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Universidade Municipal de São Caetano do Sul, 08 de julho de 2005.
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Vilma Lemos e Eduardo Chaves.
Transcritores: Meyri Pincerato, Marisa Pincerato e Márcio Pincerato.
Pergunta: Por favor comece falando a data e local de seu nascimento e nos conte um pouco sobre a sua infância, seus pais, seus irmãos.
Resposta:
Nasci em Tietê, no dia 10 de maio de 1945, meu pai é pequeno agricultor, minha mãe doméstica e uma ascendência toda, nos dois ramos, de italianos, com meu avô chegando da Itália nas condições que todos sabemos, de todos imigrantes italianos, e vai para o interior de São Paulo para ajudar na colheita do café. Eu me lembro, quando criança, que a gente tinha muita plantação de café, mas depois, com o passar do tempo essas coisas foram se diversificando. Meu grupo escolar foi numa região próxima a Tietê, Jomirim, depois o ginásio eu faço em Tietê e termino o ginásio e nesse momento tinha tios que já moravam em São Paulo, pelo lado da minha mãe, e sabia que na nossa vida, se continuasse lá, seria no máximo, eu me tornaria uma professora primária que era o que Tietê oferecia, no máximo, como escola. Então, eu já tenho uma inquietação e penso que queria um pouco mais da minha vida. Em casa nós éramos nove irmãos, eu era a mais velha da família e logo no ano seguinte já tive minha irmã que foi muito companheira, e eu decidi não ficar em Tietê. A gente pensou em tios que já moravam em São Caetano e queria vir fazer, num lugar onde eu tinha uma certa estrutura de família ainda, porque naquela época, em 1963, mulher do interior, menina ainda. Nós escolhemos São Caetano porque eu tinha uma tia que morava em São Caetano e eu e minha irmã chegamos a fazer o científico. Eu não consigo lembrar o nome desse colégio, um colégio estadual que fica na Avenida Goiás, ao lado do Teatro Santos Dumont.
Pergunta: Bonifácio Carvalho?
Resposta:
Isso. Então, hoje é um teatro, mas naquela época ainda era uma sala, um anfiteatro que ainda pertencia ao Bonifácio de Carvalho.
Pergunta: E sobre a sua infância, seus avós eram italianos. Você tem alguma história relacionada a eles sobre esse período pós-guerra? Seu pai é brasileiro?
Resposta:
Meu pai é brasileiro e minha mãe também.
Pergunta: Quais os nomes deles?
Resposta:
É Natale Ivo e minha mãe é Marina.
Pergunta: E a sua infância em Tietê, o que teve de influência italiana? Falava-se italiano? O que era comentado sobre a guerra?
Resposta:
Ao lado de Tietê fica um bloco de famílias de italianos que acabaram chegando lá. Até o nosso sotaque de falar leite quente, como eu tenho ainda, a gente foi achar parecido lá em Caxias do Sul, porque Tietê e Piracicaba falam pior essa coisa, e a gente não tem esse pior, mas a gente tem o leite quente. Então, isso foi se aproximar muito com o som dos italianos de lá, porque nessa região de Jomirim tenho muitos familiares. A gente se conhecia, era primo, tio, tia, formando uma colônia italiana, com costumes italianos. Meus avós, entre eles a conversa era em italiano, com meu pai era em italiano, mas o meu pai nunca conversou em italiano com a minha avó. Ela falava em italiano e ele respondia para ela. E a gente, eu também só entendo o oral do italiano, porque eles falavam muito, mas era muito mais entre eles. Era uma coisa meio de vergonha falar italiano. Minha avó paterna era aguerrida politicamente, mesmo se fosse na Prefeitura para eleger Prefeito, Governador, eu lembro desses radinhos, esses rádios que eram ligados em bateria de acumulador de caminhão, então nós tínhamos um rádio porque a gente estava em um sítio e esse sítio não tinha energia elétrica, mas tinha esse acumulador de energia elétrica e lembro do meu avô e minha avó ficar escutando ondas longas, ondas não sei que, para acompanhar o noticiário, o que acontecia no mundo. Quer dizer, eu não tenho idéia de que notícias, porque eles ouviam em outras línguas. Lembro desse lado. E politicamente a minha avó era muito engajada, digamos assim, no interior de São Paulo, cidade pequena, sem jornal, dentro dessas condições.
Pergunta: E você tem lembranças da culinária italiana da sua infância? Dá para descrever como era, como faziam?
Resposta:
Lembro. Tudo era feito dentro do sítio. Meu bisavô veio e plantou uva e ele colhia uva e fazia vinho. Isso foi uma herança que até hoje, lá no sítio dos meus pais, tem ainda um resquício da uva que meu pai plantou. Faz nove anos que ele está morto, mas ele cuidou e até o último ano, no dia exato, ele ia cortar, podar as uvas. A gente tinha todos os costumes, quer dizer, a gente só veio a saber depois, mas a forma de alimentação, a formação, era o arroz, a verdura, mas você tinha muita verdura na sua dieta, a polenta era diária.
Pergunta: Como era essa polenta, como cortava?
Resposta:
Você a fazia na hora, tinha de misturar e ficar cozinhando durante meia hora essa polenta que você comia quentinha. Um outro jeito era essa polenta que já tinha esfriado, você grelhava e era uma grelha onde você colocava a brasa embaixo e nessa grelha você cortava as fatias e comia a polenta grelhada que a gente chamava de brustolada, que é uma palavra aportuguesada. Aí era feito o queijo. Meu pai e meu avô faziam lingüiças deliciosas. Era costume deles matar o porco e fazer. O dia de matar o porco era o dia em que todo mundo parava para matar o porco e cuidar disso, de fazer a lingüiça, se fazia o corredino, toda uma tradição que eles traziam e que hoje eu falo grego. É uma coisa que na nossa região, se você for lá, ainda tem muita coisa.
Pergunta: Não havia geladeira. Como é que, matando um porco, vocês conservavam?
Resposta:
No sal. Ou você, uma boa parte você salgava e colocava em cestos com folhas de bananeira, camadas e camadas no cesto. Outro jeito era cozinhar tudo, pedaços da carne que você cozinhava, ao mesmo tempo em que você curtia a banha, o toucinho, você também mergulhava essa carne nessa banha e guardava em vasilhas e você ia tirando, à medida que você necessitava.
Pergunta: Essa polenta que sua avó fazia era despejada numa tábua e cortada com barbante?
Resposta:
Ela colocava numa tábua grande e redonda, mexia com uma enorme colher de pau também. Eu sempre vi minha avó cortando com faca normal, mas eu conhecia quem cortava com o fio de barbante. Tinha tios e tias mais velhas que meu pai, da família do meu pai, então esse pessoal mais antigo ainda cortava com barbante.
Pergunta: E canções, alguma coisa italiana de influência?
Resposta:
Eu não lembro. Sei que era uma família muito gostosa e alegre. Na época, por essa situação de plantação de café, colheita de milho, de algodão, se não era no nosso sítio, era no sítio do tio ou do primo, existia muito essa coisa de trabalho de mutirão, que era uma coisa muito bonita. A colheita do café, você tem de colher antes de julho porque era o período para terminar antes da chuva. E todos iam fazendo no seu e à medida que uma família terminava o seu, já passava para o próximo parente, outro parente ou amigo, mas terminava em um grande número de pessoas e aí na casa da família aonde iam essas famílias para o mutirão, as mulheres faziam grandes panelas com comida para atender todo mundo. À tarde tinha um bolinho, parecido com bolinho de chuva, mas nós chamamos de crostoli. É uma coisa de farinha, que mexia e as minhas tias e avós faziam em grande quantidade em cestos, apesar desse crostolli ser feito em algumas ocasiões, não era sempre, mas nessa época de mutirão, de grande trabalho, se fazia para alimentar todo esse pessoal, porque pão era uma coisa que a gente não tinha no cotidiano. Tinha de fazer, porque na padaria você só ia buscar no fim de semana. As pessoas não tinham muito, então faziam outros costumes. Tinha muita mandioca, batata doce, abóboras, mas você não tinha o pão, porque pão era uma coisa, quase que só no domingo que a gente comia pão.
Pergunta: A sua alfabetização foi em Jomirim?
Resposta:
Era um grupo escolar normal, e toda a população ia para lá.
Pergunta: Como foi o curso?
Resposta:
Lembro que a gente estudou a cartilha Caminho Suave e era uma coisa muito alegre, uma época muito boa, em que a gente era feliz e não sabia. Então, havia muitas festas, à noite a gente tinha muitas cantigas de roda, e nós crianças ficávamos brincando com os adultos, que eram moças e moças, e daí que aconteciam os namoros, e os bailinhos com sanfona. Se não me lembro das canções, me lembro das brincadeiras que existiam, dos adultos, nos dias em que juntavam a colheita. E era essa mesma população de crianças que iam para a escola. Era uma coisa muito gostosa, muito prazerosa. Todas as festas, antes de entrar para a aula a gente cantava, todos os alunos reunidos em fila, e todo mundo cantava antes de entrar; tinha dias em que cantávamos hinos cívicos, então você tinha de cantar. Era uma coisa muito boa. Sei que participei muito. Era uma coisa normal, fosse Tiradentes, dia da primavera, festa de fim de ano, a gente sempre tinha uma declamação, ou sempre estávamos cantando. E eu fazia isso com muito prazer.
Pergunta: Você e sua irmã vieram para a casa das tias ou veio sua família toda?
Resposta:
Não. Nem viemos para a casa da tia. Nós ficamos morando muito próximo à minha tia, mas a gente alugou um quarto e cozinha. Nós tínhamos poucos anos, mas a confiança que eles tinham era tanta, e nem era o grande desejo do meu pai. Para ele foi um grande sofrimento, ele falava que chorou muito atrás daqueles pés de café por saber que tinha duas meninas aqui em São Paulo. São Paulo era sempre assim, eram quatro horas, na minha época, em 1963, eram quatro horas de ônibus e ainda tinha de pegar o trem até chegar na Vila Gerti, Vila Paula, onde a gente morava.
Pergunta: A grande incentivadora da vinda de vocês foi sua mãe?
Resposta:
Ela apoiou. Ela também achava que não valia a pena à gente ficar lá onde estávamos, ficar lá para fazer a mesma coisa. Ela apoiou, endossou. Meu pai veio trazer a gente e foi fazer a matrícula na escola. Mas ele falava que à noite ele lembrava de um fundo escuro e não sabia onde a gente estava. E era de fato uma coisa, o telefone era uma coisa rara, a gente poder fazer uma ligação. Para eu poder fazer uma ligação para lá, quando morria de saudades, tinha de falar com a telefonista e ela falava que daqui quatro horas a ligação ficava pronta. Às vezes, quatro horas depois não era possível chamá-los, não sei o quê. O tempo, quarenta e poucos anos, sessenta anos meus, mas quarenta e poucos anos da minha mudança para São Paulo, para São Caetano, o mundo mudou numa velocidade incrível.
Pergunta: Como era a Vila Gerti nessa época, quando você chegou?
Resposta:
Era um pessoal, muita gente morando no ABC e tinha a General Motors, as indústrias de automóvel chamando muita gente, então tinha um tio que trabalhava na GM, como ferramenteiro. Era uma região bem de operários, com uma vendinha na esquina. Essa Vila Paula tinha um córrego a céu aberto, com muitos ratos e entulho. Isso foi em 1963, e eu vou trabalhar na General Electric quando chego. Eu faço o científico à noite. Éramos eu, minha irmã e mais três mulheres numa classe de 40 meninos. Minha irmã falava que parecia que a gente estava no exército, porque quando a gente ia tomar o ônibus, às onze da noite, para ir para casa, eram poucas as mulheres. A gente tinha 40 homens para 5 meninas no científico, porque a maioria fazia o clássico, porque a gente podia optar. A gente foi para o científico, tanto eu como minha irmã. Era esse panorama, mas era uma cidade de muita gente vindo para São Caetano e a Vila Gerti era bem pobre, de operários.
Pergunta: A Vila Gerti era pouco construída, tinha menos casas?
Resposta:
Era menos, mas São Caetano sempre foi um município com pouca extensão de terra e a partir da indústria automobilística São Caetano começa a asfaltar ruas. O Governo Walter Braido começa a abrir uma escola atrás da outra, onde o slogan naquela época era "São Caetano, onde escola não é problema", e realmente não era, porque todas essas escolas que existem hoje foram feitas naquela época, num boom de escolas. O IMES é desse período, ou logo depois; a Fundação das Artes também nasce com um prédio que tinha sido feito, não se sabia bem para que, mas a Fundação das Artes não está ainda no meu plano. Eu trabalho três anos na General Electric em Santo André, e à noite fazia o curso científico e minha irmã trabalhava na Pan. Ela tinha mais sorte, era mais perto. Trabalhei por três anos, depois cansei, porque não era, não tinha perspectiva.
Pergunta: Com quantos anos você veio para cá?
Resposta:
Eu não tinha 17 anos completos.
Pergunta: E sua irmã?
Resposta:
Um ano mais nova.
Pergunta: E qual era a sua área de trabalho na General Electric?
Resposta:
Auxiliar de escritório no departamento de expedição.
Pergunta: Qual era a rotina do escritório?
Resposta:
A rotina era tirar nota fiscal, porque eu trabalhava na parte de geladeiras, então você tinha a emissão de nota fiscal. Era um trabalho com máquina elétrica, e você pensava e saía, para quem fez datilografia com as Ollivettis de antes, quando chegava na máquina elétrica, quando a gente pensava a letra já estava no papel. Era um sofrimento nos primeiros momentos para se adaptar. E também, num mundo de homens, eram poucas mulheres. E da minha janela a gente via passar os grevistas, os primeiros movimentos de greve, quando paravam. Eu lembro assistir, da minha janela, os primeiros grevistas passando na rua, que eram os primeiros movimentos políticos nascendo em Santo André.
Pergunta: O que diziam as pessoas sobre esses movimentos? Como a população encarava?
Resposta:
No começo tudo era um pouco assustador. Embora eu tivesse pessoas dentro da seção, tinha um moço que era sindicalista, então tinha uma atitude política bem forte, contestava, e a gente ficava ouvindo ele falar forte, então a gente ficava entre o medo e uma admiração. E a partir daí começa a engrossar. E no próprio Bonifácio Carvalho já tinha as pessoas, os cursos de oratória, então já era um pessoal engajado, o pessoal do clássico, e a gente ia com esse pessoal para ver as reclamações, ou os discursos. Era uma coisa que já existia. Também já começa a formação do movimento, alguns colegas já começam a se engajar e tudo era motivo de engajamento.
Pergunta: A General Electric se localizava em que lugar? Como era o sustento de duas moças aqui?
Resposta:
Ela ficava ali no início de Santo André, na entrada de Santo André. A gente veio, as duas moças. Meu pai não tinha posses e quando a gente veio ele deixou setenta, vamos dizer, reais, mas acho que eram cruzeiros, que era o dinheiro que ele tinha no bolso, porque era uma época que plantavam e colhiam, mas como sempre é uma coisa que muda, você não tinha um grande retorno, não era para lucrar, mas para subsistência, e a gente já veio trabalhando e ganhando e a gente tendo de se manter.
Pergunta: Esses setenta cruzeiros davam para se manter? E o que vocês ganhavam na fábrica dava para fazer o quê?
Resposta:
A gente ganhava, acho que eu ganhava 300 cruzeiros. Dava para se manter. Não sobrava nada. Você tinha de pagar o aluguel, se alimentar, se vestir e pagar o ônibus. A gente não recebia nada do meu pai, porque ele não tinha condições, e a gente, se possível, se sobrasse, a gente pensava nos irmãos, na família lá no interior. A gente se mantinha aqui. Era essa nossa vida.
Pergunta: Como era a vida nessa época na questão das músicas, do rádio e do teatro?
Resposta:
Era tudo muito precário. A nossa cabeça ainda estava no interior. Se a gente pudesse, estava lá. Nessa época começam as novelas, Direito de Nascer, a televisão e grandes novelas. No rádio começa a Jovem Guarda, começam os festivais de música popular. É nessa época ainda que a gente está no científico e que Morte e Vida Severina ganha um festival e a gente ajuda, vamos à rua, para pedir dinheiro para trazê-los, porque eles fizeram essa peça linda, Chico Buarque, essa coisa, o grupo vai, não era o Teatro de Arena, mas era esse teatro, um núcleo de pessoas que vai para Nante e essa peça ganha o festival, mas eles não têm dinheiro para voltar. Foi e não voltava. A gente começou a fazer, na escola, uma grande movimentação. O nosso lazer não era. Tinha peças de teatro no ABC do Teatro de Alumínio, tinha muito teatro amador. Quer dizer muito, já existia e você sabia e era isso que a gente freqüentava. De vez em quando a gente ia ver alguma coisa em São Paulo, mas São Paulo ainda significava você se organizar, meio dia para ir e meio dia para voltar, para você ver um filme, alguma coisa. Mas nós duas, como duas meninas, a gente tinha muito medo. Ir para São Paulo e voltar, eu não sei a que horas, descer a Ladeira Porto Geral para tomar ônibus no Parque D. Pedro para ir embora. Embora nunca tivesse acontecido nada, era outro tempo, mas tinha o medo das meninas do interior, pelo menos no começo, até a nossa adaptação a São Paulo.
Pergunta: E a questão da música, você se lembra de alguma coisa, você ouvia rádio?
Resposta:
Ouvia. Rádio era uma coisa que a gente ouvia muito. Eram todas aquelas músicas de Ray Conniff, Pat Boone, começa o rock, Neil Sedaka, quer dizer, que já existia em Tietê e continua existindo aqui, Elvis Presley, essa música que começa a existir.
Pergunta: E vocês tinham rádio?
Resposta:
Sim. Rádio era um equipamento necessário.
Pergunta: Vocês tinham televisão em casa?
Resposta:
Ainda não. Televisão foi uma coisa que não era muito a nossa. Lá em Tietê, enquanto a gente estudava, eu tinha, porque a gente morava na casa do meu tio e vinha a população inteira para assistir. Eu vi muita televisão em Tietê, mas quando viemos para São Paulo nós vimos muito pouco porque nós não tínhamos televisão na nossa casa.
Pergunta: Como trabalhadora, você tinha registro em carteira, todos os direitos?
Resposta:
Tudo. A General Electric era direitinho, a Jovem Pan também era direitinho e era carteira assinada sem nenhum problema.
Pergunta: E namoro?
Resposta:
Era outra coisa que a gente tinha muito medo. São Caetano era uma cidade que tinha muitos homens e a gente tinha muitos paqueras. A minha irmã era muito bonita e na época, era a época da Jovem Guarda, o Jerry Adriani morava aqui e ele paquerava a minha irmã e quando terminava a nossa aula no Bonifácio Carvalho a gente tinha de ir até a Prefeitura, onde passava o ônibus que subia até a Vila Gerti. E aí, toda a tropa de estudantes ia para lá e ele saía, porque ele também estudava no mesmo colégio e paquerava a minha irmã. Ele ficava de camisa vermelha e a gente o achava um bobão. A minha irmã ficava muito brava porque a gente saiu de lá e a gente não queria nada com nada. A gente era muito certinha e a gente tinha muito medo dessa cidade grande, longe da família. Nós nos policiávamos muito mais, porque quando chegava no interior a gente se soltava. Lá a gente ia ao bailinho, encontrávamos os velhos amigos, saía de noite para encontrar, embora tivesse hora para chegar em casa, mas aqui a gente morria de medo.
Pergunta: E vocês iam a bailes aqui?
Resposta:
Aqui não, muito raramente. Tinha o Baile Branco, o Baile da Pipoca, que era o centro acadêmico que fazia, com a elite de São Caetano, mas se a gente foi a um ou dois, foi muito. Embora fossem as famílias e a gente já conhecia várias famílias, o próprio diretor do Bonifácio Carvalho tinha filhas que estudavam com a gente, a gente sentia uma certa proteção das meninas. Eles se dispunham a levar a gente, mas a gente não entrou muito nessa.
Pergunta: E o cinema no ABC?
Resposta:
São Caetano tinha dois cinemas na época, o Cine Vitória e o Cine Lido. O Cine Lido tinha uma freqüência melhor. A gente até ia mais nele. Depois ficou tudo igual e a gente freqüentou muito o Cine Vitória. Mais tarde mais dois irmãos vieram, mas eles também ficaram pouco tempo conosco, moravam um tempo com a gente, então minha irmã saía mais com o irmão e ia mais.
Pergunta: Existia algum ritual especial no cinema?
Resposta:
Você sempre se produzia. Não era caro. Você nunca pensava para ir ao cinema. Hoje eu acho que é muito mais caro do que antigamente. Antigamente você ia ao cinema sem pensar, porque com o dinheirinho que você tinha, você entrava. Aos domingos você se produzia para ir. Era sempre um ritual diferente. Não era como hoje, que você sai da fábrica e você vai, mas na época de estudante, da escola, às vezes à noite a gente furava a escola e ia ao cinema. Mas aí você ia com seus colegas.
Pergunta: Você lembra de algum filme?
Resposta:
Eu vi um filme lindo, Candelabro Italiano que tinha música e tudo. A gente via filmes românticos. Lembro uma vez que fui ver um filme francês, do cinema novo francês e que achei horrível. Era uma coisa que chocava um pouco, porque você via aquelas coisas românticas e bonitas e depois vem um filme francês que coloca outras situações.
Pergunta: Como eram as salas de cinema? Eram grandes?
Resposta:
Eram sempre muito grandes. Salas grandes. Ou você ia ao cinema em São Paulo. Aí eu ia com meus tios que moravam em São Paulo, a gente ia ao Cinerama, onde você vê aquela tela grande, aquele cinema com efeito. Os cinemas eram enormes e aí sim você tinha um ritual para ir ao cinema, os grandes cinemas de São Paulo na São João. Aí tinha um certo ritual.
Pergunta: Qual era o ritual?
Resposta:
Você se arrumava melhor, com uma roupa de domingo, para ir ao cinema. Era diferente. Você se preparava para ir.
Pergunta: E a Vera Cruz? Você tem lembranças?
Resposta:
Aí também era uma outra coisa. A gente sabia da existência, das chanchadas. A gente via muitos filmes do Oscarito, da Eliana. Isso também era uma coisa que a gente via.
Pergunta:
A freqüência a essas salas de cinema era grande? Era lotado?
Resposta:
Na época era lotado.
Pergunta: (Inaudível)
Resposta:
Eu tenho duas situações bem distintas. Meus avós paternos não tinham muita ligação com a religião. Tinham apenas o formal. Meus avós maternos eram profundamente religiosos, de todos os ritos religiosos, minha avó era muito fervorosa, devota, e tenho uma tia, irmã de minha mãe, uma das mais novas, que foi para o convento e é madre. Era uma coisa muito fervorosa de rezar, de ter oração, é pecado, era essa coisa antiga, mas por outro lado, do meu pai, não tinha nada disso. Se para a minha avó baile era pecado, meu pai dançava maravilhosamente, ia para baile e tudo isso, na época de solteiro. Quando ele casa com a minha mãe ele já vai menos, porque aí já é o marido e minha mãe não vai a baile e ele deixa de fazer isso. Tenho os dois lados e cumpri todos os caminhos da religião, fui batizada, crismada, fiz primeira comunhão, catecismo, missa todos os domingos, embora nem sempre lá em Jomirim tivesse missa todos os domingos, você tinha uma certa obrigação da religião. Na semana santa tinha aquele ritual bonito de na quinta-feira você se preparar para a sexta-feira santa, nada se faz, não se faz barulho, a casa fica toda escura, os santos ficam cobertos, jejum, não as crianças, mas os adultos jejuam, não comem isso e aquilo, e depois a festa de aleluia, baile de aleluia, queimar Judas e tudo isso. Era uma coisa muito bonita que a gente participava. E aí teve a integração dos católicos em geral, a minha avó muito mais fervorosa, mas a outra tinha a parte profana que ela adorava. Nós morávamos muito mais próximos dessa avó que não tinha a religião como ponto de partida. Quando viemos para o ABC, para São Caetano, perto de onde a gente morava tinha uma igreja, na Vila Gerti; e a gente freqüenta essa igreja todos os domingos. E foi uma coisa muito interessante, porque se a gente tinha tia freira, o colégio de freiras perto do Bonifácio Carvalho, a minha tia era diretora desse colégio, quando eu vim para São Caetano. Ela também foi professora de geografia, faz faculdade e é freira. E aí a gente freqüenta, eu e minha irmã, freqüentamos uma igreja que fica perto da Vila Gerti, todos os domingos. Era uma coisa que foi muito boa para a nossa cultura. Se de um lado a ciência, a religião fala que não, que Deus escuta, tem toda essa vivência. Tinha um padre espanhol que era o pároco dessa igreja, e na missa que a gente ia aos domingos, na hora do evangelho, ele ia para frente e pegava uma lista e a gente morria de rir, porque ele lia família tal, mil, família tal, mil. Na hora do evangelho ele só lia a relação das famílias que tinham entrado com dinheiro. Se você falar com a minha irmã, esse mil está na nossa orelha. Aí, quando a gente voltava da escola, na época o Aero Willis era o carro top, ele tinha um Aero Willis, e quando a gente voltava, à noite, da escola, a gente via esse padre circulando. Para nós que tínhamos a religião como sustentáculo de toda a vida, quando você vem para cá, embora tinha minha tia que era freira, você tem também esse padre, que a gente vê e fala: O que ele está fazendo na rua nessa hora? De onde saiu esse carro, que toda missa ele fala mil e mil para sustentar a igreja? E daí a gente não tem mais nada a ver com a religião, respeitamos, mas não freqüentamos, não levamos mais a sério. Eu e minhas outras irmãs nos casamos em igreja católica, e a gente respeita, minhas filhas se batizaram, quiseram ser batizadas quando tinham 9 anos, porque a gente já partiu para uma outra. A gente respeita, mas nos distanciamos e todo aquele fundamento foi para o brejo.
Pergunta: Nesse período no Coronel Bonifácio Carvalho, nessa escola pública, como eram as leituras? Os professores tinham um grau de exigência com as leituras? Que leituras eram? Como era o relacionamento com o professor e colegas?
Resposta:
A gente era muito próximo. Não sei, éramos nós, mas tínhamos ótimos professores de português, ele era um pouco louco, mas era ótimo. Tinha filosofia na escola. Não saberia falar se fomos nós ou pela escola, mas a gente leu muito. Nós lemos muito. Eu lembro que com 12 anos, lá no interior, onde não tinha acesso a muita coisa, a minha família materna, meu avô lia muito e minha avó era analfabeta de escrever, mas ela lia livros. A escrita, a grafia de livros ela lia. Ela não sabia escrever, mas ela lia livros loucamente. Eu lembro que aos 12 anos eu não tinha o que ler e fiquei lendo a Bíblia, o Velho Testamento, e me assustei com tudo aquilo que tinha de ficção, que parecia ficção, de tão assustador, aterrador, naquilo tudo que estava na Bíblia. Lia também Pato Donald. A gente lia o que caísse na mão. A gente já veio com isso. A gente lia muito.
Pergunta: Que livros esses professores aqui na escola pública pediam?
Resposta:
A gente leu muito Graciliano Ramos, autores brasileiros, Jorge Amado. Não tenho muito sistemático o que a gente lia.
Pergunta: Era fácil, havia livros disponíveis? E qual autor mais marcou você?
Resposta:
Não sei se tenho quem marcou. Na época não saberia quem marcou, mas tenho muito presente o Graciliano.
Pergunta: Era fácil ter os livros?
Resposta:
Não era muito fácil, mas a gente podia comprar. Não era fácil porque você não tinha livrarias. Eu lembro que para comprar livros eu ia à livraria, mais de ciências sociais e políticas, na Rua Aurora, perto da Praça da República, onde você entrava e você tinha onde os livros estavam proibidos. Eu tinha diários do Che Guevara, Regivegret, a gente tinha esses livros todos, que depois eu tive de me desfazer quando as coisas ficaram mais complicadas, em 1964 a 1970. Livros da Argentina a gente lia muito, sabia de tudo que eles passaram. Textos de teatro. A gente lia muita coisa que era passada de um para o outro, mimeografado.
Pergunta: E sobre o golpe de 64, você se lembra?
Resposta:
A gente se lembra, claro, porque estávamos na escola, mas é uma coisa meio nebulosa, não se chegava a ver o que era, mas tinha muita gente na rua, já tinha estudante na rua e lembro de todo o pessoal do Bonifácio sair junto com o pessoal do clássico, que era muito mais politizado que o científico, o pessoal do centro acadêmico, e a gente sai em direção ao Cine Vitória e tem o pessoal e tem pedrada. Já era um pouco essa coisa de se querer esses pequenos protestos do ABC, em São Caetano. A gente não entra muito. Sabia que tinha, o que estava acontecendo, de pessoas que estavam presas, mas não tinha, era um pouco nebuloso ainda para a gente.
Pergunta: Isso em 1964?
Resposta:
Em 1964, já acontecendo. Nesse tempo estou em Santo André. Tem essa coisa, sabe-se, mas eu não faço parte, não estou engajada nisso, mas você sabe, tem uma circulação de informações.
Pergunta: E você saiu da GE e veio morar em Santo André?
Resposta:
Não. Eu vinha diariamente a Santo André.
Pergunta: Você mencionou que teve de desfazer-se de uma série de coisas. Por quê?
Resposta:
Isso já foi mais tarde, na época da Fundação das Artes. Eu entro na Fundação das Artes quase no início dela, em 1969. Eu saio de Santo André e fico uns dois anos lecionando em escolas de madureza.
Pergunta: O que era escola de madureza?
Resposta:
Era você preparar pessoas para ir prestar o exame para recuperar, alguém que tinha parado de estudar, ou que tinha feito até o primário, até a quarta série e que queria continuar estudando. Então, eram muitos adultos e todos começam a querer e as escolas oferecem o curso de madureza. Essas escolas de madureza oferecem a carga horária das matérias obrigatórias e você faz rapidamente. São cursos intensivos. Eu vou trabalhar, como já tinha o colegial terminado, vou trabalhar nessa escola lecionando duas matérias, geografia e ciências. Por dois anos trabalho nisso para me manter, é o meu trabalho e foi até uma coisa engraçada, porque eu muitas vezes estava numa classe em que eu era o mais jovem de todos, porque eram adultos. Aí sim tinha gente que já tinha ido não sei para onde, politicamente. A gente tinha um extrato social bastante misturado, de pessoas que só queriam porque queriam, outros que já estavam engajados, que já queriam outras coisas, e eu muitas vezes fui como responsável, alugava um ônibus e esse pessoal ia muitas vezes a Muzambinho, onde se prestava exame lá, e eles tiravam diploma, para poder, ou ir para uma faculdade ou ir para o científico.
Pergunta: Onde era essa cidade?
Resposta:
Em Minas Gerais. Eu ia como responsável dessa escola no ônibus, muito mais jovem do que todo mundo, e ia para ser a representante dessa escola lá, onde a pessoa já tinha feito a inscrição, mas eu representava a escola para essa equipe de alunos.
Pergunta: Por que não se ia a São Paulo? Essa escola de madureza era particular?
Resposta:
Era particular. É porque Muzambinho, eu não saberia dizer, mas tenho a impressão que ela oferecia exames mais vezes por ano, ou num ano em que o aluno podia entrar em outra escola.
Pergunta: Esses exames eram do governo?
Resposta:
Sim, feitos em escola pública. E daí, não agüento muito tempo isso, e em 1969 sou convidada a ir para a Fundação das Artes, que está começando. Ela já existe estatutariamente, e ela está começando como uma escola de artes, porque nesse momento São Caetano já tem toda uma outra forma de ser na cidade, quer dizer, São Caetano já tem uma pujança de todo mundo trabalhando, as indústrias automobilísticas e as escolas, os festivais de corais que já existem na cidade, os grupos de teatro amador de Santo André, alguns de São Caetano, o Salão de Arte Contemporânea de Santo André, que já existe, já tem a Prefeitura nova de Santo André que foi modelo, aquele teatro bonito, e já começa a ter uma vida cultural interessante. Então a Fundação, nesse momento nasce, Walter Braido era o Prefeito, Milton Andrade era o Secretário de Cultura e aí se forma um grupo de pessoas, tem o CPE na Vila Gerti, e se pensa: por que não? Já que temos o pessoal do teatro, por que não ter uma fundação que possa agregar todo esse lado da cultura no ABC?! Então Walter Lourenção é convidado para ser o diretor da Fundação das Artes e também nesse momento ela é fundada e tem um grupo de músicos que são remanescentes do fechamento da Universidade de Brasília, esse grupo de artistas, assim que a Universidade de Brasília fecha, vem para São Caetano e forma a orquestra de câmara da Fundação das Artes. São os melhores músicos do país. Esse núcleo de música que tem o Moacir Del Picchia como líder desse pessoal, um grande violinista, com uma formação cultural, ele traz uma equipe de pessoas e começa a funcionar, então germina a Fundação aí. A primeira idéia foi formar uma escola de música.
Pergunta: (Inaudível)
Resposta:
Eu já entro com ele diretor. Talvez porque ele já era um músico, uma pessoa respeitada como músico. Não sei se ele regia algum coral na época, ele era um músico atuante. Ele veio com a idéia de fazer pesquisas, porque na época tinha os colégios vocacionais e ele tem idéia de fazer pesquisas para ver quem estava mais direcionado para aquilo, qual era a sua vocação. Lembro de ter passado vários domingos, foi formado um formulário e a gente ia fazer inscrição em todas as escolas, na Vila Barcelona, Santa Maria e outras, e todas as escolas, aos domingos, recebiam formulários para quem quisesse se inscrever para estudar música e qual era o pendor, para que lado ele queria. Nisso passamos muito tempo, até chegarmos à conclusão que a gente não caminhava muito e já tinha uma verba destinada e o pessoal não se agrupava para começar, a escola não tinha um delineamento de como seria essa escola e seis meses depois o Walter Lourenção não fica mais como diretor, Milton Andrade assume a direção da Fundação das Artes e Moacir Del Picchia assume a regência da orquestra e como um dos coordenadores do departamento de música da escola de música. Já começa a escola nos melhores moldes que se possa imaginar, com alunos a partir dos 5 anos de idade. Teve iniciação musical, onde a criança tem acesso, tem a convivência com todos os músicos, com todos os instrumentos musicais, e esse trabalho de grupo, esse ensino muito interessante, que era da escola argentina, com os melhores professores, porque muita gente já tinha feito o método Orff na Alemanha, então eram esses os professores que estavam sendo trazidos para a Fundação das Artes, para formar esse pequeno grupo e já começa a todo vapor a Fundação das Artes, onde ainda é hoje, funcionando em primeiro lugar a escola de música, de 5 anos em diante.
Pergunta: Como era a estrutura? Porque me parece que era em outro prédio e depois que foram para onde é hoje.
Resposta:
Nesse primeiro momento foi para a escola do Santa Maria, onde havia essa vida com Walter Lourenção, e a orquestra já ensaiava, tinha sala onde tinha violino, viola, essas coisas, mas tudo isso enquanto aconteciam esses testes vocacionais. Quando o Walter não fica mais e Milton Andrade assume, tem esse prédio na Vila Gerti e a Fundação vai para lá. A gente já começa varrendo, limpando, porque tudo era ainda um estágio da construção que havia sido concluída, e vamos todos para lá. A gente faz todo o serviço e ela fica num prédio magnífico, todas as salas de aula são supridas, todas tiveram piano, já se pensou em dança a partir dos 5 anos de idade também, artes plásticas também a partir dos 5 anos. Foram buscar artistas que tinham esse trabalho com a educação, os melhores que podiam trabalhar com a criançada. Foi uma efervescência e foi uma resposta muito bonita da cidade, porque ao lado da escola normal, que todos tinham, puderam também fazer um curso de arte.
Pergunta: Como foi o seu convite para entrar na Fundação das Artes.
Pergunta: Tem o Sr. Ferrari, porque a Fundação já vem como uma fundação. Tem o diretor, que é o Milton Andrade, mas tem uma sociedade civil que são representantes da elite de São Caetano. Então, o Sr. Ferrari é o presidente e ele conhece algumas pessoas e essas pessoas me conhecem. Eu sei que através do Sr. Ferrari é que sou indicada para ir para a Fundação das Artes.
Pergunta: Você foi para fazer qual trabalho?
Resposta:
Eu vou como secretária da Fundação das Artes. Trabalhei no primeiro momento com o Walter Lourenção.
Pergunta: Até então você estava fazendo?
Resposta:
Eu tinha ficado nessa escola, mas também não estava trabalhando. Estava saindo ou já tinha saído. É a fase que me desligo da escola de madureza e vou para a Fundação das Artes.
Pergunta: O que levou você até a Fundação? Qual sua expressão cultural, artística?
Resposta:
A minha expressão, eu só sabia, conhecia, freqüentava, sabia que tinha tudo isso. Ia ver o coral, em peças de teatro, mas eu não tinha, não tinha uma postura na cidade que falasse: É ela. Não. Fui e só. Não tenho outra explicação. Deve ter sido sorte de ter ido.
Pergunta: A proposta de salário era boa?
Resposta:
A proposta de salário para mim era boa. Dava para as despesas de casa e a minha manutenção.
Pergunta: E sua irmã continuava na Pan?
Resposta:
Nessa altura acho que ela já está trabalhando na Volkswagen. Ela fica um bom tempo na Pan e depois ela vai trabalhar na Volkswagen e é o tempo que ela fica no ABC trabalhando numa função de escriturária. Ela tinha um bom salário.
Pergunta: No começo da Fundação das Artes vocês só tinham aula de música. Quando começou a diversificar?
Resposta:
Quando a gente muda para essa escola onde é agora. A partir daí, porque lá eram salas, a gente ocupava uma ala do colégio Vila Santa Maria e não tínhamos o espaço. Quando muda para a Vila Gerti aí sim ela é uma escola de arte e também foi aberto um salão de arte contemporânea, uma coisa muito bonita, porque ao lado de Santo André, São Caetano também recebe internacionalmente, lembro de inscritos do Uruguai que vinham para esse salão de arte, que era muito interessante, críticos vinham de São Paulo e do ABC para essa seleção, Enoque Sacramento ainda era do ABC, hoje está em São Paulo. Era uma elite cultural que também transitava em todas essas manifestações e a Fundação das Artes começa a abrigar essa escola. Aí o grupo de música contemporânea e tudo que vem começa a ser um centralizador a Fundação das Artes.
Pergunta: Falando nessa efervescência cultural, e as crianças, essa oportunidade dada às crianças da região, as classes ligadas às crianças eram proveitosas, elas permaneciam quanto tempo?
Resposta:
Era basicamente ligada à sociedade de São Caetano. Existia todo um interesse, as escolas conheciam e todo mundo já tinha se mobilizado por essa escola de música e a orquestra já estava fazendo os seus pequenos barulhos pela cidade, e uma orquestra de alto nível reunida. As escolas sabem e a partir de 5 anos a resposta é enorme. Na música a gente teve todas as classes. Então, a gente trabalhava com o que eram as melhores formas de ensino. Era para ter 20 alunos cada turma, então era de 5 a 6 anos, de 7 a 8 anos, você tinha as faixas etárias todas trabalhadas e nas escolas eles tinham os primeiros rudimentos de informação, os cadernos apropriados, que a gente imprimia do jeito que dava, no mimeógrafo até, mas eles tinham as partituras, tudo adequado para uma criança. Você tinha tudo isso muito interessante, e a partir disso eu, como secretária, começo a fazer um trabalho que não sei por que, mas já começo a freqüentar os consulados. Eu acho que fui a primeira produtora cultural. Ao lado da Fundação eu começo a buscar nos consulados, fui ao Consulado da Alemanha buscar apoio, porque sabia do método Orff e esse método era em Estrasburgo. E os professores, a gente vai começar a buscar e começa a nascer o intercâmbio e as primeiras ações com o consulado. Tivemos a sorte de ter um crítico, Wolfgang Pfeifer, que morreu recentemente, que foi também um grande incentivador das artes plásticas, da arte contemporânea e que foi também diretor do Museu de Arte Contemporânea. A gente teve sorte de ter, à época, essas pessoas. Ele se encanta com essa escola, eles vêm visitar e já começam a fazer as doações de material. São poucas as escolas no Brasil que tiveram esse material completo e São Caetano teve esse instrumental sendo doado. Cada vez que vinha, a gente fazia uma festa, onde as crianças já tocavam os instrumentos, o pessoal de artes plásticas já fazia o convite, já decoravam a escola para receber esse adido cultural que vinha saber a aplicação desse material, como as escolas estavam fazendo.
Pergunta: Você pode soletrar o nome do método usado?
Resposta:
É Orff, Edgar Orff, porque ele é o mentor desse material. É um instrumental todo de percussão. Então, isso que nós chamamos de marimba, são todas essas marimbas, xilofone de metal, xilofone de madeira, esses percussivos, até as flautas. Começa flauta doce, flauta tenor, baixo até flauta normal. São Caetano ganhou, em três etapas. Tivemos essa sorte de buscar uma pessoa que também era uma pessoa das artes no Consulado da Alemanha, que também se empolga e ele vem, cada vez que ele vem trazer material, a Fundação convida e faz uma festa para os pais, festas de fim de ano para os pais dessas crianças, onde essas crianças já improvisam. Todos tocam flauta e fazem trabalhos de grupos, porque é a razão do método. Você tem acesso a todo instrumental e você trabalha e você, sem querer, já está compondo, já está afinando esse seu lado da música. A gente falava claramente para os pais, eu como secretária atendendo as inscrições, se ele não for um músico, não precisa que ele seja um músico, a idéia não é que ele saia daqui um músico, mas que ele tenha essa formação de trabalhar em conjunto, de saber o exato momento da sua ação e isso vai ajudar para qualquer campo de sensibilidade, para ser um bom matemático, por exemplo. Não tinha essa pressão de que ele tinha de sair daqui um músico. Tinha sim que sair um bom cidadão com formação musical.
Pergunta: Houve algum intercâmbio dessas crianças?
Resposta:
Não era a intenção. Era um trabalho tão bonito que a TV Cultura, com a orientação de Lineu Guerville, que ainda está por aí, por mais de um mês a TV Cultura veio diariamente a São Caetano gravar essas aulas, porque era todo um método pedagógico sendo feito, e depois saiu um lindo programa na TV Cultura. Nos arquivos da TV Cultura deve ter essa documentação, porque foi exemplar esse trabalho que a gente fazia no ABC. Lembro também de a gente organizar, a gente trazia professores da Alemanha para virem ensinar e a gente chamava professores de musicalização do Brasil inteiro. Eles vinham para São Paulo, São Caetano fornecia, isso é um dos grandes que a gente fez, ônibus que iam buscá-los no hotel, não lembro se eram as pessoas que pagavam ou se foi a Prefeitura através da Fundação das Artes que pagava hotel para esses professores, mas o ônibus ia daqui para lá buscar os professores, eles davam aula, eu levava os dois professores de Alemanha para almoçar na minha casa e eles ficavam uma semana fazendo o trabalho. E aí sim nós tínhamos vários professores que já tinham ido para a Alemanha fazer o método Orff, mas não era só o método Orff, tinha também outro método que era o Violeta de Gainsa, que era da Argentina, porque a Argentina tinha também um trabalho muito interessante até de psicologia musical, que priorizava a música, pedagogia musical. Tinha esse método que era um cruzamento dessas mulheres brasileiras de Minas Gerais, Maria Amália era uma das professoras, Suzi Botelho era outra, e tinha várias, Nair Romeiro, que era de Piracicaba, Ida Meireles, e que eram pessoas que já atuavam na área, os piracicabanos gostam de música, e essas pessoas também vinham. Você sabia onde eram os pontos e onde estavam os melhores, e esses professores atualizados vinham dar aula em São Caetano.
Pergunta: A Fundação das Artes era referência em São Paulo?
Resposta:
Era. A gente tinha muito contato com a escola Maria Talla Ferro. Ela era uma referência e formava. Isso era o lado das crianças. Paralelamente, ao lado dos adolescentes, que freqüentavam todas as aulas, as matérias normais de qualquer curso de música; e depois ele tinha a escolha do instrumento. Não necessariamente esse aluno já estava fazendo, porque começou tudo ao mesmo tempo, e não dava para pensar que os alunos de música, que esse entusiasmo musical já ia. Muitos foram, muitos ficaram como professores da Fundação, quando eu já não estava mais. Mas aí são muitos músicos convidados, muitos instrumentistas. Na época vem Pietro Maranca, que é um grande pianista, que tinha sido um dos poucos alunos que o Artur Meneghetti, da Itália, tinha escolhido para ser bolsista. São pessoas de destaque no mundo musical. Anilson Godói, Henrique Pinto, esse grande violonista, que formou uma grande escola, Moacir Del Picchia, José Eduardo Dramani, essa figura incrível, que depois foi para Campinas e que faz uma pesquisa com os que estudam viola caipira, rabeca. A gente tem um grupo de músicos, os melhores de viola, violino, piano, de canto, Elade Peres, Baldu Lizembergh, então a gente tem uma gama. E já pensando numa coisa que não adiantava você formar muitos pianistas, porque pianista tem uma vida muito mais complicada, então pensando exatamente no emprego, na profissionalização, não essa profissionalização de diploma, mas uma profissionalização de formação mesmo, pensando em que depois ele poderia ser um violinista, e a orquestra precisa de muitos violinistas. Tinha esse enfoque muito moderno de pensar. Não era aquela coisa de conservatório, de pianinho, nada disso. Era uma coisa bastante avançada para o período.
Pergunta: Você toca ou tocava algum instrumento?
Resposta:
Eu nunca toquei. Eu fiz parte do madrigal, mas de orelhada. Eu freqüentei escola de música, mas era secretária durante o dia e tinha esses contatos com os consulados. A gente tinha a programação cultural que a gente fazia na Fundação, então eu ia para o Consulado da Holanda ou do Canadá para buscar os filmes do McLaren, que na época os filmes eram desenhados por ranhura, as primeiras animações eram desse Norman McLaren, então eu ia ao Consulado do Canadá. Eu começo, ao lado da secretaria, ao lado de estar dentro da escola de música, ao lado de saber o que se passa na escola de artes plásticas, já existia a escola de teatro, onde eu não estudo, não faço parte, mas a gente sabe de todas as pessoas de teatro, então faço também esse trabalho de relações públicas. Quer dizer, eu tenho contato com essas pessoas, de já pensar, trazer e possibilitar coisas aqui no ABC. O próprio contato com Chico Torrete já é de 1973, quando a gente já trazia Vin Wenders, o cinema novo alemão que a gente mostrava na Fundação das Artes, com alunos do IMES lotando aos domingos de manhã para ver os filmes que a gente mostrava, porque vinham professores da USP que eram professores de teatro, ou professores do IMES que já estavam lá presentes, porque acabava o filme e virava um grande debate. Era um momento muito interessante e muito efervescente de cultura aqui no ABC.
Pergunta: Você levava os professores para almoçar na sua casa. Você falava alemão?
Resposta:
Não falava alemão. Eu realmente nem sei mais como a gente conseguia essas figuras, quem era o tradutor, como a gente conseguia, mas a gente se entendia.
Pergunta: Em relação às crianças, quanto tempo elas permaneciam nessa iniciação musical e havia algum critério?
Resposta:
Bastava que a criança quisesse. Esse era o critério.
Pergunta: Quantas vagas eram disponíveis?
Resposta:
Nós tínhamos quatro professores, então quantas aulas esses professores conseguissem, mas eles tinham uma carga horária cheia. Tinha aulas de manhã e à tarde. Eles faziam duas vezes por semana, cada vez uma hora e meia, que era o tempo necessário para a criança não se cansar, não enjoar. Tinha um tempo correto.
Pergunta: Nesse tempo de efervescência cultural aqui no ABC, nacionalmente você tem lembrança de alguma criança, alguma pessoa ou aluno que tenha ganhado projeção nacional?
Resposta:
A Maria Amália era conhecida aqui e fora. A Ida Meireles também.
Pergunta: E as crianças?
Resposta:
Flávio Florence de Barros foi regente da orquestra de Ribeirão Preto, ele fazia flautas, depois ele vai fazer escola fora; Marcos Ferrari também. Estou um pouco esquecida, mas a gente teve muita gente que foi daqui para fora e que voltou e ocupa espaços interessantes no Brasil.
Pergunta: E sobre o curso de teatro?
Resposta:
O curso de teatro começa já em 1969, começa e vêm pessoas que estão fazendo teatro amador e que são os primeiros que se inscrevem e os primeiros que começam a escola. Aí teve início, o fomento do Antônio Petrin, da Sônia Guedes, do José Armando Pereira da Silva, que era crítico de artes plásticas, mas está aí enfronhado, depois vêm professores de São Paulo, Timochenco, Dilma de Melo, Jéferson Del Rio, Elade Peres para começar com técnica vocal e fica um pouco de tempo, aí já assume o assistente dele Badu Lizembergh, que continua durante todo o tempo, Maju Otero, que é convidada para fazer trabalho de corpo, tem o Milton Carneiro, que é um integrante do Ballet Stagium, que vem dar um trabalho de corpo. A Malu dava uma vertente e ele dava um trabalho mais orientado e diferente, porque a formação dele era balé clássico.
Pergunta: Qual é a proposta da Fundação das Artes para o teatro? Nessa época há a EAD em São Paulo e a Fundação das Artes em São Caetano. Qual era a proposta da Fundação das Artes no teatro? Para que tipo de formação?
Resposta:
Nesse profissional com um grande conhecimento. Eu posso falar, eu acho que São Caetano tinha uma carga horária mais interessante, tinha um frescor diferente da EAD que já estava um pouco cristalizada. Ela começou e já não funcionava na USP, ela tem outro espaço. Penso que São Caetano já veio forte, já veio com um histórico interessante, embora ela não tivesse uma presença muito marcante na cena teatral. A EAD sempre teve uma tradição. Então, São Caetano vem um pouco à margem, mas com uma força e com uma formação bastante interessante, porque a idéia era você formar um pensador, um ator consciente das suas funções. E também passava muito uma idéia de que você não é uma estrela, você é um operário da arte. Isso era uma coisa interessante. Era muito diferente e por isso a postura de sempre montar as peças do Timonchenco. Montava Shakespeare sim, montava Boal, mas a gente tinha muito a presença do teatro brasileiro, nesse momento de década de 70, que foi muito forte. Plínio Marcos vinha, estava aqui, então era um momento muito vigoroso.
Pergunta: O que era o operário da arte?
Resposta:
Aquele que precisa fazer tudo. Nós fazíamos tudo. Eu entro em 1974, já na terceira turma e você fazia desde varrer o chão, você tinha de, uma hora você era o ator, outra hora era o iluminador. Você fazia todo o trabalho e para você ser um ator, você tinha de saber muito. Tinha de saber história da arte, sociologia, você tinha de saber tudo, ler tudo, acompanhar tudo. E a gente era muito atento a essa situação, como deve ser. Como eu falo, não é que era privilégio, mas era o que se pensava na época, devido à formação dessas pessoas.
Pergunta: Quando você viu que tinha esse lado das artes?
Resposta:
Eu sempre gostei dessa coisa, desde criança, de você declamar e cada vez mais eu senti, que mais do que música eu tinha, eu gostava mais do que era essa formação do ator, dessa abrangência de atitudes ou de formação, ou de conhecimento. Não sei se juntava mais com o lado político, então o teatro respondia às minhas expectativas mais do que qualquer outra das artes que eu pudesse ter feito.
Pergunta: Qual era a sua rotina? Você trabalhava durante o dia e fazia teatro?
Resposta:
Era exatamente isso. Eu trabalhava durante o dia na Fundação das Artes, nessa diversidade de funções, eu cuidava das discussões, tinha algumas pessoas que me ajudavam, mas eu cuidava do caixa, fazia o pagamento das pessoas, ia ao banco buscar o dinheiro, saía para esses contatos todos com os consulados, freqüentava festivais em Salvador, mas aí já ia por minha conta, a Escola de Música, a Escola Livre de Salvador, a gente ia porque lá tinha dança, teatro e música. Iam grupos de pessoas para lá, também ao Festival de Inverno de Ouro Preto. Quando se fala de um estrangeiro para percussão, a gente já tem o Paul Reuter, que era um ídolo da época, que já tinha passado por Salvador, na Escola de Música e tinha sido professor de vários dos nossos professores. Tinha o Daniello Corsera, o Rogério Duprat; todo esse pessoal que estava em São Paulo e todos eles tinham um passado, você sabia da Fundação de Artes de Belo Horizonte, do pessoal que organizava o Festival de Ouro Preto. Era fácil a informação. Embora não existisse o celular, a gente tinha um entrosamento e uma vivência muito grande do que acontecia e do que se passava. Então, Paul Reuter vinha para São Paulo e quando passava, ele também era diretor em Osaka, compositor e tudo isso, mas ele vinha para São Paulo e vinha dar palestras em São Caetano. Quando ele ia para Ouro Preto, ele parava em São Caetano. Eu mesmo já comentei, quando Julian Becket, da Living Theater passou pelo Brasil a caminho de Ouro Preto, onde ele vai e fica preso, antes disso ele passou em São Caetano, vindo com Júlia Otero, traz o grupo do Living Theater, tem workshops deles aqui, de um dia, convívio com os atores, e eles vão para Ouro Preto, para o festival e lá eles são presos e deportados. Ele era uma figura do mundo político, engajado e hippie na época da ditadura e de uma censura violenta, eles são presos. A justificativa é que eles fumavam maconha e foram deportados.
Pergunta: E a questão dos anos 70, como era o teatro na Fundação? Foi uma época complicada?
Resposta:
A sensação minha, porque a gente vivia, é que era perigoso porque o pau comia. Você ia a teatro que só tinha meia-noite, era um bochicho que você ia e não sabia o que se passava, o que estava acontecendo. Era gente sumindo. E a gente tinha de ir buscar o censor em São Paulo, porque nas peças que a gente estreava, a gente tinha de ir buscar para ele assistir antes da estréia e aí falar sim, não. Ele acompanhava o texto, você dava para ele uma cópia, depois ia buscar, ele vinha assistir ao ensaio geral e aí, a partir desse ensaio geral, ele aprovava ou não aprovava. Calabar, o nosso querido Teatro da Cidade, com peças prontas, e no ensaio geral ele falava não. Isso existia e a gente sabia. Mas a gente fez tudo o que quis aqui no ABC, na Fundação das Artes. Nós montamos Chapa Tudo Futebol Clube, do Vianinha, e esse trabalho que a Dilma de Melo dirigiu, com a primeira turma, eles faziam um trabalho com jogadores de várzea, porque naquela época a gente tinha jogadores de futebol de várzea e tinha muito desse espaço nas várzeas. A gente tinha os campinhos de futebol. E tinha isso de fazer pesquisa, de saber. Era um texto que o Vianinha, também politicamente engajado, e a gente montava. E acontecia aqui no ABC. O centro, São Paulo era o centro e o ABC estava lá longe e eles não imaginam o que, de fato, acontecia no ABC. Não que fossem coisas extraordinárias, panfletagem, mas tinha uma formação, um trabalho, tinha esses sociólogos, esses historiadores aqui falando, e falando abertamente, acompanhando e toda essa população, se fosse no IMES, isso era outra coisa interessante da época, essa recepção da cidade. Não que fosse fácil, porque muitas vezes eu ficava na frente da Fundação perguntando se a pessoa sabia que tinha teatro e pondo o público para dentro. A gente fez muito disso. Mas tenho a impressão que eles, de uma certa forma, tinham uma recepção, porque a orquestra ia tocar nas escolas, mostrava, levava lá, marcava hora no teatro ou no auditório da escola e a orquestra se apresentava. A orquestra se apresentava no pátio da General Motors. Então, isso era uma forma de falar: Olha, o dinheiro está sendo gasto. Mas não era uma forma, como hoje, esse marketing, esse merchandising que você faz. Era uma forma de lá da própria Fundação falar: Vamos formar espectadores. Uma pessoa que ouve uma orquestra sinfônica, uma orquestra de câmara e que ouve um som de violino, de contrabaixo, de violoncelo, que ouve não sei o que, ele vai ouvir melhor, ele vai ser um melhor espectador, vai ser um consumidor da arte. A mesma coisa com o teatro. A idéia era que você fizesse as escolas para você ter a perspectiva de ter um bom espectador, um espectador exigente, que não aceitasse qualquer bobagem, e servisse para ele como uma formação. Não era assistir a teatro passivamente.
Pergunta: A Fundação das Artes chegou a ter algum problema com a censura, alguma coisa mais séria?
Resposta:
Eu não me lembro, embora soubesse da censura, mas vinham grupos da Argentina para se apresentar em São Paulo e se apresentavam na Fundação. Tinha essa situação que você sabia que estava presente, que era perigosa.
Pergunta: Você mencionou que havia grupos de argentinos que se apresentavam aqui e em São Paulo. Por que grupos argentinos e por que se apresentavam aqui?
Resposta:
Porque em São Paulo eles não poderiam mostrar a peça, porque a Argentina também tinha um movimento forte. Existiam os festivais, não sei se ainda era o de Rio Preto, porque lá também tinha um festival antigo de teatro amador, e eles não mostravam em São Paulo e chegaram a mostrar aqui na Fundação.
Pergunta: Tem registros disso?
Resposta:
Com certeza a Fundação teria de ter todo esse material porque a gente fazia programas, tinha uma atitude muito profissional de comportamento a Fundação. Tinha uma gráfica e essa gráfica fazia os programas, como também a Fundação teve uma revista de artes e as pessoas eram convidadas a escrever, e isso durou cerca dois ou três números.
Pergunta: Conte um pouco sobre as suas aulas de teatro na Fundação das Artes.
Pergunta: Eu comecei com aula de interpretação normal, tive aula com o Petrin, com Jonas Bloch, com Zé Armando, de história da arte, Lineu Dias, de história do teatro, esse grande ator que morreu, Júlia Otero, técnica vocal, nós tínhamos também aulas de música, aulas de rítmica, tudo isso para a formação do ator, história e muitos cursos extras que você fazia, que eram aos finais de semana, workshops que você fazia. Era tudo gracioso e fazia quem queria. Fui sempre muito curiosa e talvez inquieta. Ao lado de fazer cursos na Fundação, antes também já fazia cursos de dança, trabalho de corpo, por vontade própria e entrei muito fundo na história do teatro. No segundo ano já passo a ser assistente da Júlia Otero, monitora, que auxilia no trabalho dela. Ela fica mais um tempo e depois ela sai e eu assumo a cadeira dela de expressão corporal.
Pergunta: No segundo ano?
Resposta:
Não. Isso já no terceiro ano, que assumo a primeira turma que entra. Tem todo um estágio de coisas, dos que estão entrando e outros que estão saindo. Da minha turma eu continuo sendo a professora quando Júlia sai, a monitora, e começo a ser professora da turma seguinte, da quarta turma. Também termino em 1974 e a gente já estava, há muito tempo, tentando trazer o Eugênio Kusnet para São Caetano, que é uma pessoa que tinha muita experiência. Ele era professor particular, dava aula na USP e a Fundação chama o Kusnet para vir e nesse ano eu termino o terceiro ano de teatro, mas eu peço para ficar para freqüentar a aula dele, porque era aula de interpretação, que eu gostava e tinha a ver com o nosso trabalho e eu fico na aula dele sendo aluna dele, embora meu curso tenha terminado.
Pergunta: Você lembra, no seu grupo, quantas pessoas eram?
Resposta:
Nosso grupo de teatro, não lembro com quantos nós começamos, mas lembro que terminamos com cinco pessoas, Hayde, José Carlos Machado, Fernando Melo, Tadeu e Zé Geraldo Rocha. Não sei do Tadeu hoje, porque ele era de Franca e não sei o que ele faz. Mas a Hayde Figueiredo está aí, que vocês conhecem, José Carlos Machado é esse grande ator do Grupo Tapa, premiado, uma figura séria, Zé Geraldo Rocha vocês também devem conhecer, que é essa pessoa que direcionou todo o trabalho dele ao teatro infantil, escreveu, escreve, dirige, e Fernando Melo, autor desde aquela época, ele é de São Paulo, depois vai para Belo Horizonte e lá ele ocupa a direção da UFMG de teatro. Faz uns dois anos que não tenho mais contato com ele para saber se ele ainda ocupa, mas ele continuava escrevendo, dirigindo, sendo diretor de escola de teatro, atuando muito nos festivais de inverno de Diamantina. E eu também.
Pergunta: Dessa turma se formaram duas mulheres. Como era o preconceito para com essa profissão de atriz? Como a sociedade via esse trabalho de vocês? Era aceito ou você recebeu algum tipo de preconceito?
Resposta:
Eu nunca percebi, nunca me atingiu. Essa época era uma época em que tudo era novo. Para a cidade São Caetano também. Então, a gente sempre foi e eu nunca senti essa pressão de falar que era mulher, que era..., nada. Na minha família nunca tive isso. Vieram do interior para me ver atuando na peça de teatro. Nunca tive qualquer pressão de falar que era mulher. Claro que a gente sabia que falavam que atriz era prostituta, mas isso nunca passou pelo nosso lado, muito pelo contrário, porque a gente fazia um trabalho. Não sei se era a postura de cada um, eu nunca senti. Embora era corrente falar que atriz era mulher que tinha alguma coisa a ver com prostituta. Mas isso, para mim, nunca chegou. Nunca fui defrontada com essa questão.
Pergunta: E a postura masculina...
Resposta:
... e falar de eu nunca ter sentido nenhum preconceito, nem em relação aos homens, porque a nossa convivência era com esse pessoal. A minha convivência sempre foi nesse mesmo meio, então eu nunca senti algum olhar diferente, alguma forma diferente de me colocar na posição de atriz, com esse olhar negativo. Eu sei que, como personalidade, eu dou a volta por cima, então, não Poliana, mas vejo para cima e eu nunca senti algum embate, alguma pressão, alguma situação que eu ficasse em dúvida. Sempre senti que eu era respeitada, como era a minha função nesse grupo.
Pergunta: E quantas eram as produções de teatro que vocês faziam?
Resposta:
A gente fazia, você tinha uma história do teatro a percorrer, então você tinha desde ler uma Mandrágora, como você tinha os Persas, Teatro Grego, Teatro Elizabetano, então você tinha de passar por essas pequenas cenas, de trabalhar isso, até Shakespeare, se não era você era outro grupo que estava montando e você participava. A minha turma, a minha participação foi mais numa peça de uma colombiana chamada Neli Divas, que era do off Nova Iorque, era uma autora que vivia lá e essa primeira peça nossa, que teve a direção do Petrin, uma outra peça foi O Inspetor Geral, com o Jonas Bloch. Teve várias outras peças de trabalho, mas aí nesses outros momentos eu já estava fazendo outra coisa com outro grupo, jardim da infância, ou trabalho de iluminação, ou de figurino, ou de cuidar lá atrás. A minha atuação como atriz, me lembro mais fortemente do que ficou como marcas, e depois mais tarde, com o trabalho o Kusnet, que é toda uma outra ligação, onde você tinha de criar as histórias e só num último momento que você vai t