal eles fizeram teatro infantil nos anos 60?
Resposta:
Eu lembro do Panelinha no carnaval.
Pergunta:
E quanto ao Teatro da Cidade, voltado mais para o lado político?
Resposta:
Não. Eu curtia mais música. Ficava em casa ouvindo discos na vitrolinha.
Pergunta:
A gente está acabando. Queria que você deixasse uma mensagem.
Resposta:
Eu trouxe um material de como eram feitas as propagandas no rádio, como eram vinculadas as propagandas no rádio.
Pergunta:
Queria que você deixasse uma mensagem, o que é importante você marcar para a sua vida, quando as pessoas forem assistir a este depoimento. O que você desejaria deixar registrado.
Resposta:
Achei legal participar desse depoimento, contando algumas coisas da minha vida, coisas que passei.