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Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 05 de julho de 2005.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Vilma Lemos e Robson Conceição.
Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.
Pergunta: Por favor comece falando a data e local de seu nascimento.
Resposta:
Nasci em 27 de maio de 1929, em Descalvado, Estado de São Paulo.
Pergunta: Conte um pouco da sua infância.
Resposta:
A minha infância não foi muito boa. Com 9 anos eu fui para a roça. Meus pais mudaram para Araraquara e a gente trabalhou na usina de cana Tamoio, que era do Hugo Morganti. Lá fiquei até os 12 anos e vim embora para São Paulo. Meus pais eram muito pobres e a gente tinha de trabalhar. Eu fui ser babá, estudava e trabalhava.
Pergunta: Quando a senhora trabalhava lá no interior, a senhora chegou a trabalhar, quando criança, na plantação?
Resposta:
Sim. No tempo em que eu trabalhava, isso há sessenta e tantos anos, não tinha essas máquinas como tem agora. As canas eram cortadas, e isso ficou na minha memória. A minha mãe cortava as canas e eu amarrava 18 canas em cada feixe e aí vinham os homens para catar e colocar no caminhão para levar até a usina. Meu pai trabalhava na usina de cana.
Pergunta: E quantos anos a senhora tinha quando fazia esse trabalho?
Resposta:
Tinha 9 anos.
Pergunta: A senhora tinha outros irmãos?
Resposta:
Tinha, mas sou a filha mais velha. Meus irmãos eram todos pequenos.
Pergunta: Eles também trabalharam assim?
Resposta:
Não. Só eu. Depois a gente veio para São Paulo e eu fui trabalhar de babá, para ajudar meus pais, porque a gente foi morar na Liberdade, então a gente foi melhorando. Meu pai não sabia fazer nada e foi trabalhar de pedreiro e eu fui trabalhar de babá. Estudei no Grupo Campos Sales, na Rua São Joaquim. Aí fui ficando mocinha e comecei a trabalhar com 14 anos numa firma que se chamava Companhia Paulista de Linhagem que agora é a Igreja Universal, ali na Avenida do Estado. Isso faz cinqüenta e tantos anos. Dali, eu saí, fui trabalhar na Antártica e comecei a namorar meu marido com 15 anos e há 55 anos estamos casados.
Pergunta: A senhora foi alfabetizada lá ou quando veio para cá?
Resposta:
Quando vim. Só tenho o grupo escolar.
Pergunta: Quer dizer que com 9 anos, na roça, a senhora não freqüentava a escola?
Resposta:
Freqüentava lá na Usina Tamoio.
Pergunta: Como era a escola?
Resposta:
Era uma escola boa, tinha do primário ao quarto ano. Eu estudei lá até o segundo ano.
Pergunta: Era uma sala só para todas as séries?
Resposta:
Eram duas salas na fazenda. Uma era do primeiro ao segundo e a outra era do terceiro ao quarto.
Pergunta: Quando a sua família veio para São Paulo, a senhora trabalhou como babá. Como foi esse trabalho de babá?
Resposta:
Foi muito duro, porque apesar de nós morarmos no interior, a minha mãe tinha fartura, a gente tinha uma vida boa. Só que chegamos aqui, e a gente não era acostumada a morar num quarto e cozinha. A gente morava numa casa e a minha patroa, nem sei se posso falar, ela mandava eu dar comida para a menina, mas não dava para mim. Ela era polonesa ou russa, e era uma família muito miserável, por sinal. Eu tinha 10 anos e tinha fome, em vez de dar a comida para a criança, eu comia um pouco, porque eu tinha fome para ir para a escola. Às vezes ela me mandava embora para a escola sem almoço.
Pergunta: Quantas horas a senhora trabalhava de babá?
Resposta:
De manhã. Sete horas já estava lá porque a mulher costurava. O marido era alfaiate e ela fazia calças. Quando era meio-dia, onze e meia, eu ia para a escola sem almoço.
Pergunta: Era perto da sua casa?
Resposta:
Era. Eu morava na Rua da Liberdade e trabalhava na Rua Conselheiro Furtado, não sei se vocês conhecem a Liberdade, onde tem agora o bairro dos japoneses, na Galvão Bueno. Era por ali.
Pergunta: Quando a senhora veio para Santo André, a senhora veio para onde e quando?
Resposta:
Vim para Santo André em 1947. A gente veio morar aqui. A gente morava na Mooca e meu pai resolveu vir para Santo André e estou aqui em Santo André desde 1947.
Pergunta: No mesmo lugar?
Resposta:
No mesmo lugar, na mesma rua eu morei quando era solteira, e agora, na minha casa, nós moramos um ano de aluguel depois eu e ele batalhamos e compramos. Há 53 anos estou nessa casa. Ali me casei, construí meu lar, tenho dois filhos, um engenheiro, um biólogo. Meu filho é professor no Objetivo há 30 anos.
Pergunta: Ali em Utinga que a senhora morava?
Resposta:
Sempre ali na Vila Metalúrgica.
Pergunta: Quando a senhora chegou, em 1947, como era esse local?
Resposta:
Não tinha nada, não tinha carro, não tinha luz, não tinha água. Não sei se vocês conhecem, mas onde a gente mora é atrás do Colégio Clóvis Beviláqua e eu vinha a pé de lá até a estação e era barro. Eu tinha medo, porque eu me casei nova, com 19 para 20 anos, pesadona do meu filho mais velho, às vezes meu marido levantava de madrugada e vinha me acompanhar, porque tinha cachorro e eu tinha medo. Ali onde é o Adamastor de Carvalho era uma chácara de uma pessoa chamada Mário Guindana, e ele tinha uns cachorros grandes que avançavam. Era horrível e não tinha condição. Meu marido trabalhava em São Paulo, na Drogasil, e vinha de ônibus e descia em frente ao IMES, no Bar Boa Vista, não sei se ainda tem, e ia a pé, a porteira era fechada e ele atravessava em cima da porteira e ia a pé.
Pergunta: Essa porteira era o quê?
Resposta:
Era a estação do trem. Quando era nove horas fechava-se a porteira. Quem queria atravessar daqui para lá tinha de subir uma ponte para atravessar para o lado de Utinga. Quando dava enchente era um absurdo. Quando eu trabalhava, eu levava dois sapatos, porque um estava cheio de barro e quando chegava no trem trocava. Agora não, a turma vai de carro, todos bonitinhos.
Pergunta: Seu marido a acompanhava até a estação, porque a senhora ia trabalhar?
Resposta:
Ele vinha até um pedaço, porque eu tinha medo de cachorro. Não tinha assalto, nada disso, quando mudei aqui já há cinqüenta e tantos anos. Eu tinha medo de cachorro porque tinha muitos cachorros.
Pergunta: Havia muitas casas na rua onde a senhora morava?
Resposta:
Na rua, quando eu mudei naquela rua, tinha quatro casas.
Pergunta: Como chama a rua?
Resposta:
Rua Alexandria. Eu moro na Rua Alexandria, 267.
Pergunta: Já tinha luz elétrica?
Resposta:
Não. Quando eu mudei com meus pais não tinha luz, nem água de poço, nada. Quando nós casamos, em 1950, já tinha luz nas casas, mas na rua não.
Pergunta: E nem água de poço? Como era a busca por água?
Resposta:
Era na cisterna. A gente tinha um poço de uns 12 metros ou mais e tinha a manivela por onde a gente puxava a água para encher as vasilhas.
Pergunta: Quando vocês vieram para Santo André, vieram morar já na Rua Alexandria?
Resposta:
Morei na Rua Alexandria com meus pais, depois eles mudaram para a Alameda México e quando me casei voltei para a Rua Alexandria, onde a gente alugou um quarto e cozinha e depois de um ano a dona da casa ofereceu para nós, porque ela queria vender e ir embora. Nós acabamos comprando. Era um quarto, cozinha e um barracão.
Pergunta: Onde a senhora foi morar quando casada. E quando o pai veio, vocês foram morar nessa casa?
Resposta:
Não. Era outra casa, na mesma rua. Quando eu fui para lá com meus pais tinha quatro casas só.
Pergunta: E a casa de vocês era como?
Resposta:
Quarto, cozinha e um barracão. O banheiro era no fundo do quintal, uma fossa. Não tinha esgoto quando mudei ali.
Pergunta: A senhora pode falar um pouco sobre o seu trabalho na Companhia Paulista de Linhagem?
Resposta:
Quando eu entrei, eu tinha 14 anos e entrei como ajudante de fiação. Agora é tudo mais moderno, mas antes tinha aqueles carretéis de linha, de juta, atrás eles colocavam a juta crua que passava por um processo a gente, nós éramos duas, quando os fios arrebentavam a gente ia lá, parava o parafuso na mão.
Pergunta: Machucava?
Resposta:
Machucava, mas a gente usava luva. Parava o parafuso e emendava os fios. Depois eu fiquei com mais prática e fui trabalhar na tecelagem de saco.
Pergunta: Ali era só o processamento do fio?
Resposta:
Isso.
Pergunta: Depois foi para outra seção?
Resposta:
Para a tecelagem.
Pergunta: Quando a senhora começou, qual era o período de trabalho?
Resposta:
Quando eu comecei, eu fui de ajudante de fiação. Entrava às sete horas e saía às cinco horas.
Pergunta: Era registrada?
Resposta:
Já era registrada e tenho minha carteira até hoje.
Pergunta: Com 14 anos já era registrada?
Resposta:
Sim. De vez em quando eu mostro minha carteira para meus netos. Tenho netos que só estudam, já têm 20 e poucos anos e não trabalham, e eu falo que com 14 anos eu já trabalhava. Eles falam que mudou.
Pergunta: E essa segunda etapa desse seu trabalho como foi?
Resposta:
Foi boa. Era por contrato. Não sei se vocês sabem como é dentro de uma fábrica, que quanto mais você faz, mais você ganha. Eu trabalhava por contrato e era por metros de pano que você fazia. Já tinha na própria máquina um contador que contava quantos metros você fazia por dia. Aí vinha o fiscal, que tomava conta da seção, e marcava todo dia. No fim do mês era somado e você ganhava por aquilo que você fez.
Pergunta: A sua produção era boa?
Resposta:
Era.
Pergunta: E esse dinheiro dava para fazer o quê?
Resposta:
Eu ajudava meus pais, porque a gente morava na Rua dos Estudantes, meus irmãos eram pequenos, sou a mais velha, e quando chegava dava meu pagamento inteirinho para meu pai e minha mãe. Eles compravam roupa para mim quando eu precisava. Não era como é agora, vou dar tanto. Eu dava meu ordenado todo.
Pergunta: Quem trabalhava na fábrica?
Resposta:
Eu e meu pai.
Pergunta: E o salário dos dois, somado, era suficiente para sustentar seus irmãos todos?
Resposta:
Era, mas minha mãe lavava roupa para fora para ajudar. Tinha de viver como dava.
Pergunta: A senhora chegou a passar necessidades nesse período, de alimentação?
Resposta:
Necessidade não, mas a gente passou meio apertado, porque nós éramos seis, só dois para trabalhar, então a gente vivia uma vida apertada. Às vezes queria comprar alguma coisa e não tinha condição. Eu já estava mocinha e queria comprar alguma coisa, eu via as moças com alguma coisa melhor, mas não dava, porque meu dinheiro era para ajudar em casa.
Pergunta: Vocês tinham rádio?
Resposta:
Depois de muitos anos meu pai comprou um rádio. A gente morava numa vila, onde moravam quatro pessoas. Quando meu pai comprou o rádio, todo dia vinha aquela turma de gente, meu pai colocava o rádio no último volume, na janela, para o pessoal escutar. A maioria era tudo caipira, era uma música que ficou na minha cabeça, Tonico e Tinoco, que tocava às sete horas no programa. Enchia de gente para escutar. Nós fomos os primeiros a comprar, tanto é que tenho o rádio até hoje lá em casa. O rádio tem quase 60 anos.
Pergunta: Que marca é esse rádio?
Resposta:
Não lembro a marca.
Pergunta: Que programas eram mais comuns de vocês ouvirem?
Resposta:
Meu pai, antigamente era sempre o pai que mandava, ele era cabeça, então o que ele quisesse ouvir a gente tinha de ouvir. Ele gostava dos caipiras, então nós tínhamos de ouvir caipira. Na época eu gostava da Isaurinha Garcia. Acho que vocês nem conheceram essa artista. Eu gostava também da Emilinha Borba. De vez em quando ele deixava eu ouvir o programa da Isaura Garcia. Mas era mais meu pai.
Pergunta: Tinha novelas no rádio?
Resposta:
Naquela época não tinha. A primeira novela foi... Fugiu da mente. Teve uma novela que não lembro o nome, mas a minha mãe não tinha paciência de ouvir novela, porque ela falava que era mentira. Eu sou mestiça, meu pai era baiano e minha mãe italiana, aquelas italianonas duras, então ela falava que era besteira. A gente não ouvia novelas.
Pergunta: Como era comprar alimentos nessa época? Onde comprava, como comprava, como guardava?
Resposta:
Quando a gente tinha dinheiro meu pai comprava ali na Rua dos Lava Pés, onde tinha um mercado chamado Sertanejo. Ele ia lá e fazia uma compra, como se fosse agora o Carrefour, o Extra. Quando não tinha, a gente comprava na caderneta em frente de casa, onde o homem marcava. Meu pai era muito honesto.
Pergunta: Como era essa compra pela caderneta?
Resposta:
Quando a gente precisava, ele dava uma caderneta para a gente. A confiança era tanta e o povo era tão sincero, que ele marcava só na nossa caderneta. A gente ia lá comprar pão, leite ou alguma coisa que a minha mãe precisasse, ovos, lingüiça, ele marcava ali e quando chegava o fim do mês meu pai ia lá, ele somava e meu pai pagava.
Pergunta: E essa caderneta ficava com vocês?
Resposta:
Ficava com a gente. Não ficava com ele. O dono da caderneta levava a caderneta para casa.
Pergunta: O que era mais comum comer nessa época? O que tinha mais facilidade de compras?
Resposta:
A gente sempre comeu arroz, feijão, verduras e carne. Era mais fácil comprar. A gente também já estava acostumada no interior e as coisas não eram tão caras como agora. Peixes, porque onde a gente morava tinha uma feira, na Rua Tomás de Lima, e toda semana a minha mãe comprava peixe. A gente gosta muito de peixe até hoje. E no domingo comia macarronada, bife à milanesa ou frango. Peru, essas coisas, era só no Natal.
Pergunta: Natal era uma data diferente?
Resposta:
Era diferente. Quando estava chegando época do Natal, a minha mãe já economizava para a gente comprar o Peru. Só que agora você compra coxa de peru a três por dois.
Pergunta: E dava para dar presente para todo mundo no Natal?
Resposta:
A gente não tinha esse costume. Não tinha condição. A gente não ganhava como agora. Eu tenho dois filhos e uma filha adotiva e nove netos ao todo. Agora eu já nem dou mais no Natal. Quando eles fazem anos eu pergunto, porque agora eles querem roupa de marca, querem escolher, e você não vai dar uma camiseta para um moço de 21 anos. A avó vai te dar, não fala muito alto. Eu dou o que eles querem, porque não dá para dar para todo mundo junto, porque nós dois já estamos aposentados. Graças a Deus a gente fez a nossa vida.
Pergunta: Voltando um pouco na alimentação. O terreno em que vocês construíram a casa, seu pai, era grande ou era pequeno?
Resposta:
Era pequeno.
Pergunta: Dava para ter horta ou não tinha?
Resposta:
Não tinha.
Pergunta: A sua mãe, como italiana, fazia polenta?
Resposta:
Sim.
Pergunta: Tinha alguma forma especial de fazer a polenta dela ou não?
Resposta:
Era uma polenta comum, mas a polenta da minha mãe, não sei, era mais gostosa do que a minha.
Pergunta: Ela despejava a polenta onde?
Resposta:
A gente tinha uma travessa e ela despejava a polenta lá.
Pergunta: Amarrava com barbante?
Resposta:
Não.
Pergunta: O outro emprego da senhora foi na Antártica. O que a senhora fazia na Companhia Antártica?
Resposta:
Quando trabalhei na Companhia Antártica não tinha como as indústrias hoje, eu e mais três moças trabalhávamos numa linha de correntes onde saía cerveja, mas não era tampada. O mestre vinha e dava 50 a 80 tampinhas e a gente colocava nos bolsos e colocava as tampinhas. Nós trabalhávamos em três, e duas colocavam as tampinhas, rápido, porque passava não sei quantas garrafas na corrente de uma vez, então duas tampavam e a última selava. Antigamente a cerveja vinha selada. Eu trabalhava, a gente mudava um pouco, cada uma ficava um pouco selando e depois tampando. A gente selava, era rapidinho.
Pergunta: Eram apenas vocês três fazendo isso ou tinha outras meninas fazendo a mesma coisa?
Resposta:
A cada quatro ou cinco linhas eram três fazendo isso. Três outras eram olhando se a cerveja vinha com defeito, se estava vazando, e duas ficavam sentadas para ver se não tinha cisco, porque se as garrafas fossem mal lavadas, elas tiravam da corrente.
Pergunta: Tinha perigo esse trabalho ou era seguro?
Resposta:
Perigo era que às vezes as garrafas vinham juntas umas das outras e estouravam. Então o perigo era com o caco de vidro, mas não tinha perigo grave.
Pergunta: A senhora se lembra de ter visto algum acidente com trabalhadores na fábrica?
Resposta:
Não. Trabalhei lá quatro anos e nunca vi. Vi corte, mas acidente grave não.
Pergunta: A senhora era registrada?
Resposta:
Sempre fui registrada, com direitos e tudo. As moças tinham direito, na hora do almoço, a tomar meio litro de refrigerante. Tinha uma barrica no meio do refeitório e eles davam umas canecas próprias quando a gente entrava e você tinha direito a tomar o que você quisesse. E os homens podiam tomar cerveja. Lá trabalhavam muitas pessoas, esses lituanos, que são bicho d'água, eles podiam beber chope à vontade.
Pergunta: Isso não prejudicava o andamento do serviço?
Resposta:
Acho que não, porque eles viviam lá, pegavam a caneca e bebiam na hora do almoço.
Pergunta: As mulheres podiam tomar cerveja?
Resposta:
As mulheres, não; só refrigerante, guaraná e soda. Na minha época só tinha guaraná e soda lá.
Pergunta: Você trabalhou quanto tempo na linha de cervejas?
Resposta:
Depois de uns dois anos trabalhando lá, eles me passaram para a seção de guaraná. A Antártica, do lado de lá da Presidente Wilson era só cerveja e do lado de cá era guaraná, onde descascavam a fruta, porque eles faziam as bebidas com frutas naturais. Às vezes era laranja, abacaxi, então a gente foi para a produção de frutas.
Pergunta: E essas frutas eram para a produção de quais bebidas?
Resposta:
Eles faziam umas bebidas em que ia abacaxi e outras laranjas.
Pergunta: A senhora lembra o nome?
Resposta:
Não lembro o nome, porque eu trabalhava só na seção de frutas, só descascando. Depois vinham os rapazes com as carriolas e levavam.
Pergunta: E as condições de higiene, como eram?
Resposta:
Era limpa. Tinha muitas pessoas toda hora varrendo, limpando, lavando. Os banheiros eram muito limpos.
Pergunta: A senhora trabalhava com luvas, descascando as frutas ou não?
Resposta:
Não.
Pergunta: E essa carriola que levava as frutas, como era?
Resposta:
Era bem higiênica. Ela tinha um plástico limpo por dentro e a gente despejava as frutas.
Pergunta: A senhora descascava manualmente ou tinha alguma máquina?
Resposta:
Era manualmente. Eram muitas moças fazendo isso.
Pergunta: A senhora já era casada nesse período?
Resposta:
Era solteira.
Pergunta: E depois desse período a senhora foi trabalhar na Fiação Agostinho Pontes? Onde era essa fiação?
Resposta:
Essa fiação é no Ipiranga, perto do Clube Atlético Ipiranga.
Pergunta: Por que a senhora saiu da Antártica?
Resposta:
Eu fui mandada embora. De ano em ano eles renovavam o pessoal. Eu trabalhei 5 anos lá.
Pergunta: Renovavam para pagar menos?
Resposta:
Sim.
Pergunta: Quando a senhora foi mandada embora, a senhora recebeu o fundo de garantia? Tinha ou não tinha?
Resposta:
Não recebi nada.
Pergunta: Entrou e saiu sem nada?
Resposta:
Sem nada. Não sei se eu estava por fora, ou se não tinha, mas não recebi nada.
Pergunta: O que eles alegavam à senhora quando foram despedir?
Resposta:
Eu fui despedida com trinta pessoas, num corte que fizeram. Eles falaram que estava fraco o serviço.
Pergunta: Quando a senhora saiu da Antártica, como foi para se manter?
Resposta:
Eu não fiquei nem trinta dias parada. Às vezes a pessoa saía do emprego em que estava para entrar em outro. Não é como agora.
Pergunta: Era fácil arrumar emprego?
Resposta:
Era fácil. Fiquei uns 15 dias. Meu pai falou para eu descansar um pouco e depois ir procurar. Eu fui nessa firma, tinha uma amiga que trabalhava lá, e ela falou que lá estava precisado de moças. Eu fui e no mesmo dia me pegaram e no outro dia comecei a trabalhar.
Pergunta: O que a senhora fazia lá?
Resposta:
A mesma coisa que eu fazia na Companhia Paulista de Linhagem, fui trabalhar na fiação.
Pergunta: Como a senhora aprendeu a trabalhar com fiação? Teve algum treinamento?
Resposta:
Teve. Quando entrei na primeira fábrica eu tinha 13 para 14 anos, e tinha a contramestra que me ensinou em 15 dias. Eu tive de aprender em 15 dias, que era a experiência. Se você não aprender, você vai embora. Eu aprendi e no Agostinho Gomes eu trabalhei até ganhar meu filho. Pesadona dele eu tomava o trem ali quatro e meia da manhã, porque eu entrava às cinco horas e saía à uma hora.
Pergunta: Como era trabalhar nessa época?
Resposta:
Eu trabalhei, primeiro que não era como agora, que toda hora você vai fazer exames, acompanhamento, essas coisas. Quando estava grávida ia uma vez ou outra e quando não estava bem ia ao médico. Eu esperava meu filho no fim de junho e os pagamentos eram feitos dentro das fábricas, não como agora, no banco. Todo dia 10 todas as fábricas faziam pagamentos, então eu falei para o meu marido que ia trabalhar até o dia 10 e depois do dia 10 eu ia parar, até o dia 15, porque esperava ele para o fim do mês. Quanto mais você trabalhava, mais você ficava em casa depois, porque eu tinha idéia de voltar, porque a gente tinha comprado a casa e precisava ajudar. Então, eu trabalhei até o dia 10, três dias depois ele nasceu. Trabalhei até o dia 10 de julho, e no dia 13, inclusive agora no dia 13 de julho ele vai fazer 54 anos.
Pergunta: E a senhora vinha grávida e a pé até onde?
Resposta:
Até a estação, de lá de cima.
Pergunta: Por quanto tempo a senhora caminhava?
Resposta:
De casa até aqui era uns 15 minutos, porque estava gorda, pesadona e não tinha condição de correr. Saía de casa mais cedo para não perder o trem, porque antigamente, nas fábricas era assim, agora não sei, mas acho que continua, se você perdesse o dia, você perdia o domingo, então eu não queria perder o domingo. Já que estava trabalhando, eu queria ganhar o domingo também. Então, eu levantava mais cedo e ia.
Pergunta: E se atrasasse um pouco na hora de entrar?
Resposta:
Tinha uma tolerância de 20 minutos que você podia atrasar.
Pergunta: Vocês recebiam na fábrica. Não tinha perigo de assalto?
Resposta:
Não. Eu vinha com o pagamento no bolso, porque não tinha nem bolsa. A gente vivia uma vida muito difícil, mas a gente vinha com o pagamento no bolso. Às vezes alguma colega que ia comprar as coisas pedia para levar o pagamento para casa porque ia ficar só com um pouco e depois pegava em casa. Tinha confiança uma na outra. Às vezes falo para meus netos, que tenho amizades de 50 anos e falo que hoje as amizades são muitas, mas as que servem são poucas. As pessoas hoje visam ao que você tem e não pelo que você é.
Pergunta: E nesse período todo de fábrica em que a senhora trabalhou, houve alguma greve, alguma revolta dos funcionários?
Resposta:
Nunca fiquei de greve. Trabalhei muitos anos e nunca teve essas coisas como tem agora.
Pergunta: E os filhos, como foi com as despesas médicas, a senhora pagou?
Resposta:
Não paguei nada. Tive meus dois filhos em casa. A fábrica pagou o que eu tinha direito, três meses e um salário família, que sempre recebi, mas não gastei nenhum tostão. Eu fiquei ruim à noite, arrebentou a bolsa. Os filhos antigamente eram criados completamente diferentes. Quando eu fui ter meu filho, eu não sabia direito como ele ia vir. Quando meu marido foi buscar a parteira, porque eu já tinha tratado com ela, que ela começou a me examinar, eu fiquei abismada, porque meu pai e minha mãe nunca conversaram nada dessas coisas com a gente, como vejo meus filhos e meus netos. Tenho um neto de 12 anos que conversa comigo e eu fico: Olha, olha. A minha criação foi outra. A minha mãe nunca comentou nada comigo. Eu tive os dois filhos em casa e tive bem. O meu filho mais novo, o Renato, nasceu com quatro quilos e duzentos gramas em casa. O outro nasceu menor, com menos de três quilos.
Pergunta: E quando era combinado com a parteira antes? Ela morava perto?
Resposta:
Combinei com ela antes e ela falou que quando arrebentasse a bolsa era para chamar. Meu marido, depois de casado, se formou farmacêutico, então ele sabia de tudo. Ele foi buscá-la e ela já veio e ele nasceu.
Pergunta: E ela cobrava pelo serviço dela?
Resposta:
Sim. Não lembro o valor.
Pergunta: E se houvesse alguma complicação no parto, como era feito?
Resposta:
Aí ia para a Santa Casa. Mas graças a Deus correu tudo bem e depois de dois dias estava boa e depois de uma semana já estava puxando água do poço.
Pergunta: Falando da família do seu pai e da sua família, quando a senhora era criança, com seis irmãos?
Resposta:
Nós éramos quatro. Três mulheres e um homem.
Pergunta: Havia doenças usuais de crianças? Como eram tratadas?
Resposta:
Eu tive um irmão que começou a sofrer ataque com 14 anos e minha mãe tratou dele na Santa Casa, em São Paulo, lá no Matarazzo. Mas, sem ser isso, nenhuma de nós teve problemas graves. Tinha gripe, alguma coisa, mas a minha mãe fazia chá e dava uma aspirina e nunca ninguém foi para médico.
Pergunta: Se precisasse de médico tinha de ir a São Paulo?
Resposta:
Aqui já tinha a Santa Casa de Santo André.
Pergunta: E tinha as benzedeiras também?
Resposta:
Tinha. Quando minha irmã era pequena, minha mãe falava que ela tinha bicha e levava na benzedeira e ela falava que ela tinha lombriga. Aí dava chá de erva de Santa Maria e leite com não sei o quê. Não é como agora, que toma injeção, toma isso, toma aquilo.
Pergunta: A sua mãe era descendente de italianos?
Resposta:
Ela era italiana mesmo.
Pergunta: De onde?
Resposta:
Da Sicília, era siciliana.
Pergunta: Ela falava italiano com vocês?
Resposta:
Alguma coisa ela falava, porque ela veio muito pequena. Meu avô ficou viúvo lá na Itália, com quatro filhos, e ele veio na imigração de italianos e trouxe os quatro filhos. Depois de uns quatro ou cinco meses aqui, ele casou-se novamente com uma italiana que também tinha vindo na imigração. Foi onde eles foram morar, não sei se vocês conhecem, Descalvado, perto de São Carlos e Araraquara. E são quatro irmãos por parte de mãe e pai e depois meu avô teve mais dez. Eles eram catorze irmãos.
Pergunta: A senhora conheceu seu avô?
Resposta:
Conheci meu avô e minha avó. Ela não era minha avó, mas a conheci como avó.
Pergunta: A senhora lembra em que ano ele veio para o Brasil?
Resposta:
Não lembro, mas a minha mãe tinha 4 anos. Minha mãe morreu com 67 e em janeiro fez 21 anos que ela morreu. A família toda da minha mãe eu conheço.
Pergunta: Tinha alguma canção, alguma música italiana que sua mãe cantava para vocês?
Resposta:
Lembro. Eu não sei cantar em italiano, mas era Mamma Mia. Ela cantava muito para a gente. A gente às vezes estava com a roupa um pouco curta e quando vinha alguém em casa ela mandava cobrir. Não podia ficar com a saia muito levantada. Ela falava: Cobre o corte.
Pergunta: Além da polenta e do macarrão, o que mais sua mãe fazia, de influência italiana?
Resposta:
Minha mãe fazia muito tortelli, tanto que nós todos sabemos fazer.
Pergunta: Como é?
Resposta:
É uma massa de macarrão. Não sei se vocês sabem fazer massa de macarrão, de farinha com ovos, não vai água nem nada. Você cozinha a moranga e você aperta bem a moranga, deixa de lado, pega bastante queijo ralado, não queijo de pacotinho, um parmesão bom, mistura com bastante queijo e você põe um pouco de pimenta do reino. Ela fica como um doce. Você põe numa vasilha e vai abrindo a massa com máquina de macarrão, que eu tenho até hoje, e faz como um pastel e cozinha uma galinha. Por costume da minha mãe a gente gosta de cozinhar uma galinha caipira com salsão e alezza, que a gente fala alho em italiano, e come com bastante molho. Ou você faz enxuto, cozinha ele e faz com molho de macarrão e polpetta.
Pergunta: Qual era a orientação religiosa que os pais davam para os filhos?
Resposta:
Nós somos católicos. Todos nós fizemos primeira comunhão, minha mãe nos ensinou sempre na religião católica.
Pergunta: A senhora estudou até a quarta série?
Resposta:
Só até a quarta série. Não podia estudar mais porque tinha de trabalhar.
Pergunta: Quando vocês compraram a casa de vocês, como foi?
Resposta:
Nós moramos nessa casa um ano. A pessoa comprou da companhia, porque em Utinga tinha o Mário Guindani, que tinha muitos terrenos. Metade de Utinga era dele e ela comprou dele. Só que ela não quis ficar aqui mais, queria mudar de Utinga. Nós moramos um ano lá de aluguel e depois ela veio oferecer para nós.
Pergunta: E as transformações da cidade? Quando a senhora vinha mato adentro até o trem, o que marcou mais a senhora, a construção, a arquitetura, que mudanças na cidade?
Resposta:
A cidade está uma cidade, porque quando vim morar em Utinga só tinha dois mercados, um em Camilópolis e outro na Avenida Utinga. Eram duas vendas, nem mercado era. Agora eu acho que expandiu, nós temos Extra, Carrefour, Pão de Açúcar, muitos mercados. Só que não é como naquele tempo. Você não vê mais uma rua sem asfalto, só que pelos anos que moro em Utinga, lá deveria estar melhor. Tinha de se emancipar de Santo André.
Pergunta: A senhora tem a lembrança de quando puseram uma linha de ônibus e a senhora não fazia mais o trajeto a pé?
Resposta:
Acho que foi em 1958, por aí, porque em 1954 não tinha linha de ônibus. Um dos primeiros ônibus, não era nem ônibus, mas uns microônibus que vinham de Camilópolis até a estação. Logo em seguida virou um ônibus, onde é a Praça Santa Maria Goretti, e matou muita gente. Até ontem estava comentando com meu filho, que foi um dos primeiros acidentes de Utinga, onde morreram nove pessoas. Mas não tinha, porque meu marido trabalhava e quando ele perdia o trem, às vezes ele pegava um serviço, uma injeção para fazer fora, porque não é como agora, ele fechava a farmácia, e ele perdia o trem, porque o último trem saía às onze horas da Mooca, ele vinha de ônibus e descia aqui e ia a pé porque não tinha condução. Ele trabalhou também aqui em São Caetano e não tinha condução para Utinga. Tinha de ir a pé.
Pergunta: E para comprar roupas, essas coisas, era em São Paulo ou Santo André? Era comum ir ao centro comprar roupas?
Resposta:
A gente não ia muito não. A gente ia mais para São Paulo, ali na 25 de Março. Mesmo quando tive meus filhos, aqui não tinha posto de saúde. Eu ia ao Brás, no Largo da Concórdia, onde tinha um posto de saúde, isso 50 e tantos anos atrás. Quando ele ia trabalhar, ele me ajudava a levar a sacola dos meninos e eles eram matriculados no posto de saúde do Brás. Agora tem um ao lado da minha casa.
Pergunta: Quando a senhora saiu do Agostinho Gomes a senhora voltou a trabalhar?
Resposta:
Não voltei mais a trabalhar porque não tinha condições, porque ele mamava. Mas eu sabia costurar um pouco, porque minha mãe me ensinou, e continuei a trabalhar. Eu ia buscar roupas na José Paulino, ele me comprou uma máquina e eu costurava em casa. Aprendi a costurar no overloque, tinha uma oficina em frente de casa, eu levava meu menino num caixote, ele ficava lá sentado e eu costurando. Sempre trabalhei.
Pergunta: Quando a senhora ia à Rua José Paulino, a senhora trabalhava em alguma oficina lá?
Resposta:
Eu ia buscar a roupa e costurava em casa. Toda segunda-feira eu levava o que eu costurava durante a semana, que era calça jeans.
Pergunta: Se a sua mãe era tão rígida e seu pai também, como foi namorar, conhecer alguém os amigos? A senhora ia ao cinema?
Resposta:
Eu sempre gostei de baile, até hoje. Eu comecei a fugir de casa para ir dançar e meu pai falou que não precisava fugir, porque ele me levava. De vez em quando meu pai me levava. Eu e ele morávamos na mesma rua, e eu comecei a namorar ele quando tinha 14 anos, mas ele que começou a namorar comigo. Eu tinha muita cólica e eu ia à farmácia comprar Cibalena e ele vinha logo me servir e ele ficava segurando no meu dedinho, porque queria falar comigo. Eu não queria nem saber porque tinha medo do meu pai, porque não podia namorar. Eu trabalhava e passava na porta da casa dele e todo dia ele ficava na janela me espiando. Todo dia ele falava: Você ainda vai ser minha esposa. Que esposa, você está por fora!, eu falava. Aí começamos a namorar e estamos até hoje. Aí eu saía para encontrar com ele escondida, de dia. Uma vez eu saí à noite, não sei se vocês sabem onde é a Igreja dos Enforcados, na Liberdade, onde fazem a feira dos japoneses aos domingos, e eu fui com ele dar uma volta e só a minha mãe sabia. E ia chover e a minha mãe mandou meu irmão atrás de mim com guarda-chuva. Nisso ele falou que meu irmão estava vindo, e a gente nunca tinha se beijado e nisso nós nos escondemos atrás do poste e ele me deu um beijo. Mas não era beijo como agora. Ele me deu um beijo e eu fiquei tão envergonhada que eu saí correndo. Era um beijo vagabundo. Eu fiquei morrendo de vergonha, porque imagina beijar no meio da rua! Acho que umas duas ou três pessoas viram e eu ia ficar falada e moça que ficasse falada naquele tempo não casava mais. Aí a gente começou a namorar e eu contei para a minha mãe e ela falou que eu não devia ter feito isso. Ela contou para o meu pai e ele falou que era para ele vir aqui. Meu pai era um baianão bem severo. Aí começamos a namorar em casa, mas nunca..., o namorei uns três anos porque era bem novinha e meu pai não me deixava casar, mas nunca o namorei no cinema à noite. Depois nós mudamos para cá e a gente ia ao cinema na Rangel Pestana, onde era o Cine Piratininga. A gente só ia de dia e tinha de levar minha irmã junto.
Pergunta: O que a senhora lembra de alguma dificuldade no tempo da ditadura militar?
Resposta:
O tempo da ditadura militar foi duro, mas para nós que já éramos casados, até que foi dura mas foi boa, porque as coisas ficaram sempre na mesma coisa. No tempo da ditadura nós já éramos casados, tudo isso, a gente comprou terreno, compramos mais uma casa, ele já trabalhava. Foi difícil, só que as coisas de comer ficaram controladas, você não podia comprar tudo à vontade.
Pergunta: Qual foi a maior dificuldade no racionamento? O que mais foi racionado?
Resposta:
A comida.
Pergunta: O que era mais difícil de comprar?
Resposta:
Mantimentos.
Pergunta: Teve black-out em Santo André ou em Utinga?
Resposta:
Acho que sim. Não me lembro bem, mas acho que tinha.
Pergunta: Alguém avisava que ia ter?
Resposta:
Avisavam no dia que não ia ter. Parece que não avisavam.
Pergunta: Tinha remarcação de preços nessa época?
Resposta:
Não tinha.
Pergunta: E como vocês compraram a casa? Foi financiada?
Resposta:
Nós compramos com o dono mesmo. Nós não tínhamos dinheiro, então quando ele ofereceu meu pai ajudou, uma tia, irmã da minha mãe, estava muito bem e a gente comentou com ela e ela era uma pessoa iluminada, boa, e quando ela soube, ela emprestou o dinheiro e falou que a gente pagava quando a gente pudesse. A gente juntou, cada um deu um pouco, meu pai de um pouco, eu trabalhava, ele, e a gente comprou, mas não a vista. A gente deu a entrada que ela queria e começamos a pagar um pouco por mês.
Pergunta: Quanto tempo vocês demoraram a pagar?
Resposta:
Acho que dois anos. Depois de uns anos a gente mudou. A vida foi melhorando, a gente alugou uma casa, mudamos e fizemos a casa que eu tenho hoje.
Pergunta: A senhora se aposentou?
Resposta:
Eu sou aposentada. Depois a gente comprou uma farmácia e ele me registrou na farmácia e faz quatro anos que consegui minha aposentadoria.
Pergunta: Nós estamos terminando. Gostaria que a senhora deixasse uma mensagem, o que a senhora quiser.
Pergunta: A minha vontade é que os jovens hoje tenham a cabeça no lugar, estudem bastante, aproveitem enquanto os pais podem ajudar. Que Deus abençoe todos vocês, todos os minutos da vida de vocês. Que um dia Deus queira que vocês nunca passem o que eu passei para ter o que eu tenho. Que Deus abençoe a todos vocês. Nunca façam coisas erradas, sempre no caminho do bem, porque graças a Deus eu tenho nove netos maravilhosos e acho que eles se espelharam no pai e na avó. Meus netos são estudiosos e inclusive tenho dois netos que se formaram aqui no ano passado, um que é advogado e outro que se formou em São Bernardo. Graças a Deus meus netos não usam drogas, não bebem. É o normal como um moço qualquer. Espero que Deus ajude para que vocês sempre tenham a cabeça de vocês no lugar e que vocês passem isso para os filhos de vocês. Eu já estou com a minha missão cumprida e daqui para frente Deus é que sabe o que está reservado para mim, só que muita coisa eu não vou ver, porque meu tempo já está terminando, com 76 anos, mas quero que vocês sejam alguém na vida. Muita cabeça no lugar e aproveitem a ajuda dos pais de vocês e ajudem as pessoas que ajudam vocês.