X

Digite o termo que deseja pesquisar e selecione a categoria

  • TEMAS
  • PROJETOS
  • DEPOENTES

HiperMemo - Acervo Multimídia de Memórias do ABC da Universidade IMES

DEPOENTE

Heleni Barreiro Fernandes de Paiva Lino

  • Nome: Heleni Barreiro Fernandes de Paiva Lino
  • Gênero: Feminino
  • Data de Nascimento: 24/05/1948
  • Nacionalidade: 23
  • Naturalidade: São Caetano do Sul (SP)
  • Profissão: Advogada

Biografia

Heleni Barreiro Fernandes de Paiva Lino nasceu em São Caetano do Sul às vesperas da emancipação do município, enquanto ese ainda fazia parte de Santo André. Com a autonomia, seu registro de nascimento ficou em São Caetano, mas sua família era de Santo André e ali passou toda sua vida. Estudou nas escolas Externato Padre Capra e Dr. Américo Brasiliense. Cursou o magistério e direito, optando por ser advogada. Cumpriu 4 mandatos de vereança em Santo André.  





Transcrição do depoimento de Heleni Barreiro Fernandes em 30/06/2003

IMES – Centro Universitário Municipal de São Caetano do Sul

Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa



Projeto Memórias do ABC



Depoimento de Heleni Barreiro Fernandes de Paiva Lino, 55 anos.

IMES – Centro Universitário de São Caetano do Sul, 30 de julho de 2003.

Entrevistadores: Priscila F. Perazzo e Eleonora Chagas Mendes



Pergunta:

Heleni, comecemos com você falando a data e local de nascimento, e a respeito de sua infância na cidade.


Resposta:

Eu nasci em 24 de maio de 1948, pretensamente em São Caetano do Sul. Eu não entendo muito bem até hoje essa história, mas em maio São Caetano ainda pertencia a Santo André e nós não entendemos por que meu registro saiu São Caetano, apesar de ter nascido aqui na Vila Matarazzo, porque meu pai veio aqui fazer uns trabalhos para os Matarazzo de auditoria e na época eles cediam casas e eu acabei nascendo na Vila Matarazzo. São Caetano emancipou-se de Santo André em Julho de 1948, então eu considero que sou andreense, apesar de amar São Caetano. Eu tive uma infância muito boa, criada no centro de Santo André, quando o centro não tinha essa velocidade toda, esse adensamento populacional. Estudei no Coração de Jesus, que na época nem tinha esse nome, chamava-se Escola Padre Luís Capra, em homenagem ao Padre, depois ficou Coração de Jesus, hoje tem até outro nome a nossa escola, escola de freiras. Eu morava uma rua antes da escola, porque era uma exigência do meu pai que nós morássemos perto da escola. A escola era mista, antigamente, meu irmão chegou a estudar lá; depois, talvez por uma divisão de valores da própria igreja católica, a escola se tornou só de mulheres e há quinze anos ela retornou como escola mista. Uma escola extremamente rigorosa, eu digo que ela contribuiu para algumas mulheres se tornarem mais submissas do que eram e algumas se tornaram mais rebeldes do que eram, e me encaixo nessa segunda posição. Eu vou falar do uniforme que era uma coisa assim que quase matava a gente, que era uma saia de lã toda pregueada, presa por botões na cintura, de mangas compridas, de fustão a blusa, gola fechada, gravata e boina. Nós parecíamos umas palhaças porque na verdade existia muita coisa de usar fita naquele tempo, então nós tínhamos aqueles armários de fitas de todas as formas possíveis, então tinham as fitas de organdi, minha mãe penteava nosso cabelo e punha aquela fita imensa, depois com boinas, pareciam aquelas pessoas que sofrem de transtorno mental. Na verdade, nós ficávamos com essa cara, a saia era medida, a barra era feita de um palmo para cima do chão, não se permitiam saias curtas tanto que elas eram presas por botões na cintura para que a gente não levantasse o comprimento da saia, toda pregada, e ainda usava uma meia até o joelho, muito grossa, cor de pele, porque não podia aparecer a não ser o rosto e as mãos, não nos permitiam mostrar qualquer outra parte do corpo dentro da escola. Na escola nós tínhamos aulas, as aulas normais, mas a ênfase era dada para o bordado, para a culinária. Nós aprendemos tudo isso, a minha geração, dentro do Padre Luís Capra, aprendeu a cuidar de uma casa. Nós éramos treinadas para cuidar de uma casa e, minimamente, quando fosse receber, depois de casada, um jantar, saber ler e escrever obviamente e poder interagir em algum assunto que fosse interessante. Eu, como vim de um lar muito diferenciado, eu sei bordar até hoje, com alfajor, todos os nossos lenços eram feitos por nós, todas as beiradas eram feitas em alfajor e nós fazíamos até lencinhos de nariz e nós bordávamos; era matéria de aula e valia nota, quem dava esta aula era a Irmã Sara, uma freira lindíssima, mas muito severa. Mais tarde, depois que esse grupo voltou a se reunir, essas mulheres já com quarenta anos, nós achávamos que a Irmã Sara era uma mulher frustradíssima porque ela era muito bonita para usar aquele hábito também todo fechado. As irmãs não eram como as de hoje, elas usavam roupas pesadíssimas com aquelas tarjas engomadas, aquela outra, como a noviça rebelde usava. Nós não éramos chamadas por nome, e sim por sobrenome, então eu era Barreiro, minha irmã era Barreiro também, tinha as Cassetárias, e tinha um ponto interessante na nossa escola. As duas negras que eu me lembro na escola eram duas meninas que foram adotadas pelas freiras, estudavam conosco, na sala regular, só que elas não falavam em aula sequer para responder às perguntas de matéria curricular e nos intervalos elas varriam o pátio. Era uma escola extremamente racista, tanto que eu fiz um compromisso comigo mesma que os meus filhos jamais estudariam naquele tipo de escola e, por retorno da vida, os dois estudaram naquela escola, que já modernizou, e saíram só para a faculdade. Nós tínhamos uma infância ótima em Santo André, porque era uma coisa interessante, não existia dentro da escola, porque as freiras privilegiavam as meninas mais ricas obviamente... Só fazendo um parêntese, nós éramos educadas para o casamento, nós não éramos educadas para termos uma vida. O máximo que nós poderíamos atingir seria fazer a escola normal e obviamente ir para uma profissão muito feminina que seria de professora. Fora isso, não se cogitava nenhum tipo de que a mulher avançasse mais do que isso. Inclusive era dito isso para nós. Não tenho assim lembranças de grandes cabeças que saíram desse tempo, não tenho lembranças. Convivendo após com esse grupo, a grande maioria se tornou mulheres donas de casa, todas se casaram também com nomes ilustres da cidade. Vendo que o casamento na época era estritamente financeiro, os acordos financeiros como os japoneses faziam, você já escolhia, os pais já escolhiam com qual família iria se casar. A grande maioria dessas mulheres frustradíssima, depois eu emendo a outra história. Mas em Santo André, nós brincávamos na rua, em especial na Vila Gabrile, que é uma vila maravilhosa que vocês precisariam conhecer, tem muito da história de cidade. Nós montávamos nossa casinha na rua e ficava a semana, dia e noite, e nós só a tirávamos de domingo de manhã à nove horas da manhã, porque o Ângelo Gabrile, que era o dono da Vila, tirava o carro dele uma vez por semana para levar a mãe ao cemitério da Vila Assunção. Então no sábado, nós começávamos a desmontar. Isso estou falando da Rua Cesário Motta que hoje é intransitável na cidade. Então, nós desmontávamos nossas casinhas para o Ângelo poder passar com o automóvel. Ele andava a dez por hora, aqueles Chevrolet grandes, e ele já vinha buzinando desde lá de baixo para a criançada sair da rua. Tinha uma integração fantástica, os portões e as casas eram abertos, você não tinha nada trancado, então você entrava numa casa ou na outra, como se fosse sua casa; por exemplo, se a Dona Fiameta, mãe de dois netos famosos aqui na cidade, os Giustis, o Ronaldo e o Eduardo, se a dona Fiameta fizesse um bolo, para nós era muito normal sair da nossa casa e entrar na casa dela e tomar lanche lá como os meninos faziam; e eu, como sou filha de nordestino, meu pai era baiano, de domingo eles iam comer na minha casa porque minha mãe fazia feijoada e o meu pai tinha assim muita paciência, uma coisa bem de baiano mesmo, de desfiar todas as carnes, colocar o feijão, colocar a farinha e fazia disso bolinhas, como se fossem brigadeiros, e aí vinha toda a meninada da rua comer essas bolinhas de feijoada, que eram feitas aos sábados na minha casa. Tínhamos uma solidariedade, uma amizade, uma preocupação que era fantástica. Quando nós começamos a ficar mocinhas, tivemos a doença do meu pai, que acabou falecendo e todos os vizinhos participaram da doença, e todos vinham ver como nós estávamos, se precisávamos de alguma coisa e a minha mãe ficou dois anos no hospital com meu pai de sexta-feira, tinha feira na Casa Branca, onde os vizinhos faziam a feira e equipavam. E nunca se perguntou o quanto gastou ou deixou de gastar. O natal nós passávamos na casa dos vizinhos, e quando nós fomos ficando mais moças, nos íamos aos bailes, até por uma condição financeira, porque foi muito o custo com essa doença e morte de meu pai, as vizinhas nos preparavam roupas e emprestavam jóias caríssimas. Nós íamos aos bailes no Moinho com jóias que hoje eu posso lhes dizer que valiam uns quinhentos mil reais. Nós íamos e voltávamos a pé, tudo com roupas das vizinhas que cuidavam da gente, e tinha esse trato. Com a obrigação, obviamente, no chá de nós contarmos com quem nos havíamos dançado. Então, se vivia uma vida coletiva. Isso é fantástico que eu reputo que hoje essa perda da solidariedade é que gera a insegurança pública. Mas nós tínhamos lá já o Primeiro de Maio, que era o nosso clube, o pessoal do centro todinho freqüentava o Primeiro de Maio. Tínhamos lá no Paço uma chácara, em que nós, quando criança, o colégio Coração de Jesus nos levava a fazer, eles davam aula lá, então nós fazíamos piquenique. Nós arrumávamos as cestas, a gente levava para a escola e fazíamos. Obviamente com aquela saias enormes, meias e boinas, manga até aqui, e não podia se sujar porque nós tínhamos que voltar para casa limpos. Como morava muito na proximidade da escola, eu era companhia das freiras para ir para São Paulo. Uma vez por mês elas iam ao noviciado principal e elas não podiam sair sozinhas, porque se não elas ficavam mal faladas, também se elas fossem tomar o trem. Eu era acompanhante das freiras e eu ia junto e elas ficavam em conversas intermináveis com as outras freiras e eu ficava aguardando para as freiras não ficarem faladas e sair sem uma aluna da escola. Isso era um motivo de orgulho muito grande para minha mãe e não entendo ate hoje o porquê de eu ser essa acompanhante das freiras. Daí o meu uniforme era milhões de vezes mais bem tratado porque quem cuidava dos nossos uniformes em casa, meu e da minha irmã, era meu pai. Toda manhã ele levantava às quatro horas da manhã para passar as pregas da saia para elas ficarem impecáveis porque nós íamos com o uniforme assim superimpecável, com sapatos engraxados, porque tudo isso era visto como uma disciplina da escola. Eu tive um problema, eu fui expulsa do Coração de Jesus por um fator, depois me levaram de volta, minha filha mais tarde foi expulsa do Coração de Jesus e depois foi chamada de volta também, porque havia uma atividade, mesmo de sábado e domingo, nos tínhamos compromisso também de domingo ir a Igreja. Isso era contado. As freiras estavam lá vendo quem estava assistindo a missa e aos sábados nos fazíamos flores de crepom para a capela. Então, você vivia a escola inquestionavelmente. A nossa postura fora da escola era vigiada e se chegasse alguma reclamação da sua postura fora da escola para as freiras, fora do período de aula inclusive, isso era motivo de um grande escândalo na cidade, por assim dizer, porque nós estaríamos comprometendo o nome da escola. Vejam o rigor com que a minha geração foi criada, essa geração de mulheres de famílias tradicionais aqui da cidade foi criada. Todo sábado nos fazíamos florzinha de crepom para enfeitar a capela da igreja. As irmãs eram terríveis, elas eram, na verdade, insuportáveis. Nós tínhamos a Irmã Carolina, que era a administradora financeira da escola, a irmã Carolina tinha uma lanchonete, uma pequena lanchonete. Imagine isso! A gente levava lanche de casa, se você ficasse devendo na época um centavo por algum chocolate... Na verdade, os lanches e os doces eram feitos dentro da escola, não existia produto industrializado. Na hora do recreio, nós tomávamos laranjadas feitas dentro da escola. O máximo que existia era um guaraná pequenininho chamado Caçulinha, e meu pai era o grande fornecedor da escola porque ele trabalhava na Antarctica, então fornecia para a escola, bem como as cadeiras e mesas para as nossas atividades, quando tinha evento. Se você ficasse devendo um centavo, isso era cobrado na sua casa, do seu pai e da sua mãe. Então a escola dominava todo centro de Santo André, em especial as mulheres; uma escola muito machista, que não incentivava as mulheres a terem cabeça própria. Na verdade foi uma bela infância, porque Santo André não tinha problema de assalto, você tinha três motoristas de táxis apenas e quando você precisava se locomover, era só chamar o Seu Cuba, que era um negro forte, altíssimo, ele tinha um Chevrolet imenso, de bancos vermelhos, então o Seu Cuba me levava, fumava charuto que nunca acendia, e ele nos levava aos lugares. Eu morava perto, na época; na verdade eu morei dezoito anos na Cesário Mota, nós morávamos nas proximidades do Cine Carlos Gomes; como meu pai amava cinema, nós chegávamos a assistir um filme quase trinta vezes. Meu pai tinha paixão por cinema. Quando eu tinha doze anos fui chamada para integrar a Juventude Estudantil Católica que já era inicio da dissidência da Igreja Católica, de ir contra, era o inicio da Igreja Progressista. E eu tive um raríssimo prazer de ver essa transformação de como a Igreja Católica começou a formar os seus jovens para discutir o destino do país, de uma forma muito escamoteada do Padre Eurosin, só que freira naquela época não metia a cara com padre porque eles tinham poderes absolutos, o que eles falavam era; diferentemente de hoje, que a freira é muito mais participante porque ela é civil, assim ela faz parte, ela mora na comunidade. E o padre Eurosin começou a chamar a juventude para montar as Páscoas, então nós montávamos páscoas chamando a periferia, coisa que não podia ocorrer na minha escola. A própria comunidade se congregava e fazia aqueles bolos de páscoa imensos e as nossas reuniões, por incrível que apareça, foram feitas na casa da tia do Celso Daniel, do nosso prefeito Celso Daniel. Essa casa existe ainda, é tombada, uma casa em estilo Luís XVI, lindíssima com arabescos de ouro, móveis folheados a ouro, e ela emprestava, como muito católica que era, porque nós éramos da Igreja Nossa Senhora do Carmo; ela emprestava os porões da casa para que nós pudéssemos fazer as reuniões. Padre Eurosimbo começou a discutir conosco o nosso papel dentro da sociedade. Ele era considerado subversivo, na época da ditadura militar ele foi exilado do país; na verdade esse padre foi extremamente importante para um grupo de pessoas da minha geração entender o que aconteceu depois. Então esse grupo pequeno que formava a páscoa era todo voltado para a religião fora, mas as nossas reuniões nos porões da casa da tia do Celso eram discussões já de abrir a cabeça do nosso papel dentro da sociedade. Eu fui expulsa da escola, por quê? Quando vinha a freira, a madre, a madre diretora da congregação, a escola ficava todinha perfilada, como um exército, para esperar a diretora chegar. Neste dia, vocês imaginam, debaixo de sol, juventude, não podia tomar água, não podia se mexer, aquela roupa pesadíssima, você ficar horas esperando a madre diretora. Fora o que a gente já tinha trabalhado para enfeitar a capela, de cortar arame para fazer as flores e tal, e nesse dia a madre diretora atrasou-se três horas. Nessa visita, nós ficamos três horas no pátio descoberto, com sol, meninas desmaiando, e ficavam desmaiadas, era exército, e a madre diretora chegou, aí todas as vezes que nos cruzávamos nessa visita, ela estendia a mão porque ela tinha um anel, eu não me lembro o nome da pedra, mas era lilás, lilás escuro, e todas nos beijávamos essa pedra. Veja que concepção atrasada. E quando ela chegou a mim eu falei : Não, eu não vou beijar o anel da madre diretora. Eu fui ensinada em casa a não beijar a mão de ninguém, porque meu pai disse que era falta de higiene. E todas as meninas já tinham posto a boca naquilo. Nossa! A Barreiro foi tirada daqui porque aqui... Meu pai foi chamado, foi um escândalo na cidade e eu fui posta para fora, convidada a sair da escola. Aí meu pai pediu transferência. A partir desse momento que a minha filha não fica na escola, por essa atitude que eu ensinei, meu pai me bancou essa atitude, ele tirou todas as benesses que a Antarctica dava para a escola. Na verdade, fui expulsa e retornei em fração de dias. Mas isso ficou meio eternizado na cidade. A primeira mulher a ser expulsa da escola. Graças a Deus porque eu fiz a minha marca de rebelde. E nesse caminhar o padre Eurosimbo... Nós fazíamos muitas discussões, aí eu terminei o ginásio no Coração e fui para a minha libertação. Eu prestei vestibulinho no Américo Brasiliense e entrei. Claro, com a obrigação de cumprir o que minha mãe tinha determinado, que seria fazer normal. Nós não podíamos fazer outra coisa. Nós fazíamos o normal. De manhã o Américo Brasiliense não tinha cientifico, porque era dividido em normal, clássico e cientifico. Então, nós mulheres, diferenciadas, nós já entrávamos também num ambiente diferenciado, porque as meninas que estudavam no normal eram muito respeitadas. As mulheres não faziam científico porque era para ser engenheiro, médico, uma profissão basicamente masculina, e eu quebrei uma segunda regra. Eu fui fazer o clássico, à noite. Estudava de manhã porque minha mãe queria que eu fosse professora e estudava à noite porque eu queria ser advogada. Então, eu tinha quarenta e cinco matérias para estudar por semana. Na época, nós estudávamos grego, latim, todo o tempo do ginásio latim, lembrando que todas as missas eram rezadas em latim, e o padre ficava de costas para o público. O padre dificilmente se voltava para o seu rebanho. E agora vocês imaginam a gente com quatro anos, cinco anos e depois crescendo, ficar ouvindo missas em latim, que a gente não entendia absolutamente nada, mas as freiras estavam em cada ponto da Igreja, não tinha portas laterais, a Igreja só tinha uma entrada perto do altar, a Igreja do Carmo, e ao ponto de elas ficarem vigiando e anotavam; se nós estávamos naquele momento sem uniforme, na segunda-feira elas sabiam quem havia ou não ido. Eu vou fazer uma licencinha, uma coisa que me marcou muito foi a primeira comunhão. Eu falo muito das freiras, mas elas contribuíam muito para que eu não repetisse aqueles erros. A primeira comunhão do Coração de Jesus era um exemplo para a cidade. Eu me recordo que meu vestido foi inteirinho mandado bordar, era um vestido em organdi suíço, que graças a Deus a geração de vocês não tem isso, era um tecido que além de ele cortar, as nossas mães engomavam, então você voltava toda cortada, era uma navalha. Por quê? Porque nós usávamos três, quatro saiotes por baixo e era linda aquela roupa de Maria Antonieta. Eu lembro que minha mãe ficou preocupadíssima com a minha primeira comunhão e meu vestido foi todinho bordado em ponto sombra, porque era uma disputa de quem iria ter o vestido mais bonito. O meu vestido foi todo de organdi suíço com casquete bordado em pérolas. Esse fato me marcou muito porque aceitavam que as meninas que não tinham recursos financeiros também fizessem a primeira comunhão conosco. Claro! Porque elas também eram filhas de Deus e essas meninas iam vestidas de tafetá, sem os saiotes, e elas eram postas no final da fila para não serem vistas. Eu vejo aqui que a questão da distribuição de rendas, da discriminação, já era muito presente na nossa cidade. A cidade tinha as pessoas que mandavam, mas o acentuado realmente acontecia no Padre Luís Capra, uma discriminação absoluta. Isso me marcou profundamente porque algumas com aqueles vestidos lindíssimos, com aquelas coisas luxuosas, e as meninas pobres com os seus vestidinhos de tafetá sem saiotes. Vocês vão depois, viu? Primeiro vão as estrelas que são os carros-chefes das famílias. Mas isso tudo foi se modificando, aí eu consegui minha libertação que foi ir para o Américo Brasiliense, já uma outra postura. Então, eu convivi de manhã com as normalistas e à noite com as cabeças da escola. As pessoas que faziam o clássico eram as cabeças diferentes, porque nós estudávamos, vou repetir, latim, grego, espanhol, o francês e o inglês, nós tínhamos filosofia e sociologia no clássico; no normal, estudávamos psicologia e o nosso professor convivia com a nossa professora de francês, vive até hoje, uma pessoa fantástica, nós estudamos todos os filósofos franceses em francês. Nós tínhamos um preparo realmente fantástico, fantástico, que esta reforma do Ministro Jarbas Passarinho, na verdade, acabou com a educação no país, englobando o colegial numa coisa só. Mas o Américo já era uma coisa maluca, tinha ainda regras, mas a gente não obedecia muito. Você podia quebrar as regras lá. Foi quando eu fiz dezesseis anos que veio a ditadura militar.

Eu queria dizer que eu sou filha e neta de sindicalista fugido do regime do Franco. Meu avô veio para a Bahia fugido para montar o sindicalismo, depois veio aqui para Santa Teresinha, Santo André, para discutir as questões sindicais. Eu cresci numa casa muito politizada da parte do meu pai, extremamente politizada, tanto que meu pai tem uma passagem que nos impressionou. Ele cuidava do contencioso de firmas, por isso ele gravitava, o que hoje seriam as auditorias, e uma vez meu pai, trabalhando na Antarctica, e os funcionários se reuniram e pediram para o meu pai fazer gestões com a Dona Érnia; a presidente da Antarctica era uma mulher, uma alemã, que falava muito pouco o português e meu pai foi criado em um colégio interno alemão, colégio de Padre, e os funcionários vieram reivindicar e ela disse que já ganhavam muito bem e tal, e meu pai ficou muito indignado com aquilo. Existiam normas que eram muito interessantes, você podia andar de pijama na rua, meu pai ia cortar o cabelo de manhã no Seu Pantanese, que era o melhor, e ia de pijama, sábado de manhã. Veja o grau de intimidade e de solidariedade, de prazer, e as pessoas não reparavam nisso. Então o meu pai, na época, tinha uma calça, que se usava em casa, nós não tínhamos esse facilitador de roupas que nós temos hoje, nós tínhamos três, quatro roupas de baile e comprávamos no Mappin, em São Paulo, porque não tinha loja em Santo André e tinha-se roupas de ficar em casa, sapato, chinelo de ficar em casa. Meu pai usava muito Alpargatas rosa, que era o que se usava na época, era chique, era o sapato daquela geração. Então, meu pai deixava a barba crescer, o cabelo crescer, nós temos fotografias até hoje, pôs a roupa de ficar em casa, e eles tinham que trabalhar de terno e gravata, barbeado, e ele ficou seis meses sem trabalhar daquele jeito e ele respondia diretamente para a presidência. Então, com aquela barba imensa, com cabelo até aqui e de Alpargatas rosa ele tomava o trem e ia para as reuniões da direção daquele jeito. E a dona Érnia perguntava o porquê e ele respondia que os funcionários estavam morrendo de fome – e ele conseguiu que os funcionários todos tivessem um aumento salarial. Meu pai tinha umas atitudes muito limitadas. Na época que ele foi preso e ele cumpriu pena na Xavier de Toledo, que era a cadeia, nós morávamos também do lado. Então foi interessante porque as celas ficavam abertas e nós íamos fazer lição lá com ele. Ele trabalhava, ele era diretor da companhia, ele trabalhava e ficava na cadeia, que ficava aberta, nós íamos fazer lição com ele, e ele já estava em casa e nós íamos fazer lição na cadeia junto com ele.


Pergunta:

Qual o motivo de ele ter sido preso?


Resposta:

Foi aquela questão do PC do B. Meu pai era ativista e foi interessante que quando a cavalaria vinha para cima – meus irmãos e minha mãe apagam isso da memória, minha mãe odeia que eu seja do PT, vou deixar declarado aqui, e quando eu me filiei ao PT ela achou que eu ia morrer – meu pai levou uma pancada muito forte na cabeça e meu pai acabou morrendo: desenvolveu um câncer cerebral que depois acabou degenerando e ele morreu em função disso. A minha mãe até hoje conta que foi de uma bolada. Então na cabeça dela ela ainda acha que eu vou morrer por causa do PT, na cabeça dela eu ainda vou morrer porque eu fiz parte do movimento estudantil, como o meu pai. Meu pai não era do movimento estudantil, era do PC do B.


Pergunta:

Que época?


Resposta:

Eu tenho uma dificuldade de lembrar época, mas eu devia ter oito ou nove anos, uma coisa assim, quando começaram os grandes movimentos sindicais e ele nos levava junto. Era cavalaria que vinha aqui na praça, aqui em Santo André. A cavalaria vinha para dispersar e ele botava as rolhas nos bolsos da gente porque se o pegassem, ele ia preso, e a gente, a polícia naquela época, diferente da de hoje, não vistoriava criança, então nós jogávamos rolhas no chão porque o cavalo com a ferradura derrapava, tropeçava na rolha, o policial caía e não agredia. Não tinha arma de fogo na época, eram espadachins sem lâminas, sem corte, mas aquilo pegava e vergava. Então teve essa passagem, que a gente achava muito interessante, de meu pai ficar preso, o delegado na época chamava Dr. Piu, o Dr. Piu era da Polícia de Getúlio e ele foi treinado naquele serviço de inteligência do Getúlio, que agora eu esqueci o nome, até a professora Ana Paula explicou outro dia, mas o Dr. Piu, óbvio, era o nosso vizinho, conhecia a nossa família. Estou contando tudo isso para dizer que não existia essa, a família era muito respeitada, mesmo se ela fosse diferenciada como a nossa. A nossa família era a família diferenciada da rua, mesmo porque eu era a professora da rua, e nós montávamos a escolinha e a criançada e a meninada ia para a escola desde pequeno e depois nos fazíamos lição em conjunto e eu era a professora da rua. Os meninos eram os subordinados, mas hoje são médicos e engenheiros e ganham muito bem. Então existia essa coisa de proteger o outro. O meu pai, mesmo sendo uma pessoa condenada pela justiça, o delegado deixava trabalhar, almoçava e jantava em casa; depois, tinha poucos presos políticos, tinha uns quatro, e meu pai montava times de futebol e meu irmão ia jogar no time juntos com os presos, no pátio, onde hoje é a Xavier de Toledo. E não fugia preso. Uma vez eu me recordo que fugiu um preso e meu pai era uma pessoa muito forte, ele tinha um metro e noventa e dois de altura, e naquela época era a guarda civil, não era Polícia Militar, e o guarda teve a infelicidade de prender o rapaz bem na porta da minha casa e espancou o rapaz. Meu pai bateu no guarda até não querer mais e falou que não se trata uma pessoa que já está detida desse jeito e ele respondeu com a violência. Acabou tendo um agravante, uma coisa assim, mas meu pai, mesmo sendo uma pessoa presa, ele convivia com a família. Os tempos são outros obviamente. Vindo a revolução, nós montamos, dentro do nosso D.A., nosso centro estudantil, nós montamos um foco de resistência contra a revolução. A gente tinha conversas e tanta coisa, e era também no porão do Américo. Lá nós tínhamos um grupo de teatro, como nós tínhamos também no Primeiro de Maio, mas era muito difícil conversar sobre isso porque os nossos amigos começaram a desaparecer. Tem um rapaz da família Bastos, que estava conosco, de um dia para o outro ele sumiu. A família não achou o corpo, talvez ache agora com essa abertura da anistia do governo Lula, talvez se ache o corpo desse rapaz. Nos tínhamos na nossa rua também, eu falo de rua porque eu morei muito tempo na mesma rua, nós tínhamos a Iara que era uma guerrilheira, ela já era mais velha que eu, e era a única mulher, ela era a paixão, que fazia FAAP. Ela era toda diferente para nós, nós adolescentes achávamos ela o máximo, ela era uma jovem, ela gostava, depois ela e o marido foram para a clandestinidade e acho que acabou sendo morta, porque o marido dela pertencia a uma célula muito forte e ela veio ter bebê aqui em Santo André, no Hospital Cristóvão da Gama e o delegado da época, que Deus o tenha muito bem conservado para que esse espírito nunca volte, ele tirou essa moça, ela tinha acabado de ter bebê, ele levou para a Ilha Porchat, com o bebê, e segurou o bebê. Eu não sei como essa criança não morreu, tá viva até hoje, se ela não dissesse onde estava essa célula do marido, ele jogaria a criança nas rochas, e ela entregou e morreram todos, inclusive o marido dela. Eu penso que nós tivemos uma riqueza, nós vimos tudo neste país, nós não nos escondemos. Nós vimos a chegada da pílula, a mudança de hábitos, o aumento da liberdade sexual, nós vimos o Woodstock, que sensibilizou muito, uma pena que a juventude não tenha visto isso. Talvez na época da crise brava é que as pessoas realmente floresçam, porque nós não podíamos ler determinados livros, os livros foram sumindo das bibliotecas. Por exemplo, “Subterrâneos da Liberdade”, de Jorge Amado, que era um livro que nós líamos, sumiu da biblioteca. Toda e qualquer atividade que incitasse o pensar foi sumindo da livraria. Você vem vindo de uma formação boa escolar, de repente você entra numa época em que a Igreja Católica começa a discutir o seu papel, você vai para uma escola, eu estou falando da minha pessoa, da minha geração de pessoas em que ocorreu isso, você começa a discutir o seu papel dentro da sociedade, começa a estudar os filósofos, como nós estudávamos, de repente isso é eliminado da sua vida, de um dia para o outro, por causa de uma mudança de regime. Meu pai já era morto nessa época e me fazia muita falta. A minha família sempre teve medo disso. Meus irmãos, menos o meu irmão mais velho que faleceu, não admitiam discutir isso, a questão política do país; minha mãe então nem pensava; e eu saía politizada de casa.


Pergunta:

Heleni, vamos falar um pouquinho da formação do PT, da sua participação aqui no ABC.


Resposta:

Eu penso que uma coisa é muito junta da outra. O Américo, naquela época, soltou as melhores cabeças da cidade, pode-se dizer da região. Tinha o Benjamim Pelente, que faleceu agora há pouco tempo, três anos atrás, foi um físico nosso que concorreu ao Nobel, é da nossa época, nossa geração.


Pergunta:

Que época foi isso?


Resposta:

Ah! Eu tinha dezesseis anos, na época do Américo eu já fazia o normal e o clássico, eu tinha dezesseis anos nessa época e comecei a fazer parte, não me lembro com que idade. Mas de 1964 para frente. A cidade convulsionou. Na verdade Santo André foi um marco. Eu ouço as pessoas falarem às vezes de outras cidades, de que ela teve essa ebulição, não é verdade! E falo que o embrião do Partido dos Trabalhadores saiu dessas cabeças do Américo Brasiliense. Claro que se aliou ao movimento sindical, mas alguém tinha que pensar essa formação, e sem dúvida saiu dessa geração que eu tive o raríssimo prazer de fazer parte. Na verdade o PT, eu vou falar antes do PT, vem todo esse trabalho, quando iniciaram as greves eu já era casada. Os anos 70 foram anos terríveis para nós, que foi a era Médici. Eu quero falar que eu sou casada com um professor da USP, também cabeça avançadíssima, perseguidíssimo pelo regime. Nós chegamos, logo depois que meu primeiro filho nasceu, meu filho tinha seis meses, nós escondemos um guerrilheiro na nossa casa, o Chizu. Ele estava sendo procurado, porque ele fazia parte do seqüestro de um Cônsul Suíço, e o Chizu fez a parada em casa, ficou conosco porque ele ia embora para a Rússia. Ele ia pegar aqui a Anchieta, e ele ia embora com um navio cargueiro. Chizu ficou conosco, tinha uma cabeça fantástica. A gente se encontra aí e nesse trajeto para Santos o carro capotou e ele foi preso pelo DOPS, pelo delegado Fleury. Fizeram todo o levantamento, alguém do aparelho nos ligou dizendo para sumir com tudo que nós tínhamos em casa, porque o Chizu havia sido preso. Essas conexões eram muito rápidas.


Pergunta:

Como era esse aparelho?


Resposta:

O aparelho era onde as pessoas contra a revolução ficavam, eram apartamentos, casas, em que os clandestinos ficavam. Essas pessoas perderam suas identidades próprias, trocaram suas identidades para poder ficar no país fazendo suas guerrilhas, fazendo o trabalho contra a revolução. E você não podia falar, era uma coisa assim que só quem viveu sabe. Se você tivesse uma reunião de três ou quatro pessoas você sempre imaginava que alguém iria entregar. O DOPS era extremamente infiltrado nas escolas, nas faculdades, sempre tinha alguém do DOPS. E eles fizeram uma coisa que no serviço de exigência que Vargas trouxe, em cada empresa existiam os entrelistas, que ganhavam para entregar pessoas. Foi uma era assim rica, dura, mas rica. O país não tinha muito problema econômico, você não sabia das guerrilhas. Quem sabia era quem freqüentava, quem tinha acesso, porque TV não falava, a imprensa não falava, foi uma época que não se falou tanta babaquice neste país, porque não se estudava, a escola mudou o currículo das escolas. Tiraram as matérias do pensar, por exemplo filosofia, sociologia, aboliram essas matérias. Por que pensar, nessa época? Se você colocar um jovem para pensar, ele é um problema. Veio essa modificação curricular do Ministro Jarbas Passarinho e aí começaram as grandes greves, greves não, movimentos. Só encerrando com o Chizu, depois disso meu marido foi muito perseguido na USP porque o sistema de informação de inteligência da revolução era muito organizado. Ele era sustentado pelos policiais paulistas, as grandes torturas eram feitas aqui na cidade de São Paulo, no quartel da aeronáutica, os empresários pagavam uma articulação chamada Otan, Organização da Liderança, onde se injetava muito dinheiro para o exército fazer a caça aqui em São Paulo dos contra-revolução. A década de 70 foi a era sangrenta, foi a era Médici, onde nunca se morreu tanta gente, nunca se morreu tanta cabeça boa neste país como nessa época, muitos cientistas foram embora deste país, professores, principalmente professores da USP. Os que resistiram e ficavam pagaram um preço muito alto, digo isso porque eu vi isso na minha casa. Não foi, existe uma farsa que o Fernando Henrique se exilou, era mentira. Ele se auto-exilou, porque quando ele viu que estava sobrando para os professores da USP, ele arrumou um emprego em Santiago do Chile e foi morar lá. Então, não é verdade quando Gilberto Gil disse que foi exilado, não é verdade. Existe uma fantasia de pessoas que se qualificaram de contra-revolucionários, alguns muito mentirosos, porque os grandes corajosos morreram. Existiu muito perseguido neste país, além da anistia cair e mostrar. Agora o Fernando Henrique não é verdade, foi motivo de chacota quando ele se auto-exilou, Gilberto Gil também, o próprio Caetano Veloso. Isso é a gente dava risada. Porque eles fizeram um movimento chamado: Tropicália que não falava nada do governo. Agora, se você pegasse o Chico Buarque de Holanda, Geraldo Vandré, uma Elis Regina, que começou a cantar as músicas contra a revolução e foi punida por isso, quando você pega “O Bêbado e o Equilibrista”, veja, a forma, a cultura é extremamente interessante. Você pega o Petrin que falou aqui, Antonio Petrin, esse homem foi perseguidíssimo pelo regime, porque as peças dele eram contra-revolucionárias. Então nós conseguimos desenvolver códigos. Você falava sem falar. Você começou a ter, o que hoje eles chamam de fansine, esse jornal, é fansine, que a meninada faz, isso já se fazia naquela época porque era o nosso meio de comunicação. Começaram-se as greves e Santo André começou a discutir a formação do Partido, só que anterior a isso nós precisávamos sustentar as greves, porque você não conseguiria, se você não sustentasse as greves, você não montaria um partido. As Igrejas Católicas abriram suas portas para receber alimentos, dinheiro, para sustentar a greve. Quem deu o pontapé inicial foi a Igreja Católica Alemã, na rua do Bosque, em Santo André. Ela foi a primeira a ter a coragem de abrir suas portas e falar “Vamos sustentar a greve dos metalúrgicos” que onde Lula já veio despontando; primeiro o Alemãozinho, que hoje não sei onde anda, Djalma Bom, Jair Meneguelli, Lula. Lula é interessante, porque Lula não era de tão expoente nessa época, era mais o Alemãozinho que tinha uma liberação muito de frente. Então as Igrejas Católicas começaram a fazer essa coleta. Era organizadíssimo, porque o dinheiro ia para o gás e a luz do metalúrgico, só que tinha que apresentar. A alimentação era toda dividida, então se sustentou a grande greve que deu aí o pontapé para a elaboração e formação do PT, que se iniciou na Avenida Perimetral, num prédio de dois andares, com um grande personagem chamado Celso Daniel. Esse foi o início do PT aqui. O início do PT. Sustentou-se a greve, da greve saiu o partido. Já, embrionariamente, o partido já vinha vindo, o que culminou de nós elegermos o Presidente da República agora.


Pergunta:

Queria que você falasse um pouco da sua participação dentro do PT?


Resposta:

Penso que quem recebeu uma formação política como eu recebi não poderia ficar de fora dessas grandes lutas. E você começa fazendo as lutas como o Chico Buarque fez, como o Petrin fez, mudando hábitos. Eu só queria contar essa passagem porque foi muito interessante. Nós não usávamos calças compridas, não era típico da nossa geração. Então um grupo de meninas, nós, começou a aparecer de calça jeans, que era objeto de desejo, jeans, mas jeans mesmo, não é como de hoje, de grife, mas jeans, Alpargatas, e esse grupo de mulheres, ao qual eu também pertencia, começou a usar camisas masculinas, camisas de homem mesmo! Então, nós éramos assim odiadas pelas mães, odiadas porque as mães achavam que nós éramos diferentes. Nós começamos a ter proibições, não podíamos sair com fulana, porque ela se vestia diferente e pensava diferente, não podíamos sair com ciclana porque ela fumava, e nós começamos a fumar, uma das coisas também de se sentir diferente. Na época eu já era casada, mas o que eu vi acontecer com o Chizu, o que eu vi acontecer na minha casa, a perseguição que algumas pessoas da USP fizeram com o meu marido, não podia deixar isso passar. Então, como eu me casei com uma pessoa tradicional também, na cidade, eu era capitadora de alimentação e eu falava com gente rica. Até hoje eles não sabem, espero que não fiquem sabendo, mas eu dizia que era para orfanato, para entidade, e me doavam muitas coisas. Eu ganhava caminhões de alimentação por causa do peso de eu ser uma classe média, conhecida, estudei, minhas amigas todas do Coração, e eu levava para a Igreja Alemã aqui na Rua do Bosque. Eu virei uma capitadora. Aí o PT, o Celso saiu candidato em 1982, o PT elegeu três vereadores, inclusive uma mulher, a Maria Luíza Sardinha, a primeira mulher petista eleita na cidade de Santo André. Eu fui a segunda mulher petista eleita em Santo André, continuo na vida política como vereadora, e eu comecei a trabalhar advogando esses três vereadores do PT. Esses casos de violação de direitos eles me mandavam, já tinha trabalhado na Cadeia Pública, queria deixar registrado que pertenci à Pastoral Carcerária da Igreja, fazia trabalho gratuito em defesa do réu pobre e comecei a advogar causas de violação de direitos humanos com esses três vereadores do PT. Me filiei, obviamente, não fui bem recepcionada, também quero dizer, num primeiro momento, não existiam muitas mulheres no PT naquele momento, principalmente da classe média. A primeira reunião que o Celso fez dentro da classe média alta que conversou com dentistas, engenheiros e advogados foi na minha casa, porque as portas não se abriam para o PT, em Santo André, como não se abriam também em outros lugares. E nós conseguimos que as pessoas fossem ouvir. Mesmo o Celso sendo de família tradicional, essa marca do PT pegava. Então, eu fiz a primeira reunião de campanha do Celso na minha casa com dentistas, advogados. As pessoas me olhavam como um bicho, um bicho estranho, mas o Celso tinha um poder de convencimento e com uma qualidade fantástica acabou convencendo. Me inscrevi, só para finalizar essa parte, fui à primeira reunião do diretório, fui enxergada como um bicho, um objeto estranhíssimo, porque imagina uma profissional da área de direito, classe média da cidade, estar sentada junto de peão! Mas a luta era minha e não deles. Me lembro que uma vez fizeram uma brincadeira comigo e disseram o seguinte: “Mas você nem usa macacão!” Eu mandei fazer um macacão de seda e fui para a reunião.


Continuação do depoimento de Heleni Barreiro Fernandes de Paiva Lino, em 30 de julho de 2003 no Centro Universitário do Imes.

Fita 2


Eu penso que é uma coisa interessante você quebrar barreiras. Eu fui a primeira advogada a lidar com a questão criminal na cidade; a primeira advogada a ficar quase 20 anos dentro de uma cadeia pública masculina; a primeira mulher a discutir a pílula na cidade, porque não se falava sobre isso, era tudo tão escamoteado; e a primeira mulher de classe média alta a ir para o partido. Então, é uma coisa interessante porque eu recebi discriminação dos dois lados, um porque, imagina, dentro do PT, o que te falta para compor um partido político, e lá porque o ambiente era diferente. O PT, no seu início, era operariado mesmo, apesar de ter tido as pinceladas de organização dos intelectuais. Então, houve essa questão de discriminação tanto que três anos atrás eu prestei um depoimento como esse, no Sindicato dos Metalúrgicos, e eles me perguntaram se eu tinha sofrido discriminação alguma vez na vida, e eu disse que sim, dentro do PT. E eles perguntaram por que e eu falei que por ser de classe média, loira, de olhos azuis, e ter escolaridade. Foi a única vez que eu sofri discriminação na minha vida, dentro de um partido que eu amo e onde estou até hoje. Eu fazia esse trabalho para esses três vereadores, era pulsante a coisa e eu podia ter essa liberdade de trabalhar de graça, porque eu advogava, mas eu não tinha a obrigação de criar, cuidar de casa, então isso eu devo muito ao meu marido, de eu poder fazer sempre tudo o que eu quis na minha vida. Na verdade eu sou uma privilegiada, eu sempre fiz tudo o que quis na minha vida sem me preocupar muito com a fala dos outros, e fui superando isso. Rompi aquela barreira do Coração de Jesus, e aí a seqüência a gente puxa pela memória. Foi um trabalho bom, deu muitos resultados, Celso foi eleito o prefeito da cidade de Santo André, trabalhamos muito para essa eleição, levei meus filhos porque eu não quis que eles tivessem esse medo que a minha mãe tem; meu filho mais velho era pequenininho eu fiz uma boina vermelha, enchi de estrelas do PT, fiz uma sacolinha para ele com material, costurei, pus emblema do PT e levei meus dois filhos pequenos para fazer boca de urna no bairro nobre da cidade, eu e meus dois filhos, porque petista não fazia boca de urna no centro de Santo André, porque era linchado, ninguém pegava o material, ninguém queria ver o material. Agora eu, classe média, moradora lá, conhecia Deus e o mundo, eles podiam até jogar lá para frente, mas eles pegavam material da minha mão. Isso é uma outra ruptura que eu acho extremamente importante e já politizando meus filhos, fazendo boca de urna e entendendo a coisa. Celso foi eleito, me chamou logo na primeira semana e me disse o seguinte: Eu tenho uma preocupação básica. O nosso povo não conhece cidadania, não exerce cidadania. Eu preciso que você faça isso, abra, pense, eu não sei o que você vai fazer, mas eu quero que o nosso pessoal tenha acesso à justiça gratuita. Aí foi a minha grande oportunidade de ganhar para fazer o que eu mais amo, ensinar cidadania. Iniciei sozinha esse trabalho, atendendo em uma sala que não tinha mesa e me entreguei a esse trabalho, com uma equipe de doze advogados, na maioria mulher – gosto muito de trabalhar com mulher – um psiquiatra, um psicólogo, oito assistentes sociais. Nesse departamento, na verdade, a gente tinha a maior liberdade de trabalho. Celso era um visionário e tinha uma cabeça muito adiantada para aquele e até para este nosso tempo. Eu tive todas as condições de trabalho nessa primeira gestão dele e montei o departamento de assistência judiciária, depois agregando a defesa do consumidor, mas lá dentro nós tínhamos o direito da mulher, o direito da criança e do adolescente, advogados treinados para isso. Foi o primeiro local quando ainda nem se usava essa palavra, de lidar com a questão das identidades sexuais, onde eu entrei no trabalho com os travestis. Como? Atendendo portador de HIV. É um segmento totalmente alijado da sociedade e o departamento montou um serviço de atendimento para homossexuais, travestis, transformistas. Precisei muito do apoio do Celso, porque comecei a apanhar de todos os lados da sociedade conservadora; ele bancou o nosso trabalho, tanto que hoje sou madrinha da Tulipa, que é uma associação de travestis e transformistas. Estou montando uma segunda agora, que é um pessoal com o qual até fiquei boquiaberta, que são os hermafroditas, que são extremamente discriminados, mais até que os travestis, porque nem eles sabem o que eles são e o caso deles tem uma demanda jurídica tremenda. Então, em nosso departamento, além de garantir o acesso à justiça, nós dávamos aulas de direito. Se você tinha uma demanda de vinte casos iguais, nós não atendíamos essas pessoas, nós dávamos aula para esse grupo de pessoas para que essas pessoas pudessem exercitar por elas o direito e não ficar nessa coisa que é o Brasil que sempre passa a mão na cabeça, essa coisa assistencialista. Muitos deles começaram a se exercitar, elas iam brigar até na imobiliária, vinham e nos falavam. Aí veio o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma guerra absoluta, tiramos o juiz da cidade, porque o juiz não queria montar um Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, porque ele não admitia perder esse poder sobre esse segmento. Nós fizemos passeata na frente do fórum, levei um monte de crianças, fizemos varais com o Estatuto da Criança e do Adolescente, levei atores para falar, tudo na cara do juiz. Ele foi infeliz, mandou chamar a Rota, na época tinha a Rota, e só tinha quase que crianças na manifestação, eles pintaram, fizeram plenárias do ECA, fizeram jogral sobre o Estatuto e o juiz mandou chamar a Rota. As menininhas acharam fantástico, quando a Rota chegou e perguntou quem estava organizando aquilo, o menino apontou um menino de rua deficiente físico magrinho e falou que aquele era o dono do movimento. Fizeram gestões junto à Magistratura e tiramos esse juiz, aí eu ganhei.


Pergunta:

Pode falar o nome do Juiz?


Resposta?

Não, não posso. Ele está na ativa ainda, se não estivesse eu falaria, mas era um juiz fortíssimo na cidade. Ele comandava júri, corregedoria das polícias, comandava a questão do Juizado de Menores e nós sabíamos de um envolvimento dele com alguns presos e fizemos uma guerra nesta cidade, envolvendo Câmara, aí nós já tínhamos nossos vereadores do PT, os auxiliares, e a Magistratura tirou esse cara. Com isso, o povo ficou com medo de mim porque me achava muito forte por essa questão do Judiciário, só que eu tenho uma relação fantástica. O departamento floresceu, virou uma referência, Celso mandou fazer uma pesquisa, depois de um tempo, e o departamento recebeu 90% de aprovação. Brigava com a Telefônica, aí entra a Defesa do Consumidor também. Nós viramos uma referência e Santo André foi a primeira cidade a se conveniar com o Procon. Nós tínhamos o poder da polícia mesmo do Procon. Faltando quatro ou cinco meses para terminar a gestão, Celso me chamou, não havia reeleição naquela época, ele não me pediu, na verdade, ele me intimou: Heleni, o PT não tem vereador da classe média. Eu preciso que você saia candidata. Eu queria voltar para o meu trabalho anterior, ou, se Celso se reelegesse, continuar com o meu departamento. Celso falou: Estou te exonerando porque você vai sair candidata. Saí candidata, preocupadíssima, porque o PT não tinha dinheiro para fazer minha campanha. Minha campanha tinha quatro pessoas apenas, que trabalharam a campanha inteira, na cidade inteira. Tinha os pesos-pesados do PT concorrendo, um dos candidatos é o nosso prefeito hoje, João Avamileno, e foi eleito e veio com toda a estrutura e apoio do Sindicato dos Metalúrgicos, já outros vereadores se recandidatando e eu fui eleita. A grande zebra foi a minha eleição, porque eu trabalhava com quatro pessoas apenas, mas todo aquele trabalho... É uma coisa interessante, e as pessoas dizem que brasileiro tem memória curta, mas não é verdade. Quando você faz um trabalho eficiente com respeito, as pessoas lembram. E o nosso trabalho, na gestão de Celso, foi feito com muito respeito, porque Celso exigia isso, o respeito às pessoas acima de tudo. E fui eleita e continuo até hoje, como vereadora da cidade de Santo André, sempre crescendo o número de votos. É uma coisa interessante. Eu não entendo bem, mas isso sempre está crescendo, estou indo para a quarta reeleição.


Pergunta:

Pediria para você falar dessa sua relação de amizade com a pessoa de Celso e que você pudesse falar dessa parte de família e amigos.


Resposta:

Na verdade, como Celso era mais novo que eu, eu nem olhava para a cara dele, porque você tem essa coisa de idade. Celso fez o cientifico no Américo Brasiliense, já era de família tradicional, lembro muito bem do senhor Bruno, lembro perfeitamente do pai de Celso, um homem alto, forte, e de dona Lourdes, que na verdade não se chama Lourdes. Eu tinha mais convivência com as irmãs de Celso, que também estudavam no Coração, e Celso, como era mais novo que eu, não era muito bem tratado pelo nosso porão no Américo porque era sapinho; hoje, Celso teria cinqüenta anos, em abril, ele faria cinqüenta e dois anos, eu tenho cinqüenta e cinco, quer dizer eu estava mais avançada, a gente não dava muita bola. Celso jogava basquete, já se destacava pelo basquete, muito tímido, absoluto. Celso não dançava, morria de vergonha das pessoas. É um enigma para nós até hoje como Celso conseguiu ser político, porque era de uma timidez a toda prova. A gente fazia algumas brincadeiras com ele. Fosse com ele a uma festa, embora muito parado, as pessoas tinham um encantamento por Celso. Celso é um mito hoje, a gente ouve muito as pessoas falarem dele. Se Celso estivesse vivo... Celso fez coisas que ninguém jamais fez, não administrativamente, mas pessoalmente. Pessoas falam: Mas Celso esteve aqui e falou isso, isso e isso. Nós sabemos que Celso jamais falaria aquilo. Então as pessoas ficam mitificando realmente a imagem do Celso, mas merecidamente. Politicamente, Celso sempre foi uma fera, um visionário, uma pessoa que se autodeterminou. Estive em Brasília pouco tempo atrás conversando com o Gilberto de Carvalho, assessor especial de Lula, chefe de gabinete de Lula e ele me disse o seguinte: Celso poderia ser o que ele quisesse dentro do governo Lula, ele era preparado para assumir absolutamente tudo, mas nós tínhamos três coisas para ele escolher: ou Ministro do Planejamento, ou Ministro de Finanças, ou Ministro de Relações Exteriores. Ele era preparado para absolutamente tudo, uma pessoa fechada, muito restrito a um grupo muito pequeno de amigos, e eu tinha uma relação fantástica com ele, Celso sempre me bancou muito na verdade, não sei se porque eu sempre fui muito chata e eu nunca ouvi um não do Celso, no trabalho mesmo, na vida política. Celso tinha uma memória muito forte, ele relembrava inclusive fatos de quando eu o expulsava do porão, ele fazia questão de falar isso, quando nós íamos em alguma reunião política ou de campanha. Na verdade não convivi demais com ele em função dessa diferença de idade, isso desde o Américo Brasiliense. Aí começamos a conviver dentro do diretório do PT, uma convivência boa, honesta, uma pessoa gostosa, que dava gargalhadas, um amante de cinema e sorvetes, fazia um regime eterno, não sei por que, mas um pessoa muito dura nas decisões, extremamente dura. Eu fazia reunião com ele, eu mandava a pauta antes por escrito, ele era uma pessoa muito prática, não gostava de perder muito tempo e quando vinha um não, era não mesmo, e era fundamentado por que não, mas aí eu já desistia porque sabia que não ia convencê-lo do contrário. Mas ouvia. Celso tinha uma sabedoria no ouvir, que depois de dez, quinze anos você repetia aquela coisa que você falou e ele lembrava muito claramente do que você havia falado. Se ele assumia um compromisso, não tinha duas conversas.


Pergunta:

Você poderia comentar, desde a época da escola até sua formação, da transformação da cidade, na gestão do PT e de Celso?


Resposta:

A primeira gestão de Celso, primeira gestão petista não esquecendo que foi a terceira do país, veio cercada de muita responsabilidade. Nós pegamos uma cidade que tinha um pensamento tacanho, pequeno, de administrador de botequim, na verdade, de caderneta de padaria. Era essa a visão de quando nós assumimos a cidade, então Celso tinha muita preocupação com isso. Eu fiquei quase um ano vendo contratos, como a coisa funcionava, porque eu tinha muita preocupação até de assinar um documento, mas qual a primeira visão de Celso? Era resgatar o orgulho de ser andreense, porque nunca se discutiu isso na cidade. Como nós éramos de uma cidade basicamente dormitório, eu me lembro muito bem, eu era menina e era difícil achar alguém que tivesse nascido em Santo André. Todo mundo tinha nascido fora da cidade, e esse vínculo não existia com a cidade. E eu penso que a grande marca de Celso foi de “eu sou andreense e eu amo minha cidade”. Ele tinha isso com ele e o PT, a administração, ajudou, primeiro a trazer esse orgulho de ser andreense, que não existia isso, depois a modernização administrativa, sem dúvida. Era de chorar, era coisa de botequim mesmo. Celso profissionalizou a administração. Na primeira, nós tivemos um série de erros, fizemos umas desapropriações desnecessárias, mas Celso ia pela tentativa, antes fazer do que não fazer absolutamente nada. Na segunda, perdemos as eleições; por uma disputa interna partidária, nós perdemos. O candidato de Celso era outro, era Granado, não era Cicote; Cicote foi para a eleição e nós perdemos essa eleição, aí eu me elegi vereadora, eu fui oposição ao prefeito Brandão. E na segunda gestão de Celso, Celso já veio com uma vida totalmente diferente, de ser um gerenciador da cidade, e não o poder absoluto da cidade. Na primeira, embrionariamente, nós começamos a abrir para a sociedade civil de começar a falar com a administração, e na segunda o Celso foi para o co-gestão, eu sou responsável, mas você também. Então vamos definir as coisas básicas da cidade em conjunto com a sociedade civil, que foi outra grande marca de Celso. Instituímos o orçamento participativo ao qual João vem dando continuidade com muito brilhantismo, mas Celso ouvia a sociedade civil, tanto que montamos conselhos, cidade do futuro, a sociedade fala com a cidade. Isso foi interrompido na gestão de Brandão; não se falava isso, mas eles achavam que o orçamento participativo era coisa de fazer política e não ouvir a cidade, uma crassa mentira. A cidade sabe falar muito porque a cidade pulsa, ela não é um ser inerte e se tivesse que eleger uma marca para Celso, tirando toda essa competência administrativa, esse mostrar que eu sou andreense, eu amo esta cidade, ela é minha, eu vou cuidar dela.


Pergunta:

Heleni, quais seriam as lembranças que você tem, como cidadã, da política local?


Resposta:

A Prefeitura de Santo André era locada num prédio ao lado da Igreja do Carmo e eu me recordo quando nós tivemos o impeachment, que foi... Nossa! Foi o prefeito Osvaldo Gimenes. O meu pai achou fantástico porque parece que ele teve um problema lotérico e minha mãe achou que ia ter guerra em Santo André. Minha mãe escondeu a gente debaixo da cama porque ela achou que ia ter guerra na cidade. A cidade não participava, não, acho que isso é coisa de Brasil, você delegava ao feitor, ao pretor e o pretor cuidava da cidade. Como era uma cidade que não tinha esse adensamento populacional, se você pegar a região da Vila Luzita para lá, que hoje é extremamente organizada, e usa muito equipamento público, ela não existia, nós não tínhamos favela em Santo André. Para dizer a verdade, na minha infância eu me recordo de um barraco que era na Rua Monte Casseros, onde tinha uma paineira enorme, Álvares de Azevedo, tinha um rio aberto e quando eu voltava, à noite, do clássico do Américo, eu passava pelo rio e tinha um barraco com uma família de negros, gente assim fantástica, alegres, eles moravam lá, eu lembro de um barraco. De repente você vê essa cidade tomada por essa necessidade de moradia. A cidade era boa demais, a convivência era muito boa e eu tive o privilégio de viver em Santa Teresinha, porque a família da minha mãe sempre viveu lá, meu avô foi o primeiro barbeiro da cidade, lá do bairro, uma família vinda do interior, de Socorro, onde eu pude, mesmo sendo uma menina urbana, aprender com as congadas, aprender com a Festa de Reis, que a minha avó trazia, a conhecer ervas e plantas. E o centro da cidade não permitia, porque não tínhamos de conhecer as benzedeiras e rezadeiras, a minha avó, eu não sei se a minha mãe comentou, era mulher que lavava os mortos, isso em Santa Teresinha. Ela tinha, no fundo da casa dela, aquelas banheiras de louça com peças e que a gente morria de medo daquele quartinho porque levavam as pessoas, não tinha caixão, não tinha o facilitador que tem hoje, fazia o caixão quando a pessoa morria, não tinha exposto, então levavam as pessoas enroladas no lençol, e a minha avó lavava os mortos. Aquele quarto para a gente era uma coisa! A gente dava dez milhões de voltas para não passar perto, e a gente não entendia essa naturalidade da minha avó, e não consigo entender até hoje, essa naturalidade dessa rezadeira, de lavar esses mortos. É interessante que meu avô chamava João, então ela falava: João, sai da rua. E meu avô ia lá no quintal, pegava tudo e levava. Eu não sei, é um mistério para a gente, acho que nós nunca vamos saber o que minha avó fazia de reza, aquela série de coisas que ela pedia. Ela nunca contou, nunca deixou a gente saber, aquela porta nunca se abria, nem de forma distraída, porque tinha um respeito aos mortos que era absoluto, porque os mortos eram velados nas casas. Me lembro na casa, lá em São Pedro, da minha avó, a mesa tinha mais de três metros de comprimento, então quando às vezes a família era pobrezinha ou era muito pequena levavam para velar lá na casa da minha avó. No outro dia nós tínhamos que lavar as mesas, porque espalhavam polenta na mesa também para cortar com linha. Fazia-se muita polenta, em fogão a lenha, que era um barato. Minha avó fazia aos domingos. A gente, aos domingos, se enfiava na casa da minha avó, porque lá era um playcenter nosso. Dormia em colchão de penas, que a gente deitava e afundava. Já sou da geração de colchão de molas, mais moderno. Aquele monte de netos, deitados no quarto da minha avó, porque a gente queria deitar com a minha avó. Minha avó era muito mística, veio da roça de Socorro, ela contava as histórias da mula sem cabeça e do saci–pererê, então a gente afundava ali naquele colchão de penas com aquelas lembranças da minha avó. E esse bairro foi muito importante na minha vida também, porque mesmo sendo já de uma geração urbana, eu sei qual é a erva da Coca-Cola, eu ouvia e via, eu ia junto com a minha avó buscar erva, ia junto tirar esse leite com facilitador, leite em garrafa, e ficava nas portas das casas e ninguém roubava. Na verdade, eu ia com a minha avó, Dona Emiliana, buscar leite fresco porque a minha avó queria nata para fazer bolinho de nata. A Dona Emiliana tinha as vacas no pasto e a gente andava, isso era a cidade, a gente andava, ia no pasto buscar leite, lá no largo de Santa Teresinha. O centro de Santo André já era bem mais urbano, eu tive esse raro privilégio de conviver com o urbano e o rural, quase um pseudo-rural ao mesmo tempo. Eu tive uma amiga minha da família Simões, são dentistas aqui, quando eu comprei uma galinha garnisé para meus filhos, porque eu criei os meus filhos de um modo diferente, o menino foi lá com a mãe e o pai, ele era pequenininho, e ele falou: Mãe, tem uma vaca aqui no quintal. E era uma galinha garnisé deste tamanho. Eu e meus irmãos não. Meu avô tinha chiqueiro, tinha matança de porco anual para fazer gordura para o ano inteiro, tinha a separação dos torresmos, tinha polenta de domingo da minha avó, e a gente amanhecia vendo Tonico e Tinoco, e cada neto ia um pouquinho mexer a polenta, então você tinha que lavar a mesa para despejar, os meus tios tinham que fazer isso, porque as mulheres não agüentavam; depois esperava a polenta endurecer e minha avó botava a gente para cortar com linha, porque tinha que cortar em losângulos corretos para depois serem fritos, ou comer com frango ao molho pardo.

Perdi um primo, atropelado, um primo de 5 anos, o Washington, que estava na casa da minha avó. Ele saiu correndo no meio da rua; passava um caminhão uma vez por dia do frigorífico da Swfit, passou, atropelou e matou o Washington. Foi um grande drama para a família, na minha juventude.


Pergunta:

Você, mulher, trabalhou, cuidou dos filhos, da casa, da sua vida. Como era essa vida da mulher trabalhadora e dona de casa?


Resposta:

Eu não me equiparo muito à grande maioria das mulheres, primeiro porque eu tenho um casamento muito bom, com uma pessoa que nunca me reprimiu. Em casa nunca teve mando, então eu pude criar os meus filhos com muita liberdade, eu pude ficar em casa, eu dei um breque, eu fiz a minha escolha, criar os meus filhos realmente; eu perdi um filho, o terceiro, mas eu p



« VOLTAR


Em realização

Realização Hipermidias

Apoio

Apoio Fapesp Finep USCS
TOPO