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Flávio Bigliazzi, andreense, que sempre viveu na cidade. Trabalha no comércio. Na infância, acompanhou muitas das gravações externas dos filmes da Vera Cruz.
Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 10 de julho de 2003.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Vanessa Guimarães de Macedo
Transcritores: Meyri Pincertato, Marisa Pincertato e MárcioPincertato.
Pergunta: Flávio, gostaria que você começasse falando a sua data de nascimento, onde você nasceu e como foi a sua infância.
Resposta:
Eu nasci em 1947, no dia 25 de outubro, em Santo André, sou de escorpião e minha infância foi muito infância mesmo. Na época a gente tinha mais liberdade de se divertir. A diversão era jogar fubeca, era fazer estilingue, empinar pipa e não tinha cortante, você empinava tua pipa, a gente chamava de papagaio, na verdade pipa era outra coisa, e ninguém te cortava a linha e não cortava o pescoço de ninguém. Eu nasci onde hoje é o centro de Santo André, eu nasci em Santo André mesmo, e nós tínhamos bem próximo da gente um lugar que era chamado Morro Vermelho, hoje é o Parque Jaçatuba. De vez em quando meu pai ou um vizinho levava a gente até esse Morro Vermelho. Vocês imaginem ter vários alqueires para você se divertir beirando o Rio Tamanduateí. É mais ou menos essa situação, basicamente isso.
Pergunta: Dá para descrever um pouquinho mais a região? Onde é a Avenida do Estado hoje?
Resposta:
Existia onde é a avenida paralela à Av. do Estado, no sentido Mauá, ao lado esquerdo, do lado esquerdo do Tamanduateí, sentido contrário ao que ele corre. E era uma região de mata virgem e só existiam trilhas onde hoje é um parque, era uma chácara que existia ali. A gente jogava bola ali ao lado. Existia a Rodhia, a Valisère. E a gente iria pelo beirando a Valisère, a gente cruzava uma ponte e tinha acesso a esse paraíso. A minha infância também foi coroada, existiu o clube, existe ainda o Clube de Bocha de Santo André, e esses camaradas que jogavam lá eram muito bons, era jogo de bocha. E boa parte da infância da gente, a gente passou ali dentro, daquele clube. Meu pai é filho de italianos, nasceu em São João da Boa Vista, e minha mãe também filha de italianos, eu sou neto de italianos. A gente tinha muita afinidade com esse pessoal. A ligação foi grande, mas eles faleceram, os italianos, e a gente era bem quisto ali naquele grupo, então boa parte da minha infância a gente viveu ali, internamente a esse grupo.
Pergunta: Você chegou a ir à escola?
Resposta:
Sim, eu freqüentei o primeiro grupo de Santo André.
Pergunta: Na Senador Fláquer?
Resposta:
Na Senador Fláquer, onde é o museu hoje, ali na Senador Fláquer. Lembro bem das professoras, da dedicação das professoras. Uma segunda mãe para gente. Depois eu fui para o ginásio do Estado.
Pergunta: Ginásio do Estado? Qual é?
Resposta:
Visconde de Mauá, em Mauá. Por questões de logísticas, digamos assim, o termo que se usa hoje, eu vim para Santo André, comecei a trabalhar e fui estudar no ginásio do Duque de Caxias. O Visconde de Mauá era um ginásio do Estado e o Duque de Caxias era um ginásio particular. Mas ele era próximo da minha casa. Eu estudei e me formei no Duque de Caxias. Depois, eu fui fazer o nível médio, era chamado de nível médio, hoje no Instituto Pentágono de Ensino. Era um sobradinho e hoje é uma escola, eles têm nível de faculdade, o Pentágono. Eu sou da primeira turma de ensino do Pentágono. Depois eu fui fazer engenharia, comecei a fazer engenharia mecânica, depois fui fazer engenharia elétrica, curso de engenharia elétrica.
Pergunta: Foi por aqui?
Resposta:
Não. Eu fiz na Faculdade São Judas, coincidentemente na primeira turma também e fiz vários cursos também na empresa onde eu trabalhava.
Pergunta: Tem alguma lembrança do tempo de escola, dos amigos?
Resposta:
Do Pentágono, o que me lembro, é que a gente dava muito valor, o que hoje eu não sei se acontece, aos professores. Os professores do Pentágono, a maioria deles era o pessoal que trabalhava na Rhodia, na Rhodia Química, e a dedicação era bastante, foi o que me ajudou bastante profissionalmente. Aprendi bastante com eles. Depois, era um sobradinho. O Pentágono era um sobradinho.
Pergunta: Onde era?
Resposta:
Ali na Abílio Soares, em Santo André, um sobrado e eu acho que eram quatro salas de aula, tudo era adaptado, e de repente cresceu porque o curso era bom. Nós fomos para antiga Escola Química Industrial, um prédio ali na Av. Dom Pedro, era uma casa, e lá foi a nossa formatura, naquele prédio. Hoje aquela casa é uma unidade do McDonald's. Então, não existe mais. Essa memória foi embora.
Pergunta: Foi demolido?
Resposta:
Há poucos meses, parece que havia um processo de tombamento do prédio, mas eu acho que pela prefeitura, não sei exatamente qual foi o problema, eu sei que a marca prevaleceu. A do McDonald's.
Pergunta: Você lembra quantos anos tinha? Parece que você presenciou algumas filmagens?
Resposta:
Foi. Aliás o contato que nós tivemos foi em função dessa informação, de uma colega de trabalho da gente, Silvana Maia Katsuraiama. Comentando com ela, um dia nós passamos na Rua General Glicério e saiu um assunto, que eu não me recordo bem, e eu comentei com ela que quando garoto a gente, não lembro se foi meu tio, depois eu conferi com meus colegas que estavam junto e nós fomos até a Vanessa, a Vanessa esteve no local, e eu lembro bem porque aquilo para mim foi marcante, porque tinha uma feira, a feira ali era às sextas-feiras, naquela mesma rua, mais lá do outro lado. Eu lembro que meu tio levou a gente até lá. E aquilo para mim era feira livre porque tinha umas barracas montadas que a gente se recorda, e a gente ia diariamente, não sei exatamente quanto tempo eles ficaram ali fazendo aquelas filmagens.
Pergunta: Faz quantos anos foi isso?
Resposta:
Eu acredito que há seis ou sete anos. E tem uma cena no filme, dá para conferir, que o enredo do filme era o seguinte: O cara estava sendo despejado, ele não devia pagar o aluguel e na hora que eles carregam a mudança em cima do carrinho do Mazzaropi, então num último ato de represália, a mulher pega a lama, porque tem ali na poça, e joga na fachada da casa. Então aquilo ficou marcado na mente da gente porque era um conhecido da gente dentro da casa. O pessoal conhecido ali, todo mundo era conhecido. Isso no tempo em que você punha as cadeiras fora da casa e conversava até tarde.
Pergunta: As coisas mudaram muito?
Resposta:
A General Glicério não era asfaltada, no filme dá para ver bem. Dá para você perceber.
Pergunta: Qual é o nome do filme?
Resposta:
Sai da Frente.
Pergunta: É do Mazzaropi?
Resposta:
Sim. É do Mazzaropi.
Pergunta: Era o seu tio que trabalhava?
Resposta:
Era o meu tio que a gente chamava Bié, na verdade.
Pergunta: Mas ele comentava por que ele queria levar as crianças?
Resposta:
Meu tio Bié, eu acredito que seja por que meu pai trabalhava em São Paulo, pegava o trem, saía às 5:00h da manhã e voltava às 7:00h da noite. O meu tio Bié, que era irmão da minha mãe, então hoje eu penso assim, ele trabalhava aqui em Santo André, ele era contador, eu acho que ele dava assistência para as crianças, ele dizia faça isso, não faça aquilo, ele estava mais próximo da gente, então era o tio que ajudava a fazer papagaio, o estilingue. Era o que estava mais próximo da gente ali diariamente, digamos assim. Ele levava a gente até o Morro Vermelho, ele devia saber o que estava acontecendo porque era curioso o fato de estarem filmando ali com a câmara.
Pergunta: E não era muito comum?
Resposta:
Não, não era comum; hoje é uma coisa bastante corriqueira.
Pergunta: O senhor se lembra se filmaram mais alguma vez?
Resposta:
Em Santo André, que eu me recorde, foi essa vez que eu fui.
Pergunta: Depois que você ficou mais velho, como era ir ao cinema, quais eram os cinemas da cidade?
Resposta:
A gente ia muito em cinema, nos finais de semana. Então, sobrava um dinheiro, pedia para mãe, para o pai, aquela história. Não existia dinheiro no mercado, não tinha dinheiro assim, a turma fala que hoje é ruim, ruim era antigamente. Minha mãe já falava e eu confirmo o que ela falava. E a gente conseguia um dinheirinho. A gente ia ao Carlos Gomes, Carlos Gomes era o nosso preferido pelo fato de ser o mais próximo da casa da gente. Subia três quadras e estava no Carlos Gomes. E existiu o Tangará, o Tangará era mais elitizado, digamos assim, ele era mais luxuoso. O Carlos Gomes ele era mais popular, ao nosso modo de ver. Existiu o Cine Santo André, em que um primo do tio da gente era o porteiro, então ele deixava a gente entrar de graça. Começava o filme, a gente entrava logo em seguida e ia lá no cine Santo André.
Pergunta: Onde?
Resposta:
Ele era lá onde é a Perimetral hoje, pouca gente lembra do Cine Santo André. E existiu o Cine Tamoyo. Existia também, e nesse eu fui uma vez só, aqui na Rua Ester, o Cine Arte, aliás onde era o Cine Arte hoje tem uma empresa de um amigo meu lá dentro, ele comprou o Cine Arte. Então, a empresa dele funciona lá dentro, e há pouco tempo eu o ajudei a fazer a mudança da empresa dele para dentro desse cinema e deu para a gente lembrar de alguma coisa na nossa memória.
Pergunta: Como eram os filmes que vocês costumavam a assistir?
Resposta:
Eu me lembro bem que existiam seriados. Era uma maneira de prender os freqüentadores. A sessão começava, pelo menos no Cine Santo André, isso eu me lembro bem, com seriados. Então parava na semana anterior e você voltava lá para ver. Mas o que me marcou bastante no tempo de moleque no Carlos Gomes foi a Salomé, por causa da dança dos Sete Véus. Era um negócio muito reservado, mas na época a molecada queria ver, queria assistir a Salomé, por causa da dança dos sete véus.
Pergunta: Eram filmes de produção brasileira, feitos na Vera Cruz ou americanos?
Resposta:
Eu me lembro bem que na época quando aparecia um filme de produção nacional, tipo Mazzaropi, lotava os cines, o pessoal ansiava por isso. Mas, as produções, a maioria, como é ainda hoje, eram americanas.
Pergunta: Tinha alguma propaganda? Tinha alguma coisa antes?
Resposta:
Tinha. A propaganda que faziam tinha um camarada, o Tangará e, era uma rede, o Tangará e o Cine Santo André tinham uma sociedade, eu acho, tinha o Joel, que saía com aquelas tabuletas e tinha pontos estratégicos. Você queria saber o que passava, o que ia passar, você ia lá naquelas tabuletas. Então, ela ficava ali. A General Glicério exatamente tinha uma placa que passava ali os filmes do Tangará. A do Carlos Gomes era próximo e a gente passava lá em frente e tinham uns cartazes .
Pergunta: Seriam os anúncios do filme?
Resposta:
Sim, os anúncios do filme. E tinham o trailler. Eu não me lembro, mas era a programação, você ia de quarta-feira, por exemplo, passava o trailler do que iria passar aos sábados aos domingos.
Pergunta: E propaganda comercial em torno disso também tinha?
Resposta:
Tinha. Tinha o antes, você lembrou bem. Antes de começar o filme tinha, isso era patente, tinha um documentário sobre futebol. Acho que era, não me lembro quem era. Um samba bonito que tocava antes, e os traillers, depois passava. Você dava sorte porque tinha uma série de traillers para assistir.
Pergunta: Os de futebol eram comuns nos filmes?
Resposta:
Era comum, tudo era esperado, e gozado sempre futebol carioca, sempre a apologia Flamengo, Vasco e a gente saía meio, vamos dizer assim, decepcionado porque não aparecia Corinthians e Palmeiras. Eu, como bom corinthiano, nunca vi.
Pergunta: E o teatro?
Resposta:
Eu me lembro do Teatro de Alumínio, em Santo André. Cheguei a ver algumas peças no Teatro de Alumínio, e pelo que a gente sabe, eu lembro do seu Antônio Chiarelli, do pessoal do teatro, do seu Antônio Chiarelli, ele tinha uma loja de eletrodomésticos, eletrônicos na Rua Coronel Fernando Prestes, e ele era uma das pessoas que promoviam o teatro em Santo André. E pelo que a gente se recorda, a gente sabia que as peças eram apresentadas primeiro aqui em Santo André e depois iam para São Paulo. Ou nasciam aqui, talvez o balão do ensaio fosse aqui. Teve uma época boa do teatro. Depois o Teatro Municipal, no Paço Municipal, que até hoje é lá. O Teatro de Alumínio, eu acho que antes de nós dispormos desse teatro ele não existia mais.
Pergunta: Dá para descrever um pouquinho o Teatro de Alumínio?
Resposta:
Era um galpão, digamos assim, um galpão inclinado, com uma pequena inclinação e relativamente pequeno, um teatro digno, e não lembro bem das poltronas, do palco, cerca de seis a sete metros mais ou menos. E a gente via somente a peça, na verdade. Eu lembro bem disso, isso não é muito antigo. Remoto, é mais recente.
Pergunta: Em que ano foi?
Resposta:
Eu estou tentando me lembrar, talvez na década de 60.
Pergunta: O senhor se lembra dos atores?
Resposta:
Eu me lembro do Walter Stwart, ele era da TV Tupi. Você quer ver uma peça que eu lembro até hoje desse detalhe, porque aquela música do Chico Buarque foi em 1967, A Banda, e ela estava em evidência, então numa peça cujo tema era medieval, Walter Stwart era humorista e numa das cenas ele entra cantando A Banda. Quase que veio abaixo o teatro. No teatro eu me lembro bem disso. Então, você imagina década de 60 próximo de chegar a década de 70. Acho que foi a última peça que eu vi ali no teatro, era uma diversão muito boa, era um negócio novo para a gente. Para o jovem.
Pergunta: Nesse período de 1967, era época da ditadura militar. Vocês percebiam alguma coisa?
Resposta:
Percebiam, percebiam sim. Você diz em relação às peças?
Pergunta: Isso. Censura, repressão?
Resposta:
A gente sabia que existia a censura. Talvez na minha idade não, porque a gente não sabia comparar o que veio antes e o então. Hoje, você sabe, mas a gente percebia a repressão, existia repressão, o DOPS. Falavam em DOPS, todo mundo... A gente era jovem, você não podia ficar em barzinho jogando, jogar sinuca era proibido para menores de dezoito anos. Então, você não podia, não existiam rodinhas em barzinhos, coisas dessa tipo. Agora em relação às peças de teatro, eu não tinha esse discernimento, eu não era muito politizado assim.
Pergunta: Mas as coisas da vida, no dia-a-dia, o que tinha de comentários?
Resposta:
Ah! Sim. Os comentários. Para mim era isso. A gente sabia que você não podia se reunir em grupinhos. Na escola os professores mediam o que falavam. Isso a gente percebia bem.
Pergunta: Havia comentários de pessoas que desapareciam?
Resposta:
Sim, nós tivemos conhecidos em Santo André que desapareceram. Até hoje a gente não sabe. Pessoas foram presas. Aliás essa pessoa, onde barro foi atirado na casa, os filhos foram questionados tanto assim, nem sabiam daquela situação.
Pergunta: Essas pessoas que comentavam que podiam ser presas ou que estavam desaparecidas, elas eram mal vistas por causa disso?
Resposta:
Não, não. Isso sim, é porque a propaganda era muito forte. Brasil é um New Date. A massa de propaganda era muito forte e o pessoal adotou isso. Então, todo mundo que era contra o regime não era bem visto. Inclusive a gente na época ficava em dúvida. Apesar de serem famílias conhecidas, pessoas que eram muito conhecidas, meus pais conheciam, e à boca de amigos eles comentavam.
Pergunta: É como se tivessem desencaminhado?
Resposta:
Exatamente, mas nós éramos estudantes.
Pergunta: Como era a parte de namoro?
Resposta:
Para você ter uma idéia, eu me casei com 33 anos, mas o namoro o que era? Era bailinho, promover bailinho na casa de amigos, na minha casa não, porque minha casa era de assoalho e se fizesse, afundava, tinha porão. Então, esse era um quesito: a casa não podia ter porão, se não era problema. Então, era Cuba Libre, tomava, ficava meio... O namoro. Era difícil quem não namorasse. Então tinha o que o pessoal fala ficar hoje. E como a gente fala, ficava num pleotranto. Você ficava naquele namoro meio platônico, pelo menos eu me relacionei. Nunca fui de me dedicar a alguém, de falar agora eu vou namorar. A minha primeira namorada eu tive com 22 anos, para vocês terem uma idéia. Eu ia lá no portão da casa da moça e tal, mas ninguém ficava muito tempo com alguém. Raras exceções, a gente queria mais liberdade, não queria ficar preso, namorar no portão. Do portão era para dentro da sala, então era um passo grande, você tinha que falar com os familiares da moça se você pretendia uma coisa mais séria, mas eu não vivi muito isso. Digamos assim, com 22 anos eu consegui um bom emprego, eu era estagiário do Pentágono, de repente eu fui efetivado com um salário muito bom, então aí eu comprei um Galaxy 67, para vocês terem uma idéia, então eu não queria nem saber, eu queria aproveitar a vida.
Pergunta: Quais eram as músicas desses bailinhos?
Resposta:
Na década de 60, eram as músicas italianas. As músicas italianas fizeram um sucesso muito grande, depois o rock. Os bailinhos eram Ray Connyf, isso não podia faltar; Elvis Prastley, Rick Nelson. Músicas brasileiras, depois dos festivais da Record que elas começaram a aparecer, mas para baile eram essas que o pessoal organizava, levava os long-plays, havia aquela troca.
Pergunta: Como os jovens, moços jovens, esperavam o comportamento das mulheres? E como as mulheres se comportavam naquela época? Como era a questão da moral, do comportamento?
Resposta:
A moça tinha que ser direitinho. Não podia...
Pergunta: O que era moça direitinha?
Resposta:
Moça direitinha era a que não se mostrava. Sempre foi a mesma coisa, desde quando o mundo é mundo. Mas pelo menos a gente tinha essa visão pelos pais da gente, das irmãs. A moça tinha que casar virgem, esse negócio não existia, mas esse era um requisito básico. E eu lembro que em Santo André tinha um pintor de paredes e a gente tinha medo de chegar perto dele porque ele era viciado em maconha, o fulano é maconheiro. Os valores eram muitos. Mas, o predicado era esse, tinha que ser de família. Nessa região de Santo André não éramos muito expostos a conviver com muitas pessoas. Chegava o meio de ano, as férias de julho, por exemplo, na escola, eu ia muito para a região de Campinas, e ficava na casa da minha tia. Você não tinha muito contato, a verdade é essa, era muito família, saía da minha família e ia para a casa da minha tia que era família, e o que a gente ouvia era família. E a moça tinha que ser moça.
Pergunta: Em termos de convivência, como era?
Resposta:
Eu lembro bem daquele pessoal do Sílvio Santos que vinha para Santo André, então eles eram artistas, eu particularmente era admirador desse pessoal. Gostava muito. Eu lembro de um filme com uma atriz nacional Darlene Glória, eu acho que todo mundo ia ao cinema para ver Darlene Glória, ela saía nua numa cena no mar e aquilo foi muito escandaloso. Mas eu lembro que os artistas, no meu conceito, porque muita gente não via como artistas, eram artistas. E a gente admira.
Pergunta: Mas na família como era uma pessoa se desligar?
Resposta:
Eu não recordo da opinião dos familiares.
Pergunta: O senhor estudou engenharia e foi trabalhar em empresas?
Resposta:
Isso. Eu trabalhei em quatro empresas, na verdade. Eu entrei como office-boy na Cofap, meu primeiro emprego. Depois eu fui para as indústrias Idrobras Santa Marina, ainda existe essa empresa. Depois eu abri uma vidraçaria, eu fui vidraceiro, aprendi o que o pessoal fazia. Era um bom negócio. Tinha uma vidraçaria, era empresário. Eu precisava fazer estágio técnico, então eu fui trabalhar na Ford caminhões, no Ipiranga, e me aposentei na Ford.
Pergunta: Esse período foi qual?
Resposta:
Foi em 1963.
Pergunta: Mais ou menos foi o período das greves?
Resposta:
Greves? Sim. As graves, antes da ditadura, elas não aconteciam muito para cá. Meu pai trabalhava na Mooca e ele contava que o pessoal passava fechando. A Ford, por exemplo, era uma empresa que estava localizada na Av. Henri Ford, era ponto de ônibus e os grevistas pararam essa empresa. Meu pai contava das greves: Chegamos lá hoje e estava cheio de gente na frente da empresa, não deixaram a gente entrar. Aqui para a região de Santo André, eu não me recordo bem dessa época de 1963 para cá e não me recordo de ter testemunhado muita greve aqui. Tinha os tecelões que promoviam greves, talvez por eu ser metalúrgico, então os tecelões promoviam greve. Os bancários, o sindicato dos bancários, eles eram duros, tanto que nós tivemos um presidente, aliás um Prefeito de Santo André que era presidente do sindicato dos bancários, que foi o Lincoln Grilo.
Pergunta: E depois, quando vêm as greves de 78 e 80, você trabalhava onde?
Resposta:
Sim, essa a gente viveu. Trabalhava no Ipiranga, na Ford. E a Ford tinha uma das unidades em São Bernardo, então invariavelmente estourava a greve lá e o pessoal do setor administrativo começava a trabalhar com a gente lá em São Paulo, o dia não podia parar. O setor produtivo parava, mas o setor administrativo tinha seus comprometimentos com fornecedores e isso não podia parar. E a gente também vivia muita greve, só que era uma greve... O que eu posso falar da greve? Eu trabalhava em relações humanas, RH, e a gente vivia isso. Na época de dissídio, chegava próximo de novembro era o nosso dissídio coletivo, então em setembro, outubro começavam os movimentos de negociação salarial, e de repente as fábricas eram paralisadas sem mais nem menos. Você andava pela fábrica, eu trabalhei muito como segurança industrial, e o pessoal da fábrica parava mas não sabia por que parava. E a gente perguntava: Por que vocês estão parados? Por que não sei, o pessoal está decidindo. Mas a empresa parava. Na época, eu sou um dos primeiros participantes da comissão de fábrica do Brasil, ela nasceu na Ford Ipiranga, nós tínhamos lá um gerente de relações industriais, hoje ele é um consultor famoso no mercado, e, nós promovemos a primeira comissão de fábrica para facilitar a negociação entre patrão e empregado. E nós conseguimos isso, conseguimos levar os empregados a reivindicarem. Foi a primeira comissão de fábrica no Brasil.
Pergunta: Em que ano foi?
Resposta:
Eu não me lembro. Quando foi que o Papa sofreu um atentado? Foi um pouco antes desse ano, mas foi a primeira com certeza. Na época, nós negociamos com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, José Eugênio de Medeiros, e as negociações partiram dali e melhorou, o poder de troca de informações entre empregado e empregador. Era a comissão que negociava as greves, mas mesmo assim nós tivemos problemas, problema porque começou a existir um conflito entre comissões de fábrica e o próprio sindicato da categoria.
Pergunta: Como era o tipo de trabalho, as condições das empresas?
Resposta:
As condições das empresas eram muito tranqueiras. Existiam muitos problemas de insalubridade, com acidentes de trabalho, desconforto, tédio acústico, existiam muitas reclamações trabalhistas, como ainda existe, a verdade é essa. O pessoal nessa época ficou mais politizado, começou a se sentir mais livre do sindicato. Queira ou não, Lula, nosso presidente hoje, desencadeou esse processo de uma maneira diferente da sociedade, então o pessoal começou a se inteirar mais dos seus direitos em termos de salário, de direitos trabalhistas. No momento de acertos de conta houve uma intensificação.
Pergunta: E isso acontecia mesmo entre 64 e 68, quando foi o período mais duro de ditadura?
Resposta:
O pessoal tinha mais medo, digamos assim. O camarada tinha o emprego dele e ele, que eu me recorde existia menos procura, existia menos facilidade também. Eu lembro que para tirar uma carteira profissional eu fui três dias na Rua Senador Fláquer, tinha lá o posto do Ministério de Trabalho e eu fui três dias para conseguir. No primeiro dia não dava, no segundo conseguia uma senha e no terceiro dia eu consegui tirar a minha carteira profissional menor de idade.
Pergunta: E também nesse período tem a entrada do FGTS?
Resposta:
Foi em 1967 o Fundo de Garantia.
Pergunta: E aí como era antes? Como fica depois? O que melhora nas relações individuais?
Resposta:
Ficou mais prática a coisa, porque houve um problema, eu lembro bem. Eu era auxiliar de escritório na Cofap e quando essa lei aconteceu, acho que era agosto de 1967, a coisa tinha que ser efetivada. Quem optou e ficou na expectativa de um dia receber indenização e eu sei que saiu prejudicado, não conseguiu aquilo.
Pergunta: E isso fazia com que vocês fossem mais para a Justiça do Brasil?
Resposta:
Meu pai, por exemplo, que eu posso falar, não foi. Existia muita fidelidade em relação à empresa.
Pergunta: O senhor poderia falar do tempo que apareceu a televisão?
Resposta:
Eu lembro bem disso, meu pai foi comprar uma televisão lá na casa do seu Antônio Chiarelli, aquele do teatro, e eu fui com ele, uma televisão que até pouco tempo ficou com a gente. Existia televisão na nossa vizinha, que era a dona Maria, e a reunião era na casa da dona Maria, uma portuguesa. Depois meu pai comprou um televisor, eu lembro que ele foi lá com todas as notas, ele trouxe aquilo nas costas, mas era terrível. Em termos de técnica o aparelho era uma porcaria porque aquilo fugia da sintonia, tinha muita válvula, não era transistorizada, então era um problema. E a televisão teve um período de represamento de informações muito grande na época da ditadura. Então, quando houve uma explosão da TV, a televisão era maravilhosa, você tinha mil opções tudo que tem na TV hoje já era conhecido. Para mim, televisão não tem muita graça hoje, porque eu olho novela, você dá uma olhadinha você já sabe o enredo, já sabe como vai ser a coisa. Futebol, eu ia em uma casa em Santa Terezinha, ainda nós não tínhamos televisão, eu era garoto e os jogos de futebol aqui de São Paulo eram televisionados, era o Sílvio Luiz, esse que está até hoje na mídia, ele era um repórter de campo e eu lembro até hoje que ele foi entrevistar um jogador do Corinthians, saiu uma briga entre São Paulo e Corinthians, era muito comum sair briga, e o jogador Luizinho, ele era espanhol, falou um palavrão e aquilo, a gente ouviu, virou comentário do outro dia. Para você ter uma idéia, tinha essa televisão em Santa Terezinha, a gente saía daqui e ia para lá, e às vezes no Carlos Gomes tinha o bar do Santi que tinha um televisor e ele era palmeirense e eu ia com meu pai, sentava o pessoal e ficava com a TV ali. Ao lado do Carlos Gomes, no prédio do Carlos Gomes, umas das entradas hoje era o bar do Santi, mas a televisão para a gente era tudo. Tinha um conhecido meu, o Hélio, e a gente fica recordando: Você lembra disso? É, para a gente foi bastante significativo.
Pergunta: Como era antes da televisão?
Resposta:
Televisão tinha em casa, eu lembro que quando nós compramos a TV, o pessoal ligou para nossa casa para ver televisão, e eu lembro da minha mãe se queixando que tinha furado o tapete da sala dela, de tanta gente que ia, o pessoal era desastrado, era interessante. E antes, a gente tinha um rádio e a vizinhança vinha, num determinado horário, e eu lembro bem que meu pai chegava do trabalho às sete horas da noite, ligava o rádio e tinha um comentário na Bandeirantes, era o Bola de Meia, e todo dia a gente ouvia aquilo, a gente até decorava, e o rádio era basicamente isso: você ouvia futebol, ou pelo menos eu e meu pai ficávamos ouvindo futebol, tinha um programa meio dia chamado Parada de Sucessos, eram todas as músicas que estavam em evidência.
Pergunta: Você lembra de propagandas que passavam, tanto no rádio como na televisão?
Resposta:
Lembro, puxa vida! Tem uma série delas que de vez em quando... Era um xarope: Se a tosse resistir... afastando a bronquite. Usaram essa música. O pessoal usava jingles e a música já tinha, era uma série delas.
Pergunta: Tinha comercial de carros?
Resposta:
O carro era uma coisa rara. Quando eu era garoto, na infância pouca gente tinha carro, pouquíssima gente. O automóvel era sinônimo de riqueza, só para quem tinha um poder aquisitivo melhor, mas eu lembro das propagandas do Fusca, é a história do pois é, isso era bastante comum da Volkswagen e lembro de uma indústria de automóvel, a Presidente, que eles passaram a divulgar o carro deles e eles vinham vendendo um carnê, e passavam na sua casa com um carro em cima do caminhão, um carro montado e eles vendiam o carnê. Só tinha a Volswagen na verdade e era difícil você ter um carro. E não foi para frente essa fábrica, até hoje as instalações dela estão na Estrada Velha de Santos, não sei exatamente. O telefone, também não era todo mundo que tinha, tinha uma telefônica perto de casa, então você ia lá e pedia uma ligação para a telefonista e aguardava, e na Rua Correia Dias tinha a central da CTP, Companhia Telefônica Paulista, você ia lá e sentava, esperava uma meia hora até completar sua ligação. As nossas eram para Campinas e região.
Pergunta: Você tem alguma lembrança da chegada do homem à lua?
Resposta:
Isso eu lembro bem, foi em 1969, eu lembro porque nessa noite a gente estava indo para Paranapiacaba, lembro que pouca gente ia para Paranapiacaba, a gente ia, e nós estávamos num jipe, num Candango de um primo meu, eu não tinha carta e eu quis dirigir um pouquinho e, infelizmente, na hora que eu peguei o jipe eu estourei os dois pneus, eu peguei uma pedra enorme e a gente ficou preso lá até eles voltarem com socorro. Então isso marcou bem a gente, foi naquela noite inesquecível para nós. Eu me lembro bem disso.
Pergunta: Vocês não assistiram?
Resposta:
Não, assisti depois. Você tinha vídeo tape, então assisti depois.
Pergunta: E os comentários?
Resposta:
Muita gente não acreditava e até hoje não acredita, mas o pessoal não conseguia imaginar direito o que era.
Pergunta: E a inauguração de Brasília?
Resposta:
Brasília, eu lembro bem, foi televisionado, veio a música Brasília Capital da Esperança.
Pergunta: Passou ao vivo?
Resposta:
Eu acho que era ao vivo, se eu não me engano era em 1961.
Pergunta: E o senhor lembra do movimento das Diretas Já!?
Resposta:
Eu lembro. O movimento foi um parto, demorou muito, era para acontecer em um determinado ano, depois teve aquela lei lá, não foram aprovadas as eleições diretas até ser eleito o Tancredo Neves, mas o movimento era grande e o pessoal que estava no poder também queria entregar, não suportavam mais o processo. O próprio Figueiredo, depois que ele morreu foi publicada uma entrevista dele na Veja, naquelas páginas amarelas, ele fala que o regime era insuportável, a ditadura era insuportável no país e existiu um anseio. E o povo em si, o movimento foi mais político, e o povo estava acostumado com essa ditadura.
Pergunta: Voltando para a cidade de Santo André, o que você diria sobre as mudanças dos anos 60 para o dia de hoje em relação à cidade? O que a cidade era e o que a cidade é hoje?
Resposta:
Para falar do povo, hoje você anda em Santo André e você conhece pouca gente, muita gente mudou, mas muita gente mudou-se para Santo André também. O comércio, o crescimento muito grande, a rede bancária cresceu bastante, falando do lado comercial. Os costumes mudaram tremendamente, você não tem mais cinemas, teatro está polarizado no teatro Municipal de Santo André, coordenado pela Prefeitura de Santo André, a área da cultura. E a gente já teve momentos melhores em relação ao teatro. Muitos eventos, orquestras. Hoje o pessoal está um pouco limitado. E música, eu gosto muito de música, nós tínhamos uma orquestra promissora em Santo André, uma orquestra sinfônica municipal. Cinema nós não temos mais, o Carlos Gomes foi tombado e você não tem mais eventos à altura, está largado ali, um tempo atrás foi cedido para a gente fazer um evento ali no Carlos Gomes, o Tamoio virou um templo da Assembléia de Deus, o Tangará virou estacionamento, o Cine Arte virou empresa, então em termos de cultura Santo André deixou a desejar. Santo André está muito pobre. Os impostos subiram, a população está chiando muito e com razão, a dívida de Santo André é muito grande, é um mal. Na cultura da gente, a gente sempre ouvia os pais falarem que político não prestava, então essa possibilidade de ser político a gente deixou de lado, não no círculo de amizade, e a gente deixou aberto o canal para as pessoas que vieram, mais politizadas que a gente. Nós tivemos um prefeito que teve três mandatos, tivemos um impeachment, e isso causou um rebuliço em santo André.
Pergunta: O senhor se lembra disso?
Resposta:
Lembro, lembro bem.
Pergunta: Qual era o nome dele?
Resposta:
Era Oswaldo Gimenez, eu lembro bem, porque a Prefeitura, a sede da Prefeitura era na Praça do Carmo, pertinho da gente, então aquele movimento, o pessoal passou na rua com uma força bruta e eles invadiram o Paço. Na época, eu lembro de um camarada pegando o guarda do Oswaldo Gimenez, jogando para fora, e até outro dia eu conversei com essa pessoa, eu conversei com ele, o apelido dele era Chico Louco, para vocês terem uma idéia, era um camarada que me falou a data, só que eu não me lembro exatamente; ele é vivo ainda e sempre viveu no meio político.
Pergunta: Teve manifestação da sociedade andreense?
Resposta:
Houve, houve sim. Eu não me lembro exatamente qual era o motivo, eu não era muito chegado. O apelido era Cachorro Sarnento, o símbolo desse prefeito era um cão policial, e a turma chamava de Cachorro Sarnento, eu não sei exatamente qual foi o motivo. Depois entrou o vice que era o José Sampaio. O prefeito depois eu acho que foi Dr. Brandão, fez um mandato bom, esses outros parece que não foram tão bons. Depois o Lincoln Grilo. Tudo pessoal de fora você percebe? Tivemos agora o Celso Daniel, a maioria do pessoal dele era de fora. E claro que hoje estamos globalizados, tem que adotar isso e não tem jeito. Esse pessoal não tem muito amor pela cidade, não sei se isso é o que conta na cidade. São Caetano do Sul, por exemplo, a cidade vizinha, eu falo que São Caetano é um feudo, ninguém põe a mão e você nota a diferença muito grande Outro dia eu fui na Prefeitura, ali no prédio antigo aqui na Goiás, e você nota a diferença no ascensorista. Logo que você entra um senhor já de idade uma educação, bem arrumadinho, não estava todo pomposo, mas ele estava bem vestido, você pega um elevador. Lá na Prefeitura de Santo André é bem diferente, eu dou muito valor para esse tipo de coisa. Está certo que o mundo é prático.
Pergunta: Como o senhor conheceu sua esposa e como é sua família?
Resposta:
A minha família. Eu já falei alguma coisa, eu sou brasileiro, nasci em Santo André, meus avós eram italianos, a minha mãe veio da cidade de Pedreira e o meu pai de São João da Boa Vista. Eu tenho duas irmãs, eu sou o caçula, elas são vivas ainda, os meus pais são falecidos. Eu tenho um casal de filhos, a Marina, de 20 anos, e o Renato, de 18 anos; estudam e trabalham, já estão encarando a sociedade, o que não é fácil.
Pergunta: O senhor é casado?
Resposta:
Casado. Já tinha me esquecido da principal, a Sônia é minha esposa, ela veio de Marília, veio trabalhar aqui no ABC e nós nos conhecemos aqui na turma.
Pergunta: Onde ela trabalhou?
Resposta:
Nós trabalhamos juntos, nós temos um comércio e nós trabalhamos juntos nessa parte. Eu sou instrutor de uma escola, de logística, e nós estamos assim juntos de frente um para o outro, na verdade.
Pergunta: Ela continuou trabalhando?
Resposta:
Ela trabalhou muito pouco tempo. Trabalhou em um laboratório. Era laboratório Fontoura, hoje é Kolinos.
Pergunta: Depois de casados, os dois trabalhavam?
Resposta:
Não, somente eu. Assim que nós casamos, a carga veio toda para mim.
Pergunta: Mas vocês fizeram essa opção?
Resposta:
Fizemos essa opção. Eu estava com trinta e três anos, a gente precisava perpetuar a família e a gente optou por ter filhos. E hoje ainda eu com cinqüenta e cinco anos, a gente fica um pouco deslocado em relação à época e aos filhos. Mas a gente optou em ter filhos e a gente programou a diferença de dois anos de idade entre os dois filhos.
Pergunta: Como o senhor vê a sua esposa criando filhos em relação à possibilidade ou não de trabalhar?
Resposta:
Eu tenho uma opinião formada. Às vezes ela não é muito simpática. A gente resolveu pelo menos primeiro encaminhar os filhos, estudando, trabalhando. A Sônia optou por isso, isso foi coisa de dois anos atrás que ela começou a trabalhar, nós trabalhamos juntos. Tem dias que ela está cansada, porque a mulher sai mesmo, eu acho que a mulher no entanto se arrepende um pouco, porque não é brincadeira, tem funções que a mulher está assumindo, esse é meu ponto de vista, inclusive a minha esposa, o que ela faz, ela faz muito bem feito; e eu não sou ao contrário.
Pergunta: Nos tempos em que o senhor trabalhou nas indústrias, tinha muita mulher? As mulheres tinham mais espaço? Como eram as divisões?
Resposta:
Basicamente as mulheres eram secretárias, existiam secretárias.
Pergunta: Qual empresa?
Resposta:
Na Ford eu encontrei, mas no começo elas eram secretárias, não eram bilingües nada, mas na Cofap, por exemplo, eu entrei como office-boy e as secretárias dos Kasinskis, desse que monta motocicletas e eu não comentei, ele era meio duro. E as secretárias eram da origem do país, acho que por causa da língua, não sei qual era a origem delas. Mas as secretárias que a gente conhecia, tinha contato diretamente, elas datilografavam, faziam as duplicatas, os borderôs. Elas que ficavam preenchendo.
Pergunta: Mas cargo de chefia não tinham?
Resposta:
A primeira mulher que eu vi num cargo de chefia foi na Ford, ela era chefe do departamento pessoal, ela era supervisora, formada em Direito, isso em 1971, e ela desempenhava bem a função dela, mas dali para frente as coisas começaram a mudar. De repente, você vê as mulheres assumindo postos e você fala: Caramba!
Pergunta: Para encerrar a entrevista, a gente gostaria que o senhor deixasse uma mensagem.
Resposta:
Apoteose.
Pergunta: Alguma coisa que quisesse deixar registrado... Para deixar registrado, esse vídeo vai ser assistido por alunos basicamente.
Resposta:
É nossa intenção fazer um acervo e deixar disponível para a sociedade.
Eu não sei, as coisas hoje caminham muito rapidamente, talvez o que a gente falar hoje, daqui cinco anos não seja, mas, espero que quem for assistir a esse vídeo que tire proveito das humildes informações, e quero deixar registrado que depois que eu tive contato com a Vanessa, a estudante de Radialismo, eu comentei com os amigos, em relação a que as outras pessoas têm de memória de Santo André. Eu me julgo uma pessoa média, mas eu preservo, mas tem pessoas com muito mais informações e provavelmente esse pessoal poderia trazer aqui e enriquecer um pouquinho mais. Está bom