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HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Haroldo José

  • Nome: Haroldo José
  • Gênero: Masculino
  • Data de Nascimento:
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade:
  • Profissão:

Biografia

Haroldo de Souza, cujo nome artítico é Haroldo José, é músico e compositor. Morador da região do ABC, cantou em várias rádios locais cna década de 1950.





TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE HAROLDO JOSÉ EM 03/08/2004

Depoimento de HAROLDO DE SOUZA (HAROLDO JOSÉ), 82 anos.

IMES – Universidade de São Caetano do Sul, 3 de agosto de 2004.

Entrevistadores: Rita de Cássia Donato dos Santos e Vilma Lemos.

 

 

Pergunta: 

Sr. Haroldo, comece falando a sua data de nascimento e o lugar onde o senhor nasceu.

 

Resposta: 

Eu nasci em Terra Roxa, perto de Ribeirão Preto, em 1923, e estamos vivendo em Santo André desde 1946. E me casei aqui e aqui tenho meus filhos que também vivem aqui no Grande ABC.

 

Pergunta: 

Conta um pouco do relacionamento familiar, pai e mãe, o lazer, as brincadeiras.

 

Resposta: 

Sou filho de João de Souza, meu pai. Minha mãe é Maria Carmem de Souza, todos os dois falecidos e somos 8 irmãos. Dois deles belíssimos compositores, como Osvaldo de Souza, que foi uma maravilha como compositor musical. Inclusive gravei coisas dele, “Tempo Triste”, que foi nosso maior sucesso, que passou de 2 milhões de discos vendidos, “Palco da Vida” e outras músicas. Astor de Souza também foi compositor comigo, de músicas populares. Tenho duas irmãs que vivem também aqui e tenho meus filhos que moram em Mauá, outro mora em São Vicente e tenho neto, Dr. Haroldo. Meus filhos são todos formados em Santo André. A intelectualidade é uma maravilha.

 

Pergunta: 

Na sua infância, havia tempo para brincadeiras?

 

Resposta: 

Existia. Nós vivíamos no sítio do meu pai, que ele comprou posteriormente, em Promissão, e nós vivíamos no sítio, onde tinha aquela brincadeira de buscar bezerros, tirar leite de vaca e aquela coisa maravilhosa.

 

Pergunta: 

Era brincadeira e trabalho?

 

Resposta: 

Sim. O trabalho, quando minha mãe levantava, eu já estava no pasto trazendo as vaquinhas de leite para a minha mãe tirar leite. Durante o dia eram aquelas brincadeiras no sítio e depois fomos para a cidade de Promissão e ficamos por lá. De lá nós voltamos para Viradouro, depois para Barretos, onde eu comecei a cantar.

 

Pergunta: 

E a escola? O senhor estudou?

 

Resposta: 

Aproveitei bem a escola. Posteriormente, quando voltamos para cá, fiz escola de polícia, em São Paulo.

 

Pergunta: 

Com quantos anos?

 

Resposta: 

Já estava com vinte e poucos anos. Fiz a escola de polícia, entrei para a Guarda Civil de São Paulo e me aposentei na Polícia Militar. Demais, fomos para Barretos, quando moço ainda na vida artística. A essa altura, quando fomos para Barretos, tinha vontade de cantar. Quando foi um dia, fomos num programa de calouros, em Barretos mesmo, na PRJ8 e a gente cantou pela primeira vez. Era uma música conhecida gravada por Orlando Silva que se chama “Mágoa de Caboclo”. Eu tive sorte e tirei o primeiro lugar. Ali fiquei encantado com a coisa e comecei a cantar e eles me ajudando. Tive um programa aos domingos três horas da tarde. Posteriormente vim para São Paulo e trouxe a minha família para São Paulo. Depois fui para o Rio de Janeiro. Falei para minha mãe que ia tentar no Rio de Janeiro. Mas não consegui nada. O ambiente artístico é muito pesado, onde os artistas são muito famosos, então a gente não consegue entrar nesse meio, porque é um meio fechado. Aí eu voltei e chegando aqui fui cantar na Rádio Panamericana, e meu saudoso e querido amigo Mário Lago, quando me escutou falou: Que maravilha! Ele me deu um prêmio que era uma fotografia. Depois, mesmo aqui, eu já era guarda civil, Alberto de Souza Calçada, que era diretor musical da Chantecler me ouviu cantar e falou: Que voz que você tem, você precisa ser aproveitado. Falei que era muito pesado porque eu não tinha meio. Ele falou que ia me levar até um diretor, me levou na Chantecler, em São Paulo mesmo e o diretor artístico me mandou cantar e ele falou que dava para me aproveitar. Eu gravei uma música chamada “Santa do Meu Altar”, composição minha e do meu irmão Osvaldo. E começou a vender bem e isso entusiasmou o diretor artístico e ele me disse que ia tentar mais uma vez. Eu tinha vendido quase uma centena de discos, quase cem mil discos. Eu e meu irmão Osvaldo fizemos outra música. Vou contar um segredo. A gente quando é moço, namora as mocinhas e às vezes a gente se apaixona e transforma em poesia. Eu comecei a pensar e fiz “Tango Triste”. Meu irmão viu e foi consertar a música. Melhorou. Quando mostrei para o Palmeira, ele falou: Haroldo, que coisa! Isso é sucesso. Ele perguntou se tinha outra e eu falei que tinha, outra com meu irmão também que era: “Tu Serás”. Vamos gravar isso. E nós gravamos. Me assustou. Quando acabou de gravar o diretor disse: Sucesso, Haroldo. Isso vai ser sucesso no Brasil inteiro. Ele falou que ia soltar o disco logo. Aí eu gravei logo em seguida, no mesmo disco, “Tu Serás”, uma música também muito bonitinha, um mambo. E o Palmeira soltou o disco e falou que ia gravar “Tu Serás” e ia trabalhar essa música, mas “Tango Triste” ia sair primeiro. “Tango Triste” estourou, foi um sucesso. Ele só vendia de 2 mil discos para cima, porque a fábrica não dava conta. Eram tantos discos que a prensa trabalhava para mim dia e noite. Eu fiquei abobado. O Palmeira disse para mim, terminada essa coisa, quando chegou no 1 milhão de discos, deu um disco de ouro. Quando chegou em 1 milhão e meio, deu este. Este é o Prêmio Francisco Alves, que a turma fala Chico Viola. É um disco de ouro com uma estátua, que quer dizer o infinito. Ninguém pode saber o quanto vendeu, só contando posteriormente, porque até hoje vende. Depois disso fizemos o LP “Tango Triste”, eu e meu irmão Astor e meu irmão Osvaldo e gravamos Romeu Tonelo, Osvaldo Varole, grandes compositores. Ninguém pode imaginar, eu não me considero, mas sou uma pessoa fiel para dizer que tenho amigos que são mestres na poesia.

 

Pergunta: 

O motivo dessa paixão do “Tango Triste”? Canta um pedaço para nós conhecermos esse “Tango Triste”.

 

Resposta: 

Diz assim: “E se a gente namora as moças.” Quando a gente é moço, a gente se apaixona. Eu recebi uma cartinha de uma moça que eu namorava e pela minha ausência ela arrumou outro e casou-se. Eu comecei a escrever: “Tango triste, leve ao mundo essa mensagem de amor/ E diz a ela porque eu estou sofrendo e ela é a causa desta minha dor.” A gente começa essa coisa, vamos dizer assim, com o coração chorando. O compositor, para fazer esse tipo de música, o coração tem de chorar, mas o coração não chora com alegria. Tem de chorar com tristeza. No meu caso, como estava dizendo, não vou citar o nome dela porque não é certo, mas essa moça me deu a glória de eu ser conhecido no mundo todo.

 

Pergunta: 

Ela soube disso?

 

Resposta: 

Meu Deus! Ela me deixou e casou com outro. Coitadinha. Depois do sucesso eu fui a casa dela, fiz visitas para ela.

 

Pergunta: 

Contou que essa música era para ela?

 

Resposta: 

Ela sabe. Contei em segredo, perto do fogão. Ela estava fazendo café e eu falei. “Tango triste, leve ao mundo essa mensagem de amor/ E diz a ela porque eu estou sofrendo e ela é a causa desta minha dor/ Tango, tango triste, neste mundo ninguém sofre mais que eu/ A alegria que existia no meu peito, por causa dela, pouco a pouco já morreu/ E você que está ouvindo este tango, que por amar sofre tanto quanto eu/ Relembrando teu amor talvez distante/ Dando a outro o carinho que foi seu/ Meu amigo eu lhe peço, não lamente/ Neste mundo todos sofrem por amar/ Mesmo que ela dê a outro o seu carinho/ Mas o beijo que foi seu, ninguém pode lhe roubar.” Aí eu recebi o disco de ouro.

 

Pergunta: 

Esse prêmio veio com dinheiro também?

 

Resposta: 

Veio. Só que eu, quando era pequeno, tinha vontade de fazer coisas boas. Quando eu vi o que deu, eu chamei o diretor, Dr. Jaime, e disse que gostaria de dividir com as crianças pobres. E dividi. Ele foi o meu procurador, com o comandante da Guarda Civil de São Paulo. Não estou dizendo que eu não ganhei, mas as crianças também ganharam. Aí eu recebi o Prêmio Chico Viola e comecei a viajar pelo Brasil inteiro. E chegando em Barretos, o lugar que a gente morava e ela também... Vou falar uma infantilidade. Nós no interior, a gente namorava as moças e os pais eram meio bravos e a gente se escondia no escurinho do cinema. A gente tinha medo de os pais ficarem bravos, então a gente combinava de guardar lugar e quando apagasse a luz, eu sentava. Toda vez que apagava a luz eu ia lá, namorava ela e sentava naquele lugar. Quando foi um dia eu senti uma coisa meio esquisita. Chegou um rapaz muito bonito e eu vi que ela passou e abaixou a cabeça. Quando foi à noite, no cinema, aconteceu a minha tristeza. Eu fiquei encostado na parede vendo se o pai dela estava por ali, mas quando a luz apagou, eu fui lá sentar e ela disse que o lugar não era para mim. Meu Deus! O outro veio e sentou. Eu pensava que ia morrer. Eu pensava que ela tinha me matado. Eu fiquei choroso. A juventude é um problema. A pessoa se apaixona fácil. Ela saiu com ele, eu fui para São Paulo. Eu cantava na PRJ8, de Barretos. Até o diretor de lá faleceu. Ela casou-se e eu também vim para cá e me casei. Gravei esse sucesso colossal e entre outros lugares, onde fui cantar? Lá também. Até nesse cinema, mas ela não estava. Aí a mãe dela, a dona Maria disse: Eu quero que você vá almoçar na minha casa. Eu disse que não podia, porque tinha outros lugares para visitar, mas fui tomar um café lá. Ela falou: Haroldo, a Rebela chora. Falei o nome da moça. Fulana sofreu por minha causa. Eu falei que não, que também estava casado, que estava feliz. Ela perguntou para onde eu ia? Ia para Brasília, Goiás, Ituverava, Ituiutaba. Ela falou para eu ir a casa dela. Eu tinha um carro meio grande que escondia a gente dentro e eu estava de óculos, a mãe dela me deu o endereço, eu cheguei lá. O amor não morre. Mesmo a gente casando, a gente sofre e vê quem a gente perdeu. Eu olhei o endereço e vi uma senhora dando quirera para uns pintinhos, perto de uns fogões de fazer pão no quintal. Pensei que não podia ser a casa dela. Tinha umas crianças brincando, uma menina e pedi para falar com ela. Eu falei que estava procurando a casa da dona fulana. Ela falou que era mãe dela. Ela perguntou o que eu queria falar com a mãe dela e eu falei queria conversar. Ela foi chamar e a mulher foi conversar comigo. Quando ela chegou, eu estava dentro do carro, de óculos escuros, eu vi que ela chegou e falou: O senhor quer falar comigo? Falei: Quero, se a senhora permitir. Eu perguntei o nome dela. Ela estava tão simples. Eu brinquei com ela. Eu falei: É que essas crianças eram para ser minhas. Ela olhou e falou: Meu Deus, Haroldo, é você! Nós conversamos, abracei tanto ela. Tomei um café com ela e ela falou: Meu filho tem três anos e canta “Tango Triste”. Eu não acreditei. O menino cantou e ela me disse: Você estava bem apaixonado quando fez isso. Eu falei: Muito apaixonado. A moça que me obrigou a fazer isso quase me matou. Quem é a moça? Eu falei: É a senhora. Tomei o café e vim embora, mas eu vi que a gente não devia mais se ver. Não vi a mais e nem sei se está viva ainda. Não posso dizer. Só sei que ela sofreu muito quando falei que fiz a música para ela. Eu falei que ela não devia chorar, porque ela já me judiou muito e eu não queria chorar também. Vim embora e andei viajando pelo Brasil inteiro.

 

Pergunta: 

E como ficou a carreira militar?

 

Resposta: 

O diretor, quando soube que eu tinha gravado e que estava num sucesso danado, me chamou. O secretário de segurança pública chegou na minha casa, porque o policial não tem direito de tomar atitudes sem a ordem do comando e eu tomei essa atitude sem a ordem. Eu vi que chegou em minha casa um graduado numa viatura, e minha mãe disse que tinha policiais que queriam falar comigo. Eu cheguei no comandante e ele falou: Haroldo, você precisa falar com o Secretário de Segurança. Eu falei que sabia que tinha infringido as leis, porque gravei sem ordem. Ele falou: Não pensa nisso. É que a senhora do Secretário de Segurança quer te conhecer. Ela acha que você é ótimo. Eles me levaram até o Secretário, ele me apresentou a esposa, ela me deu um buquê de flores para eu levar para a minha mulher. Ele falou que eu não ia mais trabalhar, que eu ia fazer o serviço de relações públicas da Guarda Civil. Eu passei a viajar com os meus discos. Eu só trabalhava de farda de gala. Nos discos que eu gravava saía: ”Voe bem, voe Vasp”. Todo lado eu viajava, então não pagava passagem para nada. Eu fui uma pessoa feliz. Conheci uma dama que eu nunca imaginava. Quando o comandante falou que eu tinha de me apresentar ao Secretário, eu me assustei. Eu pensei que ia preso. E não era nada disso. Eu conheci uma dama maravilhosa que presenteou minha finada esposa com flores. Ali eu continuei até não poder mais viajar.

 

Pergunta: 

O senhor recebia o soldo da polícia e o dinheiro pelos discos?

 

Resposta: 

Também. Tudo. Só que sempre soube dividir com os menos favorecidos da vida. Minha carreira não foi longa. Em 1959 eu gravei e aí minha esposa, estava trabalhando para a Guarda, no Paraguai, e minha esposa ficou muito doente. Quando era moça, meu sogro tinha um sítio e um bichinho danado a mordeu e ela passou.. (Emocionado) Aí eu vim para São Paulo porque meu filho me telefonou falando que minha esposa não estava bem. Vim para cá e ela chorava para eu não deixá-la sozinha. Nunca mais deixei. Fui à gravadora, ainda fiz mais um LP. Tenho onze, se não me engano. Nem lembro quantos eu gravei. Acho que foram 150 músicas. Aí minha esposa ficou adoentada, cada vez pior, e nunca mais saí de perto dela, até que Deus achou que devia ser saudoso e levou minha companheira. Mas sei que ela está com Deus e eu estou com ela, de coração.

 

Pergunta: 

Quantos discos do senhor tocaram nas rádios da região?

 

Resposta: 

Na Rádio Clube de Santo André eu tinha um programa. Até o Osvaldo Varole me ajudava. Eu tinha um programa de auditório todos os sábados e comecei cantando aqui e depois cantei em todas as televisões, do Brasil inteiro e em outros países.

 

Pergunta: 

O senhor morava no ABC?

 

Resposta:
Na casa onde moro.

 

Pergunta: 

O senhor cantou em todas as rádios?

 

Resposta: 

Não só em Santo André, mas cantava no Rio de Janeiro, no Canal 6 com o Chacrinha. Aos sábados eu pegava um avião aqui e ia para o Chacrinha. Nós trabalhamos no Rio de Janeiro, na Rádio Nacional do Rio. Nesse tempo trabalhei lá com o finado Toli, querido amigo, que hoje também pertence ao mundo maior. Eu estava no avião e quando olhei de lado, porque eu fazia o Canal 6 aos sábados com o Chacrinha, eu vi uma querida amiga que estava dentro do avião. Ela deu um sorriso para mim, eu fui até lá e disse: Que alegria vê-la. Era Leila Silva, grande cantora, grande amiga, uma pessoa que me alegra o coração só em pensar nela. Eu perguntei se ela estava bem e ela disse que gostaria de gravar alguma coisa minha. Nesse tempo eu estava em sucesso com “Tango Triste”. Eu falei que ela ia gravar. Cheguei no Rio de Janeiro e nós estávamos no mesmo hotel. Eu telefonei para a gravadora dela e ela disse que tinha vontade de gravar “Tango Triste”. Eu falei: Não seja por isso, eu vou autorizar. Eu telefonei ao Dr. Jairo Rodrigues, querido amigo, diretor superintendente da gravadora e falei que eu gostaria que ele permitisse que a Leila gravasse “Tango Triste”. Haroldo, que beleza!, ele disse. Ela gravou “Tango Triste” também. E naquele dia nós passamos cantando, porque ela estava fazendo também um programa na Nacional, mas ela fez em um horário e eu fiz em outro. Ela voltou e em seguida gravou “Tango Triste”. Nessa altura eu já não estava mais na Chantecler, eu estava na Continental. Ela gravou na Chantecler o “Tango Triste”. Nessa altura também, logo após, o Diogo Moleira, nosso querido diretor, um homem fabuloso, e Alberto de Souza Calçada, disseram: Você faz cada música tão boa, faça uma música para a Leila Silva. Eles falaram que ela vinha para a gravadora. Chegando aqui eu me encontrei com o Grande Romeu Tonelo e falei: Romeu, passou-se isso e isso. Eu e Romeu Tonelo fizemos “Juca do Brás”. Esse samba fabuloso com que a Leila vendeu mais de um milhão e meio de discos.

 

Pergunta: 

O senhor pode cantar um pedacinho?

 

Resposta: 

“Fizeram mal feito, bem feito, O Juca do Brás/ Perderam o seu amor/ O Juca caiu na arapuca/ Desapareceu chorando de dor/ Fizeram mal feito, bem feito, O Juca do Brás? Voltou de maloca e agora/ Depois de dois anos/ Se escuta falar no Juca da Mooca/ Será, será, o Juca do Brás e o Juca da Mooca o mesmo rapaz/ Se não for o mesmo/ Tem Juca demais.” A Leila gravou. Quando eu mostrei isso, falei: Romeu, esse negócio é muito bom. Nós fizemos em dois dias esse samba. Só que nós temos de fazer dois sambas. Aí nós fizemos outro: “Joguei fora o bilhete, não li/ O que estava escrito, não sei/ Só Deus sabe o quanto sofri/ Para dizer a verdade, chorei/ Joguei fora o bilhete, joguei/ E com ele a saudade, também/ Para viver sem você do meu lado/ Eu prefiro viver sem ninguém.” A Leila gravou. Eu cheguei na gravadora e falei: Moleira, escuta isso. Mostrei as duas músicas e ele falou: Beleza, Haroldo. A Leila vai gravar. Ele me mandou lá para Santos, porque ela morava em Santos. Chamou Alberto Calçada, mandou pegar o carro da empresa e fomos mostrar para a Leila. Na segunda-feira fizemos a orquestração e na quinta-feira a Leila gravou “Joguei Fora o Bilhete” e “Juca do Brás”, músicas de Romeu Tonelo e Haroldo José. Meu Deus do céu!. Quando o Palmeira escutou a gravação, falou que ia estourar. Em quinze dias era sucesso no Brasil inteiro a Leila Silva. E ela, posteriormente, também recebeu o Chico Viola, já com “Juca do Brás”. A Leila cantou muito aqui, se apresentou no Carlos Gomes. Só que ela mora em Santos, mas vinha muito aqui porque a Leila corre o mundo. Eu fiquei parado, mas ela rodou. Nós somos felizes porque temos amigos como Romeu Tonelo, Osvaldo Varole, como os meus finados irmãos Osvaldo de Souza e Astor de Souza. Osvaldo Varole, meu querido amigo. São artistas que nasceram na humildade, que nem eles sabem o valor que eles têm. Mas a gente que está mais enfronhado nas coisas sabe que eles são gigantes da música. Eu sei. Mas nunca deixaram que a música subisse à cabeça deles, como também nunca subiu à minha cabeça.

 

Pergunta: 

Tinha alguma diferença das rádios do ABC com as rádios da capital?

 

Resposta: 

Tinha muita diferença.

 

Pergunta: 

Estrutural também?

 

Resposta: 

Na qualidade artística. Aqui nós tínhamos um auditório, humilde, mas bem estruturado. Mas as emissoras de São Paulo têm mais potência. Qualquer emissora, como a Bandeirantes, cantei lá também, Record, Tupi, Panamericana. Por falar em Panamericana não poderia deixar de falar que fui muito incentivado por Mário Lago, um grande compositor, grande professor, grande maestro, que até hoje tenho na minha casa, ele falou que queria tirar um retrato lindo meu. Coitadinho. Ele tirou o retrato e está na minha casa. Tenho o como razão da minha vontade de ser útil, porque ele me foi muito útil. A diferença que existe nas emissoras é a potência das emissoras. Essas emissoras de São Paulo atingem o mundo todo. Quando passei a cantar nas emissoras de São Paulo, fui convidado para cantar no mundo árabe, coisa que nunca cantei. Até lá fui convidado a cantar através dessas emissoras grandes como Bandeirantes, Record, Tupi, Difusora, que hoje não existe mais, Panamericana. Todas elas são emissoras com grande potência. Aqui a potência maior é a amizade. Quando a gente chega, eles tocam a música da gente. Mas isso não quer dizer que seja uma emissora miúda e fraca. As emissoras, a ABC, alcança até o estado do Rio.

 

Pergunta: 

O que o senhor acha que faltava naquela época?

 

Resposta: 

Faltava uma televisão. Eu comecei a cantar em São Paulo na Record e Bandeirantes, que alcança o Brasil inteiro. Cantei no Brasil inteiro. Cantei no Rio de Janeiro, nas televisões de lá, na Bahia, no Ceará, Sergipe. Em todos esses lugares já existia televisão. Então, para a gente cantar nessas televisões precisava ter um grande sucesso e esperar a oportunidade. Coisa que se nós tivéssemos aqui uma televisão, os artistas daqui se apresentariam toda semana, coisas que lá a gente não tinha essa chance. Eu tive chance na televisão quando comecei a cantar na TV Record, Bandeirantes e na Tupi.

 

Pergunta: 

Em quais programas o senhor cantava?

 

Resposta: 

Em todos os programas. Astros do Disco, por exemplo, na Record, no Canal 6 do Rio de Janeiro, no Programa do Chacrinha e outros canais que seriam fora daqui e não me lembro, porque a gente cantava e já saía para ir para outro lado, Bahia, Sergipe, Alagoas, Piauí. A gente cantava e já pegava o avião e ia para outro lado. A gente não lembra. Eu lembro do Canal 6 do Rio de Janeiro, da Rádio Nacional, onde deixei grandes amigos. O que faltou naquela ocasião, a potencialidade financeira das indústrias é imensa, intelectual também, mas ainda falta uma emissora de televisão.

 

Pergunta: 

O senhor acha que faltou um pouco de apoio para divulgar esses artistas?

 

Resposta: 

Não. Eu fui tão ajudado que só Deus sabe. Eles me telefonavam. Quando a minha esposa já estava doente, eles me mandavam buscar em casa e me traziam logo de volta. São pessoas afáveis, carinhosas. Santo André, o ABCD é o lugar de pessoas que nasceram para crescer no mundo do amor.

 

Pergunta: 

E como era? Vocês andando nas ruas da cidade, como era a receptividade das pessoas? O público conhecia vocês por causa do rádio?

 

Resposta: 

Depois a minha esposa já não andava mais comigo. Eu me lembro uma ocasião em que fomos ao apartamento de um amigo nosso em São Paulo, na Praça da República e eu estava com a minha esposa. Para chegar da Praça da República até o Parque D. Pedro eu levei duas horas e meia. Ela disse que não andava mais comigo, que não dava para andar, porque a gente passa a não ser mais dono de si próprio. A gente não tem decisão própria. Na hora que a gente sai, não sabe a que horas volta.

 

Pergunta: 

Isso aqui no ABC era a mesma coisa?

 

Resposta: 

A mesma coisa. Até hoje tenho amigos que me prezam, que me querem bem, que vão me procurar, batem papo comigo. Amigos que tocam meus discos de uma maneira que me deixa muita saudade. Agora, fora de São Paulo já era diferente, porque não era conhecido na rua. Mas quando passei a ser conhecido, passava apertado.

 

Pergunta: 

Isso por causa da televisão?

 

Resposta: 

Sim.

 

Pergunta: 

Por que aqui no ABC as pessoas conheciam o senhor? O senhor era famoso por causa do rádio?

 

Resposta: 

Do rádio. Eu tinha um programa de auditório todos os sábados, duas horas e meia, na Rádio Clube. Até o Varole e Romeu Tonelo me ajudavam, e outros mais. Aqui a gente era conhecidíssimos, mas pelos programas de auditório. Já em São Paulo era pela televisão, porque a gente saía de um programa e ia para outro. Aqui eu fiz programas de todas as televisões, Tupi, Record, Bandeirantes. Era um convite atrás do outro. No Rio de Janeiro a gente fazia só aos sábados. Eu fazia o Canal 6, Chacrinha e a Rádio Nacional, aos sábados. Depois que a gente ficou conhecido por eles também, já passamos a ser bem-vistos e seguidos pelas pessoas, pelo menos nos olhares.

 

Pergunta: 

As propagandas. O senhor era conhecido como quem mais fez propagandas.

 

Resposta: 

Sim. Nesse tempo eu cantava com o nome de Haroldo Júnior. Eu passei a ser patrocinado pela Churrascaria Panamericana e pelo Sabão Tangará. Então, meu programa era cheio de presentes, de brindes. Eu tinha grandes publicidades. Como um cantor humilde, eu era bem ajudado pela publicidade. Foi muito tempo, por três ou quatro anos, eu fazia programa de auditório. Cantava uma música, a pessoa respondia uma pergunta e quando era no fim do mês a pessoa ganhava utensílios, uma cozinha completa, uma sala completa. Eu fui muito ajudado nesse ponto de vista.

 

Pergunta: 

O senhor era patrocinado?

 

Resposta: 

Sim. Sabão Tangará, Churrascaria Panamericana e por outros que não me lembro.

 

Pergunta: 

E as rádios pagavam cachê?

 

Resposta: 

Sim. Eu ganhava comissão no programa, comissão da publicidade e um ordenado, não muito grande, pela emissora.

 

Pergunta: 

O senhor era contratado da emissora?

 

Resposta: 

Exatamente.

 

Pergunta:
Mas se o senhor fosse contratado da Rádio ABC, o senhor poderia cantar na Rádio Cacique?

 

Resposta: 

Podia porque eles são aliados. Eu cantava em São Caetano, na Cacique, em São Bernardo. Eles sempre foram, é incrível falar, mas todos eles tinham vontade de me ajudar. Não existem palavras para a vontade que eles tinham comigo.

 

Pergunta: 

Aqui no ABC, qual rádio foi mais forte? O senhor falou muito da Rádio Clube. Ela foi a mais forte?

 

Resposta: 

No meu tempo foi, porque ela tinha um auditório grande. No auditório, eu tinha uma base de 600 a 800 pessoas todos os sábados. A Rádio ABC tinha um auditório para umas 300 pessoas. Mas eu fazia o meu programa, cantando no meu programa, e fazia o dos amigos, na Rádio ABC. Tudo de auditório.

 

Pergunta: 

Música sertaneja fazia sucesso também?

 

Resposta: 

Muito sucesso. Fazia e faz. Eu tenho uma música, até na semana passada falaram meu nome, que se chama “O Céu Chorou por Mim”. Em 43 anos, já venderam mais de 5 milhões de discos.

 

Pergunta: 

Canta um trecho dela.

 

Resposta: 

Eu a gravei com o nome de “Vestido Molhado”, que era de uma moça que se casou e deixou o namorado na mão. “A igreja estava toda enfeitada/ Muita gente na calçada/ Eu também estava lá/ Só Deus sabe a tristeza que eu sentia/ Pois casava neste dia/ Quem jurou sempre me amar/ Aconteceu o que eu nunca esperava/ Uma chuva começava/ E na festa pôs um fim/ Ela foi embora num carro enfeitado/ E seu vestido molhado foi para o céu e chorou por mim.” Até hoje essa música, depois eu dei para o Muraci gravar. Até na semana passada eles falaram na televisão, na Inezita Barroso, que é uma música que está 43 anos com ele, que é o maior sucesso que ele fez no Brasil. E tem também uma outra, que vendeu muito. Um dia eu estava trabalhando na Rua Direita, era Guarda Civil, e quando meu pai tinha um sítio, eu namorava uma menina, era garoto, e meu pai tinha um empregado, um meeiro, e lá tinha uma garotinha que eu gostava muito dela e ela de mim. Quando vi, apareceu uma senhora na delegacia e perguntou se eu trabalhava lá. Falaram que sim, mas que eu quase não parava lá. Quando eu vi, apareceu uma senhora. Eu olhei, ela perguntou meu nome e ela disse que eu nunca lembrei dela. Eu não sabia com quem estava falando. Ela me explicou que era aquela menina do sítio. Nós brincávamos, a música serve para tudo, e nós brincávamos de marido e mulher. Ela perguntou se eu não tinha feito música para ela. Falei que não. Ela pediu para eu fazer uma música para ela. Eu fiz uma música para ela chamada “Boneca de Milho”. Olha como a gente pode fazer as coisas. “Quando era pequenino tinha uma linda amiguinha/ Brincávamos de esconder e pulava amarelinha/ Eu sempre dizia para ela: nós vamos brincar do que você quiser/ E ela dizia: só de mentirinha, nós vamos brincar de marido e mulher/ Pegava um pedaço de pano, fazia boneca de espiga de milho/ Dizia para mim, você vai para a roça/ Eu cuido da casa e do nosso filho/ Um dia a menina foi embora, o tempo passou e eu sentia saudades/ Não a queria só de mentirinha, queria com ela casar de verdade/ Fui procurar essa linda menina, fiquei encantado com tanta beleza...” (Não lembra a letra) Não recordo totalmente a letra. Eu fui o pai da boneca de milho e o outro era o pai de verdade. Música serve para tudo isso.

 

Pergunta: 

Tem uma música que o senhor gravou do Sr. Tonelo, que é “Banco da Capela”. Queria pedir para o senhor cantar um trecho.

 

Resposta: 

Não lembro direito. É tanta música na cabeça. Eu gravei 150 músicas. Não lembro. Foi um grande sucesso, mas dessa vez não posso fazer sua vontade porque não me lembro. Outras músicas de Varole e Romeu Tonelo, que foram não sucessos maiores, mas foram sucessos de deixar saudades.

 

Pergunta: 

Os compositores tinham sucesso também como os cantores.?

 

Resposta: 

Tinham, mas não como os cantores. Por exemplo, eu gravei músicas de pessoas que eu nunca vi. Gravei músicas minhas e de outros, como estrangeiros, em língua espanhola, que gravei fora daqui. A gente recebe músicas de compositores através de indicação da gravadora. Não é bem..., são compositores de língua espanhola.

 

Pergunta: 

Está terminando a nossa entrevista. Queria que o senhor deixasse alguma declaração, alguma coisa que o senhor quisesse falar ou cantar.

 

Resposta: 

Quero só falar. Quero dizer a vocês que vocês fazem parte da minha família hoje em dia e estou muito contente e muito feliz em poder estar aqui. E que é muito difícil termos uma oportunidade de dizer para vocês, de todo coração, que vocês são pessoas amadas. Se todas as faculdades e colégios fizessem esse tipo de programa, para que nós pudéssemos falar das coisas belas do Brasil, não de mim, mas de Romeu Tonelo, Osvaldo Varole, Osvaldo de Souza, Astor de Souza, Diogo Moleiro, Palmeira, Alberto de Souza Calçada, Chacrinha, meu querido amigo, e tantos outros a quem eu devo o pouco que pude ser na música... Quero dizer para vocês muito obrigado, que Deus os abençoe e os ajude e contem comigo naquilo em que eu possa ser útil. Muito obrigado.



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